Miguel Trigueiros (10-V-1918 a 1999), formado e doutorado em Teologia, jornalista, poeta, conselheiro cultural em três postos no Estrangeiro, quando publicou o seu terceiro livro de poesia Deus, em 1943, após o folheto prefaciado por Branca Gonta Colaço Palestra Rimada, 1933, e o Resgate,1939 (prémio Antero de Quental, do SNI, tal como Fernando Pessoa recebera com a Mensagem em 1934), justificou o título «por ser Ele, na verdade, a aspiração constante, a Presença visível ou oculta e a soma de todos os caminhos poéticos percorridos, mesmo quando a comunicação das ideias e dos sentimentos se reveste de aspectos profanos», cobrindo assim com a diafinidade ou intensidade do seu Amor a Deus, os belos poemas que ecoam ou transmitem o seu amor pela mulher Maria Margarida (com quem virá a escrever, já em 1985, os Portugueses que somos). É pois um livro de poesia tanto religiosa, como também lírica, amorosa, social.
| Um dos mais belos poemas à sua mulher Maria Margarida. |
Após inserir as palavras prefaciais e sábias do cardeal Trindade Salgueiro, provavelmente seu ex-professor, e de Gilberto Kujawsky, dedica a obra à mulher Maria Margarida e aos sete filhos e apresenta o seu aforístico Manifesto, seguindo-se um texto, sob a forma de cruz latina, do filósofo Álvaro Ribeiro. E, por fim, os poemas, cuja Trajectória explicitou numa sucessão quádrupla: I - Entre o Vale e a Montanha (Resgate), II - Vozes da Escalada (Diálogo do Céu e da Terra), III - Primeiros Cimos (Sete Poemas do Natal) e IV - Cântico da Altura (Deus). São inegavelmente poemas cheios de aspiração e força. de compaixão e amor, mas que podem fazer-nos perguntar a que nível de realização divina chegou? É apenas a fé ou há uma vivência, experiência, ou mesmo uma gnose mais íntima e espiritual? Veremos no fim...
Transcrevamos do princípio do livro o início da carta do bispo Manuel Trindade Salgueiro (1898-1965): «Meu Amigo. Li com devoção o seu livro, que é largo bater de asas nos domínios luminosos da fé. Na sua carta a Frei Agostinho da Cruz escreve que: "Só os versos feitos de alma/Trazem notícias de Deus." São feitos desse modo os seus versos e por isso as notícias que de Deus nos trazem, são harmoniosas, e límpidas e profundas, como vozes do Infinito.»
Valorizemos no valioso intelectual, teólogo e professor. natural de Ílhavo, que chegou a Arcebispo de Évora, a apreciação da poesia de Miguel Trigueiros como bater de asas, isto é, como raios em aspiração de amor, verdade, unidade, e que sondam e querem entrar nos domínios espirituais e divinos (e está em especial a comentar o poema Mais Além). E que a Fé, como aspiração e crença que Deus, o Bem, o Amor e a Ordem existem, nos fortalece para lutarmos por tais princípios e elevadas realidades. Finalmente, que só os versos sentidos intimamente e de alma é que nos fazem vibrar nas escalas, frequências, vibrações, dimensões ou níveis divinos, permitindo então captar-se ou intuir-se algo da voz, Palavra ou Logos do Infinito, transcendente e imanente.
Gilberto Melo Kujawsky (nascido em 1929 no Brasil, notável fílósofo anteriano e orteguiano) apresenta e contextualiza também muito bem Miguel Trigueiros, destacando o seu cristianismo e elevando-o até a um lídimo sucessor de Antero de Quental: «(...) Líder de uma nova poesia cristã em Portugal, essencialmente caracterizada pelo teocentrismo e a re-aliança do sobrenatural na concepção e no conhecimento da realidade, a mensagem de Miguel Trigueiros é mensagem de revolução, de escândalo, na Babel dos nossos dias, porque sua poesia é antes de tudo a poesia da vontade, da vontade sobranceira a clamar bem alto pelos seus deveres, em vez de limitar-se à poesia de sentimentos implorando, apenas, pelos seus direitos.» E depois de destacar a sua poesia como joanina (do evangelista João), como Palavra sagrada, como reveladora do Divino Verbo Criador em acção em tudo, mencionando mesmo Jakob Boehme, e dum modo conhecedor e optimista, "poesia de profunda comunhão interna a comunicar-nos a íntima voz das coisas, como esperava o místico Jakob Boehme ouvisse um dia toda a humanidade purificada", concluirá no último parágrafo, algo generosamente: «Vemos em Miguel Trigueiros o primeiro grande poeta a cursar em Portugal (e talvez no Mundo) aquele sentido que Antero de Quental profetizava seria a orientação definitiva do pensamento europeu, - "o sentimento do espírito como sendo o tipo, a forma da realidade; do bem, como sendo a essência do espírito; e da liberdade como a substância do bem". Anote-se que este resumo final entre ásperas não é transcrição exacta das frase de Antero, mas sim uma aproximação sintética ao essencial das Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX, como sabemos o testamento filosófico de Antero de Quental».
