quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O poeta, o doutrinador, o ser, em Duarte Montalegre, ou José V. de Pina Martins na sua juventude. No centenário do nascimento.

Os livros do prof. José Vitorino de Pina Martins (1920-2010) escritos sob o nome literário de Duarte de Montalegre, embora nascidos na sua juventude (o primeiro com 21 anos), espraiaram-se por cerca de vinte e quatro anos até ele regressar ao seu verdadeiro nome, provavelmente por compreender melhor a sua vocação de investigador rigoroso do Livro, da Cultura e do Humanismo. 
 Quem  o viu assim também foi João Bigotte Chorão, o emérito camiliano, sempre afável nos diálogos que travava, num pequeno texto de 2011, na Revista de Estudos Italianos, sobre Pina Martins e a Literatura Italiana: «Ao despedir-se do pseudónimo, o autor dos Ensaios de literatura europeia achava que a esses e outros escritos faltava lastro cultural, erudição indispensável, bibliografia exaustiva. Eram textos de carácter divulgativo, nada mais do que isso. Mas divulgar um tema ou um autor não pressupõe conhecimento aprofundado que se expõe sem aparato crítico? Das cinzas de Duarte de Montalegre, nasce o erudito humanista, o ilustre académico Prof. Pina Martins.»
Serão razões  mas também o contacto com a intelectualidade europeia e mesmo com o Humanismo italiano terão relativizado o  fogo de militante universitário católico, em  luta com as forças dissolventes ou anti-religiosas do sensualismo e materialismo,  comunismo e até neo-realismo, algo pouco visível  na sua poesia mas bastante nos textos do jovem doutrinador. 
 Com efeito, a sua 2ª publicação, 1942, aos vinte e dois anos, Juventude e Educação, foi inicialmente uma tese apresentada na II Semana de Estudos Sociais da Juventude Universitária Católica, realizada no Porto, lida diante das autoridades religiosas e oficiais,  integrada depois nos fascículo 6-7 da revista Estudos e só em seguida brilhando autónoma como separata  impressa por Pina Martins nas oficinas da Gráfica de Coimbra. 
 E se na capa continua com a socrática e espiritual vinheta do seu primeiro livro, o afastar os véus (do olho do discernimento) para a abertura à visão do Sol nascente e íntimo,  já na contracapa são transcritas as opiniões de nove personalidades amigas que comentaram o seu 1º livro, de poesia, Pregunta de Pilatos, (neste blogue já apresentado), todas elas reconhecendo tanto o fundo sério e intelectual como a sensibilidade artística e o anseio místico. 
 Quem escolheu ele, jovem estudante, para seus padrinhos? -  Dr. Afonso Lopes Vieira, Dr. Alfredo Pimenta, Amália de Proença Norte, Aurora Jardim, Belarmino Pedro, Dario de Almeida, Eduardo dos Santos, Dr. José Gonçalves Dias, Dr. P. Urbano Duarte. Este, escreveu: «São poemas. Não trajam moda comum e fácil. Não é um coração ferido pela seta, é uma inteligência preocupada a falar ao som do ritmo e da harmonia.» Já Aurora Jardim caracteriza-o bem:«Versos que correm em busca da Verdade - sua definição e síntese - versos dum abstracionista que parte do seu intimismo para a vastidão infinita do Universo (...)».
A conferência Juventude e Educação tratava na 1ª parte da "Juventude em geral", em função da vida, a de ontem, de hoje e de sempre, sua psicologia, fé, corpo, inteligência sensibilidade e verdade, e da Juventude Universitária Católica. Já na 2ª parte, da "Educação da Juventude em função do Homem", equaciona que há «uma educação da sensibilidade, da vontade, do carácter, da imaginação, pela subordinação de todas as actividades do Homem aos imperativos morais. (...) Eis porque todas as palpitações da nossa alma, todos os movimentos volitivos e todos os desejos e todas as sensações e toda a vida em suma do Homem, devem ser norteadas pela norma. E assim, pela educação integral o homem será Homem integral, isto é, perfeito, pelo menos em vontade impertérrita de o ser, pois caminha triunfantemente para Deus. E Deus está no coração daquele que, integralmente, o procurar.» 
Eis-no com uma metodologia acertada e perene, a da unificação de todas as nossas forças instintivas e anímicas, de que pode resultar a aproximação ao íntimo coração, aonde a Divindade se pode manifestar, mistério que deveremos sempre tentar meditar e aprofundar...
Vemos então que após a primeira desvendação do seu estro poético, A Pregunta de Pilatos, Pina Martins passa a partilhar a sua vocação de pedagogo, moralista, militante católico, traduzindo ainda os livros volumosos sobre Jesus Cristo de Reynès-Monlaur e Karl Adam, e esta polaridade alternante continuará nas próximas obras já que a terceira, de poesia, intitula-se Angústia, e sairá no ano seguinte, 1943, dedicada "ao eminente jurisconsulto Dr. José Gonçalves Dias, com poemas de grande beleza e cultura, unindo sensualidade e divindade, tristeza e felicidade, angústia e força dirigida.
                                        
Estão agrupados em 12 conjuntos, o I - Poemas Homens e Deus. II - Poemetos da Hora Nostálgica. III - Sombras que descem. IV - Bailado de Karsavina. V - Cantares do Reino da Noite. VI - As Vozes do Silêncio no Reino da Noite. VII - Pequenas Tanagras do meu sonho. VIII - Cariátides do Mundo da Quimera. IX - Vertigem de Shéhérazada. X - Diário. XI - Desencontro. XII - Renúncia. Transcrevamos dois do VII, para sentirmos algo do que o jovem Pina Martins vivia animicamente na época:


«Acordo agora: agora me acordei
e lanço fora os braços, do meu leito,
Olho a janela: e olho o senhor Rei
da luz e dela aceito a vida, aceito.

O sol travesso abriu-se em riso e côr.
Ao sol eu peço a luz que já me deu.
Salto da cama: a luz faz-se maior
e numa chama abraça o corpo meu.

A luz desvaira as carnes que se dão.
No quarto paira a ânsia do meu grito
E nesse beijo eu ponho uma oração

- que o meu desejo vai rezando ao Infinito.

         II

«Tanagra  do meu sonho desta noite:
- Vem dos longes longínquos do além-sonho
tornar mais branda a sombra que me afoite
neste rebate de medo tão medonho!

Tanagra do meu sonho: és tão pequena
que na palma da mão posso apertar
o teu friso de carne mais morena
que a mais morena vaga do alto mar!

Tanagra!

