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domingo, 30 de novembro de 2025

Oligarquia e escândalos: de Georges Pompidou a Emmanuel Macron. O auge da corrupção no Estado francês. Por Laurent Brayard. Texto bilingue.

                                            
O notável jornalista Laure
nt Brayard publicou recentemente no  reseauinternational.net, e nos International reporters,  dois artigos valiosos sobre o grau extremo da corrupção na classe política francesa,  comparável ao da Ucrânia, como se está agora a revelar, mas que está presente em quase todos os governos ocidentais. Oiçamos então este corajoso jornalista de investigação acerca dos mecanismos manipuladores, circenses e fraudulentos em acção em França e por detrás de Emmanuel Macron, o arrogante avençado dos Rothschild e Klaus Schwab, e dos que mais odeiam a Rússia e a multipolaridade.
                                           
«Desde o final
dos anos 60, a República Francesa foi atingida por numerosos escândalos políticos, com uma aceleração notável a partir da presidência de Valéry Giscard d'Estaing, mas sobretudo nos dois septenários de François Mitterrand. Após uma ligeira queda nos dois mandatos de Jacques Chirac, eles voltaram a subir para bater recordes nos atuais mandatos de Emmanuel Macron.
Noutro artigo que
escrevi [La corruption endémique des élites européistes, en France et dans l’UE] sobre este tema, mostrei que a explosão é notável sobretudo desde a chegada ao poder do atual presidente Macron, um nível de corrupção que a França não conhecera nem nas horas sombrias [ou tão corruptas] da presidência Mitterrand. O cursor da corrupção está, infelizmente, no seu auge e levanta questões legítimas.

Uma corrupção transversal que atinge desde o mais alto nível do Estado, até as administrações das regiões, departamentos e prefeituras. 

Desde 1969, foram 205 escândalos políticos no total, mas o número real é muito maior, pois esta lista inclui apenas os que envolvem presidentes, ministros, senadores ou deputados. Outros, como os que afetam instituições francesas, deveriam ser adicionados a esta lista, como os que atingiram desde os anos 90 a Safer (Sociétés d'aménagement foncier et d'établissement rural), ou ainda importantes associações ligadas ao Estado francês e cujas causas foram ou são financiadas com dinheiro público (por serem reconhecidas de utilidade pública). Um dos exemplos mais tristes foi o da Fundação para a Pesquisa sobre o Câncer (ARC), que fez manchetes com seu presidente, Crozemarie, que desviou mais de 20 milhões de francos e estava envolvido em múltiplas fraudes. A nível regional, depoimentos que colectei no passado, especialmente em torno da Previdência Social, também mostram uma corrupção generalizada em certas administrações francesas. As práticas são frequentemente aquelas que giram em torno de privilégios durante as licitações públicas, que na realidade são tendenciosas, com contratos lucrativos sendo posteriormente confiados a "amigos" próximos dos dirigentes, mediante serviços e propinas que deslizam por baixo da mesa. Um dos fatos mais graves que tive que relatar foi o roubo a uma startup de três jovens empreendedores, uma empresa de design gráfico, que foi afastada e desapropriada de seu projeto por altos funcionários da Prefeitura de Dijon, no início dos anos 2000, a respeito de um projeto cultural sobre o castelo de Dijon, uma pequena irmã da Bastilha que foi demolida no final do século XIX.

Uma sociedade doente que não tem um farol para guiá-la. 

