quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Inícios do naturismo em Portugal: João Bastos, "Saúde e longevidade", harmonia e felicidade. Crítica das "oligarquias cegas e da insensatez da alimentação".1907

                                                          

     Entre os livros dos começos do naturismo e vegetarianismo em Portugal, da 1ª década do séc. XX,  um com bastantes ideias ousadas é A Saúde pela longevidade (um grito de alarme), de J. [oão] Bastos.  Publicado em 1907, num in-4º de 101 páginas, que tenho nas mãos num exemplar encadernado editorialmente  em tela verde, com as letras gravadas a ouro e que contém na folha da guarda, num reclame de papel: Livraria e Papelaria de Soares & Matheus. Rua Augusta, 178, Lisboa. A obra fora impressa numa das zonas ligadas à tipografia lisboeta, a rua de S. Paulo, 216 na Typografia A Liberal, de César Correia. 
                                
Na 1ª folha branca, vemos numa bela letra a dedicatória, não datada, do autor "À Benemérita Sociedade Vegetariana de Portugal", fundada pelo dr. Amílcar de Sousa, em 1911, com este espaço de quatro anos de permeio indiciando o seu pioneirismo.
                     
 João Bastos, no seu amor pela verdade e a saúde, e com a sua sensibilidade, inteligência e conhecimentos,  diz o que pensa sem receios, criticando tudo o que lhe parece um defeito social, o que lhe parece estar em desequilíbrio, tentando esclarecer, corrigir e gerar a saúde já que esta leva à felicidade da longevidade. A sua moral é conservadora, em alguns aspectos algo intolerante face a tendências mais ou menos erradas da sociedade moderna, mas noutros brilha pela simplicidade e naturalidade, pela experiência e conhecimento. 
O livro abre com a dedicatória às filhas, na "idade dos verdes anos"  mas desejando que "desfeita a primavera da vida" elas venham a poder "compreendê-lo integralmente. Então, enleadas d'alma como eu o estou hoje no seu benéfico intuito social, não vos canseis de o ler muitas vezes e sempre aos maridos, aos filhos, aos netos, e, por festas tradicionais de família, não vos esqueçais de brindar com ele as vossas melhores amigas". E conclui, imortalizando as filhas como discipulas instrutoras, pedindo: "filhas boas e generosas de sempre, compensai-me, como prémio de gratidão em vida ou culto de memória na morte, apontando  e explicando os trechos mal alinhavados deste livrinho, livrinho que no pleno uso da minha razão vos testo e na maior expansão do meu amor vos dedico."
As teses principais do livro são a degenerescência, e que já vem de longe, da saúde das pessoas, a qual é bem estar do corpo e do espírito, este «encarando alegre, despreocupado, verdadeiramente feliz as muitas dificuldades da vida». A observância dos princípios higiénicos, tal a sobriedade, o exercício das forças, em vez dos «péssimos costumes sociais», alimentares, educativos, pois poderemos sair da situação, que ele regista como olisiponense: «Lamúria constante! Lágrimas e dores.! / Por vezes esta bela cidade de Lisboa, que devia predispor-nos à alegria, dá-nos a ideia de um grande hospital que nos imprime tristeza parecendo enedémica, e se transmite de uns aos outros, fazendo-nos sofrer. É sempre assunto a doença após a saudação habitual.»
Critica tanto as classes dirigentes como "o rústico e o proletariado" pelos vícios e a desorientação política e moral que vão contraindo nas sociedade moderna e particularmente nas cidades.
A recíproca influência da mente e do corpo, apontada frequentemente: «O spleen, a susceptibilidade, o frenesi, a nervosidade, a muita alegria ou, a muita tristeza, o egoísmo feroz, a avareza, em suma, a manifesta indisposição a sentimentos de generosidade e de altruísmo são efeitos mórbidos de um organismo defeituoso.»
Sobre o amor constata que "em geral não se casa por amor, por esse nobilíssimo sentimento, que une indissoluvelmente, para sempre, duas almas numa, não! (...) e que é necessário que ele entre em quantidade compensadora nos casamentos."
"Se o amor, como lá disse o poeta, é um engano ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito, eu, parafraseando, estou em dizer, que se o amor implicando paixão é um mal do coração que vibra e favorece todos os sentimentos, permitindo que esses idolatrados nivelem, igualem ou disfarcem génios diferentes, atavismos hereditários, defeitos físicos e morais, e assim realizem ainda problematicamente o seu maior anseio de felicidade com o acto natural da vida – o que não será o casamento inconsciente, frio de afectos próprios, ignorante de outros sentimentos leais e nobres, os olhos vendados, em que a parte mais frágil, a mulher, é sempre enganada, e a outra, o homem, a enganadora, quando não ambas enganadoras e enganadas?
É ver como tantos lares são aparentemente felizes; é observar como tantos outros são verdadeiramente desgraçados.
É ver como raros mantém equilibrada, essa ventura suprema, - o amor."
Este primeiro capítulo do seu tão actual livro, e que explica o seu sub-título, finaliza assim: «Do progresso e da civilização tem derivado o predomínio de oligarquias cegas, a torpeza da especulação, a febre do luxo, a insensatez da alimentação; vício, vaidades, orgulhos, ambições, que nos obcecam, adoentam e matam.
Estamos todos doentes! É a verdade. Não há saúde. E isto não me cansarei de repetir, qual grito de alarme, para que todos atentem, profundamente, nas minhas mal esboçadas considerações.
Do II capítulo sobre a alimentação, respiguemos um trecho substancial.
"Não vou, sobre o assunto da alimentação , embrenhar-me em minuciosidade cientificas, já tão debatidas pelos profissionais. Seria ingenuidade da minha parte. Fácil seria trasladar para aqui as opiniões dos tratadistas, ou quando menos, citar muitos dos seus nomes, de provada reputação.
Nem isso. Cada um que escolha o autor da sua mais predilecta simpatia, aquele que mais que lhe fale aos espíritos e ao sentido.
Aqui só exponho generalidades que possam ser profundadas, se nenhum intuito de formar compêndio em de fazer literatura; e, para que o sejam, é que pretendo chamar a atenção para os meus raciocínios, apenas filhos da observação e da experiência.
Assim prosseguindo, dou de baratos que os nossos profissionais não iniciem e não cultivem especialmente os tratamentos naturais pela alimentação, pela água, pelo ar ou pela luz, etc,, hoje já tão espalhados e preconizados nos países mais cultos. É aceitável.
Obcecados pelo ensino das nossas escolas retrogradas e das nossas universidades dogmáticas, eles, no seu natural interesse e até na sua louvável irresponsabilidade, tratam de cingir-se ao que da ciência lhe foi materialmente, sistematicamente, incutido no espírito [ou melhor, mente] 
É certo que, para honra e benefício do nosso Portugal e de outros idênticos países, não poucos reagem conseguindo destacar-se: nomes prestigiosos poderia citar. Mas o meio social comezinho e perverso, logo pretende aniquilá-los, segurando-os ao pelourinho do escárneo se proclamam ciência novas; atirando-os para o fundo das prisões e até à morte se proclamam ateando o facho da verdade e da justiça...
E assim aconteceu a Cicero, o grande orador da antiguidade, a quem queimaram vivo; assim aconteceu - para não referir muito nomes de somenos brilho histórico - a Cristo, o doce nazareno, que o crucificaram numa cruz! Este, o sublime anarquista (anarquista, teórica palavra que se deturpa e não se define) para no fim de tempos lhe darem plena razão, e o levantarem, por séculos fora até aos nossos dias, numa adoração mundial! E não colhem estes grandes exemplos!»
E depois de verberar a adulteração dos alimentos, tal do vinho, leite e pão, exclama: «A alimentação que ingerimos é um envenenamento de todos os dias, todas as horas.
A alimentação que somos obrigados a ingerir, é uma mixórdia que produz mau sangue e, como todos sabem, o sangue é a seiva do corpo.  
É a vida.
Se não é bom, se é mal confecionado, pouco ou demasiado, circula irregular e pobremente na nossa economia, alterando ainda que inapercebidamente as suas naturais funções e deformando os órgãos por onde passa.
O homem segundo as melhores averiguações práticas e científicas, pela configuração do seu estomago e da sua dentadura, pelo complexo delicadíssimo da sua estrutura, da qualidade e da quantidade do sangue, - é um frugívoro devendo portanto alimentar-se de frutos, vegetais, tubérculos, raizes e, quanto muito, de cereais. E só devia beber a água límpida das fonte.
As necessidades crescentes da humanidade é que obrigaram o homem a valer-se da alimentação carnívora e de outros tantos produtos nocivos."
Nos capítulos seguintes aborda com observações muito pertinentes a Escola, os Costumes, os Remédios, o Relato ( autobiográfico, em que relata a sua mudança de regime aos 49 anos, uns anos antes de publicar o livro), e por fim a Conclusão, onde manifesta a sua confiança nos que saberão como ele "empunhar a verdadeira arma de combate de alcance certo e decisivo: o cultivo da saúde que é o da feliz Longevidade."

