quinta-feira, 18 de julho de 2024

"Pia Desideria" ou "Desejos Piedosos": o II Livro, e os seus 15 emblemas reproduzidos e comentados.

   A Pia desideria, Desejos piedosos, de Herman Hugo, dada à luz em 1624 em Antuérpia, num in-12º de (28)-412-(3) páginas, foi a obra religiosa de emblemas com mais sucesso nos séculos XVII e XVIII, com dezenas de edições em latim e nas línguas vulgares,  constituindo um repositório de imagens de mensagem moral e espiritual que podemos admitir ou considerar como já bastante introduzido no inconsciente colectivo ocidental, sobretudo cristão, e logo operativo ao ser contemplado, lido, meditado, assimilado...

Tendo apresentado já num artigo mais historicamente a Pia Desideria, que está dividida em três livros, cada um com 15 emblemas e seus comentários, e tendo reproduzido os emblemas do I Livro, comentando-os, resolvi prosseguir com os quinze emblemas do II Livro, comentandos brevemente. Anote-se que houve noutras edições outros artistas a gravarem com simbologias diferentes os motes dos versículos bíblicos, as que reproduzo sendo as da 1ª edição, de 1624, em Antuérpia, realizadas pelo notável Boetius Bolswert (1580-1633), na tipografia de Henrick Aerstsfen (1586-1658). Não transcrevemos nem traduzimos os versículos bíblicos que constituem a legenda ou letra do emblema, que pode ler sob cada gravurinha em que a alma dialoga com o Amor Divino, ou o Anjo da Guarda, ou o Cristo, sob a forma de um Anjinho.
                                                                  
Neste emblema vemos a alma afastando as sugestões amorosas dum Anjo Cupido (ao fundo, um cavalo aos pinotes) e olhando antes para as leis ou mandamentos sócio-religiosos (ao fundo, o touro manso), patenteados pelo Anjo aureolado, que pode simbolizar o mestre Jesus, ou o Amor Divino, preceitos que a podem orientar para se tornar justa ou justificar perante Deus e a sua consciência ética mais elevada.

A alma, vestida como uma peregrina do caminho de Santiago, exprime o seu desejo em prece de ser guiada pelas inspirações mais elevadas e divinas e assim avançar no labirinto de cada jornada diária.
                                                             
A alma, num andarilho, algo partida e cansada, aspira e tenta avançar segundo as instruções do Anjo algo fisioterapeuta, que ecoa a sabedoria divina, o Mestre, a Divindade interna: porfia, persevera, usa a tua vontade conscientemente.
  
A alma, em dúvidas, pede que a severidade, o castigo, o temor, o medo, lhe sejam mostrados, sentidos, para se decidir pela via correcta e agradável ao Mestre, à Providência Divina.
    
A alma pede  ao Anjo da guarda que a faça evitar as tentações de vaidades e aparências, e que os seus olhos e a mente não sejam tão curiosos face aos estímulos diversos do mundo.
       
A alma pede ao seu Anjo e voz da consciência que a ajude a manter o seu coração conformado com o arquétipo divino e portanto sem manchas, limpo, puro, aberta apenas a inspirações do Bem.
                                                     
- Onde estamos melhor é nos campos, no meio das árvores e das aves, longe da agitação e poluição citadinas. Partamos, peregrinemos e desfrutemos a Natureza.
A alma pede ao Espírito, ao Anjo, ao Cristo, que a ajudem  a segui-los e a desfrutar das suas fragrância perfumadas.
A alma aspira a manter uma relação fraterna com o espírito, com o Anjo, com o mestre, como se fosse uma irmã mais nova, amada e protegida por eles. E promete amá-los, lembrar-se deles durante o dia a dia. pedindo-lhes inspirações, comungando com eles.
Não é fácil deitar-nos e descobrirmos o Anjo, o Espírito. Há que trabalhar, levantar-nos, orarmos e meditarmos e então talvez o possamos encontrar e sossegarmos.
A alma muitas vezes, deve decidir-se a deixar os seus confortos e ir à procura do Divino espírito pela noite a fora.
Nesta busca do Amado, que nos leva para além dos muros e guardas, subitamente podemos encontrá-lo, quem verdadeiramente mais nos ama. e  devemos então abraçá-lo, cingi-lo, estabilizarmos na unidade,
É bom caminhar às cavalitas dos que nos precederam no caminho, dos grandes seres e mestres que deixaram testemunhos que aumentam a nossa confiança no Anjo, na abertura ao espírito divino  em nós.
A alma que sabe sentar-se diante das árvores e à sombra do ser sagrado, respirar conscientemente, orar e contemplar o Divino, harmoniza-se, ilumina-se, serena.
Mesmo ignorantes de tantos aspectos misteriosos da vida na Terra, podemos sentir a comunhão interior com o amor, o espírito, o anjo, a Divindade  nisso desfrutarmos a paz e amor divinos e cooperarmos melhor com a Providência divina.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Lavrov: os Estados Unidos têm de deixar de querer ser os donos do mundo. O BRICS é uma realidade.

