sexta-feira, 20 de julho de 2018

Paz e serenidade, liberte-se de depressões e comprimidos. Ribeira do Carril.

   Acalmar a mente e as emoções, fortificar a alma e desenvolver a paz interior...
 


 Como encontrei, nomeadamente nesta recente peregrinação pelo Gerês, algumas pessoas tristes, deprimidas e a tomarem anti-depressivos e a começarem (ou a continuarem) assim a perder o controle da sua alma e a danificarem o cérebro, eis um pequeno vídeo pelo qual associei um belo ribeiro, não longe do lagar de azeite do Carril, a um conjunto de frases e pensamentos instrutivos e iluminantes que poderão ajudar as pessoas a melhorarem ou mesmo vencerem tais desânimos, tais perdas da alma.
 

 
 Quem diz desânimo, diz sem ânimo, a parte mais activa da alma, ou seja momentos em que perdemos o controle de nós próprios, isto é, não conseguimos dominar ou unificar as nossas forças anímicas, as quais são as emoções, os sentimentos e os pensamentos. 
A nossa força de vontade esvai-se ou está tão enfraquecida que não consegue controlar o estado da alma, ainda que a pessoa possa desejar ou dizer que quer reagir e vencer.
Certamente que uma pessoa pode ver então um bom filme ou comer o que gosta e de algum modo ultrapassar a situação, o que é bom por um lado (e melhor ainda seria um livro ou música espiritual) embora não resolva a causa da situação, que por vezes está já bastante enraizada na vida de uma pessoa e exige um auto-conhecimento e discernimento grande, algo difícil nesse estado de se conseguir, pelo que é recomendável o diálogo franco com pessoas ou mesmo a consulta de psicólogos...
Este vídeo é apenas um meio de veicular energias luminosas e calmantes, pelas frases, ideias, sentimentos e espiritualidade transmitidos e assim possibilitar um certo despertar interior, uma certa ligação maior com a essência espiritual de cada um de nós, a qual é a base e pedra de fundação de todos os seres.

Valerá a pena ouvir mais de uma vez o que é dito, pois contém a sabedoria de várias tradições a qual é a do ensinamento perene dos mestres e que eu tenho vivenciado e partilhado dentro das minhas limitações e num breve improviso de cerca de 7 minutos...
                                        
São poucos minutos mas bem sentidos, meditados e assimilados  poderão dar frutos bons, saborosos ou sábios, de Paz, Pax, Shanti...
                                         

quinta-feira, 19 de julho de 2018

"Amare": inauguração da exposição de Maria de Fátima Sílva, sobre o Amor de Inês e Pedro. Alcobaça.

 O Amor em Inês e Pedro, "Amare": inauguração da exposição de pintura de Maria de Fátima Silva, em  8 de Julho de 2018, no Museu do Vinho em Alcobaça, realizada  pela  vereadora da Cultura, Educação e Turismo de Alcobaça, Dra. Inês Maria Lopes Silva e pelo director do Museu de Vinho Alberto Guerreiro, com palavras ainda da Maria de Fátima Silva e algumas minhas.
 "Esta é uma iniciativa especial e pertinente tendo em conta a sua ligação temática com a História do concelho de Alcobaça, assente nas figuras de D. Pedro e D. Inês que são um património imaterial deste território. Saudamos e acolhemos com muita honra estas iniciativas que valorizam esse mesmo património, assim como o próprio Museu do Vinho", dirá a vereadora da Cultura também ela Inês e portanto bem sensível íntima e animicamente.
 
O director do Museu de Vinho, Alberto Guerreiro.
 

     Do texto que escrevi para a magnífica exposição, num local tão adequado para uma comemoração de musas e vates do Vinho do Amor imortal,  não longe de onde os  maravilhosos túmulos esculpidos de Inês e de Pedro se encontram para contemplação nossa, seguem-se algumas partes: 
  «O Amor de Inês e de Pedro, no século XIV, foi tão intenso, mas também tão trágico, que se tornou lendário, imortalizou-se, evoluiu para um mito sempre presente e fundador de maior consciência do valor do amor espontâneo, livre, pleno e que, apesar dos perigos mortais que frequentemente o ameaçam, é perene, imortal.
     Um mito verídico e dinâmico, não baseado apenas em especulações e imaginações mas fundado na realidade, testemunhado na vida e ampliado ao longo dos séculos por todos, nacionais e estrangeiros, e foram muitos, os que se deixaram comover, inspirar e tocar por tal sintonia, entrega e vivência de amor e paixão, acima das convencionalidades e pseudo-razões que se opõem à união livre dos seres que se atraem e ressoam, dedicam e amam.
      Esta história amorosa, tornada legendária e perene pela literatura  e a arte, continua a fecundar-nos e não podemos deixar de congratular-nos pelo seu arquetipismo operativo, já que, apesar do longo tempo decorrido de oito séculos, estes dois seres ainda estão tão vivos no imaginário e na alma dos portugueses que podem surgir a qualquer momento recriações da sua vida, amor e paixão.
     A Maria de Fátima Silva, muito dada à investigação e ao culto da memória histórica, mítica e espiritual dos locais, tendo recentemente realizado algumas exposições consagradas à Atlântida e ao Portugal megalítico, teve a varinha de condão de sentir na floresta imaginal portuguesa a necessidade de mais uma vez vir ao de cima este veio do Amor que ultrapassa as razões sociais, os ditames convencionais e assume a sua chama de conflagração libertadora e unificadora, tão valiosa face à massificação consumista e superficializante que acinzenta ou oprime as pessoas nas sociedades modernas, pouco espaço ou valor dando ao amor, à poesia, à liberdade, à Unidade».
 
 
  «A vida, amor e a morte destes dois apaixonados, para além do seu registo em crónicas e em poemas, adquiriu cedo nos túmulos uma materialidade artística tão radiosa e impressionante, nomeadamente ao serem erguidos no ambiente de um estilo gótico tão austero como o da igreja da abadia de Alcobaça, que facilitou eles serem agradavelmente admirados, contemplados e assimilados pela sensibilidade anímica de qualquer época e pessoa.
A Maria de Fátima Silva aproximou-se deste mito fundamental de Portugal com o triplo trabalho do artista, pois não só pôs as mãos, os pincéis e a paleta das cores em acção mas foi tanto lendo e meditando muitas das valiosas obras, crónicas e dramas, poemas e ensaios, dedicadas ao amor de Inês e de Pedro, como também visitando locais associados à vida e e peregrinação inesiana, na busca de se impregnar mais dos eflúvios ou inspirações que ainda hoje se transmitem a quem souber sintonizar e sentir.»
                         

