sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Efemérides do encontro do Oriente e do Ocidente, da segunda metade do mês de Outubro.

 16-X. Sóror Mariana do Rosário, crescida em virtudes e participante de tantas luzes do céu que foi dotada do dom da profecia, da cura e da protecção, liberta-se da vestimenta terrena neste dia 16 de Outubro de 1649, no convento do Salvador, em Évora. Na sua alma cabia bem o Oriente e para lá encaminhava as suas orações quando intercedia pelo reino ou pessoas. Muitas madres e sorores constituíam a retaguarda da cruzada missionária, ora castigando-se mais feramente ainda que os seus irmãos, e talvez compensando assim o sangue dito infiel ou pagão derramado, ora erguendo-se acima do rude ascetismo penitencial e irradiando inteligência, ora com conhecimento, gozando os mistérios unitivos. Nos seus solilóquios com a alma de Jesus, este dir-lhe-á, a propósito de certas freiras mais dispersas ou mundanizadas, ou ainda destituídas da aspiração amorosa tão trabalhada na bhakti yoga indiana: "Filha, não acho aqui quem me queira, tudo está ocupado". 

Sri Chandra Mohan Ji Maharaj nasce em Alupur, Haryana, a 16 de Outubro de 1907 e desde  novo teve a 3ª visão aberta, vendo  Krishna, ou tendo sonhos de voar, que mostram uma auto-consciência terrena já unificada com a do corpo subtil, o que na tradição yogi é considerado o poder psíquico do espaço, akashgaman siddhi,  e tornar-se-á cedo um  ser de conhecimento e de luz, recebendo a educação dos pais e depois de professores valiosos e por fim a iniciação em Rishikesh pelo seu  Gurudev Mahaprabhu Ramlal, que já vira em sonhos e sabia ser ele. Enviado para Vrindavan, local máximo do culto a Krishna, praticou a sadhana com muito zelo, com boas experiências espirituais e conviveu com yogis como  Aghaddutta e Brahmachari Gopalananda ji   Em seguida foi para Haridwar, cidade santa junto ao Ganges, e esteve algum tempo retirado num monte e rodeado de animais selvagens, sem problemas. Já não longe dos Himalaias, dizia que naquelas zonas havia yogis ou mestres que chegavam a viver  400 a 500 anos. Na minha segunda peregrinação e estadia na Índia visitei-o no seu ashram, em Sawai, Agra, e senti a sua força espiritual, bem como a do local, embora o nosso diálogo fosse pequeno pois não falava inglês. Trouxe de lá um livrinho que ainda tenho Pratices for developing The Life Force. Jiwan, Tatwa, Sadhan que ainda pratiquei (e mais tarde ensinei), para além da meditação em grupo, na qual ele elogiou muito a minha imperturbabilidade quando uma cobra entrou no terreiro, provocou gritos e fugas de muitos mas nada de receios em mim. As práticas tinham-lhe sido transmitidas pelo seu guru Sri Ramlal Maharaj e durante os anos que fui instrutor de  Agni Raj yoga, no Porto, no restaurante e centro Suribachi, ou na Covilhã, Évora e lisboa, ensinei algumas delas. Hoje o ashram continua a funcionar, e há bastantes vídeos dos seus satsangs, ou discursos espirituais, na internet. 
                                         

17-X. Em Tânger, em 1437, corre mal a aventura expedicionária dos infantes D. Fernando e D. Henrique, e depois de vários dias de batalha o último tem de assinar "visto como Deus aprouve de, em termo de Tânger, sermos cercados de mouros, e provendo por meio de paz e concórdia, me obrigo a vós, Cala Ben Cale, a dar a cidade de Ceuta e por garantia disso lhe darei o Infante D. Fernando". Iniciada estava a longa Paixão que o Infante Santo, com paciência e estoicismo, soube enfrentar. Nos Jerónimos, no portal ocidental encontra-se representado como santo protector de Lisboa e Portugal, com S. Vicente, em esculturas de Nicolau Chanterene mandadas esculpir por D. Manuel I.
El Rei D. Manuel I publica neste dia em 1516 o Regimento dos Vedores da Fazenda, órgão colegial que ficou dividido em três contadorias, Reino, África e Índia, e que  logo a seguir ao Rei superintendia a administração ultramarina. Um dos mais notáveis foi o 6º Vedor da Fazenda da Índia Simão Botelho de Andrade (1504-1565), no tempo de D. João de Castro, e que procurou equilibrar a liberalidade deste e a intolerância religiosa de outros. 
                                          
18-X. O Padre Manuel da Nóbrega nasce neste dia em 1517 em Sanfins do Douro e cinquenta e três anos exactamente depois morre no Rio do Janeiro. Foi missionário do Brasil na primeira leva de missionários jesuítas que foi na armada de Tomé de Sousa em 1549, e do aldeamento e colégio que funda no interior, entre 1553-1554, nascerá a gigantesca urbe de S. Paulo. Deixou uma obra importante histórica, antropológica, religiosa e epistolar. Uma das suas frases representativas de uma visão bem a longo prazo, tão em falta na classe política mundial, foi e algo profética: "Trabalhamos para dar princípio a casas que fiquem enquanto o mundo durar". No seu Diálogo sobre a conversão do Gentio ecoará o grande amor fraterno e universal que estava vivo nos melhores seres, acontecimentos e momentos dos Descobrimentos: "Estou eu imaginando todas as almas dos homens serem umas e todas de um metal, feitas à imagem e semelhança de Deus, e todas capazes da glória e criadas para ela. E tanto vale diante de Deus por natureza a alma do papa como a alma do vosso escravo Papaná". 
O Padre João Loureiro, nascido em Lisboa, provavelmente em 1710, após uma longa vida de missionário no Extremo Oriente, em que esteve três anos em Goa, quatro em Macau e trinta e seis  na Cochinchina, terra onde chegou a haver milhares de cristãos. Falando e escrevendo perfeitamente latim e o inglês, estudou bastante as línguas locais e redigiu um Dicionário anamita-português. No seu espólio que se encontra na Academia das Ciências de Lisboa, há muitíssimos inéditos valiosos, com desenhos de minerais, plantas e animais. ou dos instrumentos astronómicos usados. Nas várias invasões que a Conchinchina sofreu na sua época, sempre foi tratado com respeito e manteve-se vários anos como director dos estudos físico e matemáticos reais. Lutou denodamente contra as perseguições que os padres da Propaganda da Fé moviam contra os missionários portugueses. No seu regresso a Portugal foi pela Índia, China, onde esteve três anos ainda, Moçambique, onde ficou alguns meses e finalmente chegou a Lisboa em Janeiro de 1782. Diz-nos o seu biógrafo, o Dr. Bernardino António Gomes, a finalizar o seu elogio histórico lido na Academia das Ciências, em 1865:"Quando Loureiro imprimiu a sua Flora [Cochinchinense] devia contar oitenta anos de idade, tão bem o serviu até o último período da vida a força da sua inteligência. Um ano depois não existia [pois cumprira a sua missão final...]. Em 1793, em Berlim, a Flora Cochinchinense foi impressa e anotada pelo botânico Carl Ludoviv Willdenow, que confessa ser «para muito se admirar como é que uma pessoa tão destituída de livros pudesse ter escrito tão eruditamente  sobre as plantas»". Também o botânico inglês Hooker filho se admirou com o "zelo tão raro" manifestado pelo ilustre transmontano.
 
