Dos vasos de eleição para a Sabedoria descer ou manifestar-se ao longo dos séculos, um dos mais valiosos foi sempre o das orações que brotaram para os antepassados, os mestres, deuses, o céu, o sol, o espírito, a Divindade.
Transcritas espontaneamente em jorros de admiração, alegria, receio, esperança, amor ou então elaboradas por meditações e especulações doutrinárias, aspirando ou reflectindo correspondências entre princípios e dinamismos do macrocosmos no microcosmos humano, elas chegaram até aos nossos dias interpelando-nos para as utilizarmos, actualizarmos, vivificarmos, sermos elos da Tradição Perene que os gerou e deste modo recebermos ou irradiarmos os raios do fogo luminoso e ardente que brotam sobretudo do coração de quem ora e as vivifica e intensifica e podem fazer descer as bênção espirituais.
Cada religião, cada tradição esotérica ou iniciática tem as suas orações e mantras e quase todos recebemos ora de nascimento ora de posterior conhecimento, e tais palavras e ritmos, forças e símbolos, ideias e sons agem subtil mas valiosamente em quem as pronuncia com mais consciência, atenção, intenção, abrangência, unindo o céu e a terra, as semi-trevas e a luz, a humanidade e a Divindade.
No Ocidente a oração principal que nos chegou, ensinada por Jesus, o Pai Nosso, é sem dúvida uma bela e forte oração de Sabedoria e bem meditada e vivida intensifica o conhecimento, o amor, a coragem, seja ela dirigida ao Pai, ou ao Pai e Mãe, ao Princípio ou Identidade suprema, ao Absoluto ou Infinito, pois pede-se-lhe que a sua essência manifestada no seu nome ou vibração seja por nós acolhida, compreendida, cultivada, harmonizando-nos, ou santificando-nos.
Muito se poderá especular, e milhões de páginas foram já escritas, quanto a esta oração, e que provavelmente foi pronunciada em aramaico e foi transcrita no Novo Testamento em duas versões substancialmente diferentes: face à de Mateus (6, 9-13), mais literária, a de Lucas (11, 2-) é a que parece mais fidedigna e simples, embora haja quem veja nele um abreviador, pois diz apenas "Pai", em vez de "Pai Nosso que estais nos Céus", não afirma o "Faça-se a tua vontade" , e "assim na Terra como no céu". e não há o pedido, "livra-nos do mal".
Vários teólogos admitiram que seriam ou duas orações distintas praticadas em comunidades diferentes, mas a maioria pensa que Jesus só ensinou um Pai-Nosso, e tratam-se duas transcrições diferentes pelos dois evangelistas, anos depois de as terem aprendido. Quanto à língua com que foi ensinada foi provavelmente o aramaico, que era a língua da regiao, já que o nome de Abba para Pai, é aramaico, e o hebraico seria Abi. Já se o Pai Nosso era Pai de todos os humanos ou se apenas dos que adoptavam a filiação divina através da intermediarização de Jesus, é uma questão debatida pelos teologos. E se formos para a visão de Deus como a Fonte divina que é Pai-Mãe, como alguns sentem e rezam, essa será questão ainda mais controversa.
Talvez a questão mais interessante e valiosa será a da 3ª pedido: Venha a nós o vosso ou teu Reino, como se tornou a prática normal e no fundo exteriorizante e materializante, ou venha a nós o teu ou vosso Espírito, a que me parece a melhor, tanto mais que foi a leitura que, na época recuada em que viveu (335 a 400), S. Gregório de Niza obteve na versão que tinha de S. Lucas: "Que o teu Espírito Santo venha sobre nós e nos purifique." E na linha desta visão, o "Pão nosso de cada dia" que é pedido, é, ou é também, o alimento ou a bênção espiritual.
A oração é na realidade sempre um acto de transformação anímica e abertura ao Espírito divino, individual e supra-humano, e nela as palavras e sons invocam e evocam correntes energéticas e espirituais, linhas de força ou vibrações que actuam eficazmente na pluridimensonalidade humana e ambiental, alcançando os céus, ambientes ou auras interiores e exteriores, de modo que se tenta invocar e fazer descer o esplendor ou glória ou luz do Espírito, de Deus. Para que haja mais unidade entre os seres e entre a Humanidade e o Bem, a Justiça, a Verdade, que são as manifestações mais evidentes de Deus.
Na segunda parte do Pai Nosso a petição é de forças para a acção e a transmutação na horizontalidade apelando a sermos mais justos ou sábio, não só invocando mas concretizando. Nesse sentido, depois de orarmos devemos consciencializar-nos do que iremos fazer e irradiar da luz invocada e mais ou menos recebida
No cristianismo outras orações muito praticadas são a Ave Maria, isolada ou no Rosário, a oração ao Anjo da Guarda e a oração do coração dos hesicastas ortodoxos, "Senhor Jesus Cristo, filho de Deus vivo tem piedade de nós", que tem variantes e que já abordamos no blogue a propósito da vida do staretz ou santo russo Serafim de Sarov. Mas também as que nasceram das visões dos pastorinhos em Fátima, possivelmente dum Anjo, são valiosas, sobretudo o início dela: "Meu Deus, eu creio, adoro, espero, amo-vos," já que nos focaliza bastante na ligação vertical e interior, e é simples de se repetir ardentemente...
Certamente que há muitas outras valiosas sem ser no Cristianismo e cada pessoa deve descobrir e dedilhar as que mais lhe tocam, quaisquer que sejam as razões, pois fortalecem a nossa aura, a nossa sabedoria ou discernimento do essencial e do verdadeiro (que acontece muito enquanto rezamos e nos "distraímos" nas preocupações) e a nossa ligação ao mundo espiritual e divino, tão necessária nos nossos dias da III Grande guerra não declarada abertamente, mas tão travada por diversas formas, dos quais os dos meios de comunicação são dos mais manipuladoras e estupidificantes, nomeadamente os canais televisivos e noticiários, autênticos destruidores da paz e da sabedoria que tenhamos.
Dispensemos as televisões, façamos a nossa por escolhas no Youtube, no Rumble, na RT.com e Tass.com, ou trabalhemos antes na visão interior, vigiando e orando, meditando e contemplando, para podermos agir melhor no mundo em luta e transição forte em que nos encontramos...
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