domingo, 14 de novembro de 2021

Sonho Oriental, Idílio e Aparição, sonetos de Antero de Quental, oferecidos inéditos a Maria Amália Vaz de Carvalho, para o "Feixe de Penas", sonhando o amor e intuindo a sua via solitária.

Em Março de 1884,  a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho,  convidada a colaborar numa festa de caridade, intuiu que a sua participação auxiliadora do Asilo das Raparigas Abandonadas seria organizar uma antologia, e  no ano seguinte nascia Um Feixe de Penas e, como  nos narra no fim das Duas Palavras de Explicação prefaciais, «pedi então a muitos dos mais formosos espíritos, das mais robustas individualidades literárias, dos pensadores mais sinceros e mais convencidos, dos mais finos e delicados cultores da poesia que me auxiliassem, e todos aqueles a cuja porta fui bater - romeira da Caridade - responderam fidalgamente e bizarramente à minha súplica.
A todos agradeço a obra boa e a obra bela, que a colaboração de tantos espíritos iluminados produziu.
Guardarei sempre no tesouro das minhas recordações
melhores, a memória deste momento, em que tantos nomes ilustres e geralmente queridos, vieram reunir-se num impulso generoso e santo, a pedido meu, sob a mesma bandeira caridosa, cujo lema abençoado, será sob todas as formas ainda as mais imperfeitas, para todos os espíritos ainda os mais cépticos, um das consolações eternas, uma das consolações inesgotáveis da cansada velha e entristecida Humanidade.» 

A colaboração foi ampla e valiosa, como ela diz e dos nomes estampados na capa do livro destacaremos apenas Camilo Castelo Branco, que o abre  com uma carta bastante irónica e até etnográfica, nos seus 59 anos adoentados e castigados com tanto pedido de colaboração, mas perenemente actual, pois conclui-a assim: "Além de que, Ex. Snr.ª, da maneira como neste país se está mendigando para tudo e por todos os motivos, o colaborador assíduo dos jornais de um número só [e por vezes almanaques], tornou-se o velho mendigo das romarias e das portas dos templos, garganteando clamorosamente: Ó pais e mães da caridade, contemplai... etc.

 Não seria indiscreta coisa, minha senhora, ver se os governos podem aguentar-se na sua missão providente de socorros à miséria dos seus administrados sem a nossa colaboração de Andadores das almas numa efectividade quase humorística».

Já Antero de Quental, em resposta ao pedido de colaborar nessa obra que sairia no ano seguinte, o Feixe de Penas, escreveu-lhe a seguinte carta  de Vila do Conde, a 1 de Abril de 1884: 

«Minha Senhora,  

Penhoradíssimo com a simpática confiança e boas palavras de V. Ex.ª, sinto não poder enviar-lhe coisa de mais valor do que três sonetos antigos - e oxalá não lhe pareçam, além de antigos, velhos também! Tentaria escrever algumas páginas em prosa, sobre matéria que valesse a pena, se V. Ex.ª me não dissesse que há pressa; e, com tal aperto, creio que me seria impossível achar um assunto, que é essa a dificuldade para mim maior. Eu mesmo pasmo às vezes, ao considerar quantos pensamentos e conhecimentos que tenho acumulado em tantos anos de estudo parecem não ter servido senão para me tornarem indeciso e para me esterilizarem! Mas, enfim, o que é, é.  - Os sonetos, que envio, apesar de antigos, são inéditos; e como imagino que o livrinho é destinado principalmente a correr mãos femininas, achei preferível contribuir com aquelas coisinhas antigas e ternas, que, em suma, são inocentes e não apavoram, a enviar-lhe dos Apocalipses que agora faço, "pesadelos rimados", como lhe chama um amigo meu, entendido em rimas e em pesadelos.

Folgo deveras por esta ocasião de poder dar a V. Ex.ª um testemunho da muito grande e respeitosa simpatia que sempre me inspirou e da admiração que professo pelo seu raro talento.

Sou, minha senhora, de V. Ex.ª

Criado humilíssimo, Antero de Quental»

 São então oferecidos a Maria Amália os sonetos Sonho Oriental, Idílio e Aparição, e esta carta é o único testemunho de Antero de Quental quanto a eles  e, tal como diz, são mais ou menos poemas inocentes e ternos, que pouco têm a ver com as suas produções denominadas "pesadelos rimados", estilo apavorante Apocalipse, este uma obra de imaginação de facto algo aterrorizante e messiânica e que hoje se sabe não ter sido escrita por S. João Evangelista, mas por um zelota que acreditava que brevemente seria o fim e julgamento do mundo, e a vinda de Jesus.  Todavia, além dos três sonetos, misteriosamente, o Feixe de Penas finda com mais uma colaboração de Antero de Quental, O que diz a Morte, que será posicionado como o penúltimo da edição dos Sonetos Completos, em 1886. 

 De quem partiu a iniciativa desta publicação, de novo de um poema inédito, e que não tem sido equacionado nas publicações modernas dos Sonetos? Falta o elo documental, tal outra carta, mas deverá ter havido um pedido de Maria Amália, ao qual Antero anuiu, disponibilizando o soneto final da antologia...

Escritos em Coimbra em 1864, como Antero assinala no envio, os três sonetos escolhidos, que estavam inéditos, andaram  20 anos com Antero até serem salvos do anonimato e dados à luz para mãos femininas de Maria Amália Vaz de Carvalho e das futuras leitoras dos poemas, como Antero imagina, descrevendo-se "humilíssimo" no respeito à viúva do poeta Gonçalves Crespo (1846-1883), aos quais muito empaticamente se referira por causa do desenlace, numa carta de Junho de 1883 a Joaquim de Araújo:«Senti a morte do Crespo, de que só agora tive notícia. Não conheço a Maria Amália, mas nem por isso tenho deixado de pensar nela com pesar e simpatia sincera.»

O primeiro soneto, Sonho Oriental, é muito simples, com um ambiente totalmente orientalista do final do séc. XIX (presente até noutras colaborações do Feixe de Penas, tal a de Cristóvão Aires) e permite-nos viajar um pouco com a imaginação oriental ou mesmo indiana com que Antero se revestiu animicamente para o compor, nada difícil pois sabemos que  para além do seu interesse pelos Vedas, o sânscrito e a sabedoria indiana (o que partilhava com o seu colega e amigo Guilherme Vasconcelos de Abreu, futuro 1º professor de sânscrito em Portugal), numa carta de Março de 1866 ao seu dilecto companheiro António de Azevedo Castelo Branco, interrogando-se para onde deve ir, diz, numa observação bem perene, que «talvez indague dum emprego para a Índia, para Goa ou Macau, países aonde a vida moderna não deve ostentar-se em muito excessivo luxo do seu vermelho sangue burguês e gordura de banalidade, como cá acontece nesta Europa soesmente comodista, esta Cartago sem Moloch, mas com muitos mercenários.» E continua instando-o:  «Tu deves, nesse caso, ir comigo: mesmo que só eu vá empregado, aquelas terras, que alimentaram a descuidada infância da humanidade, são fáceis para a vida e, quais santos richis ou macerados budas, viveremos de arroz e bananas. Continuaremos os nossos desprezados estudos orientais; e, em face das ruínas do que já foi ruidoso e imponente, aprenderemos a desprezar todos os ruídos e imposturas que hoje nos assoberbam e ensurdecem.»

