terça-feira, 17 de outubro de 2017

O Auto da Vida Eterna e o ocultismo de Augusto de Santa Rita; e Fernando Pessoa

 O ocultismo e a espiritualidade de Augusto de Santa Rita, em especial no Auto da Vida Eterna, do qual transcrevemos o proémio, e o seu relacionamento com Fernando Pessoa, nomeadamente na revista Exílio, de 1916, e na apreciação que este faz ao Auto da Vida Eterna, de 1925.  
Na Exílio Fernando Pessoa afirmou fortemente o ocultismo de Orpheu e dos que a seguiam.
O
 Auto da Vida Eterna, publicado em 1925, proporciona uma boa entrada na visão espiritual, na sensibilidade astral, na sublimidade do Amor e no conhecimento ocultista de Augusto de Santa Rita, em suma, na sua gnose, a qual podemos considerar próxima da de Fernando Pessoa, que a valorizará, se descontarmos tanto o maior conhecimento esotérico como a menor abertura do poeta da Mensagem aos aspectos femininos, nomeadamente a Maria, mãe de Jesus, ainda que a poucas semanas de morrer tivesse voltado a ela e à sua invocação poético-orativa.
No proémio, que transcrevemos, escrito provavelmente antes da peça, destacaremos o carácter mântrico, ou seja, de se poderem orar, de alguns versos, e sobremodo o segundo da tríade inicial: “Místico encanto/ Graça bendita,/ Alma infinita,/ Espírito santo” o qual tanto se pode ligar a Maria, como ao Espírito Santo, como à alma humana aberta ao Espírito. 
Após tal invocação trina divina dá-se, à graças ao misterioso ou anónimo génio (expressão-estado de consciência-ser já invocada na revista Exílio, a descida «do Anjo da Guarda do autor do poema», originalíssima utilização do Anjo da Guarda, o qual expõe em belas quadras a «génese da peça e o estranho tema», vindo para «falar do Além, da Eternidade», seguindo-se uma bela série de analogias da luz angélica com a vida humana e a natureza, tendendo a despertar ou fazer «palpitar o Coração das Cousas» e seres e que a visão interior do poeta capta e partilha, desvendando, por exemplo mais lapidar, que:  «Há depois desta Vida outra existência,
                        Que é outra realidade mais real;
                        Em tudo quando existe há uma essência
                        Divina, eterna e sobrenatural».
E que «quem ama traz as chaves do Céu na própria mão».
Transcrevemos então o proémio: 
                                        «VISÃO
                                          Proémio
       Sobe o pano... O do fundo, em translucido azul
       E em cuja face incide um foco: - oiro e lilaz,
       Conserva-se descido, ecoando por detrás,
       Uma coral canção longínqua, vaga, exul!...

             CORO CELESTIAL, como em nocturna paz
                                    As virações do Sul:

                                    Virgem Maria,
                                     Mãe de Jesus,
                                     Divina Luz...
                                     Eterno Dia!
 
Místico encanto                                  Claro esplendor
Graça bendita                                      Hosanna aos Céus
Alma infinita                                       Hosanna a Deus
'spirito Santo!                                       Nosso Senhor
                     De súbito um relâmpago se faz,
                          Relâmpago de génio,
                          O génio que em si traz
                  Um Anjo que do Céu baixa ao proscénio,
                  Anjo de essência excepcional, divina,
          O ANJO DA GUARDA DO AUTOR DO POEMA
                 Que expõe, ao som da música, em surdina,
                 A génesis da peça e o estranho tema:

         Salvé Mortais!... Baixei dos Céus, neste momento,
         Para vos vir falar do Além, da Eternidade!
         Sou o Anjo da Guarda, o Guia, Amparo, Alento
         De um Poeta que tem cem mil anos de idade!
 
        Que morre de hora a hora e nasce a cada instante,
        Que os Céus, a Terra, o Mar e as coisas decorou
        Na memória do Instinto, eterno caminhante,
        Em cujo alforge ideal tudo o que viu guardou.

        Sou o Anjo da Guarda, a Sombra que se esbate
        Em penumbra, se esconde e apenas se presente
        Quando, pela noitinha, à luz de uma cor mate
        É uma voz que segreda à alma de toda a gente.

       Sou essa luz que fala, em silêncio rezando,
       Murmurando, dolente, uma nova linguagem
       Que alguns não sabem ler, mas que outros soletrando,
       Começam a entender nos bafejos da aragem.

       Sou essa luz que fala e que um Poeta ouviu,
       E ouvindo-a, a estendeu! Sou essa voz divina
       Que embala o Mar à noite e à tarde em cada rio
       Se ouve rezar, orando uma prece em surdina.

       A luz que ao pôr do Sol encara as gelosias,
      Bate, leve, à vidraça e acena adeus às almas;
      Sou a luz que, ao soar na ermida Avé-Marias,
      Faz joelhar os jardins ao baloiçar das palmas...

      Sou a luz da manhã, quando os lírios, no val',  
      E as camélias, no parque, acordam do seu sono;
      Que ao sorrir, para os Céus, ergue o seu avental,
      No gesto que traduz a Primavera e o Outono.

      A luz azul-violeta, a lua, pelos astros,
      Beijando a solidão na quieta paz das lousas;
      Que extasia de espanto as torres e alabastros,
      Fazendo palpitar o coração das Cousas!
 
      Sou essa luz... a luz que já não é só luz
      A luz que Deus filtrou num filtro d'oiro: a Hora. 
      Luz-essência, Luz-fé, Luz-Alma de Jesus,
      Que, de tanto chispar, se fez clarão de Aurora.

     A luz que não alcança a retina do astrólogo
     E que só a Visão do Poeta, atinge e vê,
     Corporizada aqui, neste proémio-prólogo,
     Para vos vir dizer o que este poema é.

      Há depois desta Vida outra existência,
      Que é outra realidade mais real;
      Em tudo quando existe há uma essência
      Divina, eterna e sobrenatural.

      É, pois, essa existência e esse outro Mundo,
      Que ides ver perpassar, com pasmo e assombro,
      Pisando o mesmo lodaçal imundo,
      De braço dado, ou antes, de ombro a ombro!

       Nada mais achareis que um simples drama
       De um grande Amor, de uma eternal paixão,
       Mas esse pouco é tudo, pois quem ama
      Traz as chaves do Céu na própria mão!

      Chaves com que eu irei abrir as portas
      Do Céu, do Alem, de toda a Eternidade;
      A fim de que aprendeis que as coisas mortas
      São as coisas mais vivas em verdade!
                  …............................
    Ficai atentos!... Preparai as almas
    Para a divina comunhão da vista!
    Se entenderdes, no fim, coroai com palmas
    Não o autor, mas Deus: - o Único Artista!

     E num rápido voo ascensional,
     O Anjo excepcional,
     Desaparece, abandonando o Mundo,
     Num melódico gesto de harmonia;
 
      O translúcido pano azul do fundo
      Ergue-se e logo a peça principia.»
       E segue-se o belo e emocionante auto, em “3 Sonhos e nove Cânticas”, em cerca de 170 páginas, num belo in-4º impresso em papel de linho e com desenhos e vinhetas de Eduardo Malta.
      Este teatro lírico trata do amor do poeta Gabriel e da etérea Leonor e faz entrar em cena tanto o corpo astral de cada um como o Anjo de guarda deles, e revela bastante sensibilidade ao mundo astral, com a sua dualidade, e à vida depois da morte, bem como aos Anjos, ao Amor, aos mundos espirituais e à Divindade.
 
    Não admira assim que Fernando Pessoa muito apreciasse Augusto de Santa Rita e depois de já ter colaborado na sua revista Exílio (sobre a qual gravei uns vídeos para o youtube e escrevi em: http://www.revistas2.uepg.br/index.php/uniletras/article/view/9409) de Abril de 1916 e de ter assinalado numa carta de Setembro do mesmo ano a Armando Côrtes-Rodrigues, após mencionar que Orpheu 3 em breve estaria nas bancas, que de importante literáriamente só havia a registar, além do Manifesto anti-Dantas de Almada Negreiros, a Luz Poeirenta de Silva Tavares, dedicado a ele, e as Praias do Mistério de Augusto de Santa-Rita (uma obra com bastante sensibilidade às subtis almas e Anjos), em 1925, num texto inédito até hoje, e a que já me referi uma ou outra vez, Fernando Pessoa volta a elogiar fortemente Augusto de Santa Rita.
Oiçamo-lo então em alguns extractos desse texto que fala do ocultismo de Fernando Pessoa, de Orpheu e de Augusto Santa Rita:
«O ocultismo, porém, como a todas as religiões transcende e excede, excede e transcende cada um per si através dela mesma. Não lhe diminui os símbolos, as lendas e os ritos, senão que os eleva, interpretando-os, para fora da materialidade que lhes impôs o baixo espírito, crédulo que não crente, da maioria dos seus fiéis.(...)
«Como se têm infiltrado na mesma substância da inteligência europeia, é de ver que as ideias teosóficas e ocultistas por toda a aparte aparecem na literatura. Aparecem de três modos distintos: com teorias formando parte da tese ou fábula da obra – o que se vê nos numerosos romances ocultistas que hoje se escrevem; como emoção profunda de mistério e de além permeando indefinidamente já a fábula, já o estilo, já ambas as coisas – como tanto consciente como inconscientemente se faz em Portugal (mais e melhor que em qualquer outro ponto) na corrente que surgiu no Orpheu; como novo modo de encarar os antigos ritos e lendas que constituem a substância aparente do cristianismo, e sobretudo da sua parte pagã, que é a religião católica.
Esta última espécie de infiltração ocultista é a mais rara de todas. É a ela que claramente pertence – e entre nós é, creio, a primeira obra distintivamente dessa espécie – o Auto da Vida Eterna, de Augusto de Santa Rita. Num enredo, ou fábula, formado directamente de elementos católicos e sentimentais, no pleno sentido tradicional entre nós, infiltra o poeta – sem contradição real e com verdadeira emoção sincrética – vários elementos do ocultismo, e designadamente a sua teoria do corpo astral. Não leva Santa Rita esta sua interpretação ao ponto herético de não afirmar claramente a imortalidade da alma, afirmando tão somente a sua sobrevivência.
***  

