quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Comte de Larmandie, "Notes Esotériques. Magie et Religion", um exemplar do naturista e também esoterista Ângelo Jorge. Apreciação da obra e breve biografias dos dois. Com a oração de S. Tomás de Aquino para os escritores.

O Conde de Larmandie foi um escritor, poeta, novelista, que participou nos movimentos literários, rosacrucianos e esotéricos do final do séc. XIX e começos do XX com bastante qualidade pois era culto, inteligente, sensível e escrevia bem.
André Ludovic Marie Joseph Léonce Dieudonné de Larmandie nasceu em 16 de Outubro de 1851 no castelo de Sudrie, na Dordogne. Depois de ter estudado com os jesuítas  partiu para Paris, onde estudou matemática e formou-se em Direito, exercendo vários cargos de  ensino, envolvendo-se no jornalismo politico. Católico mas esoterista simultaneamente, pouco depois de se ter casado em 1846, encontrou Joséphin Péladan (1858-1918), ou Sâr Péladan, que o impressionou bastante pelo seu génio (mas foi recíproco o encanto das afinidades profundas), tornando-se  o seu mestre, e sendo em Maio de 1891  um dos co-fundadores da Ordem da Rosa-Cruz Católica do Templo e do Graal, na qual foi nomeado comendador de Geburah, responsável material pelas realizações artísticas que se iriam iniciar com os salões da Rosa-Cruz, valiosos encontros artísticos e esotéricos que decorreram com grande brilho e originalidade entre 1891 a 1897, gerando grande "publicidade sensacional", e do que dá testemunhos valiosos, em 1903, no seu Notes de Psychologie Contemporaine. Entre'Acte Ideal. Histoire de la Rose Croix. O conde de Larmandie destacou-se também na Sociedade dos Génios de Letras, de 1890 a 1900, e no fim de tudo, em 1921, quando partiu para o além, para de novo dialogar com Sâr Péladan escrevera mais de cinquenta obras de poesia, literatura, política, teatro, arte e esoterismo.
Sâr Mérodak Péladan

Casara em 1886 com Blanche-Marguerite Marion, mas na 2ª década do XIX sofreu a morte da filha, da mulher, e dos três filhos na I grande Guerra. A suas últimas obras publicadas (que eu conheça) foram Aimer et mourir, 1908, e Amour et l'Astral, de 1909. Em 1891 publicou uma obra, que marcava o início do movimento da Rosa Cruz Católica, e do Graal, Eôraka, Notes sur l'Ésotérisme, com uma poderosa apresentação de Sâr Peladan  um emotivo agradecimento a ele por Larmandie, e ainda uma dedicatória ao Abade Alta, um esoterista cristão. A obrazinha, tentando apresentar a unidade do esoterismo por detrás de todas as religiões e tradições, gerou muitas ondas reactivas. Em 1898 resolveu explicar esse episódio da sua vida publicando Notes sur l'Ésotérisme. Magie et Religion, no Chamuel, Editeur, que depois passou a ser distribuída pela Librairie Génerale des Sciences Occultes, Biblioheque Chacornac, como pode ver na fotografia:

