sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Tarot XIV. Temperança. Significado dos seus arcanos, consciencializações energético-espirituais.

Dia 14, Arcano XIV, Temperantia, Sophrosyne...
      O arcano XIV da Temperança é, como a sua designação indica, um convite ou apelo tanto ao ser angélico como à virtude, esta tão enaltecida na Antiguidade clássica e posteriormente no Cristianismo e patente na generalidade das vivências e doutrinas morais, filosóficas e religiosas de  todos os povos.
    Na Grécia, Sophrosyne era um espírito celestial, um anjo bom (daimon agato), o do equilíbrio, moderação, transmutação energética, controle e correcta circulação das energias e emoções e muito provavelmente é a fonte principal da representação simbólica deste arcano do Tarot, se bem que possamos ver também um símbolo em geral das abluções e do equilibrar e alquimizar as energias internas e externas.
       Temperar, equilibrar e harmonizar dentro e fora de nós é então sugerido pela imagem da celestial jovem que passa um líquido ou a energia de um vaso para outro, numa transformação que, nesta imagem dos Tarots originais, é realizada numa circulação  do alto para o baixo e, certamente depois, alternando, mostrando-se assim que a Temperança tem uma componente celestial ou do nível espiritual (o Anjo, a Deusa, o Espírito, o Bem) e que se manifesta depois terrena, corporalmente e psiquicamente em vários níveis, planos e chakras, em circulações descendentes e ascendentes, curativas e unificantes.
     A  jovem está sentada com um nimbo bem marcado a envolver a sua cabeça e a sua veste avermelhada é compensada pelos braços verdes que assinalam a harmonização das energias dos dois vasos, os quais podem simbolizar o quente e o frio, o seco e o doce, o coração e o sexo, a razão e os instintos, o feminino e o masculino, a arrogância e a humildade, a coroa e a raiz, a noite e o dia... 
                                                              
À Sophrosine da tradição Grega, que tinha a sua identificação a um Espírito celestial, veio a corresponder depois a Temperantia na tradição Romana, e perdeu a nitidez dessa origem e identidade no Cristianismo dos primeiros Padres da Igreja,  tornando-se apenas uma das quatro virtudes cardeais, ou seja, as que, como gonzos (cardines) fazem girar as portas de entrada ou acesso aos mundos espirituais e Divino. Permanecia porém o sentido interior do auto-controle, o saber moderar o fluxo dos instintos, sentimentos e pensamentos, num amor temperante, numa vida equilibrada.
                                         
No Tarocchi de Mantegna, um pré-Tarot de 22 arcanos, de cerca de 1460, encontramos incluído no seu programa humanista, além de Apolo e as Musas, Artes e Ciência, Planetas ou esferas celestiais, e Profissões ou Estados, as quatro Virtudes cardeais, e nelas a Temperança surge ainda com algum sinal das suas origens, numa simbologia que em geral depois desapareceu e que é a da mulher-anjo, com uma dimensão acentuada e um diadema no cimo da testa, no caso a dar de beber a um animal a seus pés, indicando deste modo tanto a proporção entre o espiritual e o animal em nós como o de saber alimentar o lado animal da vida, interno e externo, harmoniosamente. É ainda uma nota ecológica, de unidade da Vida. 
      A Temperança inspira-nos  assim na nossa relação com os eco-sistemas e a multidimensionalidade em que estamos e com os seus seres, nomeadamente entre  o dar e o receber, o ganhar e o gastar, a comida e a bebida, a dormida e a actividade, a leitura e a meditação, o individualismo e o altruísmo, pois através dela equilibramos esses opostos  complementares, de um modo ascensional, luminoso e desvendante... 
                                    
     Os Tarots do sul de França, designados posterior e genericamente de Marselha, desde os meados dos sécs. XVI e XVII, reafirmam o ser angélico na figuração da Temperança e que tanto ecoam a Deidade grega (o tal agato Daimon) como uma tradição de androginato, ou a do equilíbrio das duas polaridades em nós, como finalmente a do Anjo da Guarda (dos persas e dos cristãos) que nos acompanha e pode inspirar, proteger e guiar, nomeadamente assistindo-nos nas nossas tentativas de moderarmos os instintos e impulsos e seguirmos as melhores aspirações e determinações.
    Estas representações já têm em geral os vasos mais em baixo mas a uma altura tão próxima que conseguem transmitir melhor a ideia de que se tratam de energias psicosomáticas, sendo a dualidade acentuada pelas cores vermelha e azul, com a dourada a unificar. O olho espiritual marcado a vermelho sinaliza tanto a irradiação do espírito solar, como a visão interior, como o esforço de vontade que é necessário para controlarmos as vagas de pensamentos, irradiarmos energias luminosas e retemperarmos a nossa alma com as frequências vibratórias características das asas e expansões angélicas e espirituais...
                                              
