segunda-feira, 11 de setembro de 2017

"Na Morte de Antero". Joaquim de Araújo, 1891. Texto e vídeo de leitura e comentário por Pe...


                        Neste dia 11 de Setembro, mas há 126 anos, entre as 20 e as 21 horas da noite, Antero de Quental, notável pensador, poeta e líder de gerações, abandonava voluntariamente o seu corpo físico sentado num banco de um jardim da cidade de Ponta Delgada e atravessava finalmente a ponte e porta estreita para o mundo espiritual. 
Como se sentia ele antes, no momento e sobretudo depois, não sabemos bem, mas alguns dos seus amigos da ilha deram testemunhos, registados por José Bruno Carreiro na sua incontornável obra Antero de Quental  Subsídios para a sua Biografia (em 2 vols., 1948, e recentemente reeditada),  e outros houve que reagiram imediatamente a essa inesperada partida, escrevendo e publicando, sem esperarem cinco anos pelo In Memoriam de 1896 que acolheria os testemunhos dos principais amigos.
Joaquim de Araújo (1858-1917), um dos coordenadores do In Memoriam, talvez tenha sido mesmo quem lançou as primeiras achas para a fogueira sacrificial, pois um mês depois da partida de Antero publicava um belíssimo opúsculo, bem ao seu género de amante do livro e da tipografia, no Porto, na Typografia da Rua do Bonjardim, 93. Estava bem preparado para isso pois era um bom poeta, um divulgador da cultura portuguesa em Itália onde serviu como consúl cerca de 13 anos e um grande amigo de Antero desde muito novo, sendo com Oliveira Martins e Alberto Sampaio aqueles de quem se conservam mais cartas escritas por Antero.
Intitulado Na Morte de Antero é tão sentido e belo, sábio e de aspiração à iniciação que resolvemos nesta noite de 11 de Setembro dá-lo à luz da universalidade da Web transcrevendo-o para este texto, e gravando ainda um vídeo com a sua leitura na exacta hora em que Antero passava para o mundo espiritual há 126 anos. A leitura do poema não foi preparada e ressente-se em dois ou três sextetos de não ter dado logo o tom interrogativo final aos versos iniciais, para além da letra ser muito miudinha e difícil de ler. Espero que os comentários e a sinceridade e aspiração compensem.
                                 

 O poema é de grande beleza e nele vemos Joaquim de Araújo como o discípulo que subitamente vê o seu mestre desaparecer e se interroga sobre o ensinamento final que recebera: Morrer é ser iniciado.
Abalado, virando-se em todas a direcções, busca o local onde essa iniciação está a acontecer, e pergunta mesmo à natureza, ao mar, às florestas, às águias, às velhinhas, aos jovens, quem sabe ou viu passar o cavaleiro sem ventura, armado de fulva armadura, mas ninguém lhe dá a resposta.
O poema está dividido numa tríade, talvez numa dinâmica dialéctica mas interrogativa. Tese: morrer é ser iniciado, mas onde, afinal?; Antítese: o cavaleiro do santo Graal, onde está?; e Síntese: na encruzilhada, na aurora, o ritual, com os espíritos, estará ele lá?



MORRER É SER INICIADO

                            Antologia grega.
                        I
Morrer é ser iniciado?
Onde? no céu todo estrelado?
Onde? no Nirvana ideal
Soluça o vento, e o mar profundo
Ulula, - triste moribundo -
             Onde, afinal?

Dizei-o, ó almas torturadas,
Que haveis passado nas cumeadas
Dum grande mundo espiritual!
- Morrer é ser iniciado?
Onde? no céu todo estrelado?
Onde, afinal?


Soluça o vento, e o mar profundo
Chora, - gigante moribundo -,
Uiva nas sombras o chacal...
Morrer é ser iniciado?
Onde? no céu todo estrelado?
Onde, afinal?


O cedro no chão estende os braços
Nuvens se alastram no espaço
Duma cor lívida, espectral...
Soluça o vento, e o mar profundo
Geme, - cativo moribundo...
Onde, afinal?

O albatroz passa nos ares,
Abrindo as asas singulares,
Como um sudário sepulcral...
O cedro ao chão estende os braços...
Nuvens se alastram nos espaços...
Onde, afinal? 

Almas irmãs da flor do linho,
Aves de sonho cor de arminho,
Musgo onde a água de cristal
Depôs carícias singulares!...
O albatroz passa nos ares...
Onde, afinal? 

II
Doces velhinhas que fiais
O vosso linho e os vossos ais
À porta branca do casal,
- Viste passar um cavaleiro,
Fulva armadura de guerreiro,
Ao belo sol ocidental?

Pequenos loiros e morenos,
Passou por vós, de olhos serenos,
Um cavaleiro do santo Graal?!
O seu cavalo era selado
Por um profeta venerado,
Que lho doara, por sinal... 

Árvores santas da floresta
Ele passou... calou-se a festa,
Calou-se o canto matinal:
Sabeis acaso onde ele iria?!
Procurar Noiva à Normandia
- Filha de um grande senescal?

Amplo deserto sem palmeiras,
Passou, em rápidas carreiras
Passou por ti, vasto areal?!
Viste o famoso cavaleiro,
Fulva armadura de guerreiro,
Ao belo sol ocidental?

Campo sem fim das verdes ondas,
Que à lua branca e triste sondas 
o coração angelical,
Passou por ti, sobre o teu leito,
Acaso em lágrimas desfeito,
O cavaleiro do San Graal?!

Fadas: - divina Melusina,
Doce Titânia pequenina,
-Hércules dorme ao pé de Omphale
E ele, que é bom, foi acordá-lo
De ponto em branco, em seu cavalo
Por combaterem contra o Mal?! 


Montes: Titãs agrilhoados
Das tempestades embalado,
-Órgão de estranha catedral,
Alumiou-vos a figura 
Do cavaleiro sem Ventura
De sete estrelo ao peitoral?! 

Águias, pairando no Infinito,
Sem um gemido, sem um grito
Águias do voo triunfal,
Ele buscou, - espaço em fora,
Uma visão Libertadora
Em região primaveral? 

III 
Na encruzilhada, canta o Galo...
Vem os Espíritos cercá-lo...
Vai começar o ritual...
Morrer é ser iniciado?
Onde? no céu estrelado?
Onde, afinal?

Porto, Noite de 9 de Outubro
Rua de Santa Catarina, 616.

E transcrito na Madragoa lisboeta, no dia e horas da partida 
de Antero, 11 de Setembro, pela noite a dentro, então, agora e sempre rumo à Consciência mais plena do Espírito e da Divindade.

Poderíamos acrescentar alguns comentários às referências ao santo Graal, ao cavaleiro, ao sinal que lhe foi dado por um profeta, tal como Fernando Pessoa também põe em epígrafe inicial da Mensagem: Benedictus Dominus Dei qui dedit nobis signum.
Ou ainda às Fadas (cantadas por ele na Antologia Poética que compôs para as crianças), à Melusina e à Titania  pequenina, que talvez seja alusão a uma das musas de Antero, das Primaveras Românticas.
Da pergunta inicial de iniciação num Nirvana ideal, no céu estrelado e infinito, ou no coração do coração, chegamos à encruzilhada, com o Galo, de Sócrates, de Apolo, de Jesus Cristo, o que sobe ao alto, afugenta as trevas do mal e anuncia ou ergue a Luz vitoriosa? 
E os espíritos misteriosos que o cercam, iniciadores ou traidores, seres ou ideias?
Ritual de morte e renascimento, no céu e no íntimo do coração, afinal talvez só visível no olho espiritual que esteja desperto, iniciado....
Que Antero do Quental e Joaquim de Araújo resplandeçam como estrelas no céu nosso e da Consciência Divina, e nos inspirem....

Contracapa de A Morte de Antero, de Joaquim de Araújo, já com a Íbis como símbolo tipográfico, antesucessora da escolha para a empresa tipográfica de Fernando Pessoa, talvez inspirado pela tradição tipográfica de Antero (na Imprensa Nacional e em Paris) e de Joaquim de Araújo.

Antero de Quental, cavaleiro da Justiça, do Amor e da Liberdade em Portugal. Sua libertação do corpo a 11-IX-1891.

Muitos dos grandes seres vivem e morrem a sós. Santo Antero, como foi chamado por alguns dos seus mais próximos, foi um deles, e atravessou a vida com a ardência e a sinceridade dum idealista do amor, da justiça, da verdade e da universalidade, o que lhe custou isolamentos e, após a sua morte auto-realizada, comemorada hoje 11 de Setembro de 2017 como 126º aniversário, algumas incompreensões e manipulações.
                                                