Os aspectos orientais que lhe vieram do inconsciente e das suas leituras mais ao de cima vemos que foram a natureza tropical, a ilha frondosa de bosques, a lua refulgente na noite, os aromas das flores e árvores, nomeadamente o da baunilha, o mar e a sua espuma rítmica, e ele meditando numa torre de marfim enquanto a a amada passeia no jardim, com um  leão aos seus pés.

O que há de mais onírico?  Sonhar-se rei, numa utópica ilha, bem longe do que o rodeia, a lua cheia brilhante nos céus e espargindo seus mil raios na água, uma noite mágica de cheiros e luzes, pois o próprio ar se mostra diáfano, e o mar doce e terno lambendo a ilha, deixando transparecer em tais movimentos os seus desejo sensuais e amorosos pela amada, que contudo anda ao longe no bosque, e  tem um leão aos seus pés.
Este leão, e
m termos de projecção psicológica, poderá ser ele próprio Antero, ou o seu ardor do amor e do coração, calmo aos pés dela, mas capaz de se tornar o animal poderoso a qualquer momento.

                                      

É um soneto de grande calma e paz, com alguma irrealidade, transparecendo a força interior contida, ou não fosse ele rei. Quanto à amada, que não é apresentada senão com esse estatuto, ao contrário dele que cisma, divaga, e há neste contraste uma certa afirmação de maior concentração na sua actividade mental, enquanto a mulher apenas divaga, embora expandida pela luz da lua, enquanto que ele interiorizou-se mais, absorveu-se, queda-se absorto quase sem fim. 

É uma atmosfera irreal, simbolista, fazendo lembrar a da peça de teatro estático de Fernando Pessoa (que leu e traduziu vários sonetos de Antero para inglês, e o elogiou muito), o Marinheiro, náufrago numa ilha, e também sob um vago luar, onde três irmãs divagam, uma das suas primeiras publicações, em 1913, na revista portuense A Águia,  dirigida por Teixeira de Pascoes e Leonardo Coimbra. Todavia, se o ambiente psíquico no Sonho Oriental é de grande paz e harmonia com uma natureza idílica, já o envolvimento amoroso entre os dois paira numa certa interrogação que só a expressão "meu amor" a vence.  

                                         SONETOS ANTIGOS

                                                             I  

                                            Sonho Oriental

Sonho-me às vezes rei, nalguma ilha, 
Muito longe, nos mares do Oriente, 
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha... 


O aroma da magnólia e da baunilha 
Paira no ar diáfano e dormente... 
Lambe a orla dos bosques, vagamente, 
O mar com finas ondas de escumilha3... 

E enquanto eu na varanda de marfim 
Me encosto, absorto n'um cismar sem fim, 
Tu, meu amor, divagas ao luar, 

Do profundo jardim pelas clareiras, 
Ou descansas debaixo das palmeiras, 
Tendo aos pés um leão familiar.»

Anote-se  estarem os três sonetos enviados por Antero de Quental como I, II e III e constituem um todo sob a designação de Sonetos Antigos,  e que portanto devem ser lidos de algum modo como um avançar na declaração de amor e vivência,  idealizado no 1º, Sonho Oriental,  embora com certa apreensão  face ao futuro, perante tanto amor e pudor, sensibilidade e intuição, comunhão e absorção, que os dois sentem, pois já no 2º Idílio, Antero surge como visionário do estranho, do triste e do trágico, pois acaba por sentir dúvidas quanto à luz húmida do olhar, ao emudecimento da amada e  ao estremecimento das mãos, mesmo com a entrada das vozes amorosas do universo no coração dos dois...

 Idílio 

    Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;

Ou, vendo o mar das ermas cumeadas
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longo, no horizonte, amontoadas:

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão e empalideces

O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.» 

Já o 3º e último soneto, Aparição, revela, após a tese e a antítese,  a sua síntese amorosa algo derrotada e perdida. Desilusão da amada, que não o quis, e lhe estalou o coração, auto-biográfico, deveremos deduzir ou intuir? Cada um que o sinta ou adivinhe...

                                                    Aparição

Um dia, meu amor (e talvez cedo,
Que já sinto estalar-me o coração!)
Recordarás com dor e compaixão
As ternas juras que te fiz a medo...

Então, da casta alcova no segredo,
Da lamparina ao tremulo clarão,
Ante ti surgirei, espectro vão,
Larva fugida ao sepulcral degredo...

E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidos
E aflictos ais, estenderás os braços
Tentando segurar-te aos meus vestidos...

— «Ouve! espera!» — Mas eu, sem te escutar,
Fugirei, como um sonho, aos teus abraços
E como fumo sumir-me-hei no ar! »

Anote-se que, tomando os três sonetos como um todo (embora saibamos que na ordenação final dos Sonetos Completos em 1886 eles estejam espaçados), passamos do "meu amor", do 1º soneto,  para o "meu anjo", do 3º soneto final, e quem fora rei no 1º e depois no 2º namorado em idílio campestre e unidade de corações, transforma-se no 3º e último soneto, Aparição, num espectro, numa aparição que rejeita os pedidos da amada, ou porque já não a quer, ou porque já não pode.  

Há na obra de Antero, para além do seu grande amor, destemor e idealismo social, constantes sinais da solidão, de morte e mesmo de suicídio. Por vezes interrogo-me quantos dos seus amigos terão sentido intuitivamente isso, sobretudo com o avançar da idade, seja vendo-o ao longe a aproximar-se, seja nos silêncios das conversa.  Ou ele próprio, quantas vezes terá sonhado ou intuído que teria essa quase que predestinação à sua espera?

