quarta-feira, 10 de julho de 2024

As aves e a sacralidade da Natureza, no Bom Jesus do Monte em Braga. Extraído dum diário dos anos 90 e agora levemente melhorado.

                                        
                                    No Bom Jesus do Monte.
 
Quantos cantos diferentes, uns mais simples, outros mais intensos, uns mais alegres, outros mais rápidos, uns mais subtis, outros mais familiares. E quem os consegue entender? São eles acções de graças vitais, vozes de amor ou entusiasmos pela beleza e as maravilhas de Vida que os envolvem?
Ai os pássaros, esses místicos incompreendidos...
Horas e horas a fio a purificarem os ares com os seus sons perfeitos. Dom Rouxinol, hierofante máximo, apoiado pelos nobres guerreiros melros, hierarquizam ainda uma natureza que se conserva em alguns sectores, e mais do que supomos, medieval, renascentista. E se bem que por vezes, por curiosidade, ou por distração, as asas latejam e dirigem-se numa descida quase a pique até a cidade de Braga, é aqui neste alto cheio de árvores e penedos que as forças naturais e espirituais se conservam e geram um monte sagrado, que leva agora o nome do Bom Jesus ainda que antes o de outros bons deuses tenha tido.
As aves, essas são politeístas. Já lavraram os ares nos templos dos lusitanos ou dos romanos e mesmo dentro do Cristianismo não aceitaram o comando divina de uma pomba. É certo que com a idade, elas se tornam mais responsáveis, mais compassivas, como as abadessas de mosteiros remotos pelas distâncias e o peso dos anos, das orações e dos sacrifícios, almas tornadas tão tolerantes como a manteiga amolecida ao gume da faca, ou as faces avermelhadas de uma avozinha provinciana. Mas daí a serem Deus ou deuses vai muito.
Quem reconheceu em S. Francisco, um deus, um novo Cristo ou ungido, senão os pássaros mais simples e diferentes que viam e sentiam a Divindade encher de tal modo esse ser que ele era um poço de Alegria, uma ramada de Bem-aventurança, a Fonte da Vida a jorrar simples e para todos. E deificaram-no, tal como o bando dos pardais que se chamou os frades menores, ou os franciscanos espirituais, que também como um enxame de abelhas se lançou a butinar quantas florezinhas viam pelos caminhos mais íngremes e pobres do coração e conservaram o culto fraterno do Senhor antigo Jesus e ao novo senhor Francisco, também ele desperto e vibrante numa consciência tão cristalina e de amor que via irmãos nos burros, irmãs na lua e se calhar nas fadas e magas, ainda que isto não pudesse ser dito porque o proibiam os representantes ou continuadores dos deuses ciumentos e despóticos, que sempre os houve cegando os dirigentes mais ambiciosos.
Assim entre uma natureza tão bruta e pura como as pedras, as rochas e as árvores por um lado, e os homens, os deuses e a divindade por outro lado, foram sobretudo as aves e pássaros que conservaram a sua liberdade de expressão por mais cadeias que lhes fizessem, fossem gaiolas de ouro para pássaros azuis, fossem armadilhas de rústicos. E por isso os homens e mulheres do utópico reino do Espírito santo no dia do ciclo litúrgico que o comemoravam não só abriam as cadeias e prisões humanas mas também desejavam abrir as de todas as gaiolas e jaulas da natureza...
Mas até chegar tal dia ou idade do Espírito santo esses poetas e místicos, panteístas e futurista têm de limitar-se a ir até aos bosques, outrora sagrados e agora envolvidos ora numa cortina de espinhos do pecado original ora nas modernices do controle social, contemplar a santa natureza e os seus hierofantes, os pássaros das mais diversas plumagens e auras, e comunicarem entre si em círculos de poesia ou em noites claras. Foi assim desde os séculos antigos até hoje em Portugal, aos pastores e zagalos dos campos e montados se juntando os viandantes e peregrinos da criatividade e liberdade, da independência do sobrenatural universal, fiéis do Amor.
Assim cada vez mais na Natureza, nos pássaros, animais e seus amantes, se acantonam as verdadeiras forças religiosas, ou seja, aquelas que religam o céu e a terra conscientemente pelo trabalho e a receptividade, a acção criativa de graças, observação, a escuta, o diálogo, o amor, e frutificando pela palavra, a escrita, a transmissão, a celebração.
A Natureza tornou-se hoje o templo mais vivo de Deus, face à confusão das cidades, pesem ainda nestas as suas catedrais e jardins, monumentos e bibliotecas, onde o sopro do espírito passa e a inteligência divina se vê e se pode consultar ou cultuar. Mas as melhores imaginações e inspirações, intuições e comunhões, essas pérolas e cristais da Natureza e da Humanidade, essas florescem mais nos bosques e serras, campos e montes, por entre penedos e covas, arbustos e canaviais, riachos e árvores, desafiando-nos constantemente ainda que silenciosamente a não nos deixar alienar e artificializar nas malhas da comunicação digital e redes sociais, e antes regressarmos mais ao contacto e comunhão com a Natureza pura e seus seres, visíveis e invisíveis...

terça-feira, 9 de julho de 2024

O Anjo da Guarda na tradição pérsica ou do Irão: a Daena, e o seu encontro connosco. O ensinamento de Raymond Kuntzmann.