A razão dessa corrupção endémica reside, acima de tudo, na própria fraqueza do poder político, que está diretamente envolvido. Os faróis não funcionam há muito tempo e, na ausência de exemplos vindos do mais alto nível do Estado, as práticas  democratizaram-se e espalharam-se  por todos os níveis do aparelho estatal e administrati
vo.
Os importa
ntes escândalos políticos que surgem nos meios de comunicação são, aliás, muitas vezes apenas "golpes" organizados por facções políticas adversas, em lutas onde a informação é usada como arma. Sem isso, aliás, seria difícil ter acesso aos principais escândalos. Mas os casos, mesmo expostos e revelados ao público em geral, muitas vezes afundam-se em procedimentos judiciais intermináveis. Eles nem sempre levam a condenações justas e, portanto, também são objeto de novos escândalos. Porque a vontade dos políticos não é punir as más práticas, mas sim, numa república eleitoralista, provocar constrangimentos, ver a derrota de um candidato adversário, derrubar um governo, ou simplesmente vingar-se de inimigos políticos. Esta é a recompensa de uma "democracia" que, por sua vez, levanta questões. É normal, de fato, que esses diferentes escândalos sejam, na realidade, apenas armas políticas, de vingança política e de acertos de contas? Obviamente não. Estranhamente, a opinião pública parece se conformar-se com a situação, pois do ponto de vista mediático, existe um efeito de "show" [que tanto é amplificado pelos comentadores televisivos alienantes e estupidificantes.]

A política espectáculo, uma consequência da era da "mídia fast food da imagem". 

 Desde o aparecimento da imprensa e a lei de 1790, as lutas políticas  expressaram-se sempre por meio da difusão mediática. Inicialmente reservada a uma elite capaz de ler e escrever, ou seja, cerca de 20% da população da época, a alfabetização em massa dos cidadãos franceses, por meio das políticas de instrução pública, das escolas da Terceira República, com os famosos "Hussardos Negros", as lutas políticas se espalharam-se massivamente na sociedade francesa, com o surgimento das rotativas tipográficas e os avanços técnicos na esteira da Revolução Industrial. Desde então, a imprensa percorreu um longo caminho, com a propaganda de massa invadindo-a desde o início do século XX, e depois com a chegada de novas revoluções tecnológicas: o rádio, a televisão, a internet e o digital. De fato, a mídia tornou-se um poderoso instrumento de poder, muito rapidamente cortejada pelos poderosos, e depois até mesmo colocada sob controle estatal, criada pelo Estado, ou mesmo comprada por famílias oligárquicas ou grandes grupos financeiros.
É a razão de uma queda vertiginosa da l
iberdade de imprensa e de expressão, sendo os desafios maiores, especialmente num sistema eleitoral universal. Para "divertir o povo", a política precisa encenar-se a si mesma e, às vezes, dar exemplos, desejados ou não. As populações, é necessário dizer, são ávidas por esse espetáculo, onde personalidades de primeira linha são dilaceradas em episódios tragicómicos. É uma forma de manter uma válvula de segurança para o sistema republicano francês, entregando alguns políticos como bode expiatório. Segundo o próprio poder, seria até mesmo a "expressão da democracia", a sua realidade, um padrão tranquilizador para a opinião pública, imaginando que essas revelações também induzem à proteção e à luta contra as corrupções, quaisquer que sejam.
Com o tempo, e o desaparecimento de uma política benevolente e próxima das populações, o percurso do sistema francês afundou-se cada vez mais profundamente em más práticas, cinismos, mentiras e manipulações. É um jogo onde as asas de personagens que pareciam honestos às vezes se queimaram, com o exemplo de Beregovoy e sua morte mais do que suspeita permanecendo um dos mais marcantes. O escândalo político tornou-se, portanto, ao mesmo tempo um instrumento de governação, parte integrante dos bastidores do Estado, dos ministérios e até mesmo das oficinas mais modestas, das administrações, das regiões ou dos municípios. É também, sobretudo, a expressão mais sinistra do desvio das instituições, das fraudes e de uma degradação muito nítida da República Francesa, até no seu templo e essência. As moedas ou divisas tornam-se então obsoletas, a Liberdade é ameaçada, a Igualdade é substituída por uma república comunitária e de elites endogamicas. Quanto à Fraternidade, ela está abandonada na rua e até mesmo espezinhada. Os últimos vernizes republicanos só se sustentam por palavras, que se tornaram vazias de sentido. Quem poderá afirmar que hoje esta república será um exemplo para o mundo inteiro, a exemplo do que foi tão repetido ou matraqueado a respeito da Grande Revolução de 1789, mostrada como o acontecimento que conduziu o Povo francês "à felicidade suprema", como tendo chegado ao porto?