Nasce neste dia 18 de Outubro de 1850  Basil Hall Chamberlain, filho de um almirante inglês, que não se dando com a vida comercial em que o queriam envolver partiu para o Japão onde se tornará professor e especialista da cultura nipónica traduzindo vários textos importantes, tal o primordial Kojiki, ou a poesia Haiku, estudando o povo mais antigo do arquipélago, os Ainos e a sua língua e folclore e escrevendo obras que se tornaram muito populares. Vivendo no Japão de 1873 a 1911 partirá depois para Genebra, onde desincarnará em 1935.
                                             
Georges Ohsawa, ou Nyoiti Sakurazawa, nasce neste dia em 1893, em Kyoto, de uma familia de samurais empobrecida. Aderirá ao movimento Shokuiku, Educação alimentar, fundado  pelo genial médico Ishizuka Sagen, (1850-1909) e que atingira grande sucesso (no pico, 100 consultas por dia) pelos seus tratamentos pelo equilíbrio alimentar do Yin e Yang, consignados na obra Uma teoria química da nutrição na Saúde e Longevidade. Ohsawa aprende com um seu discípulo e vindo para o Ocidente transmitirá esta filosofia do equilíbrio do Yin-Yang, negativo e positivo, feminino e masculino, noite e dia, e sobretudo do conteúdo do potássio e sódio no alimentos, iniciando no Ocidente o método macrobiótico (grande vida)  de alimentação, como disciplina harmonizadora do corpo e alma, recomendando o uso de cereais, verduras, leguminosas e algas, e a cautela com as proteínas animais, o açúcar, o excesso de Yin, ou seja de alimentos com mais teor de potássio. O miso, o daikon, a umesboshi são dos alimentos mais utilizados salutarmente. Regressado ao Japão em 1931, como um pacifista e prevendo anos mais tarde a derrota do Japão, foi preso e só após esta se ter verificado é que foi libertado, consagrando-se de novo aos seus estudos, publicações e ensinamentos da aplicação do Princípio Único. Morrerá em 1962, de um ataque de coração. Em Portugal a Macrobiótica teve um grande desenvolvimento a partir dos anos 70 e a Colmeia, a Unimave, o Yin e Yang, o Suribachi, o Instituto de Macrobiótica destacaram-se, alguns destes centros e restaurante ainda hoje estando activos.
                                            
Diálogo valioso do mestre Sri Ramakrishna em Calcutá neste dia, em 1885: "Sabeis o que é o estado de meditação? A mente tem
de tornar-se como um fluxo contínuo de óleo, - deve haver apenas um pensamento, o de Deus, e outros pensamentos não devem intervir... Há homens só de nome, e homens conhecedores. Aquele que tem a consciência espiritual, que está consciente e plenamente convencido que só Deus é real e que tudo o mais é falso, esse é o homem conhecedor". E conversando acerca dum jovem, dirá: "Qual é o mal em ele não acreditar na possibilidade de incarnação Divina? Chega se ele acredita que Deus existe e que todos os seres e o universo são Suas manifestações... Uns dizem que há dez avatares (incarnações divinas), outros inumeráveis. Onde quer que haja uma manifestação especial do Seu poder, há um avatar. Isto é o que eu creio". Eis uma visão bem simplificadora e ao mesmo bem mais liberal da acção divina nos humanos...
19-X. No vale do Arno nasce em 1433 Marsilio Ficino, filho do médico de Cosimo de Medici, e que se destacou como tradutor de Platão, Plotino e de textos espirituais e herméticos para Latim e a Europa. Foi o presidente da singela e intimista Academia Platónica de Florença, inspirador de Sandro Botticeli e Miguel Ângelo, autor com Pico della Mirandola, Erasmo, Tomás More, João Colet, Lefèvre d’Étaples, Leão Hebreu e Agostinho Steuco das obras mais sábias da Renascença. Médico como o pai, mas clérigo, provou a imortalidade da alma, se é que assim se pode dizer. Extracto de uma sua carta a um professor: "Mostra-te um exemplo de boa conduta. Pureza de vida engendra reverência para com o ensinamento. Os jovens seguem facilmente o exemplo dos mais velhos. Os que corrompem um jovem, ou de facto a mente de alguém, quer por palavras ou por conduta, devem ser considerados culpados de sacrilégio. Finalmente age de acordo com Pitágoras e Apolónio de Alabanda que, na tradição dos filósofos indianos, não admitiam à sua disciplina nenhum jovem que não fosse de nascimento afortunado e da melhor educação. Pois não está certo que as Musas se tornem ministras ou instrumentos de iniquidade". Tocando harpa, Marsilio Ficino reconheceu e valorizou muito o Som, Sermo, Palavra, Verbo, tal como a tradição indiana que o designa como Vak, Pranava Nada ou Shabda interno: "A alma recebe as mais doces harmonias e números através dos ouvidos, e por estes ecos é lembrada e desperta para a música divina que pode ser ouvida pelo sentido mais subtil e pela mais penetrante mente". Neste blogue encontra em artigo algumas das suas cartas traduzidas do latim e comentadas, bem como biografias, tal: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2023/10/nos-590-anos-de-marsilio-ficino-breve.html
                                             
20-X. Dia de S. Iria, «mártir muito antiga e venerada deste
reino», provavelmente dos tempos visigóticos senão mesmo antes, crendo-se até em lendas que em tempo da Rainha Santa as águas do Tejo se abriram perto de Santarém, cujo nome deriva dela,  para deixar a corte reverenciar o seu corpo incorrupto, fechando-se em seguida, numa espécie de abertura do mundo subterrâneo. Tornou-se a padroeira da vila de Tomar e naturalmente  Frei Isidoro Barreira, um dos mestres da tradição espiritual da Ordem de Cristo, cuja sede era o Convento de Cristo em Tomar, autor do importante Tratado da Significação das Plantas, Flores e Fructos que se referem na Sagrada Escritura, 1698,  consagrou-lhe uma biografia.
                                           