                                 

 O Ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergey Lavrov, após ter participado nas reuniões do Conselho de Segurança na qualidade de presidente, afirmou numa conferência de imprensa nas Nações Unidas, que sob a nova Ordem mundial, os Estados Unidos terão de abandonar as suas ambições de decidir absolutamente tudo: .
“Têm simplesmente de aceitar a realidade e deixar de afirmar que os Estados Unidos decidem tudo em todo o lado”, disse o ministro quando questionado sobre o papel dos EUA na nova ordem mundial multipolar.
Neste contexto, Lavrov abordou a crescente quota dos membros dos BRICS no Produto
Interno Bruto mundial.
                                           

“É por isso que o mundo multipolar é uma realidade e não uma fantasia de alguém. Se olharmos para a quota-parte dos Estados Unidos e do Ocidente no PIB mundial há 50 anos, há 20 anos e agora nos nossos dias, mesmo só os cinco países fundadores dos BRICS já ultrapassaram os países do G7 há alguns anos em termos do maior produto interno bruto em paridade de poder de compra. E agora que mais cinco países se juntaram aos BRICS, esta proporção vai aumentar”, afirmou o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo.»
                                  
Eis a razão da grande luta a que assistim
os na Ucrânia e na arena mundial: a oligarquia financeira que constitui e que está por detrás do imperialismo norte-americano, da NATO, da União Europeia e do sionismo israelita não quer perder a sua excepcionalidade e impunidade de opressora e dominadora do mundo, que tem mantido devido ao papel do dólar infinito e corruptor e ao negócio dos armamentos. E que o BRICS está a pôr em causa.


domingo, 14 de julho de 2024

"O Anjo da Guarda", soneto de Luís de Magalhães, discípulo de Antero, e talvez inspirador de Fernando Pessoa.

Luís de Magalhães (13-IX-1859, Lisboa, a 14-XII-1935, Porto) foi um amigo de Antero de Quental, embora dezassete anos mais novo do que ele,  que se  destacou como escritor, poeta, governador civil, deputado e ministro dos Negócios Estrangeiros, sendo monárquico  e tanto apoiando e colaborando na Liga Patriótica do Norte, presidida por Antero e coadjuvada por ele, Basílio Teles e Jaime Magalhães de Lima, em 1890, contra o Ultimato do imperialismo inglês, como mais tarde com a revolta da Monarquia do Norte, em 1919, algo corajosamente pois era uma aventura quase que, no seu anti-republicanismo, condenada ab initio. Na Frota dos Sonhos, de poesia bem valiosa, a parte Os Cantos do Prisioneiro, com onze sonetos, retrata o seu profundo e indomável carácter, embora encarcerado físicamente.

Dedicatória e assinatura de Luís de Magalhães.

