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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Cosmismo Russo contra Transhumanismo. O Caminho Vertical. A tarefa comum multipolar e de sacralidade. Por Speculum Orientis. 10 de maio de 2026.

      Apresentamos uma reflexão muito lúcida sobre a situação actual e a profunda batalha ideológica mundial, vista pelo olhar de um discípulo do "cosmismo russo" e da "tradição perene" universal, e a partir do diagnóstico e das realizações de alguns filósofos da Tradição Perene, bem sintetizadas por ele,  que se apresenta no seu Substack, da Multipolar Press, como um «Pesquisador independente interessado nas forças ocultas e visíveis do nosso mundo, da geopolítica à metafísica e ao oculto.»

Sabemos ainda, como ele escreve, que é «um oriental, um tradicionalista de Direita que se mantém firmemente fora tanto do Sangue Eslavo quanto da Fé Ortodoxa», o que fará com que algumas pessoas possam não o apreciar tanto já que o eslavo e o ortodoxo são raízes e caminhos tradicionais valiosos, certamente com algumas limitações, como todos têm. Contudo, no texto, ele exalta as práticas ou realizações sagradas, transfigurativas e unitivas dos peregrinos e starets russos. 
 Ser-se de Direita ou de Esquerda também é ou pode ser uma certa limitação, embora seja também um quadro de referência de alguns aspectos ideológicos, especialmente para as identificações dos outros. Mas os conhecimentos que manifesta de René Guénon e de Henry Corbin,  assim como dos Cosmistas Russos, tal como o do algo excêntrico-futurista Fedorov, e sobretudo dos espirituais Soloviev, Florensky, Bulgakov, Berdiaev e Dugin são muito valiosos. Escrevi muitos artigos sobre eles neste blogue. Mas o investigador Speculum Orientis fez uma boa síntese de aspectos essenciais deles, nomeadamente pela sua qualidade de serem ensinamentos, ideias e realizações fundacionais para a realidade ou mundo interior e exterior melhor que aspiramos, seja qual for o nome que sentirmos ou lhe dermos.
Sublinhamos as passagens mais valiosas, e pode-se criticar ele expor às vezes de forma demasiado absoluta a decadência da civilização ocidentais com o domínio do transhumanismo oligárquico ou de elite negativas o qual é, na verdade, mais um infrahumanismo, e dá indicações para a sintonia vertical, ou seja para as conexões com a realidade, seres e reinos espirituais e o Divino, algo que em alguns aspectos também encontramos em russos como Nicholai Roerich e, Boris Abramov, com a sua Ética Viva e do Fogo (Agni) e outros.
                                                   
Cosmismo Russo contra Transumanismo. O Caminho Vertical. 
 10 de maio
Speculum Orientis
@speculumorientis
Pesquisador Independente interessado nas forças ocultas e visíveis do nosso mundo, desde a geopolítica até a metafísica e o ocultismo.
Speculum Orientis, sobre o Enquadramento de Heidegger, o colapso no plano horizontal e o caminho eurasiano rumo à transfiguração do cosmos.
     "A maior ilusão da mente moderna é acreditar no progresso indefinido, que é meramente uma dispersão de energia ao longo do plano horizontal."  Nikolai Fedorov [1829-1903]

