quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Breves meditações (2ª) ou ensaios sobre a Sabedoria.

      A Sabedoria, humana, é sentir, pensar, falar, agir e meditar em verdade e bem,   e harmonizar e religar os seres mundos  visíveis e invisíveis, nomeadamente a terra e o céu, os vivos, mortos e antepassados, dissipando a ignorância, atravessando os embates e as oposições, constantemente morrendo e renascendo, rumo à luz, à verdade, ao Bem, à Divindade.

A Sabedoria é o aprofundamento do que se faz, sente e pensa de modo a que se realizem transformações, transmutações e transmissões  que nos abram mais - a nós e aos outros  - à verdade, à justiça, à harmonia, à Unidade.

A Sabedoria enquanto prática mais interna e iniciática, tanto observa o mundo interior, tenta gerar e adentrar-se no silêncio, tenta entrar no coração e desvendar aspectos e mistérios, como segue a respiração e pronuncia os mantras ou palavras de poder sacro e invocatório dos seres espirituais e dos estados conscienciais e de ser que nos religam ao espírito, à Luz, à Paz, à Divindade.

O ser que cultiva, cultua ou ama a Sabedoria ou a Sapiência é por ela apoiado e transformado e consegue estar ou caminhar mais  axializado entre a Terra e o Céu, tornando-se um centro invocador, receptor e irradiador das força da verdade, da paz,  da Unidade que ele intui, sente, toca, respira, ama ou contempla.

A Sabedoria cósmica manifesta-se nas proporções, geometria, ritmos, tais os da respiração, das batidas do coração, das horas do dia, do bio-ritmo mensal, das estações do ano,  equinócios e solstícios, o ciclo lunar, da espiral biográfica da vida. E pelas leis das correspondências tudo pode ser vivenciado pluridimensionalmente, alargando ou expandindo a consciência e o ser, permitindo-nos sentir, receber, contemplar, entrar nos domínios ou níveis da essencialidade e sacralidade dos seres e viver de modos mais profunda, harmoniosos, conscientes da trindade amalgamada de corpo, alma e espírito, das dualidades complementares, dos princípios perenes e atributos divinos no aqui e agora. 

A Sabedoria é discernir os ritmos e ondas psico-somáticas, os limites, os tempos de mudança, a absorção e a irradiação, o que devemos evitar e o que devemos apoiar, tal como já dizia Epitecto, sustine et abstine, o que é justo ou injusto, o bem e o mal, e avançar e convergir ascensionalmente, axialmente.

Sabedoria é estar consciente de si e dos outros, e como devemos fluir nas relações espontaneamente a partir do coração e da espírito e sabendo ultrapassar tantos as atrações e dispersões das aparências agradáveis ou sedutoras, como vencer ou superar as ameaças e medos desintegradores.

O verbo ou sermo da Sabedora e do sábio é ser, sê-lo. Ou tornar-se, assumir, incorporar, respirar, viver, a santa Sophia, a sabedoria que é divina e que harmoniza e nos eleva à sua Luz ou glória, qualquer que seja a medida e a cor que nos caiba mais .

Na religião mais antiga dos Persas, o seu  profeta fílósofo e reformador Zoroastro, compreendeu bem a Divindade (e bispo e historiador Eusébio da Cesareia, do séc. IV, na sua Preparação Evangélica, reconheceu: "A mais bela definição da Divindade que se encontra entre os antigos é a de Zoroastro") denominou  Deus ou a fonte suprema, o grande ser ou senhor Sabedoria, Ahur Mazda, e intuiu nele seis grandes entidades  celestiais,  os Amesha spenta, os Santos Imortais, que representam atributos, arquétipos e modelos vivos com diferentes funções na harmonia do Cosmos e da Terra (estando na génese dos Arcanjos do Cristianismo),  os seus nomes, masculinos e femininos, e funções  sendo Asha Vahishta, a Verdade ou Ordem Cósmica (a que se opõe Druj, a mentira), Spenta Armaiti, a da devoção, adoração,  Sabedoria, Vohu Mana, a boa mente, com os pensamentos justos, Khshatra, Reino de Deus e soberania (correspondente ao Kshatriya, guerreiro, indiano), Haurvatat, a saúde, integridade, salvação, Ameretat, imortalidade, deixando-nos assim uma valiosa tradição dos espíritos celestiais (e os  hinos a eles, ou gathas, são de grande devoção e beleza) e dos atributos divinos importantes de serem trabalhados,

Saibamos pela vida de aspiração, labor e amor à Sabedoria e Verdade  pelos pensamentos e sentimentos,  orações e ritos, meditações e contemplações elevar-nos mais consciencialmente e transformar-nos pelos símbolos ou seres sagrados contemplados, sob o influxo da luz da glória, khvarenah ou farrah, na tradição avéstica  iraniana e na sufi, luz de amor, inteligência e justiça, que nos revela a taça do centro do coração, na idade Média erguido como santo Graal, e na Pérsia dos poetas espirituais Jam-e Jam,   que acolhe e emana os influxos celestiais e do Espirito Divino, e nos harmoniza e unifica íntima e universalmente.

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