                                    

Há algo de desilusão e quase maldição do Amor humano. Ou a consciência de quão difícil  seria vivê-lo numa sociedade ainda com tantos aspectos injustos e opressivos e com as pessoas por vez tão divididas e longe da sua totalidade e sinceridade. Não é um Apocalipse, como disse na carta a Maria Amália, mas não era de modo algum um poema terno ou para sossegar jovens leitoras, sobretudo o último soneto. Anote-se que nesta época Antero, assinando como o Bacharel José,  entre 1864-1865, para o jornal O Século XIX, de Penafiel, testemunhava uma grande ironia e irreverência. E assim o amor terno e romântico era dissipado por um espectro, numa consciencialização da fragilidade da vida e dos sentimentos. Talvez devamos admitir que Antero só vivenciou na verdade o amor paixão unitiva nos namoros juvenis, o que alguns poemas das Primaveras Românticas espelham bem. E ficou mais com o da mãe, dos amigos, da poesia, da filosofia, da morte e da liberdade, o que já foi muito, e que nos fazem hoje enviar-lhe muita luz e amor para a sua ascensão espiritual...

sábado, 13 de novembro de 2021

A mão de Fátima, um ícone protector, um canal de religação espiritual e divina...

                                  

Esta mão que desce do céu e derrama dos seus dedos dons é uma bela imagem visível da Mão divina, da Fonte primordial que sabe responder aos nossos apelos e presentear-nos com o que necessitamos para alcançar a mais alta evolução espiritual possível aqui na Terra.  

Encontra-se na janela de minha casa virada a Sul, e com o céu azul acrescentando luz sobre luz e, embora pudesse estar ao vento, encontra-se no interior, queda e calada, mas presente, subtilmente irradiante...

Esta mão de Fátima, um ícone imemorial de tradições artísticas, mágicas e religiosas do Médio Oriente, do Islão e dos Shiia, contém nesta versão ao alto o losango do cruzamento das forças: as nossas em aspiração e as que descem do mundo espiritual e divino, lembrando-nos como toda a nossa vida é uma constante batalha de amor e sabedoria, de purificação e elevação, certamente com momentos de desânimo e derrota, queda e erro, pois a dualidade, a ignorância e o sofrimento fazem parte da vida terrena e existem para os vencermos, com discernimento e humildade, sabendo ora aceitar e repousar, ora desenvolver as forças psico-espirituais apropriadas, vitoriosas.

 A mão de Fátima diz-nos: - Deixa cair as tuas preocupações e receios, as tuas dores e medos e abre-te ao silêncio e ao vasto espaço cósmico, com a sua imensidade mas também o corpo místico da Humanidade, onde antepassados, mestres, imams e Fátima velam...

- Tem a esperança verdejante e trabalha a fé de quereres a abertura do teu olho espiritual, exercitando-o pelo discernimento, a admiração, a concentração, a contemplação, a reverência, o amor...

É por isso que o olho espiritual surge representado no meio da mão, não só aludindo ao que do mundo espiritual e divino  nos pode chegar sempre, mas para nos estimular a sairmos do pensar automático do quotidiano e desenvolvermos mais a visão ampla e contemplativa, que está associada ao hemisfério direito e que tanto temos atrofiado...

Esta mão considera-se que afasta as más vibrações que os olhos e almas dos outros nos enviam, algo que não é automático apenas pelo seu uso, mas sim se nós trabalhamos com regularidade a humildade de nos abrirmos à sua eficácia espiritual, a qual depende da nossa aspiração ou fé em sermos espíritos luminosos e emitindo energias benéficas que vençam as eventuais negativas que nos mandem ou envolvam.

As mãos de Fátima, todavia, mais poderosas, não são as muitos antigas e belas que possam estar em museus ou em casas de seus devotos, mas a que nós podemos ora fazer ora fortificar nas nossas casas e sobretudo gerar nas nossas mãos e alma espiritual e por elas emitirmos os raios espirituais que dissipam as trevas e obscuridades,  interconectando assim os seres e os mundos criativamente...

Deste modo imaginarmos a Fonte divina e os santos, mestres, imams e Fátima abençoando-nos é bem valioso e, para isso, o meditar, orar, ou contemplar a imagem e seus pormenores simbólicos pode-nos bem impulsionar espiritualmente.

                                     

 Há quem utilize a imagem com os dedos para cima, e estou-me a lembrar da Niama Moraes, e sem dúvida é uma forma mais assumida e energética de irradiação espiritual, seja dizendo-se: - Dissipem-se as tuas energias negativas, ou - Afasta-te, se vens por mal. Ou então, positivamente: - Sê bem acolhida ou mesmo abençoada, oh alma que estás em intencionalidades boas, luminosas e aspiras à sabedoria e ao amor.

Possamos nós merecer, criativamente, que a mão,  a bênção, a inspiração de Fátima, mulher de Ali, filha de Maomé, geradora da linhagem dos 10 imams Shiaa, e uma das faces femininas da Divindade mais veneradas, nos proteja e oriente, eleve e toque, para que as nossas ligações com Ela e o mundo espiritual e Divino, ou o corpo místico da Humanidade, se conservem e desenvolvam luminosamente e para o bem da Natureza e da Humanidade...


quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Aproximações ao santo Graal, nestes tempos de pseudo-ensinamentos e falsas profecias...

                                                    
 O santo Graal era e é um subtil cálice ou vaso capaz de acolher, ou ser receptor de influxos subtis, espirituais, do alto, divinos. E é simultaneamente um conhecimento e uma realização espiritual e divina.
Encontramo-lo em diversas tradições pré-cristãs, iranianas e celtas, embora seja com o cristianismo e já no séc. XIII que uma legenda literária se começará a formar, a partir de fontes pré-cristães e cristãs, com certas linhas de força, e a popularizar-se com 5 ou seis versões principais.
Este vaso ou cálice portador do Bem em tais narrativas ora desce do alto, em geral no meio de um grupo bem unido e espiritual, ora se manifesta a uma só pessoa, pela sua aspiração, pureza e coragem, ora na sua intimidade ou visão interior, ora como eleito entre alguns próximos.
A procura do merecimento da descida do Divino, das suas energias, forças ou bênçãos, seja directas seja através dos seus cavaleiros, guardiões e iniciadores, é de certo modo a demanda do santo Graal.
Ou seja, como estarmos conscientes, preparados, merecedores, receptivos, sintonizados e intuitivos com o nosso ser espiritual, com os planos espirituais e os seus seres e forças benéficas, luminosas, divinas, maxime, o Espírito Divino...
O que se vê é o brilho do espírito, o que desce é a Luz, a corrente do espírito, o amor, a bênção divina que nos intensifica e plenifica na auto-consciência espiritual harmoniosa e nos faz dar graças...

O santo Graal pode aparecer a uma pessoa como o resultado de uma ordenação e aprofundamento energético pessoal, ambiental, geral.

Ele pode ser um vaso invisível que paira no centro da divisão em que estamos e que intercomunica com o nosso coração.

Ele pode estar sobre o nosso peito, como uma fulguração das nossas aspirações e realizações e um alinhamento espiritual e cósmico.

