sábado, 3 de setembro de 2022

As Almas-gémeas, em Brito Camacho, um aljustrelense republicano, coronel médico, ministro e notável jornalista e escritor.

 Manuel Brito Camacho foi um notável alentejano, activista da transição da Monarquia para a República, e que, nascido em Aljustrel em 12 de Fevereiro de 1862, um de doze irmãos e irmãs, veio a formar-se na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, exercendo as suas funções como médico e médico militar em algumas cidades de Portugal (Torrão, Tancos, Torres Novas, Viseu), enquanto se dedicava simultaneamente à causa republicana, conferenciando, fundando jornais, tal em 1906  A Luta (com os artigos e editoriais poderosos) e partidos (o Unionista), concorrendo a eleições e chegando a ser deputado. E de tal modo afirmou a sua sensibilidade e consciência cívica, inteligência e determinação que, participando decisivamente na revolução do 5 Outubro, foi ministro do Fomento no elenco do primeiro governo da República, tendo tomado medidas importantes para o ensino técnico, industrial e comercial bem como quanto ao agrícola e veterinário. Foi maçon, iniciado em Torres Novas, em 1893 e em 1907 integrou a Loja Elias Garcia, em Lisboa Destacou-se ainda nos trabalhos para a separação da Igreja Católica do Estado Português, sendo ateu mas tolerante, e por não ser a favor da participação europeia portuguesa na Iª Grande Guerra, muito estimulada por Afonso Costa, o chefe do partido Democrático e mais radical, e do qual já há bastante tempo Brito Camacho divergia. Nos anos de 1921 a 1923 foi o Alto Comissário da República em Moçambique onde tomou boas medidas e propugnou a preparação para a futura autonomia dos moçambicanos.

                                                          

Em 1926, com o golpe militar que daria origem ao Estado Novo e ao Salazarismo, retirou-se da actividade política e estabilizou como coronel (desde 1919), certamente da oposição, mas mais dedicado à sua vasta obra literária, na qual deu à luz (desde 1889, a sua tese) cerca de quarenta livros, de contos ensaios e estudos históricos, por onde perpassam a sua prosa excelente e dotada de muitos regionalismos, o seu grande conhecimento e amor do Alentejo e de Portugal, nomeadamente das suas gentes, falas, tradições e almas, e os muitos encontros dialogantes com outros intelectuais da época. E assim em alguns dos seus livros, e num deles em especial, e do qual iremos extrair um ensinamento platónico, Quadros Alentejanos, 1925, encontramos descrições muito perfeitas dos alentejanos e da vida rural e seus trabalhos, costumes, vestuários, festas, comidas, devoções, crenças, mentalidades, tipos, por vezes com criações de personagens tão vivas quão fabulosas. O Amor será um tema ou força-ideia que viveu em toda a sua vida e cogitou e ensaiou com frequência e qualidade, nomeadamente no excelente Os Amores de Latino Coelho, ou nestes Quadros Alentejanos.

Será em 19 de Setembro de 1935, dois meses antes de Fernando Pessoa, que partirá da Terra, mas sem ter deixado de comunicar, e neste livro Quadros Alentejanos, p. 125, que: «Ainda espero ser feliz... depois de morto, na Terra ou no Céu, pouco me importa [referira antes a hipótese da "transmigração das almas]; mas para ser feliz na Terra é necessário que incarne por modo a fazer a vida para que a Natureza me dotou, e para ser feliz no Céu, é necessário que lá encontre os meus queridos mortos, os que partindo antes de mim para a viagem eterna, me levaram bocados do coração», ou, melhor, que imortalizaram-perenizaram os eflúvios de amor que ainda sinto por eles. Será valioso comparar-se com os sonetos de Antero de Quental dedicados à comunhão psíquica com os espíritos familiares e amigos desincarnados, já abordados neste blogue.

 Nos Quadros Alentejanos Brito Camacho descreve com realismo e grande sensibilidade, entre outros quadros e histórias, a vida ora pacata ora aventurosa dum maioral, o Verruga, que após uma luta mais ferida com um traiçoeiro maltez, começa a sentir aos 50 anos que talvez fosse bom encontrar alguém com quem se desse bem e pudessem viver juntos ou mesmo casarem-se.
E aparece mesmo a alma caridosa candidata a tal missão, uma
mulher nos 40 anos e com uma vida bem difícil e amorosamente variada, mas rija, sincera, trabalhadora e generosa, asseada e prendada na lide da casa e protectora dos animais. 