Durante as explicações na visita guiada quadro a quadro, com diálogos valiosos comigo e com outros participantes, Maria de Fátima Silva partilhou muito da sua sensibilidade e simbologia, bem inserida na Tradição Espiritual Portuguesa que por mais de uma vez invocou, e da qual tantos vates prestaram a Inês e a Pedro o seu preito ou abertura do peito, tal como por exemplo, um dos seus mais ilustres vates, Bocage, cantou:
«Da triste, bela Inês inda os clamores// Andas, Eco choroso, repetindo;//Inda aos piedosos Céus andas pedindo// Justiça contra os ímpios matadores.  
«Ouvem-se ainda na Fonte dos Amores//De quando em quando, as náiades carpindo;// E o Mondego, no caso reflectindo,// Rompe irado a barreira, alaga as flores.  
«Inda altos hinos o Universo entoa// A Pedro, que da morte formosura/ Convosco, Amores, ao sepulcro voa.
 «Milagre de beleza e da ternura!// Abre, desce, olhe, geme, abraça e c'roa//A malfadada Inês na sepultura».
 
  Ora é na monumental e poderosa Real Abadia de S. Maria de Alcobaça, no transepto da sua Igreja, que encontramos o testemunho mais imortalizante: os túmulos magistralmente esculpidos em pedra calcárea, e que mais do que servirem para darem guarida aos ossos e serem uma memória, são antes maravilhosas chamas historicizadas celebrando e invocando um amor que, embora fisicamente truncado na Terra, animico-espiritualmente viverá «até ao fim do mundo», tal como o justiceiro rei D. Pedro I (1320-1367) pediu ao escultor para gravar na cabeceira do seu túmulo jacente, e certamente numa encomenda tanto transmitida como esculpida com muita carga psíquica, pathos, já após a feitura do túmulo da sua amada e mulher Inês de Castro (1325/7-I-1355).

 «Estes dois túmulos góticos, nos quais um mestre provavelmente de Coimbra, e quase que num estilo de miniaturas iluminadas de Livro de Horas, ou hoje de banda desenhada, esculpiu magistralmente (embora mutilados em algumas partes pelos invasores franceses) nas edículas cenas da vida e morte de Inês e de Pedro, e de passos da vida de Jesus e da tradição cristã, estando as esculturas em tamanho natural acompanhadas de Anjos, serão a fonte mais consultada ou inspiradora da forte pintura, histórica e cromaticamente, psicológica e espiritualmente, de Maria Fátima, a qual certamente ao longo dos dois anos do trabalho criativo de trazer o potencial à tela e nos seus sonhos e devaneios, pensamentos e meditações, comungou com o mundo histórico e trágico, amoroso e divino de Pedro e Inês e, quem sabe, com as suas almas espirituais, agora livres de todos ou muitos dos constrangimentos.
Poderemos talvez dizer que a bela e doce Inês é erguida, tanto pela cultura portuguesa como sobretudo pela pintura de Fátima, a um ser crístico, um ser ungido de amor, um ser sacrificado e martirizado, mas para que amor desabroche imparavelmente, perenemente.
É um Cristo (um ser ungido) feminino português, amparado pelos Anjos, abraçado pelo marido e cuidando das suas crianças que contemplamos.»
                                                                                 
    «A pintura de Maria de Fátima Silva, ainda que com muitos laivos de amor cortês ou de religiosidade gótica e angélica, está carregada de tal intensidade amorosa, que se torna carnal, musculada, de mãos, pés, seios, cabelos, sorrisos e ora em fusão amorosa ora em pieta de compaixão, e surge para a nossa contemplação apoiada nas geometrias e rosáceas góticas da época que ela soube sentir e recolher, recriando os ambientes do mundo histórico e da natureza que os envolveram, com destaque para as aves, e imaginando ainda a graça da companhia dos Anjos no mundo psico-espiritual a que eles têm acesso, qual ilha do Amor intuída por Camões nos Lusíadas».
                               
 
                                      
  «É no túmulo de D. Pedro que as delícias do amor conjugal e o trágico assassinato de Inês são representados, assumindo D. Pedro o papel tanto de amoroso, como de queixoso e justiceiro, embora em ambos os túmulos jacentes estejam representados com as feições serenas, belas e apoiados pelos Anjos.
Muito disto ecoa nas pinturas da Fátima, por vezes trazendo Inês e Pedro para os nossos dias, tanto mais que a capacidade de ultrapassar os limites da linearidade do tempo é bem visível na sua obra, como que tendo acesso ao campo unificado de energia consciência e informação ou, pelo menos, tentando intuir e penetrar os mistérios que a História sempre deixa nele.
O monumento magistral gótico tumular é interpelante, fracturante, no seu apelo e afirmação do Amor sacralizado e eterno acima das conveniências sociais, e a sua recriação artística ou pedagógica pode ser bem poderosa para despertar mais o amor em nós, a nossa vontade de sermos mais verdadeiros, sinceros e intensos nos breves momentos que a Roda da Fortuna acompanha a da Vida...
Assim a pintura de Maria Fátima da Silva está carregada dessa intensidade do amor, do pathos, da paixão nos dois sentidos que aconteceram, o feliz e o trágico, e, simultaneamente, da ressonância ou acompanhamento dos mundos espirituais e angélicos nos passos de amor e de dor e desencarnação, e logo reunião e ressurreição em corpo psico-espiritual.»
                              
                        
                             
                        
                               
 «O realizar-se esta exposição e recriação do mítico amor de Inês e de Pedro, em Alcobaça, junto ao local onde se depositaram os seus corpos e onde algo deles é mantido, ou mesmo intensificado ocasionalmente, ao longo dos séculos, permite-nos auspiciar a esta exposição um carácter quase mágico, de ressurreição, de boa nova ou evangelho, anúncio do amor eterno ou perene que vence todos os obstáculos e limitações e nos chama a sermos verdadeiros e sinceros na entrega total ao amado ou à amada, de corpo, alma e espírito, e procurando verdadeiramente atingir a unidade e nela recebermos a bênção divina, a desvendação da nossa ligação espiritual, e que Inês e Pedro conseguiram certamente tocar e entrar e, através desta bela e intensa arte impregnada do amor, janela entre os mundos, partilhar».
 