Ele pode estar ao longe no cimo de uma montanha (imagem de uma pintura de Bô Yin Râ), custodiado pelos cavaleiros, ou mestres.
O santo Graal visita-nos só de vez em quando e devemos acolher bem tais momentos e depois meditá-los com regularidade para se aprofundar a nossa relação com ele e para comungarmos com tal bênção.

O Graal aparece-nos quando o merecemos, quando a nossa vida, apesar de desilusões, sofrimentos, desânimos e isolamentos, é regida por uma dinâmica de procura da verdade e do amor, de estudo e ordem, de aspiração e amor divino, de fraternidade e universalidade.
Contudo, há que estarmos bem atentos pois a maioria das pessoas não está numa vibração do santo Graal, e menos ainda o mundo enquanto soma das suas pessoas,  demasiado apanhado numa série de egrégoras (políticas, económicas, raciais, nacionais, religiosas, ocultas) em lutas fortes ou mesmo ferozes pelo domínio dos bens escassos e das mentes e energias das pessoas, para não dizer das suas almas e espíritos, sob formas enganadoras de novas ordens ou  religiões...

Sabermos ainda assim escapar às tentações e logo ao mal, que poderemos delinear como a ausência do bem e da verdade, é fundamental. Só assim se pode dar o acolhimento do Divino e sermos portadores do Graal. A sua sintonização e comunhão regular é uma tarefa a ser sempre prosseguida, e por isso nos romances antigos do ciclo do Graal os cavaleiros partiam em aventuras, perigos e tentações, para apenas uma ou outra vez, um ou outro, conseguir contemplar o Graal, ou vê-lo com a luz e o amor Divino.
 
No século XXI a legenda já não deveria ser tanto assim, pois a evolução da humanidade e da suas capacidades de cognição e auto-conhecimento deveriam estar a render mais frutos de lucidez e clarividência, compaixão e amor e logo a não a estarmos ainda tão sujeitos a negatividades e alienações, petrificações e materializações, mistificações e manipulações. Nem a constatações trágicas, tal como a do rei de Thulé que sentindo que a morte vem para o seu corpo não tem no filho nem nos seus cavaleiros a quem possa transmitir a custódia do santo Graal, e lança a taça para o Oceano do imanifestado.

O ser na demanda do Graal, o cavaleiro ou cavaleira, o peregrino ou  peregrina, tem assim regularmente de orar, invocar, d sintonizar o Graal, clamando com os seus mantras e orações mais adequados, até que, mais harmonizadas e unificadas as suas energias anímicas, possam sentir em si ou ver na sua visão espiritual seja a luz seja o cálice impregnado de luz e amor, e ir assim aumentando a sua receptividade e acolhimento do espírito e do amor a Deus e de Deus, para melhor resistir aos desequílibrios que o rodeiam ou às formas de pensamento enganadoras mundiais

Quem nos ajuda a sintonizar com o Graal, ou a elevar-nos vibratoriamente é o Anjo, o ser do mundos subtis e espirituais que em alguns dos tradicionais relatos do ciclo do santo Graal o precede ou acompanha. Ou ainda os eremitas,  mestres e santos, os seres que estão já despertos nos seus corpos subtis e espirituais e comungam com o Graal, a Fonte e entre si na Unidade.

Portanto lembrar-nos do Anjos, ou contemplarmos imagens ou esculturas suas, ajuda-nos a sentirmos mais luz e amor, a centrar-nos, a alinhar-nos com eles e o mundo espiritual, logo a fazermos descer mais as bênçãos do Graal, do Espírito, do Divino, na Terra.
                                                  
Quando contemplamos a soma de obras escritas sobre a religiosidade e espiritualidade não podemos deixar de pensar como é que se complicou tanto o caminho espiritual, como é que se construíram charadas sobre charadas, mistificações sobre mistificações, alegorias sobre alegorias, evangelhos sobre evangelhos, canalizações sobre canalizações, cabalas sobre cabalas, e só podemos compreender tal como exercícios terapêuticos, catárticos, e em geral até mais egóicos, que os seus autores foram segregando, enganando ou infectando outros.
Após tantos séculos de mistificações nos domínios da religiosidade e da espiritualidade deveríamos já ser bem mais exigentes no que ouvimos, lemos e escrevemos, no que acreditamos e no que nos envolvemos e participamos.
Estou a pensar nas tolices de tantas previsões astrológicas ou de ensinamentos quânticos, nas conversas com Deus e mensagens de mestres ascensionados ou pseudo-instrutores actuais, nas complicações da alquimia e da cabala, nos tratados escolásticos medievais e nas interpretações em forçadas simbolizações do Antigo Testamento ou de outros textos antigos, tão rudes e no seu sentido literal e histórico, ora mostrando a brutalidade dos modos de vida de então ou as limitações das concepções religiosas e de Deus, e a desfaçatez com que se publicaram e publicam (hoje em livros e vídeos) tais imaginações por vezes até desregradas e violentas, em geral enganadoras seja no que ensinam seja nas autorias, tais as  intituladas de Cartas dos Mestres, Decretos, Mensagens dos Mestres Ascensos, Ascensão do Coração, Ensinamentos de Merkaba, Evangelho de Maitreya, etc..

Hoje mais do que nunca há que fortalecer a prática espiritual das pessoas, assente numa vida ética e ecologicamente bem vivida, sóbria e lúcida e sem miragens de saltos quânticos, apocalipses e revelações fulminantes para alguns grupos de eleitos. Que prática espiritual, perguntarão?
Aquelas interiorizações e concentrações, meditações e contemplações que mais nos harmonizarem, iluminarem, satisfazerem, melhorarem, dinamizarem, inspirarem e, ao Graal do coração e da Divindade, nos ligarem ou conduzirem, na paz, na visão, no sentir, no amar, no ser...
Aquelas que tragam ao de cima a espiritualidade própria nossa, livre e libertadora, a da comunhão com o espírito em nós e nos outros, a comunhão das almas no bem e no corpo místico da humanidade....

Saudemos o santo Graal, sintonizemos mais com ele, e os mestres e Anjos que mais o transmitem, com a  intencionalidade persistente do coração sincero, vivo, flamejante, intuitivo, directo, a sós ou em comunhão com outros seres, qual alma-gémea, qual távola redonda, qual campo psico-mórfico que une várias almas, distantes no espaço mas próximas nas colorações e afinidades espirituais. 
Mas não nos deixemos prender nos milhares de grupos semi-iludidos, e de profecias e promessas, ensinamentos e mensagens estrambólicas e desequilibradas,  atribuídas a extra-terrestres, a mestres ascensos, a Jesus e a Deus, tal como tanto ser ambicioso e descarado proclama, gera e confunde. Liberte-se dessas ilusões, ainda que possa participar aqui e acolá nos grupos que tentam verdadeiramente discernir e viver os mistérios...
Ore e medite mais no silêncio com humildade e persistência, aspiração e amor, e receba os sinais ou as bênçãos interiores... 
 Este texto, "concluído" hoje 11-11-2021 e revisto em 17-1-23, que seria para o livro em preparação Ensaios Espirituais, é dado à luz antes no blogue, pois talvez seja mais lido do que em livro, uma realidade que temos contudo de avaliar constantemente. Poderá todavia um dia, e até aprofundado, ter lugar nele ou num outro, pois o mistério do Graal tem sido demandado e escrito por mim ao longo dos anos...