Nasceu em 18 de Abril de 1842, em S. Miguel, Açores, de família com tradições religiosas e poéticas marcadas, matriculando-se na Universidade de Direito de Coimbra em 1858, onde cedo o seu génio poético, revolucionário e orientalista brilha: é preso por oito dias em 1854, provoca em 1861 uma saída dos estudantes até ao Porto em protesto contra o Reitor, funda uma sociedade secreta do Raio, é um dos grandes poetas nocturnos da boémia coimbrã, interessando-se pelas literaturas e religiões clássicas e orientais, em especial persas e indianas.
Os seus primeiros versos são românticos e é em 1865, com as Odes Modernas, que transmite ou manifesta publicamente com mais impacto os seus ideais de justiça, socialismo e liberdade. Trava nesse ano a polémica do Bom Senso e do Bom Gosto com António Castilho, o principal mestre literário de então, na qual participam vários escritores, e vence até num duelo Ramalho Ortigão, que se erguera em defesa do patriarca Castilho. Forma-se em 1866, é aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional por uns meses, e parte para Paris para viver a vida dum operário socialista, que contudo não aguenta muito tempo, pelo que regressa, iniciando uma certa divulgação dos ideais de Proudhon e do socialismo. Em 1871, pronuncia a célebre conferência sobre As causas da decadência dos Povos Peninsulares, que leva o ministro do Reino, Ávila e Bolama, a proibi-las, e Antero a dar-lhe uma contundente resposta, em defesa da liberdade. Vem a fazer parte, ou lidera animicamente, o famoso grupo do Cenáculo, ou dos Cinco, que reúne os cinco principais escritores da época, tal como podemos ver na fotografia seguinte tirada já em 1884 e, como legendas diria, da esquerda nossa para a direita: Eça de Queiroz, ao canto, algo cansado das ironias; Oliveira Martins, firme e calmo na sua cordialidade e escrita; Antero, místico e sem chapéu, olhando de frente a morte e o futuro; Ramalho Ortigão, elegante e social; Guerra Junqueiro, revolucionário satírico e desafiante.
Em 1874 adoece em Ponta Delgada com perturbações nervosas e começa um longo calvário de diagnósticos e tratamentos incorrectos (um provável estrangulamento do piloro, que lhe dificultava as digestões e o sono, seria talvez uma das causa) que o vão diminuindo, e que, aliados a uma certa desilusão política, o fazem atravessar uma fase algo pessimista, ultrapassada ou sublimada a partir de 1880,  quando as suas inquietações metafísicas começam a dar os primeiros frutos interiores de uma maior estabilização de compreensão e amor, realizando em si algo do sonhado “Budismo coroando um Helenismo”. Em 1877 adoptará as duas filhas do seu amigo Germano Meireles, Albertina e Beatriz, que serão a sua família até uns meses antes da sua morte e que chegarão a viver 97 e 94 anos.
Em 1881, instalado em Vila do Conde, junto ao revigorador Oceano, mar do Amar, vai aperfeiçoando os seus notáveis Sonetos, na forma e no conteúdo, e que testemunham uma nítida evolução espiritual, embora confesse que poucos ainda conseguem abordar e transmitir as suas compreensões últimas. Tenta coordenar as suas ideias, os seus trabalhos para a Geração Nova e a Religião do Futuro, mas a saúde apoquenta-o. Mesmo assim em 1890 consegue dar à luz a sua cosmovisão filosófica em três notáveis artigos na Revista de Portugal: as Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX.  E em cartas assinala a sua vontade e esperança que uma filosofia mais profunda e transcendentalista, para a qual ele pensa e trabalha, consiga também falar ao coração e à imaginação como as velhas crenças religiosas ainda comunicavam.
Após o Ultimatum do imperialismo inglês de 1890, na reacção cívica dos portuenses e em especial dos estudantes, aceita o cargo de Presidente da Liga Patriótica do Norte, que eles lhe vão pedir  a Vila do Conde, com eventos de grande emoção e civismo, mas a fraqueza do País e dos políticos desiludem-no já que o movimento desapoiado esmorece,  abandonando de vez a participação pública na marcha dos acontecimentos políticos.
Regressado aos Açores e a Ponta Delgada em 1891, com os seus padecimentos psicofísicos a agravarem-se, cansado do corpo já pouco prestar e desiludido e muito entristecido de lhe terem retirado a tutela e cuidado das duas jovenzinhas que educara e de ter de voltar ao continente algo vencido, desencarna samuraica e voluntariamente em 11 de Setembro de 1891 às 21:00, com dois tiros de pistola  desferidos às 20:00, sentado calma ou quem sabe  nervosamente ou triste, num banco do jardim, que se encontrava debaixo de uma âncora em relevo e da significativa palavra, essa que acompanha todos os peregrinos e nobres viajantes, e que talvez o tenha desarmargurado um pouco antes de se lhe abrir a vereda árdua da vida depois da morte: "Esperança".
Antero foi um dos raros pensadores que se aproximou lúcido da experiência da morte e das elevadas regiões do Não-Ser, investigando o dito grego Morrer é ser iniciado. Pouco antes de morrer, desejara fundar uma ordem de contemplativos, a Ordem dos Mateiros. Fidelino de Figueiredo realçou esse testamento anímico de alguém que «teria sido um S. Bento de Portugal, restaurador da disciplina das almas, iniciador da sua reconstrução pelo recolhimento meditativo». «Três coisas devemos pedir ao recolhimento monástico ou à sua irradiação: firmeza, paciência e esquecimento. Só para as propagar e difundir valeria a pena fundar a velha ordem dos Mateiros, de Antero de Quental — velha, sem nunca ter existido». Numa das suas mais belas poesias Antero concluirá: «A Ideia, o sumo Bem, o Verbo, a Essência, / Só se revela aos homens e às nações / No céu incorruptível da Consciência».
A sua correspondência, trocada ao longo dos anos com vários amigos, é das mais belas, instrutivas e inspiradoras da epistolografia portuguesa, e Ana Maria de Almeida Martins tem-na tratado bem. Tente lê-la, mas oiçamo-lo já e agora um pouco:
"Cada vez me convenço mais de que - na impossibilidade de penetrarmos absolutamente, totalmente até ao fundo do problema da existência - ainda assim a humildade do coração nos aproxima mais da Verdade que o orgulho da inteligência. Ora, desprezar o mundo, desprezar os homens, ver o vácuo e o tédio como resíduo final de tudo é grande pecado de orgulho"...
 Outro seu pensamento valioso e a meditar-se: "O espírito humano não é um fragmento truncado e incompreensível ou uma coisa à parte isolada no meio do Universo, mas sim um elemento fundamental dele e a mais alta potência e expressão da sua essência".
Ou ainda, um dos dirigidos a Jaime Magalhães Lima (do Cartaxo e a 28-V-1889) e que assinala a sua luta pela santidade, e que sempre nos desafiará:«Vivendo cada vez mais para os outros, sentindo morrer em cada dia dentro de si mais uma parcela do eu egoísta que tanto nos ilude, tanto nos faz sofrer e errar, irá entrando gradualmente naquela região da impersonalidade que é a verdadeira beatitude».
 Entre as obras sobre Antero, destaquemos o volumoso In-Memoriam que lhe foi dedicado em 1896, e as escritas por Jaime Magalhães Lima, Luís de Magalhães, Joaquim de Araújo, Jaime de Cortesão, José Bruno Carreiro (talvez a mais valiosa, Antero de Quental, Subsídios para a sua Biografia, 1948), Feliciano Ramos, Leonardo Coimbra, Bourbon e Meneses, Rebelo de Bettencourt, Sant'Anna Dionísio, Joaquim de Carvalho, António Sérgio, Luís Teixeira,  Hernâni Cidade, Fernando Saboia de Medeiros (do Brasil), João Gaspar de Simões,  Ruy Galvão de Carvalho, António Ramos de Almeida, José Vitorino de Pina Martins, Victor de Sá, Óscar Lopes, Eduardo Lourenço, José Calvet Magalhães, Leonel Ribeiro, Fernando Catroga, Ana Maria Almeida Martins, Fernando M. Soares Silva, Manuel Cândido, entre muitos, muitos outros.
Antero, um dos nossos pensadores revolucionários e idealistas mais necessários nos nossos dias de pragmatismo tão materialista...
Antero de Quental, um dos cavaleiros do Amor e da Verdade em Portugal...

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Antero de Quental visto por Raul Brandão...

Na capa, por Tagarro,  do III vol. das Memórias, impresso em 1933 na Seara Nova.
        Raul Brandão (1867-1930), escritor, militar e jornalista portuense, que não nos diz ter conhecido pessoalmente Antero Quental, embora em 1890 o pudesse ter escutado no Porto aquando das movimentações da Liga Patriótica do Norte (malograda "por falta de espírito público"), refere-o ao de leve numa passagem do 1º volume dos três das suas riquíssimas Memórias, nas quais evoca e descreve lúcida e penetrantemente a memória ou o convívio com tantas personagens literárias, políticas e populares da sua época, nos seus aspectos ora pitorescos, ora valiosos, ora trágicos...
A 3ª edição do Vol. I das Memorias, impressa na Aillaud &Bertrand, Lisboa
A 2ª edição do vol. I das Memórias, impressa na Renascença Portuguesa, Porto.
     Numa nota pioneira de biblioterapia, Raul Brandão, a propósito do estado psíquico de escritores, no caso Fialho de Almeida, que por estados desventuradas entram em frequências de leituras mais modestas, escreve: «G...., antigo companheiro de Fialho, sepultado hoje no fundo de uma biblioteca, diz assim a propósito da livraria do grande escritor (no Republica, 28-II-1915): "Eu chamo a estes livros as onze mil virgens. São apenas quatro mil volumes ou pouco mais, mas - vai surpreende-lo esta minúcia - estão aqui todos por abrir. Há aqui Balzac e Zola, Eça e Ibañez, os Goncourt e Ponson du Terrail. Fialho tinha muito Ponson na sua biblioteca. Esta literatura de costureiras e guarda-portões era para as grandes horas amarguradas".
Horas amarguradas e logo literatura cor-de-rosa para as costureiras ou de facalhões e espadachins  para os guarda-portões,os livros para fazerem subir o tónus psíquico desejado de quem os lê 
Será caso para se perguntar se o estilo de leitura de muita gente modernamente significa também que estão amarguradas ou desorientadas e tem de se deixar guiar por enredos fictícios mas que lhes criam emoções e ansiedade?

                 
Prossigamos com o texto de Raul Brandão, na parte em que nomeia Antero e voltando a transcrever as duas últimas linhas:

«Fialho tinha muito Ponson na sua biblioteca. Esta literatura de costureiras e guarda-portões era para as grandes horas amarguradas.
Era. A ele e a outros grandes espíritos basta-lhes o próprio drama. Antero, nos dias aziagos de Vila do Conde, só lia Gaborieu.  Para tragédia chegava-lhe a sua.»
                   
Étienne
Émille Gaboriau (1832-1873), e anote-se que na 3ª edição deste 2º volume das Memórias a gralha no seu nome foi corrigida, é considerado mesmo o pai do romance policial francês, certamente um génio literário com os seus cultores aperfeiçoados na arte de criar suspense e de leitores interessados nesse género de sensações. É curioso que o genial Fernando Pessoa, mesmo no fim da vida, continuava a ser um leitor de romances policiais. Por descargo de consciência direi que é algo que  sou incapaz de ler, ou seja, de perder tempo com tal temática, mas compreende-se em Fernando Pessoa já que escreveu alguns contos ou novelas policiais, um dos quais ainda está para sair a propósito do seu encontro com o mago e ocultista Alesteir Crowley, ainda que saibamos que o que se passou ao nível espiritual e iniciático de modo algum entra em tal brincadeira arquitectada com Ferreira Gomes, outro adepto dos policiais, e aguarda a hora, se é que ela chegará, para ser melhor compreendido e transmitido...
E Antero, será que lia mesmo policiais, um homem com uma demanda de Justiça, de Verdade e de Absoluto tremenda, absorvente?
Não creio. Quem vogara em altas teorias sobre as causas da decadência de Portugal e lutara pela revolução e por um socialismo humano que melhorasse as condições dos portugueses e que desde cedo corajosamente se lançara em altas cavalarias desafiantes dos poderes estabelecidos, seja universitários, literários, políticos, conceptuais, religiosos ou científicos, iria empregar o seu tempo em policiais, correspondentes  hoje de certo modo ainda aos romances pseudo-históricos ou de suspense best-sellers, para não falarmos de quem lê os jornais da bola ou comenta doutoralmente tal actividade, frequentemente numa alienação grande face a um mundo a arder e à Humanidade a querer evoluir e libertar-se de tanta ignorância e ilusão, opressão e violência?
                                 
Se consultarmos o catálogo da substancialmente valiosa mas quantitativamente modesta (apenas 758 títulos) livraria de Antero, legada à Biblioteca Pública de Ponta Delgada, não encontramos contudo sinais das obras de Étienne Gabirau, nem de Ponson du Terrail, nem de qualquer literatura cor de rosa ou policial.
Será então que Raul Brandão ouviu dizer, e enfabula tragicamente um pouco, a condizer com o que apresenta como os "dias aziagos" de Vila de Conde, apresentados até, pelo contrário, nos nossos dias pela maior especialista e devota de Antero, Ana Maria Almeida Martins, como "a década dourada" de Vila do Conde, na qual este entrou numa nova fase da sua vida, na qual até fisicamente estava bem mais saudável, na companhia (desde 1880, mas em Vila Conde apenas a partir de Setembro de 1881) das duas alminhas filhas e órfãs de seu grande amigo Germano Meireles, quais pupilas andorinhas no beirado de uma alta torre?
Cremos que muito provavelmente Antero não usou o seu "escasso" tempo em leituras policiais...
Mas para não ficarmos com uma impressão algo de dúvida em relação  ao puro e insuspeitado existencialista Raul Brandão, insuperável na autenticidade e sensibilidade das suas descrições da vida dos humildes, dos pescadores, dos camponeses, manuseemos o 2º volume das Memórias, o qual na 3ª edição (da Aillaud & Bertrand e datada de 1925, tal como a 1ª) contém um índice alfabético onde Antero de Quental surge por quatro vezes nomeado, três delas no capítulo intitulado Os Últimos dias de Guerra Junqueiro.
E o que nos diz Raul Brandão nas comparações constantes que faz, a partir de um bom conhecimento psicológico de Junqueiro ou no caso também de Eça de Queirós e de outros, é bem valioso: «A sua geração é decerto a maior geração literária que tem nascido em Portugal, e no entanto só talvez Antero, entre todos eles, se conserve intacto... É o único que nos obriga a falar mais baixo. Rodeiam-no ainda as sombras desmedidas com que arcou na existência e que o levaram à morte. Ao próprio Eça, falta não sei o quê que me irrita. Não é o talento que se adivinha e põe de pé a própria vida (...) Ele foi janota e a vida é desalinhada e feroz. Ele foi irónico e a vida não é irónica (...)»
Esta aproximação a Antero no modo típico e trágico de Raul Brandão de valorizar as sombras e as dores, o húmus e os humildes, agarra bem a alma dantesca de Antero, vinte tal anos depois do seu suicídio ainda sendo  uma arca ou lamparina mágica poderosa contendo, envolta e emanando o génio dos grandes mistérios e sombras da existência. 
Antero ainda hoje passa diante de nós em silêncio, olhar no horizonte, como que encapuçado no mistério da Vida e do Além causando o silêncio em nós, ou como diz Raul Brandão, obrigando-nos a falar mais baixo...
Depois de caracterizar em seguida Guerra Junqueiro, que elogia bastante, embora notando que «há na sua vida uma contradição. Iluminou-o uma luz artificial. Não conseguiu ser santo. A certa altura da existência refez-se de alto a abaixo, mas dentro do prédio nem por isso os moradores se entenderam melhor; Deus e o Diabo não puderam viver paredes meias sem atritos (...) Faltou-lhe talvez alguma coisa no seu génio. O poder verbal é admirável, mas sente-se a ausência de intimidade e ternura. Amesquinhou-o também a política.», umas linhas mais à frente surge de novo Antero de Quental, numa referência comparativa aos principais membros do Grupo dos Cinco, ou do Cenáculo: «O Antero estava muito alto, o Oliveira Martins distante e o Eça era irónico. Junqueiro viveu connosco. Todos assistimos à sua vida em todas as fases; conhecemos-lhe todas as suas aspirações».

