sábado, 17 de janeiro de 2026

O Amor e a Amizade como estados de dádiva, aperfeiçoamento, união, sabedoria, felicidade. Os ensinamentos de Marin Le Roy Gomberville.

 Já partilhamos em dois artigos as máximas, mottos ou ditos da obra A Doutrina Moral ou dos Costumes, no original La Doctrine des Moeurs, tiree de la Philosophie des Stoiques,  en cent tableaux et expliqvee en cent discovrs pour l'instruction de la ieunesse, publicada em Paris em 1646 por Marin Le Roy Gomberville e reimpressa em 1683 sob o título La Doctrine des Moevrs, qui represente en cent tableavx la différence des passions: et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle,  que contém na sua  I Parte sessenta figuras, e  na II Parte quarenta e três,, valiosas de serem contempladas, cada uma delas com o seu mote ou lema,  o epigrama ou quadra e  por fim a explicação ou comentário, igualmente dignos de serem lidos e meditados por quem quer trilhar melhor o caminho da Sabedoria humana e Divina.
                                         
 
Foi um manual de virtus et sapientia para muitos, dinamizando o discernimento do bem e do mal, a virtude e o vício, sem excessos de atemorizações ou rigores e com observações valiosas psico-espirituais. Também os títulos debaixo das imagem - motes, ditos ou lemas -, e depois os epigramas ou quadras em verso eram facilmente assimiláveis na alma, na sua tão importante faculdade retentiva, a memória, a que se seguia o breve texto explicativo, a narratio, de página e meia da autoria plena de Gomberville, já que motes e epigramas tiveram diferentes autores e Gomberville apenas os modificou ou mesmo simplificou.
                                        
Na verdade, tanto os mo
tes e os epigramas, como as figuras ou emblemas,  vinham da obra de Otto Vaenius intitulada Quinti Horatii Flacci  Emblemata imaginibus, in æs incis, notisq́; illustrata, publicada em 1607,  1612 e anos seguintes,  conhecida também por Emblemata Horatiana,  estando constituída por emblemas inspirados sobretudo na obra do poeta e filósofo romano Horácio (65 a 8 a. C.). Com as sucessivas edições e traduções, outros gravadores e editores entraram em acção e a qualidade e os pormenores das imagens oscilaram. As edições impressas por Francisco Foppens, em Bruxelas, são das melhores. As francesas de Gomberville, impressas por Pierre Daret em 1646 e por Jacques le Grass em 1688 ressentem-se de serem em tamanho  in-8º ou de 16 cm, sendo as primeiras de Pierre Daret  mais nítidas ou melhores, mas mesmo assim inferiores às primordiais de Otto Vaenius, ou Otto van Veen (1556-1629), como podemos observar:
                                              
Vamos neste
 artigo apresentar um resumo ou breve hermenêutica de dez motes e suas narratio ou explicações contidos na I Parte do livro, respeitantes ao Amor, nas suas indicações mais originais  ou valiosas:
- O Homem nasceu para amar. -
- Amando, tornamo-nos perfeitos.
- É preciso amar para ser amado.
- O amor dos Povos é a força dos Estados.
- A verdadeira amizade é desinteressada.
- O amigo não vê o defeito do amigo.
- Respeita o teu amigo e cuida de ti. -
- O Silêncio é a vida do Amor.
- A inveja é a morte do amor.
- Quem tem o necessário, não tem nada a desejar.
                                           
1º mote
O homem nasceu para amartem esta quadra boa: 

 O Amor anima das suas chamas,
Todos os que são dignos da luz do dia
As pessoas que não têm amor
São corpos que vivem sem almas. 