 
 
 «Poderemos então dizer que esta exposição Amare é uma recriação perenizadora do Amor, na melhor tradição dos Fiéis do Amor de Portugal, na qual Inês e Pedro, D. Dinis e Isabel, o Infante D. Pedro das Sete partidas, Damião de Goes, Camões, Jorge Ferreira do Vasconcelos, Fernão Mendes Pinto, Bocage, Antero, Wenceslau de Moraes, Florbela Espanca, Leonardo Coimbra, entre outros, se inseriram, testemunhando tal qualidade na busca e vivência do amor e da justiça, da unidade e da Divindade. 
Possa esta exposição Amare ser uma bênção para as forças do Amor em Portugal, e de Portugal para o Multi-universo, e possa a comunhão dos e das Fiéis do Amor, o corpo místico da Humanidade e dos amantes, concretizar-se, tornar-se mais perceptível no nosso coração e consciência íntima e aí como chama de Amor divino desabrochar e ser mais sentida e contemplada, cultivada e partilhada...», como aliás na própria inauguração foi acontecendo em algumas pessoas...
O Nuno, marido da Fátima, e o monge budista Dhammiko, com quem eu seguia para uma peregrinação no Gerês.
                                         
«Possa esta exposição, inaugurada no Verão ardente de 2018, ser verdadeiramente uma comunhão no Graal de Portugal, tal como Maria de Fátima da Silva nas suas palavras introdutórias apela, e que no coração de cada um de nós, e no coração de Portugal e do seu Arcanjo, a chama do Amor seja intensificada e desvendada e que todos os que a virem em peregrinação de estudo histórico ou artístico, pedagógico ou contemplativo do Amor, tão manifestado por Inês e Pedro, sejam por Ele inspirados e fortalecidos.»

Quais cachos de uvas do vinho do Amor humano-divino imortal, glícinias violetas na sebe da casa das musas de Alcobaça que acolheu o Amare de Inês e Pedro.

sábado, 7 de julho de 2018

"AMARE": O Amor Divino em Pedro e Inês. Exposição de Maria de Fátima Silva, em Alcobaça.

                         
O Amor de Inês e de Pedro, no século XIV, foi tão intenso, mas também tão trágico, que se tornou lendário, imortalizou-se, evoluiu para um mito sempre presente e fundador de maior consciência do valor do amor espontâneo, livre, pleno e que, apesar dos perigos mortais que frequentemente o ameaçam, se torna perene, imortal.
Um mito verídico e dinâmico, não baseado apenas em especulações e imaginações mas fundado na realidade, testemunhado na vida e ampliado ao longo dos séculos por todos aqueles, nacionais e estrangeiros, e foram muitos, que se deixaram comover, inspirar e tocar por tal sintonia, entrega e vivência de amor e paixão, acima das convencionalidades e pseudo-razões que se opõem à união livre dos seres que se atraem e ressoam, dedicam e amam.
Esta história amorosa, tornada legendária e perene pela literatura popular e erudita e a arte, continua a fecundar-nos e não podemos deixar de congratular-nos pelo seu arquetipismo operativo, já que, apesar do longo tempo decorrido de oito séculos, estes dois seres ainda estão tão vivos no imaginário e na alma dos portugueses que podem surgir a qualquer momento recriações da sua vida, amor e paixão.
 