Juntamos a famosa fotografia do grupo do Cenáculo ou dos Cinco, em 1884 e, como legendas diria, da esquerda nossa para a direita:
Eça, ao canto, algo cansado das ironias; Oliveira Martins, firme e calmo na sua cordialidade e escrita; Antero, místico e sem chapéu, olhando de frente a morte e o futuro;  Ortigão, elegante e social; Junqueiro, revolucionário satírico e desafiante.
Ressalve-se ao terminar que, dada a diferença de idades, Antero de Quental partia quando Raul Brandão começava a sua carreira literária e que por isso, apesar das  afinidades de dois seres bondosos na busca dos sentidos da Vida, não se encontraram, mas é bem profunda a imagem que nos dá dele e nela nos podemos abismar ou elevar, na comunhão no campo unificado ou corpo místico da Tradição Espiritual Portuguesa: 
- "O Antero estava muito alto"....

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Setembro e as suas efemérides do Encontro do Oriente e do Ocidente, da Índia e de Portugal

SETEMBRO

1-IX. Desce à Terra, segundo a tradição inconfirmável aventada por Dhirendra Nath Pal, Sri Krishna, a oitava incarnação de Deus (Vishnu), em Mathura, em 1603 A.C. Ao ser-lhe atribuído uma mãe virgem, abre os fundamentos para outras imaculadas conceições como as de Buddha e Jesus. O seu ensinamento principal é dado ao príncipe Arjuna e constitui os 18 cantos do poema Bhagavad Gita, a História do Bem Amado, enriquecida ao longo dos séculos por milhares de comentários valiosos, já que os seus ensinamentos de ética, das vias da Yoga e acerca da Divindade são bastante belos e elevados. As orações curtas ou jaculatórias, os mantras, mais famosas que lhe foram dedicadas são: «Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare; Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare», e a mais interna: Om Sri Vishnu Narayana.
                                             
D. João II, em 1484, estende privilégios da nobreza aos que se distinguiam na gesta dos Descobrimentos: «A quantos esta nossa carta virem fazemos saber que querendo nós fazer graça e mercê a Gil Gonçalves, piloto... temos por bem e lhe damos licença e lugar que ele possa trazer e traga daqui em diante cadeia de ouro quando lhe aprouver ao pescoço sem embargo das nossas ordenações».
Chega a Lisboa em 1503, da sua segunda viagem à Índia, Vasco da Gama, transportando nas 13 naus muita riqueza. Do primeiro ouro trazido de Quíloa, mandou lavrar D. Manuel ao genial Gil Vicente um vaso consagrado a Deus, e eis a Custódia de Belém, bela imagem do santo Graal, com a ave ou sopro do Espírito Santo perpassando sobre os doze apóstolos, cavaleiros, signos ou sentidos, uma das obras-primas da ourivesaria lusa, ainda hoje um dos ícones no Museu Nacional de Arte Antiga.
António Tenreiro em 1523 parte de Ormuz na embaixada ao Châh Esmâ'il da Pérsia. De lá seguirá para o Egipto das pirâmides e Alexandria mas não conseguindo barco voltou a Ormuz e Goa. Gaspar Correia diz dele: «Sabia muitas falas e fora com Baltazar Pessoa ao Xeque Ismael e tinha grande entendimento dos costumes dos mouros e orações, com que se atrevia andar entre eles e era esforçado de espírito», bela definição do arquétipo dos melhores viajantes portugueses, ecuménicos, dialogantes,pioneiros da Religião Universal do Espírito e do Amor. Em fim de Setembro de 1528 partiu de novo, a pedido de Cristóvão Mendonça, capitão de Ormuz, para saber o que acontecia com as tropas rumes (turcas) e informar o rei de Portugal, e assim atravessa os desertos arábicos, primeiro só com um guia, depois numa cáfila, cruzando muitas aldeias de muçulmanos e cristãos nestorianos, jacobitas e caldeus. Passou junto do monte Ararat na Turquia onde lhe mostraram no cimo os restos da arca de Noé mas, apesar de instado a descortiná-la, e bem porfiando, só enxergava neve, pelo que se desculpou de ver mal. «Natural de Coimbra, homem nobre», como diz o historiador Diogo Couto, chegado a Lisboa após uma viagem rápida e perigosa de três meses foi bem acolhido pelo rei, recebendo uma tença e o hábito da Ordem de Cristo, mas um dia ao sair da casa do antigo governador na Índia Diogo Lopes Sequeira levou umas estocadas de desconhecidos, a mando do filho de Diogo de Melo, que lhe iam custando a vida. Deixou o seu interessante Itinerário.
                                           
Nasce em Calcutá em 1896 Swami Bhaktivedanta Prabhupada, fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, movimento devocional ou do desenvolvimento do Amor Divini muito conhecido das capitais europeias pelas suas danças ao som repetido do mantra Hare Krishna, Hare Rama e pelo seu enfâse numa vida natural e não-violenta, dedicada a Deus na manifestação ou avatarização de Krishna e ainda da sua consorte Sita.Gerou, até 1977, uma vasta literatura de espiritualidade indiana e da via do Amor, a Bhakti Yoga, destacando-se os seus comentários ao Bhagavad Gita e aos Bhakti Sutra de Narada, os quais tenciono também proximamente editar uma co-tradução, comentada por mim.
                                      
                             
Nasce Armando Martins Janeira em 1914, muito provavelmente o primeiro português a subir ao sagrado monte Fuji. Foi embaixador, escritor de valiosa obra orientalista, e grande conhecedor e amante da tradição e alma japonesa, e em especial de Wenceslau de Moraes, sobre o qual escreveu um magnifico e original livro em papel de arroz e personalizado com um postal escrito por Wenceslau de Moraes. Nas Figuras de Silêncio escreve: «O maior problema de Portugal, desde há, pelo menos, um século e meio, tem sido combinar o passado com o presente, isto é, distinguir no passado o que é vivo do que é morto, para incorporar no presente os valores ainda vivos, com força e ricos de conteúdo». «Deve-se acentuar que em Portugal não existe em lugar público memória alguma de qualquer grande vulto japonês. Já sugeri, para um dos nossos jardins públicos, o busto de Bashô, o maior poeta nipónico. Esperemos que a ideia vá por diante, para assim retribuirmos o carinho japonês às nossas Figuras, e como meio de manter vivo por estas o interesse dos japoneses». Este desejo continua virtual. O centenário do seu nascimento foi há poucos anos comemorado pela Câmara Municipal de Cascais e a sua mulher Ingrid, a qual tem mantido a sua memória e obra.
                                         
Fundado neste dia em 1919, em Pangim, o jornal Diário da Noite, passa a ser dirigido em 1950 por António de Meneses, nascido em 1915, um Fiel do Amor da cultura Portuguesa, por diversos modos mantendo essa chama bruxuleante em Goa, sem nunca ter contudo vindo à terra original lusa. Convivi com ele em sua casa no bairro das Fontainhas em duas das peregrinações na Índia e senti bem a sua alma tão luminosa quanto a desta «Princesa jovem e bela, sorridente e feliz. Princesa de sonho e de lenda... chama-se Maria Teresa de Bourbon e Parma» e que viera orar, emocionar-se e chorar diante das Relíquias de S. Francisco Xavier em Goa.
2-IX. Diogo Botelho, experimentado piloto mas ambicioso de ser capitão de fortaleza, parte numa fusta com uns poucos de homens de Dabul rumo a Lisboa, em 1535, para dar a boa nova ao rei D. João III do início da construção da fortaleza de Diu, há muito desejada, e para lhe provar o seu valor. Toda a construção do baixel de cinco metros e meio de comprimento e a preparação da viagem foi feita à revelia das autoridades, fingindo Diogo Botelho que ia levar soldados para Diu e depois daí para uma praça perto. Quando se viu com os planos tirados in loco nas mãos, lançou-se a navegar, com uma cota de armas debaixo da camisa para o que desse e viesse da tripulação talvez furiosa com as perspectivas da travessia sempre perigosa de tantos mares em embarcação tão frágil. Com a ajuda de mais dois mareantes, com umas espadeiradas aqui e umas doenças acolá, a viagem épica fez-se e em maio de 1536 Lisboa via chegar admirada a pequena fusta do ousado Diogo Botelho, que mesmo assim não conseguiu que o rei lhe atribuísse a capitania rendosa duma fortaleza a que se julgava com capacidade e direito, e que só no fim da vida, inchado de tanta água com que se envolvera, é que receberá. O ilustre historiador Quirino da Fonseca, na sua bela obra Viagens Maravilhosas, 1935, consagrará o 1º capitulo a Diogo Botelho e a sua fusta, mas não se esquecerá do mestre Afonso cirurgião, de Francisco Rodrigues, João Batista, Bento de Góis, etc.
                                                 
3-IX. O Arcebispo D. Francisco Garcia, natural de Alter do Chão, que andou 50 anos na Índia a persuadir hindus e cristãos de S. Tomé dos princípios e doutrinas da Igreja de Roma, para o que estava bem dotado pois sabia grego, hebraico, caldaico, siríaco, canarim, sânscrito e indostânico, já com 18 anos como arcebispo da Serra, entra pelo túnel estreito e simplificador da morte neste dia em 1659. O Homem das 33 Perfeições, editado em Lisboa em 1958 pelo notável jesuíta José Wicki, é a sua obra que sobreviveu, tecida de contos ind ianos por ele traduzidos e com pequenas máximas suas.Uma nota biográfica pelo P. Jacinto de Magistri, de 1660, diz que «sendo prelado conservou sempre o exercício da vida religiosa em se alevantar pela manhã cedo, em fazer sua oração mental, exames, ler a lição espiritual e outros exercícios religiosos»
                                                    
Nasce em Damão, na Índia portuguesa, António Sérgio, neste dia em 1883. Livre-pensador e democrata, com vasta obra de pensador e escritor, foi preso e exilado pelo regime de Salazar, mas mesmo assim a sua obra era lida, discutida e sentida como uma luz na obscuridade política. Foi um grande propugnador dos princípios do cooperativismo em Portugal. O movimento da Seara Nova e a sua revista, onde funcionava uma secção Oriental, na qual colaboraram alguns dos nossos indianistas (Adeodato Barreto, Telo Mascarenhas), devem-lhe muito, e as suas tertúlias literárias eram fecundas. Os seus estudos de história e os vários volumes dos Ensaios foram contributos importantes para equilibrar a mitificação exagerada na história de Portugal, embora por vezes sofrendo dum excessivo pendor positivista, como aconteceu, por exemplo, nas polémicas acerca do Sebastianismo e do messianismo. Os seus comentários tecidos à História Trágico-Marítima são dedicados «À memória do Infante D. Pedro, de D. Francisco de Almeida, de D. João de Castro, de Diogo de Couto, de Luís Mendes de Vasconcelos, contrários à ideia de fazer conquistas, de multiplicar fortalezas».
Sadhu Sundara Sing, um Sikh, nasce em 1889, em Patiala. Recebe na sua demanda o apelo de Jesus, converte-se ao anglicanismo e manifesta a sua poderosa e original ligação a Cristo, missionando por fora da Índia, até desaparecer nos Himalaias numa das suas idas ao Tibete. Dirá: «A terra acumula o calor do sol, e este brota quando batemos uma pedra contra outra. Igualmente, os pensadores cristãos receberam a luz do sol da justiça, e os hindus tem a sua parte no Espírito Santo. Há coisas magníficas no hinduísmo, mas a luz perfeita vem do Cristo. De igual modo, todo o homem, quer seja cristão ou não, vive do Espírito Santo, mesmo se lhe é dado um outro nome. O Espírito Santo não está reservado para um só povo... Nós podemos absorver o Espírito Santo pela oração... Os místicos muçulmanos e hindus cometeram o erro de se querer aniquilar no Espírito universal, como um rio que se deita num oceano. O ideal consiste em viver no Espírito e não em se perder nele».
                                   