Filho do famosíssimo tribuno e jornalista José Estêvão (1809-1862),  tinha também o dom da palavra, escrita ou falada, e destacar-se-á ao tempo de estudante em Coimbra  fundando e colaborando em revistas e jornais, tais como A Sátira e A Província, um jornal sobretudo político fundado por Joaquim de Oliveira Martins, em 1885, e por fim na Revista de Portugal, ao lado de Antero, Eça, Moniz Barreto e outros. Publicou os seus primeiros livros de versos em 1880 e 1881, Primeiros Versos e Navegações

Embora aderindo inicialmente ao Positivismo e à escola Realista, com o tempo foi desenvolvendo a sua doutrina numa linha tradicional, patriótico-nacionalista, patente no longo poema D. Sebastião, 1898, em textos político-económicos, e nos sonetos da Frota dos Sonhos, 1924, dos quais seleccionamos um por abordar a temática angélica, o subtil e misterioso Anjo da Guarda.  Quanto à temática psico-espiritual há vários sonetos, nomeadamente nas partes Ara íntima e Em Face da Esfinge, onde a leitura e meditação de Antero de Quental está mais visível. Pareceu-nos ainda   que Fernando Pessoa terá lido o soneto, e eventualmente nele se inspirado, como aliás noutros da parte Tuba Épica, que cantam os heróis da Pátria, embora a obra Frota dos Sonhos não esteja no que resta hoje da biblioteca do autor da Mensagem.

O Anjo da Guarda

Mesmo na ausência, andas a meu lado,
Que bem te vê, amor, meu coração,
Sombra amiga, adorada aparição,
De que sou, de contínuo, acompanhado.

Fluido vulto, de etérea luz nimbado,
Tal, adiante de mim, segues então;
E assim no mundo, pela tua mão,
Perto ou longe que estejas, vou levado...

Por isso, ao abordar os precipícios
Da vida, em cujo fundo, horrendamente,
Rugem quais feras, as paixões e os vícios,

Marcho confiante, olhando o abismo em face,
Como se caminhando à minha frente
Algum Anjo da Guarda me guiasse!
 
As ideias do soneto são simples: Luís de Magalhães intui ou pressente que está sempre acompanhado por um Anjo, que é um vulto fluídico e luminoso. Aliás, confessa mesmo que é o seu coração que o vê e sente como sombra amiga, como um vulto etéreo nimbado, como uma adorada aparição que lhe dá a mão.  Com esta presença contínua pode avançar por entre os perigos da vida, os abismos dos desequilíbrios emocionais, sentindo que o Anjo  vai à frente como que abrindo-lhe o caminho.
A sua sensibilidade ao Anjo é sobretudo à sua luminosidade e forma, e exprime bastante amor e confiança, embora o terceto final seja mais fraco na transmissão de uma relação com o Anjo, pois parece confessar ser mais um acto de fé em ser guiado por algum Anjo da Guarda, do que uma vivência com o seu Anjo da Guarda, certamente algo de difícil de ser contemplado e sobretudo de ser mantido continuamente.
Já o poema de Fernando Pessoa que  publiquei pela primeira vez (in Poesia Profética, Mágica e Espiritual, 1989) dos seus inéditos no espólio da Biblioteca Nacional, é bastante mais rítmico, e se em palavras e imagens pode ter sido influenciado pelo soneto de Luís de Magalhães, ou talvez apenas poetizado sobre o mesmo campo de energias, num ou noutro aspecto Fernando Pessoa distingue-se, pois o seu Anjo da Guarda é sentido não de mão dada mas sim pelas mãos postas sobre os seu ombros,  ambos avançando confiantes: Luís de Magalhães vencendo os abismos, Fernando Pessoa sentindo a luz da aurora a raiar ao fundo. Eis a parte final do poema, datado de 9-5-34, sob o título Sup. Incognytos:
Mãos do meu Anjo da Guarda,
Que bem guiais, como dois,
O meu ser que teme e tarda,
Postas firmes nos meus ombros
Sem de que eu veja de quem sois!
 
Vou pela noite infiel
Sentindo a aurora raiar
Por detrás de alguém que me impele
Mas já adiante de mim
Vejo a luz a começar (variante: se espelhar)».

Que consigamos ver ou sentir os Anjos, tal como eles poetizaram, ou como nós merecermos! Muita luz e amor angélicos em Luís de Magalhães e Fernando Pessoa.
                                                              

sábado, 13 de julho de 2024

A "Pia Desideria", ou "Desejos Piedosos" : o I livro, de Herman Hugo, e os seus emblemas de harmonização e religação espiritual e divina. Com hermenêutica original dos XV emblemas iniciais.

Frontispício, muito simbólico, da 1ª edição da Pia Desideria, de 1624.