 Depuis la fin des années 60, la République française a été frappée de nombreux scandales politiques avec une accélération notable à partir de la présidence de Valéry Giscard d’Estaing, mais surtout des deux septennats de François Mitterrand. Après une légère baisse sous les deux mandats de Jacques Chirac, ils sont repartis à la hausse pour battre des records sous les mandats actuels d’Emmanuel Macron. Dans un autre article que j’avais rédigé sur cette thématique, l’explosion est même notable depuis l’arrivée au pouvoir du président actuel, un niveau de corruption que la France n’avait pas même connue dans les heures sombres de la présidence Mitterrand. Le curseur de corruption est hélas à son paroxysme et il pose de légitimes questions.

Une corruption transversale touchant le plus haut niveau de l’État, jusqu’aux administrations des régions, des départements et des mairies.  

Depuis 1969, c’est un total de 205 scandales politiques, mais leur nombre est beaucoup plus important en réalité, car cette liste ne concerne que ceux touchant des présidents, des ministres, des sénateurs ou des députés. D’autres comme ceux touchant des institutions françaises devraient être ajoutés à cette liste, comme ceux ayant frappé depuis les années 90, la Safer. (Sociétés d’aménagement foncier et d’établissement rural), ou encore d’importantes associations liées à l’État français et dont les causes ont été ou sont financées par de l’argent public (car reconnues d’utilité publique). L’un des plus tristes exemples fut celui de la Fondation pour la recherche sur le cancer (ARC), qui défraya la chronique avec son président, Crozemarie qui détourna plus de 20 millions de francs et trempait dans des magouilles multiples. Au niveau régional, des témoignages que j’ai relevé dans le passé, notamment autour de la Sécurité Sociale, montrent également une corruption généralisée dans certaines administrations françaises. Les pratiques sont souvent celles tournant autour des passe-droits durant les appels d’offres publics, qui en réalité sont biaisés, de juteux contrats étant ensuite confiés à des «amis» proches des dirigeants, moyennant des services et des enveloppes qui se glissent sous la table. L’un des faits les plus graves que j’ai eu à relever, fut le vol à une startup de trois jeunes entrepreneurs, une entreprise de graphisme, qui fut écartée et dépossédée de son projet, par de hauts fonctionnaires de la Mairie de Dijon, au tout début des années 2000, à propos d’un projet culturel sur le château de Dijon, une petite sœur de la Bastille qui fut rasée à la fin du XIXe siècle.

         Une société malade qui n’a pas de phare pour la guider.  

La raison de cette corruption endémique est avant tout dans la faiblesse justement du pouvoir politique, lui-même impliqué au premier chef. Les phares ne fonctionnent plus depuis longtemps et faute d’exemples venus du plus haut niveau de l’État, les pratiques se sont démocratisées et répandues à tous les niveaux de l’appareil d’État et administratif. Les importants scandales politiques qui font surface dans les médias, ne sont d’ailleurs souvent que des « coups » organisés par des franges politiques adverses, dans des luttes où l’information est utilisée comme une arme. Sans cela, il serait d’ailleurs difficile d’avoir accès aux principaux scandales. Mais les affaires, même sorties et révélées au grand public, sombrent ensuite souvent dans des procédures judiciaires interminables. Elles ne mènent pas toujours à de justes condamnations et font alors également l’objet de nouveaux scandales. Car la volonté des politiques n’est pas de punir les mauvaises pratiques, mais plutôt, dans une république électoraliste, de provoquer des gênes, voir la défaite d’un candidat adverse, de faire chuter un gouvernement, ou tout simplement de se venger d’ennemis politiques. C’est ici la rançon d’une «démocratie» qui pose des questionnements à son tour. Est-ce normal en effet que ces différents scandales ne soient en réalité que des armes politiques, de vendetta politique et de règlements de compte ? Évidemment non. Étrangement, l’opinion publique semble s’arranger de la situation, car du point de vue médiatique, il existe un effet de «show».