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Palavra sobre Deus, Logos, Espírito Santo, Espírito, Meditação, Campo unificado de energia consciência, Ecologia, Liberdade....

Uma breve aproximação a alguns dos grandes mistérios da Vida, de Deus, da Trindade, do Espírito Santo, do Espírito em nós e dos caminhos da religião perene ou universal, com algumas referências às tradições grega, romana, cristã e indiana, e à ciência moderna, e com indicações práticas para melhor fazermos luz. Apenas 21 minutos de palavra fluída, gravada pelas nove e tal da manhã de 9.XI.21

Se alguém quiser dactilografar o texto, agradece-se, pois servirá certamente para o podermos aprofundar e escrever por cima e por dentro.

Lux Dei.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

O Salão Anual dos Sócios da Sociedade Nacional das Belas Artes. Imagens de algumas das melhores obras expostas, no rés do chão. 5-XI-21

 Inauguração do Salão Anual, sob a temática do Ambiente. Lisboa, 2021.

Uma visita que se esperava breve alongou-se pelo encontrar de algumas pessoas amigas e de outras que se vieram a cruzar e a reconhecer nestes momentos de entrada e imersão numa sala-gruta- piscina em que infinitas sinapses quânticas se estão a interconectar constantemente, graças ou infelizmente sem nos darmos conta, apenas vendo que houve alguns encontros mais longos com pessoas mais afins e logo conversantes, ou seja, convergentes para a Verdade. E uma escolha das peças que, entre as cerca de 80 expostas no rés do chão (e no andar de cima haveria mais 100) me encantaram e foram então fotografadas e agora partilhadas:

O Futuro semeia-se e constrói-se no Presente, e a educação é quase tudo.

                                           

De António Ventura, este trabalho que sob o dito clássico "Ars Longa, Vita Brevis", nos mostra muitos livros cortados e intervencionados, com cola e papel, e como que comprimidos pela passagem do tempo e contudo talvez com conteúdos preservados e quem sabe transfigurantes para quem os souber intuir, ler, aplicar, viver.

 De Lu Mourelle, "Sydri", acrílico s/ tela. Quem não gostaria de ler ou meditar sob esta árvores elegante, frondosa e inspiradora? E como o tema da exposição é o Ambiente, que melhor ícone da Natureza que a Árvore, eixo dos mundos?

Autora não registada, num ver calmo, firme e desafiante...

De Beatriz Cunha, em madeira reutilizada, este sólido platónico contemporâneo, talvez uma arquetipização das geometrias subtis do mundo e da humanidade actual, "PGSOL", quem sabe pedindo que haja mais contemplação das formas e ideias arquétipas, para remodelarmos o mundo, a sociedade, as almas...

De Elizabeth Oliveira, esta fotografia da luta dramática da estátua clássica pela sua respiração livre, ou "Arts in Covid".

A Maria José Menezes, numa técnica mista com colagem sobre papel kraft intitulada "Do Fundo do Baú", desafia-nos a fazermos sair das nossas profundidades e potencialidades os ornatos e jóias criadores de beleza, harmonia, amor...
A Cristine Enrègle, que acabou agora uma residência artística de dois meses no Museu de Ciência Natural, da qual resultará dentro de meses uma exposição de desenho de plantas e folhas, captou bastante do génio refulgente, na fotografia a cores "Depois da Chuva", de uma das duas subtilmente animadas figueiras do jardim Botânico de Lisboa.
 
De Lena Horta Lobo esta fascinante multidimensionalidade outonal, "Autum Light", uma fotomontagem a partir de fotografias de uma sua tapeçaria.
 
 Escapou a autoria e título, mas é um alfabeto e uma linguagem bem sensual, animada e exemplificante das pernas e pés de uma mulher sensível e expressiva e, ao ser muito bem fotografada e sequenciada, quase em movimento transformada...
Bem desafiante peça, para entramos e nos elevarmos, e que foi a segunda menção honrosa, de J. C. Trindade, mas cujo título me escapou.

De Milucha, inegavelmente uma das melhores obras (técnica mista: grafite, lápis de cera e acrílico)  e por isso menção honrosa, ou não encaminhasse o seu título para essa actividade honrada e criadora e tão necessárias às almas viandantes e que se querem despertantes:  "Meditações"...

De António Marques Miguel este diagrama, a lápis antracite, com marcadores a cores, dos mundos subtis "Ao longo das cíclicas" que Dante imaginou visitar e que muitos  artistas e comentadores seus desenharam e meditaram...

De António Saraiva, as inestéticas máscaras transfiguradas pela poderosa arma da sensibilidade e delicadeza feminina, em colagem que vence "Covid19/2020"
 
                                  
A tripla instalação de João Motta (ou João Teixeira da Mota), com um pequeno (3 minutos) mas bem profundo filme de Eduardo Sousa, e ainda um texto,  intitula-se "A Crise Planetária. A relação do vírus com a Humanidade", na qual procura dar sentido ao mundo actual recorrendo às visões orientais que o vêm como ilusório, na sua separatividade e dualidade, e  necessitando de ser desegotizado e caminhado com mais profundidade e harmonia. E, lembrando-nos do poder do sorriso ou mesmo riso, deseja "que uma epidemia de riso dissipe as trevas da ignorância..."
                                  
                                                    
                                                   
Glória, César (com o seu canal das Conversas da Alma) e João, comunicadores multidimensionais.
                                

Livros sobre Anjos, (4) , em inglês ou francês, comentados e classificados.

Livros sobre Anjos, em inglês ou francês, comentados e classificados: *** Bom, ** Médio, * Fraco. Quatro realizados, no dia 5.XI.21...