 A Maria Fátima da Silva, muito dada à investigação e ao culto da memória histórica, mítica e espiritual dos locais, tendo recentemente realizado algumas exposições consagradas à Atlântida e ao Portugal megalítico, teve a varinha de condão de sentir na floresta imaginal portuguesa a necessidade de mais uma vez vir ao de cima este veio do amor que ultrapassa as razões sociais, os ditames convencionais e assume a sua chama de conflagração libertadora e unificadora, tão valiosa face à massificação consumista e superficializante que acinzenta ou oprime as pessoas nas sociedades modernas, pouco espaço ou valor dando ao amor, à poesia e à liberdade.
A vida, amor e a morte destes dois apaixonados, para além do seu registo em crónicas e em poemas, adquiriu cedo nos túmulos uma materialidade artística tão radiosa e impressionante, nomeadamente ao serem erguidos no ambiente de um estilo gótico tão austero como o da igreja da abadia de Alcobaça, que facilitou eles serem agradavelmente admirados, contemplados e assimilados pela sensibilidade anímica de qualquer época e pessoa.
A Maria Fátima da Silva aproximou-se deste mito fundamental de Portugal com o triplo trabalho do artista, pois não só pôs as mãos, os pincéis e a paleta das cores em acção mas foi tanto lendo e meditando muitas das valiosas obras, crónicas e dramas, poemas e ensaios, dedicadas ao amor de Inês e de Pedro, como também visitando locais associados à vida e e peregrinação inesiana, na busca de se impregnar mais dos eflúvios ou inspirações que ainda hoje se transmitem a quem souber sintonizar e sentir.
Bocage, um vate bem sensitivo, órfico mesmo,  deu maravilhosamente eco de tal: 
«Da triste, bela Inês inda os clamores// Andas, Eco choroso, repetindo;//Inda aos piedosos Céus andas pedindo// Justiça contra os ímpios matadores.//
«Ouvem-se ainda na Fonte dos Amores//De quando em quando, as náiades carpindo;// E o Mondego, no caso reflectindo,// Rompe irado a barreira, alaga as flores.//
«Inda altos hinos o Universo entoa// A Pedro, que da morte formosura/ Convosco, Amores, ao sepulcro voa.//
«Milagre de beleza e da ternura!// Abre, desce, olhe, geme, abraça e c'roa//A malfadada Inês na sepultura».
Ora é na monumental e poderosa Real Abadia de S. Maria de Alcobaça, no transepto da sua Igreja, que encontramos o testemunho mais imortalizante: os túmulos magistralmente esculpidos em pedra calcárea, e que mais do que servirem para darem guarida aos ossos e serem uma memória, são antes maravilhosas chamas historicizadas celebrando e invocando um amor que, embora fisicamente truncado na Terra, animico-espiritualmente viverá «até ao fim do mundo», tal como o justiceiro rei D. Pedro I (1320-1367) pediu ao escultor para gravar na cabeceira do seu túmulo jacente, e certamente numa encomenda tanto transmitida como esculpida com muita carga psíquica, pathos, já após a feitura do túmulo da sua amada e mulher Inês de Castro (1325/7-I-1355).
Estes dois túmulos góticos, nos quais um mestre provavelmente de Coimbra, e quase que num estilo de miniaturas iluminadas de Livro de Horas, ou hoje de banda desenhada, esculpiu magistralmente (embora mutilados em algumas partes pelos invasores franceses) nas edículas cenas da vida e morte de Inês e de Pedro, e de passos da vida de Jesus e da tradição cristã, estando as esculturas em tamanho natural acompanhadas de Anjos, serão a fonte mais consultada ou inspiradora da forte pintura, histórica e cromaticamente, psicológica e espiritualmente, de Maria Fátima, a qual certamente ao longo dos dois anos do trabalho criativo de trazer o potencial à tela e nos seus sonhos e devaneios, pensamentos e meditações, comungou com o mundo histórico e trágico, amoroso e divino de Pedro e Inês e, quem sabe, com as suas almas espirituais, agora livres de todos ou muitos dos constrangimentos.
Poderemos talvez dizer que a bela e doce Inês é erguida, tanto pela cultura portuguesa como sobretudo pela pintura de Fátima, a um ser crístico, um ser ungido de amor, um ser sacrificado e martirizado, mas para que amor desabroche imparavelmente, perenemente.
É um Cristo (um ser ungido) feminino português, amparado pelos Anjos, abraçado pelo marido e cuidando das suas crianças que contemplamos.
 Nas edículas do túmulo de Inês, preenchidas com cenas das descrições do Novo Testamento, tendo a facial a crucificação de Jesus, podemos admitir essa implícita comparação de que a morte de Inês é como a morte de Jesus: um ser de amor a quem é recusado pelos pais ou sogros, o sacerdócio judaico e o estado romano, tal como Inês é rejeitada pela convencionalidade religiosa e pelo pai do seu amado, o rei D. Afonso IV e vários do seu conselho, a que se seguirão ao longos dos séculos os que não serão Fiéis de Amor, ao dela e de Pedro, ou em si mesmos e nas suas vidas...
É no túmulo de D. Pedro que as delícias do amor conjugal e o trágico assassinato de Inês são representados, assumindo D. Pedro o papel tanto de amoroso, como de queixoso e justiceiro, embora em ambos os túmulos jacentes estejam representados com as feições serenas, belas e apoiados pelos Anjos. 
  Muito disto ecoa nas pinturas da Fátima, por vezes trazendo Inês e Pedro para os nossos dias, tanto mais que a capacidade de ultrapassar os limites da linearidade do tempo é bem visível na sua obra, como que tendo acesso ao campo unificado de energia consciência e informação ou, pelo menos, tentando intuir e penetrar os mistérios que a História sempre deixa nele.
 O monumento magistral gótico tumular é interpelante, fracturante, no seu apelo e afirmação do Amor sacralizado e eterno acima das conveniências sociais, e a sua recriação artística ou pedagógica pode ser bem poderosa para despertar mais o amor em nós, a nossa vontade de sermos mais verdadeiros, sinceros e intensos nos breves momentos que a Roda da Fortuna acompanha a da Vida...
Assim a pintura de Maria Fátima da Silva está carregada dessa intensidade do amor, do pathos, da paixão nos dois sentidos que aconteceram, o feliz e o trágico, e, simultaneamente, da ressonância ou acompanhamento dos mundos espirituais e angélicos nos passos de amor e de dor e desencarnação, e logo reunião e ressurreição em corpo psico-espiritual.
 Esta consciencialização e visão do amor que se acontece tanto nesta vida como no além, é fundamental e está bem desenhado e colorido por Maria Fátima da Silva em cenas de beatitude amorosa que tanto podem ser terrenas como já nos mundos subtis, para além do sofrimento e da morte, da efemeridade e transitoriedade.
 Talvez possamos dizer que historicamente a sagração lendária e perenizante foi começada a ser talhada nesses fabulosos dias 23, 24 e 25 de Abril de 1361 quando o corpo de Inês foi levado em procissão ou cortejo, à luz de archotes, de Santa Clara a Velha em Coimbra para a igreja de Alcobaça, a Abadia real, onde coroada e sobre um trono recebeu na sua mão os beijos dos nobres, religiosos e da corte, ao som de ladainhas, cantos e música, à luz dos archotes e velas, com os aromas dos incensórios, sem dúvida uma extraordinária antevisão da ressurreição, realizada feericamente na Terra, em carne, tal era a intensidade do Amor que os unia e percorrera os corpos, o pescoço ou colo, a pele, os lábios e todos os membros deles e que, no fundo, também quer acontecer em nós, apelando a tornar-mos mais seres de amor, em chama corajosa divina de criatividade e de dádiva.
A pintura de Maria Fátima Silva, ainda que com muitos laivos de amor cortês ou de religiosidade gótica e angélica, está carregada de tal intensidade amorosa, que se torna carnal, musculada, de mãos, pés, seios, cabelos, sorrisos e ora em fusão amorosa ora em pieta de compaixão, e surge para a nossa contemplação apoiada nas geometrias e rosáceas góticas da época que ela soube sentir e recolher, recriando os ambientes do mundo histórico e da natureza que os envolveram, com destaque para as aves, e imaginando ainda a graça da companhia dos Anjos no mundo psico-espiritual a que eles têm acesso, qual ilha do Amor intuída por Camões nos Lusíadas.
  O realizar-se esta exposição e recriação do mítico amor de Inês e de Pedro, em Alcobaça, junto ao local onde se depositaram os seus corpos e onde algo deles é mantido, ou mesmo intensificado ocasionalmente, ao longo dos séculos, permite-nos auspiciar a esta exposição um carácter quase mágico, de ressurreição, de boa nova ou evangelho, anúncio do amor eterno ou perene que vence todos os obstáculos e limitações e nos chama a sermos verdadeiros e sinceros na entrega total ao amado ou à amada, de corpo, alma e espírito, e procurando verdadeiramente atingir a unidade e nela recebermos a bênção divina, a desvendação da nossa ligação espiritual, e que Inês e Pedro conseguiram certamente tocar e entrar e, através desta bela e intensa arte impregnada do amor, janela entre os mundos, partilhar. 
 Na longa feitura e preparação desta exposição, nutrida por leituras e peregrinações , meditações e diálogos, dos quais um ou outro eu ainda participei, é evidente que a Fátima se apoiou no amor que sente e vive com o marido, a família, as amizades, o trabalho, as terras, a natureza, as pedras sagradas e a cultura de Portugal e, claro, com Inês e Pedro...
Poderemos então dizer que esta exposição Amare é uma recriação perenizadora do Amor, na melhor tradição dos Fiéis do Amor de Portugal, na qual Inês e Pedro, D. Dinis e Isabel, o Infante D. Pedro das Sete partidas, Damião de Goes, Camões, Jorge Ferreira do Vasconcelos, Fernão Mendes Pinto, Bocage, Antero, Wenceslau de Moraes, Florbela Espanca, Leonardo Coimbra, entre outros, se inseriram, testemunhando tal qualidade na busca e vivência do amor e da justiça, da unidade e da Divindade. 
 Possa esta exposição Amare ser uma bênção para as forças do Amor em Portugal, e de Portugal para o Multi-universo, e possa a comunhão dos e das Fiéis do Amor, o corpo místico da Humanidade e dos amantes, concretizar-se, tornar-se mais perceptível no nosso coração e consciência íntima e aí como chama de Amor divino desabrochar e ser mais sentida e contemplada, cultivada e partilhada...
Possa esta exposição no Verão ardente de 2018 ser verdadeiramente um comunhão no Graal de Portugal, tal como Maria de Fátima da Silva nas suas palavras introdutórias apela, e que no coração de cada um de nós, e no coração de Portugal e do seu Arcanjo, a chama do Amor seja intensificada e desvendada e que todos os que aqui vierem em peregrinação de estudo histórico ou artístico, pedagógico ou contemplativo do Amor tão manifestado por Pedro e Inês, sejam por Ele inspirados e fortalecidos.