La politique spectacle, une conséquence de l’ère des médias fast food de l’image.  

Depuis l’émergence de la presse et la loi de 1790, les combats politiques se sont toujours exprimés par le biais de la diffusion médiatique. Au départ réservée à une élite en capacité de lire et écrire, soit environ 20 % de la population de cette époque, l’alphabétisation massive des citoyens français, via les politiques de l’instruction publique, des écoles de la IIIe république, avec les fameux «Hussards Noirs», les combats politiques se sont massivement répandus dans la société française, avec l’apparition des rotatives et de progrès techniques dans le sillage de la Révolution industrielle. Depuis, la presse a fait du chemin, avec la propagande de masse qui s’invita dès le début du XXe siècle, puis avec l’arrivée de nouvelles révolutions technologiques : la radio, la télévision, internet et le numérique. De fait, les médias sont devenus un puissant instrument de pouvoir, très vite courtisés par les puissants, puis même placés sous des contrôles étatiques, créés par l’État, ou même achetés par des familles oligarchiques ou de grands groupes financiers. C’est la raison d’une chute vertigineuse de la liberté de la presse et d’expression, les enjeux étant majeurs, notamment dans un système électoral universel. Pour «amuser le peuple», la politique a elle-même besoin de se mettre en scène et parfois de faire des exemples, voulus ou non. Les populations, il faut le dire, sont friandes de ce spectacle, où des personnalités de premier plan sont lacérées dans des épisodes tragi-comiques. C’est une façon de garder une soupape de sécurité pour le système républicain français, en livrant en pâture quelques politiciens. Selon le pouvoir lui-même, il s’agirait même de «l’expression de la démocratie», de sa réalité, un standard rassurant pour l’opinion publique, s’imaginant que ces révélations induisent aussi une protection et une lutte contre les corruptions, quelles qu’elles soient.
Avec le temps, et la dispa
rition d’une politique bienveillante et proche des populations, le cheminement du système français s’est enfoncé de plus en plus profondément dans les mauvaises pratiques, les cynismes, les mensonges et les manipulations. C’est un jeu où se sont parfois brûlés les ailes des personnages qui paraissaient honnêtes, l’exemple de Beregovoy et sa mort plus que suspecte restant l’un des plus frappants. Le scandale politique est donc devenu à la fois un instrument de gouvernance, partie intégrante des coulisses de l’État, des ministères et jusque dans les officines les plus modestes, des administrations, des régions ou des municipalités. C’est aussi surtout l’expression la plus sinistre du dévoiement des institutions, des tromperies et d’une dégradation très nette de la République Française, jusque dans son temple et son essence. Les devises deviennent alors désuètes, la Liberté étant menacée, l’Égalité remplacée par une république communautaire et d’élites endogames. Quant à la Fraternité, elle est abandonnée sur le pavé et même foulée au pied. Les derniers vernis républicains ne tiennent plus que par des mots, devenus vide de sens. Qui pourrait affirmer qu’aujourd’hui cette république serait un exemple pour le monde entier, à l’instar de ce qui fut martelé à propos de la Grande Révolution de 1789, montrée comme l’événement conduisant le Peuple français "au bonheur ultime", comme se trouvant arrivé  au port?»
                         

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Aleksandr Dugin: "O que se está a passar de errado com o Ocidente?" Satanismo? 1ª p. Tradução, com breve introdução de Pedro Teixeira da Mota.

De Bô Yin Râ...

