Vamos avançar com a 2ª parte da tradução do excelente prefácio de Shamsoddin Muhammad al-Shahrazuri al-Ishraqi, ou mais simplesmente Shahrazuri, de origem curda, filósofo místico do séc. XIII, ao livro do seu mestre Sohrawardi, o fundador da escola Ishraqi, seguindo a tradução para francês redigida por Henry Corbin, do Kitab hikmat al ishraq, o Livro da Sabedoria Oriental, dado à luz na editora Verdier, em 1986, selecionando contudo apenas as melhores partes, e com breves comentários.
No 1º artigo e parte, transcrevemos os cinco primeiros parágrafos, nos quais Shahrazuri, um profundo conhecedor da obra de Sohrawardi, já que publicou dois grandes comentários a ela, realça a necessidade de termos uma vida equilibrada, ética, para podermos chegar ao conhecimento das essências através de uma sabedoria íntima, resultante da visão interior das luzes (kashifya) e do discernimento dialéctico, a qual chegada a hora da morte é sabedoria e luz iluminadora ascensional do caminho para os mundos angélicos, espirituais, divinos.
Nos três parágrafos seguintes, 7º, 8º e 9º, Shahrazuri diferencia os conhecimentos técnicos instrumentais e institucionais mutáveis com o tempo, tal a gramática, a poesia e o direito, dos conhecimentos essenciais, os respeitantes à verdade e realidade, que são do domínio do imutável ou perene, tal Deus, os anjos, o espírito e considera portanto que são estes que levam à perfeição plena, al-kamâl al-haqîqî, ou à felicidade.
Avancemos então para o 10º parágrafo que começa assim, e sublinhamos o mais importante: «Por sua vez os conhecimentos essenciais subdividem-se em duas categorias: a 1ª, um saber que é dwawqiya, sapiência íntima [ou teosofia mística], e kashfiya, revelação interior; e a 2ª categoria, um saber hahthya, dialéctico racional e nazariya, intelectual. Pelo primeiro saber entende-se a visão directa das Ideias e Essências imateriais num face a face íntimo, não por reflexão dialéctica (fikr) nem pela construção de argumentos silogísticos (dalil qiyasi), ou estabelecendo uma notificação definidora ou descritiva, mas pela answar ishraqiyat, as Luzes orientais ou iluminantes, que se sucedem por intervalos [ou espaçadamente, segundo a merecida graça divina], extasiando a alma fora [ou acima] do corpo, enquanto a alma se elucida a si mesma como que em suspensão, contemplando a sua solitude (esseulement) e o que está acima dela, contemporânea [ou sentida nesse presente] da inâya, da pronoia divina [percepção subtil ou contemplativa da providência divina benfazeja em ação.]
Esta Sabedoria que é teosofia mística (hikma dhawqîya), pouco numerosos são os Sábios que a alcançam. Ela só foi dada aos que foram solitários (afrad) entre os mais eminentes dos teósofos (hakim, plural, hakma). Entre os quais os Antigos Sábios que precederam Aristóteles no tempo, tais Agathadaimon [o anjo bom, cultuado entre os gregos, tal Sócrates, e alexandrinos], Hermes, Empédocles, Pitágoras, Sócrates, Platão, e alguns outros ainda entre os Antigos sábios eminentes, a eminência dos quais prestam testemunho os diferentes povos. Se bem que a principal preocupação deles fossem os aspectos ou coisas da teosofia, eles não ignoraram a dialéctica racional. Longe disso, eles deixaram controvérsias, escritos, indicações, a partir dos quais o Imam [o mestre, o polo] da filosofia racional, Aristóteles, teve então a força de elaborar correcções e análises. É por isso que ele próprio, Aristóteles, declarou: «Quão se excederam em resolver as questões metafísicas os Antigos que filosofaram a filosofia do Verdadeiro, mesmo que enganando-se sobre algumas questões físicas.»
[Anote-se que a obra de al-Shahrazuri mais conhecida, embora também tenha escrito também de medicina, é Nuzhat al arwâḥ wa rawḍat al-afrâḥ, um dicionário bio-bibliográfico dos grandes filósofos e teólogos gregos e islâmicos, donde a sua familiaridade nas citações dos elos gregos da Prisca Teologia, ou Philosophia perennis, embora os mesmos elos tenham sido referidos por Sohrawardi.]
Entre os Sábios preeminentes, houve também alguns modernos, posteriores a Aristóteles. Contudo a sua Sabedoria Mística foi extremamente fraca, porque Aristóteles absorveu-os pela discussão e explicação, a refutação e a concessão, as interrogações e respostas, etc., entre outras coisa que impedem a realização duma experiência mística [crítica ao excesso de pensamento e análise discursiva que nos últimos tempos ainda mais se materializou nos estruturalismo, e que se torna um obstáculo à meditação contemplativa e mística interna]. Sobretudo, junto a isto, o amor da política, e por acima disso ainda as controvérsias que não deixaram de crescer e desenvolver-se, enquanto o conhecimento místico foi-se enfraquecendo, de decadência em decadência, até às proximidades imediatos da nossa época. Com o progresso do tempo e o decorrer dos séculos, desapareceram os traços do rasto dos Antigos sábios, o ensinamento deles para atingir a visão das Luzes imateriais puras, a fonte subtil donde derivava a sua doutrina respeitante à separação da alma - ou ao contrário a sua não-separação -, depois da ruína do corpo; as suas indicações apagaram-se, e o que subsistia foi completamente alterado.
O mal redobrando cada vez mais até a essa época muito próxima de nós [no século XII-XIII], aconteceu que um dos mais Aptos (musta'iddun), entre os que não se satisfazia só pela filosofia racional, decidiu atingir algo da Sabedoria essencial. A tentativa não foi fácil, pois tinha desaparecido o caminho que podia conduzir ao fim procurado. Sim, a via ou caminho da Sabedoria não cessara de ser obstruída e perturbada, até ao erguer das estrelas da felicidade, até aparecer no horizonte da alma a aurora da Sabedoria. Então, das alturas do mundo celeste, as Luzes das puras Essências iluminaram, com a aparição de nosso Mestre, sultão da realidade-essencial (Sultan al-haqiqat), que primeiro se empenhou no Caminho ou via, o Muzhir al-daqa'iq, o hierofante dos mistérios (ou o revelador das subtilezas), aquele que derrama profusamente as realidades essenciais (Fâ-id a-haqa'iq), mina da Sabedoria, Mestre da intenção espiritual (Sâhib al himmat), aquele que se empenhou em guiar para o Malakut (o reino espiritual) e se lançou sobre o sulco de Jabarut (o reino Divino), o mais eminente dos antigos e dos modernos, quinta-essência dos filósofos e dos sábios teósofos, Shihab al-Milla wa'l Haqq wa'l Din (estrela da religião, da verdade e da fé) Abu'l-Futuh al Sohravardi, que Deus santifique a sua alma e dê o repouso ao seu túmulo».
Continuaremos a traduzir (com a 3ª e última parte) e a comentar brevemente este tão belo quão instrutivo e espiritual testemunho de um discípulo do sultão da sabedoria, Sohrawardi. Que as luzes, sons e perfumes das sua almas e espíritos, com as bênçãos divinas, brotem do mausoléu dos seus ensinamentos, e irradiem paz, justiça, verdade no mundo conflituoso, e tão traiçoeiro e assassino por parte dos USA e Israel, dos nossos dias. Lux, Nûr.