Vem serenar a tempestade da alma
que se ergueu dentro de mim; e sagra
no teu encanto breve a minha noite; acalma
a borrasca  de uma ansiedade tanta!
E ri e beija e chora e chora e canta
e faz-te a carne da minha carne magra,

- Tanagra -

A obra conclui com um Posfácio auto-crítico onde defende dever «comunicar o que é relevante ao conteúdo da sua mensagem humana, ao significado dos seus dramas, fixados em poesia, à novidade dos seus processos técnicos e à razão de ser que lhes suporta o visceral fundamento (...) é que se a missão do poeta é realizar-se pela beleza, num perene esforço de perfeição ideal, ele carece de não esquecer que toda a Beleza é comunicativa, tendendo a difundir-se, por simpáticos influxos, através das sensibilidades, das almas.»
Explica ainda como muitos dos poemas nasceram nas férias grandes em 10 dias de febre e cinco de convalescença,  e outros já tinham sido publicados na revista Estudos, no Novidades de 21.V.1942, e no Ilhavense.
E se nos dá assim algumas pistas para as suas irradiações poéticas em jornais e revistas, mais à frente dá-nos uma para o seu pseudónimo de Montalegre, exigente pois: «Não quer isto dizer que os meus versos sejam rudes, naturalmente agrestes ou vigorosos, do vigor das coisas do monte. Antes tal fossem: ganhariam de excelência por verdade real, o que de requinte não poderiam ter, por verdade fictícia.»
Compara ainda os seus dois primeiros livros de poesia: «Como a Pregunta de Pilatos, Angústia é um livro de experiência psico-agónica. Só que os poemas do primeiro revestiram caracterização ascético-metafísica, de cunho acentuadamente abstractivo, onde a estrutura do segundo, muito mais transparente, reveste caracterização simbólica, de cunho nitidamente sentimental»
De vários dos poemas, entre os quais os que trancrevi, dirá: «neles palpita uma ânsia de definição tão profunda e humana, uma angústia tão sincera e fremente, que deixar de publicá-los seria - penso - quase abdicar, como artista, do mais nobre coronal do artista: o direito, senão o dever, de mostrar, aos homens e a Deus, os meandros mais escondidos do sentimento agónico», explicitando depois que «através da angústia, - a grande experiência das almas, consegue atingir-se os cumes da Graça.» É uma pedagogia de assunção das dores e dúvidas, desassossego e melancolia, culpas e tristeza, num canto e batalha de aspiração à luz, ao amor, ao Divino.
Escritas as suas primeiras obras quando lavrava o incêndio angustiante da 1ª grande Guerra, será então que o seu pseudónimo ou nome literário ecoa o nosso rei D. Duarte, tanto melancólico como doutrinador, do Leal Conselheiro, enquanto o Montalegre é como o monte rude (referido anteriormente), sincero, verdadeiro, que se ergue luminoso ou alegremente na paisagem e percurso atribulado, também espelhado por Paracelso no seu lema Ad astra per aspera?
         
A sua quarta obra publicada, em 1943, O Amor Redenção do Mundo Moderno (que posteriormente será referida, por razões conjecturáveis, sempre sem o Amor), dedicado a Virgílio Godinho, com apreciações na contracapa de Teixeira Pascoaes e de Marcelo Caetano, é de proselitismo cristão, católico e de esperança que a guerra termine brevemente e que a Humanidade renasça. Inicia com uma crítica ao messianismo de Nietzsche e à filosofia comunista, pois «há uma ética de esforço que postula essencialmente a realização humanística: a ética cristã. Faltando ela, fatalmente o humanismo falhara pela base e será, então, antropolátrico, demolátrico, estatolátrico ou qualquer coisa similar; porque não pode compreender-se o homem num quadro de isolamento individualista, sem se atentar em mais altos valores, coordenados ao seu próprio valor intrínseco e metafísico.» Estas reflexões são perenes, e com actualidade redobrada face ao terrorismo, ao neo-liberalismo individualista e globalista e à feroz repressão  por governos neo-conservadores.  O texto termina com muita fé:
«Acreditemos firmemente nas forças do homem!
Acreditemos firmemente na sua potencialidade para amar!
Acreditemos que só da caridade promana a redenção!
Acreditemos  no génio cristão e civilizador da cristã e civilizadora Europa!
Acreditamos, enfim, que sobre a ruína das nações abaladas, uma nova ordem se erguerá, em aurora, para levar a vida - a vida do amor - à velha morte do ódio.»
Todavia, a evolução histórica parece desmentir a esperança optimista sonhada por Duarte de Montalegre quanto à missão da Europa, hoje cada vez menos cristã e civilizadora, antes subjugada por tendência belicistas, globalistas ou mesmo as imperialistas da USA e da NATO...
        
Em 1945 sai em Braga a 5ª obra, apologética, Cristo no Pensamento Moderno, um trabalho valioso de investigação, no qual Pina Martins procura defender as doutrinas ou teses do catolicismo face às diferentes interpretações gnósticas, heréticas, racionalistas e modernistas, tentando provar ainda que só a revelação de Jesus e do seu amor caridade é suficiente e completa, face às antigas religiões, que vai descrevendo de forma abreviada e com as limitações do que conhecia, reservando maior apreciação para Sócrates e Platão. "Das heresias contemporâneas salientarei o socialismo, o liberalismo e a estatolatria pagã do marxismo-leninismo" e contra elas escreve as últimas páginas, antes de concluir com o apelo a seguirmos o "sulco luminoso que ele [Jesus] traçou, com o seu novo mandamento de amor; não devemos transigir com os erros grosseiros que o negam, pois negar-nos-íamos assim, nós que nos julgamos, como valores, participações da Verdade Suprema; não devemos enfim seguir outra norma de conduta, que não esteja contida na mensagem vitalista do seu Evangelho. Só por este meio nos realizaremos no Senhor, em pensamento e acção; e só por este meio, com efeito, demonstraremos a presença de Cristo em nós e no meio de nós. » 
Às sessenta e duas páginas do ensaio seguem-se cinquenta e três contendo 125 extensas anotações, ligadas a  citações de autores,  concluindo, em onze páginas, com À margem das anotações, onde critica de novo Hegel, o Comunismo e, mesmo no fim, Oliveira Martins por ter escrito no II vol. da História da República Romana (1885) que o «Cristianismo é uma alucinação fúnebre que substitui ao realismo naturalista um realismo fantasmagórico, e ao culto do Amor desenfreado o culto desvairado da Morte. S. Paulo é um António que traz nos braços o esqueleto de Cleópatra», encerrando persuasivamente: «Não se apercebeu Oliveira Martins de que para a concepção cristã, o homem só se realiza no Infinito pela superação da morte, e que, como disse George Valois (Le Père, Paris, ed. définitive, 1924. p. 122), «l'amour tue la mort», paráfrase do Amor omnia vincit, ou mesmo do soneto de Antero Quental, Mors Amor, já trabalhado neste blogue, Antero a quem Pina Martins dedicou uma tese ainda hoje inédita, pois foi só policopiada...
 E acrescenta «Não é verdade que as almas simples sentem Deus tão naturalmente, como sentem o calor do sol ou o perfume de uma flor?» (A. Carrel, A Oração, Livr. Tavares Martins, Porto, 1945. p. 17). Temos de amar a beleza da ciência e também a beleza de Deus (Idem, ib., p. 44). Se a razão pode amar, por ela mesma, a beleza da Ciência, foi Cristo que nos ensinou a amar a Beleza de Deus. E nós precisamos de Deus, como o peixe de água e o coração de amor». 
                                            