Se o Satanismo reentrou no vocabulário corrente do séc. XXI isso não significa que desvendações dos enigmas respeitantes a Satan tenham ocorrido, mas apenas que o seu culto foi assumido por pessoas e grupos, em especial nos USA, ou que a sua presença ou influência foi diagnosticada ou discernida neles, embora muito permaneça secreto ou então seja do foro subjectivo e portanto incomprovável e inimputável objectivamente.
Com efeito quem foi ou é Satan, ou Lucífer, ou o Diabo, mensageiro ou espírito celestial revelado na Bíblia e que foi adquirindo diferentes significados ao longo dos tempos e nas três Religiões do Livro, com raízes nas que as precederam, continua a ser um mistério e poucos dos crentes na sua existência verdadeiramente o terão entendido, e mesmo entre os teólogos e filósofos muitas dúvidas e diferenças subsistem. Algo disso partilhei para este blogue num texto de há sete anos: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2016/10/tarot-xv-o-diabo-imagens-arquetipas.html
Também herméticos, gnósticos, ocultistas e esoteristas tentaram discernir quem seria esse espírito celestial revoltado ou caído, quem seria esse opositor de Deus, para alguns sendo mesmo o princípio do mal eterno. Mas também se questionou quem o acompanha, onde se encontra, quem consegue ele controlar, como o reconhecer e vencer. Anote-se  que vários deles, instrutores e grupos, estavam mais ou menos enrolados em malhas diabólicas.
Já Satan como personificação do mal, da oposição a Deu, ou às qualidades divinas, como a Verdade, a Justiça e o Amor, esse é reconhecido e compreendido por muita gente e a famosa expressão de Jesus, vade retro Satanas, "afasta-te de mim, não nos tentes, Satanaz", é bem conhecida e volta e meia exclamada quando alguém nos impressiona por estar a servir de agente de tentação para o mal, seja a mentira, a crítica malévola, o roubo, a corrupção, a violência, a crueldade, a recusa do bem e do amor, a ambição ou hubris, tal a da tentação da serpente no mítico paraíso, e que de facto sendo tão frequentes em algumas pessoas, instituições ou Estados, levam-nos a denominá-los de satânicos, de diabólicos.
Uma designação de satanismo que se tem afirmado, resultando da observação e análise do que tem sido o seu comportamento e a mentalidade, e como tais defeitos se manifestam constantemente, é hoje bastante  aplicada ao violento e opressivo império Norte-Americano e seus coligados, e com razão. Ou mesmo à civilização Ocidental moderna, devido a diversos factores, entre os quais se destacam a sua americanização, a constituição de uma União Europeia que não representa de modo algum os interesses dos europeus comuns mas apenas os da elite política corrompida e que muito se tem esforçado pela desagregação moral, ética, religiosa, espiritual e tradicional da Europa.
Como não li o text
o de Dugin antes de escrever esta contextualização prefacial, creio que estes e outros aspectos serão bem abordados e clarificados pelo tão lúcido quão corajoso filósofo Alexandre Dugin, pai da malograda filósofa e mártir da Liberdade e do Conhecimento, Darya Dugin Platonova. Muita luz e amor na sua alma!
                             
«Este texto foi publicado no númer
o 8 da versão impressa da revista Kultura, em 31 de agosto de 2023, sob a temática: O que se está a passar de errado com o Ocidente? [E sob a epígrafe: Satanismo é antepor a matéria ao espírito...]
O nosso entrevistado é o filós
ofo, cientista político e sociólogo russo Aleksandr Gelievich Dugin, professor na Universidade Estatal Lomonossov de Moscovo. [Eis a primeira pergunta que Peter Vlasov lhe dirige:]
-
Aleksandr Dugin, é cada vez mais frequente ouvirmos os líderes do nosso país definirem a civilização ocidental moderna com a palavra "satanismo". Como entende isto e o que pensa de tal?

