La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle, publicada em 1646 por Marin Le Roy Gomberville, um espírito de precoces dons, poeta, historiador, escritor criativo (sobretudo no seu romance estilo de cavalaria, barroco, Polexandre, bastante universalista), moralista piedoso e que viveu entre 1600 e 14/6/1674 sendo mesmo um dos quarenta membros fundadores da Academia Francesa. Na sua última obra , sobre a casa dinástica dos Never justifica não ter sido tanto historiador como foi publicista, poeta, ficcionista, moralista, por causas políticas. Teve descendência, cinco filhos, vivendo os últimos anos retirado em estudo e meditação, na linha pia jansenista. Esta obra revela a clara intenção pedagógica de inspirar as pessoas ao auto-conhecimento e ao caminho da virtude, sobriedade, harmonia, sabedoria, amor, felicidade aqui e no além...

A Doutrina dos Costumes, a Doutrina Moral apresenta o caminho para se chegar à Sabedoria, segundo a tradição ética e filosófica ocidental greco-latina e cristã, e seguindo o que era veiculado com impacto e sucesso pelos autores de emblemata, tais Alciato (1492-1550) e Otto Vaenius (1556-1629). A obra desfrutou de grande sucesso editorial (1646, 1681, 82, 83,84,85,88) provavelmente por estar em vernáculo e conter uma recolha de cento e três sugestivas gravuras (desenhadas por Boel, Galle, Jode e Gijsbert van Veen, &, para a Q. Horati Flacci Emblemata, publicada em 1607 e 1612, por Otto Vaenius), divididas em duas partes, e cada gravura com um mote ou lema, um epigrama ou quadra e duas páginas da explicação ou hermenêutica moral. A base dos motes e epigramas é de Horácio e a tradição greco-romana, pitagórica, socrática e estóica, e humanista. Gomberville segue-as nas suas explicações, ora excelentes ora pouco aprofundando o epigrama, não dando citações de autores nas margens e apenas mencionando uma vez cada seis ou sete pensadores, tais como Sócrates, Catão, Licurgo, Diógenes, Zenão, Plutarco, além algumas menções dos poemas e mitologias greco-romanos, e seus heróis, tais Aquiles e Hércules, e deuses: Júpiter nos céus, Minerva, Harpócrates, Mercúrio.

Foi um manual de sabedoria para muita gente, dando uma base de discernimento do que era o bem e o mal, a virtude e o vício, sem grandes excessos de atemorizações ou rigores, e os motes ou títulos, e as quadras, eram autênticos lemas ou mantras facilmente assimiláveis na alma, a que se seguia o breve texto explicativo, este o único da autoria de Le Roy Gomberville.
Por exemplo a 1ª divisa, "A Natureza começa: o alimento (cultivar) completa (aperfeiçoa)", a quadra é: «Ne te promets pas tout des soins de la Nature
Il faut que ton travail accompagne le sien:
Le Champ le plus fertile a besoin de culture
Et si le Laboureur ne l'ensemence bien, il n'y recueille rien.
Não esperes tudo dos cuidados da Natureza
É preciso que o teu trabalho acompanhe o seu:
O campo mais fértil precisa de cultura
E se o lavrador não o semear bem, nada recolherá.»
Vamos transcrever os motes das divisas da primeira parte, e num segundo artigo partilharemos a segunda parte, e mais imagens:
A Natureza começa: o alimento aperfeiçoa
O alimento supera a Natureza
O alimento pode tudo
A Virtude pressupõe a pureza da alma
Fugir do vício é seguir a virtude
A virtude pressupõe a acção
Quem nunca começa nunca saberá acabar
Correndo, chega-se ao objetivo
A virtude foge dos excessos
Fugindo de um vício, o imprudente cai noutro.
A Natureza regula nossos desejos.
Para odiar o Vício, é preciso conhecê-lo.
O estudo da Virtude é o fim do Homem.
Em qualquer condição, se pode ser virtuoso.
A cura da Alma é a mais necessária.
Ama a Virtude por amor dela própria.
Só Deus não tem Mestre.
Treme diante do Trono do Deus vivo.
A impiedade causa todos os males.
Os maus punem-se uns aos outros.
O homem nasceu para amar.
Amando, tornamo-nos perfeitos.
É preciso amar para ser amado.
O amor dos Povos é a força dos Estados.
A verdadeira amizade é desinteressada.
O amigo não vê o defeito do amigo.
Respeita o teu amigo e cuida de ti.
O Silêncio é a vida do Amor.
A inveja é a morte do amor.
Quem tem o necessário, não tem nada a desejar.
A temperança é o bem supremo.
Quem ama a sua condição, é feliz.
A vida do Campo é a vida dos Heróis.
A vida escondida é a melhor.
Os excessos da boca são a morte da alma.
Quem compra as Volúptias, compra um arrependimento.
Não há crime sem castigo.
O Vício é uma servidão perpétua.
O debochado passa de um crime a outro.
Só é rico quem despreza as riquezas.
O medo da Morte é a punição dos Ambiciosos.
O medo é a companhia do poder.
Por toda a parte a preocupação acompanha-nos.
A pobreza é antes bem que mal.
A pobreza nem sempre prejudica a Virtude.
Tudo cede ao Demónio das riquezas.
Se Tersite é rico, tomam-no por Aquiles.
O desejo de bens é contrário às coisas honestas.
O dinheiro corrompe tudo.
A fortuna não faz de modo algum o mérito.
O amor aos bens é um suplício sem fim.
A avareza é um grande mal.
O avarento teme tudo e não teme nada.
A avareza é insaciável.
O avarento é o seu carrasco.
Uma cegueira é seguida por uma outra.
O avarento morre como viveu.
A malícia do avarento vive depois da sua morte.
As riquezas são boas aos bons.
O homem que faz bem é amado por todo o mundo.»
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Encontra a obra no Internet Archive: https://dn720005.ca.archive.org/0/items/ladoctrinedesmoe00gomb/ladoctrinedesmoe00gomb.pdf |
Concluamos esta homenagem à Sabedoria, a Otto Vaenius e a Marin Le Roy Gomberville, com a 28ª figura, intitulada O Silêncio é a vida do Amor, e a sua quadra:
«O silêncio é um bem supremo:
É a virtude do Sábio e a dum Amante.
Quem não fala que raramente
Não ofende jamais aquele que ama.»