domingo, 30 de março de 2025

(des) Velamentos de Pedro e Inês. Algumas imagens da exposição no Museu do Vinho de Alcobaça. E com o texto do meu contributo.

Cartaz da exposição de curadoria do Alberto Guerreiro, com uma das notáveis fotografias de Jorge Prata. Seguem-se dois dos trabalhos da Maria De Fátima Silva.

                                           

As fotografias dos túmulos, por Jorge Prata, numa imagem da autoria do Alberto Guerreiro.

           Três imagens das belas pinturas da Nélia Caixinha, baseadas nos sublimes túmulos:

                                           As alegres e multicoloridas  pinturas da Joana Guerra...

 
O delicado e original trabalho de João Leirão e Cristina Henriques
As apresentações, primeiro pelo director do Museu, Alberto Guerreiro e depois pelos artistas, nesta imagem a da Maria da Fátima Silva, perante um público bem interessado.
Nélia Caixinha
Joana Guerra explicando a sua obra.
O Céu dando sinais do Amor "até ao fim do mundo", que devemos viver...
Nelson Ferreira apresenta o seu sacro trabalho de ícones russos e gregos.
Uma fotografia do relicário de Inês, por Jorge Pratas...
São Nicolau, pintura de Nelson Ferreira, e moldura em prata russa.
Imagens da notável conferência de Jorge Pereira Sampaio, na 2ª imagem mostrando o relicário com cabelos de Inês..
O relicário de Agnes: seus louros cabelos, sete séculos nos interpelando: o que fazemos de amor e de bem?
Uma assistência paciente, pois a valiosa conferência foi de mais de uma hora  e prolongou-se num animado diálogo
Fotografia de todos os artistas participantes, rodeando o Alberto Guerreiro, director do excelente museu.
Fotografia da frente do painel, e tal como a seguinte captada pelo João Leirão, onde estava o meu contributo, que  transcrevo acompanhado  de sete fotografias obtidas na igreja do mosteiro antes de nos dirigirmos para a exposição. 
A minha breve oração em homenagem a  Pedro e Inês e à Tradição Espiritual Portuguesa. 

                               INÊS E PEDRO:  AMOR ATÉ AO FIM DO MUNDO...

Quando Inês e Pedro, a Galiza e Portugal, em 1340, se encontraram e apaixonaram: olhos, cabelos e gestos, forma, voz e espírito, não poderiam antever como o fogo do amor aceso nas suas almas, e irradiante por quinze anos, da Lisboa cortesã à Coimbra das ninfas do Mondego e das fontes, da Serra d'El- Rei e Moledo ao rio Douro e Oceano em Canidelo, atingiria a perenidade de nos congregar, quase setecentos anos depois, nesta exposição, em Alcobaça, terra e junção de rios sagrada e onde os seus corpos e almas estão sublimemente imortalizados.

Inês de Castro, ao ser morta violentamente, no sombrio 7 de Janeiro de 1355, no paço de Coimbra, em plena formosura, maternidade e doçura, derramou a sua energia por toda a eternidade, e a paixão que os transfigurava circula ainda hoje no sangue e alma dos que os amam e intuem os seus êxtases e dores e aspiram ao desabrochar do coração e do amor, da liberdade e da unidade.

Depois das oposições e desterro saudoso, morrendo D. Constança, viveu alguns anos Inês com ele, ledos e de comunhão com a natureza, coroada de rosas e boninas por D. Pedro oferecidas e, dessa intimidade nua e pura inscrita no coração, em três partos foi abençoada. Mas, depois, quanta apreensão pelas ameaças, quanta revolta e luta face aos assassinos, quanto sacrifício na entrega à morte e abandono dos meninos, olhos postos no céu cristalino?

O pleno amor de Ynês, subitamente ceifado, permanecerá vibrante em Pedro e entrará no além e no imaginário, fecundando a grande alma portuguesa e europeia na demanda da justiça, da beleza e do amor, inspirando muitos a exaltar Inês como musa e mártir ungida.

Depois da guarda do corpo de Inês pelas sorores clarissas nas margens alagadiças do Mondego, em Abril de 1362 dá-se a sua impressionante trasladação para a firme Mater cisterciensis de Alcobaça, ao qual se juntará o de Pedro em 1367, e os túmulos vão tornar-se um íman impulsionador de criações artísticas e literárias, lendas e mitos, no culto dum Graal de amor extremo.