4-IX. O P. Francisco Xavier recebeu em Goa (1548) o P. Baltazar Gago e apreciando a sua coragem crística enviou-o para o reino do Bungo (Oita) no Japão (em 1552), onde se notabilizou ao conseguir tornar-se amigo do dáimio, ao evitar que as mães pobres matassem as filhas, ao criar um hospital para leprosos e pobres, ao convencer, depois de longas e repetidas práticas e interrogações dois mestres budistas, que tomam os nomes de Paulo e de Barnabé, duma melhor lei religiosa do Criador do Mundo, e ao converter uns milhares de japoneses durante muitos anos. Aos 68 anos, o corpo já cansado dos esforços físicos e tensões que custava a vida num país de samurais sempre em guerra e das discussões religiosas, despede-se deste mundo de tão controversas opiniões, já em Goa, em 1583.
5-IX. Baptismo de três príncipes mogóis, orfãos, entregues pelo imperador Jahanguir aos jesuítas, em 1610 em Agra, com grandes cerimónias. O capitão de mar inglês Hakwins (1º embaixador de Inglaterra à Índia entre 1609 e 1611), apesar de inimigo dos jesuítas, pois era anglicano, resolve participar «para honrar a nação inglesa» levando a cavalo a bandeira de S. Jorge. Em vão esperarão contudo os jesuítas que o imperador Jahangir,, filho do universalista Akbar e duma princesa indiana rajput, passasse da tolerância e abertura a certos aspectos do cristianismo à conversão plena.
A nau S. João em 1621 no Cabo da Boa Esperança tem de lutar com três naus holandesas, pondo-as em fuga, mas ficando também destroçada. Começa um calvário tremendo de meses até chegarem uns poucos à ilha de Moçambique, então belo oásis para os lusitanos.
Chega na nau Capitânia à Índia o jovem missionário lisboeta, que se tornara mais tarde S. João de Brito, neste dia em 1673, depois duma viagem dura em que muitos dos 27 jesuítas que partiram morreram. Em Goa prossegue o seu noviciado, conclui um exame final de Teologia e parte corajoso e entusiasta para a missionarização nos Gates em 1674.
Nasce em 1888 o pensador Radhakrishnam que virá a afirmar antes de ser Presidente da República da Índia: «Nem o Este político, nem o Oeste político receberam a missão de fazer a educação da humanidade. Nós os pensadores, que estamos acima dessa embrulhada, temos o dever, quando todas as pontes estão cortadas, de servir de pontes não só entre o Leste e o Oeste, mas entre as verdades parciais e complementares que cobrem as filosofias opostas... O real é a essência da alma. O objectivo do ser humano é a união com esta realidade, o que será obra não só da razão, mas de toda a personalidade. Devemos abraçar o real não só pelo pensamento, mas de todo o nosso ser. Não se trata de ter ideias, mas de transformar o seu eu e de renovar o seu ser. Pela contemplação, transformamos o homem todo inteiro e assimilamo-lo à natureza do objecto».
                            
Madre Teresa de Calcutá, ao fim duma vida dedicada a servir os mais fracos e desprotegidos com um sucesso espantoso, em 1997, deixa a vestimenta azul e branca das Missionárias da Caridade que cobria o seu pequeno mas valoroso corpo e parte para os outros mundos como alma luminosa e brevemente santificável pela heroicidade com que manifestou as virtudes cristãs perante situações tão adversas e lastimáveis. A grande Índia soube prestar-lhe um funeral de Estado, dando mais uma vez mostras do seu ecumenismo milenário e do seu culto dos mahatmas, as grandes almas, neste caso em amor, compaixão e serviço.

6-IX. Chegam ao porto de S. Lucar na Espanha, ao fim de três anos da árdua 1ª viagem de circum-navegação, em 1522, Sebastian del Cano e 18 tripulantes no navio Vitória, entre os quais está o marinheiro português Francisco Rodrigues e o cosmógrafo humanista italiano António Pigafetta, este o que desenha e descreve a viagem. Pelo caminho desta odisseia tremenda ficaram dezenas de homens, como os destemidos cientistas e sábios capitães Fernão de Magalhães ("conhecia o mar como as suas mãos") e Duarte Pacheco e o contramestre Leone Pancaldo.
                                               
Rui Freire de Andrade, que fora governador de Damão e Chaul, general do mar de Ormuz, costa da Pérsia e da Arábia, vencedor de muitas batalhas, tanto em terra com em mar, «homem capacíssimo por valor, por destreza», ainda que por vezes rigoroso em excesso, um dos defeitos de grandes lutadores e governadores de então, morre em Goa em 1636. Na época, ele, Nuno Álvares Botelho e António Teles de Meneses distinguiram-se como capitães da armada ao superarem a superioridade numérica dos holandeses e ingleses pela sua perícia, coragem e dedicação. O seu estoicismo era inteiro, como nos conta o historiador da Ásia Portuguesa Manuel Faria e Sousa: numa luta «mandando dar Santiago em copiosos inimigos, respondeu o capitão Vilano que não tinha gente. Passado adiante, voltou a ordenar que dessem Santiago e nessa ocasião lhe penetrou uma bala pela barriga», mas dizia «não é nada, estou são».
                                                    
Nasce Helmuth von Glasenapp em 1891 em Berlim. Orientalista com vasta obra publicada até 1963, quando desencarna, foi professor de Civilização Indiana e História Comparada das Religiões em quatro universidades, aprofundando sobretudo o Hinduísmo, o Jainismo e o Budismo, dirá: «A educação é necessária para fazer duma criança submetida a impulsões variadas e contraditórias, um adulto obedecendo às leis de moral... Mas tal faz-se num desenvolvimento progressivo, ao longo de toda a vida, para ela se realizar plena e verdadeiramente. De igual modo a realização espiritual faz-se por graus de disciplina e concentração interior até que a harmonia da alma com o divino se estabeleça».
7-IX. Narra na sua Quarta das Décadas da Ásia o historiador João de Barros que no ano de 1524 havia uma conjunção de todos os planetas na casa de Peixes o que, segundo muitos astrólogos da Europa, prognosticava dilúvio geral ou de muita parte da terra. Sucedendo então neste dia um maremoto na terceira viagem de Vasco da Gama, o almirante vendo os marinheiros atemorizados, berrou: «Amigos, prazer e alegria, o mar treme de nós, não hajais medo, que isto é tremor de terra». Alguns, receavam já não encontrar costa onde desembarcar, mas a voz da Razão, calma e amorosa, do notável comandante Vasco da Gama prevaleceu. Fernando Pessoa na sua Mensagem, ritual das grandes almas de Portugal, ergueu-o como mítico Argonauta numa ascensão impressionante.
Na margem do rio Ypiranga D. Pedro (como retrata o quadro de Pedro Américo, já de 1888) lança o brado da Independência do Brasil em 1822. Nascera o milagre duma nova nação, verdadeira síntese de terras, povos, almas e civilizações tão diferentes mas irmanadas daí em diante numa fusão notável, riquíssima de potenciais, muitas já realizadas mas ainda com assimetrias de níveis de vida e rendimentos exageradas. É o Dia da Independência do Brasil.
                                    

                                                 
Nasce em Dhamrai, Bengala oriental, hoje Bangla Desh, em 1887, Gopinath Kaviraj, um dos melhores intérpretes da sabedoria indiana e que a realizará profunda e misticamente. Professor de Filosofia, considera-a apenas como «um degrau para a mais elevada fonte de verdadeiro conhecimento que é a revelação, pois o intelecto só pode remover dúvidas e perversões a fim de tornar a mente pronta a receber a Verdade», que é Uma e está para além de todas as formulações, sendo este mundo relativo o campo de acção do Absoluto. O seu mestre foi um famoso yogui Vishuddhananda Paramahansa (1853-1937), conhecido pelos poderes psíquicos que possuía e que teve o seu ashram num Tibete então maravilhosamente livre para a circuçalação dos yoguis das diferentes tradições. Na sua vida Gopinath foi bibliotecário, reitor, professor, investigador e yogui profundo e deixou uma vasta obra publicada.
8-IX. «Viva El-Rei D. João IV, rei legítimo de Portugal». Assim proclamou uma criança em 1641 na igreja de Pangim. Era André de Liz, nove anos, filho do capitão da nau enviada do reino para dar a boa-nova da independência a Goa que, cercada persistentemente pelos holandeses, só a pode receber pela pequena almadia em que André e oito rijos marinheiros a transportaram nas léguas finais sobre as águas tépidas do Mandovi.
                                                 
Desencarna em 1939 Swami Abhedananda, na altura o último discípulo directo de Ramakrishna. Nascera em 1866 e depois de ter conhecido o mestre nos últimos de vida, após a sua partida tornou-se monge e percorreu a Índia em peregrinação durante dez anos. Partiu depois a pedido de swami Vivekananda para a USA onde durante 25 anos ensinou e orientou várias actividades da Ordem de Ramakrishna. Escreveu: «Os hindus entendem pela palavra Cristo o estado supremo de consciência divina, onde toda a dualidade e a ideia de separatividade cessam para sempre, e em que o influxo tremendo da essência Divina do Espírito Universal, quebrando todas as barreiras e limitações da nossa consciência humana, faz-nos realizar a nossa eterna unidade com o Pai celestial no plano espiritual. Quem quer que atinja este estado, torna-se um Cristo». Considerando a ideia da incarnação de Deus correcta e a sua exclusividade em Jesus errada, contrapõe o versículo do Bhagavad Gita que defende a periocidade dos Avatares, ou enviados divinos: «Sempre que a irreligião prevalece e a verdadeira religião declina, Eu manifesto-me numa forma humana para estabelecer a rectidão e destruir o mal». Sobre o pecado original dirá: «Os hindus pensam que o pecado significa egoísmo e fazem-no originar não num diabo mitológico, ou num poder sobrenatural do mal, mas na ignorância do homem tanto da sua natureza divina, como do facto que Deus habita em cada alma individual». As razões porque um Hindu aceita o Cristo e rejeita Igrejidade (Churchianity) foi um dos seus folhetos mais editados, onde, embora com  erros ou exageros, critica vários aspectos mais fracos da dogmática católica.
                                           
Sri Nisargadatta Maharaj, um dos últimos grandes mestres na tradição filosófica não-dual , advaita, morre neste dia 8-IX em 1981 em Bombaim, tendo mantido sempre a vida simples dum enrolador de bidis, os cigarros asiáticos. Os seus ensinamentos, embora na linha do outro grande mestre não.dual do séc XX Ramana Maharish do auto-inquérito e auto-realização interior, a qual leva mais à contemplação, contém contudo fortes apelos ao Amor e à actividade harmonizadora do Amor: «A acção não conduz à perfeição. A perfeição exprime-se em acção. Enquanto julgardes pelo que vos exprimis, dai a esta expressão a maior atenção. Quando tomardes consciência da vossa natureza verdadeira, o vosso comportamento será espontaneamente perfeito... A realidade expressa em acção torna a acção bela e significante... A natureza do amor é procurar exprimir-se, afirmar-se, vencer as dificuldades. Quando tiverdes compreendido que o mundo não é senão amor em acção, considerá--lo-eis de modo muito diferente. Mas primeiro a vossa atitude para com o sofrimento deve mudar. O sofrimento é sobretudo um pedido de atenção, que é ela mesma um movimento de amor. Mais que a felicidade, o amor quer a evolução, o alargamento e o aprofundamento da consciência e do ser. Tudo o que vos impede, torna-se fonte de sofrimento e o amor não foge ao sofrimento. Sattva, a energia que participa no desenvolvimento harmonioso e justo, não deve ser entravada. Quando é obstruída a sua passagem, ela volta--se contra ela própria e torna-se destrutiva. Desde que o amor é reprimido e que é permitido ao sofrimento espalhar-se, a guerra torna-se inevitável. A nossa indiferença para com as dores do nosso próximo traz o sofrimento à nossa porta».


