segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Sebastião da Gama: "Lugar de Bocage na nossa poesia de Amor". Uma visão do amor pleno, de corpo e alma unificados.

                               

Sebastião da Gama, Lugar de Bocage na nossa poesia de Amor, Lisboa, 1953,  é uma separata in-4º de 23 páginas da Revista da Faculdade de Letras, do Tomo XVIII, 2ª série, de homenagem ao poeta e professor, que morrera a 7 de Fevereiro de 1952, nela se transcrevendo a palestra proferida por Sebastião da Gama em Setúbal em 15-IX-1950, e repetida em Estremoz em abril de 1951 e Vila Viçosa, junho de 1951, momentos certamente inesquecíveis para Sebastião Gama (1924-1952) e os seus ouvintes, tal como ele deixou registado nos manuscritos e foi inserido pela direcção da Revista em nota final: «Não pude no entanto deixar fugir a estas duas agradáveis coisas: primeira - ler a meia dúzia de Amigos que tenho nesta cidade (...) não chamo vaidade, no entanto a isto de me querer numerosamente ouvido: é mais suave aos olhos da minha consciência dizer que é prazer de pagar aos estremocenses, com leite do meu gado, o puro azeite da simpatia e do bom acolhimento». A palestra (esquematizada no seu início em Setúbal e Azeitão, 15-12-48) seria publicada mais tarde, nomeadamente na antologia O Segredo é Amar, publicada em 1969 na Ática pela suave, pois ainda a conheci em casa da Teresa Sobral Cunha,  Matilde Rosa Araújo.
                                            
Sebastião da Gama era poeta, jovem, amoroso e aproximou-se de Bocage com a sensibilidade e o
 discernimento tanto de companheiro de aventuras como de professor de literatura, pelo que conseguiu extrair da sua vida e obra os aspectos fulcrais do Amor nele.  E, no seu modo de ser e estilo tão coloquial e fraterno, traça-nos uma visão geral e sumária da poesia de Amor portuguesa, mostrando-nos o lugar nela  do Bocage amoroso imortal, nos seus melhores sentidos e, discernindo os seus íntimos sentimentos e tendências e comparando-o ao principal dos imortais sonetistas  Luís de Camões, insere-o na sua especificidade e originalidade na tradição lírica portuguesa, que ele considera dividida em duas correntes: a que reza, de mãos postas e a que abraça, de braços abertos;  a que ama a alma e a que ama o corpo.

Triunfou mais entre nós a corrente poética amante a gemer e de joelhos, frequentemente diante da Dama indiferente e distante, embora inteligente, sensível, sensata, e mesmo Luís de Camões teve se sujeitar em parte a tal padrão ou modelo, escapando aqui e acolá, e sobretudo na Ilha dos Amores. Compreensível porém, acrescentaremos nós, face aos códigos vigentes religiosos e de moralidade, controlados pela Inquisição e que a contra-Reforma estava a intensificar puritana e anti-sexualmente.
Já a visão
realista do Amor, diz-nos Sebastião da Gama, que «surge nas Cantigas de Amigo, continua-se no Cancioneiro de Garcia de Resende, aflora em Camões, recebe vigor novo em Bocage, e tem uma força já magnífica nalguns poetas modernos».
Nela,
vê bem e com perspicácia que «deixa  a mulher de ser pintura, deixa o amor de ser suspiro. Vê a gente afinal (isto nas Cantigas de Amigo, onde está o princípio da história) que não é o Poeta tão desamado, que não é a mulher tão dura. Nem é a mulher, vê a gente afinal, Nossa Senhora nenhuma: é uma criatura encantadora mas de carne, e que tem saudades verdadeiras, femininos caprichos. A Cantiga de Amor foi a convenção que ditou; a Cantiga de Amigo foi a própria realidade».
Sebastião da Gam
a menciona então como elos desta corrente do amor de corpo e alma, a seguir a Bocage, Tomás António Gonzaga (1744-1810) e a Marília de Dirceu, Almeida Garret (1799-1854), António Nobre (1867-1900), Alberto Serpa (1906-1992) e Armindo Cortes Rodrigues (1891-1971), omitindo com razão Fernando Pessoa, embora cite Álvaro de Campos «Todas as cartas de Amor são ridículas». E regressa de novo, e demoradamente, a Camões, destacando nos Lusíadas a figura de Leonardo que não segue apenas "o apelo do sexo": «Leonardo é a confirmação camoneana do que eu disse ao princípio: que o Amor, o Amor que o é, é uno e indivisível.»

Bocage, visto por Maria de Fátima Silva.

Será só após percorrer, sumariamente, o longo percurso temporal da tradição poética portuguesa do Amor - das Cantigas de Amigo até à Modernidade - ,  que vai, com bastante juventude, amor e ousadia, abordar Elmano Sadino, isto é,  Bocage, confessando que ao contrário  de Luís de Camões, constata que a sua poesia «é mais de acordo com a experiência pessoal, menos sujeita ao, assim chamado por mim, pudor literário, mais independente de tudo que não seja o próprio amor como  realmente foi vivido. Ler Camões e pensá-lo - é dar-se a gente conta de que por detrás da sua poesia há uma ideia - de que a sua poesia obedece a uma teoria, a um conceito de Amor. A vida terá confirmado tal conceito, como já estabeleci, mas a confirmação não invalida o meu ponto de vista.  Com Bocage, o caso é outro. Também ele faz uma ideia do Amor - toda a cabeça pensante faz uma ideia do Amor; mas esta ideia não é senão a resultante de um conhecimento directo, uma lição aprendida fora dos livros. Tem-se a impressão de que Bocage vai para o amor ingenuamente [ou talvez mais, sincero e confiantemente]. Não sabe nada, não prevê nada. Por detrás de cada poema se entrevê a circunstância que lhe deu origem, como se cada apontamento fosse um apontamento tirado in loco. A sabedoria virá depois.
E que diferente da sabedoria camoneana vai ser a dele! Abalou para o amor de coração intacto; quanto muito, como todo o que parte sem medo, levava-o cheio de esperança. E logo o amor lhe foi uma coisa deleitosa, um risonho prazer. Eis o que o opõe terminantemente a Camões: o contentamento de amar. E daí o ar festivo de tantos dos seus versos de amor:

