sábado, 7 de fevereiro de 2026

Do valor dos livros sobre vidas religiosas ou espirituais. O P. Rafael Bluteau na aprovação à Vida de Soror Ignês de Jesus, do Convento da Anunciada em Lisboa

 Há quem ponha em causa escreverem-se vidas de santas e santos, místicas e místicos, religiosos ou leigos, ou estudá-las, considerando-as bafientas e ligadas a uma instituição que gerou a Inquisição, mas tais raciocínios são infundado e preconceituosos, pois as vidas de tais pessoas e os ensinamentos alcançados quanto ao caminho do auto-conhecimento e aperfeiçoamento e quanto aos mistérios religiosos e espirituais, merecem bem ser estudados, tanto mais que por vezes foram até perseguidos ou censurados por autoridades mais repressivas ou mesmo inquisitoriais, e mesmo assim ergueram as suas forças anímicas em insignes virtudes e abnegações, contemplações e escritos, aspirações e adorações.
                                            
Há por vezes certamente exageros
 em tais biografias e  aspectos que devem ser postos  em causa ou mesmo de parte, em geral devido a  dualismos grandes entre corpo e alma, o mundo profano e mundo religioso, ou então posições dogmáticas mais repressivas dos inovadores e reformistas, heréticos ou cismáticos.
Todavia, em simultâneo, quanto ensinamentos ou
 instruções na arte espiritual, quantos exemplos de virtudes e heroísmo, quanto dons naturais e sobrenaturais, quantas elevações amorosas, poéticas e do entendimento, quantos casos que nos impressionam, quantas orações ou palavras que ainda hoje nos inspiram.
                                    

Um dos sábios da Tradição Espiritual Portuguesa, hoje muito ignorado, o historiador, teólogo, linguista e académico, o Padre Mestre D. Rafael Bluteau (Londres, 4 de dezembro de 1638 – Lisboa, 14 de fevereiro de 1734) , o autor do monumental Vocabulário Português ainda hoje incontornável, numa das muitas aprovações de livros escritas enquanto censor do  Ordinário, publicadas nas folhas preliminares, à Vida de Soror Ignes de Jesusreligiosa conversa, escrita por Francisco de Sousa da Sylva Alcoforado Rebelo, e publicada em 1731, justificou bem a valia de tais livros, ao declarar: «No grande número de livros, que cada dia vão saindo das penas, e prelos da Cristandade, grande estima se deve fazer  dos que tratam das virtudes das pessoas de exemplar, e santa vida, porque com a lição deles se dá glória a Deus,s e honram os Santos, e se aprende a imitar o seu exemplo.» E depois de lembrar como na infância da Igreja, em Roma, havia os chamados Regionários que recolhiam os nomes e actos dos que se sacrificavam  pelo Divino redentor, acrescenta os nomes de Simão Metafrasta, Luigi Lippomano e Surio, que redigiram ou traduziram «com edificação e proveito espiritual dos católicos as vidas das pessoas devotas, pias e santas», realçando nesta trindade religiosa a devoção ou amor a Deus, a piedade ou compaixão e empatia com o próximo, e a santidade, como  o todo da vida justa, sóbria, abnegada, sábia, conclui que mesmo em Portugal já tinham sido dados à luz- os Actos dos Santos, ou os Agiológios portugueses, «em tantos e tão corpulentos volumes, que apenas lhes fica lugar nas estantes das maiores livrarias», o que já não era mesmo nada o caso do livrinho de bolso que aprovava, impresso na oficina de Maurício Vicente de Almeida, morador às Pedras Negras, em Lisboa.

                                              
Ao tributar em seg
uida um bom elogio aos que escrevem ou leem tais obras , ele apoia a ideia inicial e actual que questionámos, quanto a dever haver lugar não só para as leituras alienantes, superficiais ou manipuladas mas sobretudo para as que permitem fortificar animicamente os leitores ao contactarem com almas e vidas de pessoas que se destacaram pelas suas qualidades e virtudes, numa espiritualidade e certa santidade. Ou seja, é valioso escrever-se sobre vidas éticas e compassivas, heróicas e abnegadas, amorosa, gnósticas e místicas para que consigamos absorver ou assimilar nessas leituras inspiradores exemplos e ensinamentos, impulsos e energias,  que  tocando-nos nos tornam melhores, mais luminosas e aperfeiçoantes  nossas almas. 

Diz-nos então o autor das tão simbólicas e até esotéricas Prosas Portuguesas: «Neste mesmo Reino não só pessoas claustrais [retiradas nos claustros ou em clausura] e Religiosas, mas homens seculares, que nos negócios da vida civil, ou nos enredos da vida áulica [na corte ou paço real] sabem reservar horas sucessivas para contemplar na vida eterna[ que belo modo para caracterizar o tipo de inspiração que entra em acção], houve e há sujeitos que aparam as penas e apuram o estilo, para descobrir e fazer públicos tesouros de santidade, reconcentrados em clausuras e ocultos ao Mundo. Entre eles tem hoje grande lugar Francisco da Silva Alcoforado Rebelo, que a Vossa Senhoria [o rei] pede licença para dar à luz a vida, que ele compôs de Soror Ignês de Jesus, religiosa Conversa no Convento da Anunciada de Lisboa Ocidental. Na propriedade e elegância dos termos, e nas leis da Arte Histórica, pontualmente observadas nesta obra para a admiração dos leitores, deixo esta erudita suspensão, e para executar o que Vossa Senhora ordena, bastará que eu diga que o Autor me parece digno de licença...» 

Saibamos contemplar mais o espaço e o tempo supra-terreno, para não nos deixarmos manipular tanto pelos meios de desinformação escrita e visual que a todos quase controlam,  e em leituras sagradas, conversas e satsangas luminosas, escritas e livros de valor perene, nos encontremos, aperfeiçoemos e avancemos lúcida e criativamente, multipolar e divinamente. 

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