No ano seguinte, 2ª grande Guerra já terminada, 1946, Duarte Montalegre ou Pina Martins dá à luz Cântico, na colecção Poesia Nova, de Lisboa, quem sabe pela sua amizade a Miguel Trigueiros, onde manifesta a sua religiosidade intensa, da aspiração e entrega a Deus, de corajoso enfrentar da noite e isolamento, sofrimento e morte (na linha de Antero de Quental, uma das suas almas fontes na época) e, simultaneamente, de procura, sonho e entrega à amada que tanto deseja, sincera e de toda a sua alma e sangue. Tinha 26 anos...
Após uma bela Oração Matutina ao Senhor, encontramos Os Primeiros Poemas de Amor, Do Longe e do Sem Fim, Verbo e Sangue, Cântico da Saudade, Cântico do fim da Noite. Oiçamo-lo no antepenúltimo poema, Voz do Poeta para Aquela que há de vir antes do fim da noite, decerto um apelo àquela que viria a ser a sua mulher, a Primula:

"Vem, ó minha Esposa perdida para sempre
No longe e no sem fim do esquecimento!
Vem, ó Minha Irmã deixada para sempre
No rio Létis da sombra que deixei!
Vem, ó Razão que me assiste de gritar
Por aquilo que a vida me não deu!
Vem, ó Sonhada Esperança do meu beijo
E partamos para o mar de uma aventura
Antes que a noite termine onde eu termino
E desça à nossa dor o Espírito Divino
Que nos há-de ressuscitar."
 
Sugestiva e bela face duma alma luminosa ao lado do poema Aquela que há de vir...
 A ordenação neste livro das suas sucessivas obras, estaria já a preparar o desaparecimento de Duarte Montalegre? 
«Verso: Pregunta de Pilatos, 1941; Angústia, 1943; 2ª edição, com um prefácio de Plínio Salgado, 1945. Cântico, 1946.
Doutrina: Juventude e Educação, 1942.  Redenção do Mundo Moderno, 1943. Cristo no Pensamento Moderno, 1945.
Investigação: Ensaio sobre o Parnasianismo Brasileiro, 1945. Eça de Queirós - Reflexões para um ensaio sobre o seu ideário ético-estético, 1946. Apontamentos Críticos e Literários (a sair)» 
Não registou algumas das traduções realizadas, e por vezes bastante volumosas, até pelos seus prefácios, como é o caso de Últimos passos de Jesus, editado em Braga na Editorial Nós, em 1945, com CXVII páginas. O exemplar que possuo foi oferecido com dedicatória ao poeta Miguel Trigueiros, tal como, já em 1947, em Coimbra, na Casa do Castelo-Editora, o volumoso Jesus Cristo, de Karl Adam.
 Não sabemos que intuições e intenções precisas se geravam no seu caminho ascensional, mas ainda sairão alguns livros de apontamentos ou ensaios críticos e literários (mais religiosos, e sobre Pascal) sob nome o Duarte de Montalegre, bem como os seus últimos cantos poéticos, em 1950 em Itália, Soffio della Note e, finalmente, Rio Interior, escrito entre 1950-1953 e publicado em 1954, em Lisboa, quando era leitor de Língua e Literatura Portuguesa  em Roma, sentindo-se nele uma crise religiosa, numa certa linha anteriana, já que mau grado todo o diálogo, escuta interior e oração ao Deus bíblico  da sua infância (de facto, uma tão limitada concepção de Deus), Jeová não lhe respondia. 
 Todavia, o seu rio de sonhos e aspirações erguia-se matinal e optimisticamente, sublimando a sua aspiração divina nos livros e na sabedoria humanista, por onde se iria aventurar com tanto rigor e ciência quão prodigiosa fecundidade e convivialidade por toda a Europa (nomeadamente Roma, Poitiers e Paris), então bem mais humanista e irenista.
Muita Luz e Amor para José Vitorino de Pina Martins e para a Primula.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Biografia do prof. Jose V. da Pina Martins, sucinta e cronológica. No centenário do seu nascimento, 1920-2020.

Dois notáveis erasmianos, à esquerda, Marcel Bataillon e à direita Pina Martins.
O prof. José Vitorino de Pina Martins nasceu em 18 de Janeiro de 1920, começo da noite, em Penalva de Alva, concelho de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra,  filho de António Vitorino de Abrantes Martins e de Maria Olímpia Faria de Pina. Educado num ambiente cristão católico e culto, desde muito novo, aos 4 anos, sentiu o amor pelos livros graças à biblioteca familiar, onde uma edição minúscula dos Lusíadas o encantou, começando depois a ler Connan Doyle e Júlio Verne. 
Na instrução primária recebeu o magistério inspirador  da professora D. Felicina Guilherme Hall, residente na aldeia das Dez, que o estimulou no amor e compreensão da leitura, além de memorização de passagens mais belas dos Lusíadas, desde a proposição à batalha do Salado e à formossíma Inês de Castro.
Frequentou o Seminário de Coimbra, "foi uma boa escola", dirá, onde aprendeu latim e literatura, não chegando à filosofia. Só depois entrou na escola Secundária, no Colégio de Brás Garcia Mascarenhas, em Oliveira do Hospital, "uma excelente instituição e ensino". Os exames de 3º, 6º e 7º anos foram prestados no Liceu D. João III em Coimbra, tendo a nota mais alta, 20, em Latim.
Em 1941 publica o seu primeiro livro sob o pseudónimo de Duarte de Montalegre, A Pregunta de Pilatos. Poemas ascético-filosóficos, a que se seguem em 1942, ano em que entra na Faculdade de Letras Juventude e Educação, e em 1943 duas obras: Angústia, poemas,  e o ensaio O Amor redenção do mundo moderno.  Alguns deles tinham sido publicados na conimbricense revista de cultura e formação católica Estudos, 1942.
A apreciação por carta de Teixeira de Pascoaes à sua primeira obra é elogiosa: «Li os seus poemas com o maior prazer espiritual. São cantos nascidos e não feitos, denunciando o ímpeto espontâneo da inspiração, que é, julgo eu,  a característica dos poetas autênticos...». Serão ainda vários os livros que publicará sob o pseudónimo de Duarte Montalegre, talvez custeados pela orientação  prestadas nas disciplinas de Latim, Filosofia e Literatura Portuguesa em alguns colégios de Coimbra.
Participou no movimento estudantil Coimbra que gravitava à volta da revista de cultura e formação católica Estudos, onde além dos artigos que publicou podemos ler por exemplo que na semana de estudos da Juventude Universitária Católica, realizada de 19 a 23 em Coimbra,  com nomes que se tornarão bem conhecidos como Francisco Sousa Tavares, Barrilaro Ruas (então presidente do C.A.D.C.) e Rui Cinati. Pina Martins intervém em três das sessões.
Em 1946, o prof. Joaquim de Carvalho convida-o a assistir na Universidade a uma conferência de Marcel Bataillon sobre Erasmo e fica muito impressionado com a qualidade do autor e do tema; quase trinta anos mais tarde, em 29-6-1973, em Paris, na avenue Jena, retomará essa amizade. Quanto a Erasmo e os Humanistas a semente também floresceu...