 Como todos sabemos, se ambos os poetas nasceram no mesmo ano de 1888  outra seria a longevidade de Augusto de Santa Rita que publicaria ainda em vida de Fernando Pessoa vários contos infantis e juvenis (além de fundar e dirigir desde 1925 a famosa revista infantil Pim Pam Pum) e o Poema de Fátima, (1928), no qual insere no proémio um veio pagão e islâmico de uma princesa de nome de Fátima convertido ao amor de um cavaleiro cristão e logo ao Cristianismo, antes de entrar na hagiografia mariana dos três pastorinhos. 
Vinte e dois depois do poeta da Mensagem ter partido deste mundo físico, em 1957, era a vez de Augusto de Santa Rita despreender-se, sem que nesse ano não fosse publicado postumamente pela Câmara Municipal de Lisboa o seu belo livro O poema de Lisboa, mas será em 1952, que sai à luz o Caderno nº 1 Produções Literárias d'Augusto de Santa-Rita, onde um testamento de  ideias e espiritualidade se transmite (nomeadamente as Coisas que convém saber e dedicado ao pai do nosso companheiro e alma desta homenagem, Guilherme de Santa Rita), do qual destacaremos os dois últimos parágrafos do Preâmbulo e depois uma proposta-realização semi-pessoana. Oiçamo-lo então: 
«Fazer versos não é um simples entretenimento como, por exemplo, fazer ou decifrar palavras cruzadas. É uma nobre missão, um apostolado que se cumpre por uma imposição terminante da própria existência espiritual, depois de muito experimentada pelo sofrimento de sucessivas gerações ancestrais.
Poesia é a a exaltação da Vida com todas as suas manifestações de dor e alegria, de Passado e Presente, de pecado e de redenção. É uma forma de agradecimento a Deus pela divina dádiva do Amor, uma prova de gratidão e uma expressão de humildade, que é a maior, a melhor e a mais bela conquista das criaturas humanas.»
Quanto à proposta e já na época de certo modo realizada, e com qual encerramos este artigo de homenagem aos irmãos Santa-Rita e a Fernando Pessoa, na véspera do debate de 18-X-2017 que a Casa Fernando Pessoa acolhe e homenageia, intitulado Os irmãos Santa Rita e Fernando Pessoa. Dos cafés do Chiado às tertúlias no Estoril (e em que participam o Guilherme de Santa Rita, o João MacDonald e eu), foi a seguinte, concluindo um texto intitulado Iniciativas particulares. «Imaginar, sonhar, tentar, executar e apresentar»: «Alguém se lembrou já entre nós, de construir na rua Coelho da Rocha uma série de estúdios para artistas plásticos (...)» E eis-nos  na humanística domus studium de Fernando Pessoa, sob a égide ou quem sabe o misterioso génio dos Santa Rita...

sábado, 14 de outubro de 2017

"Beatrice" de Antero Quental. Leitura-comentário dos 1ºs quatro poemas p...


A Beatrice, de Antero de Quental, editada em 1863, em Coimbra, na Imprensa da Universidade, com 39 páginas impressas, quando ele tinha apenas 21 anos, assinala a segunda manifestação em livro (após a edição pequenina dos Sonetos em 1861) do seu veio poético e em especial amoroso, lírico, romântico, cristão, idealista.
O poema livre, ou se quisermos "a colecção de poesias", está dividido em dois cantos, o primeiro, mais lírico, contém treze poemas, alguns deles em forma de soneto, e nele está bem presente a busca do amor humano e divino; o segundo, mais religioso e metafísico, contem apenas três poemas, e manifesta a sua aspiração ao mundo celestial e ao Pai Divino, estando ainda bastante devedor da cosmovisão teológica católica, algo que ele depois porá bastante em causa, tal como o seu antecessor Bocage fizera.
Neste primeiro vídeo comentamos e mostramos ou lemos os quatro primeiros poemas, destacando os ensinamentos mais luminosos sobre a visão e a experiência do Amor que Antero sente e poetisa.
Realcemos a sua experiência do amor como incêndio que arde cresce e se expande no peito e que alaga até o peito da amada e no peito-templo dela se ergue como chama e incenso-aspiração à Divindade.
Também o Amor como energia que emana entre os seres que se amam ou se querem e assim se fortificam.
Amor, que melhor que tudo o lábio da mulher transmite.
Amor invocado em oração, jaculatória ou mantra, no verso seguinte: Coração! Coração! Eia! Ressurge! Vive!”, e que bem poderemos utilizar de vez em quando para intensificar o Amor, na linha da Tradição Espiritual Portuguesa...
Para contextualizarmos melhor as poesias (e ao de leve as paixões-Amor de Antero, sendo esta que inspirou o poema a segunda conhecida) juntemos agora, e já depois de gravado o vídeo (...), a partir das indicações passadas por José Bruno Carreira, no seu incontornável e monumental Antero de Quental, subsídios para a sua biografia, os testemunhos ou apreciações de Alberto Sampaio, que disse que «elas foram inspiradas por um sentimento real», de Teófilo Braga, que temos de tomar sempre com cautela, «que possuía um manuscrito desta poesia datado de "Figueira, Setembro, 1860"», de Sérgio de Castro, já em 1943: «A Beatrice! Teve existência, não era de imaginação, não pairava nas nuvens, passeava por este planeta... Eu sei quem ela era; formosa a mais não ser...» e, para terminarmos, as mais importantes de Fernando Leal, escrevendo sob o pseudónimo de Gustavo André, no Mandarim de 19-X-1881, ainda em vida de Antero:«Teve um amor na sua vida: foi a Beatrice, aquela Beatrice que lhe valeu um poema que é uma obra prima de poesia idealista, e que ele consagrou a - Nome que não se diz, nome que não se escreve.   Era uma mulher lindíssima dos arredores de Coimbra, uma mulher honesta que nunca soube da paixão que inspirara. Ele respeitava-a como um Deus, quando a via, com a sua figura majestosa, no meio de um rancho de filhitos sadios e rosados. E quase todas as tardes ia a pé desde Coimbra até ao Buçaco, à Cruz-Alta, creio eu, para de lá ver muito ao longe, a casa de campo onde ela habitava», o que explica melhor ou ambientalmente a constante utilização da cruz no poema. 
Oiçamos então o poema e o breve comentário e de improviso gravado...

                                 

domingo, 1 de outubro de 2017

Efemérides de Outubro do Encontro entre o Oriente e o Ocidente, da Índia e Portugal

1-X. Carta do P. António Ceschi, em 1653, na corte mogol em Deli, Índia, acerca do príncipe Dara Shikoh, vestido com pobreza no meio de 500 nobres de roupas resplandecentes e jóias, muito amigo dos padres cristãos, vivendo numa demanda espiritual profunda mística e de sentido universalista e, tal como disse François Bernier, um dos famosos escritores viajantes que o conheceu, «hindu com os hindus, cristão com os cristãos». Era contudo um místico, um sufi, um iniciado discípulo de Mian Mir e Mullah Shah, profundo conhecedor dos caminhos de realização do espírito e da Divindade, e deixou-nos algumas obras de mística e de pioneiro comparativismo religioso. Deveria ter sido o herdeiro do trono de Shah Jahan mas as forças fanáticas do seu irmão Aurangzeb não permitiram tal.
                                 A escritora Maria Amália Vaz Carvalho, sócia da Academia das Ciências de Lisboa, casada com o poeta Gonçalves Crespo, amiga de Antero de Quental, escreve neste dia em 1877 uma carta a António Lopes Mendes, sobre o livro que este escrevera, Índia Portuguesa: «Mais feliz do que eu, você foi buscar a inspiração que lhe faltava aqui, nessas regiões misteriosas em que a terra é tão pródiga de esplendores que fascinam».
Hermenegildo Capêlo e Roberto Ívens, acabados de chegar das suas travessias das amplas terras africanas, dão uma conferência na Sociedade de Geografia de Lisboa sobre os aspectos científicos e humanos da expedição, perante o rei e a corte em 1885. Ívens escreverá um dia que «à Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos sertões de África, não é dado compreender o que se sofre ali, quais as dificuldades a vencer a cada instante, qual o trabalho de ferro não interrompido para o explorador»
Discurso do 1º ministro indiano Jawaharlal Nehru neste dia, em 1958, no Sikkim, ao inaugurar o Instituto de Tibetologia: «Encontramo-nos hoje numa encruzilhada, em que talvez para se encontrar a solução para os problemas criados pelo avanço da Ciência e Tecnologia, temos de ir para algo fora das aproximações normais do mundo físico. Temos de ir para outro nível, chamemos-lhe domínio do espírito. Temos de ir para outras dimensões do pensamento, talvez para a 4ª dimensão. A ciência libertou já enormes forças que parecem ir além da 3ª dimensão, e assim para o homem as controlar, ou compreender correctamente, tem de começar a pensar noutros níveis, chamemos-lhes 4ª dimensão ou o que quisermos». Donde a necessidade do espírito científico do budismo e do instituto de estudos tibetanos que ele inaugurava.

2-X. Na reforma da Ordem de Cristo estatuída no convento de Tomar neste dia em 1449 determina-se, entre outras regras, que os cavaleiros só podem comer carne três vezes por semana e que devem rezar diariamente as Horas de Santa Maria, ou 60 Pai Nossos e 60 Avé Marias, escalonadas por horas, se o puderem fazer. No Capítulo da Ordem, de 1503, reunido em Tomar, serão equacionados alguns dos preceitos que eram então pouco cumpridos.
                                 
Nasce na Itália em 1550 o P. Rudolfo Aquaviva, filho do duque de Atri. Será uma das grandes almas das missões à corte mogol, por aprender a língua persa e pelos seus escritos, austeridades, orações e sabedoria os quais lhe vão grangear a amizade de Akbar e dos seus próximos. Insistindo o imperador no seu desejo de participar numa missa, realizou-a o P. Aquaviva com grande fervor e lágrimas, mas Akbar no fim queixou-se um pouco amuado: «Você comeu e bebeu, mas não me convidou». Uma pena, a letra que mata o espírito, um ritual invocativo e mágico que, petrificado num formulário litúrgico, pese a ardência mística de Aquaviva, impedia a comunhão de nobres almas...
O P. Bento Fernandes, de Borba, recebe a palma do martírio em 1633, em Nagasaki, a cidade erguida e administrada pelos jesuítas, com 20 anos de trabalho intenso e difícil de tentar converter, encaminhar ou estimular os japoneses nas vias cristãs.
Nasce em Nova Iorque o visconde Francisco Stuart de Figaniére, em 1827, filho do embaixador de Portugal na USA, autor duma das primeiras obras portuguesas com muitos dados da sabedoria esotérica da Índia, segundo as doutrinas teosóficas, Mundo, Submundo e Supramundo, sem dúvida uma das mais ousadas incursões em tais níveis entre nós.
                                   
