domingo, 18 de outubro de 2026

Professores como os Gurus sagrados da Civilização. O fim do liberalismo educacional". Por Alexander Dugin. 17/10/2026. Tradução, com breve introdução...

                         
     Eis-nos diante dum valioso diálogo com o filósofo ou mestre Alexander Dugin [n.7/I/62], um dos melhores pensadores e analistas da geo-estratégia político-ideológica civilizacional, no Dia Mundial do Professor, 5 de outubro, no qual compartilha suas ideias e reflexões sobre a educação, notadamente como paideia,  valor e qualidades dos professores, desafios atuais, desvincular das visões liberais ocidentais  e como combinar harmoniosamente a acumulação de informação com a formação de caráter e a prossecução dos valores tradicionais e universais, nos tempos actuais, nomeadamente da valiosa e desafiante mas frequentemente enganadora Inteligência Artificial. 

 Alexander Dugin destaca a capacidade de se conseguir discernir, face à proliferação do desnecessário e manipulado, o que é essencial —conforme as nossas tradições, valores e missão—que Dugin claramente identifica ao nível planetário como a multipolaridade equitativa. Regista como a Rússia, com os seus líderes actuais, descartou as visões e políticas neoliberais e está a fortalecer os seus valores sociais, morais e religiosos, bem como a multipolaridade. Observando as eleições presidenciais que decorrem no Brasil, destaca a importância do movimento do BRICS, rumo à Multipolaridade, ter no Brasil um presidente que a sustente. E após comentar o que aconteceu na Venezuela e, compartilhando os seus valores universais, faz votos para que, assim como a Carta Multipolar euroasiática foi recentemente assinada entre Rússia, Bielorrússia, Vietname e Irão, os povos latino-americanos também criem alguma união, nomeadamente entre Cuba, Nicarágua e México.

Alexander Dugin identifica claramente o futuro certo como um mundo de multipolaridade equitativa e profunda, baseado nos valores diferentes e semelhantes das civilizações tradicionais, e está a trabalhar arduamente para isso, e em universidades, fóruns, redes e livros (tal como a sua brilhante filha Daria Dugina fazia, nomeadamente, com o seu famoso Optimismo Escatológico e agora com os livros de inéditos que estão a ser publicados ainda mais se imortalizando entre nós) ensina a Quarta Teoria Política, a que se segue ao comunismo, fascismo e liberalismo, e apela a que mais pessoas contribuam para melhores sociedades universalistas. 
Está publicado em https://alexanderdugin.substack.com/, e eu apenas traduzi, destaquei algumas declarações mais relevantes e adicionei as imagens e, entre [... ], teci alguns brevíssimos comentários. 

Resumo prefacial: «Alexander Dugin argumenta que a verdadeira educação é um processo inseparável de ensino e formação — uma paideia sagrada que forma a alma e a identidade civilizacional — e que restaurar a autoridade do professor é essencial para construir um mundo multipolar além dos dogmas liberais.
Conversa com Alexander Dugin no programa Escalation da Sputnik TV.

Apresentador: Hoje é segunda-feira, 5 de outubro, e é um feriado importante para todos nós — o Dia do Professor. O Primeiro-Ministro Mikhail Mishustin já deu os parabéns aos nossos professores, destacando a imensa escala do sistema educacional: mais de um milhão de professores de escolas estão trabalhando em todo o país, junto com cerca de 170.000 instrutores e formadores profissionais em faculdades.
Nesse contexto, Alexander Gelyevich [Dugin], tenho uma pergunta para si. Recentemente, o Estado tem dado um enorme ênfase à ideia de que um professor não deve apenas transmitir conhecimento, mas também  envolver-se na educação das crianças — o foco está a deslocar-se fortemente nessa direção. Na sua perspectiva, qual é o significado mais profundo e a tarefa central desse papel educativo e formador de caráter do professor moderno?