Com 195 páginas, Magie et Religion é uma defesa pública, como explica no início, e uma demonstração da desejável união da Religião e do Esoterismo:
«Há cerca de cinco anos chegou-me a hora do infortúnio - os leitores apreciarão -  de publicar num número moderado de exemplares um livro muito pequeno destinado a fazer grande algazarra: Eokora, notes sur l'esoterisme: As questões abordadas estavam na moda e são ainda gora avidamente estudadas, das mais apaixonadamente discutidas. Eu emiti algumas considerações novas sobre a fraternidade íntima do ocultismo e da religião. Esforcei-me de demonstar o acordo não somente possível mas necessário entre o catolicismo  do qual sou um adepto fervoroso, e a alta magia, de outro modo, o esoterismo: eu designava por isso pela interpretação verdadeira, a explicação intelectual de todos os símbolos  apresentados à multidão sob um revestimento alegórico, e que os que pensam devem aprofundar  tanto quanto pode ser dada à nossa natureza frágil de avançar, tudo inundado de raios, no vestíbulo do Infinito. Levei para a minha obra todo o meu labor, toda a boa fé, todo o meu entusiasmo  cerebral e sentimental pela única realidade  que merece ser procurada e adorada: a Verdade, a Verdade divina, a Verdade integral, que, seres limitados, nunca atingiremos na Eternidade nem no Tempo, mas para as quais devemos elevar-nos de todas nossas forças, de todo o desabrochar das nossas almas, do seio das nossas sombras terrestres, para merecer no Além de a aproximar indefinidamente, como a infatigável  [linha] assimptota converge sem cessar para a curva misteriosa que ela não deve reencontrar jamais. Mais uma vez, infelizmente, fui punido da minha lealdade de pensador, da minha sinceridade de escritor, pois a minha ligeira brochura  [Eoraka, Notes sur l'esotérisme] suscitou contra mim as mais violentas tempestades, e tive de perder amizades preciosas, uma delas com grande desgosto meu, ainda não acalmado, engolido para sempre.
Os Católicos partidários da letra que mata, não compreendendo o espírito que vivifica, clamaram heresia e  escândalo, os não crentes atacaram-me pelo facto de eu querer galvanizar o que eles chamam, de modo blasfemador, o cadáver da Religião.»
As 195 páginas são então uma tentativa de se justificar perante todos os que o atacaram, tentando clarificar como a religião católica e o esoterismo, conjuntamente permitem uma visão do mundo e do ser humano   que ajuda à edificação duma sociedade mais justa, consciente e espiritual.
Na Primeira nota ou parte do livro perpassam críticas aos defeitos de muito tipo de pessoas que o atacaram, e elogios aos que souberam compreender o seu livrinho (mesmo criticando-o, tal o reitor universitário Monsenhor Hulst, e que mereceu de Larmandie uma muito instrutiva resposta, transcrita), mas não iremos fazer agora uma exegese do seu conteúdo, partilhando apenas os títulos dos capítulos e a Conclusão, além da oração de S. Tomás de Aquino para os escritores, com que prefacia a obra:
«Criador inefável, verdadeira fonte de luz e de sabedoria, digna de derramares sobre a noite da minha inteligência o duplo raio da Caridade, dissipando as minhas trevas originais, o Pecado e Ignorância. Vós que fazeis falar a boca das crianças instrui a minha língua e abençoa os meus lábios. Dá-me a penetração, a memória, a eloquência, a subtileza. Ilumina a ninha entrada, dirige os meus passos, completa a minha finalização. Por Cristo, Senhor Nosso, Amen»
A Magia e Religião está então dividida em quatro Notas, a Primeira: Sobre o acolhimento do [seu livrinho] Eoraka pela opinião, contendo 18 acutilantes capítulos, intitulados: Intelectualidade e esoterismo. Franco-maçons e protestantes,  O Inferno e o Index. M. Renan. A Adivinhação pelos Sonhos. O corpo Astral. O Budismo. Formas de devoção. O Diabo, etc. 
A nota Segunda, em que demonstra o seu profundo conhecimento da religião católica e a possibilidade da sua conciliação com o esoterismo,   propondo entendimentos novos a partir do passado, Sobre a Teoria Esotérica dos Sacramentos, com 14 capítulos, tais Relações e diferenciações do plano religioso ao plano mágico, do plano anímico ao intelectual. Os ritos e os símbolos. Sacramentos de delegação Celeste, de comunicação Divina, de purificação e auxílio. A virtualidade da Eucaristia, etc. 
A  nota Terceira, Sobre a Hermenêutica e a exegese, de 12 capítulos, tais: Bíblia e Transformismo. A Unidade da Origem. A Incarnação e o filho do homem. A segunda Enteléquia e o Verbo incarnado. Definição do sobrenatural [graça e visão beatífica]. Definição de hiperfísica. A educação intelectual de um surdo mudo cego. A evolução do Dogma, etc. 
A nota Quarta, Sobre o Fenomenismo, com 8 capítulos, tais Sugestão colectiva e sugestão individual. Dos sonhos. O exercício da alta magia. As curas sugeridas. A Acção purificadora dos Sacramentos. A Telepatia. A Contaminação do Astral. As correntes Typhonicas. O Exorcismo. E finaliza com a Conclusão: Sobre o Plano Divino, onde depois de enaltecer muito Edgar Allan Poe, e o fim do seu Eureka, termina assim o livro: «Todo o ser humano, para corresponder ao plano divino, deve professar a Religião: tanto o intelectual como o proletário não é dispensado dela. Cada ser, mesmo que se eleve muito intelectualmente, possui um animismo, sentidos, inclinações, paixões. A Magia, a ciência  suprema e perigosa, gnose da árvore da vida, não é obrigatória para ninguém; os mais intelectuais podem estudá-la, mas aventurando-se com a maior reserva no terreno das práticas; os santos, esses, repito, são frequentemente magos inconscientemente, taumaturgos pela austeridade das suas vidas e a força toda poderosa das suas orações. Em vários pontos, a Magia e a Religião unem-se intimamente, e os princípios do hermetismo fortificam a fé nas inteligências mais altas que não são seduzidas pelas formas de parábolas e que procuram o aspecto verdadeiros dos mistérios sob o revestimento dos símbolos.
Eles têm o direito ao pão do Espírito, tal como os outros ao pão da alma. (...)»
                            
A obra pertenceu ao Ângelo Jorge, como pode ver na capa, o qual assina, sem datar, e apensa o seu carimbo identificador, muito interessante para a história do esoterismo e naturismo português do começo do séc. XX: «Propagandista. Nova Ciência de Curar sem medicamentos nem operações. TERAPÉUTICA OCULTA. Naturismo e Esoterismo. Porto. Portugal»
Angelo Jorge nasceu no Porto, 4 de Setembro de 1883 e morreu também na cidade Invicta em 17 de Dezembro 1922 e ainda criança de nove anos fora para o Brasil. A partir do seu regresso, em 1901,  começou a publicar artigos e revistas e livros, animado pela sua aspiração pedagógica, naturista, vegetariana, mentalista, libertária, esoterica, as primeiras obras sendo: Ginástica Mental das Crianças (1902) e Penumbras (1903). Em 1912 deu à luz uma original e valiosa utopia portuguesa, Irmânia, novela naturista,  que foi bem introduzida por José Eduardo Reis na reedição pela Quasi Edições em 2004. A Nova Ciência de Curar pela Natureza, e Luz nas Trevas foram as suas últimas obras.
Colaborou em várias revistas e jornais, tal O Vegetariano, e duas delas foram mesmo dirigidas por ele: A Boemia. Revista Literária, biográfica e de crítica social (Porto, 1901-1902) e a Luz e Vidarevista mensal de Sociologia, Arte e Crítica, publicada no Porto, em 1905, e sobre a qual há uma valiosa ficha na BLX, Bibliotecas de Lisboa, de Rita Correia. 
Embora naturista e libertário, Ângelo Jorge sublinhou a lápis ao lado do texto, e verticalmente com uma régua, bastantes páginas, sem contudo anotar, denotando-se nelas interesse nas críticas a aspectos negativos da Igreja Católica e nas menções naturistas, rosacruzes e martinistas. Um dia destes abordaremos alguns aspectos dos seus testemunhos e escritos, tal como ainda faremos em relação a Larmandie... Neles e em nós Lux! Nûr!
                                        

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