Em Calcutá, em 1866, nasce Swami Abhedananda, discípulo de Ramakrishna, condiscípulo de Vikenananda, que o enviará para a USA, onde estará à frente da Missão Ramakrisna durante 25 anos. Deixou uma vasta obra de conferências e de ensaios. Dirá: «O dever da verdadeira religião é alargar a mente, abrir os olhos espirituais, conduzir a humanidade à realização da unidade com o supremo Pai no Céu, e reprimir todas as lutas sobre os dogmas e credos».

Mohandas Karamchand Gandhi, o apóstolo da não-violência (ahimsa), auto-subsistência (swadesh) e auto-governo (swaraj), o pai da Índia independente, nasce em 1869, em Porbandar, no Guzerate. Depois duma luta pioneira de anos pelos direitos humanos na África do Sul, passa à terra-mãe em 1915, para participar num Congresso em Madras sendo acolhido num discurso por Subbier Subramania Iyer que enaltecerá a sua determinação e metodologia de não-violência, ahimsa. Além de líder humano e político Gandhi fez uma demanda espiritual exigente e transmitirá frequentemente ensinamentos valiosos e incendiando de aspiração libertadora e fraterna as pessoas que contactavam com a sua grande alma: «A minha afirmação de ouvir a Voz de Deus não é uma asserção nova. Infelizmente não há maneira de a provar excepto através dos resultados. Deus não seria Deus se tivesse de ser um objecto de prova para as Suas criaturas... As diferenças de opinião não devem significar hostilidade. Se assim fosse, a minha mulher e eu seríamos inimigos jurados... Toda a verdadeira arte deve ajudar a alma a realizar o seu Eu interno». 

3-X. Vasco da Gama, em 1502, na sua segunda viagem, e em que se vinga do que lhe fizeram na primeira, persegue e ataca uma nau de Calecut vinda de Meca e carregada de comerciantes, mulheres, crianças e grande riqueza. Já depois de saqueados e rendidos, imploraram piedade mas como foi decidido pegar-lhe fogo, lutaram bravamente durante um dia até serem todos mortos, recolhendo-se apenas 20 crianças. Acerca deste brutal acto, o jornal Brado de Damão em 1898 lamentará «que D. Manuel, célebre pelas suas gigantescas aventuras marítimas, a ponto de converter em empório do mundo um microscópio tracto do extremo ocidente, que apenas continha um punhado de gente, não tivesse sabido cimentá-lo com os indestrutíveis elementos de humanidade, generosidade, liberdade...» Esta tragédia é uma das infelizmente muitas que ensombraram a expansão portuguesa no Oriente, geradora de violência sobre violência, sobretudo ao rivalizar com o poderio islâmico no domínio da economia de mercado livre que fluía no Oceano Índico. Actos escusados, mesmo em estado de guerra, eram frutos das tensões gerais que só por grandes seres poderiam ser manobradas correctamente. Pouco depois, Vasco da Gama fez outra mortandade e enviou-a sob a forma de presente para o Samorim de Calecut, «dizendo que aquela morte era piedosa comparada com a que guardava para os executores da do feitor Aires Correia» (Faria e Sousa). Na sua terceira viagem para a Índia, tendo descoberto em Moçambique três mulheres no navio, mandou-as açoitar «porque com todas as suas forças havia de punir os maus, para que não crescessem os males que fazem os que não temem a Deus, que nunca em mim terão senão crueza e punição». Afonso de Albuquerque fez cortar narizes nas costas da Arábia e enforcar na verga da nau o capitão Rui Dias que namorara uma das prisioneiras mouras que ele queria enviar para a rainha. E muitos outros nomes haveria dos que praticaram crueldades, sem sequer qualquer motivo de justiça, tal como Domingos Mesquita, Pedro de Barreto, Duarte de Eça, ou que entraram em traições, assassínios. Mas, quando se insiste neste lado mais sombrio, deve-se relembrar que nos outros povos não era menor a ferocidade ou crueldade.

4-X. Em 1214, S. Francisco de Assis cruza a fronteira e está em Braga, Ponte de Lima e Bragança, segundo certas crónicas, talvez algo lendárias.... Ao longo dos séculos muitos franciscanos cruzarão as fronteiras das limitações, das inimizades e diferenças, tentando manifestar o Espírito Santo em paz e amor. No Oriente destacar-se-ão no princípio da expansão portuguesa e de tal modo que Jaime Cortesão considerou serem o espírito de Cavalaria e a fraternidade Franciscana os dois pilares do templo dos Descobrimentos. Com o tempo, o relaxamento e as rivalidades entre as ordens diminuirão a pureza, desinteresse e abnegação da Ordem, e o culto flamejante amoroso do Espírito Santo escapa-lhes de certo modo das almas e quase que se apaga, senão fossem alguns irmãos do Amor que isolados atingiram e viviam a sua Unidade, ou o povo português que na sua base mais genuína sempre foi franciscano, no sentido de fraterno, simples e dotado de grande fé e capacidade de dádiva.
                             
Dr. Venkataratnam Naidu nasce em 1862 em Uttar Pradesh. Filho dum soldado no exército inglês da casta inferior dos sudras, que pelos códigos do hinduísmo não teria direito ao conhecimento das escrituras, foi estudando persa, árabe, urdu, sânscrito, inglês, dominando culturas e religiões até chegar a professor e a vice-chanceler da Universidade de Madras. Aderindo ao Brahmo Samaj de Rammohan Roy, tornou-se um dedicado pedagogo e reformador social ao que aliava uma vida espiritual mística e ecuménica. Lutou contra a prostituição sagrada, que nascia da casta dos sudras, contra a intocabilidade de milhões de párias, contra o alcoolismo, contra os casamentos caros, e os infantis. Como experimentado pedagogo, conhecedor da importância da cultura e da moralidade, dirá: «A assunção básica da Cultura é que o interior do ser humano é uma mina de poderes misteriosos. O grande objectivo da verdadeira educação é pôr o ser humano na posse consciente destes poderes, dos quais o primeiro é a percepção, a capacidade de ver com uma mente investigadora». Depois, pela disciplina e o exercício, ele frutificará em discriminação, sabedoria e iluminação. «Moralidade — a resposta correcta do ser humano aos seus ambientes temporais — elevar-se-á irresistivelmente em Espiritualidade — a resposta correcta do homem aos seus ambientes eternos». E dirá ainda: «A vida só se realiza e cumpre se é inspirada e ordenada pela adoração a Deus, que nasce da consciência de que o Universo é a emanação do Amor, da delícia divina, do ser Supremo».

5-X. Luís de Almeida, cristão-novo, comerciante, cirurgião («entendia muito bem de cirurgia arrazoado latino») e capitão no Extremo Oriente, condoído com a pobreza e doença no Japão, vende tudo o que tem, põe-se a seguir Jesus, aprende a falar japonês, funda uma creche e um hospital em que introduz a medicina ocidental e a cirurgia no Japão, e onde dá aulas preparando assistentes japoneses. Curando muitos corpos, «tem conhecimento de ervas e de outras mezinhas com que os cura», converte também muitas almas como padre e jesuíta. Amigo de Fernão Mendes Pinto, deixou-nos uma importante História do Japão e belas cartas antes de arder em amor e febre em 1583, na casa do seu amigo dáimio D. João Amakusa Hisatane. Nas cidades de Oita, Hondo e Nagasaki encontram-se monumentos a ele, dizendo uma lápide da última martirizada cidade: «Luís de Almeida. Médico e Missionário. O Primeiro Português que chegou a Nagasaki. 1567».

                          
O mestre Ramalinga nasce em 1823 em Chidambaram, Índia. Não ensinado, ele ensinou sabedoria. Pelo processo de meditação numa chama em frente ao espelho, e por uma vida abnegada, acendeu o seu génio a uma fulgurância tal que milhares adoravam com ele a Graça Divina no Templo da Luz, em Valadur, cantando «Viva a Luz da Graça Suprema, Viva a Compaixão». Reformador social, criticou as diferenças de castas e religiões e intensificou em muitos a tomada de consciência da Unidade amorosa e beatífica divina.

6-X. O P. Mateus Ricci nasce em Macerata, Itália, em 1552, de família nobre. Estudos bem desenvolvidos no colégio de Roma, a passagem dum missionário autêntico (em 1576) e o português Martinho da Silva fázem-no despertar para tal vocação, chegando a Lisboa em 1577, donde parte com Miguel Ruggieri e Duarte Sande para Goa em 1578. Em 1582 está em Macau e começa a missão da sua vida: a introdução do Cristianismo e da cultura ocidental na China, o que consegue graças a certa receptividade de alguns letrados, mandarins e povo e à sua extraordinária inteligência, memória e disponibilidade. A sua sábia adaptação do cristianismo às tradições chinesas, que lhe abriu as portas internas, encontrará as maiores resistências no papado e em certos frades e clérigos, sobretudo já no século XVIII, que acabarão por enfraquecer o seu trabalho pioneiro.
Regressa ao mundo espiritual, em 1646, em Goa, Frei Diogo de Santa Ana, que andara na Pérsia em debates teológicos, animado pela estima do Châh Abbâs, tendo convertido ainda o patriarca da Arménia e alguns dos seus bispos. Deixou uma relação manuscrita autobiográfica intitulada Do Tocante ao que o Padre Servo Sem Proveito fez, em o Reino da Pérsia, Com a Divina Graça, editada em 1972 por Roberto Gulbenkian. Nomeado confessor e administrador do Convento das Mónicas em Goa, opor-se-á com o bispo Frei Miguel Rangel às medidas que o vice-rei conde de Linhares e a câmara de Goa pretendiam de limitação do poder temporal do convento: as mulheres recebidas no convento eram escolhidas das mais ricas de Goa por Frei Diogo, que emprestava depois dinheiro a juros de 10%. A questão será noticiada para Lisboa que determinará uma série de medidas de restrição das riquezas das ordens religiosas nas partes do Estado «tão consumidas que não há nelas quem tenha cabedal para armar um navio à sua custa». Pouco depois do conde de Linhares partir para Lisboa, com um rol de acusações de que se justificará no Conselho de Estado em 1635, o convento das Mónicas é palco do famoso milagre da imagem de Jesus que, de tosca, movendo-se, chorando e sangrando, se torna perfeita, sendo Frei Diogo autor duma uma Relação sobre o caso. Depois arde o convento, mas voltará a ser reconstruído e ainda hoje está vivo e firme,  perto da impressionante ruína duma torre de grande altura, o que resta da igreja do Convento de S. Agostinho.
Potala, a fortaleza espiritual dos Dali Lama, em Lhasa, numa pintura de Nicholai Roerich.
7-X. Sete dias depois do ministro chinês Chu-En-Lai declarar que o Tibete deve ser libertado, as forças chinesas invadem o Tibete, em 1950, «para libertar os três milhões de tibetanos da opressão imperialista e assegurar as defesas nacionais da fronteira ocidental da China». Inicia-se uma violação sistemática dos direitos e liberdades fundamentais dos tibetanos, com graves percas do património humano e artístico (mais de três mil mosteiros destruídos e centenas de milhares de mortos). Aguardam-se mudanças na continuidade ideológica dos governos chineses para que a sua própria tradição de sabedoria taoísta, confucionista e budista brote por entre o gelo do materialismo agnóstico e permita, pelo menos, uma autonomia digna a todas as minorias englobadas no seu gigantesco império.