9-IX. O P. António Monserrate, o destemido participante nas discussões das várias religiões na Casa da Adoração (Ibadat Khana), na cidade imperial Fatehpur Sikri, sob a égide do ecuménico («cada pessoa pode adorar a Deus à sua maneira») e genial imperador mogol Akbar, escreve neste dia em 1580 a propósíto desses pioneiros encontros interreligiosos: «Fiquei descontente de empeçarem na verdade das Escrituras, que é o limiar da porta nesta matéria, porque como os dogmas da nossa fé se fundam no que Deus tem revelado nas sagradas Escrituras, a razão humana as não alcança, se a esta se não dá inteiro crédito; por demais é porfiar (como dizem), se os Deus por outra via não alumiar». O problema da fé cega nas Escrituras vinha assim ao de cima, pois querendo q ue os outros aceitassem tudo delas, punha as dos outros em causa, chegando até a afirmar, para grande irritação dos teólogos islâmicos (muttafiqan), que «não tinham sido os cristãos que corromperam as escrituras mas Maomé, e que o Corão estava cheio de erros».
                                                       
Nasce na Rússia em 1828 o conde Leão Tolstoi, autor de famosos romances e de estudos sobre o cristianismo original e também estudioso das tradições orientais, tal o budismo: «Que estranho ensinamento: E como foi distorcido! Uma ensinamento tão abstracto, o Nirvana, e de repente a mesma adoração de ídolos, o céu e o inferno... Absolutamente as mesmas superstições que o cristianismo». Estudou Shankara, apreciou Ramakrishna, e com a Carta a um Indiano abanará a Índia: «Como é que um pequeno grupo de ingleses inferior em moralidade religiosa aos indianos os escraviza?» Propõe então a não-violência: «Não resisti ao mal, mas também não participeis no mal, nos actos violentos da administração dos tribunais, na cobrança dos impostos, e o mais importante, no exército, e ninguém no mundo vos escravizará». Gandhi será um leitor de Tolstoi, corresponder-se-á com ele e confessar-se-á seu devoto admirador em 1911 (um ano depois da morte dele) e dever-lhe muito na vida. Em Portugal será o sábio escritor Jaime Magalhães de Lima quem se interessará mais pela vida e obra de Tolstoi, indo em peregrinação e encontrando-o na sua Isnaia Poliana, no coração da Rússia, onde as ideias do cristianismo primitivo eram por Tolstoi tentadas viver com dificuldades e a quem ofereceu um livro de Antero de Quental. O seu amigo Antero confessou-lhe numa carta. «Quem me dera viver sempre com doidos como o Conde Tolstoi! Não é só um santo, é também um sábio», expressão curiosa pois acabou por ser consagrada a Antero. (Estatueta de Tolstoi, por R. X, 1956)
                                           
10-IX. D. João de Castro chega a Goa em 1545 e é recebido efusivamente pelo seu antecessor Martim Afonso de Sousa. Como nos relata o seu biógrafo Jacinto Freire de Andrade, houve «naquela noite bailes e folias; festins que a singeleza de Portugal antigo levou ao Oriente». O encontro amistoso entre duas cortes de vice-reis notáveis não sendo frequente, pode ter produzido boas transmissões de conhecimentos e forças.
D. João III escreve neste dia em 1555 para Coimbra: «Dr. Diogo de Teive: Eu el-Rei vos envio muito saudar; mando-vos que entregueis esse Colégio das Artes, e governo dele, mui inteiramente, ao P. Diogo Mirão, Provincial da Companhia de Jesus». No Colégio das Artes, fundado em 1547 e dirigido pelo antigo reitor de colégios universitários em França André de Gouveia, detectaram-se três professores suspeitos de protestantismo (Diogo de Teive, João da Costa e Jorge Buchanam), logo expulsos e detidos nas celas inquisitoriais. O controle da formação pré-universitária era assim entregue a mentes mais fiéis, ortodoxas e escolásticas. Diogo de Teive, como bom pedagogo, foi ainda autor de Sentenças muito doutas, e dumas Regras para a Educação de El-Rei D. Sebastião, onde aconselha: «O principal cuidado do bom Mestre há-de ser procurar que a pouca idade não venha a atemorizar-se com o trabalho, nem a contrair ódio às letras, mas elas particularmente, sem as quais haver vida é impossível, ame e tenha como indigno da luz vital quem fôr desprovido das letras».
O P. Rudolfo Aquaviva queixa-se em carta ao reitor de Goa, em 1580, dos mouros em Agra mofarem com ele sempre que diz Jesus Cristo, Filho de Deus: «Assim quando chego a casa com o punhado de cristãos que estão connosco como numa Arca de Noé, mesmo as próprias paredes só conseguem repetir: Filho de Deus, Filho de Deus... E parecem replicar: Como podemos nós cantar o cântico do Senhor numa terra estranha?» Eis a grande questão posta no encontro das religiões: Jesus Cristo filho único de Deus, ou apenas um profeta ou mestre, ainda que até o mais elevado, o que mais manifestou o Amor Divino? O pensador japonês Suzuki Shôsan (1549-1640) questionará argutamente algumas certezas do catolicismo: «Porque razão Deus não apareceu em todas as nações para as salvar indiscriminadamente? Porque permite Deus a outros Buddhas (que Jesus) pregar diferentes doutrinas? Como pode Deus ser todo misericordioso se permitiu durante os cinco mil anos antes do nascimento de Jesus Cristo que todos os seres humanos fossem para o inferno?»

11-IX. Diogo Lopes de Sequeira (que chegará a governador do Estado Português na Índia) aporta a Malaca em 1509, e é bem recebido pelo rei e pelos negociantes e marinheiros chineses, mas depois as conspirações dos muçulmanos provocam a fuga dos barcos deixando 33 homens em terra presos e vários mortos. Ora o regimento real dado a Sequeira era bem específico no «principal fundamento» da viagem: «desejo e grande vontade de com os reis e senhores delas nos conhecermos e prestarmos nossas gentes com as suas e com eles termos paz e amizade... para connosco e nossas gentes folgarem de tratar». Porém, mais uma vez, a rivalidade religioso-comercial gorava as tentativas de relacionamento comercial pacífico e assim Afonso de Albuquerque virá impôr-se ao rei e libertá-los em 1511 e tentará a partir daí o comércio com a China, a Tailândia, a Birmânia. O boticário Tomé Pires escreverá em Malaca a sua Suma Oriental, antes de partir para a China como embaixador em 1517, onde será retido e executado, tendo deixado uma filha, Inês Leiria, segundo Fernão Mendes Pinto.



Muitos dos grandes seres vivem e morrem a sós. Santo Antero, como foi chamado por muitos, foi um deles, e atravessou a vida com a ardência e a sinceridade dum idealista do amor, da justiça, da verdade e da universalidade, o que lhe custou isolamentos e, após a sua morte auto-realizada, comemorada hoje 11 de Setembro de 2017 como 123º aniversário, incompreensões e manipulações..
Nasceu em 18 de Abril de 1842, em S. Miguel, Açores, de família com tradições religiosas e poéticas marcadas, matriculando-se na Universidade de Direito de Coimbra em 1858, onde cedo o seu génio poético, revolucionário e orientalista brilha: é preso por oito dias em 1854, provoca em 1861 uma saída dos estudantes até ao Porto em protesto contra o Reitor, funda uma sociedade secreta do Raio, é um dos grandes poetas nocturnos da boémia coimbrã, interessa-se pelas literaturas e religiões orientais, em especial persas e indianas.
Os seus primeiros versos são românticos e é em 1865, com as Odes Modernas, que transmite ou manifesta publicamente com mais impacto os seus ideais de justiça, socialismo e liberdade. Trava nesse ano a polémica do Bom Senso e do Bom Gosto com António Castilho, o principal mestre literário de então, na qual participam vários escritores, e vence até num duelo Ramalho Ortigão, que se erguera em defesa do patriarca Castilho. Forma-se em 1866, é aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, e parte para Paris para viver a vida dum operário socialista, que contudo não aguenta muito tempo, pelo que regressa, iniciando uma certa divulgação dos ideais de Proudhon e do socialismo. Em 1871, pronuncia a célebre conferência sobre As causas da decadência dos povos Peninsulares, que leva o ministro do Reino, Ávila e Bolama, a proibi-las, e Antero a dar-lhe uma contundente resposta, em defesa da liberdade. Vem a fazer parte do famoso grupo dos "Vencidos da Vida", que reune os principais escritores da época, retratado por Columbano...
Em 1874, adoece em Ponta Delgada, e começa um longo calvário de diagnósticos e tratamentos incorrectos (um provavel estrangulamento do piloro, que lhe dificultava as digestões e o sono) que o vão diminuindo, e que, aliados a uma certa desilusão política, o fazem atravessar uma fase algo pessimista, ultrapassada a partir de 1880, altura em que as suas inquietações metafísicas começam a dar os primeiros frutos interiores de uma maior estabilização de compreensão e amor, realizando em si algo do sonhado “Budismo coroando um Helenismo”. Em 1877 adoptará as duas filhas do seu amigo Germano Meireles, que viverão com ele até uns meses antes da sua morte e que chegarão a viver 97 e 94 anos.
Em 1881, instalado em Vila do Conde, junto ao mar, vai aperfeiçoando os seus notáveis Sonetos, na forma e no conteúdo, e que testemunham uma nítida evolução espiritual. Tenta coordenar as suas ideias, os seus trabalhos para a Geração nova e a Religião do Futuro, mas a saúde apoquenta-o. Após o Ultimatum do imperialismo inglês de 1890, na reacção cívica dos portuenses e em especial dos estudantes aceita o cargo de Presidente da Liga Patriótica do Norte, que eles lhe vão pedir  a Vila do Conde, com eventos de grande emoção e civismo, mas a fraqueza do País e dos políticos desiludem-no já que o movimento desapoiado esmorece,  abandonando de vez a participação pública na marcha dos acontecimentos políticos.
Regressado aos Açores e a Ponta Delgada em 1891, com os seus padecimentos a agravarem-se, receia alguma situação mais grave e desiludido de lhe terem retirado a tutela e cuidado das duas jovenzinhas que educara, desincarna samuraica e voluntariamente com dois tiros de pistola em 11 de Setembro de 1891, sentado calma ou quem sabe algo nervosamente num banco do jardim, que se encontrava debaixo de uma âncora em relevo e da significativa palavra, essa que acompanha todos os peregrinos e nobres viajantes, e que talvez o tenha desarmargurado um pouco antes de se lhe abrir a vereda árdua da vida depois da morte: "Esperança".
Antero foi um dos raros pensadores que se aproximou lúcido da experiência da morte e das elevadas regiões do Não-Ser, investigando o dito grego Morrer é ser iniciado.Pouco antes de morrer, desejara fundar uma ordem de contemplativos, a Ordem dos Mateiros. Fidelino de Figueiredo realçou esse testamento anímico de alguém que «teria sido um S. Bento de Portugal, restaurador da disciplina das almas, iniciador da sua reconstrução pelo recolhimento meditativo». «Três coisas devemos pedir ao recolhimento monástico ou à sua irradiação: firmeza, paciência e esquecimento. Só para as propagar e difundir valeria a pena fundar a velha ordem dos Mateiros, de Antero de Quental — velha, sem nunca ter existido». Numa das suas mais belas poesias Antero concluirá: «A Ideia, o sumo Bem, o Verbo, a Essência, / Só se revela aos homens e às nações / No céu incorruptível da Consciência».

                                     
10.000 pessoas ouvem impressionadas, neste dia em 1893, a mensagem poderosa e anti-opressiva do discípulo de Ramakrishna, Swami Vivekananda, no I Parlamento Mundial das Religiões, em Chicago (o qual se repetirá em 1993): «Oh! filhos da imortalidade, Oh! divindades na terra, erguei-vos. Oh! leões, libertem-se da ilusão que sois carneiros. Vós sois almas, espíritos imortais, livres, abençoados eternos. Esta é a mensagem da Índia. Possa eu nascer e nascer de novo e sofrer milhares de misérias de modo a que possa adorar o único Deus que eu acredito na soma total de todas as almas e acima de tudo, meu Deus o fraco, meu Deus o miserável, meu Deus o pobre de todas as raças de todas as espécies». Menos místico que o seu mestre Ramakrishna, mas mais intelectual e dinâmico, um entusiasta orador, gerará muitas obras e imprimirá à ordem de monges, além da divulgação da espiritualidade indiana na linha Yoga Vedanta e Bhakti, um carácter de serviço organizado, notável na educação e assistência espiritual e hospitalar e em casos de calamidade pública.

                               
Vinoba (Vinayak Bhave) nasce em 1895, perto de Bombaim. Dotado para as línguas (12) e as matemáticas, abandonou um futuro promissor para se entregar a Gandhi. No seu ashram (comunidade) executa todas as funções com tal perfeição que Gandhi confessa ao pastor inglês Andrews que lhe perguntava quem era ele: «É uma das pérolas raras do ashram, um daqueles que vieram não para ser benzidos, mas para abençoar, não para receber, mas para dar». Mestre de Gandhi no sânscrito e na interpretação e recitação dos textos sagrados, pois nascera brâmane, discípulo profundo nos votos e técnicas da não-violência, quando Gandhi morreu, tomou o seu lugar. Como disse o famoso cantor Toukdoji: «O Pai partiu, o Filho carregou o fardo sobre o seu ombro. Vinoba é agora para nós o que Bapou (Pai) era para nós. Gandhiji morto, eis agora o advento do herdeiro do seu imenso amor». Vinoba inicia então o Bhodan, o dom gratuito ou caridoso da terra, e recebe milhões de hectares para os mais desvaforecidos em grandes peregrinações a pé por toda a Índia, justificando-se: «Não basta espalhar ideias e não convém impô-las, e é preciso ainda que venham ter connosco e que adiram às coisas. Se elas aderirem às coisas, impõem-se e espalham-se. Se tivesse atravessado as aldeias a rolar sobre nuvens de poeira, as minhas ideias não teriam raízes» No seu ashram em Wardha, homens de Estado e peregrinos, entre os quais se destacou o siciliano francês Lanza del Vasto, encontraram sempre um caloroso e sábio acolhimento, como eu próprio o experimentei sendo por ele recebido de braços abertos.