 A Pia Desideria, Desejos Piedosos, foi a obra religiosa emblemática mais editada no século XVII, desde que em 1624  saiu pela primeira vez  em latim, num in-12º de 414 páginas, na tipografia de Henrici Aerstiensi, em Antuérpia. A obra estava dividida em três partes ou livros e cada um continha quinze gravuras de emblemas do diálogo entre uma jovem alma e Deus, ou Jesus Cristo, ou o Amor Divino, em geral representado por um Anjo jovem, que pode ser no fundo o Anjo da guarda da alma.  Foram desenhadas e gravadas por vários artistas, tais como Boetius Bolswert (a 1ª edição, sobre cobre), Christophe van Sichem (a 3ª, sobre madeira), Antonie Wierix e outros. Debaixo de cada emblema estava inscrita em latim a legenda, que era um pequeno versículo da Bíblia, desenvolvido depois numa reflexão meditativa em forma de poema e, por fim, comentado com múltiplos excertos (referenciados) de Padres da Igreja e da Bíblia. Algumas edições mais condensadas ou pequenas continham apenas a gravura com o mote das Escrituras, o poema e uma pequena frase a servir de comentário, o que as tornava mais pequenas, legíveis, atraentes e eficazes no tocar e despertar a alma espiritual...

A gravura em cobre do emblema, com o versículo da Bíblia, e o poema que o parafraseia.

O que justificaria tal sucesso? A humanização e democratização da  via mística obtida por um texto simples e imagens tocantes, que deixava de estar indicada ou transmitida apenas em missais, bíblias e livros de horas? O facto de ter sido rapidamente traduzida para várias línguas europeias, pondo assim a obra ao dispor do grande público, e ainda por cima em edições de bolso? O conteúdo do poema, os comentários exegéticos, ou sobretudo a receptividade às imagens muito queridas dos fabulosos desenhadores e gravadores Boetius à Bolswert (1580-1633) ou Cristophe van Sichem (1581-1688)? Contaria também a experiência, sabedoria e carisma do seu sábio autor humanista e sacerdote jesuíta, que tragicamente morreria cedo, aos 49 anos, numa epidemia de peste?
Ainda hoje poderá interessar-
nos e tocar-nos interiormente, ou o sucesso dependia de um público muito crente e devoto, e carente de literatura religiosa mais dirigida ao interior de cada ser, algo que começara no século XV com a Devotio moderna, e que a Imitação de Cristo, de Thomas a Kempis e depois o Manual do cavaleiro cristão de Erasmo, tinham realizado com grande eficácia e sucesso, tal como Marcel Bataillon, na sua monumental obra Erasme et l' Espagne, dada à luz em 1937, documentou excelentemente, e como eu citei várias vezes, em 2008, no prefácio e comentários ao Modo de Orar a Deus do grande humanista.
                                                              
Outro elo importante, no sentido de uma humanização e imaginação afectiva da religiosidade e da oração, foram os famosos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loiola,  escritos sob a influência da devotio moderna do abade Garcias de Cisneros e da Imitação de Cristo de Thomas a Kempis, e publicados pela 1º vez em 1548, descrevendo os modos de oração, as vias de purificação, e com todo o dramatismo a vida e paixão de Jesus,  que as pessoas liam, contemplavam (a partir de meados do séc. XVII quando as edições começaram a ser ilustrada, tal a da tradução portuguesa de 1687) e depois imaginavam na suas almas. Foram os Exercícios uma das primeiras metodologias de oração mental realizada em retiros de cerca de um mês individualmente e em grupos e que teve grande sucesso ao ser dinamizada pela Companhia de Jesus, chegando a Goa, como Fernão Mendes Pinto vivenciou, e até aos nossos dias.
                                                               

       O exame de consciência, numa edição de Antuérpia de 1680 dos Exercitia Spiritualia.