Pedro Teixeira da Mota.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Afonso Cautela, vida e obra. Com um vídeo de 30-VI-2018, Oeiras.

Pequenos contributos para o conhecimento de alguns aspectos e linhas de força da vida e obra de Afonso Cautela, com um vídeo no fim, contendo um poema dele escolhido e lido pelo seu colega de jornal Emanuel Câmara e umas palavras finais minhas.

Nascido no Alentejo profundo, em Ferreira do Alentejo, em 1933, o Afonso Cautela desde cedo escrevinhou e poetizou (pelo menos desde os 11 anos, segundo o José Carlos Marques, que está a publicar a sua obra completa nas Edições Afrontamento ), começando a publicar poesia quando frequentava o curso do Magistério Primário em Faro, nos jornais A Escola Nova e Pintassilgo que ele próprio criou no curso, que conclui no Verão de 1955

Participou também no quinzenário A Planície, de Moura, fundado em 1955 por aquele que se tornará seu grande amigo e iniciador, Miguel Serrano, em especial no suplemento cultural Ângulo das Artes e das Letras, que ambos fundam e que acolherá colaboração de Irene Lisboa a Jorge de Sena, de Rodrigues Miguéis a António Ramos Rosa. Em 1958, em Ferreira do Alentejo, gera a sua primeira publicação típica, intitulada "Zero: cadernos de convívio, crítica e controvérsia". E dá à luz em Faro os seus primeiros livros Espaço Mortal (1960) e O Nariz (1961),  este na colecção de poesia Sílex, dirigida por Casimiro de Brito, e onde mistura poesia e prosa num registo confessional e de diário, forte de lucidez, inconformismo e grande aspiração pela justiça e liberdade: «Pois sim, sou metafísico, mas nunca repetirei a lição que obedientemente dais todos os dias. Fechando a tampa por onde espreitava sei que me confundis com um caixote, mas sou a área pura onde quem amo põe os pés.»
Abandonando o ensino primário em 1959, para o qual não se sentia fadado, tanto mais que o tinham desterrado na 2ª colocação, entra durante algum tempo noutra linha de força muito sua: a do amor aos livros, e sua partilha e aconselhamento, e trabalha no Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian no início dos anos 60. Será porém em 1965, graças ao seu grande amigo Miguel Serrano, que se torna jornalista, primeiro na República (1965-1968) onde Miguel já estava, depois n’O Século (1968-77), onde faz grandes reportagens sobre os aspectos negros e verdes do ambiente, Portugal Hoje e France Press (1979 a 1982) e por fim n’A Capital (1982-1996), onde a sua página Guia do Consumidor e as sua Crónica do Planeta Terra, revelando os perigos na alimentação agro-química, e  da industrialização, tecnocracia e eucaliptização, despertam muitas consciências. E assim a sua integridade e frontalidade, sensibilidade e coragem tornam-no um ícone do jornalismo independente e de causas. Viverá em Paço de Arcos, com a mulher Astride e a filha Cristina, seres de grande doçura, e os gatos, os livros, os documentos e a fotocopiadora e impressora...
Já antes do 25 de Abril de 1974 Afonso Cautela estava na primeira linha da ecologia, da alimentação natural e macrobiótica e contra a tecnocracia destruidora do planeta mas quando a Revolução dos Cravos acontece, abrindo as portas e janelas para o pensamento livre, Afonso desdobra-se em criatividade ecológica e alternativa e assim funda em 1974, o Movimento Ecológico Português, com amigos como o agricultor biodinâmico Taciano Zuzarte, José Gomes Ribeiro, que fundará a Trigrama, Jacinto Vieira, Domingos Janeiro e Paulino de Magalhães. E começa a publicar o jornal "Frente Ecológica (um jornal de vanguarda, descolonização cultural, macrobiótica zen, bioagricultura, tecnologias leves, luta anti-nuclear, parto sem dor, revolução artesanal, agrocomunas/sociedade paralela, energias infinitas e não poluentes, reconversão de consumos, alternativas à medicina"), dando à luz 14 números (até 1977). E publica o livro Depois do Petróleo, o Dilúvio, nos Estúdios Cor, a que se segue em 1975, O Alentejo na Reforma Agrária, e O Suicídio Nuclear Português, e o Ecologia e Luta de Classes em Portugal, ambos em 1977.
 Lança ainda nesse mesmo ano de 1974 "duas colecções contra o mau ambiente" policopiadas que terão boa mas artesanal divulgação no crescente meio alternativo português: a "Mini Ecologia", na qual publicará alguns números, tais como: 1 – Posição do Movimento Ecológico Mundial face às ideologias do Desenvolvimento Económico e da violência. 2 – A Estratégia das Ecotácticas – Greve Geral à Sociedade de Consumo. 1974. 3 – Do Biocídio à Utopia Ecológica. 4 – Luta Ecológica e Luta Classes. 5 – Agro-comunas: Alternativas para a Sobrevivência. 1975. 6 – Para um Socialismo Bio-ecológico em Portugal. 
 E a colecção "Ecologia" 1 – Contributo à Revolução Ecológica (Manifesto Contra o Meio Ambiente II) 2 – Estratégia Ecológica e Política (Manifesto contra o Meio Ambiente – III). 3 – Política de Saúde ou Ecologia da Doença.
A década de 70, sobretudo a segunda metade, é vivida fulgurantemente por Afonso Cautela e acompanhei-o em algumas das suas actividades e estudos, seja em bancas de feiras, marchas e manifestações, seja na Livraria Peninsular, seja em sua casa em Paço de Arcos, que era aliás a sede do núcleo coordenador do Movimento Ecológico Português e da Frente Ecológica, para além do lar da sua tão simpática mulher Astride e da filha Cristina. Mas não me lembro se conheci o Afonso Cautela pela Ecologia, se pela alimentação macrobiótica, embora seja bem provável que fosse no restaurante Colmeia, à rua da Emenda, do Abel Trancoso e depois do João Alves, então um pólo por onde passou muita gente em busca de harmonias físicas e psíquicas e onde o rigor na alimentação foi ensinado e muito praticado sempre pelo Afonso, que passou mesmo a prova dos nove de uma dieta de dez dias (ou 15...) só a arroz integral, gomásio e chá...
Dos livrinhos, revistas e jornais que me ficaram transcrevo então ainda mais alguns dados, menos lembrados das biografias feitas ou que se vierem a fazer, e que serão no fundo formas tanto de aprendermos como de continuarmos a luta pela sobrevivência da Humanidade e da sua dignidade, harmonia e espiritualidade, causas pela qual o Afonso sempre tanto vibrou, por vezes demais mesmo, levando alguns a considerá-lo de mau feitio, ou maus fígados, apesar também dos seus sorrisos e olhares doces e inquiridores...
No jornal Viver da Diese, no número de Maio de 1975, a página Temas Ecológicos tinha como coordenador e autor Afonso Cautela e nela estão inseridos quatro artigos críticos do meio ocidental e português onde predomina a sofística ocidental, a exploração do homem, o tapar dos olhos da avestruz perante os múltiplos problemas ecológicos, lançando um apelo em prol do recém formado Movimento Ecológico Português, M.E.P., muito significativo do que o animava: "Prezado amigo do Movimento Ecológico: Estamos a convidá-lo para que seja um dos nossos, um dos que nos ajudem a fazer do M.E.P. uma grande força de opinião e, em breve, uma corrente cívica de real influência na qualidade de vida de todos os portugueses;
-SE a sua vida e a dos seus tem importância para si
-SE a a sua saúde e a dos seus tem importância para si
-SE a sobrevivência das espécies em geral e da espécie humana em especial tem importância para si
-SE o planeta que habitamos e seus recursos, sua gestão gestão racional, harmoniosa, humana e económica tem importância para si
-SE uma sociedade de homens livre e adultos, em vez de uma sociedade de escravos ao gadget, ao consumo e à publicidade tem importância para si
-SE a segurança, a saúde, a sobrevivência e o silêncio têm para si mais importância de que os valores egoístas e infra-humanos impostos pela publicidade, pela mediocridade do Consumo pelo Consumo, então venha trabalhar connosco: [...]"
Em 1977 sai a Ecologia e Luta de Classes em Portugal, em livro, bem como O Suicídio Nuclear Português, e ainda em policopiado artesanal feito em sua casa A Cura pelas Energias. 55 indicações de base, da qual faremos algumas transcrições no fim.  
Em Março de 1978 saía o nº 1 do Jornal da Via Macrobiótica, ligada à cooperativa UNIMAVE que tinha então 3.100 associados. O editor era o José Augusto Leal e os colaboradores Rosa Maria, Afonso Cautela, Jacinto Vieira e José Raimundo, numa tiragem de 5.000 exemplares. Sem colaboração assinada por Cautela, tinha contudo um anúncio da sua livraria: Ecologia e Ciências da Vida, Agricultura, Medicina Oriental, Etnografia, Artes e Ofícios. Livraria Peninsular.

