domingo, 16 de outubro de 2016

Tarot XVI. O Raio, a Torre, a Casa de Deus. Significado dos seus arcanos, consciencializações energético-espirituais.

Arcano XVI para o dia 16 
O Raio, a Casa de Deus ou a Torre fulminada, nesta imagem (e sem nome) numa das versões mais antigas do Tarot, o milanês Visconti-Sforza, que se encontra na colecção Cary-Yale, com o fogo ou a energia celestial a abater uma torre a precipitar as pessoas para o solo, transmite-nos, entre outras sugestões ou mensagens, a  de que temos de ter cuidado com todas a nossas edificações exteriores e interiores, e portanto actos e pensamentos, e antevermos se estamos a causar ou a provocar a posterior queda delas e de nós próprios. Ou então que devemos saber sair ou cair correctamente
A representação dum fogo, labareda ou raio que desce dos céus e quebra o cimo, as ameias ou a coroa de uma torre, projectando dois seres, ou uma dualidade (homem-mulher, rico-pobre), para o solo, recorda-nos as leis da  causa  efeito,  da impermanência, da mudança, pelo que devemos constantemente julgar-nos  e avaliarmos a solidez e a justeza tanto das fundações como das ligações ao mundo, ao alto, ao Todo, ao Divino.

Nas representações mesmo das cartas ou arcanos mais antigos é mais a torre ou a árvore que são destruídas e não as pessoas, que têm de sair delas e escapam, provavelmente simbolizando a necessidade de não deixarmos limitar e aprisionar em confortos ou protecções mas sabermos sair das rotinas, posses e identificações para nos renovarmos e evoluirmos.
Court de Gebelin, um dos primeiros escritores sobre o Tarot, em 1773, considerou esta carta sobretudo um aviso contra a avareza, já que o que cai de uma torre-depósito é moeda, ouro, dinheiro, e relacionou-a com uma história contada por Heródoto de um príncipe egípcio, país que ele considerava ser a origem do Tarot...


Numa versão diferente, nos Tarots italianos da Etrúria, os Minchiate, com maior número de arcanos, realça-se a mulher ou parte feminina, a sair apressada de uma torre em queda ou em fogo, levando atrás de si um homem, ou seu par, e com as mãos apontando para o fogo celestial que cumpre uma função purificadora e os obriga a sair de um estado ou de uma estabilidade pouco evolutiva ou petrificante, e é o fogo renovador que é então apontado. 
É um arcano de mudança e de renovação, que nos deve levar a equacionar os nossos conservadorismos, excessos e posições menos equilibradas, face às que serão as mais justas, fundamentadas e adequadas à dinâmica nossa com o ambiente natural, social, mundial, espiritual e Divino.

Num Tarot francês dos finais do séc. XVII o arcano transmite-nos antes como que a ocorrência de uma trovoada no campo, num panorama bem mais natural e com um raio a cair sobre uma árvore, junto a um pastor com o seu rebanho, que mesmo que possa ser um fim dum seu mundo, adverte-noss dos possíveis "castigos " karmas ou acidentes, pondo-nos em guarda acerca das nossas falsas seguranças ou confianças, ou ainda nos nossos apoios, ou sob quem nos protegemos, já que mesmo as grandes e seguras árvores, em casos de tempestade, podem acabar por servir de pára-raios atractivo perigoso.
Por detrás deste arcano podemos, no nível psíquico das pessoas, intuir as egrégoras (auras-almas colectivas) e psicomorfismos dinâmicos, ou seja, as ideias e crenças, as doutrinas e grupos que gostamos e logo alimentamos, as quais por seus defeitos, ou por excesso de confiança, submissão ou dependência nossa podem ora cair sobre nós e ferir-nos, ora desequilibrar-nos e fazer-nos tombar. Numa outra leitura esta carta pode aconselhar-nos a sair de um hábito, situação ou grupo..
Há porém na simplicidade e à vontade do aldeão perante o raio que cai e o trovão que se ouve a sugestão que devemos aceitar com naturalidade os acidentes e desastres naturais, ou o que acontece na sua inevitabilidade, vivendo-se uma vida trabalhadora, harmoniosa e meditativa e, logo, ora previdente ora então adaptando-se a eles.


No Tarot de Marselha, o nome deste arcano é A Casa de Deus remetendo-nos para uma intenção ou um estatuto sagrado e que é tanto exterior como interior, o qual não estaria a ser cumprido, no todo ou em parte, por alguns ou por muitos, como se pode deduzir das partes, pessoas e dinheiro do edifício que são destruídas ou arremessadas para fora... 
Será que a Casa de Deus refere-se a que qualquer construção, corporação ou importante função (e logo as pessoas)  deve estar ligada ao Todo, ao Bem, ao Divino, sob pena de ser abalada ou deitada abaixo?
Certamente. Se a lâmina do Diabo nos alertava para não nos deixarmos prender por medos e instintos, frustrações e paixões violentas,   a Casa de Deus avisa-nos que a Justiça Cósmica, a Providência Divina, a Roda da Vida revisita-nos constantemente e põe em causa as fundações ou as aspirações incorrectas, fazendo as pessoas caírem tanto em si como no solo da realidade,  já despidas de tais excessos e avarezas, arrogâncias e violências.
É portanto um arcano que nos impulsiona a julgarmo-nos ou avaliar-nos em vários aspectos a fim  de discernirmos em que é que poderemos harmonizar-nos melhor com ambiente, o campo unificado de energias e consciências em que vivemos e com o qual em tantos níveis interagimos, mais ou menos conscientemente.