      «Se o "progresso" horizontal dispersa a nossa energia, ainda podemos encontrar o caminho vertical de volta a nós mesmos?» Como um oriental, um tradicionalista de Direita que se mantém firmemente fora tanto do Sangue Eslavo quanto da Fé Ortodoxa, coloco esta questão não como um floreio retórico, mas com uma urgência genuína e crescente. Observo a exaustão espiritual do mundo ocidental com a clareza que a distância proporciona. O Ocidente mergulhou num abismo terminal de desespero metafísico e materialismo estéril. Estamos no meio das ruínas de uma época moribunda, sufocados por um niilismo abrangente no qual o significado foi engolido por um nada infinito e em expansão. O sintoma final e putrefacto dessa doença civilizacional é o Transumanismo Ocidental [Anote-se que na diabolizada Wikipedia Cosmismo e Transhumanismo são apresentados quase como sinónimos] Despojado de toda orientação transcendente, o transhumanista ocidental moderno busca uma momificação estéril e tecnológica de seu ego isolado—uma rebelião demoníaca que ousa chamar de evolução.
Paradoxalmente, os críticos mais incisivos dessa necro-tecnologia são os próprios grandes pensadores do Ocidente. Oswald Spengler diagnosticou a alma faustiana do Ocidente muito antes de o Sillicon Valley [norte-americano] prometer a imortalidade digital. A cultura outrora vital que ergueu catedrais góticas culminou num deserto mecanizado onde a vontade de poder se revoltou contra as suas próprias raízes orgânicas. Spengler via o homem moderno como ua animal de presa que se tornou um cativo atrás das barras de sua própria cultura artificial; a Máquina agora se revolta contra seu criador, forçando-o a seguir um curso desenfreado e destrutivo. O transumanismo é a mumificação final e trágica dessa cultura morta—uma tentativa estéril de preservar o ego atomizado dentro de uma gaiola de silício completamente desprovida do sopro da verdadeira vida espiritual. Martin Heidegger foi ainda mais fundo, diagnosticando o motor metafísico deste pesadelo como Gestell, ou Enquadramento. A tecnologia não é uma ferramenta neutra, mas um modo tirânico de revelação que reduz toda a criação a meros recursos disponíveis, Bestand [na linguagem de Heidegger]. O transhumanista que sonha em fazer upload de sua consciência s imagina-se um deus, mas está cego para o fato de que ele mesmo está sendo reduzido a matéria-prima. Na era do Enquadramento, o homem em toda parte encontra apenas a si mesmo, mas precisamente em nenhum lugar ele encontra a sua própria essência. Ao romper o último laço com o espiritual, o homem ocidental mergulha num vazio glacial onde o mistério sagrado do Ser é obliterado. O transumanismo não é uma ascensão à divindade; é a submissão definitiva ao mecânico.
René Guénon, no Egipto.
 Podemos entender essa condição trágica através da metafísica tradicional da cruz, conforme articulada pelo metafísico francês René Guénon. Neste simbolismo, o eixo vertical representa o caminho da transcendência metafísica—o impulso ascendente em direção ao Divino e ao mistério sagrado do Ser. O eixo horizontal representa o reino da manifestação contínua para fora e da expansão material. Enquanto as culturas tradicionais eram orientadas verticalmente, o mundo ocidental moderno colapsou inteiramente [não completamente, pois ainda há muitas pessoas despertas e trabalhando nele] no plano horizontal. O transumanismo representa o limite extremo dessa queda horizontal: um movimento desesperado e estéril através do tempo e do espaço que busca estender o ego indefinidamente sem nunca tocar a dimensão vertical do espírito. 

Henry Corbin, á esq., com C. G. Jungem Eranos.
Essa mesma intuição sobre o corpo espiritual encontra a sua articulação mais precisa no esoterismo islâmico estudado por Henry Corbin. Longe de ser um estado digital desincorporado, a verdadeira ressurreição envolve a realização de um corpo sutil e imaginal—o que Corbin, baseando-se em Suhrawardī, chamou de jism mithālī, um corpo pertencente ao mundo intermediário de Hurqalya, o mundus imaginalis, percebido não através da racionalização abstrata, mas através da Imaginação Activa [não apenas, mas também e especialmente pelo olho espiritual.]. Esta não é uma abstração fantasmagórica; é o caro spiritualis, corporeidade espiritual. E é precisamente esse tipo de corporeidade concreta e transfigurada que os Cosmistas Russos mais tarde colocaram no centro de sua Tarefa Comum. O sonho transhumanista de dados desincorporados é apenas uma imitação empobrecida e invertida deste verdadeiro corpo espiritual, cortado do eixo vertical que só pode ressuscitar a carne em vez de descartá-la.
A salvação deste pesadelo nunca surgirá do paradigma estéril que o produziu. Como um oriental que não é nem russo nem ortodoxo, devo olhar para outro lugar—para o crisol histórico e espiritual único do coração da Eurásia. O Cosmismo que pode nos curar não é a construção secular de foguetes da era soviética, mas uma profunda orientação espiritual forjada na imensidão da estepe. Como demonstrou o polímata Lev Gumilev [1912-1992], o destino das nações é impulsionado pela passionaridade, essa energia cósmica vital e vontade de auto-sacrifício que propulsiona um etnos à grandeza histórica. Enquanto a passionalidade do Ocidente atlanticista se afunda num crepúsculo decadente, a vitalidade da Eurásia continua a subir com um vigor incomparável. Gumilev argumentou, com notável perspicácia, que o período mongol foi uma bênção providencial que protegeu a espiritualidade ortodoxa de ser esmagada pelo Ocidente teutônico e católico. Este cadinho nutriu uma tradição radicalmente distinta do escolasticismo ocidental: o caminho místico e encarnado do Hesicasmo. Através da repetição ascética da Oração de Jesus, o adepto hesicasta prova que o corpo material não é uma prisão da qual se deve escapar através de máquinas transhumanistas, mas um vaso sagrado destinado à transfiguração divina.