Alexander Dugin: Em primeiro lugar, quero congratular de todo o meu coração todos os nossos professores. Eles são verdadeiramente uma parte heroica da nossa sociedade, e o que um professor faz todos os dias é um verdadeiro acto de serviço. Não só porque as crianças são difíceis de lidar — vivemos em um tempo complicado, quando a cultura e a vida familiar muitas vezes ensinam às crianças coisas erradas, precisando então de ser reeducadas. Frequentemente, carecem de concentração, estão constantemente distraídas, e trabalhar com elas é verdadeiramente difícil. É um verdadeiro trabalho espiritual na educação e formação. Na Grécia antiga, havia um conceito fino — *paideia* (παιδεία) — que significava o processo inseparável de ensinar e educar uma criança ao mesmo tempo. A palavra vem da raiz de *pais* (criança), e significa literalmente "como se transforma uma criança num ser humano." É ao mesmo tempo uma arte, um trabalho e uma espécie de milagre. Os seres humanos são naturalmente curiosos, mas essa curiosidade é constantemente bloqueada por outras coisas — acima de tudo pela preguiça mental e espiritual. Esquecemos um pouco o termo, mas a preguiça espiritual é muito forte nas crianças. Uma criança é apenas a promessa de uma pessoa, um potencial que ainda precisa ser realizado. Se esse potencial se torna uma personalidade plenamente formada ou acaba distorcida e atrofiada depende em grande parte do sucesso dessa *paideia*.
Nesse sentido mais profundo, educação e formação não podem ser separadas. Não se pode educar uma pessoa sem lhe dar conhecimento, e não se pode transmitir conhecimento sem tocar na sua natureza interior. É um único e mesmo processo. Nos anos de 90 e de 2000, até ao início da Operação Militar Especial, fomos empurrados para um modelo ocidental que tratava a educação como uma indústria de serviços e um conjunto de habilidades técnicas. Isso nunca fez parte da tradição russa. A escola russa — tanto no século XIX quanto no século XX — foi construída sobre as ideias de educadores como [Konstantin] Ushinsky [1823-1871], que viam o ensino como a formação do ser humano em todas as suas dimensões.