                                              
O conceito de Daena, ou Den na tradição esp
iritual persa teve  vários sentidos cognatos tais como sabedoria, consciência, eu, essência, mente, e sobretudo personificação do espírito tutelar ou anjo da Guarda  mas embora bem valioso e estudado por alguns, não conseguiu entrar na mentalidade e cultura religiosa ocidental, nem sequer nas correntezas do New Age angélico, em que pelo contrário foram as cabalices dos 360 nomes dos Anjos a tomarem conta da maioria dos best-sellers da mistificação angélica moderna. E contudo as obras de Henry Corbin (principalmente), Louis de Massignon e G. Widengren cumprem as melhores exigências.
Henry Corbin foi o que mais aprofundou a temática dos mundos e seres espirituais da longa tradição iraniana e numa das suas obras mais originais  Corpo espiritual e Terre Celeste. De l'Iran Mazdéen à l'Iran shi'ite correlaciona abundantemente tal continuidade, afirmando logo no prefácio: «Há no Madzeísmo e em Sohrawardi os Anjos da Terra, com Spenta Armaiti e Daêna, figuras da Sofia eterna, e há na gnose shi'ita, a pessoa de luz de Fátima, filha do profeta [e casada com Ali, o 1º Iman shi'ita e a fonte dos outros], ela mesma figura da Sofia e da Terra Celeste». E em várias outras páginas elucidará magnificamente estas entidades e mundos espirituais:«Daêna é com efeito o Anjo feminino que tipifica o Eu transcendente ou celeste; ela aparece à alma na aurora que sucede à terceira noite após a sua partida da Terra, ela é a sua Glória e seu Destino, seu Aion».
Aos autores aludidos podemos juntar Raymond Kuntzmann, no seu Le Symbolisme des Jumeaux au Proche-Orient Ancien, de 1983, pois dá também contributos, tal o de apontar a provável dupla etimologia de Daêna, seja de day - ver, seja de dhena - alimentar, e o de lembrar que no texto pré-zoroastriano Hâdoxt Nask, na viagem da alma no post-mortem para o céu, esta «reencontra a sua daêna, a sua personalidade espiritual que permaneceu no céu e com a qual se deve unir para reformar o ser humano total», anotando que tal conceptualização, segundo a hermenêutica de Widengren n'As Religiões do Irão, pode ter derivado da muito cultuada Deusa das Águas ou Deusa Mãe Anahita, e realçando que tal contraparte celestial não está num estado supra-humano e de pureza imutável, já que depende das acções da alma humana, que a podem tornar bela ou feia e que tal tem portanto consequências fatais ou definitivas (ou melhor, purgativas e demoradas) para o ser humano. E sabemos que vários sábios e estudiosos têm realçado, nessa mesma linha, que  as entidades benéficas ou assustadoras, deuses ou demónios que ao morrer possamos ver ou atrair dependem muito dos conteúdos psíquicos nossos, mais ou menos harmoniosos ou integrados, ou seja, do estado da nossa alma.
Raymond Kuntzmann escreverá mesmo que «a daêna, quando ela é bela, tem a forma ideal de uma jovem rapariga de quinze anos [idade que não é afirmada nos textos sagrados], que o Zoroastrismo valoriza como o «eu» superior da alma humana, esta própria idealizada sob a forma de um jovem. A alma pede à Daêna que ela serve. E esta responde-lhe que ela é a sua daêna [a sua contraparte angélica], e que a sua beleza provém das suas boas acções feitas na Terra; depois deste diálogo, as duas unem-se no paraíso».  
Nesta forma simplificada de descrever o percurso no mundo espiritual da alma. indica-se que ela pode ficar unificada com a sua dimensão transcendente, a sua contraparte angélica e assim viver e movimentar-se nos keshvars ou mundos-orbes espirituais, no seu corpo glorioso, augoeides e doxa, na tradição grega e de certo modo o duplo luminoso, barzak, onde se manifesta mais o estado beatífico ou de farah, na tradição sufi iraniana.
Este contributo de Raymond Kuntzmann é valioso quando é consciencializado, pois sendo o Belo ou a beleza para cada vez mais pessoas um bem ou valor importante, seja nos outros seja nelas, podem a tornar-se mais atentas aos efeitos dos seus comportamentos, sentimentos e pensamentos na alma em vida e após a morte, sabendo que de tal dependerá o estado do ser angélico que se receberá, e na tradição ao atravessar-se a ponte (de Chinvat) ou túnel para os mundos subtis e espirituais.
A pluridimensional e de certo modo pouco definida (pela sua subtilidade) concepção ou visão da Daena é focada por Kuntzmann segundo a tradição zoroastrica muito praticamente, como que nos dizendo: - Quando morreres não penses que tens garantido uma contraparte angélica muito bela e doce, pois tudo depende do que fizeste ao longo da tua vida. Toma cuidado em cada dia e acto, pois cada má, mentirosa ou desequilibrada acção, pensamento ou sentimento, deixa marcas não só em ti, mas também na tua daêna. E assim se agiste mal, em vez de uma santa, musa ou amada podes encontrar uma alma desgrenhada e algo assustadora, como aparece nas tradições russas (conforme a pintura, baseada no folclore da alma russa, de Bilibin) ou tibetanas.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Feliciano Soares (Aveiro, 1886 - Funchal, 1952). O pedagogo, místico e ensaísta espiritual, no livro "Preocupações".