Na explicação, Marin Le Roy de Gomberville  considera o Amor como fogo animador nosso, e diz-nos que temos todos uma mesma Mãe ou fonte Divina, estando no nosso coração gravado pelo dedo da Natureza o amor a Deus e ao próximo e logo as suas consequências fraternas: sentir os outros com mais amor, como amigos, pois só assim poderemos sentir a felicidade recíproca e a sintonia divina. 
 No 2º dito ou mote, Amando, tornamo-nos perfeitos Marin de Gomberville explica que na verdadeira amizade ou amor os defeitos de cada um devem ser iluminados, ajudados ou amados pelo outro, para que haja conversão gradual das imperfeições e vícios, em virtudes que geram "o acordo harmonioso, que é o laço indissolúvel das almas."
 No mote ou mantra 3º, bem desafiante, ígneo mesmo, É preciso amar para ser amado, Gomberville volta à necessidade de suportarmos e apreciarmos os temperamentos, inclinações, gostos e qualidades dos outros diferentes ou contrários aos nossos, para  nos completarmos na amizade, tal como vemos no caçador e o tocador de lira.
O 4º mote, O amor dos Povos é a força dos Estados, tal como a explicação, são actualíssimos, nesta relembrando que se os povos estão unidos entre si afectivamente,  tanto horizontalmente como verticalmente, não podem ser presas ou vítimas dos estrangeiros. Ora vemos como tais divisões destruíram alguns países e como outros, mais martirizados e resilientes, se uniram e vão conseguindo vencer os cobiçosos e traiçoeiros inimigos. Os casos da Síria e do Irão. E mesmo em parte a Venezuela ou Cuba.
 O 5º mote.  
A verdadeira amizade é desinteressadacontém tanto um belo verso, ("O lucro é o objecto da amizade vulgar,/ Mas um coração grande e nobre ama sem interesse, /E creio que o Amor, sendo Deus tal como ele é,/ Não é usurário nem mercenário), como uma ainda boa explicação, onde realça ser uma infâmia ter interesses em vista, ou ser comerciada ou comprada, a amizade, pois só o amor compra ou merece o amor. 
O 6º mote O amigo não vê o defeito do amigotem uma quadra de grande sabedoria e que eu já glosei há uns anos (tal como encontra no blogue) numa exposição de pintura e textos na galeria Novo Século do Carlos Barroco e da Nadia Bagioli, intitulada o Amor é cego, pois só com essa venda é que vemos tudo perfeito no ser ou coisa amada.
 O 7º lema  Respeita o teu amigo e cuida de tirelembra como é mal vermos tantos defeitos nos outros e sermos cegos para os nossos. E existir tal hipercriticismo para com os amigos ainda é pior. Saibamos lavar os olhos e a alma com a humildade, a modéstia,  junto ao auto-conhecimento da nossa condição peregrina e frágil.
O 8º mote, que é a 28ª figura no livro,   O Silêncio é a vida do Amor, e do qual transcrevemos o epigrama no 1º artigo do blogue sobre a busca da Sabedoria em Gomberville, é explicado em alguns sentidos, tal o de se falar o menos possível das nossas amizades a outras pessoas para não ofendermos ninguém. Aduzindo as três leis do Amor, a primeira de amar, a segunda ter uma boa opinião do seu amigo ou amiga, a terceira o respeitoso silêncio de guardar no coração tudo o que sabemos dele ou dela, cita a regra do silêncio nos Mistérios das Religiões antigas, introduzindo assim na sua obra uma menção expressa à iniciação e à Theologia Perennis. Transcreveremos brevemente toda a explicação. https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/01/o-silencio-como-deus-ou-daimon.html
O  9º mote ou dito  A Inveja é a morte do Amor, é simples pois aponta apenas à inveja dos bens ou da prosperidade dos outros, considerando a sua representação como serpentes saindo dos cabelos muito adequada.
                                       
O 10º mote e final desta série que selecionamos, diz-nos Quem tem o necessário, não tem nada a desejar, e nele Marin Le Roy Gomberville, depois de relembrar que o sofrimento faz metade da virtude, e que a outra consiste na abstinência, explica minuciosamente o simbolismo do desenho, algo que aliás faz em todas as explicações das figuras enaltecendo sempre os artistas desenhadores (e vários foram ao longo das edições, tais P. Daret, C. Boel, C. Galle, P. de Jode, A Clouzier),  no qual vemos o sábio contentando-se com água da fonte (que algo iniciaticamente lhe é servida por um anjo, génio ou subtil espírito)  e, ao longe, um homem que, desmedido na sua hubris ou ambição, acaba por ser levado por uma corrente. Quem não pensará em alguns dirigentes políticos?  Ora se nos contentarmos com pouco ou menos, conservaremos a vida física e moral, a cordialidade com os vizinhos e a relação divina. No fundo, implicitamente, diz que quem está no caminho espiritual ou da Sabedoria deve estar contente e muito grato ou em amor pelo que a vida e Deus lhe dão, nos dão... Demos graças... Amen....
 Concluamos com um emblema onde Nemésis, tão necessária nos nossos dias de tanta hubris política, expulsa as forças inimigas que tentam com riquezas corromper a Virtude, com um mote que invoca ainda o Amor abordado nos dez anteriores, e meditemo-lo bem: "Ama a Virtude, pelo amor dela mesma, " e recebamos o início da hermenêutica guerreira de Martin Le Roy de Gomberville: Não podemos ignorar que a Virtude não é Virtude, se ela não age, se ela não combate e se mal-grado o grande número de inimigos pelos quais é atacada, ela não permanecesse victoriosa!
                     Virtus, Sapientia et Amor omnia vincunt! 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Marin Le Roy Gomberville e a sua Doutrina dos Costumes. II Parte. Um tratado de Sabedoria em cem figuras, seiscentista.