João de Barros, humanista ainda admirador de Erasmo, de quem escrevera mesmo o encómio quanto tal era ainda permitido, e que foi denominado o
Tito Lívio português pela sua pureza de estilo historiográfico, autor das famosas Décadas da Índia, onde narra a gesta luso-oriental, liberta-se do corpo físico neste dia em 1570. Escrevera uma obra humanista de ética, de arrojado espírito erasmiano e que chegou a entrar no índice dos livros proibidos, a Ropica Pnefma, e um romance de Cavalaria, a Crónica do Imperador Clarimundo, donde os reis de Portugal descendem, pois era um cavaleiro de Amor, filho bastardo de Lopo de Barros, corregedor do Entre Tejo e Guadiana. Disse: "Pois a Deus aprouve que não por ofício, mas por inclinação, não por prémio, mas de graça, e mais oferecido, que convidado tomasse o cuidado de escrever as coisas que passaram neste descobrimento e conquista do Oriente, não permitirá, que eu perca algum prémio, se o deste trabalho posso ter, trocando, ou negando os méritos de cada um". Mas apesar deste desejo de rigor, não esteve na Índia fisicamente, compensando-o a Ordem do Universo e o rei de Portugal com o cargo de feitor da Casa da Índia. A sua grande ou sensível cultura e alma humanista permitia-lhe considerar, por exemplo, os yogis "homens ao modo de filósofos", e defender o relacionamento amistoso com os indianos. E como a primeira edição das Décadas rapidamente se esgotara, e mesmo assim não se calavam os invejosos detractores, no prólogo da Década IV evoca a Ordem e Justiça cósmica, Rita e  Dharma indianos: "Virá tempo em que seremos julgado por homem mais zeloso e diligente no cuidado do bem e glória da pátria que da própria pessoa. Pois pela pátria, no tempo que os outros cá e lá andam a quem se carregará de mais fardos às costas dos despojos da Índia, nós tomámos cuidado de levantar a bandeira dos triunfos dela, que estes carregados deixaram jazer desamparada e esquecida com a ocupação e pressa que cada um em seu modo traz de salvar a presa de que lançou a mão, por mais lhe importar o próprio interesse que a glória comum da pátria". 
Frei António das Chagas, nascido na Vidigueira em 1625 de um juiz e de uma mulher irlandesa, foi poeta de amores e notável militar chegando a capitão,   mas aos 31 anos converteu-se e tornou-se um impressionante pregador itinerante franciscano, asceta e místico, escritor e director de consciência de sucesso, vindo a morrer neste dia no convento que fundara do Varatojo, em 1682, em cujo bosque muito deveria ter-se enchido de energia pura e de inspiração divina. Sobreviveram poemas antes de se tornar sacerdote, mas são as suas cartas de aconselhamento espiritual o principal veio da da sua alma em demanda,
21-X. Em 1147, neste dia, o cerco da Lisboa islâmica, iniciado em 1 de Junho, termina com a conquista da cidade aos mouros, derrotados por D. Afonso Henriques e os cruzados que o auxiliaram. A imagem reproduzida é uma das mais antigas representações pictográficas de Lisboa, feita para a Crónica de D. Afonso Henriques, por Rui de Pina. A cidade será consagrada em 1173 com a chegada das relíquias de S. Vicente, vindas da igreja dos Corvos, em Sagres, no Al-Gharb moçárabe de então.
Neste dia das Onze Mil Virgens mártires, mas que seriam onze companheiras de Ursula, princesa da Bretanha, martirizada em 383, era de uso nos
colégios jesuítas de todo o Oriente a abertura solene das aulas, com discussões das teses teológicas e representações teatrais. No colégio de S. Paulo em Goa havia uma procissão solene conduzindo a relíquia da cabeça de S. Geracina, uma das Onze Mil Virgens  enviada por D. João III em 1547. Em 1552 fundou-se em Goa, mesmo a Confraria das Onze Mil Virgens.
Chega ao rio Tejo neste dia em 1728 o Dr. Alexandre Metelo de Sousa
e Menezes ao fim três anos e sete dias de missão de embaixador ao imperador da China Yung Ching e para retribuir o presente oferecido pelo seu pai Kang Hsi. O tacto diplomático do nobre, os luxuosos presentes (condizentes com os recebidos) dum D. João V imperial, tornaram possíveis duas das dificílimas audiências imperiais, puramente formais para tristeza dos missionários que desejavam ser autorizados de novo a evangelizarem à vontade. Mas o imperador só garantiu que "tratava os estrangeiros como o seu falecido pai fazia, que sempre tinha mostrado uma atenção especial para com as pessoas em Macau". Nas barcas de mandarim em que seguiu a embaixada rios acima, de Cantão até Pequim, depois das discussões habituais de ser ou não um tributo, as típicas bandeirinhas anunciavam: "O reino do remoto ocidente manda um grande a dar parabéns". Mas a razão principal da magnificente embaixada, que contava com 326 pessoas, como se vê nas cartas de D. João V ao vice-rei na Índia, era dissipar as más impressões que o Patriarca de Antioquia e os missionários nomeados pela Propaganda da Fé estavam a criar no imperador e mandarins contra os missionários do Padroado Português, e alterar a política daí resultante, o que não veio a suceder. 
Alphonse Lamartine nasce neste dia 21 de Outubro de 1790 em Macon, na Borgonha, o que nutrirá o seu amor da natureza e o pacifismo que o caracterizou, numa vida de 78 anos extremamente variada, com intervenções e cargos políticos importantes, viagens, amor e morte, sendo considerado com Victor Hugo e Saint Beuve dos mais importantes representantes do romantismo francês. Joseph de Barros, num artigo para o nº 100 do boletim do Instituto Menezes de Bragança, intitulado a Índia na Literatura Francesa, resume a sua ligação com a Índia: «Lamartine, autor de Meditations poétiques, ficou profundamente emocionado ao conhecer a literatura sânscrita. Ele fala dela com uma certa adoração no seu Curso Familiar, onde dedicou à Índia cerca de 300 páginas. Ele diz: «Respira-se aí não sei que sopro simultaneamente santo e triste, que me parece ter recentemente atravessado um Eden  vedado ao homem. Esta poesia faz entrar em êxtase como o ópio que cresce nas planícies do Ganges. Lembro-me sempre da santa vertigem que me acometeu quando alguns fragmentos desta poesia sânscrita caíram sob meus olhos (...)» Lamartine sente-se igualmente enternecido com aquele episódio do Mahabharata em que Youdhishtira renuncia ao paraíso se o seu cão não é lá admitido. «Desde este dia, diz Lamartine, não tornei a matar. O livro comentando tão pateticamente a natureza, tinha-me convencido do meu crime. A Índia tinha-me revelado uma caridade mais aberta do espírito humano, a caridade da natureza inteira.» O poema La Chute d'un Ange é todo impregnado de filosofia hindu. O autor esclarece:«É a metamorfose do espírito, essas são as fases que o espírito humano percorre para realizar o seu destino perfeito e chegar aos seus fins pelas vias da Providência e pelas suas tribulações na terra». E esta consideração expressa neste poema não é ela semelhante à ideia da reincarnação que ela transforma?: «Tu não subirás ao céu que te viu nascer// Senão pelos cem degraus da escada dos seres»".
22-X. Carta do infante humanista D. Luís, irmão de D. João III, ao seu condiscípulo e governador da Índia Portuguesa D. João de Castro, o amante da então selvagem e preservada serra de Sintra, em 1547: «E confiai em Deus, que vos dará forças para puderdes com os grandes trabalhos, e desordens da Índia, e eu espero nele, que fazendo-o vós assim, venhais encher estes picos da serra de Sintra de Ermidas, e de vossas vitórias, e que as visiteis, e logreis com muito descanso vosso».
O Raja e a Rani (a rainha) de Travancor (Tanor) e os dois
filhos, baptizados pelo abnegado franciscano Frei Vicente de Lagos, e que lhes permitira continuarem a usar o yajnopavita, as três linhas em fio da casta brâmane, são recebidos com grandes festas em Goa neste dia em 1549 e são confirmados e crismados pelo 1º bispo de Goa D. João de Albuquerque, que provavelmente lhe deu o nome de João, na capela do Colégio da Santa Fé onde S. Francisco Xavier dizia missa e rezava.