12-IX. Carta de S. Francisco Xavier em 1544 a Mansilhas: «por amor de Deus que escreveis ao capitão da minha parte, que lhe rogo muito, que por todo este mês de Setembro que me há-de fazer mercê que não mande, nem consinta que se façam males aos gentios da terra del-rei Grande, pois são tanto nossos amigos nas coisas dos cristãos... para que não haja queixumes de nós a el-rei».
Baptismo em Évora de Afonso Guerreiro em 1676. Partido para a Índia, embora promovido a capitão de nau, fez-se pouco depois franciscano. Ao fim de oito anos foi nomeado Procurador Geral, regressando a Lisboa. Veio a pertencer à Academia Real de História pelas suas probas investigações.
Vinoba, o companheiro de Gandhi e seu sucessor na liderança da linha da não-violência, diz-nos assim num discurso neste dia em 1957, em Yelwal, Mysore: «É minha fé fundamental que há um espírito divino no coração do ser humano. Superficialmente pode haver faltas, mas não são da essência interna. Precisamos então de descobrir um caminho que entre no mais íntimo do coração para que toda a bondade seja revelada. E esse caminho pode ser encontrado; descobri-o em Telengana. Eu pedi terra, e um homem avançou e deu-me terras. Para mim este minúsculo incidente foi um sinal de Deus; confirmou a minha fé em Deus. É contra o dharma (ordem cósmica) e a razão pensar que a terra pode ser propriedade individual. E quando eu comecei a pedir terra num espírito de amor, as pessoas começaram a responder. Foi como se um vento fresco começasse a soprar, e as pessoas vieram, vindas de longe ou de perto, juntar--se à nossa peregrinação». Assim se referia Vinoba às jornadas a pé (bhodan) que atravessaram a Índia a pedir e a receber terras para os mais destituídos (grandam). Isto na sua plenitude significa «que tudo o que se possui deve ser posto à disposição da comunidade como um todo». Assim se realizou uma reforma agrária, não-violenta e eficaz, de milhões de hectares.

13-IX. A armada de Pedro Álvares Cabral fundeia junto a Calecut em 1500 e entrega ao Samorim a carta enviada por D. Manuel: «Deveis fazer nessa partes do Oriente, o que todos fazemos nestas do Poente, que é darmos muitos louvores ao senhor Deus, porque em vossos dias e nos nossos fez tanta mercê ao mundo, que por vista nos pudéssemos saber e ver e conhecer, e ajuntar e vizinhar por conversação, estando as gentes dessas terras e destas tão afastadas umas das outras do começo do mundo até agora, e tão sem cuidado nem esperança disto». O Senhor dos Mares (Samorim) de Calecut dirá que apreciou a mensagem, uma das mais belas declarações de princípios nos Descobrimentos, mas que ficará sobretudo para a história da Utopia.
Aporta em Goa em 1556 a armada trazendo consigo uma carga muito preciosa: desde o patriarca da Etiópia ao impressor Juan de Bustamante, passando dentro em pouco a haver em Goa quatro impressores da Palavra ou Verbo com o nome de João: João de Édem, João Quinquénio, João Blávio e João de Bustamante.
Desembarcam neste dia em Goa em 1578, os missionários Duarte de Sande, evangelizador no Japão, e Miguel Ruggieri e Mateus Ricci, que depois de três anos na Índia, virão a ter grande acção na China, ao seguirem uma adaptação do cristianismo com o que estudaram e se podia reconhecer da sabedoria antiga da China, debaixo da ameaça das reservas da mentalidade limitada de outros padres, ou das rivalidades com franciscanos e dominicanos, desejosos de missionarem nessa imensa e oblíqua seara entregue aos jesuítas.

14-IX. Naufrágio de duas naus da Índia em 1606 já às portas de Lisboa. Sobre estes naufrágios diz Diogo de Couto na sua bastante original e crítica obra sobre os Descobrimentos, o Soldado Prático: «Já não aproveita para as Naus irem e virem a salvamento, partirem cedo, nem bons pilotos, nem irem bem remendadas e aparelhadas de todo o necessário: porque vão e vêm tão alastradas de pecados, que, dizem, visivelmente falam demónios nelas em suas tormentas, e trabalhos; e não era assim no tempo passado, que nas tormentas lhes aparecia Nossa Senhora, como quem sempre costumou aparecer, e ajudar aos que por ela chamam em seus trabalhos». Mãe, Dama, Santa Sofia, Alma dos cavaleiros, Alma do mundo, eis o eterno Princípio Feminino por tantos nomes cultuado, mas por tão poucos seres realizado, e em baixo numa pintura do ilustre mestre russo Nicholai Roerich.
                                          
Revolta dos soldados maratas contra o facto de irem em comissão para Moçambique (cemitério de recentes expedições da Índia) sem condições justas, aos quais se juntam os ranes e aldeões de Satari, em 1895. O Senado de Goa deputou o conde de Mahem e o visconde de Bardez uma vez, e depois o conde de Mahem e dois oficiais, para tentarem convencer os revoltosos a renderem--se e que seriam perdoados, porém os ranes opuseram-se mas, ao aumentarem as violências, perderam a simpatia compreensiva de certa parte da população de Goa. Gomes da Costa (1863-1927) tenta com a sua proverbial coragem e força controlar a situação, mas será a expedição enviada de Lisboa e comandada pelo Príncipe D. Afonso a repor a ordem em Dezembro e a reorganizar o Exército. Muitas publicações se geraram na época sobre o caso.
                                                               
15-IX. Zarpam de Lisboa neste dia em 1554 os primeiros missionários jesuítas para o reino do Prestes João, complementando a obra dos cento e tal companheiros de D. Cristóvão da Gama que por lá ainda se encontravam como colonos e guerreiros. Mas a resistência dos antigos costumes e ritos, tal a circuncisão, o baptismo anual, a guarda do Sábado santo, o casamento dos padres, manter-se-á sempre e será muito difícil convencerem-nos que as doutrinas e ritos de Roma é que eram os certos. Grande debates teológicos acontecerão. Em 1622 o P. Pêro Pais consegue que o imperador Susénios fique só com uma mulher, a primeira, e se converta. Em 1626 o patriarca Afonso Mendes obtém do imperador a submissão a Roma, mas criando tais lutas que os missionários serão expulsos em 1634, terminando assim a demanda que de tantos fumos se revestira e que de concreto realizará o apoio cultural e guerreiro ao imperador, e a heroicidade e abnegação dalguns dos intervenientes, não havendo já dúvidas de que o mítico Rei do Mundo não podia ser daquele e deste mundo, ainda que no séc. XX alguns reputados escritores esotericos e tradicionais se deixaram de novo iludir, tal como o insuspeitado e tão lúcido Rene Guénon

16-IX. «-Diz aqui o Almirante que hoje e sempre de aí em adiante encontraram ares temperadíssimos que era prazer grande o gosto das manhãs, que não faltava senão ouvir rouxinóis. Disse ele: e era tempo como abril na Andaluzia». Assim transcreve Bartolomeu de Las Casas, o pai do abnegado missionário dos Índios da América espanhola, o relato do domingo de 16-IX-1492 da primeira viagem de Cristóvão Colombo à América Central.
Em carta de 1693 o vice-rei conde de Vila Verde enaltece, por causa duma invasão a Baçaim dum general mogol, os serviços prestados pelo parsi Rustum Manoke, representante dos interesses portugueses na corte do nababo de Surate com o cargo de «corretor dos portugueses». Em 1695 Rustum Manoke recebe alguns privilégios, tal poder andar de andor nas praças do Norte. A comunidade parsi, ainda hoje existente, remonta a Zoroastro, talvez o mais antigo profeta conhecido, e que deu origem ao Zoroastrismo, uma religião em que o culto das forças na natureza foi transcendido por um forte monoteísmo (ainda que com o tempo mitigado e mesmo dualizado), e com elevados códigos de labor e de pureza.
Decreto em 1774 do vigário da vara de Baçaim, conquistada em 1531 por Nuno da Cunha, doada por Bahadur (incluindo Bombaim) em 1535, recuperada pelos maratas em 1739 e apanhada pelos ingleses em 1818: «O pároco seja muito solícito em dar às suas ovelhas o pasto espiritual da divina palavra na língua vulgar, em instruir as parteiras da freguesia no modo de baptizar os recém-nascidos, e a todos no modo de receberem os sacramentos». Já noutro edital é pedido que sejam denunciados os cristãos feiticeiros, quem vai ao pagode, quem consulta os infiéis sobre eventos futuros ou contribui com alguma pensão ao bagateiro (bruxo). E também o filho que bata nos pais, e quem seja usurário.

17-IX. Natural de Odemira, o P. Francisco Rodrigues desejava ir para a messe ultramarina mas como não lho permitissem, pelos seus pés defeituosos, escreveu ao patriarca S. Inácio que não só lhe deu autorização, como o nomeou reitor do Colégio de S. Paulo em Goa, dizendo que os «reitores não governavam com os pés, senão com a cabeça». Distinguiu-se nos debates com os religiosos indianos e mandou traduzir o valioso evangelho indiano Bhagavad Gita para melhor se compreenderem. Só o zelo de calcar e destruir os templos hindus (quem sabe se por isso e de acordo com as ideias indianas do karma já nascera com os pés assim) é que foi deveras lamentável. Morre neste dia em 1566.
O rei D. Filipe II, de Espanha e Portugal, morre no Escorial em 1598. Filho de D. Isabel de Portugal, neto do rei D. Manuel, ambicioso, casado 4 vezes, teve a sorte de, na roda dos casamentos e desventuras dos dois reinos hispânicos, ficar na mó de cima. Aclamado em Tomar, acalmando com benesses muitos nobres, lendo os autores portugueses, prometeu e respeitou uma certa autonomia lusitana. Pediu para ser enterrado num caixão feito da madeira da nau mais veterana da Carreira da Índia, a Chagas, no mosteiro de S. Lourenço do Escorial, construído pelos sábios João de Batista de Toledo e João de Herrera, este como D. Filipe II, um estudioso da obra do fecundo e criativo franciscano Raimundo Lulo.
É eleito para o grão-mestrado da Ordem de Malta o octogenário Luís Mendes de Vasconcelos, em 1622, vivendo só mais cinco meses. Quatro mestres portugueses teve esta Ordem, fundada no tempo das cruzadas e dos templários, e então com o nome de S. João ou do Hospital. Expulsa depois para Rodes e Chipre, estabilizou em Malta desde 1530, graças ao imperador Carlos V, donde foi tentando travar a expansão turca no Mediterrâneo com feitos valorosos, especialmente até ao século XVII.

18-IX. Chega a Bombaim a expedição inglesa para receber a cidade das mãos dos portugueses neste dia em 1662. Nela vem o comissário e governador do Estado Português na Índia António de Melo e Castro que, experimentando a animosidade (já imperialista) dos ingleses, e depois o incumprimento da cláusula de ajuda contra holandeses, fatal então para Cochim, resolve atrasar o mais possível a entrega, tanto mais que clarividentemente vê a «grande e opulenta cidade» que vão fazer. Por fim, em 1665, escreve ao rei: «Senhor, acabou-se a Índia no mesmo dia em que a nação inglesa fizer assento em Bombaim», mas perante tantas insistências da corte pressionada pelos ingleses terá de assinar a entrega em 18 Fevereiro de 1665. A Bombaim de hoje pouco tem a ver com estes primórdios mas certamente que os diminutos recursos de Portugal nunca poderiam levar a cabo o erguer dum poderio, o Raj, como foi o britânico. Para isso também a mentalidade pouco opressiva dos portugueses, fora dos assuntos religiosos, os diminuía perante os ingleses, mais fleumáticos e pragmáticos, que conseguiram lentamente aproveitar-se das lutas entre muçulmanos e indianos, das divisões dos indianos e das fraquezas dos portugueses, franceses e holandeses para virem a dominar o subcontinente indiano, até chegar o libertador e mahatma Gandhi.

