Os ensinamentos de Mawlana
Tayfur Abû Yazid Al Bistami (ق), um mestre iraniano que terá vivido
entre 777-848 e foi pioneiro de elevados estados de conhecimento e
união com Deus, foram recolhidos nos seus ditos, denominados Shatahat, Ditos de Êxtase, tão
forte e presente era a sua relação com Deus. Transmitidos oralmente, quinhentos deles foram preservados pelos discípulos, e teve muitos pois desde cedo a sua realização espiritual foi sentida pelos que o rodeavam, sendo preservados pelo famoso sufi Abu al-Qasim al-Junayd (m. 910) numa antologia que teve grande influência no sufismo, sendo um elo de algumas linhagens ou fraternidades iniciáticas, sisilas, ainda hoje activas e venerando-o, tal a Naqshbandi, onde é o seu sexto mestre ou sheikh, ficando conhecido na história do Sufismo como o Sultan ul Arifim, o Rei ou sultão dos que conhecem.
Abû Yazid Al Bistami nascera em Bistam ou Bastam, pequena aldeia sob a elevada e mítica montanha
de Alborz, na província de Kumis, no noroeste do Irão, de uma família da religião zoroástrica, o seu pai sendo o primeiro a converter-se ao Islão, que então convivia bem com ela, como algumas das histórias que entretecem os ditos contam.
Quando
decidiu entrar no Islão e como não é certo, mas sabe-se que o seu
iniciador foi Abu Alî Sindi, ou seja um sufi indiano, o que é bem
sintomático da facilidade com que a realização espiritual se transmite
entre povos e religiões dada a unidade dos estados conscienciais, das
metodologias e das doutrinas, unidade que pode assumir o nome de
Tradição Espiritual, Filosofia Perene, Religião universal, Teologia Perene, Prisca Filosofia.
Embora tenha viajado e cumprido mesmo a peregrinação a Meca, viveu sobretudo na sua terra natal, primeiro estudando, dialogando e praticando ascese e meditação, pois desde cedo fora atraído para a via mística, e, depois das bênçãos divinas, ensinando, aconselhando.
Para este texto, dos quatrocentos e sessenta e três ditos extáticos traduzidos por Abdelwahab Meddeb, em Les Dits de Bistami, 1988, Paris, Fayard, recolhemos dos cem primeiros
dezassete, que passamos a transmitir, segundo a sua numeração, e alguns com breves
comentários, pois ora dispensam, ora os enfraquecemos no seu esplendor inicial. E como provém de um mestre persa ou iraniano, escrevemos este
artigo em homenagem a Al Bistami e sobretudo em apoio ao povo e tradição iraniana, em luta de
morte contra os traiçoeiros agressores israelo-americanos, e seus apoiantes.
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| Mausoléu de Abû Yazid Al Bistami, na sua terra natal e de partida. |
1. - Todos os dias em que Abû Yazid Al Bistami não sentia qualquer mal ou sofrimento, dirigia-se ao seu Senhor, dizendo: - Meu Deus, hoje deste-me o meu pão e não me deste o meu esforço penoso (peine) sem o qual não mereço comer o pão.
Saibamos estar reconhecidos por tantos dias com pão e sem dor, e quando ela vêm suportá-la com coragem e sublimação.
4. - Perguntaram-lhe: Diz-nos algumas palavras acerca do respeito ao mestre.
-
Se Deus abrir ao seu servidor uma visão mais luminosa que o sol e o
mestre o chamar para uma tarefa muito vulgar, ao abandonar a sua
visão para se consagrar a tal tarefa, dir-se-á que isso dá uma antevisão
do que se deve ao mestre?
A
devoção ou entrega plena ao mestre foi muito cultivada na maioria das
religiões e vias iniciáticas, de acordo com o principio de que o mestre
reflecte Deus e que ele é o fio que nos religa ao mundo espiritual e a
Deus
15 - O que é o sufismo?
- Apertar a corda e conter o corpo.
Aumentar
o controle sobre o corpo, e seus instintos, tendências. Segurar a
corda, ou fio, ou a ligação com o mestre, o mundo espiritual, Deus.
22 - Tantos seres próximos longe de nós; tantos seres afastados, próximos de nós.
Grande
verdade, tão sentida pelos seres de mais amor e realização,
frequentemente isolados, ou mesmo estando infelizmente distantes dos que
são mais próximos e afins deles, mas que mesmo assim comungam por meios
subtis, ainda que por vezes semi-conscientemente.
33- Como é que chegou ao estado em que está?
-
Procedi assim: primeiro, comecei por O tomar como mestre, Ele, o
Glorioso. Em seguida, disse-me: «se o teu Senhor não te contenta,
ninguém mais nos céus e na terra te contentará». Assim usei a minha
língua na sua invocação e o meu corpo no Seu serviço; e logo que um
órgão se esgotava, eu estimulava outro. Por fim, uma voz interpelou-me:
- «Abû Yazid, Abû Yazid».
Real
e belo modo de exprimir a grande aspiração e as práticas espirituais
que Abu Yazid realizou, e que foram abençoadas com o ouvir o seu nome
chamado por Deus, pelo espírito divino.
40 - Não há uma pessoa que Deus não modela para si mesmo, não consagre à sua invocação, não preserve do erro, não tenha entretecida no seu coração, que antes não tivesse estado submetida ao faraó (os poderes ilusórios do mundo, materiais, corporais) o qual a desmentia e lesava.