Frontispício da 1ª edição.

    A Doutrina Moral ou dos Costumes, aliás La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle, publicada desde 1646 (e então com o subtítulo tiree de la philosophie des stoiques) por Marin Le Roy Gomberville, já abordada nas sessenta figuras e motes da sua  I parte, contém  na II parte, sob as gravuras ou figuras, quarenta e três motes ou lemas valiosos de serem meditados por quem quer trilhar caminho da Sabedoria humana e divina.
                                        
Embora o fi
m da obra seja aparentemente algo "negativo", pois muitas das figuras e motes finais sejam sobre a Morte, dentro do princípio de que Filosofar é aprender a morrer, - pelo desprender-se dos bens, dos desejos, da necessidade e assim conseguir libertar-se dos laços terrenos, seja ainda em vida e nas suas meditações, seja à hora da morte, para não se ficar retido nos planos subtis do umbral e do astral menos luminoso -,  há vários ensinamentos bem valiosos tanto pelos emblemas, como pelos motes, epigramas e texto explicativo ou hermenêutico. O que destacaremos mais no seu todo?
- O valor duma boa consciência limpa e tranquila, e logo confiante, destemida, imperturbável. A vida sóbria ou tempera
nte, os estudos e esforços pelas virtudes, equilibrados por sentimentos sãos e cordial disposição, geram a sabedoria, a qual dá frutos perenes. 

 Registe-se que  Marin le Roy de Gomberville, transcrevendo Otto Vaenius, na II Parte não utilizou a palavra Amor, só desenvolvida ou valorizada em 12 ou 10 motes na I Parte, ainda que bem importantes, tal o "Ama a Virtude (ou se quisermos a Sabedoria) pelo amor a ela". "O ser humano nasceu para amar". "Ao amar uma pessoa torna-se perfeita", "é preciso amar para ser amado". "O Amor dos povos é a força dos Estados" (como falham hoje tanto os governos, só amando os "seus" companheiros na governança). "A inveja é a morte do Amor". Nesta II Parte  valoriza mais o estudo, o esforço, o vencer os sofrimentos, o desenvolver a tranquilidade de consciência, o desprendimento perante a morte e a confiança na  consciência justa nossa e de Deus. Leiamos então o conjunto dos quarenta e três motes da II Parte, ficando para outra vez a transcrição de algumas das explicações morais de Marin Le Roy Gomberville:
                                       
Cada um deve seguir a sua inclinação.
O tolo queixa-se sempre da sua condição.
Todos os nossos defeitos têm o seu pretexto.
Quem vive bem, viaja feliz.
O estudo das Letras é a felicidade do homem.
A preguiça é a mãe dos vícios.

Só o sábio é livre. 
O sábio é inabalável. 
A pessoa de bem estar em toda está parte segura.
Quem sofre muito, ganha muito. 
A boa consciência é invencível. 
Quem vive bem, não esconde nada a sua vida. 
A Virtude tem em toda pa
rte a sua recompensa.
A eternidade é o fruto dos nossos estudos.
A virtude torna-nos imortais.


 O espírito precisa de repouso.
O sábio não está sempre séri
o.


A alegria faz parte da Sabedoria.
O Sábio ri quando deve rir.
A Virtude é objecto de inveja.
A inveja só cede à Morte.
A Virtude triunfa de todos os seus inimigos. 
Nada dura assim que tudo dura.
Todos os Séculos tiveram seus vícios. 
É preciso acomodar-se ao tempo.
Não lamentes o tempo passado.
Não há nada de tão curto que a vida.
Tudo se perde, com o Tempo.


 Filosofar, é aprender a morrer. 
A Velhice tem os seus prazeres. 
Não te informes do futuro.
A Morte é inevitável. 
Vivamos sem temer a Morte.
O Velho não deve pensar senão morrer. 
Não há providência contra a Morte.
A Morte despoja-nos de todas as coisas.
A Morte iguala-nos a todos.
Nada de mais certo quanto a Morte.
O caminho da Morte é comum a todos. 


A Morte inexorável.
O Homem não é mais do que um pouco de lama.
A Morte é o fim de todas coisas.»


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Álbum Comemorativo do 50º aniversário da Fundação do Colégio de Campolide,1858-1908.