 Muito mais próximos da modulação afectiva do amor místico e do tipo de imagem da Pia Desideria foram os Amorum Emblemata, do humanista e pintor Otto van Veen, ou Otto Venius (1558-1629), muito viajado e influentíssimo à escala europeia. Publicados em 1608, os Emblemas do Amor estavam mais abertos à sabedoria pagã, com muitas citações de Ovídio, do que os  publicados em 1615, Amoriis divini Emblemata, embora o estilo artístico (angélico) fosse o mesmo. Mas  outros livros de emblemata de amor existiam e foram também influentes na iconografia amorosa angélica, tais os do sábio humanista Daniel Heinsius (1580-1655), que em 1601 publicara o  Quaeris quid sit Amor, Perguntas o que seja o Amor, e em 1607 o refundira sob o nome de Emblemata amatoria, com gravuras muito belas de Jacques de Gheyn, e na base do Anjo cupido, ou Amor Divino, agente ou dialogante. E muitos outros livros de Emblemas do Amor se seguiram...

Um dos emblemas gravados por  Jacques de Gheyn no Liebestheater, de Hensius, 1601
O autor da Pia Desideria, um sacerdote belga jesuíta, Herman Hugo (1588-1629), era bem conhecido (embora não tenhamos imagens dele), pois fora professor de humanidades no colégio de Jesuítas em Antuérpia e depois prefeito no colégio de Bruxelas, além de autor de  textos sobre a origem da arte de escrever e de polémica com um teólogo Luterano e outro Calvinista. Teria ainda o dom da oratória pois fora nomeado capelão chefe dos Exércitos espanhóis  do rei D. Filipe III no sul dos Países Baixos ou Holanda, vindo a escrever acerca do cerco de Breda, batalhas e fortificações, e viajado bastante e certamente conheceu Otto Venius e Daniel Hensius, pois moveram-se nos mesmos círculos culturais e políticos de Flandres e da Europa.
Quanto ao sucesso da sua obra talvez Herman Hugo
nos pudesse dizer até que ponto as suas intenções geraram os efeitos desejados nas pessoas,  algo de que  sabemos pouco para além do grande agrado (e logo uma presumível eficácia) com que a Pia Desideria, foi recebida, contando-se cerca de quarenta e duas edições em latim no século XVII e várias reimpressões, traduções  e adaptações no séculos XVII-XVIII, inclusive  na Espanha,   Rússia  e Portugal.
A versão portuguesa, que teve duas edições em 1687 e 1688, não foi uma simples tradução,
pois são diferentes tanto as imagens como o conteúdo do poema exegético, este sendo um cântico em duas oitavas, que já não eram de Herman Hugo mas do nosso Frei António das Chagas, seguindo-se um diálogo ou "solilóquio"  entre a alma e o seu divino esposo Jesus Cristo  introduzido pelo editor e livreiro bastante religioso José Pereira Velozo, em substituição dos textos das Escrituras e dos Padres da Igreja que faziam a exegese do lema ou legenda bíblica e da meditação poética na edição original, modelo seguido pela maioria dos editores e de acordo com a estrutura tripla do emblema. Brevemente abordaremos, e sobretudo comentaremos misticamente o contributo de Frei António das Chagas nesta versão da Pia Desideria adaptada pela mentalidade do editor à contextualidade portuguesa por ele visualizada. Anote-se que José Adriano Carvalho, na notável revista Via Spiritus, nº2, de 1995, dedicou um desenvolvido e excelente artigo a esta versão ou adaptação portuguesa, propondo a sua inserção nos movimentos reformistas da época.
A obra de Herma
n Hugo já no seu título, Pia Desideria emblematis Elegiis & affectibus SS. Patrum illustrata, ou seja Desejos piedosos ilustrados por emblemas, elegias e sentimentos dos santos Padres, dedicada ao papa Urbano VIII (publicando-se mesmo as suas armas numa gravura inicial, num sinal de reconhecimento da chefia de Roma), transparece a intencionalidade psico-espiritual da obra, à qual o desenho no frontispício  aponta, pois contemplamos três planos ou níveis  que reflectem a trina divisão da obra: em baixo, Daniel na cova dos leões, e é o estado de provação, correspondente ao I livro, Gemitus Animae Poenitentis, Gemidos da alma penitente. No 2º nível vemos duas figuras,  a de Moisés e a de Salomão, e corresponderá ao II livro, cujo título é Desideria Animae Sanctae, Desejos da Alma Santa. E por fim, correspondendo ao III livro, Suspiria animae amantis, Suspiros da alma amante, observamos ao alto David a tocar harpa, conforme o dito do Salmo 41,2 «tal como o cervo deseja a fonte da água...», e provavelmente S. Paulo com a espada e a orar, ladeando um enorme coração alado, e com uma abertura ao alto para a saída das correntes ígneas do Amor, que brota ou se inflama seja da obra, da alma devota-amante ou do coração divino.