Em 1947 licencia-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra com a tese Miséria e Grandeza do Homem em "Les Pensées" de Blaise Pascal. Algumas publicações posteriores ecoarão a simpatia pelo existencialismo cristão e a fé de Pascal. 

Destacará, nos "excelentes" professores, Joaquim de Carvalho (certamente o seu principal iniciador), Rebelo Gonçalves, Damião Peres, Lopes de Almeida, Costa Pimpão, Paulo Quintela. Nos investigadores, Mário Brandão e Torquato de Sousa Soares.  Entre os condiscípulos havia os alunos exemplares destinados a professores, tais Américo Ramalho, Maria Helena Rocha Pereira e José de Castro Nunes, e os que pela sua cultura e talento literário prometiam, tais como Virgílio Ferreira, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Dario Martins de Almeida. Ou ainda Joaquim Veríssimo Serrão, João Antunes Varela, Gonçalves Rodrigues e Magalhães Vilhena. 
Dos amigos mais próximos referirá primeiro Amândio César, "um verdadeiro devorador de livros, e de textos poéticos modernos", e que "como poeta afirmava-se na sinceridade e autenticidade", sendo "profundamente religioso". Este por sua vez corresponderá numa dedicatória dum livro, em 1951: «Para o Duarte Montalegre - ao Querido amigo e ao Intelectual mais alto da minha geração, com um xi do Amândio». E, depois, seus bons amigo também, Dario Martins de Almeida, Henrique Barrilaro Ruas e Eduardo Lourenço.
De 1948 a 1955 foi leitor de Português em Itália, na Universidade de Roma La Sapienza, tendo frequentado o curso de Biblioteconomia do Vaticano,  seguindo  na disciplina de Storia del Libro as lições de Lamberto Donati um grande conhecedor do livro ilustrado do Renascimento. Na Universidade de Bolonha estudou as relações históricas entre Itália e Portugal no século XVIII (à volta de Ludovico Antonio Muratori), sob o magistério de Carlo Calcaterra. 
Em 30.III.54, aos microfones da Radio Vaticano, faz um sábio apelo em prol da libertação de Ezra Pound, detido há oito anos pelos norte-americanos, que será publicado por Leo Magnino (que fora leitor de Italiano em Coimbra), na versão inglesa de Olivia Rosseti Agreste, e no qual põe em causa  os Estados Unidos da América quanto a seguirem o que apregoam:«os princípios da liberdade humana e dignidade, e a supremacia dos valores espirituais». A História dar-lhe-á razão, tanto na altura, já que o Parlamento Italiano fez então mais pressão para a sua libertação (de um manicómio e conseguiu-a), como hoje em que a opressão dos direitos humanos e da dignidade humana é a política corrente ou vigente do império norte-americano.
Publica em Braga em 1954, sob o nome de Duarte Montalegre, o  livro de poesia Rio Interior, "dedicado a memória de Teixeira de Pascoaes", com uma ilustração de Martins da Costa, contendo no interior um poema dedicado à Primula, a sua mulher, italiana.  
Em 1955 é transferido para o leitorado de português da Universidade de Poitiers, em França, onde trabalhou com Raymond Cantel. 
Em 1957 inscreveu na Universidade de Paris III (Sorbonne Nouvelle) as suas teses de doutoramento, nas quais trabalhou sob orientação de Léon Bourdon e Robert Ricard. 
Em 1961 foi convidado para assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, regressando em 1962, e rege as cadeiras de História da Cultura Moderna (1962), de História da Cultura Clássica (1962-1963), de História da Literatura Portuguesa II (1963-1964) e de Literatura Italiana (1963-1972), valorizando o estudo da história do livro e das fontes antigas.
São desta época (1964) os seus Ensaios de Literatura Europeia, publicados nas Edições Panorama, ainda sob o pseudónimo de Duarte Montalegre, e onde escreve sobre  S. Francisco, Marco Polo, Leopardi, André Gide, Bernanos, Jacques Maritain, Giovanni Papini, Ezra Pound, Endre Ady, Luigi Salvini, Jose Maria Valverde, Ribeiro Couto (poeta brasileiro a quem dedicará outros estudos), Jorge de Lima, Werner Bergengreuen, Giusuppe Ungaretti, Luigi Fantappié, Raffaele Spinelli, a este autor tendo dedicado também publicações individuais.
Em 1965 com Paulo Quintela, Vitorino Nemésio e Justino Mendes de Almeida dirige as celebrações universitárias do centenário de Gil Vicente. 
Em 1970 conclui uma das suas magníficas obras, que publicará em 1972, Sá de Miranda e a Cultura do Renascimento. I. Bibliografia, catalogando e comentando cerca de 1300 livros ou documentos mirandianos, muito deles reproduzidos. Das várias pessoas que de algum modo o ajudaram avultam investigadores como Gonçalves Rodrigues, Eugenio Asensio, Victor Buescu, Martim de Albuquerque, José Adriano Carvalho, e os livreiros Alfonso Cassuto, Américo F. Marques, António Tavares Carvalho, Ernesto Martins, Almarjão, João Rodrigues Pires e José Telles da Silva, a quem agradece.
Autógrafo de Sá de Miranda, e gravura a água forte e ponta seca de Martins da Costa.
Em 1972 dirige na Biblioteca Nacional a Exposição acerca d' Os Lusíadas,  sendo o responsável de Os Lusíadas (1572-1972). Catálogo da Exposição Bibliográfica, Iconográfica e Medalhística de Camões.  Prefácio de Manuel Lopes de Almeida. Introdução, selecção e notas bibliográficas de J. V. de Pina Martins. Lisboa, Imprensa Nacional, 1972. Cerca de 800 páginas, um trabalho gigantesco.
De 1972 a 1983 é Director do Centro Cultural Português, da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, onde além de receber, com grande hospitalidade,  com a sua mulher Primula, os investigadores,  publicou mais de uma centena de edições de carácter científico no campo das letras humanas, num mecenato muito valioso, promovendo e participando em numerosas conferências, exposições e colóquios. Na colecção
Civilização Portuguesa começa a editar livros de grande sabedoria humanista, os dois primeiros sendo de Marcel Bataillon, Études sur le Portugal au temps de l'Humanisme, e de Eugenio Asensio, Estudios Portugueses, ambos no ano de 1974 e prefaciados por ele. Nos Arquivos do Centro Cultural Português de Paris organizará e publicará doze grossos volumes de alto valor cultural, três deles de homenagem a três grandes almas da "lusofilia universitária": Marcel Bataillon (em 1975), Leon Bourdon (em 1982) e Raymond Cantel (em 1983).