Nesse primeiro encontro no adro da aldeia onde vivia a Francisca, este era o seu nome, e onde ele passara a morar perto  num monte como maioral do gado, como bom pastor que sabia tudo «à perfeição desde a tosquia à ordenha», ela, que nunca o vira, pergunta-lhe donde era, e à resposta vaga «da Serra», inquiriu após ter «enrolado à cintura para não a sujar, a saia de cima  muito comprida como se usava ao tempo e sentou-se no chão, perto do Verruga, cruzando as pernas como na joeiração do trigo, espalmadas, no jeito preguiçoso de quem dispõe do seu tempo, e não se lhe dá consumi-lo a tagarelar: - É viúvo?...
- Nunca fui casado. Dizem que Deus Nosso Senhor fez as almas inteiras, e que depois as partiu ao meio, espalhando as ametades pela Terra, misturadas, e cada uma que procure a sua companheira, até a encontrar. As que se encontram, são felizes; as que não se encontram no mundo ao Deus dará, como uma cabeça que se perdeu, e não come nem descansa à procura das outras, sem dar com elas.
[Francisca:] - Isso são histórias da carochinha. Quem faz uma panela faz logo um testo para ela. Só não casa quem não quer.
-Assim será, não digo que não; mas sempre ouvi dizer que
casamento e mortalha no céu se talha, e tenho cá na minha que há criaturas para quem Deus Nosso Senhor não talhou nem uma coisa nem outra. Eu sou dessas. E vocemecê é casada?
- Eu, não, senhor. Nunca encontrei forma do meu pé, e preferi ficar
solteira a casar com um diabo que vivesse do meu trabalho,      e ainda por cima me enchesse a barriga de estoiros», entenda-se, braulhos de fome. p. 212.

Desejaríamos destacar esta sábia introdução na pacata vida alentejana e de educação cristã, do discurso de Aristófanes, no Banquete de Platão, no qual se descreve uma origem não separada do homem e da mulher, que reflecte uma milenária crença, presente em tradições de diversos povos, na existência das almas gémeas, e que no séc. XX, entre outros Sâr Peladan (1858-1918) e Bô Yin Râ (1876-1943) desenvolveram bem.

Se ele acreditava mesmo ou não, desconhecemos embora se tenha casado com a D. Maria da Luz, por amor mas por pouco tempo, já que no De Bom Humor, bastante recheado de aspectos biográficos, como aliás a generalidade das suas obras, diz-nos: «Não tenho filho nem filha. A santa, que foi minha esposa, morreu aos dez meses de casada, deixando-me um anjinho que lhe sobreviveu de pouca semanas. Não tornei a casar.» . Se conseguiram vivenciar a reunião das duas partes separadas, ou pelo menos uma fusão profunda de corpos e almas e em sintonia com a Divindade, fica em aberto, e até mais em desafio para nós tentarmos alcançar tal nível no nosso desejo do supremo bem que é o Amor, fogo divino em nós que devemos verdadeiramente vivenciar na Terra para não sairmos dela frios e pouco despertos ou completos, mas antes purificados na fornalha do amor e reunidos, unificados...

 Mas que Manuel Brito Camacho deve ter sofrido muito não há dúvida, ainda que na continuação desse extracto do capítulo As crianças, depois de afirmar o seu desinteresse pessoal sobre o ensino e educação as crianças, por não ter descendentes, reafirma com valioso e exemplar amor, já tão raro nos nossos dias de perda da fraternidade nacional:«Mas o nosso país é a nossa grande família; os nossos concidadãos, sem que o diga a voz do sangue, são nossos parentes próximos: o que para eles é um bem ou um mal, considerados como elementos da colectividade, não pode ser-nos indiferente».

Noutras obras de Manuel Brito Camacho observamos afloramentos valiosos da sua sensibilidade ao amor, e até aos mundos subtis das almas, e talvez venhamos dedicar a este excelente escritor outro artigo. E muita luz e amor para ele, onde quer e como esteja. Aum!

Sem comentários: