sábado, 29 de março de 2025

Extractos do diário dos meus 26 anos quando era um yogi peregrino, ensinante, e com três menções do Afonso Cautela



  Anos em que praticava e ensinava Yoga em Évora, Covilhã, Guimarães e Porto... Na busca de menções do Afonso Cautela, para contribuir para o seu In-Memoriam, em organização pelo José Carlos Marques, encontrei duas, aquando de um retiro no Algarve, em Armação de Pera, além de uma inicial na qual, após me exercitar no que faria se tivesse de morrer em cinco dias, nomeava as pessoas  mais próximas que poderiam estar presentes celebração da morte ou desincarnação: «Maria Francisca, Dalila Pereira da Costa e Mário Pinto, do Porto. Alguns familiares. De Coimbra, Raul Traveira e Guida. De Lisboa, Maria de Lurdes, Teresa, Gustavo Andersen, Carlos Barroco, Afonso Cautela. De Sintra o grupo da vila Eugénia, e o da Arca, de Lanza del Vasto.» Segue-se a transcrição das menções e contextos das práticas e intuições espirituais nessas semanas algarvias, e que fotografei, de duas folhas seguidas:

Recebo algumas cartas: Lemam, da Nova Zelândia. Diz que uma vaga de medo controlado por uns poucos influencia muitos. E pergunta se há sítios [bons] em Portugal? - O sítio é a nossa própria alma. Quando estamos em paz connosco estamos bem em toda a parte. Certo que há grandes medos a serem lançados sobre o mundo, como eu ontem senti em relação ao meu trabalho espiritual: nasceria um aborto, ou uma criança envelhecida, isto pelo prematuro ou pelo tardio da nossa ligação energética com Deus. Pode ser que em função do que experimentei e sofri no passado já não devo ter de conhecer os planos intermédios entre a Terra e o Espírito. Mas libertar-nos do medo e cumprir o nosso dharma presente é fundamental. O meu agora é estabilizar o mental para a descida do espiritual

Carta do Afonso Cautela. Há alguns terrenos no Alentejo, mas são sítios isolados. Pergunto-me qual deve ser a minha missão, e como posso estar já a procurar sítio, se não sei o trabalho que irei assumir mais? Como poderei escolher já o ambiente? Primeiro tenho que saber da missão, o que equivale a uma iluminação maior do propósito desta vida, pelo que só depois disso lhe darei notícias. [Uma rara carta do Afonso, e que espelha o seu apoio ao meu ideal  de encontrar  um terreno para um centro de yoga, espiritualidade, agricultura biológica, comunidade ou família...]

Chega-me um reclame de propaganda do ashram do Vishnu Devananda, do Canadá, dizendo que estamos a entrar no séc. XXI e que devemos preparar-nos física e psiquicamente para a auto-suficiência. É interessante realmente existir um ashram já dentro destes moldes, com casa alimentada a energia solar e uma comunidade ao serviço do país.

Carta do Brasil, do Aureliano Tavares [ceramista, casado com a Maria João, também ceramista, que tiveram a Mufla, em Lisboa, amigos do Carlos Barroco e da Nadia Bagioli]  Pergunta, qual é o melhor caminho (rápido) espiritual? - Só há práticas pessoais, conforme o estado de cada um. As práticas visam purificar e harmonizar os corpos subtis, os nossos níveis psíquicos, para que se dê a acoplagem com o alto, com o espiritual e o divino. Ora cada ser precisa precisa de trabalhar mais aqui e acolá. Por isso são precisos os Mestres, seres que já subiram e vêm o que se passa nos outros e lhes ensinam o que devem fazer. Eu estou a aprofundar esta subida para poder transmitir,

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O Yoga é ecologia, é a purificação individual das fontes "desecológicas" do egoísmo e da ignorância.

Viver Deus no contacto com o exterior, corresponde a ver Deus ou a sua energia em tudo, e logo estar em amor, mas lutar para corrigir o que está errado, e para tal o Yoga enquanto ligação entre o coração e o cérebro ajuda.

A Verdade é só uma e é pelo silêncio que ela se escuta.

O prana [a energia vital em partículas] solar pode ser absorvido ou sorvido pela boca.

As 14.00 horas vou para a praia onde estou até às 15 e tal, com três banhos, mas no espelho vejo-me um pouco branco. É natural se faço meditação em Sushuma (canal central subtil] que haja disparidade no sangue. A alimentação também tem pouco vermelho [ou alimentos ricos] em ferro. Assim medito na praia, mas em casa lanço-me [ao jantar cedo] sobre a aveia e peras. A aveia é que está bem, mas o estômago ao fim da tarde refila um pouco. É importante durante e após as refeições estar consciente do prana [ou energia] que entra e sabermos tanto assimilá-lo como  dirigi-lo para o alto, para Deus [por isso em algumas religiões alguém lê em voz alta durante as refeições em comum]. Começo a tapar os ouvidos com algodão [quando medito] e engraçadamente os amigos velhotes do campo que visito ao fim da tarde estão os dois com zumbidos e comichões nos ouvidos. É esta civilização barulhenta. Lembro-me do [Afonso] Cautela biliento [reagindo com a bílis do fígado, contra o fascismo do ruído das cidades] com certa razão, mas devia [ou seria melhor] transformar o ódio em amor construtivo   [o que ele ainda assim foi conseguindo muito fecundamente alquimizar em tantos artigos ecológicos e em várias investigações e práticas das energias subtis].

Sobre o espírito este só se manifesta [ou manifesta-se mais...] se acreditamos ou nos dirigimos para Deus, pois este é a sua essência. Não em nome da Verdade, da pureza, do altruísmo. Mas Deus. Yoga é a ciência da união com Deus, depois com o Universo, depois consigo próprio. Pati [Deus, Shiva] e Pasu [a alma individual, e encadeada (pasa)] na terminologia da Sidhanta, [uma filosofia do sul da Índia

Nestas sadhanas [práticas psico-espirituais] longas pela noite fora, em que Deus é invocado e muito do passado vai sendo queimado na aspiração ao Alto, os nossos amigos das forças demoníacas resolvem atacar quando começamos a enfraquecer e nos preparamos para dormir. Estando um pouco virado para o lado direito, eis que queriam entrar na minha cabeça pelo lado esquerdo. Antes aparecia numa espécie de imagem um máquina de ver se se se fala a verdade e que consistia em fazer uma pergunta e depois havia duas luzes, uma se era verdade, outra se era falsa. E o princípio consiste em que acendia-se a luz e o olhar da pessoa perguntada dirigia-se logo para a certa [ou correspondente].

Ao abrirmos o chakra cardíaco ficamos muito expostos [ou sensíveis] e por isso fraternidades e mestres se formaram [para gerar certas orientações e controles]. Por isso se ensina também que a vontade tem de ser elevada ao rubro, numa firme confiança no Cristo interno. "Eu e o Pai somos um",seja o teu bordão.

Antes de me deitar, um miúdo gritara "é um ovni, é um ovni", em brincadeira [certamente]. E eu resolvi abrir a janela para cumprimentar um pouco tal vibração da criança, e mal estava a fazê-lo quando se ouviu a voz do pai: "Parto-te a cara". As pessoas estão entregues aos seus prazeres [ou às suas concepções opressivas dos outros] e não querem ser despertas para a luz. [E quem sabe se foi a voz e as energias de tal pai, que depois senti como forças demoníacas a tentarem entrar na minha cabeça, e talvez até da criança, como de facto tal brutalidade de comportamento indica?]

Lux, Amor, Pax....

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