20/26. Breve palestra de Pedro Teixeira da Mota sobre Sagrado, Liturgia, Gestos, Mudras, Vinho, Graal, Tradição Espiritual Iraniana e Cristã, no Museu do Vinho em Alcobaça, a fechar a visita guiada por Maria de Fátima Silva e de Jorge Prata à exposição "Gestos, Liturgia, Sacralidade", organizada por Alberto Guerreiro, com curadoria de Mário Caeiro quanto às instalações de Fátima, e que esteve alguns meses em exibição no Museu. Fora convidado para escrever o texto de sala, e para falar no encerramento. Havia espaço para diálogo final e houve algum confronto ideológico registado em grande parte.
Eis o que escrevera para a exposição:
Da gestualidade sagrada e ecuménica de Fátima no Museu do Vinho em Alcobaça
A exposição Gestos-Liturgia-Sacralidade, de Maria de Fátima Silva e Jorge Pratas, nas obras e processos partilhados, tende à magia da elevação da visão do mundo material ao espiritual, com o corpo e a gestualidade ritual invocando e evocando a consciência das influências ou presença espiritual e divina, sacralizadora de quem a realiza ou de quem a reactualiza agora ao contemplar operativamente o que é já símbolo da intuição e vivência, reconstituição fotográfica ou pictográfica icónica.
Maria de Fátima Silva apresenta uma instalação de pinturas e uma mesa altar dedicadas a Nossa Senhora de Fátima, aparecida em terra de etimologia islâmica, pois consagrada a Fátima, filha do profeta Maomé, e mulher de quem deveria ter sido o sucessor como líder do Islão, Ali, mas que se tornou apenas o I dos XII imams Shiias do povo iraniano, tão admirado nos nossos dias por defender cavaleirescamente a sua civilização teocrática da opressão gananciosa oligarquica do Ocidente profano.
A obra da Fátima é triplamente sacralizante: por si, pela localidade e sua hierohistória e por Nossa Senhora de Fátima, manifestação da Deusa, do sagrado Feminino, com o Amor, misericórdia e ecumenicidade tão necessários nestes tempos preliminares da III grande Guerra.
Ao apresentar a sua mensagem em portas, nexos de inter-espacialidade e passagem entre planos ou mundos, a Fátima apela à consciencialização da sacralidade do quotidiano, à fatimização e angelização do nosso horizonte anímico, recorrendo à simbologia evocatória da Senhora de Fátima e dos Anjos e Arcanjo de Portugal, para que as suas bênçãos e nossas energias, escorrendo das mãos trabalhadoras e cuidadoras, dos pés sofridos e das asas renovadoras, nos purifiquem, inspirem e reintegrem na consciência sacra e unitiva.
A magia operativa das liturgias do santuário de Fátima, tão poderosa nas grandes peregrinações e litanias, e no silêncio dos vastos terrenos puros e vazios, com suas capelinhas, altares, estátuas, árvores, penedos e flores, foi bem acolhida enquanto macrocosmos uterino da instalação pictográfica e de gabinete etnográfico-religioso oferecido pela Fátima com toda a beleza, cor, ritmo, intensidade e sentimentos gerados durante o processo alquímico, interno e externo, agora desvelado nesta condensação bem original e performativa, até no convite aos gestos de abençoarmos com a água purificadora e de nos fortificarmos com a energia firme dos cristais do Gerês e fósseis da Ericeira.
O lugar ideal da Exposição seria talvez uma sacristia, antecâmara introdutória da missa, oferecendo as fotografias e pinturas como rememorações destiladas na devoção e aspiração, mas também serve bem o Museu do Vinho em Alcobaça, de Fátima vizinho, pois, instalado na antiga adega, preserva todo o pathos do ciclo vinícola, sagrado desde os mistérios da Grécia ou, mesmo antes, da Pérsia, pois ao rei Jamshid, detentor do Graal primordial, e sua princesa, como relata Firdouzi na imortal epopeia Shahnameh, é atribuida a descoberta do vinho, o qual, cultuado como gerado da luz solar e divina propiciadora de Farrah (a Luz da Glória e da Verdade dos espirituais iranianos), até nós chega resplandecendo com glória na liturgia eucarística e nectarizando-se no dito afiançado pelos nossos antepassados (que estejam na Luz) In Vino Veritas.
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