 Imagens antigas de Lisboa: O famoso  Colégio de Campolide, dos Jesuítas, extraídas do raro,  pois não se encontra na web, e que me passou pelas  mãos, Album Comemorativo  do 50º aniversario da  Fundação do Collegio de Campolide,1858-1908. São 23 fotografias, num livro dimensão 23 x 35 cm, brochado cor avermelhada. Com a revolução republicana de 1910 os jesuítas sofreram bastante, presos e desterrados e o Colégio foi encerrado. Terminava um sonho de 50 anos de cultura educativa, mas também de  religião ligada influência política, o que era fatal. Hoje é a Penitenciária de Lisboa,  e se reeducativa ou não, não sabemos bem. Brevemente anotarei as fotografias e partilharei alguns nomes, sendo a 1º fotografia dum padre a do fundador Carlos Rademeker. Borges Grainha, em 1913 traduziu do latim e publicou a História do Colégio de Campolide, da Companhia Jesus, muito bem ilustrada com fotografias do colégio e dos alunos, nomeadamente nas festas anuais de comemoração

 

Directores [do Colégio] de Campolide (1858-1908): 1º P. Carlos Rademaker. 2º P. J. Meagher. 3º P. Franco Sturzo. 4º  P. J. Campo Santo.5º P. A.   Cordeiro. 6º P. J. de Magalhães. 7º P. Luiz Cabral. 8º P. A. Barros.
Comissão dos Antigos Alunos (1907-1908):1º plano: José Carlos Lara Everard, D. João da  Câmara, Conde Ayres d'Ornellas, P. Luiz  Cabral, Edmundo Rovere, Fernando Belo. 2º plano: Conde de Vila Verde, P. Luiz de Almeida, Marquês de Souza Holstein, F. Alves Pereira Rodrigues Ravasco, Joaquim  Rumina. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Marin Le Roy Gomberville e a sua Doutrina dos Costumes. Um tratado de Sabedoria em cem figuras, seiscentista.

 La Doctrine des Moevrs, tiree de la philosophie des stoiques, representee en cent tableavx et expliqvee en cent discovrs pour l'instruction de la ieunesse, publicada em 1646 e reimpressa com modificações na década de oitenta sob o título La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle, de Marin Le Roy Gomberville, é talvez a obra mais valiosa de um espírito de precoces dons, poeta, historiador, escritor criativo (sobretudo no seu romance estilo de cavalaria, barroco, Polexandre, bastante universalista), moralista piedoso e que viveu entre 1600 e 14/6/1674, sendo mesmo um dos quarenta membros fundadores da Academia Francesa. Na sua última obra, sobre a casa dinástica de Never, justifica por causas políticas não ter sido tanto historiador como foi publicista, poeta, ficcionista e moralista. Teve descendência, cinco filhos, vivendo os últimos anos retirado em estudo e meditação. Esta obra revela a clara intenção pedagógica de inspirar as pessoas ao auto-conhecimento e ao caminho da virtude, sobriedade, harmonia, sabedoria, amor, felicidade aqui e no além...
A Doutrina dos Costumes, ou Doutrina Moral,  apresenta o caminho para se chegar ou viver na Sabedoria, segundo a tradição ética e filosófica ocidental greco-latina e cristã, e seguindo o que era veiculado com impacto e sucesso pelos autores de emblemata, tais Alciato (1492-1550) e Otto Vaenius (1556-1629). A obra desfrutou de grande sucesso editorial (1646, 1681, 82, 83, 84, 85, 88) provavelmente por estar em vernáculo (embora a 1ª edição tivesse também motes e epigramas em latim) e apresentar cento e três sugestivas gravuras desenhadas pelo pintor humanista Otto Vaenius (Otto van Veen) e abertas por seu irmão Gijsbert van Veen no seu Studio, para os Q. Horati  Flacci Emblemata, publicados em 1607, 1612, 1683.
A 1ª edição em francês de Gomberville, em 1646, dedicada à rainha Ana da Áustria e ao seu filho o rei Luís XIV e ao cardeal Mazarin, está  dividida em duas partes de sessenta e de quarenta e três emblemas, gravados pelo gravador e impressor Pierre Daret seguindo os de Otto Vaenius, e cada um deles tem um mote ou lema, um epigrama ou quadra e duas páginas da explicação ou hermenêutica moral. A base dos motes e epigramas são Horácio e a tradição greco-romana, pitagórica, socrática e estóica moderada, e humanista, e Le Roy de Gomberville segue-as nas suas explicações,  aprofundando mais ou menos o epigrama e a simbologia do emblema, e não cita autores nas margens, apenas mencionando  uma vez cada Sócrates, Catão, Licurgo, Diógenes, Zenão e Plutarco, embora haja menções de poemas e mitologias greco-romanos, com seus heróis, tais Aquiles e Hércules, e deuses, tais Júpiter nos céus, Minerva, Harpócrates, Mercúrio...
Foi um manual de sabedoria para muita gente, providenciando uma base de discernimento do  bem e o mal,  virtude e vício, sem  excessos de atemorizações ou rigores, e os motes ou títulos, e os epigramas ou quadras eram autênticos lemas ou mantras facilmente assimiláveis na alma, a que se seguia o breve texto explicativo, este o único da plena autoria de Marin Le Roy Gomberville.
 