«No risonho prazer consiste a Vida»

- isto é o que ele aprendeu amando; e ainda que o Amor é um doce Nume, que os seus farpões, forjados no céu, são deleitosos.»
Após esta visão prazentosa, optimista, de sacralização do amor físico e afectivo que vê activa em Bocage, e certamente em ressonância com a sua jovem alma amorosa, Sebastião da Gama vai explicar como a Mulher nesse final do século XVIII era já bem mais real e menos submetida a idealizações e platonização, e exprime-se com belas e sentidas imagens. Oiçamo-lo com os seus vinte e seis anos, tão intensos de sede de conhecimento, de amor, de comunicação, de fraternidade e que infelizmente pouco tempo mais neste vale de amor e de dor passaria: «É de adivinhar que só vê assim o Amor quem viu a Mulher bem diferente da humana fera do século XVI.
[Um pouco forte e extremizante a afirmação, pois nessas cortes de amor platonizante a distância não era tão negativa. Isto pode ter causado choque entre os seus professores]. Não será deleitoso senão o amor da mulher que se entrega em vez de recusar-se. Getrúria, Nise, Ulina, Marília, não viveram duramente fechadas numa redoma de indiferença; nem o Poeta pode calar o que para lá do simples consentimento houve entre ele e elas.»
O jovem professor, namorando e feliz no encontro do Amor plenamente correspondido, vai pois vibrar fortemente com Bocage e assim compreendê-lo e partilhá-lo na intimidade amorosa pura, como podemos observar na continuação: «Getrúria, Nise, Ulina, Marília ( e ainda Armia e quantas faltam para as sete mulheres e meia da tradição) suspiraram nos seus braços, consentiram gostosamente em ser a agua da sua sede. O que dá nervo e novidade à poesia amorosa de Bocage é o desejo que a percorre toda, desejo sequioso mas terno- (terníssimo - especifica ele, que se conhecia por dentro e por fora. E essa correspondência, essa dádiva total da mulher amada.
Luminosamente, escreverá Bocage:

«Se é doce no recente, ameno Estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:

Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis Amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio:

Se é doce mares, céus ver anilados
Pela Quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:

Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida. 

Olha Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali, beijando-e, os Amores
incitam os nossos ósculos ardentes:
Ei-las de planta em planta as inocentes
As vagas borboletas de mil cores (...)»

Sebastião da Gama discerniu bem a originalidade e o lugar pioneiro de Bocage na poesia de Amor portuguesa, ao conseguir unir o amor da alma com o amor carnal ou do corpo que se deseja e lhe é belo. Reconhece contudo os efeitos negativos que os ciúmes lhe causavam, e dos quais Bocage se queixava, e vai relembrar Antero (que contudo Sebastião da Gama esquece na sua poesia juvenil altamente amorosa, embora de facto bem mais platónica) e Mário de Sá Carneiro, que chegaram mesmo a dar fim "ao Fado acerbo e duro" que Bocage maldizia:
«E chega a propor-se a porta de saída de Antero e Sá de Carneiro:

«Eia, amante infeliz, teu fim procura:
Fantástico terror não te reporte»

Mas eu prefiro a solução luminosa, a ressurreição em saudade. Aí se depura o amor de Bocage, se transcende, se diviniza. A luz renovou-se no próprio chão em que Bocage sofria; o Amor que não a Morte, encheu de Claridade os olhos do Poeta:[No soneto à Memória de Ulina:]

«Sonho, ou velo? Que imagem luminosa,
Esclarecendo o manto à Noite escura,
A meus olhos pasmados se afigura?
Sopeia a tua dor, alma saudosa!

De mais vistoso objecto o Céu não goza,
A clareza do Sol não é mais pura...
Que encanto! Que esplendor! Que formosura!
Caiu-te um astro, abóbada lustrosa!...

Sorrisos da purpúrea madrugada,
Vós tão gratos não sois... Ah! Como inclina
A face para mim branda, apiedada!...

Refulgente visão, tu és de Ulina;
Tu és cópia fiel da minha amada,
Ou reflexo talvez da Luz divina.»


Que Bocage e Sebastião da Gama, as Musas e Anjos, nos inspirem e unifiquem na "Luz Divina", do Amor e do Espírito...

Reconhecendo que Bocage se deixa frequentemente colorir "pela queixa, a solidão e a morte", observa contudo que logo o Amor o resgata: «No Amor se queima Bocage, para logo renascer, humana fénix, e renascer transfigurado.»
                                  

Joana Luísa da Gama, a namorada de Sebastião desde 1944, e casados no convento da Arrábida em 1951. A ela (com colaboradores valiosos) se deve o ingento trabalho da coordenação e publicação dos vários manuscritos do tão intenso quão fugaz poeta, professor e amante da Arrábida.
Os dois parágrafos finais são sinceros, ousados, sábios, belos, e vamos transcrevê-los (tanto mais que não estão na net), para ser mais completa a comunhão com Bocage e Sebastião da Gama: «Era uma vez (terminemos a história como é costume começá-las) um poeta moreno que nos emancipou do pudor literário. A esse tal repugnava complicar pelo pensamento o que nascera simples como as ervas; sublimar o que já de si mesmo era sublime; apodar de triste o que era a sua mais sincera alegria; ou encobrir-se, para cantar à vontade o que lhe ia pelo coração, na figura de amadores fantásticos. Bocage (o tal poeta é Bocage) vai direito ao fim sem nenhuma dessas subtilezas. No quadro da nossa poesia de Amor, em que há lugar, como acabámos de ver, para o recato e discreto atrevimento, Bocage é aquele poeta que nos diz de frente o que tem a dizer. (...)
Minhas Senhoras e meus Senhores, muito boa tarde e muito obrigado por me terem ouvido até ao fim [e com que alegria não terá pronunciado estas palavras cumprida a sua missão]. porque a meada acabou. Possa Bocage perdoar-me, se fiz afinal a sua caricatura. O mau, Senhoras e Senhores, foi querer figurar em palavras o que Bocage me deixou no espírito: que aí ficou dos seus versos de Amor apenas a luz puríssima que os distingue.»
Arrábida, Maio e Junho de 1950 (Esquema: Setúbal e Azeitão, 15-12-48).

domingo, 8 de setembro de 2024

Daria Dugina continua entre nós. Mensagem de Aleksandr Dugin, agradecendo aos que a saudaram ou comungaram na data do seu martírio.