19-IX. Chegam à Índia, em 1683, o ano em que Sambagi ataca a ilha de S. Estêvão e que os exércitos de Aurangzeb atacam Damão, só duas charruas com soldados de pouca idade. Na Relação Verdadeira de 1683 aponta-se o descrédito que os orientais fazem do «Reino que na maior necessidade manda semelhantes socorros... Dirão a sua Alteza, a Índia rende pouco e gasta muito. Quem tem culpa disto senão os Senhores Reis de Portugal seus avós que prodigamente repartiram a fazenda real? Quem tem culpa de os Senhores Reis de Portugal darem aos Padres da Companhia a maior parte de sua fazenda?»
Nasce Cândido Figueiredo, em Lobão da Beira, em 1846, lexicólogo e escritor, chegou a ser membro da Sociedade Asiática de Paris e autor de alguns estudos sobre a literatura e a cultura indiana. Foi com Luciano Cordeiro um dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa, e presidiu também à Academia das Ciências por mais de uma vez, duas das instituições com maior obra na história da cultura em Portugal. Traduziu um episódio do Ramayana, a Morte de Yaginadatta, a partir das versões de Gorresio e Fauche, impresso em Coimbra, na Imprensa da Universidade em 1873: «Quando um homem, dama ilustre, faz uma acção, ou boa ou má, não pode evitar no porvir os frutos dela. Qualquer que em suas coisas não distingue o bem e o mal, e às cegas vai obrando, os sábios apelidam-no criança». O Prof. Guilherme de Vasconcellos Abreu, que sabia bem mais o sânscrito, teceu algumas críticas à sua tradução, embora esta estivesse dedicada "Ao profundo orientalista, ao eruditíssimo filologo, ao aplaudido professor da Universidade de Oxford Max Muller, consagra este mesquinho testemunho de reverência, simpatia e gratidão C. de. F."

20-IX. O experimentado e heróico vice-rei da Índia D. Francisco de Almeida (1450-1510) escreve neste dia ao rei em 1508: «Grande paixão é para mim escrever esta a Vossa Alteza, porque não posso deixar de tocar nela coisas que cortam a minha alma, as quais eu tinha muito determinado de tirar memória quanto em mim fosse para vos poder melhor servir, assim como são todos os meus desejos... Meu filho é morto, assim como a Nosso Senhor aprouve, mataram-no os venezianos e mouros do Sultão... da qual coisa ficaram os mouros desta terra tão favorecidos e cheios de soberba, com tanta esperança de socorro, que não pode ser que este ano deixemos de nos ver com eles de verdade, e será coisa que eu agora mais desejo, porque me parece, com a ajuda de Nosso Senhor, que os havemos de sumir nesse mar, que não tornem deles novas a sua terra; e se Nosso Senhor fôr servido que nisso se acabe a minha vida alcançarei o descanso que busco, que é ver-me com o meu filho na glória onde Nosso Senhor nos levará para a sua misericórdia, pois morreremos por ele e por vós». Dois anos depois, na viagem do regresso a Portugal, numa escaramuça traiçoeira na costa Africana, a sua alma irá juntar-se mesmo à do seu filho Lourenço
De Sevilha partem neste dia em 1519 os 238 tripulantes das cinco naus capitaneadas por Fernão de Magalhães que vão realizar a primeira viagem de circum-navegação do planeta. Seguem 24 portugueses e vários gregos, genoveses, bretões, franceses e ingleses para esta tremenda odisseia em que revoltas, traições, tempestades e fomes provam as mais altas qualidades humanas. Ao fim de três anos, chegarão a Espanha 18 num navio, com direito a oito arrobas de especiarias por cabeça. Fernão de Magalhães, com a experiência do Oriente de 1504 a 1512, ferido em Cananor e em Diu, estava à altura da tarefa.
Chegam a Macau em 1640 os 13 sobreviventes da embaixada enviada ao Xógum Iemitsu, tendo os outros sido martirizados, quando pediam o restabelecimento de relações comerciais, proibidas desde o levantamento e morte dos 37.000 japoneses de Arima, pobres e aspirando a uma vivência humana mais justa, o que contribuíra para a terceira e última ordem de expulsão dos portugueses em 1639. Um século de boas relações entre portugueses e japoneses terminava em tragédia, mas a comunicação de conhecimentos artísticos, científicos e religiosos fora notável.
Morre repentinamente em 1819, em Paris o famoso abade Faria, o goês José Custódio Faria, doutorado em Roma e hipnotizador em França, onde chegou em 1786. O único prémio Nobel português, o prof. Egas Moniz, escreverá no seu estudo sobre ele: «O P. Faria foi quem defendeu, pela primeira vez, a verdadeira doutrina sobre a interpretação dos fenómenos sonambúlicos, fulcro em torno do qual voltejam todas as suas doutrinas filosóficas». O que «é glória bastante para o nosso país, que no campo científico nem sempre marcou de maneira tão saliente como noutros ramos da sua actividade». Alguns estudos tem-lhe sido dedicados.

21-IX. O imperador Carlos V, filho de Filipe, o Belo, arquiduque da Áustria, e de Joana, a Louca, rainha de Castela, morre em 1558. Chegara a conquistar Florença, mandara saquear Roma, mas a extensão do império, as lutas contra os franceses e os turcos (que eram aliados), as revoltas alemãs e do Norte da Europa protestantes e a impopularidade de certas medidas obrigá-lo-ão a separar o seu império em Espanha para seu filho Filipe e o Sacro Império Romano Germânico, para o seu irmão Fernando da Áustria.
                                         

Ramakrishna, um dos últimos grandes mestres da espiritualidade indiana mas universal, neste dia em 1884 no seu quarto (ainda hoje local de peregrinação e meditação) no templo de Dakshineswar em Calcutá, avisa: «Subtis são os caminhos do Dharma (dever, ordem). Ninguém pode realizar Deus enquanto houver o mínimo traço de desejo nele. Um fio não pode entrar no olho duma agulha, se há a mais pequena fibra destacada na sua ponta... Sabeis como é o egoísmo? É como um monte de terra onde a água não se pode acumular, mas escorre. Mas a água acumula-se na terra baixa e as sementes germinam, as plantas crescem e dão fruto. Portanto, nunca penseis, só eu tenho o verdadeiro conhecimento e os outros são parvos... Amai todos, não há ninguém que seja outrem que vós. Deus habita em tudo, e nada existe sem Ele». À noite, levado ao teatro, exclama sorridente: «Ah! que belo lugar. É bom termos vindo. A vista duma grande multidão é muito inspiradora. Vejo então claramente que foi Ele quem se tornou isto tudo».

                            
22-IX. Guru Nanak morre em Kartapur, actual Paquistão, em 1539. «Escoltado à presença de Deus e bebendo do cálice da adoração do seu Nome», Nanak dirá que Deus não é nem hindu, nem islâmico e que o caminho que ele segue é o de Deus. Viajara por toda a Índia até fundar uma comunidade de discípulos espirituais, que se tornará a religião Sikh, uma original síntese do hinduísmo e islamismo. Interrogado sobre a maneira de atravessar o mundo, responderá: «Assim com a flor de lótus cresce na água e permanece sempre desprendida; assim como o pato flutua despreocupado na superfície da água na corrente, de igual modo atravessa o Mar da Existência sintonizando constantemente a tua mente com a Voz da tua Consciência Moral e pronunciando sempre o Nome, Nam, de Deus».
Fernão Mendes Pinto regressa a Portugal em 1558, depois dos 21 anos de peregrinação pelo Oriente em que mostrou tanto amor, poder e inteligência imaginativa. Em 1554 dirá: «Eu fui um dos que o Nosso Senhor mandou muitas vezes chamar para a ceia, mas ora com herdades, ora com bens, me houve sempre por escusado. E sendo esta já a undécima hora da minha idade, achou-me o Senhor ocioso ainda que não de ofendê-lo, e teve por seu serviço mandar-me à vinha». E fez-se irmão jesuíta, partindo rumo ao Japão com outros, mas em breve desligou-se de tais votos e obediências. O cálice que servirá é o da “Peregrinação” que sairá à luz em 1583, trinta e um anos depois de morrer, revelando as claridades e trevas da tragicomédia humana dos portugueses no Oriente, com a genialidade do vivido e do acrescentado, ao serviço dum sentido auto-crítico e aperfeiçoante do ser humano.
D. Álvaro de Abranches, trisneto dum dos heróis de Alfarrobeira, companheiros da milicia do infante das Sete Partidas, D. Pedro, , lidera com o capitão Diogo de Sá Pereira, corajosa e habilmente, os assaltos vitoriosos sobre as tropas muito mais numerosas que sitiavam Chaul, a partir duma fortaleza no morro sobranceiro, em 1594. O sábio historiador Faria e Sousa descreve os simbolismos em jogo: «não menos que com a multidão pretendia o inimigo assombrar-nos com arrogâncias, explicadas em imagens engenhosas. Eram de bronze. Em posto bem à vista estava um leão com este dístico: «Quem aqui houver de entrar mais que este há-de pelejar», e além no inexpugnável cume, uma águia que sustentava nas garras este semelhante aviso: «Quem aqui intenta chegar, mais do que eu deve voar». Nos nove anos de comissões na Índia foi também um diplomata de respeito, 
23-IX. «No Outono da era Tembum, aos 25 do 8º mês (23.9.1543) chegou um grande navio a Nishimura Ko-ura. Não se sabia de onde vinha. A tripulação do navio era de cem homens. Tinham um aspecto diferente de nós. A sua língua era incompreensível. Todos que os viram ficaram admirados. Entre a tripulação, um, de nome Goho, conhecia a língua chinesa. Não sabemos o seu nome de família. Era então chefe da povoação de Nishimura um chamado Oribenojo, que conhecia a escrita chinesa. Este encontrou Goho e escreveu com o bastão na areia: Não sabemos de que terra vêm os homens do navio. Goho escreveu em resposta: estes homens são negociantes do país dos bárbaros do Sudoeste». Assim narra a Crónica da Espingarda (já que chegou também), de 1606, o desembarque dos primeiros portugueses no Japão, citando ainda os nomes de Francisco Zeimoto e António da Mota.

                                      
           Upasani Baba com a sua shkati ou principal discípula Godavari Mata. Será a sua sucessora no ashram.
Sadguru Upasani Baba, em Sakori, no antigo reino de Ahmednagar onde no século XVI o Châh Buran foi um protector da cultura e amigo dos portugueses e especialmente de Garcia de Orta, num diálogo em marata em 1924, neste dia, e então com 54 ano, diz: «Uma escada serve os propósitos de subir e descer. De igual modo, para se entrar no mundo e na sua vida, e para sair do mundo, isto é para obter-se a libertação, faz-se através de Maya, a ilusão, numa forma de mulher. A mulher que nos faz nascer é como uma escada para descer, enquanto a mulher com quem casamos é como uma escada para subir. Através da mulher deve--se atingir a libertação; ela deve-nos dar a experiência da Beatitude Infinita; portanto deve ser tratada como uma mãe. A mãe real trouxe-nos cá para baixo na mira deste mundo; a mãe adoptada, a mulher, é o meio de se atingir o estado de Rama (divino). A mulher não deve ser usada como um objecto de prazer. Para se atingir a felicidade Infinita, é essencial preservar-se a mulher de ser gozada». Passando muito tempo em meditação às escuras, atingiu o estado de auto-luminosidade e desfrutará da luz celestial e das várias cenas nela reveladas. E acrescentará: «Cheguei à conclusão que se nenhuma luz artificial for usada, uma pessoa está apta a atingir mais facilmente a luz celestial». Este mesmo ensianmento me foi transmitido por outros yogis indianos em Riskikesh. Upasani Baba foi o mestre de Meher Baba, que esteve na USA e foi bastante famoso pelo silêncio que conservou muitos anos, e com o qual o meu amigo e mestre Shuddhananda Bharati viveu algum tempo e o biografou.

                                                         
24-IX. Aureolus Theophrastus Bombastus Paracelso, um dos grandes descobridores na medicina experimental e nas correspondências das propriedades dos diversos reinos da Natureza visível e invisível, morre em Salzburg, em 1541, apenas com 48 anos..