                                                                    
A imagem da portada do livro era verdadeiramente um apelo imediato a tentarmos imaginar e sentir a intensidade da fonte divina do Amor, ou da sua correspondência em nós, da qual andamos tão esquecidos ou descrentes em geral, mas que, de acordo com o programa do livro, após as duas fases purgatoriais de gemidos e votos, se deve desvendar e fazer sentir, gerando os suspiros e aspirações instáticos e extáticos do Amor divino em nós, e de que tantas místicas e místicos deram testemunho ao longo dos séculos.
O sucesso na época deve ser ainda conte
xtualizado com o enfrentamento forte entre católicos e protestantes nos séculos XVI e XVII e assim as escaramuças de Erasmo e Lutero, ou de Herman Hugo contra Balthasar Meisner e Henricus Brandius, permitiam aos livros e panfletos derramarem a luz filtrada pelas duas visões conflituosas no acesso a Deus e a Jesus, a Protestante bastante mais seca, baseada na fé na literalidade da Bíblia e na moral, e a Católica  provida do culto ou reverência à santos e santas, Anjos e Nossa Senhora,  valorizando  a prática da Eucaristia, das devoções, peregrinações, relíquias, imagens o  que foi intensificado com a Contra-Reforma, e em parte substancial através dos livros e imagens, como este livrinho encerra e entesoura num estilo barroco.
Anote-se, neste confronto entre católicos
e protestantes, a publicação por um pastor protestante, Philipp Jacob Spener  de outra obra religiosa com o mesmo título de Pia Desideria, em 1675, mas sem emblemas e sem a devocionalidade amorosa e angélica, destinada à reforma pietista da igreja protestante.
Será que a diminuição da noção de pecado e da necessidade de purificação, bem como do fervor devocional, ou ainda capacidade de diálogo com Deus ou com o Anjo, afectam hoje a receptividade a esta obra? Certamente, e insistir nos gemidos de arrependimento, ou de saudade já pouco diz às pessoas. Parafrasear os já ultrapassados em tantos aspectos,
e tão violentos por vezes Salmos bíblicos, uma das fontes das legendas das gravuras e dos comentários, não dirá também muito senão a evangelistas mais agarrados ou mesmo fanáticos.  Contudo, não haverá no livro alguns estímulos à transformação ou metanóia interior, e algumas compreensões dos mistérios da alma e do espírito, do amor, da Trindade e da Divindade que ainda hoje valham?
Podemos valorizar a priori a conjunção dos estados de alma, representados pelas imagens, e as curtas frases bíblicas, como um bom instrumento de contemplação e meditação, pois cada leitor sentirá uma ou outra mais luminosamente, podendo até decorar e repetir ou meditá-las com regularidade.  Algumas edições ajudam nisso (tal a 1ª), pois recompilam no fim da obra os três vezes quinze versículos (a maioria do Cântico dos Cânticos) ou frases mantricas que foram propostos nas leg
endas.
                               
Haveria pessoas que sabiam de cor e conseguiam lembrar-se de algumas imagens e mesm
o de algo das mensagens dos comentários? Certamente, num saber de cor já não só das orações mais comuns mas de imagem (e eventualmente até de algo do texto), pois qualquer pessoa que leia e veja estas tão deliciosas imagens guarda na memória mais fortemente algumas delas, as que lhe dizem mais e que afloram facilmente à sua visão interior e podendo por isso ser utilizadas na meditação ou oração mental.
Como a contemplação e c
onservação interna de cor ou na memória de alguns dos emblemas é útil,  vamos então partilhar os emblemas da Pia Desideria, com os seus versículos, quais mantras ou frases sagradas, acrescentando-lhes breves comentários, iniciando neste artigo com os 15 emblemas do I Livro.