Viu contudo gorado o seu projecto de publicação em francês de uma biblioteca essencial da literatura portuguesa que a UNESCO e a Fundação Gulbenkian queriam publicar, por oposição da engenheira Lurdes Pintassilgo, então a representante Portuguesa,  perda  da divulgação da tradição cultural portuguesa algo  que sempre  lamentará. Já  em boa cooperação com a Universidade de Paris VIII instituiu cursos de Língua e Cultura Portuguesas no Centro  Cultural Português, em Paris, da Fundação Calouste Gulbenkian, que em 1983  tinham 178 alunos. 
Em 1973 identifica, estuda e publica o Tratado de Confissom (Chaves, 8 de Agosto de 1489), com "fac-símile, leitura diplomática e estudo bibliográfico", do primeiro livro impresso em português com caracteres góticos provindos de Espanha, a partir da descoberta que um livreiro alfarrabista, Tarcísio Trindade, fizera no norte de Portugal, em 1965.
Em 19 de Dezembro de 1974 defende durante seis horas as  teses de Doctorat d'État na Universidade de Paris III (Sorbonne Nouvelle), perante um júri presidido por Marcel Bataillon, do Collège de France, composto por Eugenio Asensio, Robert Ricard, Paul Teyssier, Raymond Cantel e André Saint-Lu, tendo alcançado com unanimidade a mais alta classificação. Será em 1976 que sairão nas Presses Universitaires de France, sob o título: Jean Pic de la Mirandole, un portrait inconu de l'humaniste. Une édition très rare de ses Conclusiones.
De 1974 a 1983 fundou e dirigiu com Jean Aubin o Centre de Recherches sur le Portugal de La Renaissance, na École pratique des Hautes Études (IVe section - Études historiques et philologiques), onde ensinou durante nove anos, dirigindo a cadeira de Civilização Portuguesa como chargé de conférences. 
Em 1975, a partir da ideia da então leitora de português em Roma, Elsa Gonçalves, coordenou, em Roma, sob a égide da Accademia Nazionale dei Lincei, do Instituto de Alta Cultura e da Fundação Calouste Gulbenkian a mostra bibliográfica sobre Camões e il Rinascimento Italiano para a qual redigiu igualmente o  catálogo, co-prefaciado com Luciana Stegagno Picchio, e no qual estavam descritos os 64 incunábulos e quinhentistas italianos expostos e considerados como fontes da poesia de Camões, «uomo del Rinascimento, formato dall'Umanesimo e attento a tutti gli interessi culturali e storici di un'epoca in cui l'uomo guarda alla realtà concreta del mundo», que «non esalta solo la storia del Portogallo, glorificando la scoperta della via marittima per le Indie: esalta sopratutto l'uomo capace di trionfare di ciò che la leggenda gli presentava come ostacole insuperabile, come prospettiva catastrofica».
Em 1976 esteve a pronunciar conferências no King's College de Londres e a dirigir um seminário em Oxford sobre o Humanismo português e sobre Giovanni Pico della Mirandola.
Em 1980 viaja ao México com seu grande amigo Eugenio Asensio, onde proferem conferências camonianas no Colégio do México, e peregrinam tanto Teotihuacan como o santuário de Nossa Senhora de Guadalupe. De tal resultará a publicação em 1982, com Asensio, do Luis de Camões. El Humanismo en su obra poética. Los Lusiadas y las Rimas en la Poesia Española (1580-1660), onde a dado momento afirma: «Por lo que toca al neoplatonismo, aunque los poemas de Camões especialmente los poemas líricos, no dejan lugar a duda, el mismo poeta nos dejó un testimonio claro en el monologo del personaje central de una de sus piezas, el Auto llamado Filomeno. En él, se habla de Platón, del Bembo, de Garcilaso, de Laura y de sonetos». 
Regressa a Portugal em 1983, já que fora convidado a ocupar o lugar de professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a ser  Director do Serviço de Educação da Fundação Calouste Gulbenkian, actividade em que se exerce um mecenato cultural de teor social e humanista inigualável na história da Fundação e das múltiplas entidades culturais que necessitavam de apoios.
De 1985 a 1990 foi o Professor-Bibliotecário da Biblioteca Central da Faculdade de Letras, enriquecendo-a em vários aspectos. Em 1990, a Bibliotecária Assessora principal Lydia Pimentel elabora a bibliografia do seu antecessor, expondo 99 obras na Biblioteca: 16 de estudos bibliográficos, 59 de estudos críticos, 15 prefácios, 6 testemunhos e 3 traduções. Após algumas peripécias virá a ser esta  Biblioteca da Faculdade de Letras a possuidora dos livros antigos do prof. Pina Martins. Já em 1998, para uma pequena exposição na Biblioteca Nacional, Manuel Cadafaz de Matos cataloga, prefacia e descreve 129 Trabalhos Científicos de um grande investigador, José Vitorino de Pina Martins.
 Pertenceu à Academia das Ciências de Lisboa como académico associado desde Abril de 1977, proferindo a sua primeira comunicação nas comemorações sobre Thomas More, em Junho do mesmo ano. E foi eleito sócio efectivo em 1985, nesse ano sendo o Secretário geral do 1º Simpósio Nacional sobre O Humanismo Português 1500-1600 (de que sairão as notáveis comunicações,  em 700 páginas em 1988, a sua sendo sobre Sá de Miranda e a recepção no século XVI de um Dolce still nuovo renovado), tendo sido várias vezes eleito para exercer magistralmente os cargos de Presidente e Vice-Presidente da sua Classe de Letras, e de Presidente e Vice-Presidente da própria Academia, além de Inspector da magnífica Biblioteca, que bastante protegeu e valorizou, tendo publicado comunicações suas e de outros académicos.
 A época que mais o atraiu e investigou foi o  Renascimento, mas tanto recuando nas raízes como prolongando-o nas  frutificações, caracterizando-o na sua 1ª fase, a do auge do Humanismo, como «a reinvidicação da dignidade da humanitas e o primado do homem na cidade terrena, e a descoberta dos valores essenciais que o interessam através das letras humanas e o estudo das fontes antigas»,  a qual termina com o Concílio de Trento; já a sua segunda fase é mais naturalista, utópica e científica, representada respectivamente por Giordano Bruno, Tommaso Campanela e Galileu Galilei, "o último dos grandes pensadores do Renascimento".
Em 1987 orienta uma exposição do qual sairá um catálogo bibliográfico bem ilustrado, onde são descritos 335 cimélios, escrevendo a introdução e as  notas, intitulado Erasmo na Biblioteca Nacional séc. XVI.