1 -  KAUFFMANN, Jean-Paul. LA LUTTE AVEC L'ANGE. Paris, La Table Ronde, 2006. In-8º 336 p. Uma boa investigação da igreja parisiense de Saint-Sulpice e da pintura de Eugène Delacroix  sobre a luta do Anjo e Jacob, que se encontra dentro da mesma igreja na capela de Todos os Santos, servem para o autor levantar questões sobre as representações dos Anjos e de Lúcifer e, logo, da origem do mal, com comparações com outros pintores dos mesmos temas. Investigando a vida, imagens e cadernos de Delacroix (1798-1863), transcreve o convite publicado pelo pintor em Julho de 1861 para a visita das suas pinturas, que termina assim: «Esta luta é vista, pelos livros santos, como um emblema das provações que Deus envia a qualquer um dos seus eleitos». Não teve contudo o sucesso desejado, embora os seus amigos Theophile Gautier, Théophile Thoré e Baudelaire o felicitassem. Ingres, o rival de Delacroix, comentará o quadro ao prior da igreja: «não tenha dúvidas que o mal existe». Eugène Delacroix morrerá em 13 de Agosto de 1863, algo entristecido, junto à sua floresta de Sénart, onde pontificava o carvalho de Antin (ainda hoje vivo), pintado por ele e outros e que terá servido de fonte para a pintura, e numa casa e atelier que consegue visitar, e onde o dono confessa a presença forte de Delacroix. 

A obra termina com uma visita a uma das tragédias culturais da actualidade, por o dinheiro público ser mal gerido e não se criarem mais locais de preservação e culto da arte e da beleza, antes se preferindo dá-lo a tanto explorador ou loteador do bem comum: as reservas dos museus, onde obras de arte por vezes fabulosas não são expostas e antes vão-se deteriorando frequentemente, no caso deste livro uma pintura  de Jacob em fuga para a Mesopotâmia, de François-Joseph Heim (1767-1865), contemporâneo e amigo de Delacroix.   Quase um romance de suspense, mas sem medos, de história de arte e que prende ou se lê bem, embora sem grandes dados valiosos sobre os Anjos.**

2 - SULLIVAN, Paul O´. ALL ABOUT ANGELS. Lisboa, The Catholic Printing Press, 1945. In-8º 112 p. Br. A obra leva a recomendação inicial do cardeal patriarca Manuel Cerejeira:«Peço a Deus que abençoe abundantemente esta obra de modo a que possa vivificar a fé e intensificar a devoção dos seus leitores». Também o bispo de Portalegre, Domingos, escreve: «A devoção aos Anjos é muito pouco praticada considerando os imensos benefícios que eles estão  tão prontos a obter para nós. O nosso querido Anjo é o melhor e mais poderoso amigo durante os longos anos das nossas vidas.» O autor narra casos de aparições autenticadas recentes, e seguindo a doutrina de S. Tomás de Aquino, tenta explicar quem são os Anjos, o que fazem, onde estão, como são e como nos querem ajudar, dando muitos exemplos da Bíblia e das Vidas dos Santos. Inicia com as visões do Anjo de Portugal e da Paz em Fátima, em 1917 e como os pastorinhos se sentiam em paz e grande força com as bênçãos. Alguns exemplos dos muitos ensinamentos:  A S. João Bosco, o anjo apareceu-lhe com um cão para guiá-lo. O padre Lamy (1853-1931) disse: «Os anjos são muito tocados quando lhes oramos. É muito útil orar aos Anjos. Eles olham-nos como irmãos com necessidades. Por vezes, além do Anjo da Guarda, o Arcanjo Gabriel acompanhava-o, enquanto servia de capelão na 1º grande Guerra. Na parte doutrinal  ora tem boas visões, ora se limita a ser devedor das patranhas do Antigo Testamento, tal como quando para provar o poder do Anjos, tenta convencer-nos que Deus "mandou" um anjo numa noite matar 70.000 egípcios. Ou ainda, outra patranha, quando houve a invasão pelos assírios, por ordem de Deus, um anjo teria matado 185.000 numa só noite. Uma maluquice completa...
Também seguindo outra autoridade com pés de barro, S. Tomás de
Aquino, lembra que cada corpo planetário tem um «anjo guardião que mantém o seu curso e evita qualquer aberração. Que prodigiosa energia e poder não exige tal controlo!». Também parece ser exagero considerar que oferecer a missa ao Anjos é a maior alegria que eles podem ter, tal como tudo o que sentem na missão de assistirem às missas. Mas sem dúvida é bom reconhecer que a oração conjunta com os Anjos é menos fria, mais ardente e mais eficaz.
Mais correcto é dizer que «apesar de estarem connosco sempre e devotando
toda a sua atenção e cuidado aos nosso bem estar, eles nunca perdem vista a presença de Deus. Estão sempre contemplando a sua Infinita beleza, deliciando-se no  brilho de sol da sua Presença.» Ou ainda que todo o ser humano tem o seu anjo e que cumprimentá-los agrada-lhes, e que retornam o amor centuplicado.
Há outros aspectos valiosos de doutrinas que são provavelmente
acertados, enquanto que há outros de especulações provavelmente infundadas. Apesar dos defeitos de tomar como literalmente verdadeiro o que se passa na Bíblia, tão cheia de imaginações ou invenções e posteriores manipulações ou distorções, este livro vale a pena ler-se. Contém ainda um desenho do Anjo Guardião de Portugal. **

HOWARD, Michael. THE BOOK OF FALLEN ANGELS. Somerset. Cappal Bann Publishing, 2004. In-4º 198 p. Uma boa obra e em grande parte baseada nos ensinamentos de Madeline Montalban (1910-1982) uma ocultista, maga luciferina e astróloga inglesa que passou por muitos mestres e grupos, escrita por quem foi seu discípulo e companheiro alguns anos, antes de se iniciar.  O autor faz a sua investigação e apreciação histórica e comparativa das origens das personagens, livros e fábulas criadas em torno de Deus, cultos pagãos e anjos caídos. De realçar que tanto ela como ele  são crentes e praticantes da magia cerimonial baseada nas correspondências de nomes dos sete anjos planetários, estações do ano, direcções, elementos, e funções. Lúcifer é denominado Lumiel e de modo algum é o Satan que o Catolicismo gerou, mas antes um espírito celestial benigno. Eis os títulos do capítulos: From Apes o Angels. The Tree of Gnosis. The fallen one. The myths of great Flood. Lady of the Evening Star. Avatars of Light. The Teaching Angels. 