                                     
Aleksandr Dugin publicou hoje dia 8 Setembro este texto belo e profundo, para meditarmos, em homenagem à Daria, ou Dasha!
«Caros amigos!
Agradeço do fundo do coração a todos os que comemoram o trágico dia 20 de agosto de 2022, quando a minha filha Darya foi brutalmente assassinada por uma terrorista ucraniana. Agradeço a todos os meus amigos e amigos de Darya pelas vossas condolências e por partilharem a minha profunda tristeza. Agradeço também a publicação dos vários livros escritos por Dasha ou dedicados à sua memória.
Dasha era, primeiro e acima de tudo, uma mulher da Tradição. E a Tradição para ela era tudo - a sacralidade, a filosofia, a política, a família, a amizade, o passado juntamente com o futuro - a própria Eternidade...
Dasha era muito frontal na sua lealdade à Tradição. Até à sua morte brutal... Foi assassinada quando regressava do festival “Tradição”, a 20 de agosto de 2022. Isso não pode ser pura coincidência. Isto é um sinal de Deus.
Só aquilo pelo qual as pessoas estão dispostas a sacrificar as suas vidas possui o verdadeiro valor. A tradição é o mais elevado valor. Para Darya. Para mim, para a minha mulher Natasha, para a minha família, para o meu povo. É o que faz da Mátria a Mátria, do povo o povo, da Igreja a Igreja, da cultura a cultura.
 
Dasha era a personificação da criatividade, era um lançamento para o futuro, vivia na fé e na esperança. Estava sempre a olhar para a frente e para cima. Erradamente, levou-o muito a peito, no que diz respeito a “para cima”.... Mas a sua mensagem continua viva entre nós e torna-se cada vez mais distinta, reunida, clara. A sua mensagem é um convite ao futuro russo e a um futuro verdadeiramente europeu. Um futuro que tem ainda que ser realizado. Por si, por nós.
Dasha sempre pensou em si própria como um projeto, como uma estimuladora da vontade criativa. Ardia com a filosofia, a religião, a política, a cultura e a arte. Viveu de forma tão rica, tão plena, precisamente porque estava interessada em tudo. Daí a variedade dos seus interesses, dos seus textos, dos seus discursos, da sua criatividade, dos seus esforços. Durante a sua vida, desejou fortemente que os russos avançasem, que o nosso país e a nossa cultura deixassem de estar parados e levantassem voo.
Considerava como sua missão viver pela Rússia e, se necessário, morrer pela Rússia. Foi o que escreveu nos seus Diários, “As alturas e os pântanos do meu coração”, que publicámos recentemente na Rússia. O segundo livro filosófico de Dasha, Optimismo Escatológico, será publicado em breve na Rússia. E é óptimo que já esteja publicado em inglês. Dasha é lembrada e amada em todo o mundo por aqueles que são fiéis à Tradição mesmo nos tempos mais sombrios, mesmo quando a própria Tradição já não existe, por aqueles que permanecem fiéis a Deus mesmo quando Ele está morto.
Viver para a Rússia é a sua mensagem, que deve ser transmitida sempre e sempre de novo
Temos muitos maravilhosos e verdadeiros heróis, guerreiros, defensores, pessoas com almas profundas e corações puros. Alguns deles deram a vida pela Mátria. Alguns deles vivem agora connosco. A memória de cada herói é sagrada. E a memória de Dasha também o é.
                                               
Mas o facto é que Dasha não é apenas um modelo de patriota e cidadã, ela é também portadora de um incrível potencial espiritual (mesmo que não tenha tido tempo para o desenvolver plenamente - foi morta demasiado jovem, aos 29 anos). Esforçou-se por encarnar a graça da Rússia imperial, o estilo da Idade da Prata da cultura russa do início do século XX e estava impregnada de um profundo interesse pela filosofia do neoplatonismo. A ortodoxia e a geopolítica russa. A arte moderna avant-garde - na música, no teatro, na pintura, no cinema - e a compreensão trágica da ontologia da guerra. Uma aceitação sóbria e aristocraticamente contida da crise fatal da modernidade e uma vontade ardente de a ultrapassar. Tudo isto é um otimismo escatológico. Enfrentar a desgraça e o horror da modernidade e, apesar do horror, manter uma fé radiosa em Deus, na sua Misericórdia, na sua Justiça.
                                                     
Gostaria que a recordação de Dasha não fosse tanto manter-se o foco nas imagens da sua vida como rapariga viva e encantadora, cheia de pura energia, mas fosse antes a continuação do seu ardor, a realização dos seus planos, dos seus sonhos imperiais puros e clarividentes.
Hoje, é claro para muitos que Dasha se tornou objetivamente a nossa heroína nacional. Poemas e pinturas, cantatas e canções, filmes e universidades, peças de teatro e produções teatrais são-lhe dedicados. As ruas das cidades e das aldeias têm agora o seu nome. Está a ser preparado um monumento para ser instalado em Moscovo e talvez noutras cidades.
                            
Uma rapariga que nunca tinha tomado parte em hostilidades, que nunca tinha apelado à violência ou à agressão, que era profunda e sorridente, ingénua e bem-educada, foi brutalmente assassinada à frente dos olhos do pai por um inimigo sem coração e sem escrúpulos, uma mulher terrorista ucraniana que também participou no festival “Tradição” e não hesitou em envolver a sua pequena filha de 12 anos no brutal assassínio. Foram as autoridades de Kiev e os serviços secretos do mundo anglo-saxónico, inimigos ferrenhos da Tradição, que a enviaram para cometer este ato. Há exatamente um ano, em 20 de agosto de 2022, dei uma conferência sobre o “Papel do Diabo na História” no Festival da Tradição. Dasha escutou. A assassina também ouviu. O diabo estava a ouvir o que eu dizia sobre o diabo, preparando-se para fazer o seu trabalho diabólico.
                                    