                            Disponível no Internet Archive
Quando as crianças estudam matemática, história, literatura ou física, elas estão a aprender a entender o mundo. Eles estão a traçar os caminhos e mapas mentais que usarão mais tarde como adultos. Tratar a educação como um mero serviço é, portanto, uma abordagem profundamente distorcida, antinatural e, em última análise, anti-russa. Devemos ver o trabalho do professor como uma vocação, uma alta arte e uma missão sagrada.
Vale a pena notar que na Índia a palavra para "professor" é simplesmente "guru." Não há uma distinção clara lá entre um mentor espiritual, um instrutor académico e um treinador de habilidades — todos esses papéis estão combinados na figura do guru. O guru tem autoridade real, e as suas palavras têm peso. Restaurar a autoridade do professor é uma tarefa extremamente importante. Precisamos ensinar as crianças a respeitar o professor como um guru. Mesmo que um determinado professor seja imperfeito, é melhor manter o princípio da autoridade do professor do que minar a ideia de autoridade em si.
O que um professor realmente faz? Ele transmite a identidade social. À medida que uma criança passa pela *paideia*, ela está a ser preparada para se tornar um membro pleno da sociedade que compartilha os seus valores morais e culturais básicos. Ele aprende a distinguir entre diferentes tipos de informação e diferentes situações da vida para que se possa tornar um portador da nossa identidade histórica — social, espiritual e moralmente. Ensinar apenas habilidades técnicas ou preparar os alunos para testes, fora de qualquer contexto cultural, produz uma forma vazia sem um núcleo interior. As habilidades profissionais devem ser construídas sobre essa base pessoal e cultural mais profunda.
No século XIX, a educação estava claramente dividida entre clássica e prática. A educação clássica — nos liceus e universidades — oferecia aos alunos Homero, tragédias gregas, Platão, a Bíblia e as grandes ideias da civilização. Não visava uma profissão específica, mas sim formar uma visão de mundo e uma compreensão do mundo como um todo. A educação prática, por outro lado, focava em habilidades específicas, como nas escolas profissionais. Ambas são necessárias, mas a educação clássica vem primeiro, porque forma a pessoa. A especialização — seja como soldador, construtor, empresário, economista, médico ou professor — deve vir depois.
A educação clássica não deve ser o privilégio de uma elite. Deve estar disponível para pessoas de todas as origens sociais. Felizmente, agora estamos a ver uma mudança nessa direção. Durante anos, a tendência era a comercialização e a ideia de transformar as pessoas em algo como uma inteligência artificial primitiva (que a IA moderna já superou). Agora, há uma mudança de volta para o ser humano e o desenvolvimento da personalidade. Tanto o Ministro da Ciência e Ensino Superior, Valery Falkov, quanto o Ministro da Educação, Sergei Kravtsov, falaram sobre isso. Essa mudança civilizacional afecta principalmente os professores. Eles são os guardiões do nosso código cultural. Eles não estão apenas a desempenhar um trabalho; estão a cumprir uma missão. Eles são pessoas que continuaram a fazer um trabalho sério mesmo quando o sistema, por muitos anos, não exigia isso deles, porque eles são verdadeiros professores russos.
Apresentador: Mesmo comparando com o Império Russo, quando a educação clássica existia, a quantidade de informações que uma pessoa precisa para funcionar na sociedade moderna cresceu enormemente. E já agora, antes de qualquer retorno completo ao ideal clássico, ouvimos queixas de que tanto os professores quanto os alunos estão sobrecarregados. Como devemos lidar com isso? Como poderemos combinar um amplo corpo de conhecimento com a tarefa de educação, sem levar o sistema a um beco sem saída?
Alexander Dugin: Na realidade, nunca há simplesmente “demais” ou “de menos” conhecimento. O teórico dos sistemas Niklas Luhmann [1927-1988] argumentou que a tarefa essencial de qualquer sistema não é acumular informações, mas descartar o que é desnecessário. Um sistema filtra o fluxo para que apenas o que é verdadeiramente valioso chegue ao centro. Uma vez que se fez o trabalho árduo de separar o material secundário e terciário, o que resta é o que realmente importa.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss [198-2009] fez uma observação relacionada e paradoxal: a quantidade total de conhecimento possuído por uma pessoa numa sociedade tribal tradicional e uma pessoa em uma sociedade tecnológica moderna é aproximadamente a mesma. O que muda é o sistema de seleção — o que escolhemos priorizar. Os povos amazônicos, por exemplo, conhecem centenas de nomes de plantas e podem distinguir diferenças subtis entre elas. Não precisamos desse conhecimento, assim como as crianças modernas conhecem as marcas dos aparelhos e as personagens dos jogos de vídeo muito detalhadamente.
O volume de informação é, num sentido amplo, constante. Nem a complexidade tecnológica nem a inteligência artificial mudam esse facto fundamental. A tarefa do professor — a tarefa do guru russo — é estabelecer a hierarquia correta e separar o que é essencial do que é incidental. Quando essa hierarquia desmorona, as pessoas de qualquer sociedade ficam desorientadas e perdem o rumo.
Portanto, a questão real não é a quantidade pura de informação, mas como ela é estruturada e quais os elementos que são considerados relevantes. O que mais importa não são os factos isolados, mas a capacidade de usar estruturas interpretativas. O folclorista russo Vladimir Propp [1895-1970] mostrou que as histórias da humanidade — mitos, romances, lendas, séries de televisão modernas e até manuais técnicos e até mesmo muitos textos de não-ficção — seguem um número limitado de padrões estruturais profundos. Uma pessoa que entende esses padrões pode reconhecer os mesmos modelos subjacentes num mito antigo, num romance clássico, num filme de Hollywood ou até mesmo num manual técnico.
                         
