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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Silêncio como Deus ou guia iniciático na Doutrina Moral, de Gomberville. La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle.


Marin Le Roy Gomberville no seu ensinamento moral e espiritual, baseado no poeta Horácio (65 a 8 a. C.) e no humanista e pintor (mestre de Rubens) Otto Vaenius (1556-1629), gerou uma obra de sabedoria bastante valiosa, ainda pouco estudada e aprofundada. Ao acolher plena ou fortemente a tradição greco-romana, na linha Humanista, ao não inserir referências ao Cristianismo na sua Doutrina dos Costumes, em plena época de lutas entre cristãos e protestantes, e de hegemonia da Contra-Reforma, Gomberville escapa das limitações teológicas dogmáticas e propõe uma visão da religião como harmonia com a Natureza, o próximo e a ordem divina, e uma visão da filosofia como o estudo da natureza humana, e o auto-conhecimento, a fim de vencermos a ignorância e defeitos, e diminuirmos ou extinguirmos os vícios e assim desenvolvermos as virtudes, pois é nesta luta e caminho que se encontra a Sabedoria e a felicidade.

Abordámos alguns aspectos da sua vida e da Doutrina Moral e neste estudo apresentamos apenas um dos seus emblemas ou divisas, com o mote e o epigrama provindos de Otto Vaenius, sendo sua a explicação ou narratio, sobre o Silêncio, a figura 29ª da I parte do seu livro, La Doctrine des Moeurs.

                                                      O Silêncio é a vida do Amor.

O silêncio é um bem supremo:
É a virtude do sábio e a dum amante:
Quem só fala raramente,
Jamais ofende a quem ama.

«É por vezes justo que o Amigo fale livremente  ao seu Amigo (a); Mas quase nunca acontece que o amigo fale livremente do seu amigo.
Se a pri
meira Lei do Amor é amar, e a segunda é ter boa opinião do seu amigo, a terceira é infalivelmente, como nos Mistérios dessas antigas Religiões, ver, desfrutar e calar. Porque nada é tão apropriado para conservar a amizade quanto esse silêncio respeitoso, que nos faz guardar no coração tudo o que sabemos dos nossos Amigos.
O Pintor representa-nos esta verdade pela figura do Deus do silêncio, que sempre mudo, e sempre Mestre de si, comanda todas as paixões que podem perturbar ou o repouso das almas ou a harmonia da perfeita Amiza
de.
Se ele tem As
as, é para testemunhar que ele toma de empréstimo ao Amor a  sua actividade, e que elevando-nos do afecto amoroso pelas criaturas aquele do Criador, ele pode levar  os nossos corações até ao Templo eterno, onde devemos tornar-nos verdadeiros Adoradores do verdadeiro Deus, que em todas as suas operações conserva um silêncio perpétuo, quero eu dizer o repouso imutável da sua natureza bem-aventurada.»
                                      

Creio ser este  comentário, explicação ou hermenêutica dos mais elevados espiritualmente em todo o livrinho, um in-8º de 412 páginas, e nele Gomberville demonstra conhecer e valorizar a instituição pagã do Mistérios e a iniciação que neles era facultada.
Primeiro, já pela pictura, desenhada por Otto Vaenius,  representando o Deus do silêncio, Harpócrates, no seu gesto iniciático: é no silêncio que ouvimos, e é guardando o silêncio que o recebido ou realizado não é menosprezado, diminuído ou mesmo atacado. E só é transmitido a quem
  o merece receber.
Segundo, por regras tradicionais
: "Saber, querer, ousar, calar", afirmaram alguns. Ou "contemplar, maravilhar-se e calar-se". Tal era a regra do silêncio a que os iniciados nos Mistérios de muitas religiões e tradições estavam obrigados: não deviam  revelar os ensinamentos, visões e experiências que tinham tido. Os ensinamentos mais elevados dos mistérios de Eleusis, por exemplo, seja do que se lhes dizia ou contemplavam, ainda hoje apenas se suspeita que seria isto e aquilo...
Silêncio que nos permite conservar no coração e aí nos fortificarmos, elevarmos, harmonizarmos, deliciarmos com o que amamos, ou com quem amamos.
Silêncio sobre nós próprios, enquanto c
ompostos de corpo, alma e espírito, e portanto necessitando de persistentemente tentarmos controlar a agitação mental ou, mais basicamente, instintos, desejos, receios, que perturbam a harmonia, e que no fundo são barulhos na nossa aura e mundos interiores, e que não nos permitem aceder aos mundos espirituais, ou mesmo ouvir a voz interna ou até a música das esferas.
Silêncio que cala a horizontalidade e nos verticaliza para o espírito, para a anima mundi, para o Bem geral, para o Logos, para Deus. 