Os principais autores que amou, investigou e ensinou foram Giovanni Pico della Mirandola, Thomas More, Erasmo, Damião de Góis, Sá de Miranda, e tinha deles imagens nas paredes da sua biblioteca. E em seguida, dos italianos antigos, Dante, Petrarca (estes dois bastante), Bocacio, Lorenzo Valla, Marsilio Ficino, Angelo Poliziano, Cristoforo Landino, Girolamo Benivieni, Sadoleto, Doni, Baldassar Castiglioni e Tommaso Campanela. Dos mais recentes Giacommo Leopardi (1789-1837), «porventura, depois de Dante e Petrarca, a maior figura da poesia italiana de todos os tempos». 
Já dos outros europeus nomeemos John Collet, John Fisher, Guillaume Budé, Lefèvre D'Étaples, Étienne Dolet, Reuchlin, Nebrija, Arias Montano, Garcilaso de La Vega (da qual noticiou a descoberta de uma edição desconhecida adquirida na olisiponense Livraria Antiquária do Calhariz) e já no séc. XVII, Pascal.  Dos portugueses, além de Sá de Miranda (1481-1558) e Camões (1525-1580), destacaram-se Gil Vicente (1465-1536) João de Barros (1496-1570), André de Resende (1500-1573), Bernardim Ribeiro (1482-1552), D. Jerónimo Osório (1506-1580), Frei Heitor Pinto (1528-1584), D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666), Luís António Verney (1713-1792), Almeida Garret (1799-1854) e Antero de Quental (1842-1891).
Dos seus contemporâneos homenageou vários com textos, nomeadamente Joaquim de Carvalho, Vitorino Nemésio, Victor Buesco, Fernando de Mello Moser (grande amigo e co-autor de um catálogo e exposição dedicada a Thomas More), Jacinto do Prado Coelho, Rómulo de Carvalho, Joaquim Veríssimo Serrão, Maria de Lourdes Belchior, Delfim Santos,  Félix A. Ribeiro e  seu mais querido amigo Eugenio Asensio (com quem convive desde 1965, em peripatéticas conversas e animadas buscas e trocas de livros raros), o notável descobridor em bibliotecas de exemplares de edições perdidas de Jorge Ferreira de Vasconcelos e D. Gaspar de Leão e que tão bem as estudou e partilhou. Publica mesmo em 1990, em 110 páginas uma sucinta biografia e encómio: Eugenio Assensio doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa.

Eugenio Asensio, notável investigador e seu íntimo amigo...

Orientou vários seminários e conferências públicas e apresentou comunicações em numerosos congressos em Universidades da Europa e da América e em encontros internacionais que tiveram lugar em Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça, Polônia, Hungria, Canadá, EUA, México e Brasil. 
Entre as suas principais obras, e mais volumosas, destacaremos Humanismo e Erasmismo na cultura Portuguesa do séc. XVI. Estudo e e textos. Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1973 e Humanisme et Renaissance. De L'Italie au Portugal. Les deux regards de Janus, 2 vols., impressos pela Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, 1989, contendo 25 anos de estudos sobre os principais autores e obras de humanistas italianos e portugueses, em 1000 páginas muito bem ilustradas e anotadas.
Nesse mesmo ano de 1989 levava a Chaves "vinte e dois livros antigos de espiritualidade (1502-1592)" imprimindo a Câmara Municipal de Chaves um catálogo prefaciado e anotado por Pina Martins, Mostra Bibliográfica Comemorativa do Quinte Centenário do Tratado de Confissão (Chaves, 8 de Agosto de 1489), e concluía o seu estudo introdutório assim: «Portugal tem mais de oito séculos de existência. A sua unidade como Nação define-se como comunidade viva através da consciência colectiva da sua identidade histórica. É indispensável que todo o país saiba que a macrocefalia cultural pode vir a ser nociva para o equilíbrio moral da Pátria, como Francisco Sá de Miranda reconhecia, cerca de quatro décadas depois do aparecimento do Tratado de Confissom: Ao Reino cumpre ele/Ter a quem o seu mal [e bem] doa,/ Não passar tudo a Lisboa,/Que é grande o peso, e com ele/ Mete o barco na água a proa».
Em 1994, comemorando o V Centenário da morte de Giovanni Pico della Mirandola cria uma Exposição bibliográfica na Biblioteca Nacional, com 80 obras, saindo o Catálogo com prefácio, catalogação e nota bibliográfica de Pina Martins e os índices por Margarida Cunha, tendo eu contribuído com duas edições modernas de Pico, como ele assinala na dedicatória: "Ao Dr. Pedro Teixeira da Mota, como homenagem à sua cultura, oferece Giovanni Pico..., catálogo onde também figuram obra suas, com um abraço afectuoso, Lisboa, 25.III.95, José V. de Pina Martins.»
Em Março de 1998 é o responsável pela exposição na Biblioteca Nacional das comemorações dos 500 anos da melhor edição (a 3ª) latina da Utopia, publicando A Utopia de Thomas More, e o Humanismo Utópico 1485-1998. Catálogo de ums síntese biblio-iconográfica, onde descreve sóbria e judiciosamente 112 cimélios da Biblioteca Nacional e da sua Biblioteca de Estudos Humanísticos. Foi coadjuvado pelas suas discípulas Maria Valentina Sul Mendes, especialista em incunábulos, e Margarida Cunha, especialista em encadernações antigas e manuelinas.
Em 1999 publica em homenagem a Maria de Lurdes Belchior e à cultura Hispânica uma descrição bibliográfica de 25 Livros  do século XVI impressos em Espanha da Biblioteca de Estudos Humanísticos de Lisboa.
 Numa linha de doutrinador futurante, contendo propostas para os nossos dias, publicou em 2005 a Utopia IIIrelato em diálogo sobre o modo de vida educação usos costumes em finais do século XX do povo cujas leis e civilização descreveu fielmente nos inícios do século XVI o insigne Thomas More. Em 2006 escreve um Estudo introdutório à Utopia Moriana, na Utopia de Thomas Morus,   na edição (bilingue)  crítica, tradução e notas de comentário por Aires de Nascimento (um dos nossos melhores humanistas contemporâneos). E em 2007,  como historiador do livro e das mentalidades, bibliófilo e memorialista, as Histórias de Livros para a História do Livro, onde relata as peripécias da sua vida itinerante de amante da Cultura e do Livro, suas descobertas bibliográficas e seus encontros e diálogos com alguns dos melhores investigadores, livreiros e bibliófilos europeus, dos quais nomearemos apenas dois dos investigadores do Humanismo que mais apreciou e com quem conviveu tão agradavelmente, Marcel Bataillon e Eugenio Asensio.
Na realidade a sua casa era uma biblioteca viva, com livros sempre a entrarem ou a saírem, no fundo um museu ou casa de musas, onde alguns mestres pontificavam pelas pinturas, gravuras e medalhas, e pelos livros que tinham escrito, publicado ou sobre quem outros tinham  escrito. Com efeito, não era onde vivia com a sua querida Primula (e durante alguns anos com sua filha Eva Maria), no 2º andar na  Rua Marquês da Fronteira, também ele com as paredes cheias de livros menos antigos, que estava a sua biblioteca, mas sim no  5º andar, transformado em templo de livros, e que aí se oferecia aos olhares ou mesmo manuseio de investigadores, bibliófilos e amigos, no fundo todos frágeis peregrinos face aos mais de seiscentos quinhentistas que habitavam nas duas amplas salas.
Na oriental pontificava uma grande pintura de Thomas More, com centenas de obras moreanas, e de outros humanistas ingleses, tais como John Fischer e  John Colet, bem como de  humanistas europeus; na parede a norte desta sala estavam as mais volumosas obras, de religião (tal como a Bíblia Poliglota Complutense, obra prima da tipografia espanhola, sob a protecção do cardeal Cisneros, ou alguns volumes da Bíblia Poliglota Plantiniana, de Arias Montano), de bibliografia, dicionários e outras de referência, enquanto a sul uma vasta e cheia secretária tinha as costas ao sol que entrava forte quando as persianas não eram baixadas.
 Já  na sala a Ocidente brilhava a belíssima pintura seiscentista de Giovanni Pico della Mirandola, rodeada de inúmeros cimélios quinhentistas raros do humanismo italiano e em particular de cerca de cem impressos por Aldo Manuzio, o sábio impressor onde Erasmo estagiou na sua aprendizagem do grego e que foi o inventor da letra itálica, que fez diminuir o tamanho dos livros, o que  agradou a Erasmo, pois por vezes os livros viajavam pesando dentro de barricas ou tonéis de vinhos. Pina Martins, em 1994, coadjuvado por duas suas valiosas discípulas e amigas da Biblioteca Nacional, Maria Valentina Sul Mendes e Margarida Cunha editou o Catálogo Edições Aldinas, Séculos XVI e XVI.
A norte desta sala ocidental estavam os livros portugueses dos séculos XVI, XVII e XVII, de humanismo e de história, com alguns de poesia peninsular, nomeadamente Sá de Miranda, Garcilaso de La Vega, Francisco de Sotto Mayor.
Tinha ainda uma espécie de andar superior com livros de estudo humanístico e literário não muito antigos,   acima destas duas salas nobre da sua biblioteca que desaguavam ainda para a cozinha e a dispensa  com livros que não lhe interessavam e que trocava ou vendia.
Era nestas duas salas   bem ornada das pinturas e guarnecida de duas boas secretárias e sofás que recebia Pina Martins afavelmente os que o procuravam para receber seus conselhos, para admirar os seus cimélios ou aqueles que ele convidava. 
Lembro-me neste sentido de uma celebração em pequeno grupo do dia de nascimento e morte de Platão, na linha do que a Academia Platónica florentina de Marsilio Ficino realizava todos os anos, realizada em 1996, pois a dedicatória de um livro assinala: «Ao Dr. Pedro Teixeira da Mota, como lembrança deste dia ficiano de 7.XI.99 em que dialogámos sobre o pensamento platónico na Biblioteca de Estudos Humanísticos, oferece Livros Quinhentistas sobre o Amor o seu amigo e colega de pesquisas bibliográficas, José V. de Pina Martins». 
Nesta apostilha bibliográfica considera o comentário de Marsilio Ficino Sopra lo Amore o ver'Convito di Platone, como a grande fonte dos tratados de Amor renascentistas, nomeadamente nos Dialoghi di Amore de Leão Hebreu (o que prova bastante neste livro), Gli Asolani, de Bembo,  Natura di Amore de Mario Equicola e  Cortegiano de Castiglione. O Amor em Marsilio Ficino surge-nos então como o meio da alma dotada da Verdade passar a estar formada de Verdade, e assim consciente e cosmicamente imortalizada e à Divindade religada... Assim seja...
Desencarnou no dia 28.IV.2010, em Lisboa, já com 90 anos, libertando-se na sua própria casa, a três metros das estantes de uma das divisões da sua biblioteca, do corpo físico já enfraquecido, partindo luminosamente para o mundo espiritual, como de algum modo foi dado a ver dois dias depois, no enterro, nas maravilhosas nuvens que se manifestaram no céu, coroando e infinitizando o zimbório e Basílica da Estrela.
Recentemente, no ano de 2021, Manuel Cadafaz de Matos deu há luz mais um número da sua valiosa Revista Portuguesa de História do Livro, dedicada em grande parte a ele e em que contribuímos os dois, publicando ainda o catálogo da sua biblioteca, hoje na Faculdade de Letras de Lisboa.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Comemorações do centenário do nascimento do prof. Pina Martins. 1º. "A Pregunta de Pilatos". 1941.