- Ó Deus, conheceis bem os meus desejos e gemidos. Faz com que brotem de mim mais setas de amor ardente para ti, exclama a alma na demanda... Emblema 0 ou imagem da matéria prima anímica.

- Quando acordo de noite, procuro a tua luz e desejo-te mais: Vem, ilumina-me!
- Oh Deus, esquece as minhas ignorâncias e distrações e estabiliza-me mais na interioridade silenciosa, na respiração, no espírito, em Ti.
- Oh Deus, ó Anjo da Guarda, dai-me a mão, libertai-me dos erros, curai-me.
- Sempre apanhada na roda do karma ou devir causal está a minha alma: dá-me forças para aguentar as dores e ainda assim avançar e aspirar a ti.
 -Corta os meus defeitos, mas mantêm-me na tua amizade e vizinhança, como orava Erasmo.
- Oh Deus, deixa-me contemplar a Tua face, nem que seja no Anjo...
- Quem me impulsionará os sentimentos que regarão e purificarão a minha alma, senão tu ó Divindade, Deus-Deusa, providência purificadora, harmonizadora e sábia?

- Ó Deus, ó Anjo, não me deixeis preso nos laços dos erros e ignorância, da morte e do mal.
- Ó Providência Divina, não sejas demasiado rigorosa e acede às nossas lágrimas, arrependimentos, purificações, orações e aspirações.
- Não me deixes soçobrar ou afogar nos remoinhos astrais, e que os teus anjos e guias me salvem e guiem.
- Não me deixes cair nas tentações que escandalizam e ferem os teus anjos e amigos e amigas.
- Ó Deus, dizem os astros que a minha vida termina, e o chorar e arrepender-me agora servirão de muito? - Não receies, não te afastes de mim, cultiva a oração e a meditação, e receberás a luz e o amor meus.
- Na passagem para o mundo espiritual terás de enfrentar o guardião do umbral. Prepara-te em vida, revendo à noite o que fizeste em cada dia e, através desta psicostasia pitagórica, melhorarás e abrirás os canais para as correntes superiores.
- Ó Deus, ó Anjo, afastai a hora da dona morte até eu ter cumprido a minha missão de luz e amor o mais possível, para que a minha alma espiritual se eleve grata e consciente até Vós.

E assim termina e conclui o I livro, intitulado Gemidos da Alma Penitente, constituído pelos quinze emblemas que comentamos livre, breve e rapidamente, esperando continuar com o II e III livros. Este texto é também uma pequena homenagem aos notáveis autores e artistas dos maravilhosos livros de emblemas, e à sua Sabedoria divina, hagia Sophia, e que estão hoje acessíveis digitalmente. Lux! Pax! Amor!

Um belo cul-de lampe, algo renascentista das oficinas de Antuérpia, numa das edições da Pia Desideria: filigranas do Amor Divino.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Místicas portuguesas. Um postal inédito do P. Mário Martins a Dalila Pereira da Costa, em 1984.

"Devemos empenhar-nos com todas as forças em desterrar para longe de nós todo o temor ue nos possa desviar da confiança absoluta em Deus", eis um dito, algo titânico ou de absoluto, como era do timbre algo de extremos de S. Inácio de Loiola (e que por isso não recomendava as obras do livre pensador Erasmo, pois esfriavam a fé), o fundador da Companhia de Jesus, à qual pertencia o P. Mário Martins, que aliás residia numa residência dela na Lapa e onde funcionava a revista Brotéria, com uma boa biblioteca que volta meia fazia algumas limpezas, vendendo-as a António Silva, livreiro alfarrabista, muito próximo, na rua Garcia de Orta e que apesar de espaço exíguo permitia algumas tertúlias.

Resolvendo revisitar postais que me foram endereçados, para trazer à luz alguns com mais interesse, seja pelo conteúdo seja pelas almas amigas que mos enviaram, e que em geral desapareceram da minha vista e conhecimentos, encontrei também uma dúzia de escritos por mim e não enviados, ou então recuperados dos familiares a quem os dirigira, e dois ou três escritos por outros e para outras pessoas, um deles mais valioso e que nem sei como me chegou às mãos, mas que só pode ter sido dado pela Dalila, ou estar dentro de algum livro que a Dalila me deu, ou que me retornou, já que ora lhe dei ora lhe emprestei alguns

Como é um postal com conteúdo relevante do tão humano padre e investigador de cultura, religião e mística portuguesa Mário Martins e dirigido à Dalila Pereira da Costa, que era sua amiga e que me apresentou a ele, resolvi transcrevê-lo e assim preservá-lo com o que ele contém da personalidade de Mário Martins e sobretudo da sua compreensão das místicas portuguesas.