E Dasha tornou-se certamente imortal. A nossa nação não podia ficar indiferente a isto. E a minha tragédia, a tragédia da nossa família, dos amigos de Dasha, de todos aqueles que comunicavam e colaboravam com ela, tornou-se a tragédia de todo o nosso povo. E as lágrimas começaram a inundar as pessoas, tanto nas que conheciam esta rapariga como nas que ouviam falar dela pela primeira vez.
E estas não são apenas lágrimas de dor e tristeza. São as lágrimas da nossa ressurreição, da nossa purificação, da nossa Vitória vindoura.
Dasha tornou-se um símbolo. Ela já é um símbolo. Mas agora é importante que o significado essencial deste símbolo não desapareça, não se dissolva, não desapareça. É importante não só preservar a memória de Dasha, mas também continuar o seu trabalho. Porque ela tinha a Causa. A sua Causa.
Há santos que ajudam em determinadas circunstâncias: um ajuda na pobreza, outro na doença, o terceiro na peregrinação, o quarto no cativeiro. Os ícones russos individuais também são distribuídos de forma a apadrinhar pessoas em várias situações difíceis, por vezes desesperadas. “Aplacai as minhas dores” é o nome de uma das imagens da Mãe de Deus. E há um cânone que é lido quando se torna impossível viver e tudo se desmorona.....
Os heróis e as heroínas também são diferentes. Um encarna a valentia militar. Outro - a ternura sacrificial. O terceiro - a fortaleza. A quarta, - o auge da vontade política. Todos são belos.
                  
Dasha personifica a alma. A alma Russa.
Se não houver alma, não haverá Rússia, não haverá nada.
Muita gente boa ofereceu-se para levar consigo dinamicamente a memória de Dasha.
Existe o “Instituto Popular Daria Dugina”.
Há as “Classes de Coragem Daria Dugina”.
Há uma nova série de livros da excelente editora Vladimir Dal, “Os livros de Dasha”.
Há vários prémios e outras iniciativas.
E deixamos que as pessoas façam o que o seu coração lhes diz para fazer.
O importante é fazer tudo com a alma.»
                                                         

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Iter in Spiritu, Caminho no Espírito, exposição de pintura da Maria de Fátima Silva, na Biblioteca Camões. Contributo para folha de sala.

 Iter in Spiritu, Caminho no Espírito, é o título da exposição de pintura que a Maria de Fátima Silva, da sua profunda e grande sensibilidade, criatividade e alma, nos oferece num dos corações lisboetas, o Largo do Calhariz, num palácio oitocentista onde funciona a Biblioteca Municipal Camões, na zona  onde outrora floresceu a tipografia Craesbeekiana, e ainda hoje a Livraria Antiquária do Calhariz.
                                                                   
É numa sala ampla, sob um tecto finamente revestido de motivos vegetalistas em estuque, num entretecimento histórico bem adequado, que encontramos, com curadoria da Eunice Mestre, o conjunto de dezoito pinturas  apresentado pela Fátima sob a ideia constelada de itinerário ou caminho no espírito, e que é tanto seu e da sua família, como o nosso e o das personagens e simbolizações representadas, todas elas manifestando estações no caminho em si: o iter que liga a terra e o céu, os opostos e dualidades, através das escolhas (o y pitagórico presente), actos, devoções, peregrinações, beleza e bem, sacrifício e compaixão, sabedoria e amor e que ela exemplifica ou transmite através filões, veios, seres, símbolos, monumentos e mitos da tradição espiritual portuguesa, e não só já que esta é universalista, e que com muita criatividade e hermenêutica  própria, rasgando as trevas brancas de cada tela virgem, a Fátima convoca, avatariza e povoa segundo associações, ritmos e intencionalidades que no seu processo criativo se tornam manifestações interactivas tanto do seu subconsciente como da grande alma portuguesa e anima mundi a que tem acesso, resultando numa unidade da pluridimensionalidade do espaço e tempo, das perspectivas e épocas históricos, com o colorido, o dinamismo e a alegria que caracterizam o seu estilo de pintura.
                                          
               
A Fátima, com o autor do texto, evocando-invocando.
Gerada toda a sua obra por uma grande sensibilidade e vigor, e em que história e religião, afectividade e devoção,  memória e conhecimento são alquimizados e reactualizados pelo seu espírito criativo, Santo.
                                
Embora a exposição seja um conjunto de pinturas, sentido por quem entra na harmoni
osa sala como um todo belo (um microcosmos) diluído  pelo chão antigo de madeira castanha, pelas paredes de uma pureza grande rasgadas nas amplas janelas e pelo maravilhoso tecto estucado vegetalista,  é sem dúvida cada quadro a cumprir melhor ou pior a sua função de representar, de transmitir, de despertar o espírito no caminho, Iter in spiritu, o que a Fátima fez cuidadosamente e tanto subconsciente como eruditamente, com muito génio. 
                                        
                                             
Se a intencionalidade da mensagem dela, ou mesmo da pintura ou coisa em si, é compree
ndida ou não, se o caminho espiritual que contemplamos é apenas histórico, estético, exterior ou se ressoa em nívéis internos nossas e nos impulsion nesta ou naquela energia, sentimento, direcção  ou consciencialização, só cada um por si mesmo poderá realizar e discernir, e em especial ao contemplar e sentir melhor ou mais demoradamente as obras, por vezez ícones. 

