quarta-feira, 19 de março de 2025

Um poema espiritual nos bosques de Sintra. Janeiro de 1993, numa estadia de seis meses na erma Quinta da Tapada.


Horas e dias de grande paz,
O Inverno é Primavera,
as árvores lembram-se da neve,
e sorriem às nuvens claras.

Os arbustos florescem satisfeitos
e o frio não os contrai tanto.
Há discernimento e respeito
nos crescimentos múltiplos de todos. 

O aroma é o do bosque sagrado,
a hora a do fim do dia.
O sol é uma mancha clara ao longe
e o cantar dos pássaros é vário:
atrevimento dos piscos,
receio cauteloso dos melros,
outros dão graças em zarzuelas.

O fumo da lareira é cinza no ar
volátil, caprichosa, perante os troncos imóveis.
Há alegria nos pássaros por verem-me escrever
e o cão não longe uiva de desconforto canino:
não pode voar nem falar.

As camélias estão em flor,
brancas de pureza, vermelhas do amor.
São como almas brotando da Árvore da Vida
e olhando e sentindo o Céu e o Sol distante
que se reflecte porém nas corolas.

Assim vou abrindo o meu coração às distâncias,
e encostando-me aos arbustos e troncos
firmo a minha coluna entre o céu e a terra
enquanto o pisquinho vem feliz aqui cantarolar.

Ao longe a fiada dos cedros do Líbano ou Himalaias
está quieta e serena, talvez com saudades das origens,
ou melhor, comunicando com as montanhas sagradas
pois esta serra de Sintra é também templo do Senhor.

Ó Divindade do Universo,
Talvez para ti se engalanem as árvores e bosques,
se torçam e moldem troncos e ramos,
esvoacem e cantem os passaritos.
E nós humanos aqui perdidos,
os pés e sapatos presos à terra,
nos pensamentos desgarrados
e nas palavras fúteis e inconsequentes.

Dá-nos a Tua Graça, ó Divindade,
para que a alma ressuscite do seu torpor
e o Espírito brilhe, fulgurante na noite,
e a nossa mente se torne capaz dos mistérios
e segredos que todo o universo moteja.

Em frente de mim está uma távola redonda
e estou só no entardecer friorento.
As lides do mundo prosseguem desastrosas
e uma camélia cai poderosa pela gravidade.

Camelot, cameleira, cabe onde a tua alma?
Onde a encerraste e limitaste?
Abro os braços a Deus, ao Infinito,
aos mundos distantes e a todos os contrários
e quero tornar-me Amor divino e eterno.
E assim me ergo do bosque

e me tenho firme e só Um. 

Viro-me para as costas do poente
e Vénus a estrela da tarde brilha já.
Dar-vos-ei o meu luzeiro, disse o Senhor
aos que se abrirem a mim em verdade.

Abro bem o peito e os olhos
e comungo com os seres que lá habitam.
Em corpos subtis nos visitamos,
e estou sob um chuveiro de raios e cintilações.

Há tantos mundos e seres no Universo
que devemos é estar desapegados de tudo
e de noite no corpo subtil partir e voar,
com o Alto e o Divino comungar.

E assim me despeço deste dia e de vós:
cesse o canto das palavras e pássaros,
caia a quietude e interioridade da noite
e entremos na paz da Unidade Divina.

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