  O Tarot do ocultista Arthur E. Waite, ainda que desenhado por Pamela Colman Smith baseada num semi-perdido tarot Renascentista a que ele teve acesso no British Museum, o Sola-Busca de 1491, recria segundo critérios esotéricos alguns dos componentes deste arcano, nomeadamente o ser angélico ou celestial, acrescentando a dualidade expressa nos pés assentes em água e terra, o arco-íris, que liga e ecoa as asas dardejantes em cima de nós e no horizonte e, ao fundo ou profundo do ser e do caminho, a via e chegada irradiante ao cimo da montanha sagrada, num caminho que veio da incosnciência até à superconsciência.
      Todos estes pormenores certamente são catalizadores de circulações energéticas e conscienciais em quem os contempla mais demorada e aprofundadamente. 
                                               
      Por exemplo, esta versão da Temperança mostra a Mulher ou Anjo como um poderoso ser Angélico ou Deva de um vale, apresentando assim a Natureza no seu máximo desvendamento: o de conter seres subtis e angélicos, ou de o ser tal, como alude a tradição iraniana com o Anjo Feminino da Terra, Daena, em contraposição aos anteriores arcanos de outros Tarots onde a Temperança estava bem menos representada como Natureza. 
Esta representação será certamente adequada à meditação, invocação e intuição de quem, por exemplo, vive no campo e cultiva em modo de permacultura ou de agricultura biológica, ou de quem é simplesmente um ser ecológico e amante dos ecosistemas e das caminhadas e peregrinações por vales e montanhas...
    Pode ser bem forte em nós esta imagem, ao realçar a circulação energética nos corpos invisíveis ou subtis nossos e dos Devas e Anjos, e à qual devemos estar mais sensíveis e activos, já que o tão fundamental desenvolvimento do espírito e dos seus sentidos implica mesmo a visão e a moderação da circulação das energias psicovitais nossas e a posterior interacção dialogante ambiental,  harmonizante e aprofundante, amante e grata...
                                        
   A sensação de retemperança que sentimos na Natureza verde e aquática está bem expressa nesta versão da Temperança, dita de um tarot céltico, a qual nos relembra ou impulsiona a termos com mais frequência momentos de comunhão com a Natureza, conscientes até dos fluxos harmoniosos que devem ocorrer, seja apenas em vasos dentro de nós ou da casa, ou já em jardins e campos, em trabalhos, peregrinações, diálogos, meditações e orações.
                                                
    Neste versão moderna voadora da Temperança realçaremos o equilíbrio entre os aspectos terrestres, aquáticos e celestiais que devemos procurar na vida ou, se quisermos, dos actos, sentimentos e pensamentos, para conseguirmos depois verter o vinho da sabedoria e do amor dos níveis mais elevados para o vaso ou Graal (ou Jaam- e jam) do nosso coração, irradiante no ambiente do campo Unificado e seus seres. 
E ainda se pode referir à passagem de um plano de vida terrena para um de nível subtil e psíquico, pois tanto os dois jarros como as suas energias lembram que somos cidadãos de dois mundos, e com o terceiro espiritual e Divino como coroa deles...
                                        
     Terminemos esta revisitação do arcano da Temperança com uma versão moderna botticelliana, ou seja, inspirada em Sandro Botticelli, que segundo certos estudos recentes terá contribuído para a gestação de alguns dos arcanos, e na qual, para além da grande suavidade, beleza e doçura da Deusa Mulher, do Anjo Feminino e da Musa Alma-Gémea,  certos aspectos de simbologia espiritual foram bem desenhados.
     Realcemos a rosa do Amor que acompanha e se derrama ou infunde no movimento de troca e de circulação de energias entre os vasos que todos somos, temos em nós e estabelecemos com os outros e com o Todo do Campo Unificado de Energia Informação Consciência, destacando-se deste, no horizonte, a corona solis, a fulguração solar iluminante que pode acontecer tanto física como espiritualmente e a que deveríamos mais aspirar, contemplar e comungar.
       O triângulo do fogo da aspiração do Amor unitivo, dentro do quadrado da matéria e do corpo, e o chakra do olho espiritual bem activado, são ainda de destacar. E, por fim, a bela espiral de nuvens energéticas e espirituais que religa, abençoa e guia a alma que aspira à pureza, à harmonia, à temperança, à Sophrosyne, no Caminho...
    Sejamos então mais harmonizadores, iluminadores e unificadores das dualidades e tensões, mistérios e desafios, a cada momento da vida mais conscientes das presenças e circulações luminosas energéticas, psíquicas, angélicas, espirituais, divinas...
       Que o Amor Divino temperante arda em nós, irradie de nós...

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