A consciência humana é, ma sua estrutura básica, relativamente constante. A Inteligência artificial e o fácil acesso à informação são ferramentas que nos permitem alcançar códigos e dados básicos mais rapidamente. Eles podem ser úteis — por exemplo, criando melhores pesquisas nos livros e arquivos de publicações — mas apenas sob uma condição: deve-se saber o que se está a procurar e o que realmente se deseja do sistema.
Se  perguntar a uma IA sobre um assunto que não entende, ela geralmente  dar-lhe-á respostas convencionais ou clichês ideologicamente coloridos [de início, embora dependendo dos temas.]. Ela também comete erros, pode ser tendenciosa e, às vezes, simplesmente fica sem capacidade. Não pode ser confiável como um substituto para a compreensão. É uma ajuda, não uma substituição.
A tarefa do professor hoje não é ensinar os alunos a clicar em botões em interfaces amigáveis. É ensinar-lhes como interagir com essas ferramentas de forma inteligente, como entender os códigos e estratégias subjacentes e — mais importante — como permanecer humano ao lidar com uma máquina. Nenhum sistema artificial pode substituir o professor nesse aspecto. A razão é simples: um ser humano tem uma alma viva. Um professor pode ver, por trás das notas e habilidades, algo que uma máquina não pode perceber — a personalidade em desenvolvimento e a vida interior do aluno. A inteligência artificial não tem interesse na alma humana; ela simplesmente responde a consultas. [E no final faz algumas sugestões de novas perguntas, tentando enredar com mais perguntas e informações, sem sentir ou conhecer o estado interior, nível ou intenções de quem interage com ela, pelo menos por enquanto...]
É por isso que a educação precisa de reter uma dimensão viva, espiritual e, de certa forma, religiosa. A verdadeira educação sempre se preocupou, no fundo, com a formação da alma. Por essa razão, a Igreja, os filósofos e os especialistas em humanidades devem participar activamente da educação. Precisamos de ajudar os professores a recuperarem a sua vocação superior — serem guias da *paideia*. E para que isso aconteça, os próprios professores também devem continuar a aprender.

Anfitrião: Isso levanta uma questão prática. Identificou corretamente o problema da autoridade desgastada: os pais, e depois os filhos, ainda tendem a ver a educação como um serviço — pago ou gratuito. O Estado deve tentar reverter isso através de regulamentações rigorosas, ou é principalmente uma questão de educação moral e cultural? Como pode o que  está a descrever ser realmente colocado em prática?

Alexander Dugin: Na verdade, isto é bastante simples de resolver. Porque é que a ideia de educação como serviço surgiu em primeiro lugar? Porque até recentemente, ideias e atitudes capitalistas, liberais e ocidentais dominavam a nossa sociedade. Essas visões foram transmitidas pelas autoridades aos pais e, através deles, aos filhos.
Hoje o Estado pensa de forma diferente. A ideologia liberal agora é vista como algo alienígeno e tóxico. Já superamos outras tendências destrutivas, e o próximo passo lógico é finalmente eliminar os vestígios do liberalismo, que por muito tempo permaneceu o dogma dominante no cenário pós-soviético.
Tratar escolas e universidades [ou a saúde pública] como uma indústria de serviços é um consequência legal e mental directa do liberalismo. Uma vez que o Estado abandone completamente esse paradigma no nível da política oficial e estabeleça novas prioridades, tudo entra no seu lugar. Inevitavelmente, restauraremos o alto respeito pelos professores que era natural tanto na Rússia imperial quanto na era soviética.

Anfitrião: A primeira volta da eleição presidencial acaba de se concluir no Brasil. De acordo com os resultados, o presidente em exercício, Luiz Inácio Lula da Silva, está a  receber cerca de 45%, enquanto seu principal oponente, Flávio Bolsonaro, tem aproximadamente 47%. Estamos a ir para a segunda volta.
Alexander Gelyevich [Dugin], porque é que é criticamente importante para nós na Rússia acompanhar de perto esses processos eleitorais no Brasil? E ao que uma possível mudança de poder poderá levar se o actual presidente não conseguir ser reeleito?