Neles o autor explica com dados históricos e arqueológicos como o Genesis deve muito a outros povos e Jehova a outros deuses, e como Lúcifer teve como fontes Shamesh e Helel ben Sahar e, inclinando-se sobretudo para as ideias sincretistas de H. P. Blavatsky e  da sua mestra Madeleine Montalban, considera Lumiel ou Lúcifer como o primeiro ser criado e que, ao tentar apressar a evolução de Adão e Eva, foi expulso do Paraíso no plano ou mundo astral e tornou-se o senhor deste mundo físico. Michael Howard (1948-2015), apesar das suas práticas cerimoniais e outras, parece não ter contudo alcançado experiências mais profundas, e calculamos provavelmente por erros ou apoios de explicações e identificações superficiais, ou ainda influências não puras **

HUNTER, Charles and Frances. ANGELS ON ASSIGNMENT as told by Roland Buck. Kingwood, Hunter Books, 1979. In-4º 204 p. Br. A obra é algo entusiástica e parte de dois crentes na vinda eminente de Jesus e relata várias experiência de contacto com Anjos ou mesmo com Deus "tidas" por Roland Buck (1918-1979), pastor da Central Assembly of God Christian Life Center, em Idaho, durante os seus últimos 30 anos de vida, e que lhes transmitiu por gravações, conversas e aprovação deste livro. Há mesmo vídeos na web com a voz de Roland Buck a explicar a sua mensagem, a sua ida ao Trono de Deus, o qual lhe permitiu ver  anjos, milhares ou milhões à volta das pessoas e em especial da sua igreja. Não parece contudo muito
convincente, ou verdadeira, a voz.
O conteúdo é também muito discutível, desde a familiaridade com o
Arcanjo Gabriel e com Deus, que o leva para a sua sala Trono, aos ensinamentos sempre demasiado apoiados em leituras literais da Bíblia. Anotemos alguns supostamente dados pelo Arcanjo Gabriel: «como o Espírito Santo monitoriza tudo o que se passa em toda a terra, e recolhe instantaneamente os sinais de toda a parte», detectara uma tremenda preparação de forças satânicas para o atacar a ele, Buck, e assim enviara anjos para onde ele estava em Idaho. Buck não queria que eles se incomodassem, mas responderam-lhe que já tinham feito o trabalho e «pediram-me para olhar pela janela. Olhei e estavam cerca de 100 grandes anjos lutadores de pé na rua. Já tinham terminado o trabalho e estavam a falar uns com os outros relaxadamente»... Uma cena quase de filme norte-americano.  Outro: «há muitos tipos de anjos, tais os de louvor, adoração, ministração e luta. Mas independentemente da função, o seu mais alto propósito é exaltar o nome de Jesus», de novo exagerando um cristianismo literal... Quanto à data em que Jesus vai voltar, uma outra expectativa infundada e geradora de muita aldrabice, diz cautelosamente: «Deus reservou esse segredo particular para ele. Mas depois Gabriel disse-me: "Posso dizer-vos isto: nunca houve tanta excitação e actividade nos átrios do Céu desde que Jesus veio pela 1ª vez à Terra, como hoje.»... Uma excitação que dura ainda hoje, para muitos crentes numa vinda... 

Prevê também que as pessoas abrirão os seus olhos e verão verdadeiramente os anjos e não apenas imaginações, algo que denota também a confusão constante entre o ver físico e a visão espiritual, algo que permeia toda a narrativa, não direi inventada mas imaginada, no caso chegado ao ponto de descrevendo os sapatos e as roupas dos Anjos musculados e enormes que o visitavam. Há pouco dados sobre a sua vida disponíveis. Pouco antes de morrer escreveu o seu epitáfio, inegavelmente verdadeiro em certos aspectos, "inspirou a fé dos outros", resta saber se foi uma fé infundada e daninha até... Casado, com 3 filhas, uma delas, Sharon White, escreveu um segundo livro, com mais diálogos angélicos, The Man Who talked to Angels. Para o público norte-americano, muito habituado a pastores e grandes sermões, com pouca erudição ou comprovada veracidade, é uma obra de sucesso. Mas não recomendamos gastar o seu tempo em fés em anjos e concepções de Deus bastante ultrapassadas. *
Fiquemos com uma fotografia tirada por mim já em Janeiro de 2022, bem
sugestiva da subtileza e intimidade angélica, praticamente impossível de encontrar hoje na alma colectiva norte-americana, e nos seus miríficos pregadores e especialistas de angeologia...

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Reflexões sobre os sons dos ventos e brisas nas árvores, bosques e almas... Do livro em preparação "Ensaios Espirituais".

  Este texto, "concluído" hoje 1-11-2021, que seria para o livro em preparação Ensaios Espirituais, é dado à luz antes no blogue, pois talvez seja mais lido do que em livro, uma realidade que temos contudo de avaliar constantemente. Poderá todavia um dia, e até aprofundado, ter lugar nele ou num outro. Imagens recentes na serra do Gerês, depois uma anteriana, uma ave vizinha no Gerês, duas mais antigas do  Japão e duas do Irão, e por fim, de novo Gerês transmontano, e a última da Serra da Estrela.

Os mistérios do som e da palavra, do vento e das brisas, dos ruídos e zumbidos e do murmúrio crepitante do silêncio são realidade subtis afins entre si e que, com a regularidade que os conseguirmos sondar e vivenciar na Natureza, deveremos sentir e escutar, questionar e meditar. 

Referimo-nos em primeiro lugar à possibilidade de atribuirmos às árvores como que sons, ou seja, os seus efeitos sonoros ou musicais provocados pelo vento, possam ser por nós ouvidos e lidos inteligivelmente.

Ora na minha experiência quanto ao vento ou às brisas que movem as folhas, ou que subitamente afagam os nossos cabelos e refrescam a face, senti-os mais como sinais de passagens ou presenças subtis e abençoantes do que como propiciadores duma linguagem específica, em cada folha, tal como disse uma vez a poetisa Cecília Meireles, embora já tenha intuído mensagens delas, pese o facto de que o som que as folhas gerem seja muito subjectivamente acolhido por nós e varie certamente com a espécie, a época do ano e o tipo e intensidade do vento. Entre nós Antero de Quental, caminheiro frequente de Coimbra à mata do Buçaco, sonhador de uma Ordem dos Mateiros, foi um dos poetas que mais interrogou os sons da Natureza, particularmente o do mar, fruto da sua insularidade natal e da estadia de quase uma década em Vila de Conde.
                                       
Assim num pinheiral, num eucaliptal, num soto de carvalhos, os exemplares falam, ou soam ao vento, ao seu modo, uns mais forte outros mais suaves, e uma pessoa pode intuir mensagens particulares ou apenas considerar tais sons como a linguagem dessa mata, floresta, bosque ou árvore, a qual faz parte da grande Fala ou Diálogo da Natureza, ou mesmo do grande som cósmico, e do que através desse seu sub-campo ambiental pode perpassar ou apenas gerar-se. 
  Ora estes sons, que sentimos e consideramos como linguagem (e deveremos mencionar as aves, mensageiras e encantadoras), podem pelos mais cépticos ou menos receptivos serem entendidos apenas como uma simples participação fluída das árvores nos ciclos dos elementos naturais, ou seja, nas estações do ano e seus fenómenos, e os seus sons serem um mero efeito mecânico das correntes do ar num meio, o arvoredo, que ressoa com elas involuntariamente, inconscientemente e sem haver qualquer tipo de capacidade de expressão interna psíquica... 
                                        