41 - Solicitei Deus durante trinta anos, e então acreditava que o desejava, mas na verdade era Ele que me reclamava.
Valiosa mudança de eixo identitário de aspiração amorosa, que nos deve estimular a estarmos mais atentos aos chamamentos.
63 - Se acontece ao ser humano estar de acordo consigo mesmo; se a alegria enche o seu coração, por causa do excelente pensamento que tem do seu Deus; se, pelo acto da vontade, ele realiza quão bem fundamentado é esse pensamento; se a sua vontade se liga ao querer bom do seu Criador; se ele deseja segundo o desejo de Deus, se ele eleva o seu coração à altura de Deus; se ele sujeita o seu movimento à autoridade de Deus; se tal servidor vai onde quer segunda a vontade de Deus; se ele se detém onde Deus deseja, em toda a parte, com pleno conhecimento e de toda a vontade, essa pessoa estará em qualquer ambiente com Ele; nenhum sítio, dele, se esvazia; se este servidor estava com Deus, certamente, ele terá estado em toda a região; e se mão estivesse com Deus, ele não estaria em parte alguma. O sopro do ser humano está entrelaçado ao seu coração, e o seu coração está apegado ao pensamento, e o seu pensamento está ligado à sua vontade, e a sua vontade está submetida à boa vontade de Deus muito alto. Deus disse: "Eu estou onde o meu devoto me invoca no seu pensamento".
Se Deus estiver no próprio pensamento do seu devoto, isso será como se o devoto estiver onde Deus está. Do mesmo modo que Deus não abandona o seu servidor, onde quer que este esteja, também o devoto não abandona Deus onde quer que esteja. E Deus não muda de uma residência para outra. Assim se o devoto autentifica o excelente pensamento que ele tem de Deus, esse pensamento dependerá de Deus, tal como o seu coração depende do pensamento e a sua respiração do seu coração. Assim ele vai donde vier e para onde quiser segundo o bom querer de Deus. E tudo lhe vem ter sem que ele se mexa ou se esforce. Até ele vêm o Oriente e o Ocidente plenamente. Desde que ele evoca um certo país, esse país apresenta-se-lhe, enquanto ele permanece onde quer que esteja. Pois Ele nunca desaparece dum país. Ele é Aquele que nunca desaparece e que permanece por toda a eternidade. Ele mesmo é que nada abole e que é de toda a eternidade. Compreende isto. As coisas perseguem-no e Ele não expele nada. É que as coisas acedem ao ser por Deus»
Um ensinamento pluridimensional muito profundo e amplo, por vezes sentindo-se os veios camadas ou atributos zoroástricos, nomeadamente no bom pensamento (Vohu Manah) e no bom querer (Spenta Mainyu) de Deus, dois dos Amesha spenta da divindade sábia ou Ahura Mazda. Mas talvez o mais importante seja a grande familiaridade com Deus alcançada e como nos tenta iniciar nela.
67- Dizei-me o que fazer para me aproximar do meu Deus?
- Ama os santos de Deus, para que eles te amem. Deus, Abençoadíssimo e Altíssimo, olha no coração dos seus santos setenta vezes para cada noite e dia. E talvez, vendo o teu nome inscrito no coração de um dos seus Santos, te perdoe e acolha.
Que ensinamento maravilhoso, nada protestante e muito da comunhão no corpo místico da Humanidade e dos mestres.
68 Um especialista nos ditos do Profeta perguntou um dia a Abu Yazid, quando este era ainda jovem, - Meu rapaz, consegues rezar bem?
-Sim, se Deus o quiser, respondeu Abu Yazid.
- Como rezas tu?
- Eu proclamo: Deus é muito grande (Allah Akbar) com aquiescência; e recito os versículos, inclino-me com veneração, prosterno-me com humildade e saúdo cheio de paz.
- Meu rapaz, se tens essa compreensão, esse mérito, esse conhecimento, porque deixas as pessoas tocarem-te com a intenção de serem abençoadas?
- Não é a mim que elas tocam, mas uma vestimenta com que fui aprontado pelo meu Senhor. Como poderia proibi-los disso? Tal vestimenta pertence a um outro de que eu.
Um dos ditos muito belos que espelha a nulificação do ego, a fana, muito desenvolvida por Bistami, o que lhe permitia os estados unitivos´, ousadissimos para os mais literais ortodoxos, e que surgem por entre os ditos, tal como Al Hallaj também exprimiu, martirizando-se
69 - Eu entrara em casa de Abu Yazid, e alegrei-me com a sua companhia, pois aprendera muito. Quando estava para sair, ele disse-me: - Homem devoto, mesmo se Ele te desse tudo o que deu aos profetas, devias dizer-Lhe: - Eu quero-te a Ti, e nada mais do que a Ti.
73- Como recebeste esta graça?
Despojei-me do meu eu como a serpente da sua pele. Depois olhei-me: era Ele.
74 - Uma noite entre as noites, demandei o meu coração, mas não o encontrei; quando chegou a aurora, ouvi uma voz dizer: - Abu Yazid, eis que solicitaste um outro que Nós.
83 - Tu eras para mim espelho, e sou eu que me tornei o espelho.
84 - O homem verdadeiramente homem é aquele que permanece sentado e a quem as coisas vêm ou falam, onde quer que ele esteja.
89- O orante adora-O conforme o seu estado, mas o iniciado adora-o em todo o estado.
100 - Durante trinta anos invoquei Deus. Depois, calei-me. Foi então que descobri que a minha invocação era o meu véu.


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