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| Desenho da estrela do espírito pelo notável mestre Bô Yin Râ. |
A palavra sânscrita Ātman, da raiz, an-, respirar, sopro, recebeu ao longo dos séculos diversas significações tais como, a respiração, o eu pessoal, o eu sou, o si próprio, o ser em si, a mente, a alma, o Espírito, o Espírito Divino. O conhecimento desta multidimensional realidade íntima e em certos níveis última foi e é um dos principais fins ou objectivos dos sábios e videntes da tradição indiana, ou dos que a estimam e trabalham.
Os filósofos, yogis e místicos não-dualistas consideram haver só um Espírito, Divino, chamado tanto Ātman como Paramātman, Brahman, Puruṣa, e os eus individualizados (jīvātman) não passam de identificações transitórias e logo mais ou menos ilusórias, sobretudo se não corporizando o espírito. As escolas ou visões tradicionais dwaitas aceitam a dualidade (com diferença, ou com e sem diferença) entre o Espírito absoluto e o Espírito individual pois há uma infinidade de Espíritos, atman, ou jivatman, centelhas imortais e eternas.
A realização do conhecimento libertador deste Ātman, seja transpessoal seja pessoal, é o sumum bonum, o sumo bem, dos darśanas, as escolas ou sistemas filosóficos espirituais e teístas, sendo denominado Ātmajñāna ou Ātmavidyā, o conhecimento de Ātman, ou ainda Mokṣa, a libertação.
A sua conceptualização ao longo de uma evolução milenar, complexa de se rastrear pelo muito tempo de mera transmissão oral e pela não datação dos textos mais antigos, vai desde as significações primárias, expostas nos mais antigos textos sagrados, os Vedas (cerca de 1.500 a. C.), de respiração ou sopro vital, ou um eu corporal, passando depois para significar a alma individual e, por fim, o Espírito imortal, tanto individual como universal.
Este desenvolvimento está mais patente nas Upanisad, ou Upaniṣhadas, textos escritos a partir de cerca de 600 a. C. e cujo título significa conectado, entretecido, aprendido junto ao mestre, ou instrução do aluno pelo mestre, nascidas em geral de membros da casta guerreira que ensinaram estes conhecimentos mais relativos ao espírito, ao Eu em si, aos sacerdotes que eram mais sacrificadores aos deuses védicos do que yogis e místicos pesquisadores da psique humana. Encontramos então nas 108 Upanishadas conhecidas muitas especulações e intuições valiosas e subtis, embora nem sempre
concordantes. Este primeiro texto vai basear-se em algumas afirmações das Upanishadas, valiosas portanto para reflexão e meditação.
Por exemplo, uma das mais antigas, incluída no Rig Veda, a Kauṣītaki Upaniṣad, IV. 20, descreve o princípio experimentador puro, Ātman, dum modo muito prático e experimental, que deveríamos praticar, sentir, realizar : «este Ser consciência-inteligência (prajñātman) está no corpo, como Eu, dos cabelos até à ponta das unhas, assim como a lâmina está na bainha, ou o fogo na lareira».
Numa das mais antigas, importantes e famosas, a Katha Upaniṣad, II. 20, afirma-se: «Ātman, o mais subtil dos subtis, o maior dos maiores, está assente ou oculto no coração (ou gruta interior) dos seres.» E podemos assim de certo modo distinguir, em analogia com a física moderna, a 1ª descrição do Espírito como onda desta 2ª como partícula.
Não é fácil contudo as pessoas estabilizarem-se no Atman e por isso mesmo a Katha, afirma em seguida II, 23 a ideia da Graça, da gratuitidade, do Amor divino: «Este Atman não pode ser alcançado pela reflexão sobre os ensinamento védico, nem pela meditação, nem pela audição dos textos sagrados. Quem quer que este Espírito ou Atman escolhe, por esse só ele é atingido. A tal pessoa o Atman revela a sua própria forma.» Claro que com isto não se recomenda que não se medite, mas apenas que não há causalidades automáticas e que o Espírito, e os seus elos, sabem quando o peregrino ou peregrina deve ser abençoado.