O conteúdo e os elementos de cada composição são em geral identificáveis (com maior ou menor dificuldade...), e respiram ou partilham a nossa tradição, desde os tempos pré-históricos, com os cultos misteriosos à volta dos menhires e cromelechs, aos medievais, com o amor até ao fim do mundo de Inês e Pedro, e o culto do Espírito santo, do menino imperador do mundo.
                                         
E
ncontramos também o culto do coração espiritual , como imagem piedosa, como emblemata, como local de teofania divina ou de confluência das correntes entre os que se amam, ou com o que cada um se liga e ressoa, frequentemente subtil e inconscientemente. 
                                                 
Mencionemos ainda o culto dos mensageiros, das aves, dos daimons, mercúrios, anjos e deusas que povoam bastante o imaginário anímico e pictórico tanto da história humana como da Fátima, e para bem nosso, pois face à virtualização digital crescente da percepção do mundo e da comunicação, mais do que nunca nos compete trabalhar para não esquecer que tanto somos corpos com mãos que pintam, escrevem, leem, trabalham, ajudam e abençoam, e elas estão muito presentes na exposição, como também espíritos no caminho da Vida eterna e que os Anjos, como os santos e santas, os guias, antepassados e mestres, ou as diferentes Faces Divinas (ishta devata, na Índia), são ajudantes e intermediários para a sintonização e manifestação do Espírito, do Bem, da Verdade e da Divindade e para uma melhor Humanidade.
                                              
O que é que cada pessoa valorizará mais no caminho para o Espírito ou já no Espírito, qual é a pintura ou os seus elemento que mais a tocam ou encantam, caberá a cada um de nós considerar, sentir, intuir e, talvez até, para aprofundar melhor a qualidade icónica espiritual, adquirindo algum quadro, ou apenas o contemplando mais demoradamente, para o ter de cor no coração e ser assim um psico-morfismo vivo e dinamizante no seu caminho no Espírito, luminoso, santo, beatífico como todos aspiramos e potencialmente merecemos e que a Arte tanto estimula, pois como o mestre e pintor russo Nicholai Roerich disse, “através da Beleza oramos, através da Beleza unimo-nos!”.

 Lisboa, Pedro Teixeira da Mota. 5 Setembro 2024.

domingo, 1 de setembro de 2024

Daria Dugina: “Vivemos na Era do Fim". Uma entrevista eternamente relevante, pela Open Revolt. Tradução portuguesa.

Daria Platonova Dugina nasceu hoje, 15 dezembro, de 1992 e foi assassinada por uma ucraniana dos Serviços secretos de Kiev a 20 agosto de 2022, em Moscovo. Celebremo-la lendo, de 2013, portanto apenas com 21 anos, uma entrevista bem instrutiva e valiosa que passamos a traduzir, e mesmo que não concordemos com todas as suas ideias, autores e grupos preferidos, temos de reconhecer que lança muita luz sobre a situação actual da Humanidade e dissipa a obscura ideologia oligárquica globalista e transhumanista, contrapondo a sua teorização do Quarto Estado Político e o restabelecimento da ordem metafísica e  ontológica Tradicional, através duma guerra santa, duma luta heróica contra as forças do Mal, e na qual acabou por tombar mártir. Possa a sabedoria e a alma da Europa tradicional, euro-asiática e multipolar desabrochar e vencer, e a alma imortal da Daria brilhar e inspirar. Aum, Amen...
 “Vivemos na Era do Fim": Uma Entrevista Eternamente Relevante com Daria Dugina
«Em janeiro de 2013, a Open Revolt teve o prazer de publicar a seguinte conversa entre Daria Dugina, da União Eurasiática da Juventude, e o nosso James Porrazzo, fundador da New Resistance.
Daria, filha de um dos filósofos revolucionários favoritos da New Resistance/Open Revolt, Alexander Dugin, para além do seu trabalho na União da Juventude Eurasiática, era na altura também a diretora do projeto Europa Alternativa para a Aliança Revolucionária Global.
Agora, quase 6 anos depois, a Open Revolt tem o prazer de apresentar uma versão melhorada em inglês desta entrevista eternamente relevante.
Os tempos, os movimentos e as placas mudam. Mas a eternidade e a Guerra Santa permanecem.
                      LIBERDADE! JUSTIÇA! REVOLUÇÃO!