Por exemplo a 1ª divisa, "A Natureza começa: o alimento (cultivar) completa (aperfeiçoa)", que no latim original era bem melhor, Naturam Minerva perficit, a quadra é: 

«Ne te promets pas tout des soins de la Nature
Il faut que ton travail accompagne le sien:
Le Champ le plus fertile a besoin de culture
Et si le Laboureur ne l'ensemence bien, il n'y recueille rien.
 
Não esperes tudo dos cuidados da Natureza
É preciso que o teu trabalho acompanhe o seu:
O campo mais fértil precisa de cultura
E se o lavrador não o semear bem, nada recolherá.»
 
A versão original de Pierre Daret, em 1646. mais perfeita
                                     

Nas edições seguintes, tal a de 1688. a qualidade é mais fraca

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   Vamos transcrever  os motes das divisas da I Parte, e num segundo artigo os da II Parte, com alguns dos emblemas 
A Natureza começa: o alimento aperfeiçoa
O alimento supera a Natureza
O alimento pode tudo
A Virtude pressupõe a pureza da alma. 
Fugir do vício é seguir a virtude
A virtude pressupõe a acção 
Quem nunca começa nunca saberá acabar
Correndo, chega-se ao objetivo 
A virtude foge dos excessos 
Fugindo de um vício, o imprudente cai noutro.
A Natureza regula nossos desejos.
Para odiar o Vício, é preciso conhecê-lo.
O estudo da Virtude é o fim do Homem.
Em qualquer condição, se pode ser virtuoso.
A cura da Alma é a mais necessária.
Ama a Virtude por amor dela própria.
Só Deus não tem Mestre.
Treme diante do Trono do Deus vivo. 
A impiedade causa todos os males.
Os maus punem-se uns aos outros.
O homem nasceu para amar.
Amando, tornamo-nos perfeitos.
É preciso amar para ser amado.
O amor dos Povos é a força dos Estados.
A verdadeira amizade é desinteressada.
O amigo não vê o defeito do amigo. 
Respeita o teu amigo e cuida de ti.
O Silêncio é a vida do Amor.
A inveja é a morte do amor.
 Quem tem o necessário, não tem nada a desejar.

 A Temperança é o supremo bem.
Quem ama a sua condição, é feliz.
A vida do Campo é a vida dos Heróis.
A vida escondida é a melhor.
Os excessos da boca são a morte da alma.
Quem compra as Volúpias, compra um arrependimento.
Não há crime sem castigo.
O Vício é uma servidão perpétua.
O debochado passa de um crime a outro.
Só é rico quem despreza as riquezas.
O medo da Morte é a punição dos Ambiciosos.
O medo é a companhia do poder.
Por toda a parte a preocupação acompanha-nos. 
A pobreza é antes bem que mal.
A pobreza nem sempre prejudica a Virtude.
 
Tudo cede ao Demónio das riquezas.  
Se Tersite é rico, tomam-no por Aquiles.
O desejo de bens é contrário às coisas honestas. 

 
O dinheiro corrompe tudo. 
A fortuna não faz de modo algum o mérito.
O amor aos bens é um suplício sem fim.  
A avareza é um grande mal.
O avarento teme tudo e não teme nada.
A avareza é insaciável.
O avarento é o seu carrasco.
Uma cegueira é seguida por uma outra.
O avarento morre como viveu.
A malícia do avarento vive depois da sua morte.
As riquezas são boas aos bons. 
O homem que faz bem é amado por todo o mundo.»

Encontra a obra no Internet Archive: https://dn720005.ca.archive.org/0/items/ladoctrinedesmoe00gomb/ladoctrinedesmoe00gomb.pdf

 Concluamos esta homenagem à Sabedoria, a Otto Vaenius e a Marin Le Roy Gomberville, com a 28ª figura, intitulada  O Silêncio é a vida do Amor, e a sua quadra:
«O silêncio é um bem supremo:
É a virtude do Sábio e a dum Amante.
Quem não fala que raramente
Não ofende jamais aquele que ama.»