                                     

Feliciano José Soares em 1926 publicava um livro, Preocupações, no qual, profundamente impregnado da fé no mestre Jesus e no Cristianismo, partilha as suas sentidas e elevadas reflexões e meditações, seja sobre os modos de vida mais harmoniosos seja sobre o caminho espiritual de purificação, auto-conhecimento, caridade-amor e ascensão mística para Deus.
Narra-nos aspectos d
as vidas dos santos e santas, dos convertidos recentes e das suas lutas com a natureza, os instintos e a sociedade, mostrando que é pela dor que se aperfeiçoam e que é pela fé que se governam e avançam, realçando que quando o amor a Deus brota mais então as pessoas aspiram mesmo a Deus e fazem os sacrifícios necessários para romperem as limitações que obscurecem as suas almas. E lembra que as pessoas mais desafogadas dificultam a sua missão específica ao sobrecarregarem-se materialmente, tanto mais que a liberdade é sobretudo a renúncia às paixões doentias, às superficialidades, às tentações, ao que nos desvia do nosso ser verdadeiro e luminoso.

                                

Depois de lermos os vinte e três capítulos que estruturam as duzentas e cinco páginas, damo-nos conta que Feliciano Soares, sem ser conhecedor de mistérios gnósticos ou iniciáticos, pela sua sensibilidade e aspiração mística ao sagrado e ao Divino, consegue erguer-se a intuições elevadas e próximas da realidade subtil e espiritual, não só quando aborda as almas de santos ou santas, tais como a pequena Teresa de Lisieux, Angela de Foligno, S, João de Deus, Santa Mónica  Elisabeth Leseur, ou mesmo Jesus, mas também a Natureza, dos trigais e eiras às vinhas e lagares, as relações humanas, os monumentos sagrados (tal a casa do Capítulo, na Batalha), ou ainda e sobretudo a Morte. 


Feliciano Soares, nascera em 1886 em Aveiro, e publicara o seu 1º livro em 1915, Crucificadas, a que se seguiu Terra! Terra! de colaboração com Emanuel Ribeiro, e em 1923, já no Funchal,  O que vi e pensei. Educação - Mística - Viagens - Livros,  em 1926 as Preocupações, em 1935 O mais rico dos pobres e em 1941 Uma hora d'anto, publicado no Funchal, onde residia. Em 1953, saiu no Funchal uma obra póstuma, Epístolas a quem ensina, e no Porto   a homenagem biográfica que o professor e musicógrafo Bertino Daciano lhe consagrou.

Viveu e foi jornalista na Madeira, chegando a dirigir o Diário de Notícias do Funchal,   onde trabalhava como coordenadora do suplemento Notícias Infantil a sua mulher Laura Veridiana Castro e Almeida  (1870-1964), que usou o pseudónimo Maria Francisca como autora de três livros para crianças, na linha dos que a sua prima Virgínia Castro e Almeida escrevia.
Feliciano José Soares
pertenceu ao Instituto de Coimbra, uma prestigiada instituição académica cientifica, literária e artística que viveu ou funcionou entre 1852 e 1982, com valiosos membros e com a sua prestigiada revista Instituto onde colaboraram tantos notáveis escritores e cientistas.