                                           
D. João V, filho de D. Pedro II e da princesa alemã Maria Sofia, nasce neste dia em 1689 no Paço da Ribeira, e foi armado cavaleiro da Ordem de Cristo aos sete anos, subindo ao trono em 1707. Neste mesmo dia mas em 1730 foi sagrado o Real Convento de Mafra, num termo ou local que alguns vieram a sonhar como capital do V Império (como se tal pudesse haver), numa das muitas obras dum prolongado reinado de 43 anos, sustentado em grande parte pelo ouro e diamantes do Brasil e bem centralizado administrativa, cultural e diplomaticamente, embora demasiados valores se sumissem em negócios eclesiásticos, mercês e luxos vãos em vez de serem empregues no fomento da produtividade, criatividade e universalidade sem as quais nenhum país se pode erguer ou subsistir mais planetariamente. De destacar no seu reinado a Inglaterra ter continuado a manipular e a oprimir Portugal e a sua forte veia amorosa religante nos dois sentidos: do culto divino, pela Igreja e pela sua alma, e do culto de Eros, com religiosas.
                                     
 Swami Ramatirtha nasce neste dia em Muraliwala, Punjab,
em 1873. Professor de matemática, casado desde os dez anos de idade, renuncia ao mundo com vinte e sete anos e parte com a família e uns amigos para as florestas dos Himalaias. O seu grande amor a Deus permite-lhe ter a visão divina, o darshan de Krishna.  Em 1901, inspirado por swami Vikenananda, torna-se swami (monge) passando a usar a veste de cor ocre. Em 1902 parte para o Japão com swami Narayana e em seguida para a USA, para transmitir a sua vasta cultura,  profunda realização e a mensagem espiritual libertadora da tradição indiana, numa síntese entre o Amor devocional (Bhakti Yoga) e a visão ou doutrina Vedanta, numa filosofia viva da unidade entre o ser humano, o Espírito e a Divindade. Terá uma carreira meteórica e aos 33 anos a sua saúde cada vez mais fraca obriga-o a libertar-se do corpo terreno nos Himalaias e os seus restos desaparecem na correnteza por vezes baça e sobre-humana do rio Ganges. No discurso pronunciado em 7-X-1902, em Tóquio, para uma escola superior, afirma a sua crença em que os japoneses são descendentes dos indianos, e dá sete princípios para o sucesso: trabalho, auto-sacrifício, auto-esquecimento, amor-universal, alegria, destemor e auto-confiança.
Da esquerda para a direita, Marsilio Ficino, Pico della Mirandola e Angelo Poliziano.

23-X. O rei D. João II responde à carta do humanista Angelo Poliziano neste dia em 1491, tratando-o familiarmente por Angelo noster, aceitando a sua oferta de escrever uma história da gesta portuguesa dos Descobrimentos, mas este morre pouco depois em Florença sem satisfazer o seu desejo, de que nos restam apenas as primícias nas cartas que dirigiu a Lourenço e a Piero de Medici. Vários portugueses eram seus discípulos em Florença, nomeadamente três dos filhos do chanceler-mor João Teixeira.
Paulo Dias de Novais, neto de Bartolomeu Dias, parte pela segunda vez para Angola com missionários jesuítas e com presentes de D. Sebastião para o rei de Angola em 1574. Chegados que foram primeiro ao Congo, ainda no século XV com Diogo Cão, e desenvolvendo aí uma colaboração frutuosa com os reis, os portugueses foram chamados por uma embaixada que o rei de Angola enviou a Lisboa em 1557. Em 1559 partiram Paulo de Novais e quatro jesuítas e foram recebidos pelo novo rei com menos cordialidade do que a prometida, ficando bastante isolados. Autorizado a regressar a Portugal em 1567, Paulo de Novais preparou então esta segunda expedição ou missão, em que já ia como donatário, e começa a internar-se pelo sertão e a substituir-se ao rei de Angola na suserania de muitos sobas. Os jesuítas, por sua vez, encontram muita resistência à conversão, as tribos de Angola tendo as suas crenças e prática milenárias,  e dedicam-se sobretudo ao ensino, enquanto a cidade de Luanda irá crescendo. 

24-X. O P. Tomás Estêvão, o autor da Doutrina Cristã em
concanim e da Puranna cristã, na qual utilizou ensinamentos do famoso tratado Yoga Vasistha, escreve neste dia em 1583 a seu irmão, prelector na universidade de Paris, referindo o martírio em Cuncolim do cristão indiano Afonso, por não querer largar o breviário, ao lado dos jesuítas italianos Rudolfo Aquaviva e Berno, porque em actos temerários e ofensivos "fora o primeiro a deitar fogo ao templo de Cuncolim. Tinha também morto uma vaca sobre o altar do ídolo, a fim de limpar o lugar das superstições populares". Diz sobre as línguas indianas, que estudara para fazer a sua Arte da Língua Canarim (impressa em 1640), "a sua pronúncia não é desagradável e a sua estrutura é relacionada com o grego e o latim e admirável nas suas frases e construções". Era um prenúncio dos estudos ocidentais do sânscrito que Sir William Jones irá 200 anos depois iniciar sistematicamente. Termina a sua admirável carta pedindo: "Oremos portanto, a Deus, para que nos conceda tirarmos proveito destes tempos calamitosos para fazer progresso na senda da virtude com toda a paciência e longanimidade e fazermos mais vigorosamente face à adversidade com as nossas forças juntas, de maneira que a própria tentação se possa tornar um meio de salvação".
                                         
Chega a Macau, vindo do Japão, o Visitador da Índia e Japão, o P. Alexandre Valignano (1539-1606), neste dia de 1594 e pouco depois, de acordo com o P. Mateo Ricci, decide que os jesuítas deixem de andar rapados e vestidos de monges budistas e passem a aparentar-se com os letrados confucionistas da China, sendo assim preterida a aproximação ao budismo e taoísmo, já que os monges a isso resistiam, valorizando-se antes o culto aos antepassados e a Confúcio. A conversão da China será a partir da capital Pequim e da corte imperial, onde os letrados e os governantes, mais curiosos do saber e dos objectos ocidentais (prismas, relógios), serão os primeiros prosélitos. 
                                    