- O presidente [Vladimir Putin] declarou que o Ocidente é uma "civilização satânica" no discurso que proferiu aquando da admissão de novos membros no seio da Federação Russa. Devemos tomar isto a sério e tentar compreender o que se esconde por detrás desta declaração, tanto mais que foi depois repetida por numerosas personalidade políticas e públicas importantes. Parece-me tratar-se de uma afirmação muito séria e profunda.
Após o início da Operação Militar Especial, começámos a aperceber-nos cada vez mais claramente de que algo estava errado no Ocidente. A civilização ocidental moderna ou se desviou do caminho que estava a seguir quando a aceitámos, acolhemos, imitámos ou, o que é ainda mais provável, algo está errado há muito tempo. Uma civilização que admiramos, na qual nos procurámos integrar, cujos valores e regras partilhamos e  que abraçamos com toda a nossa alma, pode-se revelar subitamente satânica?
Paralelamente, vemos a questão dos valores ser posta a diferentes níveis no nosso Estado. Começamos a repetir: estamos a defender os nossos valores. Há um ano, o Presidente adoptou um decreto sobre a defesa dos valores tradicionais, entre os quais a superioridade do espírito sobre a matéria. Isto é absolutamente espantoso! Os valores tradicionais da Rússia são reconhecidos como sendo, se quisermos, o idealismo, a religiosidade, o domínio do espírito. E, evidentemente, se começamos a ver-nos - não ainda com confiança, mas cada vez mais - como portadores de valores tradicionais, é precisamente face a esses valores tradicionais, que estamos  a descobrir em nós próprios, que começamos a compreender, a apreender e a defender.
Face a estes valores, é evidente que os valores ocidentais assemelham
-se a puro e simples satanismo, sendo todos o contrário dos nossos. Baseiam-se na ideia de que a matéria é primordial em relação ao espírito, que o homem é apenas um ser bio-social e que é um reflexo cognitivo do mundo exterior. O Ocidente vê o homem como um animal evoluído que chegou à sua fase final, para passar  a iniciativa a uma espécie pós-humana, às construções transhumanistas, a ciborgues, à inteligência artificial. E a preparação, o aquecimento, é a política de género, em que mudamos de sexo de acordo com os nossos desejos - ou mesmo conforme os caprichos - e brevemente da espécie, em que escolhemos pertencer ao sexo masculino, a uma categoria de máquinas ou a uma espécie animal, algo que tem sido objeto de discussões sérias ao mais alto nível das personalidades ocidentais.
Tendo descoberto que o Ocidente é monstruoso e que se está a separar da espécie humana diante dos nossos olhos, a Rússia distanciou-se dele. Um problema local, o conflito com a Ucrânia, levou-nos subitamente a conclusões fundamentais: o Ocidente está no caminho errado, arrasta a humanidade para o abismo e temos de o enfrentar. Este é o dado novo mais importante, algo de absolutamente incrível, porque até agora tínhamos-nos limitado modestamente à luta pela soberania.
E