8-X. Na basílica de S. Pedro em Roma, o papa humanista Leão X, da família florentina regente os Medici, manda celebrar uma missa de acção de graças pelos feitos dos portugueses no Oriente em 1513 (sobretudo a conquista de Malaca por Albuquerque que lhe foi comunicada por carta de D. Manuel), e na oração panegírica o cónego Camilo Porzzio enaltece os portugueses por irem mais longe que Alexandre e estarem a defender os interesses da cristandade, enquanto os outros reis da Europa andavam empenhados em «vingar injúrias particulares», com os turcos a baterem à porta. Refere ainda a chegada à corte lisboeta duma «boa parte do lenho da Vera Cruz» enviado pelo Preste João...
Desembarca finalmente em Lisboa, em 1601, Pedro Teixeira depois de ter feito a Índia, a Pérsia, Ormuz, Malaca e Filipinas. Muitos anos na Pérsia, aprende a língua e a sua história (sobre a qual escreverá com interesse). Voltará à Índia em 1603 e de novo peregrinará pelas zonas do Tigre, Eufrates, Bagdad e Alepo regressando por Veneza e ficando em Antuérpia, uma das grandes feitorias dos Descobrimentos. Escreverá uma valiosa relação da sua viagem, na qual tanto regista a sua franca apreciação dos iraquianos, «gente branca, formosa, e de boa disposição, de bem natural e afável», como as suas mulheres das quais «há muitas mui formosas, em geral tem belos olhos». Mas será crítico, ou preconceituso, quanto à religiosidade do muçulmano normal: «tanto pode o dinheiro com mouros. Não há neles fé, nem palavra, nem outro Deus mais que o seu interesse». É claro que esta afirmação se pode estender facilmente a muitos fiéis (os “infiéis”) das outras religiões.
                                                                 
9-X. Nos paços da Alcáçova de Lisboa nasce em 1261 D. Dinis, o grande poeta e amador (Camões dirá que foi ele quem transferiu as musas da Grécia para Portugal), o genial transformador dos Templários na Ordem de Cristo, que «fez tudo quanto quis», e que fomentou as feiras e indústrias, comércio marítimo, construção de fortalezas e cultura universitária. Embora casando-se com a Isabel de Aragão, alma varonil e santificável, recebeu os dissabores maiores com o filho, o infante D. Afonso, amenizados e aplacados porém pela rainha santa Isabel, protectora do culto do Espírito, santo e fraterno, e, no fim da sua vida, clarissa no mosteiro de Santa Clara em Coimbra. O fomento e a protecção do pinhal de Leiria e o seu apoio à Marinha vieram a tornar-se providências importantes para a saga dos Descobrimentos.
                                 
Nicholas Roerich, pintor e mestre espiritual russo, nasce neste dia em 1874 em S. Petersburgo. Casar-se-á com Helena Roerich e com os dois filhos, Svetoslav (com quem ainda me correspondi) e George viajarão pela Ásia Central em arrojadas expedições, vivendo muitos anos nos Himalaias, deixando inúmeras obras literárias, artísticas, científicas e de espiritualidade. Ainda peregrinei à sua casa e seu centro em Kulu Valey, no norte da Índia, por duas vezes, contemplando demoradamente os seus maravilhosos quadros e dando-lhe as minhas legendas, com os Himalaias muito ao longe. Oiçamo-lo: «Himalaias! Aqui é a abobada dos Rishis (sábios-videntes védicos). Aqui ressoou a flauta sagrada de Krishna. Aqui relampejou o abençoado Gautama Buddha. Aqui se originaram todos os Vedas. Aqui viveram os Pandavas. Aqui — Gesar Khan. Aqui — Aryavarta. Aqui está Shambhala. Himalaias — jóia da Índia. Himalaias — tesouro do mundo. Himalaias — símbolo sagrado da Ascensão... O ser humano deve dedicar-se inteiramente ao labor criativo. Aqueles que trabalham com Shambhala, os iniciados e mensageiros de Shambhala não se sentam reclusos — eles viajam por toda a parte». Duas pinturas de Nicholas Roerich encontram-se em Portugal, uma delas oferecida por ele ao museu de Coimbra e provavelmente ignorada nas reservas...
10-X. Pedro Afonso de Aguiar desembarca em Lisboa, em 1503, duma das suas sete viagens à Índia onde se notabilizou, exercendo em seguida cargos diplomáticos e de aconselhamento sobre a navegação na carreira da Índia. 
 D. Maria, a mais culta e humanista das infantas de Portugal, «rara gentileza e subtil engenho», nascida de D. Manuel I e de D. Leonor da Áustria em 1521, que fez do seu palácio corte florentina e mosteiro de divindades, tendo como mestras para cultivarem as humanidades Joana Vaz e a toledana Luísa Sigeia (autora do poema Syntra e do valioso Diálogo das Duas Jovens). Fundou o convento de Nossa Senhora da Luz entregue à Ordem de Cristo, e mais tarde ao Colégio Militar (onde eu ainda estudei seis anos), liberta-se do corpo material em 1577, e a sua sepultura nessa bela Igreja da Luz não terá letras nem divisas «simbolizando-se por este sinal de humildade a muita que a princesa guardou em seu coração por toda a vida». Mas na sua vida, em grande parte à espera da consumação dos vários casamentos que foram sendo projectados, também houve sentimento de amor forte mas só platónico, com o Grão Prior de Lorena François de Guise,  e o fausto oriental, como nos relata o embaixador francês Jean Nicot em 1559: «Bela princesa e tão ricamente vestida que parecia não ter ficado pedra preciosa nem pérola no Oriente». D. Sebastião, nas vésperas da jornada de África e tão necessitado de dinheiro, será nomeado seu herdeiro. Referindo--se aos seus dotes musicais, João de Barros, no Panegírico que lhe tece, refere a música das esferas, o nada ou shabda, segundo a tradição indiana: «E tanto fruto tem Vossa Alteza colhido das letras, que achando nelas quão espiritual coisa é a música, e quanto levanta os corações para o Céu, nela se exercita, como fizeram mui graves filósofos que, vendo a ordem dos Céus, disseram que em suas contínuas voltas, com que rodeiam o mundo, fazem uma mui suave música, de que os nossos sentidos são incapazes, por exceder sua potência, atribuindo a cada um suas vozes agudas e graves». Camões, que parece que a amou platonicamente, tê-la-ia assim descrito, qual eterno arquétipo feminino: «leda serenidade deleitosa, que representa em terra um paraíso»
Carta do rei D. Filipe III em 1611 a D. Jerónimo de Azevedo: «Vice-rei da Índia amigo, eu el-rei vos envio muito saudar», informando-o que da Holanda partem navios de carga e de guerra e para que este aviso seja transmitido à China, Malaca, Filipinas e Moçambique. Mas sem meios de resposta ou implementação adequada, de pouco servirão as melhores informações...

11-X. Bahadur, o rei de Cambaia, em 1536, experimenta o governador de Diu, Manuel de Sousa mandando um mouro confidenciar-lhe que no dia seguinte o rei o mandaria chamar, mas para matá-lo. Chamado, foi só com um pagem e o rei rendeu-se à sua coragem e não lhe fez aleivosia. Curiosamente, em Março de 1537, morrem os dois no mesmo dia, talvez num acometer traiçoeiro sobre Bahadur. O sábio Garcia de Orta, que andou nas cortes dos reis indianos, tratando e aprendendo, diz dele nos Colóquios dos Simples e Drogas e coisas medicinais da Índia: «E o grande sultão Badur dizia a Martim Afonso de Sousa, a quem ele muito grande bem queria e lhe descobria os seus segredos, que quando de noite queria ir a Portugal e ao Brasil, e à Turquia, e à Arábia, e à Pérsia, não fazia mais que comer um pouco de bange», documento antropológico do consumo de haschiche como meio de expansão de consciência na época. 
 O notável poeta revolucionário, espiritualista e, por fim, convertido ao cristianismo, Gomes Leal, que foi também atraído pela sabedoria indiana e teosófica, no jornal O Século deste dia, em 1888, elogia o grande amigo de Antero de Quental, o poeta goês Fernando Leal, «um raio de sol da resplendescente Índia, onde a bela Lakshmi nasceu radiante de um mar todo de leite no largo cálice de um lótus, a bela flor azul!»
                        
12-X. O mestre japonês Nichirem entra no bosque de Omori, perto de Yedo, sobe a uma colina com os seus discípulos e parte para o mundo espiritual em 1222. Compadecido da sorte do povo, para quem as especulações budistas abstractas, ou os códigos de honra cavaleiresca, não eram acessíveis, ainda que com a oposição severa do governador Hodjo, como o sol que tanto beija o oceano como a gota do riacho, quis tornar acessível uma mensagem libertadora que formulou nas palavras do sutra do lótus: «Nam Myoho Renge Kyo», «Bendita seja a lei do lótus da luz divina», ainda hoje repetido por milhões de devotos como oração ou mantra santificador. Os missionários portugueses referenciam com frequência a seita fundada por Nichiren-Shonin, os foquexus (Hokke-shu), considerando-a fanática, pelo seu entusiasmo, disciplina e oposição ao catolicismo.
                                     
Partida de D. Manuel e de muitos da corte em peregrinação até Santiago de Compostela, em 1502, provavelmente para agradecer os sucessos no Oriente, muitos dos quais foram alcançados sobre a evocação em voz bem alta: «Por Santiago» ou do «Eultreia Esusseia, Herru Santiagu». Jerusalém da Europa, por aqui se encontraram peregrinando almas como Santa Isabel (duas vezes), o mestre alquimista frei Arnaldo de Vilanova, e muitos outros seres sensíveis e expectantes à compostagem da Estrela, à descida do Espírito. Sinais da Grande Obra abundantes na catedral, a capela do Santíssimo reservada para a oração silenciosa, e os ícones do Apóstolo, do mestre construtor Mateus e muitos símbolos intensificam as energias, permitindo ainda hoje inspirações luminosas aos peregrinos, no meio duma cidade bem protegida e preservada no seu centro histórico.
«Hei por bem ratificar o bando que mandei deitar em Fevereiro de 1699 pelo qual proibi que nenhuma das ditas gentias (bailadeiras) morasse em nenhuma das terras deste Estado... sob pena de morrer de morte natural todas as vezes que nele forem achadas». Alvará deste dia de 1770, em Goa. Não se desejavam assim nem sacerdotisas do amor, nem novas Madalenas.
D. Pedro é aclamado imperador constitucional do Brasil no Rio de Janeiro em 1822, mas as lutas entre os partidários da Independência ajudados por ingleses e os que se mantinham obedientes a D. João VI, bem como entre as obediência maçónicas, continuarão ainda por algum tempo.
                           
Ruy Cinatti, que nascera a 8 de Março de 1915 em Londres, parte neste dia 12 de Outubro para o mundo espiritual do qual certamente já teria tido algumas experiências. Foi um notável poeta e agrónomo aberto à arte, à cultura, ao Extremo Oriente e à espiritualidade que transparecem bem na sua poesia e obras antropológicas. Esteve sobretudo em Timor.

13-X. D. Francisco Manuel de Melo, cavaleiro nas armadas da costa de 1626 a 1640, embaixador e general da armada, preso por invejas durante 9 anos («antes quero morte e desterro, e todos os trabalhos do mundo, que dizer coisa contra o que eu sinto»), e só indultado depois da morte de D. João IV, sábio cultor das letras humanistas, desprende-se da vida terrena em 1666. Na sua Epanáfora Trágica descreve o famoso naufrágio da armada da Índia e dos galeões que a foram proteger, e em que participou e escapou, tendo a consolação de ver os nobres vestirem-se das suas melhores roupas para morrer, e o comandante D. Manuel de Meneses ler-lhe um poema que Lope de la Vega lhe oferecera, fazendo em seguida o «seu juízo, como se fora examinado numa serena academia... com tal sossego e magistério que sempre me ficou viva a lembrança daquela acção como coisa muito notável». Autor de peças de teatro, os Apólogos Dialogais e a Feira de Anexins mostram bem o seu domínio da vida cultural e social europeia, num autor bilingue, como tantos outros que viveram na época dos Filipes. Escreveu um Tratado sobre a Ciência da Cabala, nos seus aspectos numéricos e linguísticos, e deixou dezenas de manuscritos, dos quais um acerca do Brasil, intitulado Paraíso de Mulatos, Purgatório de Brancos, e Inferno de Negros, e outro sobre empresas morais com desenhos seus, por hora infelizmente perdidos.

14-X. Trágica trituração, incineração e dispersão das cinzas da venerável relíquia dum dente de Sidharta Gautama Buddha, por determinação da junta que o vice-rei D. Constantino de Bragança reunira em Goa para discutir a oferta do rei de Pegu do seu resgate em troca de paz e tributos perpétuos em 1560. Frei Aleixo Meneses foi a alma da destruição do ídolo, portanto portador dum demónio e que teria de ser desalojado. A facilidade com que o dente (como tantas outras relíquias), será substituído, pode sugerir que a atribuição não seria verídica, o que desvalorizaria a perda de tal relíquia. Aquilino Ribeiro biografou excelentemente o vice-rei e narra os episódios com a sua proverbial franqueza irónica castiça. 
Junto a Madras, na noite de 1749, os ingleses com mais de mil homens atacam a fortaleza de Meliapor e vencem a oposição dos poucos portugueses, sendo o governador D. António de Noronha (a quem fora doado Meliapor e S. Tomé pelo príncipe mogol Mohamed Ali) ferido e preso, vendo-se assim os portugueses privados das igrejas onde se veneravam as relíquias de S. Tomé. «O que semeias colhes», denominado no Oriente a lei do karma, confirmava-se ainda que numa sincronia centenária (Buddha e S. Tomé). D. António de Noronha, feito frade em criança, mas que se revelara mais guerreiro, tal como era tradição na sua família, vai preso até Londres, onde é libertado pela acção diplomática dum português enviado extraordinário à corte, e em França o rei torna-o cavaleiro de S. Lázaro e do Monte Carmelo, e bispo de Halicarnasso, regressando de novo à Índia, desta vez para a vizinha Pondichery, pois era amigo do almirante Dupleix, governador dessa zona de influência francesa, onde com uma legião de luso-indianos e maratas lutará com os franceses contra os ingleses.
                                
O comandante José Botelho Carvalho de Araújo morre neste dia em 1918, ao sacrificar-se com o seu caça-minas Augusto de Castilho, em defesa dum paquete de passageiros, o S. Miguel, entre os Açores e a Madeira, contra um submarino alemão. Num relatório valioso, acerca do governo do distrito de Inhambane, o qual entregara pouco antes, ensina: «O
processo único de evitar a desnacionalização, que caminha a passos agigantados, é dar ao indígena uma educação e uma instrução que o obriguem a reconhecer e apreciar os benefícios do nosso domínio, as vantagens de conhecer a nossa língua, os inconvenientes de alguns dos seus usos e costumes, e incutir-lhes ao mesmo tempo no seu espírito amor pelo trabalho e dedicação pela pátria portuguesa».
                            
15-X. Nasce em Neurá, em 1755, o Dr. Bernardo Peres da Silva, médico. Foi um dos três representantes da Índia às cortes liberais, mas com as lutas teve liberais de passar ao Brasil e a Inglaterra. Veio a ser contudo por mais de uma vez deputado e por fim D. Maria II nomeou-o em 1834 Prefeito das Índias, título correspondente a Vice-Rei, que exerceu pouco tempo pois o governador militar revoltou-se com parte do exército e destituíram-no, devido às medidas de reforma judicial demasiado rápidas e talvez algo autonomistas para a época.
O poeta e oficial Fernando Leal nasce em Margão em 1846. Casado com uma das filhas do conde de Mahem, participou em muitos serões literários que, com as récitas juvenis organizadas por Higino da Costa Paulino, eram momentos intensificadores do convívio cultural em Pangim, no final do séc. XIX. Com o naturalista alemão Carl Mauch (o redescobridor das ruínas de Zimbaué) fez o percurso do Transval (onde fôra em missão diplomática de acordarem nos limites territoriais) a Lourenço Marques por caminhos até então não percorridos pelos europeus, contribuindo com as suas viagens e mapas não só para a confirmação da presença e soberania portuguesa em Moçambique na arbitragem internacional de 1875, como também para avanços científicos nas áreas de geologia e botânica, tendo descoberta um nova planta que recebeu o seu nome a arbol botella, denominada Pachypodium Lealli. Traduziu versos de Victor Hugo e de outros autores franceses e na dedicatória que endereça ao poeta num dos seus livros confessa ter aprendido francês numa obscura aldeia do Malabar: «O meu professor de francês era um pobre padre cristão, muito inteligente, mas brâmane pela sua casta e que nunca encontrara na sua vida um francês». Nos anos que esteve em Portugal conviveu com muitos escritores destacando-se a sua grande amizade com Antero de Quental e da qual nos restam algumas cartas muito significativas filosófica e espiritualmente. Aquando do Ultimatum de 1891 reagiu forte e ironicamente contra o imperialismo inglês e escreveu Palmadas na Pança do John Bull. Já no fim da sua vida terrena reuniu poemas, traduções e textos, numa obra mais religiosa intitulada o Livro da Fé. Morreu em 1910 em Goa já no posto de coronel. A sua mulher Guiomar amava-o tanto que manteve o seu caixão em sua casa bastante tempo. É a Fernando leal que devemos alguns esclarecimentos da vida amorosa de Antero, nomeadamente acerca da mítica Beatrice, tanto mais que fora este que o aconselhara a regressar a Goa e a casar-se com quem o amava...
O poeta Gomes Leal, que foi também atraído pela sabedoria tanto geral como cristã, indiana e teosófica, e de formas muito originais e por vezes muito revolucionárias ou mesmo heréticas, neste dia em 1888 no jornal O Século elogiava assim o poeta Fernando Leal: «um raio de sol da resplendescente Índia, onde a bela Lakshmi nasceu radiante de um mar todo de leite no largo cálice de um lótus, a bela flor azul!»
Sai Baba de Shirdhi, um dos mestres unificadores das várias religiões da Índia em práticas comuns de auto-conhecimento e devoção, assentes na aceitação e justificação das diferentes fés, morre neste dia em 1918, em Shirdhi, perto de Bombaim ou Mombai. Foi inicialmente um yogi e sufi e com o tempo juntou práticas e expressões de ambas as religiões afirmando-se acima de diferença de rituais, castas e religiões. Um dos seus ditos mais repetidos, no qual recomendava meditar, era Allah Mallik, em urdu, "Deus é o chefe, quem toma conta, ou rege o mundo". E outro era: «O que está connosco está connosco, o que está com eles está com eles», para não criticarmos tanto os demais, pois cada um recolhe os frutos das suas acções. Depois da sua morte, ou mesmo antes, já era considerado um santo, um satguru, um avatar, e assim o templo onde se encontra o seu mahasamadhi em Shirdhi recebe ainda hoje milhares de pessoas diariamente.
                            
16-X. A frota anglo-holandesa deixa em 1626 Bombaim, tal como regista no seu diário de bordo Andrew Warden, «depois terem feito todo o mal possível e pegado fogo». Partiam muito frustrados já que os habitantes, apenas com 70 espingardas, das quais doze em mãos de portugueses «tinham fugido levando consigo o melhor e deixado só o lixo».
Sóror Mariana do Rosário, crescida em virtudes e
participante de tantas luzes do céu que foi dotada do dom da profecia, da cura e da protecção, liberta-se da vestimenta terrena em 1649, no convento do Salvador em Évora. Na sua alma cabia bem o Oriente e para lá encaminhava as suas orações quando intercedia pelo reino ou pessoas. Muitas madres e sorores constituíam a retaguarda da cruzada missionária, ora castigando-se mais feramente ainda que os seus irmãos, e talvez compensando assim o sangue dito infiel ou pagão derramado, ora erguendo-se acima do rude ascetismo penitencial e irradiando inteligência, ora com conhecimento, gozando os mistérios unitivos. Nos seus solilóquios com a alma de Jesus, este dir-lhe-á, a propósito de certas freiras mais dispersas ou mundanizadas, ou ainda destituídas da aspiração amorosa tão trabalhada na bhakti yoga indiana: «Filha, não acho aqui
quem me queira, tudo está ocupado».

17-X. Em Tânger, em 1437, corre mal a aventura dos infantes D. Fernando e D. Henrique, depois de vários dias de batalha, e o último tem de assinar «visto como Deus aprouve de, em termo de Tânger, sermos cercados de mouros, e provendo por meio de paz e concórdia, me obrigo a vós, Cala Ben Cale, a dar a cidade de Ceuta e por garantia disso lhe darei o Infante D. Fernando». Iniciada estava a longa Paixão que o Infante Santo, com paciência e estoicismo, soube enfrentar.
El Rei D. Manuel I publica o regimento dos Vedores da Fazenda em 1516, órgão colegial que superintendia a administração ultramarina. Um dos vedores mais notáveis na Índia foi Simão Botelho, no tempo de D. João de Castro, que procurou equilibrar a liberalidade deste e a intolerância religiosa.

O tolerante imperador mogol Akbar regressa ao mundo espiritual em 1605, com 63 anos de idade. Sem saber ler, mas gostando que lhe lessem livros, dotado duma memória prodigiosa, sagaz, afável e justo, foi o iniciador duma política de aproximação das religiões dos diversos povos do seu império e interessou-se pelo cristianismo, protegendo os padres enviados de Goa. Colocara no portal da cidade imperial de Fatehpur Sikri, construída sob a sua direcção e visão entre 1570 e 1580, e onde fundara a Casa de Adoração (Ibadat-khana), cenário de longos debates, primeiro só entre islâmicos e depois com mestres das diversas tradições, entre os quais os jesuítas vindos de Goa, uma lápide com a letra: «Jesus disse (a Paz esteja com Ele) o mundo é uma ponte. Portanto atravessa-a, mas não construas em cima». Com Asoka, Dara Shikoh, Sant Prannath, Sai Baba de Shirdhi, Ramalinga, Ramakrishna e Gandhi foi das notáveis individualidades, ou mahatmas, que procuraram mostrar e fomentar a unidade das religiões e a convivência ecuménica na Índia.
                                         
18-X. O Padre Manuel da Nóbrega nasce em 1517 em Sanfins do Douro e 53 anos depois morre no Rio do Janeiro. Missionário do Brasil com a primeira leva de missionários jesuítas que foi na armada de Tome de Sousa em 1549, do aldeamento e colégio que funda no interior em 1553-1554 nascerá S. Paulo. Deixou uma obra importante histórica, antropológica, religiosa e epistolar. Uma das suas frases foi: «Trabalhamos para dar princípio a casas que fiquem enquanto o mundo durar». No seu Diálogo sobre a conversão do Gentio ecoará o grande amor fraterno que gerou os melhores seres, acontecimentos e momentos dos Descobrimentos: «Estou eu imaginando todas as almas dos homens serem umas e todas de um metal, feitas à imagem e semelhança de Deus, e todas capazes da glória e criadas para ela. E tanto vale diante de Deus por natureza a alma do papa como a alma do vosso escravo Papaná».

                              
Georges Ohsawa nasce em 1893 em Kyoto. Transmitirá ao Ocidente a filosofia do equilíbrio do Yin-Yang, negativo e positivo, potássio e sódio, noite e dia, e o método macrobiótico, como disciplinas harmonizadoras do corpo e alma, recomendando o uso de cereais, verduras e leguminosas e ter-se cautela com as proteínas animais e o açúcar.
                                  
Diálogo do mestre Sri Ramakrishna em Calcutá neste dia em 1885: «Sabeis o que é o estado de meditação? A mente tem
de tornar-se como um fluxo contínuo de óleo, — deve haver apenas um pensamento, o de Deus, e outros pensamentos não devem intervir... Há homens só de nome, e homens conhecedores. Aquele que tem a consciência espiritual, que está consciente e plenamente convencido que só Deus é real e que tudo o mais é falso, esse é o homem conhecedor». E conversando acerca dum jovem, dirá: «Qual é o mal em ele não acreditar na possibilidade de incarnação Divina? Chega se ele acredita que Deus existe e que todos os seres e o universo são Suas manifestações... Uns dizem que há dez avatares (incarnações divinas), outros inumeráveis. Onde quer que haja uma manifestação especial do Seu poder, há um avatar. Isto é o que eu creio».

19-X. No vale do Arno nasce em 1433 Marsilio Ficino, filho do médico de Cosimo de Medici, tradutor de Platão, Plotino e textos espirituais e hermeticos para Latim e a Europa, presidente da Academia Platónica de Florença, inspirador de Botticeli e Miguel Angelo, autor com Pico della Mirandola, Erasmo, Tomás More, João Colet, Lefèvre d’Étaples, Leão Hebreu e Agostinho Steuco das obras mais sábias da Renascença. Médico como o pai, mas clérigo, provou a imortalidade da alma, se é que assim se pode dizer. Carta a um professor: «Mostra-te um exemplo de boa conduta. Pureza de vida engendra reverência para com o ensinamento. Os jovens seguem facilmente o exemplo dos mais velhos. Os que corrompem um jovem, ou de facto a mente de alguém, quer por palavras ou por conduta, devem ser considerados culpados de sacrilégio. Finalmente age de acordo com Pitágoras e Apolónio de Alabanda que, na tradição dos filósofos Indianos não admitiam à sua disciplina nenhum jovem que não fosse de nascimento afortunado e da melhor educação. Pois não está certo que as Musas se tornem ministras ou instrumentos de iniquidade». Tocando harpa, Ficino reconheceu e valorizou muito o Som, Sermo, Palavra, Verbo, tal como a tradição indiana o Vak, Pranava Nada ou Shabda interno: «A alma recebe as mais doces harmonias e números através dos ouvidos, e por estes ecos é lembrada e desperta para a música divina que pode ser ouvida pelo sentido mais subtil e pela mais penetrante mente».
                                             
20-X. Dia de S. Iria, «mártir muito antiga e venerada deste
reino», crendo-se até em lendas que em tempo da Rainha Santa as águas do Tejo se abriram perto de Santarém para deixar a corte reverenciar o seu corpo incorrupto, fechando-se em seguida, numa espécie de abertura do mundo subterrâneo ou aghartino. Frei Isidoro Barreira, um dos mestres da tradição espiritual da Ordem de Cristo, autor do importante Tratado da Significação das Plantas, Flores e Fructos que se referem na Sagrada Escritura, 1698,  biografou-a.
                             
João de Barros, humanista ainda admirador de Erasmo, o
Tito Lívio português pela sua pureza de estilo historiográfico, autor das famosas Décadas da Índia, onde narra a gesta luso-oriental, liberta-se do corpo físico em 1570. Escrevera uma obra humanista de ética, de arrojado espirito erasmiano e que chegou a entrar no índice dos livros proibidos, a Ropica Pnefma, e um romance de Cavalaria, a Crónica do Imperador Clarimundo, donde os reis de Portugal descendem, pois era um cavaleiro de Amor, filho bastardo de Lopos de Barros, corregedor do Entre Tejo e Guadiana. Disse: «Pois a Deus aprouve que não por ofício, mas por inclinação, não por prémio, mas de graça, e mais oferecido, que convidado tomasse o cuidado de escrever as coisas que passaram neste descobrimento e conquista do Oriente, não permitirá, que eu perca algum prémio, se o deste trabalho posso ter, trocando, ou negando os méritos de cada um». Mas apesar deste desejo de rigor, não esteve na Índia fisicamente, compensando-o a Ordem do Universo e o rei de Portugal com o cargo de feitor da Casa da Índia. A sua grande ou sensível cultura e alma humanista permitia-lhe considerar, por exemplo, os yogis «homens ao modo de filósofos», e defender o relacionamento amistoso com os indianos. E se a primeira edição das Décadas rapidamente se esgotou, também não se calavam os detractores, pelo que no prólogo da Década IV evoca a justiça cósmica, o Dharma indiano: «Virá tempo em que seremos julgado por homem mais zeloso e diligente no cuidado do bem e glória da pátria que da própria pessoa. Pois pela pátria, no tempo que os outros cá e lá andam a quem se carregará de mais fardos às costas dos despojos da Índia, nós tomámos cuidado de levantar a bandeira dos triunfos dela, que estes carregados deixaram jazer desamparada e esquecida com a ocupação e pressa que cada um em seu modo traz de salvar a presa de que lançou a mão, por mais lhe importar o próprio
interesse que a glória comum da pátria».

Frei António das Chagas, militar tornado pregador itinerante e escritor famoso, morre no convento do Varatojo em 1682, em cujo bosque muito deveria ter-se enchido de energia e orado a Deus.