                            Karlfried Graf Durckheim com Swami Prabhupada e monges vaishnavas...
Karlfried Graf Durckheim nasce em 24 de Outubro de 1896 em Munique, de família militar e nobre bávara. Serviu três anos e meio na I grande Guerra, tendo recebido duas condecorações. Aderiu ao nacional socialismo e mesmo ao nazismo, mas quando se descobriu que tinha ascendência judaica foi discretamente enviado pelo seu amigo, e de quem fora secretário, Ribbentrop, ministro dos Negócios Estrangeiros de Hitler, para o Japão onde se relacionou com muita gente importante e trabalhando pela aliança da Alemanha nazi e o Japão Imperial, mantendo tais ideais até ao fim da guerra, pois ainda em 1944 foi condecorado com a Cruz de Guerra. Com a derrota nipónica fugiu e escondeu-se mas foi descoberto  pelos norte-americanos e preso por dezasseis meses em Sugamo. Aprendera as artes tradicionais japonesas, tais como o tiro ao arco e o zen e, depois do seu regresso à Alemanha e de alguma nova aprendizagem psicológica, nomeadamente de Carl Gustav Jung, torna-se um instrutor-mestre da meditação no Ocidente. Dirá: "Abrir a porta ao Espírito Santo em nós e no mundo significa viver a vida iniciática", o que é resultante do contacto com o Ser essencial em nós. O seu centro de espiritualidade na Floresta Negra tornou-se muito conhecido bem como a sua serenidade [e ainda o vi e a senti em Paris] que segundo ele se lhe abrira a partir de algumas experiências de expansão de consciência que considerou de transcendência.
Neste dia de 24 de Outubro de 1915 liberta-se do seu corpo há muito doente o poeta Manuel Salvador Sanches Fernandes, natural de Mapuçá, Índia portuguesa, com 29 anos de idade. Em 1907 imprimira na tipografia Rangel de Bastorá o seu poemeto Lyra da Índia onde o seu entusiasmo pela espiritualidade indiana se funde harmoniosamente com a tristeza da doença e da incapacidade de ligação ao Divino: «Brahma! Vishnu! Shiva! a trimurti potente!/ Eis as grandes criações de uma época esplendente/ Que, na Índia, desfraldou o seu pendão de Luz/ Antes da lei budaica e antes da lei da Cruz./ A essa época doirada, dessa época gigante/ Que exige as vibrações de uma lira possante/ De teorba [instrumento de cordas]viril, que ruge furibunda/ O canto dos Heróis e nas almas difunda,/ Sê tu o ardente arauto anunciando sonora/ A poesia sublime, a Poesia da Aurora./ A Índia seja o teu deus, seja a lira o teu templo/ Que de bela oração saia de ti o exemplo./ Olha! Vês essa Sé donde há pouco eu saí?/ Ei-lo! O rico panteão, o grande capitólio/ Onde Maggh, Zenabay, Kalidas, Valmiki/ E cada obreiro tem um sólio luminoso(...)// E lento se esfumou esta Visão doirada;/ Fanou-se alto o Panteão; vaporaram-se os mitos/ E ante a Vida real e ante a branca Alvorada/ A minha alma chorou saudosa do Infinito» 
25-X. D. João II, filho de D. Afonso V e da rainha D. Isabel, filha do infante D. Pedro das Sete Partidas e duque de Coimbra morre com quarenta anos de idade neste dia em 1495. No seu reinado os Descobrimentos portugueses desenvolvem-se poderosamente e tornam-se a prioridade do reino, em detrimento da expansão para Castela e para o norte de África. Nautas como Diogo Cão e Bartolomeu Dias, exploradores como Pêo da Covilhã e Afonso da Paiva seguiram as suas instruções. Há invenções importantes no domínio da náutica e da artilharia. Tendo o seu filho infante D. Fernando morrido em jovem e não tendo conseguido legitimar D. Jorge de Lencastre, teve de admitir como como sucessor D. Manuel, que era o irmão mais novo de D. Diogo, duque de Bragança, que ele próprio matara à cutilada, por conspirar contra si. Dotado de forte vontade, centralizou de tal forma o poder real, que o dito "Morreu o homem", ecoará das bandas reais de Castela. À hora do trespasse, sendo-lhe começado a ler um texto sagrado, exclamou com toda a razão e sabedoria, e pena foi que não tivessem adoptado mais tal régio parecer: «Não quero ouvir falar mais do Antigo Testamento». As causas da sua morte e o isolamento em que ocorreu permanecem ainda com algumas sombras.
O vice-rei da Índia portuguesa Afonso de Albuquerque envia uma carta ao rei neste dia em 1512 recomendando o franciscano visionário João Alemão como "padre espiritual seu e pessoa que serviu a Deus e ao rei em guerras e hospitais".
António Galvão (1490-1557), nomeado capitão das Molucas após duas comissões na Índia, chega neste dia a Ternate em 1536 e inicia um triénio de administração íntegra e cooperação civilizadora (ocidental), fraterna e apostólica com as populações locais que o tornam conhecido como o Apóstolo das Molucas, sobretudo pelo seu reconhecimento da dignidade humana e por ter fundado um seminário que chegou aos 80 alunos. O modo exemplar como governou, sendo tanto arrojado, como dialogante comandante, para além de justo juíz e inventivo pai, materializou-se ainda por fazer construir em Ternate casas "ao modo de Espanha" e começar o cultivo e a irrigação de hortas, jardins, pois como nos conta Gaspar Correia nas suas Lendas da Índia levara "mulheres para lá casarem, e pedras de atafona, e serras e machados e ferro e aço e todas as coisas que houve informação que havia de haver mister em Maluco".
O P. Azevedo, o irmão Manuel Marques e o P. Oliveira chegam à capital de Ladak, Leh, em 1622, sendo recebidos amistosamente pelo rei tibetano que os autoriza a pregarem no seu reino. Ainda hoje os mosteiros budistas de Ladak, no Caxemira indiano, conservam o seu ambiente medieval único, ainda mais raro e valioso depois da anexação do Tibete pela China.
Desembarca neste dia em Cascais em 1663 o P. Manuel Godinho, ao fim de quase um ano de viagem, trazendo cartas do vice-rei António Melo e Castro contra a cedência de Bombaim aos ingleses. Escreverá a Relação do Novo Caminho que Fez por Terra e por Mar vindo da Índia a Portugal no Ano de 1663, obra notável de aventuras e registos de indianos e mouros: "Há nas cidades da Pérsia altas e soberbas mesquitas com alcorões, que correspondem às nossas torres dos sinos, tão levantados que vão às nuvens. A estes alcorões sobe quatro vezes no dia o telismano ou muezim, que é o tesoureiro da mesquita, e virado para o Oriente, pondo as mãos nas orelhas, começa a gritar com uma voz alta, sentida e vagarosa, pronunciando estas palavras, que a todos os mouros são comuns: Alá Hec Bar Axabel Alá Hélé e Helá Mahameth Rasur Alá (Deus grande, não há outro Deus, Mafamede é embaixador de Deus)". 
                                    Namdev - Wikipedia
 26-X. Nasce em Maharashtra, em 1270, o grande santo Namdeva. Dirá: "Enquanto vivia, aprendi a morrer. Não tenho agora medo da morte". "O Senhor fará da pupila do teu olho a sua morada; E o teu olho expandir-se-á e conterá o inteiro universo". Uma vez viu num templo um leproso com os pés sobre a estátua de Shiva. Chocado, Namdeva invectivou-o, mas o doente respondeu-lhe "estou fraco, põe tu os meus pés onde Deus não estiver!" Foi o começo da sua ligação a Deus, com quem chegou a ser um, como diz nos seus poemas, ainda hoje muito cantados pela Índia: "Não há salvação excepto pela devoção a Deus, por muitos estratagemas que se inventem... Diz Namdeva, todas as regras exteriores são inúteis, o único caminho para Deus está dentro do próprio ser humano". Foi pena que espiritualidade como esta não fosse reconhecida pelos sinceros mas ignorantes missionários, que mesmo assim registaram ao princípio os seus cantos, e os de Kabir e outros poetas místicos, musicados nas ruas ainda livres de Cochim e de Goa. Gurudev Ranade (1886-1957), místico como ele, e a quem já dediquei alguns artigos no blogue, foi um dos seus melhores hermeneutas.
Natural da Covilhã, António de Sousa parte aos 19 anos como jesuíta para a Índia, aos 26 de idade entra no Japão disfarçado e por fim morre em Nagasaki, neste dia em 1633, mártir, depois de nove dias tremendos no tormento das covas, pendurado da cabeça para baixo.  
27-X. O regedor e governador da Ordem de Cavalaria de Jesus Cristo, D. Manuel (1469-1521, filho do infante D. Afonso (e neto do rei D. Duarte) e da Infanta D. Beatriz, neta do rei D. João I) é aclamado como rei de Portugal em 1495. O notável humanista (discípulo de Erasmo) e historiador Damião de Góis conta que: «D. João II lhe deu por divisa a Esfera, porque os matemáticos representam a forma de toda a máquina do céu e da terra com todos os outros elementos, coisa de espantar e que parece não careceu de mistério profético, porque assim como estava ordenado por Deus que ele houvesse de ser herdeiro del-Rei D. João assim quis o mesmo Rei, a quem havia de suceder, lhe desse uma tal divisa, por cuja figura se demonstrasse a entrega e a cessão» do reino e da sua missão. Associada à cruz da Ordem de Cristo, esta divisa será levada a todo mundo como sinal duma tentativa do império universal cristão. Camões, guerreiro e sábio experimentado, ainda para mais observando já a incapacidade lusa, elevará a Esfera na ilha do Amor ao seu lugar de Reino que não é deste mundo. A governação manuelina, embora escudada em alguns heróicos cumpridores dos seus deveres, não conseguirá, e menos ainda depois com os seus sucessores, realizar o que se evocava com o primeiro oiro do Oriente lavrado, na custódia de Belém, o Graal da fraternidade das almas adorando o mesmo Espírito santo, universal, com as bênçãos da Hierarquia dos bem-aventurados resplandecentes de fogo, que Francisco de Holanda, Pedro Nunes e Camões intuíram, ou aceitaram, tanto da tradição mística como da iniciática. 
                               