Daria, és uma eurasiática de segunda geração e filha do nosso mais importante pensador e líder Alexander Dugin. Queres tu, uma jovem tão profundamente militante, partilhar connosco os teus pensamentos sobre seres  na Kali Yuga?
- Vivemos na era do fim - o fim da cultura, da filosofia, da política, da ideologia. Este é um tempo sem movimento real. A profecia sombria de Fukuyama sobre o “Fim da História” está a tornar-se uma espécie de realidade. É essa a essência da Modernidade, do Kali Yuga. Estamos a viver o momento do Finis Mundi. A chegada do Anticristo está na agenda. Esta noite profunda e extenuante é o reino da quantidade, mascarado por conceitos tentadores como o rizoma de Gilles Deleuze: as peças do Sujeito moderno transformam-se na “mulher-cadeira” do Tokyo Gore Police (filme japonês pós-moderno) - o indivíduo do paradigma moderno transforma-se nas peças do dividuum. “Deus está morto” e o seu lugar está a ser ocupado pelos fragmentos do indivíduo. Mas se fizermos uma análise política, descobriremos que este novo estado do mundo é o projeto do liberalismo. As ideias extravagantes de Foucault, aparentemente revolucionárias no seu pathos, após uma análise mais escrupulosa, mostram o seu fundo conformista e (secretamente) liberal que vai contra a hierarquia tradicional de valores e visa estabelecer a pervertida “nova ordem”, onde o cume é ocupado pelo indivíduo auto-adorado e pela decadência atomística.
É difícil lutar contra a modernidade, mas é certamente insuportável viver nela, concordar com este estado de coisas, onde todos os sistemas são alterados e os valores tradicionais se tornam uma paródia, para além de serem expurgados e ridicularizados em todas as esferas sob o controlo dos paradigmas modernos. Este é o reino da hegemonia cultural.
E este estado do mundo incomoda-nos. Lutamos contra ele - pela ordem divina - pela hierarquia ideal. O sistema de castas no mundo moderno é completamente esquecido e transformado numa paródia. Mas tem um ponto fundamental. Na República de Platão, há um pensamento muito interessante e importante: as castas e a hierarquia vertical na política não são mais do que o reflexo do mundo das ideias e do bem superior. Este modelo na política manifesta os princípios metafísicos básicos do mundo normal (espiritual). Ao destruir o sistema primordial de castas na sociedade, negamos a dignidade do Ser divino e da sua Ordem. Renunciando ao sistema de castas e à ordem tradicional, brilhantemente descrita por Dumézil, produzimos dano na hierarquia da nossa alma. A nossa alma não é senão o sistema de castas com uma ampla harmonia de justiça que une as três partes da alma (a filosófica - o intelecto, a guardiã - a vontade, e a mercantil - a luxúria).
Ao lutarmos pela tradição, estamos a lutar pela nossa natureza profunda de seres humanos. O homem não é algo garantido - ele é um fim ou objetivo. E estamos a lutar pela verdade da natureza humana (ser-se humano é lutar pela super-humanidade). A isto pode chamar-se uma guerra santa.
O que significa para ti a Quarta Teoria Política?
- É a luz da verdade, algo raramente autêntico nestes tempos pós-modernos. É o acento correcto nos graus de existência - os acordes naturais das leis do cosmos. É algo que cresce sobre as ruínas da experiência humana. Não há sucesso sem primeiras tentativas - todas as ideologias do passado continham em si algo que causou o seu fracasso.
A Quarta Teoria Política é o projeto das melhores faces da ordem divina que se pode manifestar no nosso mundo - do liberalismo, tomamos a ideia de democracia (mas não no seu sentido moderno) e de liberdade no sentido evoliano [de Júlio Evola]; do comunismo, aceitamos a ideia de solidariedade, o anti-capitalismo, o anti-individualismo e a ideia de colectivismo; do fascismo, tomamos o conceito de hierarquia vertical e a vontade de poder - o códice heroico do guerreiro Indo-Europeu.
Todas estas ideologias do passado sofreram de graves deficiências - a democracia com a adição do liberalismo tornou-se tirania (o pior regime de Estado, segundo Platão), o comunismo defendeu o mundo tecnocêntrico sem tradições e origens, e o fascismo seguiu a orientação geopolítica errada e o seu racismo era ocidental, moderno, liberal e anti-tradicional.
A Quarta Teoria Política é a transgressão global destes defeitos - o projeto final da história futura (aberta). É o único modo de defender a verdade.
Para nós, a verdade é o mundo multipolar, a desabrochante variedade das diferentes culturas e tradições.
Somos contra o racismo, contra o racismo cultural e estratégico da civilização ocidental moderna dos EUA, que foi perfeitamente descrito pelo professor John M. Hobson em The Eurocentric Conception of World Politics. O racismo estrutural (aberto ou subliminar) destrói a complexidade encantadora das sociedades humanas, tanto primitivas como complexas.
Encontras algum desafio especial como jovem mulher e ativista nesta época?
- Esta guerra espiritual contra o mundo (pós-)moderno dá-me a força de viver.
Sei que estou a lutar contra a hegemonia do mal pela verdade da Tradição eterna. Ela está obscurecida agora, mas não completamente perdida. Sem ela, nada poderia existir.
Penso que qualquer género e idade tem as suas formas de aceder à Tradição e às suas formas de desafiar a Modernidade.
A minha prática existencial é abdicar da maioria dos valores da juventude globalista. Acho que precisamos de ser diferentes desse lixo. Não acredito em nada moderno. A Modernidade está sempre errada.
Considero o amor uma forma de iniciação e realização espiritual. E a família deve ser a união de pessoas espiritualmente semelhantes.
 
Daria, com o pai Aleksandr Dugin, pouco antes de ser assassinada.
Para além do teu pai, obviamente, quem mais sugeres aos jovens militantes que desejam conhecer as nossas ideias e estudar?
- Recomendo familiarizarem-se com os livros de René Guénon, Julius Evola, Jean Parvulesco, Henry Corbin, Claudio Mutti, Sheikh Imran Nazar Hosein (quanto ao tradicionalismo); Platão, Proclus, Schelling, Nietzsche, Martin Heidegger, E. Cioran (para a filosofia); Carl Schmitt, Alain de Benoist e Alain Soral (para a política); John M. Hobson e Fabio Petito (para as relações internacionais); e Gilbert Durand, Georges Dumézil (sociologia). Este é o “kit inicial” básico de leituras para a nossa revolução intelectual e política.
Henry Corbin (14 Abril 1973 - 7 Outubro 1978), e Carl Gustav Jung, nos encontros de Eranus, Suiça, 1940.
Passaste algum tempo a viver na Europa Ocidental. Como é que comparas o estado do Ocidente com o do Oriente, depois de uma experiência em primeira mão?
- De facto, antes da minha chegada à Europa, pensava que esta civilização estava absolutamente morta e que não era possível qualquer revolta. Comparava a Europa liberal moderna a um pântano, sem qualquer possibilidade de protesto contra a hegemonia do liberalismo.
Ao ler a imprensa estrangeira europeia, ao ver os artigos com títulos como Putin - o Satanás da Rússia, A vida de luxo do pobre Presidente Putin, Pussy Riot - as grandes mártires da Rússia podre - esta ideia quase se confirmou. Mas, passado algum tempo, encontrei alguns grupos e movimentos políticos anti-globalistas em França - como Égalité et Réconciliation, Engarda, Fils de France, etc., e tudo mudou.
Os pântanos da Europa transformaram-se numa outra coisa com a possibilidade oculta de revolta. Encontrei a “outra Europa”, o império oculto “alternativo”, o polo geopolítico secreto.
A verdadeira Europa secreta tem de ser despertada para lutar e destruir o seu duplo liberal.
Agora tenho a certeza absoluta de que existem duas Europas absolutamente diferentes: a Europa atlantista liberal decadente e a Europa alternativa, anti-globalista, anti-liberal e de orientação Euroásia
René Guénon escreveu em A Crise do Mundo Moderno que é preciso distinguir entre ser anti-moderno e anti-ocidental. Ser contra a modernidade é ajudar o Ocidente na sua luta contra a modernidade, que é construída sobre códigos liberais. A Europa tem a sua própria cultura fundamental (recomendo o livro de Alain de Benoist, As Tradições da Europa). Encontrei esta outra Europa alternativa, secreta, poderosa, tradicionalista, e deposito as minhas esperanças nos seus guardiões secretos.
Organizámos com Égalité et Réconciliation uma conferência em Bordéus, em outubro de 2012, com Alexander Dugin e Christian Bouchet, numa sala enorme, e em que não havia lugar para todos os voluntários que queriam ver e escutar esta conferência. Isto mostra que algo está a começar a mexer-se...
No que diz respeito às minhas opiniões sobre a Rússia, observei que a maior parte dos europeus não confia na informação dos meios de comunicação social e que o interesse pela Rússia está a crescer, como se pode ver na aprendizagem do russo, no visionamento de filmes soviéticos e na forma como muitos europeus compreendem que os meios de comunicação social europeus estão totalmente influenciados pelo Leviatã hegemónico, a máquina de mentiras liberal globalista.
 As sementes do protesto estão portanto no solo [na terra]. Com o tempo, crescerão e destruirão a “sociedade do espectáculo”.
Toda a tua família é uma grande inspiração para nós aqui na Open Revolt e na New Resistence. Tens alguma mensagem para os teus amigos e camaradas na América do Norte?
 - Não posso deixar de admirar o vosso intenso trabalho revolucionário! A forma como estão a trabalhar - nos media - é a forma de matar o inimigo “com o seu próprio veneno”, usando a estratégia de guerra em rede. Julio Evola falou sobre isso no seu excelente livro Cavalgar o Tigre.
Uomo differenzziato (“Homem diferenciado”) é alguém que reside no centro da civilização moderna mas não a aceita no império intenso da sua alma heróica. Ele pode usar os meios e as armas da Modernidade para infligir uma ferida mortal no reino da quantidade e nos seus golens.
Compreendo que a situação atual nos EUA seja difícil de suportar. É o centro do inferno, mas, como escreveu Hölderlin, o herói tem de se atirar para o abismo, para o coração da noite e, assim, conquistar as trevas.
Gostarias de partilhar alguma reflexão final?
- Estudando na Faculdade de Filosofia e trabalhando sobre Platão e o neo-platonismo, posso dizer que a política não é mais do que a manifestação dos princípios metafísicos básicos que estão na base da existência.
Ao travarmos uma guerra política pela Quarta Teoria Política, estamos também a estabelecer a ordem metafísica - manifestando-a no mundo material.
A nossa luta não é apenas pelo estado humano ideal - é também uma guerra santa para restabelecer a ontologia correta.»
     - Daria Dugina
        https://t.me/porrazzo https://twitter.com/JamesPorrazzo