é aqui que o conceito de "satanismo" adquire pela primeira vez um significado muito sério. Não se trata apenas de um movimento oculto marginal, pois o satanismo existe no Ocidente, há a Igreja de Satã de Anton LaVey, há até o satanismo direto da escritora ultra-capitalista Ayn Rand (Alice Rosenbaum) - que era aliás popular entre os oligarcas russos e os liberais nos anos 1990. Mas, no conjunto trata-se de fenómenos marginais, seitas ocultistas e produções teatrais. Pelo "satanismo da civilização ocidental", Vladimir Putin queria dizer outra coisa, algo muito mais profundo. O satanismo é o primado da matéria sobre o espírito, o relativismo pós-moderno, ou seja, a relatividade de todos os valores, incluindo os do ser humano e do espírito. E este é o caminho que o Ocidente tomou de empréstimo, não ontem, mas há cerca de 500 anos, com o início da Nova Era.
Quem é Satanás? Não há Satanás quando não há Deus, nem fé, nem religião. Este termo permanece vazio, se para nós os termos "Deus", "fé", "eternidade", "imortalidade", "ressurreição dos mortos", "juízo final", "salvação da alma"... são igualmente vazios [embora tenham bastantes leituras segundo os níveis de interpretação que usarmos]. Se seguirmos a imagem científica ocidental moderna do mundo, é evidentemente ridículo falar de satanismo, porque não há Deus, nem  diabo, nem fé, nem alma imortal, nem vida pós-mortal, mas apenas uma flutuação de unidades biológicas, de átomos, que se colam uns aos outros, se separam e depois desaparecem no abismo do espaço negro e morto. É mais ou menos esta a imagem do mundo que se impôs no Ocidente há 500 anos, e que é geralmente designada por "imagem científica do mundo". Foi acompanhada por uma descristianização progressiva e completa da cultura ocidental. Assim, Satanás, enquanto fenómeno, desapareceu da "representação científica do mundo" ao mesmo tempo que Deus. Quando afirmamos seriamente que a civilização ocidental é satânica, chamamos a atenção para o facto de que essa [representação] é uma conclusão precipitada, incorrecta, prematura e, de facto, profundamente errada. Distanciamo-nos erradamente da tradição, do espírito, de Deus, da religião, e foi aí que começou a era moderna da Europa Ocidental. Observámo-lo sem qualquer pensamento crítico desde o século XVIII, quando fomos arrastados pelo Iluminismo europeu. Mas até 1917, mantivemos de alguma forma o carácter religioso da nossa sociedade. Depois mergulhámos no abismo do materialismo e, após o colapso da URSS, descemos ainda mais fundo nesse abismo - para um materialismo capitalista liberal ainda mais desenfreado e flagrante.
E acabámos por nos encontrar na periferia da civilização satânica ocidental, enquanto sua província.
Por outras palavras, o conceito de Satanás, assume hoje, no contexto da guerra contra o Ocidente, um significado completamente diferente na nossa sociedade do que o conceito de Deus. Se existe Deus, se existe a fé e a Igreja, a Tradição e os valores tradicionais, isso significa que existe também a antítese de Deus, aquele que se rebelou contra Deus. É então que a história do Ocidente, a história do chamado progresso, a era da modernidade dos últimos 500 anos, é colocada sob uma luz completamente nova. Verifica-se que o Ocidente rejeitou Deus, e disse: - "não há Deus nem diabo", e o Diabo, após algum tempo, como que objectou: - "não há Deus, mas sou eu, porque fui eu que vos disse que não havia Deus".
                                     