Alexander Dugin: Já entendemos — e acho que nossos ouvintes também entenderam isso perfeitamente bem — que nos comprometemos seriamente, profundamente e a longo prazo a construir um mundo multipolar no qual a Rússia será um polo soberano e independente. Ao contrário do sistema bipolar da Guerra Fria ou do modelo clássico de estados-nação representados na ONU, estamos construindo uma estrutura histórica completamente única baseada em estados-civilização.
O Ocidente é uma única civilização, apesar de todas as suas formas nacionais, porque as decisões estratégicas lá são tomadas pelo mesmo grupo, atuando de forma aberta ou nos bastidores como um deep sistem [estado profundo], mas em qualquer caso expressando uma única vontade [mesmo que dois ou três centros diferentes interajam]. Somos uma civilização separada e um estado-civilização. A China é outra civilização. A Índia também é um polo vermelho do mundo multipolar. E assim, o último fragmento dessa política de esquerda — que, no geral, é mal sucedida para as suas sociedades, mas pelo menos mantém uma conexão com o mundo multipolar — é Lula. Um homem que esteve envolvido em escândalos de corrupção de alto perfil, sentou-se na prisão e colocou seu principal oponente atrás das grades. Em resumo, tudo isso é bastante duvidoso, e ele não tem nenhum apoio popular poderoso e genuíno. [Ele ainda tem muita popularidade e fez bem ao povo..] O seu curso [ou caminho] carece de sinais de um pensamento estratégico profundo.
Mas ele ainda é melhor do que Milei ou de que algum pastor protestante totalmente voltado para Washington. Sejamos francos — ele é melhor. No entanto, os brasileiros [ou muitos] já não pensam assim; eles perderam a fé nele, e esse é o principal problema. A guinada à direita que está a ocorrer actualmente na América Latina está a transformar-se numa ameaça de perda do mundo multipolar. Para esses políticos pró-americanos orientados para Washington, não há necessidade de construir qualquer ordem multipolar; a América Latina não tem identidade independente — eles querem se integrar no sistema ocidental de hegemonia global. Em essência, eles estão transformando os seus países numa outra Ucrânia.
Portanto, não há nada de bom para nós no facto de que Flávio Bolsonaro — o filho do preso Jair Bolsonaro — receber mais votos do que Lula. Lula é um parceiro familiar para nós e o garante do "B" no BRICS. Embora Jair Bolsonaro, quando era presidente, não tivesse pressa em retirar o país do BRICS e seguisse uma política bastante equilibrada [nesse aspecto]. Talvez desta vez tudo não esteja tão ruim; talvez o curso dos opositores de Lula não deslize para a feiura que Milei estabeleceu na Argentina. O que Milei está a fazer é um verdadeiro colapso; ele é o Zelensky latino-americano. Extremismo, palhaçada, uma motosserra nas suas mãos, asneiradas selvagens e alinhamento aberto com os interesses israelitas — isso é simplesmente monstruoso, um verdadeiro insulto ao maravilhoso e notável povo argentino.
No entanto, não se pode descartar que a família Bolsonaro — afinal, as suas esposas e filhos também participaram activamente das eleições, e muitos deles venceram nas eleições parlamentares paralelas — se comporte de maneira diferente. Provavelmente os brasileiros sabem melhor quem escolher e não devemos impor-lhes o nosso ponto de vista. Seria maravilhoso se as forças de direita se vencerem no Brasil recordassem os preceitos de Getúlio Vargas. Este foi um presidente do Brasil do século XX que defendia a completa independência do continente latino-americano da influência dos EUA. Sendo um político de direita, ele estava de certa forma próximo ao general argentino Perón. Juntos, eles desenvolveram planos para preservar a identidade cristã tradicional na América Latina, desenvolver os países com base na justiça social — a famosa “ideologia da justiça” peronista — e, si
multaneamente, alcançar a independência geopolítica dos Estados Unidos e do Ocidente global.Esse era um modelo ideal para a integração do continente latino-americano, mas pela direita. E historicamente existem tais precedentes no Brasil. Outro assunto é que, se o candidato for um protestante em uma sociedade e cultura tradicionalmente católicas, isso já é um sinal de alerta sério. O protestantismo, nesse contexto, parece algo anómalo, como um canal para valores e atitudes religiosas alienígenas no complexo sistema religioso do Brasil.
Parece-me que o enfraquecimento das posições de Lula e a perda de fé nele, que se manifestaram claramente nos resultados deste primeiro turno, são um facto. Haverá um segundo turno, já que nenhum dos candidatos recebeu cinquenta por cento: Bolsonaro tem cerca de quarenta e sete. Em algumas semanas veremos qual a escolha o povo brasileiro fará. Para nós, o principal é não perder o Brasil no BRICS, porque ele representa toda a América Latina nesta associação, e a América Latina é de enorme importância para nós. [Lula deverá vencer...]
E aqui surge uma pergunta para nós mesmos: por quanto tempo podemos continuar a mover-nos pela inércia da antiga política soviética, onde os nossos aliados tradicionais eram considerados exclusivamente forças de esquerda? Todavia eles há muito que deixaram de ser nossos verdadeiros aliados, já não são  tão esquerdistas e nem tão consistentes opositores do capitalismo. A agenda da esquerda moderna absorveu tantos elementos repulsivos que estão absolutamente proibidos no nosso país!
Talvez devessemos fazer a nossa política externa mais integral e abrangente. Pensemos em criar redes de apoiadores da multipolaridade — não necessariamente pró-russos, mas sinceramente pró-latino-americanos, que defendam a soberania e a integração do continente. Precisamos ajudar a desenvolver essas redes e apoiar tanto a direita quanto a esquerda. Se as forças de direita defendem um estado-civilização latino-americano independente, como Vargas ou Perón — isso é excelente; isso  convém-nos. Se a esquerda conseguir isso — também nos serve.
Faltam-nos criticamente a geopolítica e o grande pensamento civilizacional. Não devemos apenas nos defender-nos; devemos construir algo, criar, inventar e promover. Olhem para a Carta multipolar euroasiática que assinamos recentemente com Belarus, Vietname e Iro — é um movimento magnífico e brilhante! Provavelmente, os latino-americanos também deveriam ser activamente atraídos para essa órbita: Cuba, Nicarágua, México.