Já na versão do Tarot de A. Edward Waite realça-se o isolamento, a altitude desmesurada, a fundação pouco sólida, a hibris ou ambição arrogante que move seres, grupos e países, os quais acabam por ser castigados ou, se quisermos, corrigidos pela lei do Karma e da Providência, através de vários tipos de perturbações, pois o que se semeia no exterior também se colhe no interior... 
Arthur E. Waite propõe  que esta carta é um aviso contra a materialização da espiritualidade, um fenómeno a que assistimos crescentemente com a edificação e desenvolvimento de grandes igrejas, seitas e corporações, frequentemente exploradoras das pessoas e materializando a espiritualidade em crenças literais e por vezes falsas dos textos,  em emocionalismos e curas grupais de auto-sugestão algo contagiosas e em práticas e feitos mitificados ou exageradamente valorizados.
Noutros casos, a materialização da espiritualidade passa por pseudo-canalizações ou por ensinamentos duvidosos e vendidos a preços caros  e, portanto, o que deveria ser a Casa de Deus torna-se uma Torre  de egos e vaidades, falsidades e obsessores, que precisa de ser fulminada ou transmutada.
Esta lâmina alerta-nos pois para termos cuidado com os grupos e práticas a que nos ligamos e também com as ideias e doutrinas que coroam as edificações psíquicas e físicas nossas e dos que nos rodeiam e que, sendo erradas ou injustas, terão de ser mais tarde ou mais cedo abaladas e destruídas.


Se nos arcanos ou trunfos anteriores não havia indicação de forças fulminantes ou destruidoras provindas da terra, e que causam os terramotos  das casas e pessoas, esta versão da Torre  no Tarot de Aleister Crowley, também denominada A Guerra, tem uma maior amplitude de causalidades destruidoras mas também transformadoras, realçando-se ainda nas pessoas que caem da Torre guerreira a sua desumanidade corporal, quadriculadas e postas em figuras esquemáticas e geométricas. 
As guerras e acidentes naturais podem ser vistos como processos causando a destruição de estruturas frágeis, obsoletas e opressivas, mas temporários e transmutadores, para o que aponta ainda  tanto a serpente da prudência e da energia ascensional interna, como a pomba da pureza e da paz,  tudo sob a omnividência Divina, a qual tem a sua correspondência na abertura e desenvolvimento do nosso olho espiritual, sob as bênçãos dos mestres e da Divindade e numa Humanidade mais pacífica e fraterna.
Terminemos a nossa visitação deste arcano XVI, e em especial para o dia 16 de cada mês, com duas versões bem modernas e simples, uma sobretudo ecológica e optimisticamente utópica, pois o que predomina é a exuberância colorida e fecunda da Natureza, em contraste com a Torre edificada egoística, artificial ou desarmoniosamente e que é por isso destruída pelo conjunto das forças da Natureza, do Cosmos e da Providência ou Dharma, no que pode ser até uma revelação, um extâse, numa súbita abertura à Luz da Verdade, a qual pode-nos atingir como um raio destruidor das nossas concepções ou rotinas obstaculizantes e que nos cegam ou ensombram.

                                                
Há certamente na intencionalidade de quem concebeu e desenhou este arcano o objectivo de nos fazer religar mais à Natureza, saírmos das cidades e dos seus edifícios e ambientes por vezes tão estreitos, poluídos e opressivos,  ainda por cima tão densificadas e manipuladas pelos meios de informação e pelas correntes do pensamento quotidiano, bem em contraste com a vida e o trabalho no campo em que as forças e Espíritos da Natureza (tais como os duendes, fadas e devas) se  manifestam  mais, desvendando-se por vezes até em ventos, nuvens ou visões, e ajudando a tornarmo-nos mais plenos e felizes, numa Terra cultivada cada vez mais biológica e ecológicamente e logo mais amada e salutar, qual Terra Lúcida...

E finalmente a versão muito sensível, bela e libertadora da Torre que nos é dada pela pintora búlgara Rumi Rilska, actualmente a viver em Portugal, e que representou a alma humana que consegue soltar-se da Torre dos  medos e  opressões que lhe são lançados ou impostos, no fundo o labirinto desgastante da vida moderna no plano físico, e que se eleva para os mundos da criatividade, da liberdade e da espiritualidade. E ainda, se caíres noventa e nove vezes levanta-te cem aspirando à felicidade, ao Amor, à Divindade.

Uma visão ainda possível deste arcano e deste dia, e tida há pouco numa intuição, como confessei à amiga Amélia Pereira da Costa,  é a de que por vezes, neste dia ou no espirito deste arcano. podemos ou devemos ser o fogo celestial, a luz clarificadora, a crística esclarecdora, a voz que deita abiaxo os muros, ou seja somos nós a fazer descer as forças do céu, ou do espírito, ou da verdade ou da justiça, sobre certas situações, instituições, habitos, doutrinas... Um dia então mais fulgurante e purificador....

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