São Serafim de Sarov
A Luz Incriada testemunhada por São Sérgio de Radonega e São Serafim de Sarov demonstra que a verdadeira espiritualidade não despreza a carne, mas a eleva e a espiritualiza. O Reino de Deus não é um céu abstrato, mas uma realidade tangível a ser realizada aqui, na e com a terra. Esta transfiguração interior está inextricavelmente ligada à escatologia imperial da Terceira Roma. Quando o monge Filoteu de Pskov proclamou que as duas Romas haviam caído e Moscovo se erguia como o bastião final—o Katechon, o restringidorr místico que impede a vinda do Anticristo—ele articulou um destino messiânico que mais tarde animaria toda a visão Cosmista, transformando o político no cósmico. [Alexander Dugin, em nossos dias, fala muito bem sobre isso.]
Deste solo de Ortodoxia, Hesicasmo e passionalidade euroasiática brota o verdadeiro antídoto ao transhumanismo ocidental: o ramo religioso do Cosmismo Russo. Longe da ciência materialista estéril, esses titãs religiosos entrelaçaram teologia, arte e destino cósmico em uma sinfonia de teurgia prometéica. A base fundamental foi lançada por Nikolai Fedorov. Ele viu que a ideia moderna ocidental de "progresso" é uma ilusão demoníaca, um sistema canibalístico no qual a geração mais jovem devora a mais velha, construindo o futuro sobre as cinzas dos pais. Contra essa marcha horizontal e fratricida, ele propôs a Tarefa Comum: a ressurreição literal e física de todos os mortos. A visão de Fedorov nunca foi uma proposição biológica seca; era um dever profundamente patriarcal e religioso enraizado na filiação—o vínculo sagrado que liga cada indivíduo aos ancestrais e ao próprio cosmos. Ele exigia uma reorientação vertical da humanidade: em vez de apontarmos as nossas armas horizontalmente para massacrar irmãos, devemos apontá-las para cima para regular as forças cegas e mortais da natureza. A verdadeira fraternidade não pode existir sem a paternidade; devemos unir-nos como filhos para restaurar a vida aos pais e, assim, transformar o universo fatal em um templo consciente e vivo.
                                                                

Vladimir Solovyov [ou Soloviev] expandiu essa base esotérica através de sua luminosa Sofiologia. Recebendo visões da Divina Sofia [Apenas duas, e no final não tão boas...], a Alma-Mundo feminina, Solovyov articulou o caminho da Divindade-Humanidade: o telos [fim] último da humanidade é cooperar activamente com o Divino na transfiguração do universo material. Contra o egoísmo isolante do Ocidente moderno, ele defendeu a unidade total, um estado em que os fragmentos fraturados da realidade são unidos por um amor transfigurador e syzigico—um amor que supera a impenetrabilidade mútua dos seres egoístas. Soloviev entendia que a falsa espiritualidade nega a carne, enquanto a verdadeira espiritualidade exige sua regeneração, salvação e ressurreição literal. Sua visão clama por uma relação viva e amorosa com todo o cosmos, participando na reintegração do Divino na humanidade material.
Essa visão majestosa foi aprofundada pelo "Leonardo Russo," Pavel Florensky—matemático, sacerdote e mártir. A Sofiologia de Florensky revelou a sabedoria divina inerente à criação e estabeleceu uma ontologia sacramental na qual a própria matéria é reconhecida como sagrada. Ele destruiu o determinismo da matemática contínua ocidental com uma lógica de descontinuidade e aritmologia, provando que a verdade superior abraça as antinomias em vez de achatá-las. Florensky demonstrou que a perspectiva reversa do ícone russo não é uma falha artística primitiva, mas uma geometria superior, divina, que rompe com as ilusões do espaço terrestre para abrir uma janela radiante para a realidade espiritual. Ainda mais vitalmente, ele defendeu os Veneradores do Nome, reconhecendo que o Logos não é um mero significante semiótico, mas uma força mística e viva capaz de agir e alterar o tecido do mundo. Nesta síntese deslumbrante de matemática, teologia e arte, Florensky provou que a verdadeira ciência e a verdadeira espiritualidade são pilares gêmeos de uma verdade divina que transcende completamente o empobrecido racionalismo ocidental.

