terça-feira, 1 de março de 2022

O conflito entre a Ucrânia e a Rússia visto como o campo de batalha de Kurukshetra. Qual é o dharma que nos compete, conforme os ensinamentos da Bhagavad Gita?

"A guerra é agradável para os que a desconhecem" é um admirável dito de Erasmo, um dos pais da verdadeira Europa, a humanista, ética, religiosa ou espiritual,  em latim, a língua franca de então, dulce bellum  inexpertis (e que ele ao longo da sua vida foi ampliando nos Adágios com imensa divulgação, adesão e sucesso) e por isso, após tanta história e guerra (e alguma recente como a da Jugoslávia)  não se esperava que ela se manifestasse tão claramente, e não insidiosa e disfarçadamente, na civilizada e industrializada Europa, ainda bastante combalida dos efeitos pandémicos e sistémicos opressivos e destrutivos do Covid. Mas aconteceu e isso tem provocado naturalmente grande agitação ou mesmo furor nos "media" e logo comoção, indignação e furor-temor nas pessoas, talvez até desproporcionadamente já que a guerra continua a acontecer em várias partes do globo e em geral graças ao fornecimento de armas e apoio anglo-saxónico e europeu, quando não há mesmo ocupação indesejada, tal como sucede impunemente na Síria e de certo modo no Iraque.  

Ora tal como o mais importante texto da religião e da espiritualidade indiana, comparável entre nós aos Evangelhos, mas bem mais elevado ou profundo em vários aspectos, a Bhagavad Gita, nasce no começo da imensa batalha de Kurukshetra, entre parentes, ao ser dado por Sri Krishna em forma de diálogo a Arjuna   para o impulsionar a cumprir o seu dever de lutar pelo Dharma, o Dever, a Ordem e Harmonia Cósmica, lembrando-lhe até que as almas são imortais e que portanto quando as forças "asuricas" ou do mal querem prevalecer, então há que lutar, Ele próprio, avatar, descendo à Terra, ou às pessoas, para enfrentar tais forças ignorantes e destrutivas, assim também nós vemos hoje nos dois lados em conflito razões suficientes para em ambos haver muitas pessoas a pensar que estão a lutar pela verdade, a justiça e a liberdade e, logo a cumprir o seu dharma ou dever.  

A nós, não ucranianos nem russos, algo distantes geograficamente, embora os nacionalismo, europeísmos e Natos sejam frequentemente imperialistas ou globalistas (e daí que estejam a atiçar o conflito fornecendo armamento e provocando certamente mais mortes de ambos os lados), apenas  competir-nos-á esforçar-nos por mantermo-nos serenos, alinhados verticalmente, e estimular as possibilidades de diálogo, para que as negociações levem ao entendimento e ao fim da guerra, tanto mais que os pontos em questão são poucos e devem ser solucionados pela razão, o bom senso, o pragmatismo ou mesmo o amor compaixão, já que Humanidade é una e a Europa é una, de Portugal à Rússia...
Sabemos porém que será difícil porque há uma guerra cada
vez maior do império norte-americano ou anglo-saxónico, e da sua NATO, mais da submetida direcção da União Europeia,  contra a Rússia e a China, seus principais rivais no poderio geo-estratégico, económico e ideológico. 

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 E também porque a violência e a morte  se tornaram banais, seja virtualmente em filmes (tal a manipuladora indústria hollywoodesca) e vídeos, seja realmente em conflitos e assassínios,  nas prisões ou cidades (como recentemente vimos perpetrado cobardemente sobre o heróico vencedor dos terroristas do ISIL  e mártir Qasem Soleimani, em cima na fotografia), pelo que a vida humana cada vez conta menos para a generalidade dos governos e até para o público. E é mais quando  um cidadão norte-americano ou inglês é molestado algures, ou então os seus interesses são ameaçados, que se fazem logo levantar vozes e ameaças dos que são empáticos ou arregimentados com os que até há pouco eram os senhores únicos do mundo, com um palmarés invejável de guerras começadas e vencidas, e em que morreram e ficaram feridos e traumatizados milhões de seres e a terra adoentada e cancerizada. Daí que no Ocidente anglo-saxonizado, mas não só, haja quem esteja a querer fazer uma espécie de nova guerra civil espanhola, com os mais explosivos ou mesmo fanáticos alistando-se já em armadas para irem lutar por um ou outro lado.