O místico poeta Frei Agostinho da Cruz, num azulejo do séc. XVII-XVIII do convento da Arrábida, fotografado por mim, e reproduzido com autorização do conde da Póvoa.

Anote-se que nos anos circundantes do postal, Dalila Pereira da Costa investigava e escrevia uma obra importante sobre os espirituais  portugueses, que saiu em 1986, na Lello, no Porto,  com o título Místicos Portugueses do século XVI e que levava a dedicatória inicial: «Ao Padre Dr. Mário Martins, S. J., a quem devo o pedido de escrever sobre os místicos portugueses do século XVI», e em cujo prefácio agradecia ao P. Mário Martins os seus estudos sobre Frei Sebastião Toscano e D. Manuel de Portugal, a Quirino Catita a indicação de escritos inéditos da freira carmelita Maria Perpétua da Luz existentes na Biblioteca Municipal de Beja, e a mim por lhe ter emprestado quatro livros antigos de mística portuguesa, três deles biográficos das freiras Soror Isabel de Menino Jesus, Soror Maria Joana e Soror Brízida de Santo António, e sobre as quais, com mais outras, recentemente escrevi um artigo para o I Congresso Internacional de Espiritualidade e Mística realizado no sacromonte do Bom Jesus, em Braga.

Pela adjectivação dos peregrinos da via mística que a Dalila faz na dedicatória do exemplar que me ofereceu, vale a pena transcrevê-la:«Ao amigo Pedro, com toda a amizade, estas imperfeitas páginas, sobre estes "admiráveis homens" do espírito português. Porto, 22-X-1986, Dalila...»... Muita luz e amor divinos nela!

                                                           

É natural que ela tenha lido o livro recomendado pelo P. Mário Martins, a Autobiografia (1652-1717) da madre Antónia Margarida de Castelo Branco, saído à luz pela 1ª vez apenas  em 1984 em Lisboa, bem apresentada por João Palma Ferreira, o qual embora não fosse um espiritual ou um místico e passasse ao lado dos aspectos mais espirituais da obra, mesmo assim inquiria antropológica e sociologicamente a verdade e seus contextos bem. 

No breve postal o Padre Mário Martins mostra a sua preferência por uma mística equilibrada da elevação das capacidades anímicas cognitivas e afectivas para com Deus, embora tendo eu lido a obra tenha sentido alguma pusinamilidade, uma certa desconfiança exagerada de si próprio e logo dependência dos confessores. Quanto à menor predileção de Mário Martins pelo visionarismo, sem dúvida que algumas foram vítimas da imaginação emocional e projectiva, enquanto outras não: simplesmente viram com o seu olho espiritual...

«24//4//1894.         Dalila:

Agradecido e Boas Festas da Páscoa. Antes que me esqueça: Aí no Porto, devem estar à venda as edições da Biblioteca Nacional de Lisboa. Entre elas, vem lá uma obra que tem logo ao cimo na capa: Autobiografia... Não o tenho aqui, mas é uma autobiografia notável (embora já posterior ao séc. XVI) de mística serena e sem visionarismos. E dramática. Essa senhora nobre separou-se do marido e fez-se freira. O marido converteu-se depois e fez-se frade. Mas ela fala pouco do marido. Não é uma exaltada. É uma vida mística, serena e sem imaginação no mau sentido da palavra. Eu li-a num dos 2 manuscritos (o melhor) que vendi depois à Biblioteca Nacional. Adeus e reze por mim, Mário Martins.»

Que a Dalila Pereira da Costa e o P. Mário Martins, e os místicos e místicas referidos, possam estar muito activos na Luz e Amor da Divindade e, com os seus espíritos celestiais, nos possam inspirar e fortalecer! Aum, Amen, Amin!