Pavel Florensky e Sergei Bulgakov

Sergei Bulgakov trouxe esse misticismo cósmico para o reino do trabalho diário com seu magnífico conceito de "economia sófica." A economia, para Bulgakov, não é o comércio de oferta e demanda, mas o cuidado e a gestão sacerdotal de todo o universo. O processo económico é a luta da humanidade para transformar o material mecânico e morto num corpo vivo caracterizado pela liberdade orgânica. Bulgakov reconheceu que cada átomo está conectado ao todo cósmico, de modo que o simples ato de comer se torna uma profunda comunhão ontológica: quando ingerimos alimentos, participamos da carne do mundo, revelando nossa unidade metafísica essencial com o cosmos. A Santa Eucaristia, para ele, é o ato cósmico supremo, uma promessa da futura transfiguração de toda a matéria em um organismo vivo e consciente. Guiado pela Divina Sabedoria, o trabalho humano eleva o caos empírico à eterna harmonia do Reino.
                                 
Finalmente, Nikolai Berdyaev elevou toda essa tradição a um ardente chamado para a teurgia prometaica. Vendo o mundo dado da necessidade como uma prisão, Berdiaev defendeu a liberdade e a criatividade como as tarefas cristãs supremas. “A verdadeira criatividade é a teurgia, a actividade divina, a atividade junto com Deus,” proclamou ele, exigindo que transformássemos “cultura em ser, ciência e arte em um novo céu e uma nova terra.” Para Berdiaev, a liberdade não é a mera capacidade de escolher entre opções pré-existentes; é o poder sobrenatural do espírito de criar a partir do nada, de gerar um novo ser. [Em Portugal, Leonardo Coimbra e José Vitorino de Pina Martins conheciam-no bem]. O êxtase criativo do génio, ele ousadamente afirmou, é igual em dignidade à santidade canônica. Sua teurgia prometéica exige que a humanidade exerça sua liberdade divina para superar o estado atomizado e trágico do mundo caído e forjar uma realidade cósmica transfigurada.
Mesmo a vertente científica do Cosmismo Russo permaneceu ancorada nesta visão sacra exata. Vladimir Vernadsky teorizou a evolução da biosfera para a noosfera—não uma datasfera digital, mas a camada planetária da mente na qual a terra se torna consciente e espiritualizada, cumprindo um propósito cósmico. Konstantin Tsiolkovsky [1857-1935], o pai da astronáutica, fundamentou a sua filosofia cósmica no panpsiquismo, a convicção de que cada átomo possui uma sensibilidade adormecida que anseia por integração em formas superiores, perfeitas e imortais. Para ambos, a regulação da natureza e a exploração do espaço nunca foram actos de conquista prometaica, mas extensões da Tarefa Comum—uma liturgia sagrada que busca transformar o universo cego e fatal num templo vivo ressoante com o Logos ou Razão divina.
O que une todos esses Cosmistas religiosos é uma magnífica projeção alquímica para o exterior. O transhumanismo ocidental busca uma sinistra transmutação da condição humana, substituindo a carne mortal por circuitos imortais e reduzindo a consciência a dados desincorporados.  a realização suprema do Enquadramento de Heidegger, transformando até mesmo a alma humana num reserva de prontidão. Contra isso, a teurgia prometaica dos Cosmistas propõe um magnum opus divino aplicado a todo o universo. A tarefa não é escapar do cosmos, mas transfigurá-lo: pegar a matéria caótica e morta e, através do trabalho espiritualizado, do amor sizígico e da cooperação divina-humana, coagular essa matéria no corpo ressuscitado de uma nova realidade. Esta é a transfiguração do próprio macrocosmo, transformando as forças cegas da natureza num organismo consciente e vivo, uma Grande Obra alquímica projetada na escala infinita dos céus.
Submeto, com toda a devida humildade como um outsider, [uma pessoa que está de fora] esta cosmologia sagrada que fornece a única base espiritual viável para um mundo genuinamente multipolar. A hegemonia unipolar do Ocidente atlanticista busca, por sua própria natureza, exportar o Enquadramento homogeneizador pelo globo, triturando culturas distintas em uma massa uniforme e sem alma. Exige submissão a uma paixão em extinção que transformaria toda a humanidade em uma reserva de vida sem alma. O polo eurasiano, no entanto, animado pela vitalidade dos seus Cosmistas religiosos e das suas profundas raízes continentais, oferece uma alternativa desafiadora. 
Alexander Dugin articula isso como a Quarta Teoria Política, fundamentando a estatalidade russa na dimensão sacral do poder-terra de “Behemoth”—uma soberania enraizada e orgânica—em contraste direto com o “Leviathan” racional, mecânico e repressivo do liberalismo ocidental. Nesta visão, o impulso da modernização para desarraigar o ser humano num individualismo sem Deus e, em última instância, no pós-humano é categoricamente rejeitado. O polo euroasiático não rejeita a capacidade técnica, e busca o desenvolvimento com um rosto civilizacional vivo, fundamentado nas suas próprias tradições espirituais.