                                             

O ensinamento de Sri Krishna, uma das faces divinas mais adorada no planeta, é ainda hoje uma fonte fundamental de clarificação, harmonização  e aprofundamento psicológico e espiritual pelo que a leitura educativa da Bhagavad Gita  seria muito recomendada a todos, e em especial aos políticos warmongers ou belicosos, tanto mais que existem muitas edições no mercado (entre nós as Publicações Maitreya tem duas), para que diminua a sua ignorância e violência incorrecta, pois a verdadeira guerra santa ou jihad, tal como Henry Corbin, Louis Massignon ou o nosso amigo Agostinho da Silva nos explicaram com sabedoria, é contra os nossos instintos e ego, vaidades e ambições, arrogâncias e egoísmos, preguiças, invejas e infidelidades, e visa o objectivo mais elevado de todo o ser humano na Terra, conforme a maioria das vias religiosas e espirituais: controle ou unificação das nossas forças instintivas e psíquicas e  a religação a Deus. E logo uma vida mais harmoniosa, luminosa, criativa, solidária e em amor.

E abrindo agora uma das versões que possuo da tão valiosa Bhagavad Gita, fazendo assim o istixara persa, pelo qual os iranianos, após breve oração, abrem à sorte as páginas não só do Alcorão mas sobretudo dos diwans de Saadi e Hafiz, como fiz e vi fazer in loco,  leio da tradução do sábio Jean Herbert da versão do famoso Sri Aurobindo (e que o meu irmão Luís traduziu há algumas décadas e mais recentemente o amigo Rui Fazenda dactilografou), na página 97, o  versículo 11 do cap. X, no qual Sri Krishna promete aos seres que o verdadeiramente amarem e merecerem que «por amor-compaixão a eles, habito no seu eu  e destruo pela lâmpada resplandecente do conhecimento as trevas nascidas da ignorância». 

É pois sobretudo através desta religação do ser humano com o espírito, com o Ser Divino, ou, se quisermos, apenas o Bem, a Justiça e a Paz,  que a fraternidade humana mais pacífica, solidária e harmoniosa vencerá a necessidade férrea das explorações e violências, egoísmos e ódios, conflitos e guerras.
Possa tal acontecer rapidamente na Ucrânia e que a paz justa
que a maioria dos russos e ucranianos tanto desejam se concretize, mesmo que os senhores financeiros do mundo e os "media", não satisfeitos com os lucros e razias psicológicas da covinagem, continuem a estimular manifestações inúteis ou a propagandear por si, ou por comentadores alinhados-vendidos, o slogan do mata e esfola, ou a demonização da Rússia, muito menos desequilibrada e bem mais europeia que a USA, a NATO, e de certo modo até que o Reino Unido desde que este saiu da União Europeia e a vê como uma concorrente.

Saibamos ver o menos possível, ou não ver mesmo televisão, nem perder demasiado tempo com as notícias sempre distorcidas do que brevemente passará, e para o qual pouco podemos fazer, a não ser intensificarmos o nosso despertar individual e imortal e avançarmos persistentemente no caminho da harmonia, do bem e da realização espiritual, tal como Sri Krishna ou o sábio indiano que escreveu ou intuiu a incomparavelmente preciosa Bhagavad Gita nos ensinam, com conselhos simples mas tão verdadeiros, eficazes e perenes, tal este colhido de novo por istixara, e numa tradução que espero ainda vir a melhorar por mim próprio:

Cap. XIII. 11.12: «Uma alma meditativa virada para a solidão e que se afasta do barulho vão das multidões e das assembleias de homens, uma percepção filosófica do verdadeiro sentido e dos vastos princípios da existência, uma continuidade tranquila de conhecimento e de luz interiores espirituais, o yoga de uma devoção sem desfalecimento, o amor de Deus, a adoração constante e profunda da Presença universal e eterna - tal é declarado o Conhecimento; tudo o que é oposto a tal é ignorância»....

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