sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A busca do sentimento da presença divina em vida, por uma escalabitana, soror Ignes de Jesus.


Os mistérios da Divindade, do Cristianismo e da salvação ou iluminação da alma  tiveram ao longo dos séculos vários portugueses bem animados em conseguir alcançar alguma luz e partilhá-la em amor.

Sempre houve almas  que sentiram mais ardentemente a demanda do conhecimento dos mistérios da vida e da morte, da origem e do fim, e que se aplicaram aos estudos que podiam ter acesso, em geral e durante vários séculos apenas os do Cristianismo, que contudo tinha uma infinidade de autores, temas, linhas de força que os atraiam dentro da ideia força de que a seara é grande e os semeadores poucos. Estudos, orações, práticas e adesão a grupos, ordens, confrarias, irmandades, eremitérios, conventos, mosteiros predominaram.

Por seara entende-se o mundo, e os semeadores e segadores são os que deitam o cereal à terra ou alma humana, e ainda os que vêm interrogar as pessoas e pedir-lhes o arrependimento do que fizeram, seja em momentos da vida, seja à hora da morte.

Sempre houve os que sentiram com mais premência o drama da morte, o mistério da vida post-mortem e o sofrimento que as almas teriam de suportar no além; e outrora quase toda a gente acreditava não só no Purgatório mas sobretudo no Inferno, algo que hoje cada vez menos pessoas receiamam, pois a própria Igreja Católica riscou da existência geográfica subtil o Purgatório, e evita falar do Inferno. Quanto ao Paraíso, há ainda muitos crentes embora sem grande ideia do que ele possa ser, apesar de uma longa tradição de ilustres ou profundos escritores e teólogos que meditaram e especularam sobre tais estados e planos de vida mais gloriosos, havendo artisticamente belas imaginações ou representações
 Ora as ligações com a Divindade e os seus espíritos celestiais, bem como a existência do Purgatório e do Inferno como estados purgativos e  negativos das almas libertas do corpo físico, foram confirmadas pelas almas cristãs mais elevadas e sensíveis, em geral recolhidas nos conventos e mosteiros e que desenvolveram vidas abnegadas e  virtudes insignes sendo agraciadas com dons sobrenaturais de clarividência e clariaudiencia, recebendo sonhos, intuições, extases, estados de grande amor e unidade divina, e conseguindo até libertaram das trevas do purgatório almas por quem rezavam. 

Muitos místicos e místicas foram capazes de intuir certos mistérios da Divindade, ou das doutrinas ou passagens mais cadentes do cristianismo, e transmitiram por voz ou  escrito, quando as suas vidas foram biografadas, e a correspondência, poesia ou doutrina sua foram publicadas.
Sancta Caterina de Ricci ora pro nobis, ora cum nobis.

Vamos partilhar na busca da religação divina, do entendimento da Trindade e do Logos, e com o pano de fundo do Inferno e do Céu, da dispersão e da unificação, a carta de uma mística portuguesa, cuja aprovação pelo sábio teólogo Rafael Bluteau da sua biografia dada à luz em 1731 pelo historiador Francisco Alcoforado Rebelo, partilhamos há alguns dias no blogue.

Neste tempos do século XXI de grande decadência moral da elite, dos políticos e dos meios de comunicação social ocidentais, o que se estende fatalmente a quase toda a população, há que evitar a conspurcação ou desagregação que se gera em nós se ouvirmos ou vermos o que a sinistra direcção da União Europeia, ou dos USA, ou da NATO, ou dos regimes Kiev e de Telavive despejam ignobilmente, no seu ódio à Rússia, ao Irão, à multipolaridade e à verdade, a fim de sermos todos massas manipuladas, amilhazadas, controladas, exploradas. 
Sugestão musical:  https://www.youtube.com/watch?v=l9bZ3sN_hHk

Soror Ignes de Jesus nasceu em Santarém em 1641 e de família pobre ou remediada, pois não conseguiu juntar o dote para ser monja professa e de coro, e antes entrou como irmã conversa no Convento da Anunciada, da Ordem dos Pregadores, em Lisboa, resoluta em assumir todo e qualquer trabalho com grande ânimo, destacando-se ainda nos jejuns, penitências, limpezas, serviços. Muito dada à oração, não era contudo muito completa ou ortodoxa, pois quando rezava o Pai Nosso ou a Ave Maria, apenas recitava a 1ª petição ou frase de cada uma delas, Pai Nosso que estais no Céu, e Avé Maria, cheia de graça, e logo entrava num certo estado psíquico que a desviava de continuar a repetir mental e vocalmente e lhe permitia interiorizar-se e sentir mais o influxo divino. Seria mesmo só a 1ª petição, ou era toda a 1ª parte? Era porque a sua fé e ligação divina eram tão fortes que imediatamente a faziam sentir interiormente e intensamente a presença divina?