                                                  
Tal como no seu livro O que eu vi e pensei, dividido em Educação, Mística, Viagens, Livros, a parte Mística subdivide-se em Lourdes, Missa da Meia Noite, Cartas (com algumas dramáticas de amor-compaixão) e Vaticano, Feliciano Soares escreve como essencialmente um católico e, embora na verdade seja um místico e muito sensível animicamente,  todavia tem pouco conhecimento e logo escassa abertura às outras religiões. Marcado também pelo seu tempo tem ainda algumas linhas de oposição ao socialismo marxista e ao materialismo.
Transcrevamos então alguns dos melhores contributos educativos e espirituais que Feliciano Soares cogitou e escreveu no I cap. Autobiografia de uma mulher inteligente:
«Vê-se, antes de tudo, qu
e o programa estabelecido para a formação do espírito educanda, faliu redondamente. Esse programa teve, apenas, em vista, colar na inteligência da criança, conhecimentos inertes, diga-se assim, para não servirmos da denominação de Bossuet que lhes chamaria estéreis sem interessarem fundamente a inteligência. Sem interesse, não pode haver emoção. E não podia haver interesse desde que antes de serem ministrados esses conhecimentos, não se pesquisou se havia aptidões, disposição, vocação para eles, como, realmente, não havia.»
«O espírito de sacrifício deve ser cultivad
o e desenvolvido. Viver é sacrificar-se. Quem não tem disposições para o sacrifício, não tem disposições para a Vida. Não sabe viver. (...) Sentir a efémera vida material, não é viver. Só vive dignamente, verdadeiramente, quem põe nos mais insignificantes detalhes da sua Vida, um alta intenção espiritual».
O III ca
pítulo Adentro das Naves, a propósito de um livro de Madeleine Brunon Gnardin, Dans l'ombre des clochers, caracteriza-a muito bem, e tece em seguida um belo elogio às catedrais e aos que as sabem sentir e nelas se elevar, exemplificando com Paul Claudel e o pintor Willibrord Verkade na Notre Dame de Paris,  Manuel de Ribeiro na Sé de Lisboa, e J. K. Huysmans, tentando também numa elevar-se, mas «para se chegar à Região Azul, é necessário ter o coração ao alto, tão alto que toque no Infinito. E, só assim, a Catedral é Rainha, e é Mãe e é a Porta da Eternidade».

Gravura de Charles Jouas para o frontispício da Cathédrale, de J. K. Huysmans. 1909.
Nos seus dois capítulos sobre a morte, o Sino dos Mortos, Mês de Novembro: Meditação sobre a Morte, encontramos naturalmente pensamentos bem sentidos, próprios da sua impregnação cristã e dos seu amor à vida e aos seres, desafiantes mesmo e quem sabe se  intuitivamente certos, tal como estes:«A Morte não separa senão os que, em vida, já eram separados. Pelo contrário. A Morte une mais ainda. A união é mais clara e mais pura. O espírito, libertado, não sofre as influências maléficas da terra. E os que ficam para trás, purificam-se também, no contacto espiritual com os que oram. [Talvez haja uma excessiva glorificação dos que morrem e do que elas influenciam os que estão vivos, excepto se pensarmos em almas já muito evoluídas.]
Não se fala com eles? Ora-se com eles. E a prece purifica. Na prece vive Deus [ou o espírito divino em nós intensifica-se para a nossa consciência]. A confraternização com o Além, por meio da prece - único traço d'união com o Céu, santifica. Meditar é também orar. Trabalhar é orar, também. E, assim, o homem, meditando, trabalhando, erguendo, ao alto, o coração, vive perto de Deus, vive do outro lado da Morte. E vive perto dos que já transpuseram o grande Limiar», mas de certo modo um "viver perto" relativo, já que o envolvimento no que se passa no mundo é mais forte nos nossos dias, pelo que o sentir e escutar interior enfraqueceu...
Fotografámos duas valiosas páginas desta sua
Meditação sobre a Morte, onde não menciona Antero de Quental, embora tenha pensamentos anterianos onde equaciona a irmã morte libertadora mais com Infinito, a Eternidade e Divindade do que com o Não ser:
                                           
Citações de Lamartine, Goethe e Victor Hugo exemplificadoras da aspiração mística que sentiam perante a morte e a libertação.
Ao finalizar esta abordagem à alma e escrita de Feliciano Soares, saudamo-lo no corpo místico crístico e universal e que ele possa do Alto e íntimo co-inspirar e guiar almas amigas recentemente partidas e pelas quais oramos...
                                                           

domingo, 7 de julho de 2024

Nossa Senhora das Almas, uma face feminina da Divindade iluminando ou salvando do Purgatório astral. Arte conventual portuguesa.

                                          
A Nossa Senhora das Almas não é uma representação feminina divina muito comum na iconografia portuguesa, nomeadamente em pinturas, desenhos, gravuras e registos mas sabemos que houve irmandades ou confrarias (tal a da vila de Moura, que viveu cerca de 300 anos), e que ainda há uma ou outra ermida ou capela com esta devoção ou invocação, nomeadamente nos Açores, arquipélago do Espírito Santo, perenemente misterioso na conceptualidade da sua imanência e cosmicidade.
O problema
da vida no post-mortem sempre desafiou ou inquietou a humanidade e a muitas entidades ou facetas divinas se pediu a proteção para os que partiam para esse além brumoso, misterioso. O Cristianismo substituiu Hermes e Orfeu, deuses e deusas antigas, por  Jesus e Maria, o Anjo da guarda e o arcanjo Miguel, tornando-se estes os destinatários seja de orações seja de representações artísticas que procuravam consubstanciar o desejo e a ideia da proteção ou salvação divina, mas não só numa forma passiva pois sempre implicavam orações dos familiares, amigos e comunidade pelos que tinham desincarnado, uma sábia medida já que a grande maioria dos seres não está bem preparada para estar logo desperta e activa no seu corpo psico-espiritual, recebendo portanto dessas orações e sentimentos algumas energias de luz e de amor úteis ao fortalecer psico-espiritual.
                                              