Acrescentemos que este exemplar, na sua 1ª edição desconhecido do grande catálogo nacional Porbase,  e que foi oferecido graciosamente à Sociedade Vegetariana de Portugal, isto é, ao dr. Amílcar de Sousa, o seu fundador em 1911, foi reeditado em Agosto de 1912 pela Editora da Sociedade Vegetariana, com um prefácio do pioneiro médico, tendo mesmo em 1913 recebido uma 3ª edição, tal o sucesso no meio portuense e nortenho, então muito forte na aspiração à Harmonia pelos meios naturais. 
Constituía o VIII volume da Biblioteca Vegetariana e era assim publicitado: «Análise dos erros da vida humana civilizada. A saúde, a alimentação, a escola, os remédios e algumas curas relatadas com superior critério e verdade.» Anote-se que o IX volume era o do iminente pensador Jaime de Magalhães Lima, O Vegetarianismo e a Moralidade das Raças.

 João Bastos passou a publicar tanto na revista o Vegetariano, como no Almanaque Vegetariano Ilustrado de Portugal e Brazil, nomeadamente nos anos de 1914 e 1915.
Daremos conta desse prefácio do dr. Amílcar de Sousa e de mais alguns ensinamentos de João Bastos, a que acrescentamos agora a sua fotografia partilhada na 2ª edição. 
Muita luz e amor nas almas de João Bastos e Amílcar de Sousa e suas famílias.

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