"Dirige oculus tuo in te ipsum"
O investigador e professor José Vitorino de Pina Martins, que se formou em Filologia Românicas na Universidade de Coimbra em 1947 e teve um notável percurso como leitor de português em Roma e Poitiers, professor universitário em Lisboa, director do centro cultural da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, director dos serviços de Educação da mesma Fundação, Presidente e Vice-presidente da Academia de Ciências vários anos, organizador de dezenas exposições bibliográficas e biblio-iconográficas, participante e organizador de inúmeros colóquios, autor de centenas de conferências e publicações, nasceu em Penalva do Castelo em 18 de Janeiro de 1920, pelo que cumprindo-se agora o 1º centenário do seu nascimento certamente as nossas academias e universidades o irão celebrar na medida das suas capacidades. Eu, tendo dialogado e convivido com ele os seus últimos dezassete anos, e catalogado sucintamente a sua excelente biblioteca de Humanismo e de cultura portuguesa e italiana, deverei também participar e assim partilharei uma sua  biografia, páginas autobiográficas ainda inéditas e apreciações e transcrições de alguns textos mais significativos das suas obras.
A  primeira foi dada à luz em Coimbra 1941, quando tinha 21 anos. O pseudónimo utilizado foi Duarte Montalegre e com ele escreverá ainda mais alguns livros de poesia e ensaísmo juvenis.
                                        
Leva no frontispício A Pregunta de Pilatos poemas ascetico-filosoficos que foram escritos por Duarte Montalegre sendo escolar de Direito na Universidade de Coimbra. No verso indica que todos os exemplares serão numerados e rubricados pelo autor, já num requinte de amante do livro, o que confirmanos no nosso exemplar, havendo ainda um pequeno rectângulo com a indicação Edições Mensagem, certamente  sinal das forças anímicas, sonhos e aspirações intensas que em si se erguiam para o que ele viria a ser e a viver tão magistralmente ao longos dos anos, embora menos poética, católica e misticamente. 
As duas páginas seguintes, oferecidas a seu pais António Vitorino e sua mãe Maria Olímpia, expressam a Dedicatória:

«Não fora o vosso Amor
e eu não seria o ser que agora sou.

Junco altivo singrado sobre o mar,
- o mar da inquietação,
 

Meu ser vai procurando aquela luz
que o vosso beijo furtou ao meu anseio.

Vosso beijo fecundo de ansiedade
projectou-me no mar da imensidade.

E hoje, encarnação do vosso ser,
meu ser tenta sondar quem vos criou
e quem criou aquele que vos criou.
 

Da nau vogando ao longe,
abarquei com meus olhos o Infinito.

Nesse olhar foi meu ser ao Sol de Deus
desvairar-se de luz, de luz, de luz...

O Sol de Deus iluminou o meu olhar
e pôs nele centelhas vivas de inquietude.
 