Testemunhos destas preocupações e aspirações podemos encontrar na nossa Tradição religiosa a Encomendação das Almas, com orações, ladainhas, cantos, procissões, ou ainda as Alminhas, que povoam por vezes zonas desabitadas ou curvas da estrada  nas quais alguém faleceu por acidente ou de repente, e que são inegavelmente uma especificidade portuguesa arquitectónica, artística e de devocional valiosa, e razoavelmente estudada e que, na sua rusticidade ou dramatismo, detêm os viandantes e fazem-nos balbuciar algumas preces, enviadas assim para uma pessoa, familiares ou  a generalidade dos seres que se consideram estar no além ou num Purgatório, no Cosmos subtil uma realidade dinâmica (pese  a oposição dos Protestantes ou de modernismo católico), e que é um sub-plano do mundo astral, com sofrimento purificador mas que, podendo ser muito demorado, se deseja ser aliviado pelas energias das orações enviadas da Terra ou das abençoadoras do Céus, pois levam amor e luz clarificante às almas aí detidas temporariamente em semi-inconsciência ou em dor.
Ora entre as várias entida
des cristãs já mencionadas recaiu sobre algumas imagens ou ícones de específicas nomeações de Nossa Senhora, ou ainda Mãe Divina, a missão de transmitirem aos que morriam eflúvios de pacificação, aquietação e confiança, surgindo assim a Nossa Senhora do Bom Despacho, a Nossa Senhora da Boa Morte, em que Maria surge sossegadamente adormecida,  a Nossa Senhora da Boa Viagem, da terra para o céu, como alguns registos explicitavam, ou ainda a Nossa Senhora do Carmo, prometendo boa elevação ou salvação para os seus devotos, sobretudo munidos do seu escapulário, uma bela recorrência no Cristianismo (com outros bentinhos)  das orações que egípcios e órficos e pitagóricos punham inscritas em papiro ou lamelas sobre o peito dos que partiam, quais passaportes ou palavras de passe para se franquearem os planos intermediários na ascensão espiritual para a Luz, o Bardo Thodol.
Mas será a Nossa Senhora das Almas a q
ue mais se venerou, e com uma iconologia simples: as almas no Purgatório, entre as chamas dos desejos impossíveis de se satisfazer ou dos sofrimentos, os Anjos que as tentam ajudar, despertar, salvar e, ao alto, a Nossa Senhora, em geral com um resplendor forte, mostrando, numa das possíveis hermenêuticas,  que a Divindade, na sua face feminina, na sua Materna Compaixão, pode ser tocada pelas nossas orações e ajudar o processo relativamente libertador, em processos subtis energético-conscienciais que a Providência divina sustém no Cosmos.
Como é que os fiéis assumiam operativamente mas subjectivamente estes registos ou ícone
s não se poderá saber ao certo, e apenas se pode deduzir  que nos nossos dias alguns fiéis poderão sentir diante deles o mesmo que outrora, embora o receio das penas purgatoriais tenha diminuído, cremos que bastante, e tanto para o bem como para o mal das pessoas, assim por vezes menos preparados para as causalidades obscurecedoras em que incorreram.
Não é contudo
uma invocação da qual se conheçam muitos representações e Ernesto Soares, no seu incontornável Inventário da Colecção de Registos de Santos, conheceu e registou apenas doze, uma delas sendo mesmo recente: a de Nossa Senhora de Fátima, assinalada com tal função de Nossa Senhora das Almas. Ora não há entre elas grandes diferenças na representação de tal ideia e crença de uma possível salvação ou melhoria do estado das alma no além pela acção tripla intercessória do mundo humano, do celestial e do divino, este Mariano ou de Nossa Senhora, embora o que os registos destaquem, e Ernesto Soares, seja sobretudo a «representação em busto sobre nuvens, cercada de grande resplendor, incutindo esperança às Almas do Purgatório», E. Soares veiculando aqui a sua hermenêutica, quem sabe se mais acertada,  da acção e pensamento de Maria: «-Aguentem-se, mantenham a Esperança viva.»
Cumpre indicar que os
registos assinalados por Ernesto Soares ostentam a costumeira propaganda algo enganadora (pois há muitos factores em causa) dos efeitos salvíficos (as chamadas Indulgências) obtidos por quem rezar diante de tal imagem da Nossa Senhora das Almas. E que alguns deles ostentam na parte superior, dois Anjos com uma fita, onde se lê: «Mostra que és Mãe (May)», este sim um contributo psicologicamente valioso para a compreensão da operatividade imaginal da fé, contemplação e oração face a estes ícones acessíveis a quase toda agente, e que tinham nos religiosos e religiosas um público que especificamente os trabalhava melhor, como algumas vidas das nossas sorores ou irmãs místicas narram, tanto mais que orarem por pessoas vivas e já nos mundos invisíveis era uma das suas principais tarefas, com algumas narrando os sucessos que obtinham na libertação das almas...
Tendo encontrado há tempos
uma pintura conventual da Nossa Senhora das Almas, fins do século XVIII - princípios do XIX, dimensão média, sobre papel que foi minuciosamente pontilhado, numa bela moldura de esquadrias e orlas vegetalistas muito cândidas e frescas, obra provavelmente de uma freira com bons dotes e paciência, resolvemos partilhar a imagem operativa de ligação entre os mundos, quem sabe se estimulando por este modo a nossa oração eficaz por familiares ou amigos já partidos.
                                                               