                        

O perigo da audácia traiçoeira dos adversários da relação ou casamento, perigosa para o Reino segundo eles, fora negligenciado por Pedro e, ao ausentar-se para o exercício da montaria, deu azo à fatalidade da qual ninguém poderá sentir o impacto desintegrante na sua alma e cérebro, bem como nos três filhos de tenra e impressionável idade.

Em "grande desvairo", como narra o cronista Fernão Lopes, D. Pedro, sangrando, com as suas hostes e as dos irmãos de Inês vindas da Galiza, faz seis meses de razias no Entre Douro e Minho, onde os conselheiros culpados tinham suas terras. Acercando-se do Porto, porque o Rei e o seu exército já estavam em Guimarães, e pela mediação do Prior do Crato e de D. Beatriz, santa mãe e avó, assinam-se três acordos de amnistia e concórdia, em Agosto de 1355, jurando D. Pedro o perdão dos matadores e recebendo poderes judiciais.

Passados dois anos, com a morte do pai, D. Pedro, rei e senhor da Administração e da Justiça, assume a responsabilidade de as bem executar, e logo revoga o juramento pronunciado verbalmente, enquanto alma mutável mas não de coração e faz morrer cruelmente dois dos culpados. Confiava na justiça e misericórdia Divina, e nas orações e missas, velas, aspersões e incensos que os frades cistercienses lhes consagrarão durante séculos, e só os clarividentes intuirão os efeitos subtis de tais elementos, sons e intenções nas suas almas ascendendo no corpo místico da Igreja.

                                                               

O cognome de Justiceiro ou Cruel será apropriado conforme as circunstâncias, pois tal virtude cardeal tão demandada por Pedro e exercida duramente, também o foi sublimemente, ao fundar a obra-prima da estatuária jazente portuguesa, fazendo justiça ao amor divino incarnado e tão precocemente separado, imortalizando-o na união artística da Mors-Amor, sublimadora dos participantes das limitações corporais e históricas.

A perenidade exemplar do amor de Pedro e Inês, vencendo interesses políticos e matrimónios de conveniência, ódios, fragilidade e morte, brota tanto da intensidade do Eros vivido e da unidade alcançada, derramados por seus descendentes e todos, como da arte dos anónimos artífices dos túmulos, orientados por D. Pedro e os monges brancos alcobacenses.

As suas vidas e sentimentos, cinzelados em rosáceas e pétalas animadas de cenas historiadas e íntimas, em roda da vida e via sacra paralelas à dor e amor do ungido Jesus e do mártir e mítico apóstolo das Índias S. Bartolomeu, fecundarão de modos caleidoscópicos os sucessivos peregrinos, poetas e fiéis do Amor que as admirarão.

                                     

A numinosidade serena das faces de Inês e Pedro, brotando das suas estátuas jazentes, entre seis pares de anjos de guarda, é uma iniciação ao fogo do Amor divino no coração, e à luz da Sabedoria no olho e corpo espiritual, ou de glória, de cada um.

                            

A missão de revificar o fogo do amor unificador e imortalizador de Inês e de Pedro, e em quem ama, pois provimos do Logos solar e devemos emaná-lo em reciprocidade e criatividade, inspirará ao longo dos séculos os que entrarão nesta grã-corrente e tenção do "quem puder fazer bem, faça" (Garcia de Resende), do "désir", divisa do infante D. Pedro (seu neto e de Teresa Lourenço, da Galiza), e do  amar "até ao fim do mundo", fortificando a chama do Amor, na condição humana frequentemente "mísera e mesquinha", tal como nos Lusíadas canta Camões para Inês, na esteira de Sannazaro no De Partu Virginis para Maria, tal como discerniu Faria e Sousa.

Ao lermos, ouvirmos e admirarmos tais criadores e criações unimo-nos num culto à liberdade e beleza, energia psíquica e amor, na religação ao espírito, à Divindade, ao Cosmos, no campo unificado pluridimensional de energia consciência informação.

Que o nosso coração e ser brilhem flamejantes, em sintonia com Jesus e Bartolomeu, Inês e Pedro, os anjos e arcanjos e a tradição Espiritual de Portugal. Viva Deus, santo Amor!

                                       



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