21-X. Em 1147, neste dia o cerco da Lisboa islâmica, iniciado em 1 de Junho, termina com a conquista da cidade aos mouros, derrotados por D. Afonso Henriques e os cruzados que o auxiliaram. A imagem reproduzida é uma das mais antigas representações pictográficas de Lisboa, feita para a Crónica de D. Afonso Henriques, por Rui de Pina.
Neste dia das Onze Mil Virgens, da Bretanha, era de uso nos
colégios jesuítas de todo o Oriente a abertura solene das aulas, com discussões das teses teológicas e representações teatrais. No colégio de S. Paulo em Goa havia uma procissão solene conduzindo a relíquia da cabeça
de S. Geracina enviada por D. João III em 1547.
Chega ao rio Tejo em 1728 o Dr. Alexandre Metelo de Sousa
e Menezes ao fim três anos e sete dias de missão de embaixador ao imperador da China Yung Ching e para retribuir o presente oferecido pelo seu pai Kang Hsi. O tacto diplomático do nobre, os luxuosos presentes (condizentes com os recebidos) dum D. João V imperial, tornaram possíveis duas das dificílimas audiências imperiais, puramente formais para tristeza dos missionários que desejavam ser autorizados de novo a evangelizarem à vontade. Mas o imperador só garantiu que «tratava os estrangeiros como o seu falecido pai fazia, que sempre tinha mostrado uma atenção especial para com as pessoas em Macau». Nas barcas de mandarim em que seguiu a embaixada rios acima, de Cantão até Pequim, depois das discussões habituais de ser ou não um tributo, as típicas bandeirinhas anunciavam: «O reino do remoto ocidente manda um grande a dar parabéns». Mas a razão principal da magnificente embaixada, que contava com 326 pessoas, como se vê nas cartas de D. João V ao vice-rei na Índia, era dissipar as más impressões que o Patriarca de Antioquia e os missionários nomeados pela Propaganda da Fé estavam a criar no imperador e mandarins contra os missionários do Padroado Português, e alterar a política daí resultante, o que não veio a suceder.

22-X. Carta do infante humanista D. Luís ao seu condiscípulo e governador da Índia Portuguesa D. João de Castro, o amante da então preservada serra de Sintra, em 1547: «E confiai em Deus, que vos dará forças para puderdes com os grandes trabalhos, e desordens da Índia, e eu espero nele, que fazendo-o vós assim, venhais encher estes picos da serra de Sintra de Ermidas, e de vossas vitórias, e que as visiteis, e logreis com muito descanso vosso».
O Raja e a Rani (a rainha) de Travancor (Tanor) e os dois
filhos, baptizados pelo abnegado franciscano Frei Vicente de Lagos, que lhes permitira continuarem a usar as três linhas da casta brâmane, são recebidos com grandes festas em Goa em 1549 e são confirmados e crismados pelo bispo D. João de Albuquerque na capela onde S. Francisco Xavier dizia missa e rezava.
A armada do vice-rei D. Martinho de Castro, fundeada em
frente a Malaca, em 1606 sofre pesadas baixas ao ser atacada pela coligação do rei de Jor e dos holandeses, que em breve se tornarão os senhores dos mares.
O vice-rei conde de Óbidos é preso no forte dos Reis Magos
em 1653 e enviado para o reino, tomando conta do poder o chefe da insubordinação, o capitão de Daugim D. Brás de Castro, que governará até à chegada do novo vice-rei em 1655, sendo então enviado preso para Lisboa e morrendo no caminho, como era prática ou costume...
                               
D. João V, filho de D. Pedro II e da princesa alemã Maria Sofia, nasce em 1689 no Paço da Ribeira, e foi armado cavaleiro da Ordem de Cristo aos 7 anos, subindo ao trono em 1707. Neste mesmo dia em 1730 foi sagrado o Real Convento de Mafra, num termo que alguns vieram a sonhar como capital do V Império, e que foi uma das muitas obras dum prolongado reinado de 43 anos, sustentado em grande parte pelo ouro e diamantes do Brasil e bem centralizado administrativa, cultural e diplomaticamente, embora bastantes valores se sumissem em negócios eclesiásticos, mercês e luxos vãos em vez de serem empregues no fomento da produtividade, criatividade e universalidade sem as quais nenhum império se pode erguer ou subsistir. De destacar no seu reinado a Inglaterra ter continuado a manipular e a oprimir Portugal e a sua forte veia amorosa religante nos dois sentidos: do culto divino, pela Igreja e pela sua alma, e do culto de Eros, com religiosas.
                                     
   Swami Ramatirtha nasce neste dia em Muraliwala, Punjab,
em 1873. Professor de matemática, casado desde os dez anos de idade, renuncia ao mundo com vinte e sete anos e parte com a família e uns amigos para as florestas dos Himalaias. O seu grande amor a Deus permite-lhe ter a visão divina, o darshan de Krishna.  Em 1901, inspirado por swami Vikenananda torna-se swami (monge) passando a usar a veste de cor ocre. Em 1902 parte para o Japão com swami Narayana e em seguida para a USA, para transmitir a sua vasta cultura, a sua profunda realização e a mensagem espiritual libertadora da tradição indiana, numa síntese entre o Amor devocional (Bhakti Yoga) e a Vedanta, numa filosofia viva da unidade entre o ser humano-Espírito e a Divindade. Terá uma carreira meteórica e aos 33 anos a sua saúde cada vez mais fraca obriga-o a libertar-se do corpo terreno nos Himalaias e os seus restos desaparecem na correnteza por vezes baça e sobre-humana do rio Ganges.

Da esquerda para a direita, Marsilio Ficino, Pico della Mirandola e Angelo Poliziano.

23-X. O rei D. João II responde à carta do humanista Angelo Poliziano neste dia em 1491, tratando-o familiarmente por Angelo noster, aceitando a sua oferta de escrever uma história da gesta portuguesa dos Descobrimentos, mas este morre pouco depois em Florença sem satisfazer o seu desejo, de que nos restam apenas as primícias nas cartas que dirigiu a Lourenço e a Piero de Medici. Vários portugueses eram seus discípulos em Florença, nomeadamente três dos filhos do chanceler-mor João Teixeira.
Paulo Dias de Novais, neto de Bartolomeu Dias, parte pela segunda vez para Angola com missionários jesuítas e com presentes de D. Sebastião para o rei de Angola em 1574. Chegados que foram primeiro ao Congo, ainda no século XV com Diogo Cão, e desenvolvendo aí uma colaboração frutuosa com os reis, os portugueses foram chamados por uma embaixada que o rei de Angola enviou a Lisboa em 1557. Em 1559 partiram Paulo de Novais e quatro jesuítas e fôram recebidos pelo novo rei com menos cordialidade do que a prometida, ficando bastante isolados. Autorizado a regressar a Portugal em 1567, Paulo de Novais preparou então esta segunda expedição ou missão, em que já ia como donatário, e começa a internar-se pelo sertão e a substituir-se ao rei de Angola na suserania de muitos sobas. Os
jesuítas, por sua vez, encontram muita resistência à conversão e dedicam-se sobretudo ao ensino, enquanto a cidade de Luanda irá crescendo. 


24-X. O P. Tomás Estêvão, o autor da Doutrina Cristã em
concanim e da Puranna cristã, na qual utilizou ensinamentos do Yoga Vasistha, escreve em 1583 a seu irmão, prelector na universidade de Paris, referindo o martírio em Cuncolim do cristão indiano Afonso, por não querer largar o breviário, ao lado dos jesuítas italianos Rudolfo Aquaviva e Berno, «que fôra o primeiro a deitar fogo ao templo de Cuncolim. Tinha também morto uma vaca sobre o altar do ídolo, a fim de limpar o lugar das superstições populares». Diz sobre as línguas indianas, que estudara para fazer a sua Arte da Língua Canarim (impressa em 1640), «a sua pronúncia não é desagradável e a sua estrutura é relacionada com o grego e o latim e admirável nas suas frases e construções». Era um prenúncio dos estudos ocidentais do sânscrito que Sir William Jones irá 200 anos depois iniciar sistematicamente. Termina a sua admirável carta pedindo: «Oremos portanto, a Deus, para que nos conceda tirarmos proveito destes tempos calamitosos para fazer progresso na senda da virtude com toda a paciência e longanimidade e fazermos mais vigorosamente face à adversidade com as nossas forças juntas, de maneira que a própria tentação se possa tornar um meio de salvação».

                               
Chega a Macau, vindo do Japão, o Visitador da Índia e Japão, o P. Alexandre Valignano (1539-1606), neste dia de 1594 e pouco depois, de acordo com o P. Ricci, decide que os jesuítas deixem de andar rapados e vestidos de monges budistas e passem a aparentar-se com os letrados confucionistas da China, sendo assim preterida a aproximação ao budismo e taoísmo, já que os monges a isso resistiam, valorizando-se antes o culto aos antepassados e a Confúcio. A conversão da China será a partir da capital Pequim e da corte imperial, onde os letrados e os governantes, mais curiosos do saber e dos objectos ocidentais (prismas, relógios), serão os primeiros prosélitos.

                        
27-X. O regedor e governador da Ordem de Cavalaria de Jesus Cristo, D. Manuel é aclamado como rei de Portugal em 1495. Damião de Góis conta que: «D. João II lhe deu por divisa a Esfera, porque os matemáticos representam a forma de toda a máquina do céu e da terra com todos os outros elementos, coisa de espantar e que parece não careceu de mistério profético, porque assim como estava ordenado por Deus que ele houvesse de ser herdeiro del-Rei D. João assim quis o mesmo Rei, a quem havia de suceder, lhe desse uma tal divisa, por cuja figura se demonstrasse a entrega e a cessão» do reino e da sua missão. Associada à cruz da Ordem de Cristo, esta divisa será levada a todo mundo como sinal duma tentativa do império universal cristão. Camões, guerreiro e sábio experimentado, ainda para mais observando já a incapacidade lusa, elevará a Esfera na ilha dos Amores ao seu lugar de Reino que não é deste mundo. A governação manuelina, embora escudada em alguns heróicos cumpridores dos seus deveres, não conseguirá, e menos ainda depois com os seus sucessores, realizar o que se evocava com o primeiro oiro do Oriente lavrado, na custódia de Belém, o Graal da fraternidade das almas adorando o mesmo Espírito santo, universal, com as bênçãos da Hierarquia dos bem-aventurados resplandecentes de fogo, que Francisco de Holanda, Pedro Nunes e Camões intuíram, ou aceitaram, tanto da tradição mística como da iniciática.
James Cook, filho dum lavrador pobre, nasce em 1728 na Inglaterra. Marinheiro, estudante, comandante, explorador científico da Nova Zelândia e do estreito de Behring, morrerá com 51 anos às mãos dos naturais das ilhas Sandwich. 
Nasce em Hakodate, no Japão em 1906 Kazuo Ohno e será desde 1959 em Tóquio o co-fundador, com Hijikata, do Butoh, uma dança-teatro-mímica impressionante pelo seu intenso e depurado expressionismo e interioridade. Viverá longamente, dando provas do valor da expressão psicocorporal, até 1-VI-2010.
                                       