Na oval central, Maria, incarnação do princípio Divino feminino, da sofianidade ou Santa Sophia da tradição ortodoxa e da filosofia russa,  representada em busto, acima das nuvens, emana um sorriso perfeito de amor e compaixão, enquanto um anjo, provavelmente seu enviado e ajudante, liga-a às almas do Purgatório, vigilante sobre elas. É um anjo pequeno, discreto, que paira como que à altura do seu coração, e que emerge das nuvens que diferenciam os planos do Cosmos e  separam a denominada rainha dos Anjos em relação ao plano das labaredas purgatoriais, como que só o Anjo por lá dentro pudesse entrar e salvar, embora saibamos que o processo metamórfico consciencial se realize na interioridade das almas que detêm sempre pelo apex do seu espírito a capacidade da religação divina.
A aureola dourada da Sabedoria
Divina é inspiradora,  tal como o finíssimo pontilhado do lenço que cobre o seu cabelo e nos transmite  grande doçura e intimidade, e por esta criatividade são nos  oferecidas visivelmente qualidades espirituais invisíveis ou acesso ao prototipo divino, e que poderemos ver, sentir, meditar, intuir e quem sabe emanar, deste modo contribuindo para que a contemplação deste ícone conventual (assim cremos), acompanhada ou não de orações vocais ou mentais, possa ser um acto de comunhão intercessória e eficaz com os que já partiram, e a graça dos Anjos, Maria e Santa Sophia, Providência Divina no devir do mundo e da Humanidade. Pax. Lux.

Muitas bênçãos de luz, amor e paz nas almas em processos conscienciais de transição e ascensão. Aum, Amen. E demos muitas graças à anónima artista, provavelmente uma soror dum convento alentejano, por este tão belo ícone inspirador.

sábado, 6 de julho de 2024

Palavras embarcadas em carreira ondulada mandálica. 1ª travessia.

                         

Post-scriptum ao texto encarreirado fotografado:
Nas ondulações inseri palavras, sentimentos, aspirações.
Quis descobrir algo, trazer ao de cima de mim alguma luz nova, gerar estados luminosos...
Conseguirei ter semeado luz e amor, bem e verdade no texto que se segue?
Quem o conseguir ler e sentir, logo saberá...

Decifremos as vinte e uma linhas escritas num fluir e que em ondas tentam levar-nos a ligar-nos mais ao Oceano da Divindade...

1 Morrer é parte do Ser,  uma linha que termina... aos nossos olhos...

2 Escrever tem princípio e fim, uma linha que termina... mas que pode continuar.

3 Gostaria de escrever a palavra que pronunciada cura e ilumina os seres: Deus, Amor, Fé?

4  Quantas dores temos de suportar antes que mais plena realização o Ser em nós se estabilize?

 5 A demanda da Verdade é árdua, exigente e não pode condescender com a mediania e o desânimo.

  A demanda da Harmonia implica muito discernimento do que está certo e útil e o que é ilusório e inútil.

 6 Quantas vezes conseguiremos  nós meditar e estar mais em alegria, paz e plenitude espiritual?

7 Sabe discernir o que é o mais importante e valioso para a vida eterna que estás a gerar desde já na Terra.

8 Descobre as tuas ligações verticais mais importantes, valiosas, beatificas...

9 Aspira a realizar os teus níveis mais importantes.

10 Quereria estar puro, simples, saudável, alegre, decidido, iluminado. 

11 Quantas palavras nos foram dadas para dizer ou escrever, e que bailam desejosas de manifestar-se?

12 Do espírito sabemos algo, mas nunca o suficiente para descansarmos ou distrair-nos.

12a Do Espírito sabemos que está em nós e por vezes brilha como ponto ou estrela, mas fugazmente.

13 O mundo gira dividido por tantos partidos, grupos, ideologias, religiões, conflitos. Quem vive na Pax?

14 A Divindade primordial e eterna por poucos é adorada, invocada, algo conhecida e amada. Poucos se ligam a Ela.

15 Amizades e amores são flores no Caminho, mas têm espinhos.

16 Cada alma tem luzes e sombras, flores e espinhos. 

17 Como descobrir e manifestar mais a plenitude do nosso ser, e sermos felizes e partilhar com os outros e Ela?

18 Tentar concluir a escrita ondulada da vida e abrir-nos aos ventos e aves que inspiram

19 Sabe, ama, sê, irradia, vence, ganha.

20 Não desanimes. Sê.

21 Om.

sexta-feira, 5 de julho de 2024

On prayer and meditation. Video by Pedro Teixeira da Mota.