O Anjo-daimon-deus do silêncio, neste sentidos,  tem o dedo indicador vertical sobre a boca, cerrando-a ou fazendo a cruz nela, crucificando o Verbo, revertendo-o para o mundo interior ou espiritual. E tem na sua mão um estandarte bem erguido, com as famosas iniciais SPQR, Senatus PopulusQue Romanus, Senado e Povo Romano, que no fundo direcionam para a tenção ou talento de bem fazer pelo povo e o Estado. 

Acrescente-se que na edição transformada da Doutrine des Moeurs, com modificações de 1672  sob o nome de Le Theatre Moral de la vie Humaine,  e de Theatro Moral de toda la Philosophia de los Antiguos y Modernos,  editadas pelo erudito tipógrafo François Foppens, en Bruxelas, só a imagem se conserva semelhante mas mais perfeita, pois houve grandes modificações no mote - Nada mais proveitoso que o Silêncio -,  epigramas e explicações (segundo François Foppens, redigidas por um notável cavaleiro espanhol nascido em 1603 que se quis manter anónimo), estas bastante mais detalhada do desenho (pois também a dimensão é a de um in-folio), e iniciando-se neste emblema pela explicitação de que «No Templo de Ysis e Serapion, adoravam os antigos, com suma reverência,  a imagem de Harpocrates, por Deus do Silêncio, (...) sentado entre o vinho e a ira...»
                                              
Quanto às asas do Anjo
-daimon-deus Harpócrates, acrescentaremos nós, indicam que a  aspiração amorosa ou unitiva intensifica a sublimação e subida das nossas energias anímicas tornando-as capazes de harmonizar a agitação mental e elevar-nos do mundo terreno ao espirital e mais estabilizados na luz, amor e paz, de tal que conseguimos o meditar, reverenciar, adorar ou mesmo contemplar os seres celestiais, o Espírito santo, a Divindade.
A parte final da explicação ou narratio de Gomberville é perfeita, como um hino ao Amor que pelo silêncio nos dá asas e eleva à Fonte. É uma explicação pitagórica ou platónica que nos é oferecida por Marin, ou Martin, Le Roy Gomberville. 

Há mesmo algo da linguagem  das nossas sorores e místicas cristãs mais extáticas, quanto às asas, no anjo, no silêncio,   impulsionarem ou levarem  «os nossos corações até ao Templo eterno, onde devemos tornar-nos verdadeiros Adoradores do verdadeiro Deus». Inegavelmente uma bem elevada realização:  conseguirmos entrar no Templo eterno, sermos pedras ou colunas nele, na adoração da Divindade, e numa compreensão de grande profundidade e altitude, religando terra e céu.
Marin Le Roy
 Gomberville conclui, com grande sabedoria e originalidade numa visão da natureza de inefável beatitude espiritual do «verdadeiro Deus que em todas as suas operações conserva um silêncio perpétuo, quero eu dizer o repouso imutável da sua natureza bem-aventurada».
                                                 
Possam Otto Vaenius, Marin le Roy de
 Gomberville e os seus associados desfrutar da natureza bem aventurada divina, e inspirar-nos nela, tal como aos vários amigos que nos últimos tempos têm partido para os mundos subtis e espirituais, e que saudamos na Luz, Amor e Silêncio, quais anjos da guarda no coração iniciados, elevados.