28-X. Desidério Erasmo nasce em 1466 em Roterdão.
Mestre da cristandade no Renascimento, dando à luz as obras dos primeiros padres da Igreja e valorizando uma religiosidade de razão e amor,  será amigo de Damião de Góis e inspirará ou influenciará André de Resende, Frei Valentim da Luz, João de Barros, Diogo de Teive e outros. A sua crítica dos costumes desvairados da igreja, propondo uma religião de piedade, não-violência, veracidade, suscitou a proibição no Índex de muitas das suas obras, ainda que variando conforme as limitações das infalibilidades papais. Dirá: «O importante, onde se deve aplicar toda a nossa energia, é a curar a nossa alma das paixões: Inveja, ódio, orgulho, avareza, concupiscência. Se não tenho o coração puro, não verei a Deus. Se não perdoar ao meu irmão, Deus não me perdoará... S. Agostinho encontrou um ou outro caso onde não se reprova a guerra: mas toda a filosofia de Cristo a condena. Os apóstolos reprovam-na sempre, e os doutores santos que a admitiram em certos casos, em quantos outros não a condenam? Porquê procurarmos à custa duma passagem o com que autorizar os nossos vícios?» Dirá ainda: «Há muita distância entre guerra e latrocínio, entre dilatar o reino da fé e aumentar a tirania deste mundo, entre buscar a saúde das almas e perseguir o botim de Mafoma. Das terras descobertas trazem-se ouro e pedras preciosas, mas mais digno de louvor seria levar lá a sabedoria cristã que vale mais que o ouro».Publiquei nas publicações Maitreya a tradução (com Álvaro Mendes),  comentada da sua obra Modus Orandi Deum.
                             
O imperador mogol Jahangir, de quem o P. Jerónimo Xavier esperava que «Deus obraria nele um grande milagre», e que foi bastante amigo do cristianismo, chegando a praticar a posição em cruz com os braços e a assinar cartas com símbolos cristãos, morre em 1627. Foi um grande conhecedor e patrono das artes, especialmente da pintura que atingiu grande subtileza e perfeição, tendo também muita arte europeia chegado então à Índia. Reinou moderadamente, embora algo entregue ao vinho, ao ópio e ao amor, desde 1605, e o filho Shah Jahan ascende ao trono, em Agra, em Fevereiro de 1628.

29-X. O Padre jesuíta Gaspar Vilela em carta de 1557 de Hirado no Japão, critica com certa agudeza o suicídio, hara-kiri, dos nobres por ordem do seu senhor: «São ardis do demónio, para dar-lhes maior tormento, por haver-se eles morto», anima-se com uma anciã «que serviu-nos com tanta caridade e alegria que parece que viamos nela aquele grande fervor que nos novamente convertidos da primitiva igreja resplendescia», e com um cristão que no meio duma serra «vendo-nos se lançou aos nossos pés com tanta alegria que bem dava mostras no exterior do que tinha dentro». A tendência ao suicídio, em parte derivada da negação da imortalidade da alma pela filosofia zen, já então discutida entre S. Francisco Xavier e o abade Ninjit, culminará talvez com os kamikases da 2ª grande guerra .
João Heitor de Ataíde, natural de Aldoná, na Índia veio a ser capelão da universidade de Coimbra e professor de Direito Canónico. Escreveu sobre a alma humana, sobre os mistérios do Génesis, ao mesmo tempo que procurou aliviar o sofrimento do próximo com várias obras de assistência e a sua irradiação pessoal, que o tornaram muito amado, até sair cedo deste vale de meias luzes e sofrimento com 44 anos, em 1888.

30-X. O imperador chinês Kang Hsi publica em 1716 o Manifesto Vermelho, em vários exemplares para serem levados pelos estrangeiros para o Ocidente. Kang Hsi, o Salomão da China, sábio e tolerante, procurava através do envio de vários embaixadores jesuítas a Roma, que fossem aceites as singelas tradições do culto dos antepassados, de Confúcio e do Senhor do Céu, como não supersticiosas. O padre italiano Provana com o ajudante Fan Shouyi tentaram que os ritos não fossem condenados e não se fechassem as portas da China, mas Clemente XI e os bispos Charles Maigrot, Giovanni Francesco Nicolai e Charles de Tournon, condená-los-ão e, agindo contra a corrente evolutiva, perturbam-na irremediavelmente. 
Nasce neste dia em Hamburgo em 1854 Hermann Oldemberg, e será um dos primeiros grandes orientalistas, autor de valiosos estudos sobre o Budismo e os Vedas. Muitos nomes de valiosos estudiosos das filosofias e religiões orientais deveríamos nomear, mas apenas destacaremos H. Wilson, H. Colebrooke, A. MacDonell, Sir John Woodroffe, Evan Wents, Heinrich Zimmer, Edward Conze, Paul Deussen, Hermann Jacobi, Edward Salisbury, Theodore Stcherbatsky, Henri de Lubac, Giuseppe Tucci, George Dumézil, Daisetz T. Suzuki, Marcel Granet, Mircea Eliade e Joseph Campbell. 


Swami Dayananda Saraswati, fundador do movimento de renascimento da Índia Arya Samaj, liberta-se do envólucro terreno em 1883, em Ajmer, com 59 anos, depois de uma vida tanto meditativa, como de erudição como de acção política, meditando na famosa oração Gayatri que se deve repetir diariamente ao nascer e pôr do Sol: «Om Bhur, Bhuva, Svah, Tat Savitur Vareniyam, Bhargo Devasya Dhimahi, Dhiyo Yo Nah Prachodayat». Muitas traduções são possíveis: «Saudação nos três mundos; para a Verdade suprema viro-me pedindo-Lhe que desoculte o seu resplendor e me guie». Outra: «Om, Aquele mais querido que a nossa respiração, auto-subsistente, todo Conhecimento e todo Beatitude. Nós meditamos sobre esta adorável refulgência do Universo. Possa Ela iluminar o nosso intelecto para o caminho correcto». Ou ainda: «Salvé Divindade, destruidora da ignorância, iluminadora de tudo, nós meditamos em Ti. Desabrocha a nossa consciência espiritual». Frei Paulo da Trindade na sua Conquista Espiritual do Oriente refere-a: «e dizem uma oração a que chamam govitri, [Gayatri] a qual de preceito devem dizer 108 vezes», tantas as contas dos seus rosários. A última palavra de Dayananda foi Om. A sua tenção foi «Satya Meva Jayate», «Só a Verdade triunfa». Foi um dos fundadores do movimento pela autogovernação da Índia, o Swaraj, que depois Tilak e Gandhi levarão até à independência da Índia.  Dirá: «A divindade auto-existente e impessoal só pode ser atingida através do coração puro disciplinado pelo caminho espiritual (Yoga) e pela meditação. Sede seres fortes, sede ousados; sede puros, livres, unidos; servi a família e a humanidade. Cantai AUM, OM».
 

 31-X. Nasce nas margens do Mondego em 1345 o rei D. Fernando, filho de D. Pedro I e da rainha Constança, e foi denominado o Formoso. Apoiou bastante a construção e o comércio e os seguros navais, criando também uma companhia na qual havia alguns barcos que eram seus. A sua lei das Sesmarias, fomentando o trabalho agrícola, continua a ser um arquétipo necessário de actualização. A sua paixão pela formosa Leonor Teles foi pouco aceite e com a sua morte em 1383 entrou-se na crise dinástica com a qual findou a primeira dinastia, a de Borgonha, e da qual emergirá a de Aviz, com o mestre da ordem de Aviz, D. João I.
                                  
(D. Duarte, representado talvez fidedignanente numa iluminura manuelina da Crónica do seu reinado, de Rui de Pina).
Em 1391 em Viseu nasce o rei D. Duarte, filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre e foi o primeiro rei luso a reunir uma biblioteca razoável, onde se incluiam, por exemplo, os livros
de Alquimia e da Arte da Memória, de Raimundo Lul. Começou a reinar em 1433 apoiando a expansão marítima e africana, mas a incapacidade de libertar o irmão D. Fernando do cativeiro em Tanger, vai consumi-lo implacavelmente, tanto mais que era de temperamento melancólico. Filósofo, escreveu já no fim da sua vida, em 1438, o tratado moral Leal Conselheiro, onde tenta explicar e divulgar os príncipios morais do Cristianismo, de uma forma bastante rigorosa ou ortodoxa, embora admtindo, por exemplo, a influência mas não constrangimento dos astros sobre os humanos. Foi sensível cultor da saudade: «e, por partir, algumas vezes vem tal saudade que faz chorar e suspirar, como se fosse de nojo», o que se pode recuar até à reminiscência do estado Original, como querem os filósofos da saudade, em especial Teixeira de Pascoaes ou o mais ardente Leonardo Coimbra. Tomou como empresa uma lança em que estava enroscada helicoidalmente uma serpente qual Caduceu ígneo das energias internas, com o mote Loco, Tempore, no local e no tempo certo, ou o aqui e agora da auto-consciência espiritualizante. Saibamos viver mais plena e sabiamente o presente, sintonizando com este mantra da Tradição Espiritual Portuguesa....
Lutero afixa nas portas da igreja de Wittemberg em 1517 as suas 95 teses de crítica às doutrinas e práticas da igreja católica romana, iniciando a cisão protestante. Roma reage e à secura da Reforma protestante opor-se-á o exacerbamento da Contra-Reforma, com a Inquisição, os jesuítas, a censura. Fendida a unidade cristã, os nacionalismos mercantis emergem triunfantes e os países do norte e sul da Europa enfrentar-se-ão o tempo suficiente para alterar por completo o domínio ibérico no mundo.
Carta escrita do sul da Índia do P. Henrique Henriques neste dia em 1548 a S. Inácio de Loiola, a contar como é amigo dum yogue muito sábio que adora a um só Deus verdadeiro e que se ri dos que perguntam pelos dias bons e maus. E numa prédica, cheio de fé nos merecimentos de Jesus ou seus, perguntado «se o demónio, quando está em algum corpo, somente com ouvir dizer que vem um português, se vai do corpo, quanto mais vós, que sois Padre, o fareis? Respondi-lhe eu, ainda que então vá aquela vez, voltará outro dia, mas que quando eu o fizer em virtude de Cristo Nosso Senhor, nunca mais virá àquele corpo».