          A short improvisation about some aspects of the spiritual path, done in a slow mood... All the time in the same image,,,,

 

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Gurudev Ranade: hermenêutica espiritual de Kabir, poeta e místico do séc. XV. Nas comemorações do aniversário de Ranade.

Kabir, mestre dos sant.

Um dos mestres espirituais mais apreciados e estudados por gurudev Ranade (1886-1957)  foi o famoso poeta e místico do século XVI Kabir, tendo-lhe dedicado várias páginas na suas obras, abordando-o numa hermenêutica verdadeiramente espiritual e não meramente histórica, teórica ou esotericista. É o caso de The conception of spiritual life in Mahtama Gandi and Hindi Saints, 1956, onde no prefácio Ranade escreve: «a terceira parte deste livro é dedicada ao desenvolvimento da experiência mística em Kabir, o Apóstolo da unidade espiritual, não só entre os hindus e os muçulmanos, mas entre os membros de todas as comunidades religiosas do mundo. Se Kabir vivesse hoje, seria a primeira pessoa a pregar o evangelho da unidade espiritual universal». 

É na realidade sempre  actual e importante este posicionamento: sem se menosprezar as diferentes religiões,  a unidade espiritual que as subjaz deve ser reconhecida, estudada, anunciada, para melhoria da paz, entendimento e inclusividade entre os fiéis das várias religiões e tradições.

Ramchandra Dattratreya Ranade.

A data do nascimento de Kabir é controversa, para uns em 1398 para outros 1440, mas a da sua morte, 1518, já é unanimemente aceite.  Varanasi, ou Kashi, a luminosa cidade gangética, foi o local, embora sejam incertas as influências espirituais iniciais: teria nascido  provavelmente numa família Nath yogi shivaísta, e talvez também  praticante do sufismo islâmico, sabendo-se que foi ainda discípulo do mestre Ramdas na linha dos devotos de Vishnu, o que se torna manifesto nos poemas em que critica os Nath yogi por não desenvolverem a devoção, o amor, prembhakti.

Kabir, tecendo, cantando, ensinando.

Foi um tecelão, poeta, yogi, místico e assim a inspiração brotava fortemente em poemas ricos de sentidos espirituais e aparentemente paradoxais dada a profundidade das suas experiências e que foram musicados e cantados por milhões de seres, neles inserindo também  críticas sócio-religiosas fortes aos sacerdotes e fiéis hindus e islâmicos que se deixavam estar quase que só nos dogmas, aparências e superstições, perdendo a realização viva. 

Kabir canta as suas experiências espirituais, as dos Nath yogi e as dos sadhus ou sants, seres libertos da ilusão (maya) e realizados,  orientadas pelo amor a Deus ou, talvez melhor, à Realidade Suprema, que designou por diferentes termos das várias tradições e religiões, tais como os vedânticos Brahman, Atman, Purusa, Tat, Gyan (ou Jnana, Sabedoria), Ek (o único), Niranjan (o Sem nódoa) mas também o dos avatares Ram, Hari e Govinda,  ou ainda, já na tradição do Islão, Allah, Hazrat (o Majestoso), Khuda (Deus em persa), Karim (o Dignificado).

Só no século XVII é que surgiram as compilações dos seus poemas principais, no Kabir Bijab, no Kabir Granthawalli, na escritura sikh Adi Khant e noutras compilações. Nos tempos modernos destacaram-se as publicações e traduções de Westcott (com o seu Kabir and the Kabir Panth, 1907), Rabindranath Tagore, Ranade e Charlotte Vaudeville.

Para o professor Ranade, Kabir será sempre  um dos grandes unificadores das várias religiões pela sua boa nova ou evangelho de paz e de universalidade, e pelos ensinamentos autobiográficos espirituais que semeou, e destacará e comentará na obra referida Spiritual Life... certos aspectos  valiosos para os praticantes do caminho espiritual, da sadhana

Para Kabir, o verdadeiro mestre, ou seja, o Sat Guru, o Sadguru,  é quem está apto a estabelecer o seu discípulo na visão de Deus para onde quer que este lance o seu olhar. Não pode ser só interiormente nem só no mundo exterior. Podemos considerar tal uma realização completa, pois tanto há a visão interior mística, em geral obtida por bhakti. amor devoção, como a visão intelectual e a intuição da unidade  da Divindade omnipresente, jnana.

Característica do sadguru é a de ensinar o discípulo a estar no sahaj samadhi, na unificação interior natural, sem depender de práticas respiratórias ou concentrativas, e dando a original imagem de se estar numa cabana sem fundo entre a terra e o céu, o que é também entre a base da coluna, ou talvez melhor o umbigo, e o cimo da cabeça, ou seja, estar mais no peito, sem contudo se deixar prender nele, nem enredar os outros, um aviso muito pertinente pois vemos constantemente como os gurus modernos prendem tanta gente afectivamente, tornando-as dependentes ou mesmo quase que hipnotizadas. 