Alexander Dugin e sua filha, Dasha ou Daria Dugina Platonova, uma estrela brilhante nos céus.
Assim, o que Aleksandr Dugin identifica como uma civilização ortodoxo-eurasiática extrai a sua vida directamente do legado bizantino, hesicasta e cosmista. O legado da Terceira Roma, a metafísica sofiânica de Vladimir Soloviev e Pavel Florensky, o imperativo noosférico de Vladimir Vernadsky e o dever ressurrecional de Nikolai Fedorov constituem a arquitetura espiritual imperecível deste polo. A crescente passionaridade do Oriente de Lev Gumilev encontra aqui sua voz doutrinária. 
 Este não é um nacionalismo fechado, mas um universalismo civilizacional-estatal capaz de unir os povos da estepe, da taiga e das montanhas em torno da Tarefa Comum, permitindo ao mesmo tempo que outras civilizações—islâmica, hindu, chinesa—cultivem suas próprias formas espirituais únicas. Todos trabalhariam não em servidão de um mercado global, mas como vozes litúrgicas distintas participando da transfiguração do cosmos. Em vez de uma nova ordem mundial estéril, essa visão aponta para o que o Martin Heidegger posterior poderia chamar de um novo começo: uma revelação do Ser semelhante a um acontecimento [evento], na qual Oriente e Ocidente, profundidades e alturas, despertam novamente para o sagrado.
A consagração de Fedorov da tecnologia como um instrumento de ressurreição, com o tempo, abriu uma porta que mãos mais seculares empurraram para longe. Uma proximidade perigosa com a ambição transhumanista é inegável em certos desdobramentos materialistas. A diferença—e a única que salva a Tradição de sua própria sombra—reside na ancoragem vertical e esotérica que tracei: Sofiologia, o corpo Hesicasta, a parentesco filial e a Santa Eucaristia. Sem essas raízes tradicionais, a regulação da natureza torna-se indistinguível do enquadramento do Ser. Deve-se admitir honestamente que o "Cosmismo Russo" não é um único movimento histórico autoconsciente, mas um termo "guarda-chuva" recente, colocado retroativamente sobre uma família de pensadores cujas discordâncias internas e distinções nuançadas são reais e consideráveis. Para anatomizar completamente essas diferenças— as tensões entre o ressurgimento tecnológico de Fedorov e a economia litúrgica de Bulgakov, ou entre a Sofiologia evolutiva de Soloviev e a liberdade radical da criatura de Berdiaev—está muito além do escopo deste artigo e pertence à erudição especializada. No entanto, apesar de toda a sua divergência histórica, essas figuras não formam uma escola, mas sim uma frente espiritual. E é precisamente essa coerência sagrada latente—não uma doutrina monolítica—que o mundo multipolar precisa urgentemente recuperar e traduzir.
A pergunta com a qual começamos - podemos ainda encontrar o caminho vertical de volta a nós mesmos? - não é retórica; é uma directiva prática e urgente. Os escritos de Florensky, Bulgakov, Berdyaev, Solovyov e, acima de tudo, a Filosofia da Tarefa Comum de Fedorov permanecem [ainda algo] trancados atrás das barreiras da linguagem e de décadas de repressão soviética.»