No início da antiga e fazendo parte do Rigveda, Aitareya Upanishad. I. 1, há uma visão grandiosa dos primórdios: «Atman só era tudo o que havia no começo. Nada mais havia. Então ele decidiu: Vou emanar ou criar os mundos (Sa ikshata lokannu stiji ita).» E logo se caracterizará o Atman como prajnana, como consciência, cabendo à consciência humana do Atman individual alcançar tal Consciência suprema pelo seu trabalho e graça.
Numa das mais clássicas e profundas, a Brihadarankaya Upanisad, recentemente bem traduzida entre nós pelo António Barahona da Fonseca, há um passo de metodologia da gnose átmica ou monádica valiosa (II, 4.5): «O Eu, sem dúvida, deve ser visto, deve-se ouvir falar dele (sravana), deve-se reflectir sobre ele (manana, até se estar convicto) e deve-se meditá-lo (nididhyasana). E o Atman torna-se conhecido (vijnana) pelo ver, ouvir, reflectir e meditar sobre ele».
Este conhecimento vijnana nasce portanto de um esforço prolongado por compreender o atman até que, pela consciência mais sensibilizada e pela meditação com amor se consegue percepcioná-lo interiormente, o que certamente dependerá ainda, como já foi referido, da graça de Ele próprio, Atman kripa, Ele, seja o espírito interior seja a própria Divindade Espírito, através de toda uma subtil infinidade de transmissões e raios, acerca da qual ao longo dos séculos muitas visões e teorias se ergueram realçando a existência de uma hierarquia, mantendo-se a possibilidade da Graça directa, ainda que o discernimento sobre estes difíceis seja por raríssimos alcançada.
Bem famoso e mais subtil do que parece é outro passo da Brihadarankaya Upanishad (IV. 5, 6): «O marido é sem dúvida querido, não por causa de se desejar do marido, mas por causa de se desejar o Atman... Nenhum objecto é querido por causa de ser desejado, mas por causa do desejo do Atman».
A questão que surge é na maioria das pessoas deseja-se mais as aparências mas que são sensíveis e palpáveis do que as essências bem mais subtis. O famoso filósofo místico vaishnava Ramanuja, o fundador do Visistadvaita, Não dualismo modificado, discernirá e bem que é o desejo ou vontade do Atman supremo, sobretudo se temos para com ele devoção-amor, que empresta a capacidade de atração que os objectos que nós gostamos têm sobre nós, em proporção não do nosso amor pelos objectos ou seres mas pelo que temos ao Espírito supremo, de tal modo que por tal entrega ao Divino também o mundo e os seus seres e coisas se nos apresentarão ou oferecerão mais em beleza e harmonia.
É uma ideia valiosa de ser trabalhada e que está presente naqueles que sentem e realçam muito a gratidão. Mas se todos nós conseguíssemos olhar para o que nos rodeia e vermos em tudo isso o Espírito divino brilhando, de um modo ou doutro, estaríamos muito mais despertos e intensificados espiritualmente. Abra os olhos e sinta na vela que arde, no sol que nasce ou se põe ou no objecto que gosta: o que da Divindade pode intuir ou chegar até si...
Nestes tempos de tantas manipulações e opressões, votos de boas reflexões ou cogitações e em seguida mais interiorizadas e sentidas meditações no seu atman ou espírito, com aspiração e amor-devoção, bhakti prema, pelo Atman primordial, a Divindade, por qualquer nome que a conheça, invoque, cultue ou ame..
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| Mostra, demonstra e alegra o Caminho... |


2 comentários:
Acabei de ler sobre Advaita Vedanta ,quando me deparei com este seu texto.
Acrescentou-me, como sempre,nesta peregrinação interna.
Agradeço,e em especial,retribuindo de igual modo,o último parágrafo que subscrevo.
🔆
Peço desculpa de só agora ter visto o seu comentário e poder agradecer-lhe. Espero que tenha no entretanto aprofundado a sua espiritualidade e a do Advaita Vedanta e disponha se há algum aspecto que queira dialogar. Aum Tat Sat.
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