O centro (chakra) do coração é anahat, e anahata é o som interior espiritual que se pode ouvir nas práticas mais profundas de meditação mas que segundo Kabir deve ser subordinado a Shabda, a Palavra ou som, que é tanto a característica ou qualidade do espaço, como um dos dez sons que se podem ouvir interiormente, nomeadamente nos canais subtis, como ainda a primordialidade divina,  o Espírito, e que repetida, ouvida ou meditada, por exemplo, como Om, ou como Ram, nos pode levar até à Divindade.

Outra característica do verdadeiro guru é a  enunciada na Bhagavad Gita. IV. 18: «Aqueles que veem a ação na inação e a inação na ação são verdadeiramente sábios entre os humanos. Embora realizem todo o tipo de acções, são yogis e mestres de todas as suas acções», ou seja, observamos um elogio da capacidade de não se estar ansioso ou dependente dos resultados, mas desprendido e permanecendo em paz e felicidade mesmo na acção.

Outro aspecto  destacado por Ranade em Kabir é a importância da prática da meditação em Deus utilizando-se o mantra ou nome (nama)  de Deus dado pelo guru ao discípulo na iniciação. Alerta contudo que para Kabir não é este nome, nem menos ainda  o que uma pessoa escolhe para si, que é o verdadeiro Nome, o qual é Ajara e Amara, imutável e imortal: «Quando estamos a meditar, diz Kabir, há um nome celestial que se revela ou desdobra a si próprio ao nosso sentido auditivo, no estado mais elevado da meditação. Tal nome é Ajara e Amara. Quando uma pessoa entra na posse ou fruição deste Nome, o seu caminho para a Divindade fica claro, limpo.»

Esta repetição do Nome de Deus deve ser contudo silenciosa, pois nos quatro níveis da fala ou voz: vaikharii, a física, madhyamma, a mental e  que pensamos antes de pronunciar, pashyanti, a que se vê ou se compreende inicialmente, e a para, a transcendente e silenciosa, esta é a do nível mais elevado e embora difícil de se realizar dela nos aproximamos ao tentarmos transcender os outros níveis e ao meditar em silêncio íntimo receptivo.

Em termos de fisiologia interna, a meditação ganha em ser realizada pela abertura da janela existente nos ventrículos do cérebro e em seguida pelo voo ascendente do espírito até ao Triveni Samgama, a confluência das três correntes ou rios no olho espiritual, onde se poderá então receber a visão de Deus.

Para isto acontecer Kabir recomenda a concentração forte na Divindade, desprendimento do mundo exterior (para diminuir ou extinguir-se a ondulação mental), intensidade de aspiração e sermos na vida, na linha pitagórica (refere até Ranade, já que conhecia bem a filosofia e tradição grega), espectadores ou viajantes que não se carregam de pesos nem de envolvimentos desnecessários. 

Uma das boas imagens da meditação (e que deveremos cogitar) dada por Kabir é a de que a sua mente ou alma é o pavio, o Nome de Deus o óleo e a Divindade em si mesma o fogo que acende o pavio. Quando tal acontece a luz interior cintilante manifesta-se dentro do tabernáculo do coração, e então devemos consagrar-nos (nyochhavar) mais a Deus, tornar a nossa vida mais dedicada a Ele, até para que haja crescimento espiritual e aconteçam experiências interiores que nos elevem à Divindade. 

Quais são as mencionadas por Kabir na sua poesia? Sobretudo os sons interiores, as visões da Divindade, ou então dos avatares (tal Rama e Krishna), o sentido da eternidade bem como do poder infinito de Deus, dando uma valiosa pista de de prática interna dos iniciados yogis nas técnicas denominadas de luz, som e néctar: após a concentração no nome de Deus, quando o extracto doce ou néctar (amrita) escorre das células para os ventrículos laterais cerebrais, então o som interior tanto se eleva para o céu como permite encher mais o lago do 3º olho e ventrículo da beatífica sensação-sabor de amrita, numa dupla ou recíproca causalidade entre o som e o néctar, estado interior que diz ele pode chegar a absorver ou atrair a si a comunhão com o Oceano da Divindade, na Índia tão cultuado como Narayana.

Fiquemos com o excerto inicial de um poema de Kabir, numa tradução a partir do francês da sábia orientalista Charlotte Vaudeville:

«Ó Kabir, o resplendor do Eterno é como o nascer de toda uma sucessão de sóis.
Perto do marido, a mulher despertou e
diante dela um espectáculo maravilhoso se formou.
Ela contemplou o espectáculo sem os olhos do corpo e, sem o Sol e sem a Lua, a Luz brilhou,
O servidor está absorto no serviço do Mestre e não se preocupa com
nada mais.
A Majestade do Senhor Supremo está para além de toda a imaginação.
A sua beleza é indizível. É preciso contemplá-la.
Ao inacessível, ao invisível não há qualquer acesso, lá brilha a Luz; lá onde Kabir prestou as suas homenagens nem o pecado nem o mérito podem chegar.
Esse lótus que floresce sem flor, só os íntimos (da Divindade, Rama) podem contemplar.»