No sentido de harmonizar a sua aura e mente, para não perder a presença ou ligação a Deus, repetia ou exclamava frequentementalguns mantras ou jaculatórias que  eram um relembrar ou actualizar forte da sua identidade espiritual de filha de Deus e uma invocação ou exalação da presença divina, nela potencializada: 
«Alma, vai para teu Deus, Alma vai para o teu Senhor Jesus Cristo». «Meu Amado para mim, e eu para ele”, ou "Meu Amado para mim, e eu para o meu amado”.   “Ó Bondade infinita, ó Pai da minha alma”. Mas talvez a mais vivida das suas centelhas ígneas e que muitas vezes exclamava desafogando a sua abrasada alma pelo Amor divino era “Ay Amor, Amor, Amor!”, uma bela jaculatória para tentarmos invocar, repetir, sentir: Ai Amor, Ai Amor...

Viveu até aos 86 anos, pois a 29 de Abril de 1728, com quase sessenta e oito anos de religiosa, deixou a Terra certamente já desejosa de ver os mistérios da glória divina e tendo pouco antes de deixar o invólucro terreno explicado muito gnosticamente que "sentia a sua parte inferior muito fraca, mas que a superior estava unida", ou seja, unificada, ligada ao mestres ou seus santos (pois cultuava vários deles, através das novenas e festas), ao seu espírito, a Jesus Cristo e à Divindade.

Oiçamo-la numa carta já no fim da sua vida: «Muito reverente Padre presidente, e pai muito da minha Alma, a Divina graça assista sempre a vossa Paternidade com saúde e forças para encaminhar as almas. A minha ficou quarta-feira tão saudosa da sua doutrina, que, se houvera mais tempo para ouvir, perguntar e responder sobre aquela explicação de Vossa Paternidade acerca daquela palavra Verbo, sempre gerado naquele Divino Entendimento: oh pai da minha Alma, que considerações faz uma alma sobre isto! E que por esta união o Pai com o Verbo se está amando, e gozando, e que ambos produzem o Espírito Santo, e que desta produção participa a Alma por suas influências.
Aqui vê a Alma como Deus é todo para ela, e tendo este princípio na Divindade, vê como é também todo para ela na humanidade, considerando nas finezas, obras, amor. Oh como não é a Alma toda para tal Amante, sendo tão digno de ser amado, e correspondido! Aqui está o ponto, e vendo que pelo entendimento se comunica pela fé, e a vontade se inflama com desejos, as obras  não correspondem aos sentimentos, ainda sensitivos, na parte inferior, e deseja esconde-los no mais oculto, e fundo da Alma, para que aqui logre os efeitos mais puros. Mas como isto é só obra do Divino poder, pede só a graça para isto, ficando em sossego com actos de vontade só dizendo: Meu Amado para mim, e eu para meu Amado. Como toda passiva recebendo por fé, e fazendo entrega de si por vontade, e resignação, e sempre precedendo a lembrança, e o conhecimento dos pecados, pelos quais vivamente  conheço merecia o Inferno, se Deus me não sofrera. Entra aqui o temor se ainda com tantas finezas feitas por mim perderei aquele logro eterno, que é ao que aspira todo o fim da contemplação, e tomara andar sempre nesta presença: Eu estou em Deus, e Deus em mim. Mas facilmente me recolho com qualquer consideração. Outras vezes sucede  não ter noticias de alguma coisa, que divirta a imaginação. Em tudo desejara viver como morta, que isto acho que importa muito, e fugir de toda a comunicação: nisto faço o que posso, só de passagem por urbanidade. »
Nestes tempos de tanta comunicação desinformante, alienante, opressora, mentirosa, tanta, tanta, lembremo-nos da Soror Ignes de Jesus, tentando escapar à roda da vida em setecentos, mas mantendo uma urbanidade ou cordialidade que certamente a não frustrava humanamente e certamente diminuiria a agitação psíquica mundana em quem a contactava no seu caminho purgativo para a Luz...

 

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