  O genial imperador mogol Akbar, filho de Humayun e de Hamida Began, regressa ao mundo espiritual na cidade que fundara Fatehpur Sikri, neste dia em 1605, com 63 anos de idade, já que nascera na noite de Lua cheia de 23-X-1542. Sem saber ler, mas gostando que lhe lessem livros, dotado duma memória prodigiosa, sabendo de cor os poemas de Hafiz, Saadi e Rumi, sagaz, afável e justo, coroado Imperador em 1556, foi o iniciador duma política de aproximação das religiões dos diversos povos do seu império e interessou-se pelo cristianismo, protegendo os padres enviados de Goa. Colocara no portal da cidade imperial de Fatehpur Sikri, construída sob a sua direcção e visão entre 1570 e 1580, e onde fundara a Casa de Adoração (Ibadat-khana), cenário de longos debates, primeiro só entre islâmicos e depois com mestres das diversas tradições, entre os quais os jesuítas vindos desde 1579 de Goa, os parsis ou zoroastrianos da Índia, e os Jainas. As lutas grandes entre eles e em especial entre as divisões nos islâmicos foram-no fortificando-o na decisão de se libertar das religiões e fazer a sua síntese.  No portal principal da cidade de Fatehpur afixara em 1601 uma lápide com um dito de Jesus que surge em fontes islâmicas: "Jesus disse (a Paz esteja com Ele) o mundo é uma ponte. Portanto atravessa-a, mas não construas em cima". Com Asoka, Dara Shikoh, Sant Prannath, Sai Baba de Shirdhi, Ramalinga, Ramakrishna e Gandhi foi das notáveis individualidades, ou mahatmas, que procuraram mostrar e fomentar a unidade das religiões e a convivência ecuménica na Índia. Em 1578, durante a preparação de uma caçada, tivera a sua iluminação, descrita assim pelo seu secretário e cronista Abu-l Fazl, de quem o Padre Monserrate dissera "que o acume do seu engenho superava o de todos os seus contemporâneos»: «uma alegria sublime tomou posse do seu organismo corporal. A atracção da cognição de Deus lançara o seu raio". Badaoni diz-nos que, após tal experiência mística, tendo determinado acabar essa caçada e libertando-se todos os animais que estavam a ser encurralados, Akbar poetizara assim: "Tende cuidado, pois a graça divina vem de repente// Vem de repente, à mente do ser sábio." A partir de 1582 proclamou, depois de um concílio com vários religiosos e yogis, o seu desejo já maturo de haver uma religião universal no seu império, que não era nem o Islão nem o Hinduísmo mas Din Ilahi, a Divina Fé, ou o Divino Monoteísmo, ou ainda Tauhid Ilahi, a qual sintetizava princípios e práticas das várias religiões existentes. Ele e os aderentes reverenciavam a Luz Divina, em especial no Sol, no Fogo ou mesmo manifestada noutros modos naturais ou artificiais, tais como velas ou lâmpadas; utilizavam o famoso mantra  Allahu Akbar, que tanto significa "Deus é grande" como "Akbar é Deus". Deviam no seu dia de aniversário organizar uma festa e dar presentes e esmolas. Deviam abster-se de carne o mais possível. Deviam dormir com a cabeça para oriente e os pés para o ocidente. Não se deviam construir mais mesquitas. Alho, cebola e carne de vaca eram proibidos, tal como pelos hindus. O jejum do Ramadão e peregrinação a Meca foram proibidos. O estudo e exegese do Corão foram desapoiados e o uso do alfabeto arábico abandonado. A morte na fogueira das viúvas hindus foi também condenada ou atalhada. Deixou de praticar a caça e de a recomendar, ao mesmo tempo que proibia as prisão das aves em gaiolas. Akbar negava a divindade especial de Jesus e pouco depois, de morrer um dos jesuítas que mais convivera com ele o Padre Jerónimo Xavier dizia "que Akbar nem morreu mouro nem morreu cristão, mas na fé gentia que abraçara". O seu neto Dara Shikoh será quem retomará o seu facho luminoso, dedicando-se à espiritualidade e a estudos comparativos e traduções de textos valiosos, havendo alguns deles já traduzidos e comentados em português, por mim, no Youtube.

