segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Frei Isidoro Barreira, da Ordem de Cristo. Da Sabedoria, simbolizada pela flor Jacinto. "Tratado das significações das plantas, flores e frutos que se referem na Sagrada Escritura."

   Frei Isidoro Barreira foi um dos religiosos da Ordem de Cristo que tendo professado no convento de Tomar em 1606 (crendo-se que terá deixado a Terra em 1634) se dedicou perseverantemente à investigação histórico-hagiográfica e ao culto da Sabedoria moral, religiosa e espiritual, dando à luz em 1618 uma Historia da vida e martírio da gloriosa Virgem Santa Iria e, aproveitando a boa biblioteca que tinha ao seu dispor, compilando muitíssimas citações de autores greco-romanos e cristãos, bem como da Bíblia, publicou em 1622 uma espécie de erudito dicionário da simbologia medicinal, moral e espiritual, no qual para cada planta, flor ou árvores apresenta os significados atribuídos desde a antiguidade, juntando considerações suas muito valiosas, das quais destacamos as da Oração, Contemplação, Amor, etc.
Exemplar com nota de posse da Livraria do convento de N. Senhora da Conceição em Matozinhos, ao tempo da Ordem de S. Francisco.

Intitulado  Tratado das significações das plantas, flores e frutos que se referem na Sagrada Escritura. Tiradas das Divinas e Humanas letras, com suas breves considerações, foi dado à luz em Lisboa, por Paulo Craesbeeck, em 1622. Teve algum sucesso, tanto mais que serviria para os religiosos pregarem melhor e os pintores saberem  desenhar melhor o reino vegetal segundo a simbologia tradicional, saindo assim uma 2ª edição na Oficina de Manuel Lopes Ferreira em 1698, num in-4º de (6)-517 páginas.

 Na obra, antes das licenças e da Tabuada das Plantas, Fores e Frutos, (...) com seus próprios significados e considerações, Frei Isidoro Barreira escreve um breve prólogo, no início demonstrando no início a sua inserção numa das ideias-força dos Descobrimentos e do Renascimento: «A experiência das coisas foi a que descobriu a natureza delas, e dos efeitos que viu, apropriou a muitas os significados que tem.» Mas, logo em seguida, como espiritual que era ressalva ou acrescenta a intuição, a revelação, a inspiração do Alto: «Os [significados] das plantas daqui tiveram sua origem, ainda que os mais [a maioria] deles não foram tão descobertos por indústria humana, como [por] sabedoria divina.»

Neste blogue já consagramos quatro textos a um dos frades sábios da Ordem de Cisto, o lamacense Frei Mestre Paulo de Vasconcelos:  https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/01/mestres-espirituais-da-ordem-de-cristo.html, https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/01/um-capitulo-valioso-onde-desenvolvera.html https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/01/sobre-imutabilidade-divina-por-frei.html
https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/02/consideracao-dos-anjos-pelo-dom-prior.html,    e agora vamos apenas transcrever  dois extractos das considerações acerca do  Jacinto e da Sabedoria, já que nos transmitem valiosas compreensões, e porque no dia 10 farei uma palestra sobre a Sabedoria na Biblioteca da Câmara Municipal de Cascais, no ciclo Encontros de Sabedoria. Oiçamo-lo:

   «O Jacinto é uma flor e espécie de Lírio, que os Poetas fingiram que fora algum tempo um formoso menino, que Apolo convertera nesta flor, que ficou retendo o mesmo nome de Jacinto que dantes tinha. E por esta flor diz o mesmo Celio Augusto (conforme o tinha descoberto em Autores antigos) que se entende a Sabedoria, porque como Apolo fosse tido por Deus das Musas, e do engenho, veio-se a dizer, que o sentido natural em quanto não se corrompe com alguma malícia, é como um menino inocente, que carece de aviso, e discrição; mas que então é esse sentido belo e formoso, quando se levanta à contemplação de coisas altas; donde se segue, que levantado sobre si e alumiado com a razão, ponha de parte o fervor juvenil, e se converta e transforme em flor de sabedoria, juízo e descrição, lançando de si suavíssimo cheiro de virtudes. Isto é que os Filósofos antigos doutamente consideravam, quando a esta flor atribuíram a significação de sabedoria (...)
Séneca filósofo, com ser Gentio, chegou a descobrir grandes efeitos da Sabedoria, e os bens que nela se continham, dizendo, que é a sabedoria um dom, que nesta vida nos leva ao estado de bem-aventurança, para ela nos guia e vai mostrando o caminho, dirigindo-nos a tudo o que é bem e desviando-nos de tudo o que é maligno; livra o entendimento de vaidades e ensina que só aquele é felicíssimo, quem não tem necessidade de felicidade alguma, e que só aquele é poderoso, que a si mesmo tem em poder, e só aquele é sábio, que tem louvável composição dos efeitos da alma, procedendo sempre com justiça e verdade, não se levantando em coisas prósperas, nem abatendo com as adversas, nem estimando as coisas conforme a opinião, mas negando a natureza delas, mostrando-se superior a todos os acontecimentos, em tudo formoso, em tudo formoso, em tudo bem assombrado, sem temer e perturbação alguma, prevendo o que há-de fazer, e o que não há-de fazer, e o que não há de fazer e em tudo o mais governando a vida e acções em boa conformidade...»
Outra obra fruto da lavra anímica de Frei Isidoro Barreira, é a tradução, do latim, da regra do patriarca S. Bento, sob a qual se regia a Ordem de Cristo. Contém uma dedicatória ao Mestre Frei André Pacheco, Dom Prior do Convento de Tomar, & Geral da Ordem de Cristo, e uma exortação A toda Sagrada Religião, & Freires da Ordem de Cristo, explicando que adicionara um catálogo dos varões ilustres que seguiram a regra e que "na observância dos seus preceitos chegaram à vida eterna", e porque «bom conselho é ajudar  a que não se percam aomemoriais de santidade e virtude dos justos e das proezas que fizeram...».
Saibamos sintonizar e continuar conforme o nosso logos a Tradição espiritual portuguesa e universal da Sabedoria, Sapiência, Sophia, assinalada até na tenção do governador e administrador (de 1420 a 1460) da Ordem de Cristo, infante D. Henrique, Talent de Bien Faire...

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