Ao mesmo tempo, se eles têm um governo de esquerda ou de direita, isso deve ser irrelevante para nós. O critério principal é simples: se você é a favor da multipolaridade, você é nosso, e nós o apoiamos. [Muito importante, esclarecedor.] Se você é a favor da hegemonia, você não é nosso, e nós não somos seus aliados. Se tivermos uma política tão clara e proactiva, quando para cada região e cada país tivermos nosso próprio plano baseado na luta não contra o Ocidente em si, mas exclusivamente contra a hegemonia ocidental, então venceremos. É impossível lidar com essa hegemonia global sozinho: precisamos de polos e aliados confiáveis. Não vamos apenas procurá-los, mas ajudar a que eles venham à existência e tomem forma.
Lembre-se da Venezuela — tínhamos um presidente amigo, Nicolás Maduro. Um homem que é indubitavelmente decente, e que foi tratado injustamente por Trump, mas que não conseguiu construir um sistema económico, social e cultural. Hugo Chávez foi um homem de grandes ideias e realizações, enquanto Maduro continuou a sua linha mas numa direção decrescente. Se nos tivéssemos  envolvido mais profundamente a tempo — não apenas com apoio militar e comércio, mas no nível ideológico... Por alguma razão, continuámos a deslizar para questões técnicas e secundárias!
É como se fôssemos mal ensinados na escola para distinguir o essencial do secundário, como se nosso sistema tivesse esquecido como separar o puramente formal e incidental do núcleo genuíno. Não conseguimos identificar o que é essencial na política externa e isso  prejudica-nos muito. No mais alto nível do Estado tudo é feito corretamente: temos excelentes discursos estratégicos do presidente, passos brilhantes do ministro das Relações Exteriores - tudo ali é impecável. Mas no nível seguinte começa um estranho vácuo, e todos instantaneamente escorregam para discutir iniciativas mesquinhas e impotentes que não levam a qualquer lugar . Este problema sistémico não pode ser resolvido pelos esforços de entusiastas individuais no terreno.