E o sol fez de mim sol incandescente
a lucilar, a lucilar, eternamente...

Meus gritos de ansiedade e de furor
morreram, gemebundos, no momento
em que o sol se acendeu no firmamento.

Não fora o vosso Amor,
e eu não seria o ser que agora sou.

Desse beijo brotou meu duvidar
da minha dúvida surgiu a minha dor.

Da minha dor promanou a minha Fé.
Minha Fé, meu Duvidar e minha Dor,
Convergem no beijar do vosso Amor.


Que a luz do meu ser repouse alfim
na paz da vossa bênção paternal!»

Segue-se um excelente prefácio escrito em Vila Real de Santo António da autoria de Vitória Régia, pseudónimo da escritora algarvia Alda Silva Ferreira Mendes (n.1891, em Tavira), que leva como título Palavras ditadas pela Verdade ao meu coração e à minha consciência, e onde considera o livro um "pomo" - «a cativar os admiradores das Belas Letras e a principalmente a atrair para o deleite emocional, aqueles que, graças à Verdade, possuem o preciosíssimo Dom dum sexto sentido», revelando nestas palavras Alda o seu conhecimento tanto das Belas Letras do Humanismo como da espiritualidade, ao atribuir à Verdade vivida o dom merecido do corpo espiritual estar activo, ou seja, com o sexto sentido desperto ou mais intuitivo.
Antes dos poemas, que muito devem à sua sensibilidade e cosmovisão formada no Cristianismo e no Humanismo, com pequenas citações de alguns dos seus autores  no começo dos sete capítulos, tais como S. Agostinho, Petrarca e Malebranche e Byron, Pina Martins, aliás Duarte de Montalegre, escreve um antelóquio bastante biográfico e valioso que transcrevemos:
Pensei escrever em apêndice, um ensaio auto-crítico sobre o conteúdo metafísico, estético e humano da presente mensagem. Seria uma forma decisiva de libertá-la de análises mutiladoras, deformadoras. Ninguém melhor do que o autor, para, numa interpretação de auto-exegese, explanar o alcance emocional e intelectual dos meus poemas.
Circunstâncias, alheias ao meu querer, forçara-me a desistir do intento.
A presente mensagem descreve, através das ideias que contém, uma linha ascensional...
 A mocidade de hoje vive, intensamente, as angústias da jornada dolorosa para o porto anelado da Fé.
A poesia que escrevi não é, pois, individual, porquanto reflecte paisagens da alma da juventude hodierna.
De estrutura ascético-filosófica, ela esgarça-se, em volutas de Dor, para o céu de Deus.
Se houver uma sensibilidade, uma inteligência e uma convição, - uma alma em suma que me compreenda, e, depois de me compreender, ogive a sua prece ao Infinito, o que escrevi terá a sua razão pleníssima de ser.» 
Realce-se esta ascensionalidade do nosso ser em dor (e então na 2ª Grande Guerra quanta não seria em tantos jovens idealistas como o autor) para o céu ou realização e mundo espiritual, e a ogivação da nossa alma em prece de aspiração ao Divino Ser infinito e luminoso que nos abençoa. 
Que sejamos estas almas receptivas à Mensagem, à mente agindo sobre a matéria, em uníssono com Pina Martins...
Termine-se esta 1ª homenagem no centenário do seu nascimento, reproduzindo o poema com que coroa ou conclui a sua primeira dádiva bibliográfica à poesia e de certo modo à História do Livro e da Cultura em Portugal.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O conflito entre a USA e o Irão, entre Trump e a alma de Soleimani. Impeachment de Trump? Lux, Pax, Amor.

8-I-2020. Embora Donald Trump, Michael Pompeo e o Pentágono tenham disfarçado, após a réplica de mísseis do Irão, o mal estar em que se encontram, por terem recebido uma inesperada e corajosa bofetada de quem tinham ameaçado com mortandade e a destruição dos monumentos, reforçaram as estrangulantes sanções económicas e a cruzada anti-iraniana, pediram ainda mais envolvimento da NATO e consideraram que o Irão teria recuado e que poderia ficar tudo por aqui. Será?
Esta narrativa, dada a tendência compulsiva de Trump e Pompeo de mentirem e serem traiçoeiros, pode ser então um disfarce para acções violentas próximas por algumas razões, tais como: 1º continuam os mesmos imperialistas opressivos e violentos, que querem mandar no mundo; 2º continuam a pensar que podem facilmente derrotar o Irão e mudá-lo para a obediência ao império da USA e do petrodolar; 3º, continuam a tentar disfarçar e desinformar sobre a morte traiçoeira do general Soleimani, o grande estratega da derrota dos terroristas apoiados por eles; 4º  terá havido mortos e feridos nos modestos ataques com mísseis dos iranianos às duas bases militares norte-americanas no Iraque.
Esta última razão poderia abrir mais uma brecha na credibilidade mundial de Trump, do Pentágono e dos Estados unidos, pois houve uma teatralidade grande na demorada e atrasada declaração oficial de reacção ao ataque muito inferior ao que poderia pensar face, à gravidade do assassínio de um dos maiores heróis da humanidade no século XXI, mas que consistiu numa espécie ponto de situação perante o mundo do que se passava com toda a razoabilidade e um aceitar de cessação da escalada de guerra, já que não houvera feridos ou mortos...
Mas se mentiram tão descarada e solenemente, confirmando  a manipulação e a opressão de informação da verdade, tal  poderia levar ao impeachment de Trump, se os democratas fossem melhores do que são, embora Tulsi Gabbard e Bernie Sanders sejam bons candidatos. 
Daí talvez toda a sua declaração retórica, duvidosa e possivelmente falsa, com o sobrolho esquerdo levantado, nomeadamente no início: "Enquanto eu for presidente, não permitiremos que o Irão possua armas nucleares...", vindo-lhe ao de cima outra das falsas ameaças aterrorizantes de armas de destruição maciça nas mãos de adversários, a que se pode juntar a também já muito evocada no caso mas nunca provada objectivamente, a de que o general Soleimani era o responsável da morte de centenas de norte-americanos e preparava-se para matar ainda mais. A menos que terroristas sejam sinónimo de norte-americanos, que infelizmente de certo ponto de vista é verdadeiro...
 Os próximos tempos esclarecerão alguns destes aspectos misteriosos, mas parece evidente que a luta vai continuar e a melhor forma de a acabar é os Estados Unidos retirarem-se do Iraque, que já não são desejados lá, bem como dos poços de óleo da Síria, onde são salteadores fora da lei e saqueadores, tanto mais que Trump afirmou que os Estados Unidos da América são os que têm mais óleo e gás do mundo e que não precisam do que é dos outros povos...
Haja pois mais coerência e verdade nos pretensamente mais poderosos que os povos se entenderão e o mundo melhorará, na graça dos mestres, espíritos celestiais e da Divindade, não só masculina e guerreira mas também feminina e receptiva, amorosa, e logo a ser cultivada e acolhida em nós. 
                                           Nour=Lux