Segue-se, em três axiomas, o Manifesto para uma Poesia Nova, e relembre-se que ele pertenceu ao movimento Poesia Nova, com Sidónio Muralha, e de certo modo com Duarte de Montalegre ou José V. de Pina Martins, que estudara e convivera com ele em Coimbra: I - Nem arte pela arte, nem arte pelo homem, nem arte pela classe:arte pelo todo. II - Nem egocentrismo, nem antropocentrismo: teocentrismo. 3 - Nem arritmia, nem neo-formalismo: polirritimia.
Por fim dá lugar ao seu mestre Álvaro Ribeiro que contribui com um belo texto em forma de Cruz, bem digno de se meditar mais atentamente, e que como não está digitalizado, reproduzimos e transcrevemos:
«A poesia de Miguel Trigueiros, clara, harmoniosa, equilibrada, como todas as forças do Bem, representa um caso excepcional de directa superação do lirismo pelo exercício das virtudes teologais. A razão que vai sendo cada vez mais permeável à fé, e portanto cada vez mais animada de luz e calor, confere à poesia portuguesa uma inteligibilidade que a afasta, distingue e separa dos produtos modernistas de inspiração satânica. Miguel Trigueiros é fiel à tradição. Vencendo pela penitência o orgulhoso lirismo do homem natural, faz da oração a sua originalidade, e alegra-se pela graça de ser um cantor de Deus.» Note-se um certo dualismo cxagerado, ao considerar a poesia modernista como satânica, ainda que tal estivesse presente em alguns.
No ciclo dos poemas, e há vários de grande beleza e perfeição, em geral cheios de amor e admiração, aspiração e vontade, poderíamos pensar que seriam os últimos a oferecer as suas compreensões, experiências, ou mesmo visões de Deus. Não são eles todavia poemas místicos de realização interior, mas sim os de alguém que aspira e ama a Deus, e que é sobretudo um amante da Humanidade, um ser animado de amor e compaixão pelo que o rodeia e que sente nessa fraternidade e simpatia a presença de Deus. Todavia, há muito sentido e forte um sentimento mistico ou unitivo com a Natureza, , bem patente no poema que o bispo Manuel Trindade Salgueiro destacara, dedicado a Frei Agostinho da Cruz, e intitulado Deus no Poeta, dos mais belos e elevados inegavelmente, mas também em outros, como no dedicado à ilha da Madeira, e que é de antologia.
Após uma série de poemas sobre a mulher, as pessoas, os tipos profissionais ou sociais, consagra alguns a Portugal, dando-nos no fundo a sua versão da Mensagem, de Fernando Pessoa, e conclui com o seu Resumo da Escalada, belo, valioso, bem fundamentado até em termos de espiritualidade imanente mas que indiciará talvez uma certa carência de realização íntima de Deus, sem querermos estar a julgá-lo, tanto mais face à tão valiosa acção religiosa em Portugal e Brasil durante a sua vida, tal como Ferreira da Silva testemunha na breve notícia biográfica que lhe consagra na badana do livro: «O autor, ao percorrer como um cruzado os caminhos de Portugal, para levar a todo o lado na arte da sua poesia, a mensagem da sempre bela e imortal Verdade cristã, já mereceu com justiça a gratidão de todos os crentes da nossa terra». Oiçamo-lo, sob o título:
Deus em Tudo, em Todos e em cada Coisa (Resumo da Escalada)
E unir - à Sua voz - a nossa voz,
Não queiramos ir longe procurá-lO,
Pois Ele existe já dentro de nós.
Os caminhos são dois - Verdade e Amor.
O que espalha orações pelos escombros,
Do coração em festa e de alma em flor,
Sente as mãos do Senhor sobre os ombros.
Quem sabe o rumo do universo? Vede:
- Queima-se a Humanidade em chamas de ânsia...
Tanto espírito bom, morto de seda,
Com a Fonte a dois passos da distância!
Devemos, sob o signo da Humildade,
Se na Terra da vida cresce o vício,
Lavrá-la com o arado da vontade
E, depois semear-lhe o Sacrifício.
Onde há mundo de mais, há céu de menos.
Cansa o descrer... Acreditar não cansa.
Os píncaros mais altos são pequenos
Para quem leva as asas da esperança.
Deus redime e ilumina cada coisa
O seu olhar, feito de sonho e calma,
- Como poisa o luar na noite - poisa
Nas noites outonais da nossa alma.
E deixa de ser mudo o corpo mudo:
Um novo pensamento ascende em grito:
Traz do fundo de tudo, para tudo
As palavras do Livro do Infinito
São palavras de luz e de promessa;
Procuremos senti-las e entendê-las.
Penetremos além, onde começa
O sorriso profundo das estrelas.
E troquemos o instante pelo eterno.
Sigamos o caminho de Jesus.
- A Primavera vem depois do Inverno;
A alegria virá depois da cruz!
Passa o tempo velhinho; passam vidas;
Tal como passa o bem, passa a desgraça;
Passam todas as coisas conhecidas.
Só nome de Deus é que não passa.»

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