Nasce em Hakodate, no Japão, em 1906, Kazuo Ohno e será desde 1959 em Tóquio o co-fundador, com Hijikata, do Butoh, uma dança-teatro-mímica impressionante pelo seu intenso e depurado expressionismo e interioridade. Viverá longamente, dando provas do valor da expressão psicocorporal, até 1-VI-2010.
                                       
28-X. Desidério Erasmo nasce em 1466 em Roterdão, de um padre e de uma filha dum médico, e desde cedo deu sinais do seu génio.
  Dando à luz sucessivas obras de crítica textual, sabedoria e ensino, bem como traduções de textos da tradição clássica pagã e sobretudo dos primeiros Padres da Igreja, e valorizando uma religiosidade de razão e amor, torna-se o mestre incontestado do humanismo e da cristandade europeia no Renascimento. Entre os portugueses será amigo de Damião de Góis e inspirará ou influenciará André de Resende, Frei Valentim da Luz, João de Barros, Diogo de Teive e outros. A sua crítica dos costumes desvairados da Igreja, propondo uma religião de piedade, não-violência, veracidade, suscitou a proibição no Index de muitas das suas obras, ainda que variando conforme as limitações das ditas infalibilidades papais ou dos censores locais. Dirá: "O importante, onde se deve aplicar toda a nossa energia, é a curar a nossa alma das paixões: inveja, ódio, orgulho, avareza, concupiscência. Se não tenho o coração puro, não verei a Deus. Se não perdoar ao meu irmão, Deus não me perdoará... S. Agostinho encontrou um ou outro caso onde não se reprova a guerra: mas toda a filosofia de Cristo a condena. Os apóstolos reprovam-na sempre, e os doutores santos que a admitiram em certos casos, em quantos outros não a condenam? Porquê procurarmos à custa duma passagem o com que autorizar os nossos vícios?" Dirá ainda: "Há muita distância entre guerra e latrocínio, entre dilatar o reino da fé e aumentar a tirania deste mundo, entre buscar a saúde das almas e perseguir o botim de Mafoma. Das terras descobertas trazem-se ouro e pedras preciosas, mas mais digno de louvor seria levar lá a sabedoria cristã que vale mais que o ouro". Publiquei nas publicações Maitreya a tradução (com Álvaro Mendes),  comentada da sua obra Modus Orandi Deum, Modo de Orar a Deus, bem recomendável.E neste blogue dediquei-lhe vários artigos e traduções. Um amigo para a Eternidade....
                                              
O imperador mogol Jahangir, filho de Akbar, de quem o P. Jerónimo Xavier esperava que «Deus obraria nele um grande milagre», e que foi bastante amigo do Cristianismo, chegando a praticar a posição em cruz com os braços e a assinar cartas com símbolos cristãos, morre neste dia em 1627. Foi um grande conhecedor e patrono das artes, especialmente da pintura que atingiu grande subtileza e perfeição, tendo também muita arte europeia chegado então à Índia. Reinou moderadamente, embora algo entregue ao vinho, ao ópio e ao amor, desde 1605, e o filho Shah Jahan ascende ao trono, em Agra, em Fevereiro de 1628.

29-X. O Padre jesuíta Gaspar Vilela em carta de 1557 de Hirado no Japão, critica com certa agudeza o suicídio, hara-kiri, ou seppuku, dos nobres por ordem do seu senhor: «São ardis do demónio, para dar-lhes maior tormento, por haver-se eles morto», anima-se com uma anciã «que serviu-nos com tanta caridade e alegria que parece que víamos nela aquele grande fervor que nos novamente convertidos da primitiva igreja resplendecia», e com um cristão que no meio duma serra «vendo-nos se lançou aos nossos pés com tanta alegria que bem dava mostras no exterior do que tinha dentro». A tendência ao suicídio, em parte derivada da negação da imortalidade da alma pela filosofia zen, já então discutida entre S. Francisco Xavier e o abade Ninjit, culminará talvez com os kamikases da 2ª grande guerra .
João Heitor de Ataíde, foi natural de Aldoná, na Índia, e  veio a ser capelão da universidade de Coimbra e professor de Direito Canónico e membro da Classe de Ciências Morais e Sociais em  1884. Escreveu sobre a alma humana, sobre os mistérios do Génesis, ao mesmo tempo que procurou aliviar o sofrimento do próximo com várias obras de assistência e a sua irradiação pessoal, que o tornaram muito amado, até sair cedo deste vale de meias luzes e sofrimento com 44 anos, em 1888. 
30-X. O imperador chinês Kang Hsi publica neste dia em 1716 o Manifesto Vermelho, em vários exemplares, para serem levados pelos estrangeiros para o Ocidente. Kang Hsi, dito o Salomão da China, sábio e tolerante, procurava através do envio de vários embaixadores jesuítas a Roma, que fossem aceites as singelas tradições do culto dos antepassados, de Confúcio e do Senhor do Céu, como não sendo supersticiosas. O padre italiano Provana, com o ajudante Fan Shouyi, tentaram que os ritos não fossem condenados e não se fechassem as portas da China, mas o papa Clemente XI e os bispos Charles Maigrot, Giovanni Francesco Nicolai e Charles de Tournon, bastante rígidos e pouco universais ou católicos,  condená-los-ão e, agindo contra uma certa corrente evolutiva, perturbaram-na e originaram maior separação entre a China e o Ocidente. 
Fr. Joaquim de Santa Rita Botelho nasce em Pangim, Índia portuguesa, neste dia de 30 de Outubro de 1781, filho de Manuel Marques Botelho e de Rita Francisca de Faro. Começou a estudar no Seminário do Chorão aos 9 anos. Entrou para o convento da Madre de Deus dos Franciscanos Reformados, professando na ordem em 1799. Teve como padre mestre Frei José de Sant'Ana. Em 1807 foi nomeado Lente de Filosofia e em 1809 de Teologia. Aos 35 anos de idade foi dirigir o Arcebispado de Malaca, Solor e Timor. Em 1820 passou a Arcebispo de Granganor, onde chegou a crismar cerca de 50.000 crianças. A nomeação por decreto de 28-II-1840 como Arcebispo de Cochim justificou-se por «concorrer nele não só ciência e bons costumes, mas também por ter dado provas de bom desempenho das funções episcopais, como governador das dioceses de Cangranor e Malaca», como nos relata Alberto C. Germano da Silva Correia, no seu Os Luso-Descendentes da Índia, 1946. Em 1849 passará a Governador Arcebispo de Goa, o numus mais elevado e exercido valerosamente até partir da Terra a 8 de Fevereiro de 1859.
 