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Daria Dugina, “We Live in the Era of the End”. An eternally relevant interview by Open Revolt... Just the transcription for a portuguese blog

                                                           

             “We Live in the Era of the End”: An Eternally Relevant Interview with Daria Dugina.

In January 2013, Open Revolt was very happy to publish the following conversation between the Eurasian Youth Union’s Daria Dugina and our very own James Porrazzo, founder of New Resistance.
Daria, the daughter of one of New Resistance/Open Revolt’s favorite revolutionary philosophers, Alexander Dugin, in addition to her work in the Eurasian Youth Union was at the time also the director of the project Alternative Europe for the Global Revolutionary Alliance.
Now, nearly 6 years later, Open Revolt is more than pleased to present an improved English language version of this eternally relevant interview.
Times, movements, and signboards change. But eternity and the Holy War remain.

                       FREEDOM! JUSTICE! REVOLUTION!

Daria, you are a second generation Eurasianist and the daughter of our most important thinker and leader Alexander Dugin. Do you care to share with us your thoughts on being a young militant this deep into the Kali Yuga?

We live in the era of the end – the end of culture, philosophy, politics, ideology. This is a time without real movement. Fukuyama’s gloomy prophecy of the ”End of History” is turning out to be a kind of reality. That’s the essence of Modernity, of the Kali Yuga. We are living in the momentum of Finis Mundi. The arrival of the Antichrist is on the agenda. This deep and exhausting night is the reign of quantity, masked by tempting concepts such as Gilles Deleuze’s Rhizome: the pieces of the modern Subject changes into the ”chair-woman” from the “Tokyo Gore Police” (post-modern Japanese film) – the individual of the modern paradigm turns into the pieces of dividuum. “God is dead” and his place is being occupied by the fragments of individual. But if we make a political analysis, we will find that this new state of the world is the project of liberalism. The extravagant ideas of Foucault, seemingly revolutionary in their pathos after more scruple analysis, show their conformist and (secretly) liberal bottom which go against the traditional hierarchy of values and aim at establishing the perverted “new order” where the summit is occupied by the self-adoring individual and atomistic decay.
It’s hard
to fight against modernity, but it is surely unbearable to live in it, to agree with this state of things, where all systems are changed and traditional values become a parody, in addition to being purged and mocked in all spheres under the control of modern paradigms. This is the reign of the cultural hegemony.
And this state of th
e world bothers us. We fight against it – for the divine order – for the ideal hierarchy. The caste-system in the modern world is completely forgotten and transformed into a parody. But it has a fundamental point. In Plato’s Republic, there is a very interesting and important thought: castes and vertical hierarchy in politics are nothing but the reflection of the world of ideas and the higher good. This model in politics manifests the basic metaphysical principles of the normal (spiritual) world. By destroying the primordial caste system in society, we negate the dignity of the divine being and his Order. Resigning from the caste system and traditional order, as brilliantly described by Dumézil, we damage the hierarchy of our soul. Our soul is nothing but the system of castes with a wide harmony of justice which unites the three parts of the soul (the philosophical – the intellect, the guardian – the will, and the merchant – the lust).
By fighting fo
r tradition, we are fighting for our deep nature as human beings. Man is not something granted – he is the goal. And we are fighting for the truth of human nature (to be human is to strive to super-humanity). That can be called a holy war.


 What does the Fourth Political Theory mean to you?

