terça-feira, 20 de setembro de 2022

Soares dos Passos: o "Noivado do Sepulcro", lido e comentado por Pedro Teixeira da Mota. Com o elogio por Antero de Quental.

Este poema, o Noivado do Sepulcro, foi um dos que, em jovem de 12 ou 13 anos, me impressionou suficientemente para ficar como um mito poético dentro de mim para sempre. Passadas algumas décadas, há dias, li-o de novo pela 1ª vez e gravei tal leitura, brevemente comentando-a, e poderá ouvi-la na ligação ao Youtube. Destacarei agora só a beleza perene, goticizante ou ultra-romântica, com que o poeta portuense Soares dos Passos  cria um ambiente inicial de culto da grande paz entre a noite e a morte, num silencioso cemitério à meia noite e sob os eflúvios da lua e do piar dos mochos, e  justifica-o animicamente e ritmiza-o com a antítese da vida instável com os seus vaivéns da sorte e a paz tranquila de quem ali descansa, se não for movido pelo Amor todo poderoso, que Dante com Beatriz sentiu em si e entreviu na Anima Mundi ou no Cosmos divino...

 Contudo, alguém admitido no seio do mundo das sombras, parece estar sofrendo pois, depositado o seu corpo há três dias na tumba, ainda não foi a sua alma alentada com a visita da amada viva, pelo que fantasma se ergue, caminha e se lamenta, quase chorando, da fugacidade ilusória do amor e das suas promessas...      
Esta balada de encantar do amor que vence a morte, que ressoa os rimances populares antigos, foi glosada por muitos poetas, em sucessivas escolas e épocas, e mencionaremos como dos mais brilhantes Antero de Quental, e foi recriada por Soares dos Passos, um poeta que, tuberculoso desde novo, foi levado a sentir mais fortemente a tragédia dos amores que não se concretizam na terra e nos corpos, e compôs alguns poemas sobre a superação de tal dilaceramento, o mais notável sendo este. 
Certamente que os sonetos de Antero de Quental receberão bastante maior fortuna imortalizadora, sendo ainda hoje estudados nas escolas públicas. E contudo, Soares dos Passos, igualmente fino poeta amante da noite e da morte, e ainda do amor que se sente e deseja imortal, morrera ainda mais novo que Antero, com  33 anos apenas, qual outro Cristo, embora sem a vasta genialidade de Antero que ainda chegou aos 7x7, 49 anos, ultimando a sua obra poética e filosófica, e finalizando-a com o selo de mártir, insatisfeito no suicídio.
Soares dos Passos (27.XI.1826-1860) formara-se em Direito em Coimbra, era de uma família de liberais (versus absolutistas), e sentia fortemente os ideais do conhecimento, da liberdade, do amor da fraternidade, tudo como Antero de Quental, e colaborara em algumas publicações periódicas literárias, tais como o Bardo, a Grinalda, o Novo Trovador,  dando à luz em 1861 o seu único livro, Poesia. Três anos depois apenas,  a Parca cortou-lhe o fio de prata do corpo e enviou a sua alma ultra-sensível para o além, no qual ele acreditava e para o qual se preparara e onde chegou jovem mas,, certamente, luminosamente

Ora Antero de Quental, na sua genialidade e excentricidade tão real e activa como legendária e mítica, provavelmente consciente das sensibilidades e afinidades que os uniam, soube já no fim da sua vida, a uns meses de partir (Setembro de 1891), escrever um elogio bem merecido de Soares de Passos, em cuja obra perpassa claramente a fraternidade poética, romântica e até revolucionária, bem patente noutros poemas nos quais canta com a lira da justiça e do amor, a irmandade, a revolução, o novo mundo.

A carta onde encontramos manifestado o elo de amor dos dois poetas, plenos de sensibilidade, idealismo, é dirigida ao tradutor sueco Göran Bjorkmann, que lhe pedira informações sobre a literatura contemporânea portuguesa, e foi escrita em francês a 12 de Abril de 1891, da Rua da Fé, nº12, Lisboa. Dela  traduzimos este excerto: «Vou-lhe indicar os nomes e as obras mais notáveis. O poeta por excelência é João de Deus:os seus dois volumes intitulam-se Flores do Campo e Campos de Flores. Depois, vem Tomás Ribeiro, que conheceis: além D. Jaime, publicou vários volumes de versos, mas D. Jaime é sem dúvida o que fez de melhor. Depois vem Guerra Junqueiro: a sua obra Morte de D. João é muito desigual, mas é contudo bem notável, e, no meu sentir, superior à sua outra obra Velhice do Padre Eterno, onde imita muito Victor Hugo, no que Victor Hugo tem de pior. Um poeta encantador e original, morto muito recentemente e bem jovem, é Gonçalves Crespo: o seu volumezinho Miniaturas far-vos-á prazer, estou certo. Recomendo-vos também Soares dos Passos, cujo volume tem o título modesto de Poesias: o seu autor morreu, há 15 anos, mas o livro permanece popular, e ele merece-o.» Oiçamos então o poema por mim lido:

               

 
                O NOIVADO DO SEPULCRO

BALADA


Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia noite com vagar soou;
Que paz tranquila! dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.


Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma, semelhando um monge,
Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.


Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.


Ergueu-se, ergueu-se! com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.


Chegando perto uma cruz alçada,
Que entre os ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se, e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:


«Mulher formosa que adorei na vida,
«E que na tumba não cessei d'amar,
«Porque atraiçoas desleal, mentida,
«O amor eterno que te ouvi jurar?


«Amor! engano que na campa finda,
«Que a morte despe da ilusão falaz:
«Quem dentre os vivos se lembrará ainda
«Do pobre morto que na terra jaz?


«Abandonado neste chão repousa
«Há já três dias, e não vens aqui...
«Ai quão pesada me tem sido a lousa
«Sobre este peito que bateu por ti!


«Ai quão pesada me tem sido!» e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.


«Talvez que rindo dos protestos nossos,
«Gozes com outro d'infernal prazer;
«E o olvido, o olvido cobrirá meus ossos
«Na fria terra, sem vingança ter!


--«Oh nunca, nunca!» de saudade infinda
Responde um eco suspirando além...
«Oh nunca, nunca!» repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.


Cobrem-lhe as formas divinais, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela coroa de virgíneas rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.


«Não, não perdeste meu amor jurado:
«Vês este peito? reina a morte aqui...
«É já sem forças, ai de mim, gelado,
«Mas ainda pulsa com amor por ti.


«Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
«Da sepultura, sucumbindo à dor:
«Deixei a vida... que importava o mundo,
«O mundo em trevas sem a luz do amor?


«Saudosa ao longe vês no céu a lua?
--«Oh vejo, sim... recordação fatal!
--«Foi à luz dela que jurei ser tua,
«Durante a vida, e na mansão final.


«Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
«Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
«Quero o repouso do teu frio leito,
«Quero-te unido para sempre a mim!»


E ao som dos pios do cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrado, d'infeliz amor.


Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.


Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.»

Se o poema é de algum modo autobiográfico, e se eram almas gémeas ou apenas almas poderosas que, na sua atracção recíproca, mesmo já em corpos espirituais, até os corpos já falecidos moveram, só a alma imaginal de Soares dos Passos nos poderá dizer, mas aí está a balada, atravessando os séculos e ainda hoje comovendo os fiéis da Mors-Amor, tal como Antero de Quental em soneto ímpar imortalizou.
 
Muita Luz e Amor Divinos neles e suas amadas!

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