- Aquilo a que chamais satanismo
 pode ser considerado como uma construção ideológica, ou trata-se simplesmente dum princípio de negação, de destruição?

- Não devemos começar com o satanismo mas por Satã, pela figura que chamamos por esse nome, pois se formos crentes, é um facto ontológico para nós. Para os não crentes, o satanismo não faz sentido.
Quem é Satanás, quem é Lúcifer? Ele é um anjo, um espírito celeste eterno. É a primeira criação suprema de Deus que se rebelou contra Deus. É a origem de todos os ataques a Deus, do materialismo, do ateísmo, de todas as noções segundo as quais as pessoas sem Deus podem construir um mundo melhor. Encontramos este princípio no humanismo [não cristão, ou materialista], no desenvolvimento da ciência moderna e na doutrina social do progresso. Satanás não é apenas destruição ou entropia, mas uma vontade consciente de destruir. É a rebelião, a destruição da unidade em nome do triunfo da 
multiplicidade.
Não é a
penas um enfraquecimento da ordem divina, é a vontade de a partir. Quando o corpo está enfraquecido, é uma coisa, mas quando há uma força, como o cancro ou outra doença natural, que puxa o corpo para a decomposição, é outra. Satanás é o espírito ou vontade de se decompor, e não apenas a decomposição em si, que  é já uma consequência dele. De certa forma, é uma crença, uma religião, uma anti-igreja. É a "igreja negra" encarnada na cultura ocidental moderna, na ciência, na educação e na política.
Vemos aqui não só a decadência, mas também a recusa de construir a ordem,
a hierarquia, de elevar os princípios da ciência, do espírito, do pensamento, da cultura à mais alta unidade, como na civilização tradicional, no início da hierarquia - porque a hierarquia terrestre imita a hierarquia angélica. A esta recusa de fazer o bem junta-se o desejo de fazer o contrário, de fazer o mal. Quando se olha para os ucranianos, Biden, Soros, Macron, vê-se um desejo de destruição activo e agressivo.
O satanismo p
ressupõe necessariamente uma estratégia consciente e uma impulsão voluntária as quais geram um movimento poderoso nas massas humanas. As massas podem destruir a cultura tradicional pela sua estupidez, a sua passividade, a sua inércia - é  propriedade da massa enquanto tal, mas alguém empurra esta massa numa direção destrutiva, alguém a dirige, a orienta. É aqui que entra o princípio do sujeito oposto a Deus (assim que  ao homem no seu sentido mais elevado). Encontramo-lo em todas as religiões: é a vontade consciente do sujeito de construir uma civilização anti-Deus, invertida. Não se trata apenas de destruir o que existe, mas de criar algo desagradável, algo perverso, como as mulheres barbudas LGBT do Ocidente.
-  Há nisso uma imagem do futuro?
-
René Guénon, filósofo e defensor de uma sociedade espiritual tradicional, chamou-lhe a Grande Paródia. É a isto que conduz a civilização satânica. Se, no primeiro estágio do materialismo, o objetivo era negar toda a espiritualidade, ou seja, afirmar que não há espírito, mas apenas a matéria, o homem, o mundo terreno, progressivamente, à medida que esta grande Paródia toma forma, surge um novo projeto: não apenas a rejeição da Igreja, mas a construção de uma anti-Igreja, não apenas o esquecimento do espírito, mas a criação de uma nova espiritualidade invertida. Começamos por destruir a Igreja, comparamos tudo à terra, só resta o homem, mas depois começamos a construir um templo subterrâneo para baixo, na direção oposta, fazemos um buraco na matéria. O escritor francês Raymond Abellio [1907-1986] escreveu um romance chamado O Fosso da Babilónia, que trata da construção da civilização no sentido subterrâneo. Esta hierarquia invertida, este poder invertido, esta espiritualidade invertida, eis o que é o satanismo ocidental.
Tem-se a impressão de que até os vícios são invertidos. Não percebo absolutamente como é que alguém pode ser seduzido por tais coisas, pelos desvios que hoje fascinam o Ocidente.....
Ao contrário das virtudes, os vícios mudam, pois as virtudes são imutáveis e os vícios estão sempre a progredir. Para uma pessoa progressis
ta, a devassidão do "antigo Regime" deixa, a certa altura, de excitar e afetar. Quando uma pessoa para num certo nível de vício, quando se imobiliza, já não parece um vício. O vício é uma decomposição progressiva, e a decomposição não tem limites, não se pode decompor até um certo ponto e ficar lá. Um homem precisa de algo que o agarre e o arraste cada vez mais para baixo, a decomposição tem de ir cada vez mais longe.
A próp
ria história da depravação ocidental é uma história de progresso. Em cada etapa, novos vícios são descobertos,  a própria perversão torna-se a norma. Por exemplo, actualmente, a homossexualidade no Ocidente é reconhecida como norma, já não é um vício, pelo que temos de ir mais longe, em direção à pedofilia, ao incesto, ao canibalismo, à mudança de sexo.... Tudo isto é impulsionado pela legislação. O legislador ocidental apressa-se a reconhecer a decomposição, a legalizar o que ainda ontem era proibido e imoral....
Como esc
reveu Michel Foucault: a decomposição é a ultrapassagem da lei, a transgressão. Ora, no Ocidente não há mais lei, nem virtude, nem fronteira e, por conseguinte, não há mais vício, depois de legalizado. Se considerarmos o vício como uma convenção social, então não há vício de todo. Existe apenas um "alargamento da experiência", uma "libertação de preconceitos" - tais como a vergonha, a consciência, a moralidade, a virtude, a inocência, o auto-controle. Quando uma coisa deixa de ser considerada um vício ou um crime, torna-se desinteressante, pouco atractiva, e é preciso passar a outra coisa: mudar de sexo vinte vezes, confundir-se com os animais, ladrar, andar a quatro patas, exigir que as crianças que pensam que são gatos sejam alimentadas numa bandeja pelos professores na escola.
A decomposição não tem limites, e assim que a decomposição é legalizada e
la deixa de ser atrativa são então necessárias novas formas. O Marquês de Sade, um dos arautos da "civilização satânica" ocidental, dizia que o mais importante no vício é a inovação.»
Fim da 1ª parte. Continua...

De Bilibin...