It is the light of truth, something rarely authentic in these post-modern times. It is the right accent on the degrees of existence – the natural chords of the laws of the cosmos. It is something which grows up on the ruins of the human experience. There is no success without first attempts – all of the past ideologies contained in them something which caused their failure.
The Fourth Political Theory is the project of the best sides of the divine order that can be manifested in our world – from liberalism, we take the idea of democracy (but not in its modern meaning) and liberty in the Evolian sense; from communism we accept the idea of solidarity, anti-capitalism, anti-individualism and the idea of collectivism; from fascism we take the concept of vertical hierarchy and the will to power – the heroic codex of the Indo-European warrior.
All these past ideologies suffered from grave shortcomings – democracy w
ith the addition of liberalism became tyranny (the worst state-regime according to Plato), communism defended the techno-centric world with no traditions and origins, and fascism followed the wrong geopolitical orientation and its racism was Western, Modern, liberal and anti-traditional.
The Fourth Political Theory is the global transgression of these defects – the final design of the future (open) history. It is the only way to defend the truth.
For us, truth is the multipolar world, the blossoming variety of different cultures and traditions.
We are aga
inst racism, against the cultural and strategic racism of the USA’s Western modern civilization, which has been perfectly described by professor John M. Hobson in The Eurocentric Conception of World Politics. Structural (open or subliminal) racism destroys the charming complexity of the human societies, both primitive and complex.

 Do you find any special challenges as both a young woman and an activist in this age?

This spiritual war against the (post-)Modern world gives me the force to live.
I know that I am fighting against the hegemony of evil for the truth of the eternal Tradition. It is obscured now, but not completely lost. Without it nothing could exist.
I think that any gender and age has its forms to access Tradition and its ways to challenge Modernity.
My existential practice is to abdicate most values of the globalist youth. I think we need to be different from this thrash. I don’t believe in anything modern. Modernity is always wrong.
I consider love to be a form of initiation and spiritual realization. And the fam
ily should be the union of  spiritually similar persons.

Beyond your father, obviously, who else would you suggest young militants wishing to learn our ideas and study?

I recommend becoming acquainted with the books of René Guénon, Julius Evola, Jean Parvulesco, Henry Corbin, Claudio Mutti, Sheikh Imran Nazar Hosein (as for Traditionalism); Plato, Proclus, Schelling, Nietzsche, Martin Heidegger, E. Cioran (as for philosophy); Carl Schmitt, Alain de Benoist, and Alain Soral (as for politics); John M. Hobson and Fabio Petito (for International Relations); and Gilbert Durand, Georges Dumézil (sociology). This is the basic “starter kit” of readings for our intellectual and political revolution.

Henry Corbin (14 Abril 1903 – 7 Outubro 1978), great specialist in Iranian spiritual tradition.

You’ve spent some time living in Western Europe. How would you compare the state of the West to the East, after first hand experience?

In fact, before my arrival to Europe, I thought that this civilization is absolutely dead and no revolt could be possible there. I compared the modern liberal Europe to a swamp with no possibility to protest against the hegemony of liberalism.
When readin
g the foreign European press, seeing the articles with titles such as Putin – the Satan of Russia, The Luxury Life of Poor President PutinPussy Riot – the Great Martyrs of the Rotten Russia – this idea was almost confirmed. But after a while I found some political anti-globalist groups and movements in France – like Égalité et Réconciliation, Engarda, Fils de France, etc., and everything changed.
The swamps of Europe have transformed into something else with the hidden possibility of revolt. I’ve found the “other Europe”, the ”alternative” hidden empire, the secret geopolitical pole.
The real secret Europe should be awakened to fight and destroy its liberal double.
Now I am absolutely sure that there are two, absolutely different Europes: liberal decadent Atlanticist Europe and alternative Europe, which is anti-globalist, anti-liberal, and Eurasia-orientated.
Réne Guénon wrote in the The Crisis of the Modern World that we must distinguish between being anti-modern and anti-Western. To be against modernity is to help the Occident in its fight against Modernity, which is constructed on liberal codes. Europe has its own fundamental culture (I recommend the book of Alain de Benoist, The Traditions of Europe). I found this alternative, secret, powerful, Traditionalist, other Europe and I put my hopes in its secret guardians.
We’ve organized with Égalité et Réconciliation a conference in Bordeaux in October 2012 with Alexander Dugin and Christian Bouchet in a huge hall, but there was no place for all the volunteers who wanted to see this conference. This showed that something is beginning to move…
Concerning my views on Russia, I’ve remarked that the greater part of European people don’t trust media information, and interest in Russia is growing, as can be seen in learning Russian, watching Soviet films, and how many Europeans understand that the European media are totally influenced by the hegemonic Leviathan, liberal globalist machine of lies.
So the seeds of protest are in the soil. With time they’ll grow up and destroy the “societ
y of spectacle.”

Daria, with his father Aleksandr Dugin, some hours before being murdered...

 Your whole family is a great inspiration to us here at Open Revolt and New Resistance. Do you have a message for your friends and comrades in North America?

I really can’t help but admire your intensive revolutionary work! The way you are working – in the media – is the way of killing the enemy ”with its own poison”, using the network-warfare strategy. Evola spoke about that in his excellent book Ride the Tiger.
Uomo differenzziato (“the differentiated man”
) is someone who resides in the center of modern civilization but does not accept it in the inner empire of his heroic soul. He can use the means and arms of Modernity to inflict a mortal wound to the reign of quantity and its golems.
I ca
n understand that the situation in the USA now is difficult to stand. It is the center of hell, but as Hölderlin wrote, the hero must throw himself into the abyss, into the heart of night and thus conquer the darkness.

 Any closing thoughts you’d like to share?
Studying in the Faculty of Philosophy and working on Plato and neo-Platonism, I can remark that politics is nothing but the manifestation of the basic metaphysical principles which lay in the foundation of being.
By waging political war for the Fourth Political Theory, we are also establishing the metaphysical order – manifesting it in the material world.
Our struggle is not only for the ideal human state – it is also a holy war for reestablishing the right ontology.


quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Aforismos do Caminho. Escrito há uns anos numa sessão pessoana.

                                     

Sê o Ser.
Desperta.
Alinha-te harmoniosamente. 
 
Abre o teu coração e ser,
Brilha mais como o Sol,
Reflecte a luz externa como a Lua
e ama e ressuscita Deus em ti.
 
Caminha calmo com os teus afins,
Vendo do alto a tua vida
 e sendo deligente no Caminho.
 
Escuta o que a Deus te  ligar
e flameja no teu corpo subtil,
irradiando para quem precisar.
 
Oh tu, (...), eu, o teu Anjo ou Espírito saúdo-te!