 Neste mesmo 1º número noticiavam-se as comemorações do dia Anti-nuclear mundial de 1978, a 3 de Junho, de iniciativa do Comité de Luta-antinuclear, a reunião inicial do Grupo de Objectores de Consciência e a reunião em Bejar, Espanha, do grupo gandhiano de não-violência, grupos e jornadas em que participei e nos quais o Afonso Cautela também de um modo ou outro foi impulsionador.
Em 1978 saíam também os primeiro números da Revista Urtiga lançada por José Carlos Marques, desde que regressou a Portugal após o 25 de Abril um dinâmico ecologista e editor, sendo publicado em Lagos nos primeiros tempos, onde ele, Deodato Santos (este há mais tempo na freguesia de Barão de S. João, com a sua mulher Inge) e Pedro Cavaco desenvolviam vários projectos ecológicos, agrícolas e de construção, e os quais Afonso Cautela ia divulgando, nomeadamente no capítulo "Barão de S. João: Experiência Ecológica, Pioneiro do Futuro" escrito em Agosto de 1974, e incluído nas Agro-comunas: alternativas para a sobrevivência". 1975.
No nº 5, de Julho de 1978, do jornal a Via Macrobiótica, antecipando uma das temáticas a ser tratada na vinda a Lisboa de Michio Kushi ao 4º Seminário de Macrobiótica, Afonso Cautela escreve um artigo "A moda dos Ovnis" baseando-se em Michio mas também citando o Tao, no qual considera que as doenças, epidemias, poluições são avisos para mudarmos de modelo ou paradigma, para passarmos «do dogma tecnocrático e sintomatológico à dialéctica causal e ecológica», para sairmos do dualismo, da oposição entre microcosmos e macrocosmos. "Este o sentido de todas as alternativas ecológicas, na agricultura, na energia, na medicina, na alimentação, na educação, etc.
Abrir o Discernimento (com o diamante do yoga tibetano ou com a gnose do arroz) é ferir de morte a Ignorância, a Doença, a Treva, a Barbárie.
"O homem dorme e nós viemos acordá-lo", disse Gurdjieff, outro profeta da Mudança».
E terminará o artigo bem optimisticamente: "Em cada novo seminário, Michio irá tornando mais claro e explícito que Macrobiótica não e só mangedora de arroz mas a porta aberta da Iniciação para, dissolvendo o nosso férreo ego, nos fazermos voláteis objectos voadores perfeitamente identificados com a nossa Origem e o nosso Destino.
  • "Acreditas nos Ovnis?"
  • "Não me faças perguntas estúpidas..."»
Em Julho de 1979 no 1º número do Boletim dos Amigos da Terra, com sede na Espiral, onde se destacarão António Elói, a Gertrudes Silva e outros, então com 80 sócios, era prestado um agradecimento ao Afonso na seguinte notícia: "Criação da Biblioteca e Centro de Documentação. Afigura-se-nos bastante urgente, para que todos nós possamos ter acesso a livros, revistas, e outros documentos, que, pelo seu número e preço, individualmente seria de difícil obtenção. Graças à generosidade do Afonso Cautela e da Editora Afrontamento [José Carlos Marques], dispomos já de alguns títulos que poderão ser consultados durante a hora da permanência da funcionária – das 16:15 às 18:15, na Sede provisória."
Devemos lembrar-nos que Afonso de Cautela foi sempre um grande amante de livros, de documentos, e reuniu uma biblioteca bastante grande que foi sofrendo constantes modificações, podas, doações e vendas. Lembro-me de algumas  visitas em sua casa pelos anos de 2000 e de ele mostrar-me os livros nas várias estantes e considerar que tinha reunido uma biblioteca essencial, ou dos títulos mais fundamentais e representativos, cobrindo sobretudo as áreas da ecologia e das energias renováveis, das medicinas complementares ou alternativas e da macrobiótica e da alimentação natural, das energias subtis e da radiestesia, e de religiões, iniciação e espiritualidade.
Em Maio e Junho de 1981, saíam os nº1 e 2 da nova série da Via Macrobiótica, noutro formato mais reduzido,e os colaboradores passaram a ser Afonso Cautela, Fernando Elias, Francisco Varatojo, Dr. Furtado Mateus, João Pais de Faria e Nelson Mendes. Sob o título "Cartas à geração do Apocalipse", Afonso Cautela" atacava muito ironicamente com o sub-título: "Será a Medicina incurável?", iniciando assim o artigo: "A Medicina não é só a maior fábrica de doenças, enquanto industria que tem de alimentar um mercado, como provou em livro inutilmente exaustivo Ivan Illich. O livro em português chama-se em português Os Limites da Medicina"» e alerta para a manipulação que os interesses farmacêuticos ou médicos fazem nos jornais: «Até onde vai a invasão dos «mass media» por esta publicidade gratuita que a indústria médica faz às suas mercadorias? Que estranho privilégio é esse?
Que diriam os médicos se os jornalistas lhes entrassem nos consultórios e começassem também a tratar da saúde aos doentinhos? Que abuso é este? Que invasão é esta?
Quem quiser deixar-se injectar, que deixe. Quem souber como isso se chama em linguagem de gente, que saiba. Mas, publicidade à borla nos nossos jornais, e com vossa licença é ir além da agulha hipodérmica. É já supositório», dando ainda um post-scriptum acerca dos diabetes: «a maior e única dificuldade que a Macrobiótica encontra na cura dos diabetes é quebrar o círculo vicioso criado pela medicina com a sistemática injecção de insulina, que, durante anos, vai atrofiando a função do pântano, até tornar irreversível a sua recuperação. O mais difícil, portanto, na diabetes, não é a doença em si: é a dependência que a medicina química cria de uma droga e a doença que a própria medicina acaba por criar. Essa sim, com o tempo, incurável.»
Aí se anunciava para breve a saída do 1º número da Ecologia em Diálogo, do Afonso Cautela, «para a qual antevemos uma longa vida», anunciando-se que quem a quisesse receber grátis se deveria inscrever. Sairão apenas três números.
 No 2º número, de Junho de 1981, um artigo de Afonso Cautela Cartas à geração do Apocalipse. A dialéctica do Yin-Yang do Ecologismo, uma dinâmica para sair do atoleiro contém constatações ainda hoje bem dramáticas: «Não ver que todo o processo de decadência é a outra face do que se designa por prosperidade, e que todos os retrocessos verificados nesta sociedade são o outro lado do Progresso, eis a cegueira mental mais trágica do nosso tempo. Cegueira que é total no tecnocrata de toas as tendências políticas, e no tecno-burocrata ainda mais cerrada.»
Em 1984 saia a Terra Mágica, do Jorge Fidalgo e do José Carlos Marques e a Sylvia Monterroio e o Afonso Cautela era um dos colaboradores e correspondentes. Um ano depois, em Maio de 1985, o Afonso já não estava nos colaboradores e entraram muitos outros, entre os quais eu. Ano de 1985 em que Afonso Cautela tem a sua única entrada na política partidária, entrando ao lado de Gonçalo Ribeiro Teles, Henrique Barrilaro Ruas e Luís Coimbra, e por amizade com eles, como candidato municipal pelo P. P. M. Partido Popular Monárquico, sendo eleito mas não vindo a exercer.
                                             