Anfitrião: Do seu ponto de vista, porque é que tal está a acontecer? É um problema da nossa política de pessoal ou um erro fundamental na educação e formação das pessoas?
Alexander Dugin: Acho que  é uma consequência pesada dos anos 90 e 2000. Olhe para a armadilha mental na qual nos encontramos por muito tempo. Os nossos opositores na Ucrânia têm um slogan extremista banido na Federação Russa: "Bandera virá e restaurará a ordem." E o nossa elite liberal por muito tempo teve seu slogan reflexo: "O Ocidente virá e restaurará a ordem." Esperávamos que bastasse ler um livro didático ocidental, copiar as suas regras, formatos, modelos, acordos e encaixar-nos na sua agenda.
Portanto, nossa elite de gestores estava inicialmente voltada para imitar o Ocidente. E quando de repente nos encontramos em uma situação de dura confrontação com o Ocidente, ficou claro que precisávamos de um tipo diferente de elite. Não é que os antigos sejam maus — o problema é que eles estão sintonizados com tarefas completamente diferentes. Eles precisam ser reorientados, e aqui a educação é de importância primordial.
Precisamos ensinar o nosso corpo diplomático e todos os especialistas internacionais não apenas a falar sobre o mundo multipolar e a abordagem civilizacional, mas a compreendê-los profundamente. Aprender a desenvolver de forma independente aquelas camadas de teoria que ainda não foram escritas e implementá-las com confiança na prática. Precisamos de um novo tipo de pessoal, capaz de trabalhar no paradigma da multipolaridade.
A orientação para a multipolaridade foi estabelecida pelo nosso presidente e pelo ministro das Relações Exteriores — é a linha oficial do Estado. Mas precisa de ser elaborada, ensinada em instituições educacionais especializadas e novos profissionais devem ser formados a partir disso. Os profissionais que já estão em serviço precisam de ser requalificados.
Quando dou palestras no Ministério dos Negócios Estrangeiros s para funcionários de vários departamentos, vejo que as pessoas rapidamente começam a entender tudo se começarem a aprofundar o assunto. Mas isso requer um esforço colossal. A multipolaridade para nós é uma realidade completamente nova. Não é uma continuação da experiência soviética e ainda menos uma continuação do modelo liberal globalista. Não é sequer o sistema de Vestfália com sua clássica soberania nacional sobre a qual a Organização das Nações Unidas se baseia. É um paradigma fundamentalmente novo de relações internacionais que precisa ser estudado, compreendido, interiorizado e, só então, implementado.
Infelizmente, os membros da nossa diplomacia ainda não percorreram suficientemente tal caminho. Sim, há entusiastas individuais que entendem tudo perfeitamente e compartilham isso. Mas a maioria dos nossos diplomatas experientes e bem treinados baseia-se na experiência soviética. Havia muito de grandioso nisso — acima de tudo a prioridade absoluta da soberania — mas dependia de recursos diferentes e de um contexto ideológico completamente diferente. Sem uma base ideológica adequada, muitas das coisas mais subtis na política externa muito simplesmente se perdem.
Os nossos excelentes profissionais precisam ser requalificados, porque as suas antigas competências e habilidades familiares não correspondem mais aos desafios do novo mundo. Precisamos cavar muito mais fundo. Há cerca de quinze anos, na Faculdade de Sociologia da Universidade Estatal de Moscovo, comecei a desenvolver a Quarta Teoria Política — além do liberalismo, comunismo e fascismo. Nenhuma dessas três ideologias clássicas nos serve, e nenhuma delas pode servir como um aliado confiável fora da Rússia. Todos eles são produtos do Ocidente; todos eles estão profundamente infectados com o universalismo ocidental; eles carregam essa marca.
Precisamos ir além das antigas fronteiras da ciência política ocidental. Além disso, devemos apoiar buscas semelhantes por novos caminhos ideológicos noutras civilizações e sociedades. Precisamos repensar completamente a realidade, porque nos encontramos  numa era histórica completamente nova.»

(Traduzido do russo para inglês e deste para português.
Recebido de https://alexanderdugin.substack.com, e da Multipolar Press, e compartilhado independentemente de Portugal, um bom e velho amigo da Rússia, embora o governo actual esteja completamente dominado pela mentalidade hegemónica ocidental dos EUA e da UE ou até mesmo pela mentalidade opressiva e arrogante e seja anti-russo, anti-multipolaridade, o que é uma desgraça para um país que teve um apelo e uma vocação universalista e ecuménica...
Lutemos pela multipolaridade e saudemos Alexander Dugin, e os bons professores, pela paciência em ensinar, e inspirar a tão necessária sabedoria, educativa, social e espiritual para os nossos tempos e almas em demanda...


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