Já se admitirmos que possa haver um diálogo dos subtis Espíritos da Natureza, ou até outros, operando através das árvores, então a riqueza e complexidade dos sons ouvidos e a possibilidade de haver mensagens que intuíveis serão bem maiores...
Ora se o supor-se a possível existência de uma mensagem no som das árvores abanadas pelo vento é algo supersticioso ou imaginativo para a ciência e para a maioria das pessoas, já num nível subtil, e certamente subjectivo, podemos equacionar diferentes fontes possíveis bem como meios de audição e interpretação, em geral ligados à tão suspeita quão desejada sensibilidade subtil e telepática que ao longo dos séculos se foi manifestando nos fenómenos de formulação de oráculos, muito comuns na Antiguidade, ou na adivinhação tão popular em todos os povos, ainda que frequentemente com demasiada imaginação e mistificação...
Como exemplo de fonte subtil podemos considerar que a árvore é uma entidade, consciência e poder, pelo que pode transmitir uma mensagem, ao ser abanada pelo vento, seja pelo som, seja ainda pela forma como surge aos nossos sentidos, nomeadamente ao deixar destacar para a nossa visão certos recortes ou sugestões de seres, que vemos de longe.
Em verdade, a árvore entidade é não só uma mera árvore física mas também podemos ver ou intuir nela um ser subtil, uma dríade ou hamadríade, ou até o duende que vive na árvore ou mesmo o deva ou anjo que anima uma zona florestal. Ao aceitarmos a existência destes seres invisíveis da Natureza, poderemos mais facilmente vê-lo e senti-los como as entidades subtis que invisivelmente modelam ou assistem às formas e transformações da Mãe Natureza e que a tradição popular, tradicional e oculta chamou de espíritos da Natureza, ainda que fantasiando-os muito e enriquecendo o mundo infantil com tantos contos de encantar...
Também podemos intuir que o vento é soprado por entidades não visíveis, para além dos espíritos da natureza, as quais podem ver as nossas necessidades existentes subtilmente na nossa alma, e podem responder e comunicarem-se-nos, e assim nesta explicação passa ser o vento animado um agente informador... 
Por exemplo, no Japão, o vento é denominado kaze e é considerado poder ser animado por espíritos, designados como os Kami, que tanto podem ser antepassados ou outros espíritos humanos, como também. e mais até em geral, espíritos da natureza, anjos e seres celestiais, manifestando tal mais em geral nos santuários e quando nos curvamos em saudação-adoração, tal como a fotografia em Ise Jinja sugere...
Na Pérsia, o vento e as brisas são vistos como possíveis portadores das correntes psíquicas, em especial dos seres amorosos e da Divindade, sendo bem descritos como seus agentes na poesia medieval persa, como estudei e palestrei em Saadi ou Hafiz, nomeadamente quando o amante pede ao vento que passa que lhe traga novas da sua amizade, ou lhe faça chegar o perfume dos seus cabelos, ou que lhe leve os seus sentimentos. 
 
O vento nestas tradições mais sensíveis e espirituais à Natureza animada é uma viração, eco ressonante e fluxo no grande Oceano que une todos os seres, em geral obedecendo à Providência Divina,  e que pode ser constituído e animado por correntes inter-comunicantes, postas em acção sobretudo pelo amor e a vontade, e assim fortificando os laços recíprocos e os fogos dos corações.
Há outra explicação causal das intuições que podemos obter do vento, e provavelmente a que acontece mais: encerramos e apresentamos uma rede de aspirações e interesses, desejos e receios, com os quais interagimos ou respondemos aos sons que nos chegam à alma e aos neurónios, dando origem a que tais impactos se configurem numa sensação, mensagem ou intuição.
Mas claro tanto podemos gerar uma mensagem correcta, ao conseguirmos espelhar a ordem, o todo ou a resposta certa, como também podemos ouvir ou ler erradamente, conforme projectamos demasiado as nossas expectativas ou medos sobre o influxo sonoro que é assim mal interpretado ou lido.
Ou seja, por vezes, conseguimos por uma serenidade e desprendimento deixar formar-se e vir ao de cima a mensagem ou resposta certa ou que precisamos. Ou seja, há uma sensação e leitura interpretativa dos sons do vento e das folhas como indicações que nos servem de bússola intuitiva de decisão, de acção e de verdade.
Talvez possamos ainda admitir que a nossa mente ou alma, ao estar calma e receptiva, abre-se ao Campo unificado de energia consciência informação, que também se pode denominar alma mundi, intelecto cósmico, ou mesmo Divino, já que o Cosmos sem o Ser Divino não teria a a coerência, beleza e propósito que lhe verificamos e que é a Divindade, ou a Inteligência divina nele manifestada ou subjacente. 
Mas também pode acontecer apenas um ser abrir-se ou estar sensível às correntes psico-energéticos que lhe são enviadas pelos outros seres, ou que eles emanam naturalmente, se entre si se amam, ou se pensam neles com alguma intensidade, pois a energia anímica irradia bastante, embora subtilmente, do nosso ser
Claro que esta hipótese da energia psíquica ou do pensamento e intenção poderem transmitir-se só está a ser investigada e reconhecida por poucos investigadores e institutos psico-científicos e surge como a acção à distância remota, de que há já comprovações de certas pessoas mais dotadas para tal.
Há contudo ainda outra hipótese a considerar-se: a do nosso próprio ser ou espírito utilizar o som exterior do vento nas folhas para induzir em nós uma audição directa diferida por ele próprio e assim quem fala ou dá mesmo a mensagem somos nós próprios, ou seja, a nossa essência espiritual que a intui no Cosmos ou no sub-campo que nos toca, ou a realiza por si mesma.
Neste sentido talvez corra algo daquele conto do príncipe encantado que busca perdidamente a sua dama e que quando a encontra e beija descobre que ela está também dentro de si, ou que ela é uma parte de si. Ou mesmo, para quem nela acredita, que a sua alma-gémea por ele procurada já estava dentro de si, ou em comunicação subtil consigo... 
                                        
Saibamos pois, quando estamos debaixo de choupo ou chorões, carvalhos, nogueiras ou castanheiros, abrir-nos às comunicações seja dos mundos superiores seja as que ligam as almas afins neste caminho de despertar do adormecimento em que estamos para uma plenitude maior de consciência, audição e visão espiritual. E, quem sabe, se além de alguma sibílica intuição do rumorejar das folhas, a "própria voz ou palavra Divina" se possa ouvir em nós...