 Quanto a sua obra poética, está incluída na antologia Surrealismo Abjeccionismo, organizada por Mário Cesariny em 1963. Em 1965 organiza com Serafim Ferreira em 1965 a antologia Poesia Portuguesa do Pós-Guerra: 1945-1965. Em 1973 é incluído nos Oitocentos Anos de Poesia Portuguesa, do Orlando Neves e Serafim Ferreira.
Em 2007, com Vítor Silva Tavares e Rui Caeiro, participa no volume colectivo Poesia em Verso, publicado pela Livraria Letra Livre, com ilustrações de Luís Manuel Gaspar. Em 2010 o José Carlos Marques, publica-lhe Campa Rasa, nas Edições Sempre-em-Pé. E em 2017 sai o primeiro volume da sua Poesia completa, lançado também José Carlos Marques, na Afrontamento.
Poderemos ainda dizer que Afonso era um homem de grande ânsia, inquietação e luta de resistência à poluição, ao consumismo, à tecnocracia, aos lobbies da medicina, à desumanização, ao materialismo espiritual e pela palavra e pela escrita tentou investigar as mudanças e logo dinamizar e despertar as pessoas.
Certamente que por vezes desanimava, aborrecia-se, algo que ele aliás recuava à sua infância, pois dizia que se lembrava já em criança transmitindo a sua mãe esse sentimentos de estar aborrecido, algo como que uma tristeza existencial, profunda, supra-pessoal, talvez em sintonia com a paisagem quase imutável alentejana e a sua vida futura de jornalista de causas.
Na sua evolução espiritual o Afonso passou por uma certa atracção pelo Budismo Tibetano e depois pelas energias subtis detectáveis e e trabalháveis pelo pêndulo, as grelhas, as pirâmides, os cristais, na linha de Etiénne Guillet, chegando mesmo a dar pequenos cursos na Sociedade Vegetariana (na rua do Alecrim, a 5 euros por sessão) embora com poucas pessoas. Mas com Etiénne a envelhecer e a retirar-se, e a filha e o genro a começarem a comercializar demais, o Afonso foi levado a afastar-se e a pôr em causa também alguns portugueses que se destacavam nos preços elevados que levavam por tratamentos e cursos. Nos últimos anos de vida Afonso Cautela irá orientando alguns livros e documentos dos muitos que tinha para algumas pessoas e sobretudo digitalizando artigos e aplicando os seus conhecimentos desde a ecologia e alimentação à complicada radiestesia de Etiénne Guillet, em críticas ou análises que escreve em muitos textos para os seus vários blogues, perenizando-se assim na internet, da qual estava consciente dos perigos resultantes da avalanche de informação e em muitos casos realizada sem grande profundidade nem o profissionalismo que outrora a informação por jornalistas tinha.
O problema da passagem dos textos lidos e anotados, ou escritos, ou policopiados para livros e para a digitalização foi um tremendo labor que ocupou o Afonso nos últimos anos, sem dúvida a vida toda um trabalhador a tempo inteiro, ou pelo menos na fase de aposentado as manhãs inteiras (e era madrugador), antes de partir de Paço d'Arcos para Lisboa de comboio e almoçar num ou noutros dos restaurantes macrobióticos, o que foi permitindo a alguns de nós bons encontros e diálogos. A magnitude da obra deixada, face ao materialismo consumista e destrutivo da natureza, impulsiona-nos a nunca abdicar de lutar pela utopia de uma sociedade mais ecológica e saudável, justa, lúcida, desperta, harmoniosa.
Uma boa e bela entrevista feita em 2007 pelo jornalista José Luís Fernandes ao Afonso Cautela encontra-se na net, onde pude aliás colher alguns dados suplementares, e nesta breve e rápida contribuição para o seu In-Memoriam (1933-2018) irei acrescentar transcrição apenas de alguns extractos de obras ou artigos menos conhecidos...