Swami Dayananda Saraswati, fundador do movimento de renascimento da Índia Arya Samaj, liberta-se do envólucro terreno neste dia em 1883, em Ajmer, com 59 anos, depois de uma vida tanto meditativa, como de erudição e de acção política, meditando na famosa oração Gayatri, que se deve repetir diariamente ao nascer e pôr do Sol: Om Bhur, Bhuva, Svah, Tat Savitur Vareniyam, Bhargo Devasya Dhimahi, Dhiyo Yo Nah Prachodayat. Muitas traduções são possíveis: "Saudação nos três mundos; para a Verdade suprema viro-me pedindo-Lhe que desoculte o seu resplendor e me guie". Outra: «Om, áquele mais querido que a nossa respiração, Auto-subsistente, Todo Conhecimento e Todo Beatitude. Nós meditamos sobre esta adorável refulgência do Universo. Possa Ela iluminar o nosso intelecto para o caminho correcto". Ou ainda: «Salvé Divindade, destruidora da ignorância, iluminadora de tudo, nós meditamos em Ti. Desabrocha a nossa consciência espiritual». Frei Paulo da Trindade na sua Conquista Espiritual do Oriente refere-a: "e dizem uma oração a que chamam govitri, [Gayatri] a qual de preceito devem dizer 108 vezes", tantas as contas dos seus rosários. A última palavra de Swami Dayananda foi Om e a sua tenção ou lema ou mantra foi Satya Meva Jayate, "Só a Verdade triunfa", proveniente da Mundaka Upanishad, 3, 1, 6 e que veio a tornar-se o lema ou mote da Índia. Swami Dayananda fora um dos fundadores do movimento pela auto-governação da Índia, o Swaraj, que depois Tilak e Gandhi levarão até à independência da Índia.  Dirá: "A divindade auto-existente e impessoal só pode ser atingida através do coração puro disciplinado pelo caminho espiritual (Yoga) e pela meditação. Sede seres fortes, sede ousados; sede puros, livres, unidos; servi a família e a humanidade. Cantai Aum, Om".

 31-X. Nasce nas margens do Mondego em 1345 o rei D. Fernando, filho de D. Pedro I e da rainha Constança, e foi denominado o Formoso. Apoiou bastante a construção e o comércio e os seguros navais, criando também uma companhia na qual havia alguns barcos que eram seus. A sua lei das Sesmarias, fomentando o trabalho agrícola, continua a ser um arquétipo necessário de actualização. A sua paixão pela formosa Leonor Teles foi pouco aceite e com a sua morte em 1383 entrou-se na crise dinástica com a qual findou a primeira dinastia, a de Borgonha, e da qual emergirá a de Aviz, com o mestre da ordem de Aviz, D. João I. O seu belíssimo túmulo encontra-se no museu arqueológico do convento do Carmo.
                                          
D. Duarte, representado talvez fidedignanente numa iluminura manuelina da Crónica do seu reinado, de Rui de Pina.
Em 1391 em Viseu nasce o rei D. Duarte, filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre, "a princesa do santo Gral", como lhe chamou Fernando Pessoa na Mensagem, e foi o primeiro rei luso a reunir uma biblioteca razoável, talvez sob inspiração da sua mãe, onde se incluíam, por exemplo, livros de Alquimia e a Arte da Memória, de Raimundo Lúlio. Começou a reinar em 1433 apoiando a expansão marítima e africana, mas a incapacidade de libertar o irmão D. Fernando do cativeiro em Tanger, vai consumi-lo implacavelmente, tanto mais que era de temperamento melancólico. Filósofo, escreveu já no fim da sua vida, em 1438, o tratado moral Leal Conselheiro, onde tenta explicar e divulgar os príncipios morais do Cristianismo, de uma forma bastante rigorosa ou ortodoxa, embora admtindo, por exemplo, a influência mas não constrangimento dos astros sobre os humanos. Foi sensível cultor da saudade: "e, por partir, algumas vezes vem tal saudade que faz chorar e suspirar, como se fosse de nojo", o que se pode recuar até à reminiscência do estado Original, como querem os filósofos da saudade, em especial Teixeira de Pascoaes ou o mais ardente Leonardo Coimbra, tendo nos nossos dias Dalila Pereira da Costa vibrado nessa profundidade de memória-desejo. Tomou como empresa uma lança em que estava enroscada helicoidalmente uma serpente, qual caduceu ígneo das energias internas, com o mote Loco, Tempore, no local e no tempo certo, ou o aqui e agora da auto-consciência espiritualizante. Saibamos viver mais plena e sabiamente o presente, o instante na sua elevada eternidade, sintonizando com este mantra da Tradição Espiritual Portuguesa e com a Divindade...
O frade Martinho Lutero afixa nas portas da igreja de Wittemberg neste dia em 1517 as suas 95 teses de crítica às doutrinas e práticas da Igreja Católica Romana, iniciando a cisão protestante. Roma reage e à secura da Reforma protestante opor-se-á o exacerbamento da Contra-Reforma, com a Inquisição, os jesuítas, a censura. Fendida a unidade cristã, os nacionalismos mercantis emergem triunfantes e os países do norte e sul da Europa enfrentar-se-ão o tempo suficiente para alterar por completo o domínio ibérico no mundo. Algo agarrados à justificação pela fé em Jesus, perderam o contacto com Maria, os santos e santas e os Anjos, secando um pouco a devoção.
 Carta escrita do sul da Índia pelo P. Henrique Henriques neste dia, em 1548, ao fundador dos jesuítas, S. Inácio de Loiola, a contar como é amigo dum yogue muito sábio que adora a um só Deus verdadeiro e que se ri dos que perguntam pelos dias bons e maus. E numa prédica, cheio de fé nos merecimentos de Jesus ou seus, perguntado "se o demónio, quando está em algum corpo, somente com ouvir dizer que vem um português, se vai do corpo, quanto mais vós, que sois Padre, o fareis? Respondi-lhe eu, ainda que então vá aquela vez, voltará outro dia, mas que quando eu o fizer em virtude de Cristo Nosso Senhor, nunca mais virá àquele corpo". Era o poder da Palavra, Sermo ou Verbo, e da invocação da força divina através de Jesus, e sobretudo da fé, essa vontade interior subtil mas que pode mover montanhas ou aparências, ou entidades negativas, tidas como insuperáveis...
Nasce neste dia em Hamburgo, em 1854 (e viverá até 1920), Hermann Oldemberg e será um dos primeiros pioneiros do orientalismo ocidental, autor de  estudos importantes sobre o Budismo e os Vedas, estes traduzindo dois volumes de hinos e publicando-os na popular colecção dos Sacred books of the East mas com as limitações da sua mentalidade europeia moderna, apontadas por exemplo por René Guénon na Introduction Génerale à l'Étude des Doctrine Hindoues, que cita mesmo o seu princípio, de que "os Indo-Germanos não acreditam em milagres" e critica a reconstituição histórica desfiguradora da biografia de Budha, muito popular contudo pela sua simplificação. Entre outros  estudiosos das línguas, filosofias, religiões e doutrinas orientais  destacaremos H. Wilson, H. Colebrooke, A. MacDonell, Sir John Woodroffe, Evan Wents, Heinrich Zimmer, Edward Conze, Paul Deussen, Hermann Jacobi, Edward Salisbury, Theodore Stcherbatsky, Henri de Lubac, Giuseppe Tucci, George Dumézil, Daisetz T. Suzuki, Marcel Granet, Lilian Silburn, Jean Herbert, Mircea Eliade, Joseph Campbell, Ananda Coomaraswamy, René Guénon, Julius Evola, Michel Hulin.

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