 
A CURA PELA ENERGIA. 55 indicações de base: a "2 – Do ponto de vista racional (terapêutica causal), o que importa é deixar o organismo reagir por si, porque o o organismo" – Hipócrates – "é que se cura a si mesmo". Se assim foi e assim será, a única atitude inteligente quando a doença ataca, não é atacar ainda mais o organismo com medicamentos, deixa-lo exausto com alimentos complicados e pesados, mas libertá-lo de todos esses encargos suplementares para o deixar com forças de reagir por si.
A 6 – Para começar, o melhor de tudo é um pequeno jejum. Ao contrário do que afirmam os preconceitos de costumes retrógrados, o doente não deve ser super-alimentado. É exactamente o contrário. Se der descanso digestivo ao seu corpo, este ficará disponível para colocara todas as energias e reservas no "combate á doença".
Indicação 25- A mastigação é um segredo base a que a frivolidade ocidental não liga importância mas que se encontra na raiz das grandes alterações possíveis através da macrobiótica Zen. Enquanto o doente não se convencer da importância da MASTIGAÇÃO na sua cura , a eficácia do regime encontra-se grandemente comprometida.
Ao insistir na MASTIGAÇÃO (30 a 50 vezes cada garfada) a macrobiótica deveria ao mesmo tempo frisar a ENSALIVAÇÃO. De facto, a importância desta primordial operação alimentar, é dupla: primeiro, é com uma boa mastigação que se assegura uma boa digestão, uma assimilação completa do cereal e o seu máximo aproveitamento quer nutritivo quer terapêutico; segundo, uma salivação abundante (a produção de saliva, assim como o PALADAR, também se educa!) irá fornecer ao processo digestivo a dose de ptialina necessária para se efectuar o desdobramento das proteínas contidas no cereal e nos restantes alimentos.
39- Tal como preconiza Oshawa, o Jejum é sempre útil, em qualquer doença e mesmo que não haja doença: é um repouso, uma pausa do organismo que o habilita a recobrar forças e resistência às agressões do meio ambiente, à contaminação do habitat. Mas fazer jejum, não é, para Oshawa, passar fome. O jejum é para ele uma forma de fazer recuar a doença e ajuda a curar outras.
Durante o jejum convém não despender esforços intelectuais nem físicos. Todas as energias do corpo, normalmente utilizadas no trabalho da digestão, se concentram para fazer frente à doença. Além disso, o jejum é um princípio de desintoxicação. Mas a grandes descoberta de Oshawa é que o doente poderá fazer o jejum continuando em actividade, se a sua vida lhe não permitir que sejas de outra maneira. Ideal seria que descansasse, física e intelectualmente. Mas senão conseguir esse ideal, nem por isso o jejum deixará de operar no processo de retrotair a doença.» 
 
                                             
«Quem ouve a voz do pequeno agricultor?.

 As bestas do Apocalipse sabem muito bem que rédeas puxam e para que abismo cavalgam.
A Deus, no entanto, prometeram que consigo haviam de arrastar os servos, os mansos, os justos, os inocentes, os que toda a vida esperaram na terra a terra da Redenção.
As bestas do Apocalipse juraram corromper, de raiz, os solos, a água, o ar, o silênci e a segurança - a Biosfera, em termos técnicos - antes de que a socialização dos bens fundamentais chegasse.
Sabendo que o socialismo é irreversível e a marcha para a justiça imparável, o capitalismo só tem um caminho: suicidar-se. Mas jurou que havia de suicidar consigo a Terra. a Biosfera».
Assim iniciava o seu livrinho Agro-Comunas: Alternativas para a sobrevivência no entusiasmo idealista dos meses a que se seguiram à revolução do 25 Abril de 1974, e que hoje em 2018 vemos bem, como ele aliás cosntatou, em que águas foi parar o socialismo português e a socialização em Portugal...
Mas continuemos com compreensões bem actuais e acertadas neste livro do Afonso:
«A exploração familiar, o amor da terra compartilhado por pai, mãe e filhos, a célula base da resistência ecológica, comunitária e auto-gestionária, eis o inimigo nº 1, hostilizado por latifundiários, por intermediários parasitas, por partidos e ideologias, por todos quantos preconizam a grande dimensão quer capitalista quer socialista.» (...)
«A minha convicção, fundamentada por muitos anos de estudo, alguns de experiência e muitos mais de amor às causas sem glória (desde essa causa inglória que foi a Planície, quinzenário de Moura) é de que a agricultura biológica, no contexto da estratégia ecológica, tem muito a dar ao pequeno agricultor para a sua independência económica, para a defesa dos seus interesses, para a sua integração mais vasta dos descolonizados e a descolonizar».
O exemplo das agro-comunas em 1975 que havia em Portugal era Barão de S. João e o Deodato, e  a safra de arroz que a Unimave conseguira nos terrenos de Almoster, e temos de convir que neste aspecto em 2018, quando o Afonso Cautela deixa fisicamente a Terra, esta está muito mais harmonizada por centenas de explorações ou quintas de agricultura biológica e as agro-comunas também já não são tão poucas Por isto ele foi também um profeta da mudança, um elo da tradição que ele tanto cultivou, quando escreve: «Perto de Lagos, numa freguesia com 700 habitantes, Deodato Santos tenta, há cerca de dois anos, uma experiência que no nosso país se pode considerar original mas que, temos fé, virá a constituir ponto de partida, paradigma e estímulo para outras experiências a desenvolver e a multiplicar nos anos futuros mais próximos».
 
 

Como último ensinamento-testamento, nesta homenagem e comunhão com o Afonso Cautela, leiamos a sua 52ª Indicação de Base, adaptando-a como sentirmos - "CONSERVAR A ENERGIA:PRINCÍPIO ÚNICO DE TODA A CURA.
Na cura pelo Princípio Único tem a máxima importância os mínimos pormenores. Seja qual for o caso, recomenda-se aos doentes: 
- Que use pente de madeira. - Que use talheres de madeira. - Que não coma alimentos frigorificados (o frigorífico desmagnetiza). - Que não cozinhe alimentos em vasilhas de alumínio ou barro vidrado (barro não vidrado não tem inconvenientes). - Que só coma alimentos biológicos (com carga energética). - Que ensalive longamente e mastigue o maior número possível de vezes cada alimento que leve à boca. - Que não utilize farinhas (mesmo integrais) pois nas farinhas o grão já perdeu toda a concentração energética tendo-se pulverizado até ao infinito. _ Que não perca a esperança na cura, porque se é da Energia Eterna e do Infinito que tudo provém e para onde tudo vai, se é do Princípio Único ou lei que tudo depende, a fé nesse princípio e nessa energia pode curar, pode mesmo mudar o destino de uma pessoa.»