É permitido por alvará de 1571 a impressão dos Lusíadas, o poema que unirá no Graal, a Índia e Portugal. E um ano depois é dado a Camões, uma magra tença anual por D. Sebastião, «havendo respeito à informação que tenho do seu engenho e habilidade e à suficiência que mostrou no livro que fez das coisas da Índia», onde é dito: «Eu sou o ilustre Ganges, que na terra / Celeste tenho berço verdadeiro». «Brahmanes são os seus religiosos / nome antigo e de grande preeminência; / Observam os preceitos tão famosos / Dum que primeiro pôs nome à ciência; / Não matam cousa viva e, temerosos, / das carnes tem grandíssima abstinência. / Somente no venéreo ajuntamento / Tem mais licença e menos regimento». Na chegada em 1498, um maometano pergunta: — «quem te trouxe a estoutro mundo, Tão longe da tua pátria Lusitana? — Abrindo (lhe responde) o mar profundo / Por onde nunca veio gente humana; / Vimos buscar do Indo a grão corrente, por onde a Lei divina se acrescente».

Os padres Manuel Freire e Hipólito Desideri partem de Deli em 1714 rumo ao Tibete, pelo lado do Caxemira, então chamado Bihisht, o Paraíso Terrestre, permanecendo seis meses em Srinagar, fundada segundo a lenda local por Salomão. Na viagem para Lhasa, passam pelo famoso monte Kailas, onde Urghien ou Padma Shambava (em baixo na imagem), o fundador do Budismo Tibetano, «diz-se que viveu algum tempo em solidão absoluta, auto-mortificação e meditação religiosa contínua. A gruta é agora um templo consagrado a ele, com um mosteiro rude e miserável ao lado, onde habita um Lama com alguns monges que servem o templo. Para além de visitarem a gruta, para o qual trazem sempre ofertas, os Tibetanos caminham devotamente à volta da base da montanha, o que leva vários dias, e que acreditam conceder-lhe grandes indulgências». Era a primeira descrição ocidental do monte Kailas, sagrado para a tradição tibetana e hindu, e ainda hoje muito peregrinado.
                                                 

25-IX. Cinco naus capitaneadas por Diogo Lopes Sequeira chegam a Samatra em 1509 e são bem recebidas, implantando-se um padrão. O rei escreve a D. Manuel: «Os vossos chegaram até nós e de nos verem alcançaram bandeiras de trato e amostraram sinal de amor e vieram à nossa companhia, e nós os recebemos em nossas mãos com a melhor maneira que pudemos. Agora entre nós e vós há amizade e amor, e o ódio é longe de nós, e concertado que cada ano mandeis vossas gentes, vossas naus e gente com mercadorias de vossas terras para começar o trato, proveito e ganho, e tornarem com o que nós tivermos e houver em nossa terra, e a paz seja sobre os que forem merecedores dela. E o Deus que é verdade mostre o caminho da verdade».
Tratado entre os portugueses e o raja de Coulão pelo qual é-lhes concedida autorização para construirem o forte de S. Tomé em Coulão, na costa do Malabar, no ano de 1518.
                                              
   François Bernier nasce em 1620 em Anjou. Doutora-se em medicina em 1652, tendo-se preparado com o filósofo Gassendi, e em 1658 parte para o Oriente onde convive com os príncipes mogóis Dara Shikoh e Aurangzeb, regressando a França em 1669. As suas crónicas das viagens e da corte mogol estão repletas de observações interessantes. Respigamos sobre os portugueses: «A decadência do seu poder nas Índias é atribuída justamente aos seus delitos, e pode ser considerada, como eles ingenuamente confessam, uma prova do desagrado divino. Outrora o seu nome era uma torre de força; todos os príncipes indianos cortejavam a sua amizade, e os portugueses distinguiam--se pela sua coragem, generosidade, zelo pela religião, imensa riqueza, e pelo esplendor das suas proezas; não eram como os portugueses de agora, habituados a todos os vícios e a todos os prazeres baixos e ordinários».
O P. António Vieira, escrevendo uma carta da Baía neste dia, em 1695, à rainha D. Maria Sofia de Neudurg, 2ª mulher de D. Pedro II: «Em fim, não achando em Portugal em El-Rei, que Deus guarde, a correspondência de afecto, que sempre experimentei em seus pais e irmão, como quem pela menor idade não conhecia o muito que eu os tinha servido, e arriscado por eles a vida nas viagens de Holanda, França e Itália, com maior perigo dos mesmos negócios que eram os do mar, e dos inimigos da nossa Coroa no mar e na terra; me condenei ao desterro deste Brasil, para nele comutar, se pudesse, o Purgatório. Aqui estou ainda vivo, já quase desacompanhado de mim mesmo, na falta de quase todos os sentidos; mas sempre com toda a alma nesse Palácio da Natividade, sacrificando a Vossa Majestade o que só posso, que é o coração, e amando, e adorando a Vossa Majestade com todo aquele amor e extremo (permita-me Vossa Majestade falar assim) que a El-Rei D. João, à Rainha D. Luísa, e ao Príncipe D. Teodósio devem a minha memória e saudades... Enfim, minha Rainha, minha Senhora, e minha Ama, em um livro impresso em França vejo aqui, e venero o retrato de Vossa Majestade, mas o que eu tenho impresso no coração, quisera eu que Vossa Majestade visse; posto que tão quebrantado dos anos, ainda posso dizer Missa todos os dias, e em todas, não sei se em mim, ou fora de mim, peço a Deus me deixe ver a Vossa Majestade na eternidade, pois nesta vida não posso».
26-IX. As casas dos jesuítas são cercadas e eles presos em 1759, em Goa, por ordem régia executada pelo vice-rei Saldanha de Albuquerque. Terminava a grande aventura missionária em que santos, sábios, cientistas e fanáticos se irmanaram numa disciplina férrea, numa dedicação e abnegação total, influenciando sobretudo a educação e os centros de poder e criando um estado dentro dos estados, o que não podia durar muito. Em Portugal foi o marquês de Pombal quem lhes encostou o machado, mas já muitos se queixavam deles antes. A sua eficácia estando comprovada, dissolvida a ordem por Clemente XIV em 1773, o ambiente mais liberal permitir-lhe-á renascer com o papa Pio VII em 1814, embora a instauração da República em Portugal a tenha expulsa de novo.

                                

O Pandita Iswar Chandra Vidyasagar nasce em 1820 em Gathal, perto de Hugli, onde os portugueses estiveram, na costa de Bengala.. Notável estudante, sábio professor, lançou-se na abolição da queima das viúvas, na abolição da proibição de se casarem e no estímulo do seu casamento. Modernizou o ensino, fundou escolas e institutos. Ramakrishna reconheceu nele um oceano de conhecimento. e os ingleses o «líder da porção mais avançada da Comunidade Indiana».

                                          
Thomas S. Eliot nasce em St. Louis, USA, 1888, e receberá o Prémio Nobel de Literatura em 1948. Formado em Filosofia aprendeu com mestres como Irving Babit e Paul Elmer More. Estudou também em Paris com Henry Bergson e Alban-Fournier outros Sensibilizado ao orientalismo pelos seus antecessores Emerson, Fitzgerald’s, Ezra Pound, Kipling e Edwin Arnold, estuda entre 1911 a 1914 de novo em Harvard com orientalistas como James Woods e Lanman, com estes iniciando-se nos Yogas Sutras de Patanjali e o sânscrito. Após um 1º casamento que lhe proporcionara sobretudo entrar em Inglaterra e que foi infeliz, encontrou só quando tinha 68 anos, no seu 2º casamento, com a sua secretária Valerie Fletcher, que tinha 30, quem o apoiaria amorosamente em vida e na preservação e edição do seu espólio. Nas suas poesias de elevada sabedoria, as fundações indianas ressoam: «O Tempo passado e o tempo futuro / permitem só pouca consciência. Estar consciente é não estar no tempo»; «E a correcta acção é liberdade / do passado e também do futuro. / Para a maior parte de nós, este é o objectivo»; «A libertação não é menos amor mas expansão / do amor para além do desejo, e portanto a libertação / tanto do futuro como do passado. / Assim, o amor dum país / começa com um apego ao nosso campo de acção / e chega a descobrir como de pouca importância tal acção, / apesar de nunca indiferente. História pode ser servidão, / História pode ser liberdade».                         
Lahiri Mahashay, o mestre divulgador do Kriya Yoga, sai do corpo e regressa ao mundo espiritual em 1895, com 67 anos. Fora o mestre de Yukteswar Giri e este sendo de Paramahamsa Yogananda, os quais partilharam a sua técnica de Kriya Yoga. Esta técnica de de interiorização e circuçalão energética pelos chakras estimula o despertar dos sentidos espirituais de muitos discípulos, capazes assim de se recolher e de se auto-conhecer na Luz, no meio das condições por vezes tão dispersantes e desassossegadas dos tempos modernos.

                                   

Lafcadio Hearn, filho duma grega e dum irlandês, natural da Grécia, apaixonado como Wenceslau de Morais pelo Japão, casa-se em 1891 com uma filha de um samurai, torna-se budista, naturaliza-se japonês e é professor de língua e literatura inglesa até morrer com 54 anos neste dia em 1904, em Tóquio. Explicará a aparente frieza dos casais japoneses pela «obediência a uma ética fundada sobre o princípio que as demonstrações públicas das relações maritais são inconvenientes. Porquê inconvenientes? Porque elas parecem, na opinião oriental, a manifestação dum sentimento pessoal, e, por consequência, egoísta». Deixa uma obra muito acessível mas com muita informação valiosa sobre o Japão antigo, tal como Wenceslau de Moraes e no seu livro A Luz Vem do Oriente diz-nos: «Parece que há um dia, um só, na vida duma criança, na qual ela se pode lembrar e falar da sua vida anterior. No dia em que completa dois anos, o bébé é levado pela mãe ao canto mais 

Morre em Bristol, na Inglaterra, em 1833, Rammohan Roy, um dos líderes do Renascimento de Bengala e da valorização da tradição indiana perante o avassalamento da cultura ocidental trazida pelos ingleses. Tradutor e comentador dos textos da filosofia Vedanta, estudioso das várias religiões, o seu movimento do Brahmo Samaj é uma tentativa de indicar que há uma fraternidade de adoradores de Deus, mesmo que pertençam a religiões diferentes, pois as suas essencialidades são comuns. No centro de cada alma está o Supremo, mas não pode ser descrito por qualquer nome ou imagem, donde a sua crítica à idolatria e o seu esforço de provar que o hinduísmo original aceita um só Deus. Foi um dos primeiros brâmanes a descobrir o Ocidente, vindo por mar.

                                   
28-IX. Noite de S. Miguel, Mi Ka El, Quem é como Deus? Noite de veladas às estrelas cadentes e às intuições luzentes, para fortificação do Eu espiritual, aconselhar-se-á também. O Padre missionário António de Andrade quando chegou ao Tecto do Mundo, o Tibete, nos princípios do século XVII, observou que os lamas «pintam aos Anjos, a que chamam Lâs, de várias maneiras; uns muito formosos como mancebos; outros em figuras horrendas pelejando contra os demónios; e dizem, que os representam nesta forma, não porque a tenham, mas para exprimir os vários efeitos que têm contra os Espíritos malignos. Crêm, que são sem número, e que todos se reduzem a nove ordens, todos espíritos, sem corpo, uns maiores, outros menores. Entre outras pinturas destes Lâs vi por vezes uma, nesta forma: tinha a figura de mancebo com peito de armas, espada na mão direita, com que ameaçava ao diabo que tinha debaixo dos pés, e dizem deste Lâ que é o principal de todos, e grande medianeiro entre Deus e os homens. A quem não parecerá ser este Lâ o Arcanjo são Miguel, posto que não pintem com asas e balança na mão? E as nove ordens, ou castas deles, os nove Coros (Querubins, Serafins...) que temos na escritura?» Escritura, um modo de dizer pois a visão das nove ordens só a partir do séc. V e VI é que começou a ser construída como uma escadaria para o céu mais alto..
Afonso de Albuquerque e os portugueses conquistam pela 1ª vez a ilha de Ormuz em 1507, após uma batalha naval com os muçulmanos. O rei concede autorização de construção de fortaleza e de feitoria, prestando vassalagem ao rei de Portugal, mas a insubordinação de alguns capitães de Albuquerque, desejosos de regressar ao reino ou a Goa, e despeitados pela sua voluntariedade, obrigam-no a retirar-se antes de concluída, só voltando a esta cidade em 1514 e estabelecendo então um firme domínio de protectorado sobre o rei de Ormuz. Uma das suas primeiras medidas foi abolir o costume dos regentes de Ormuz cegarem aqueles que poderiam ser seus rivais. As alfândegas rendiam imenso («delas soia vir um grande golpe de dinheiro»), pois controlavam a circulação de pessoas e bens para o Médio Oriente e a Europa. Frei Bernardino S. Pedro descreve-a em 1605, com cinco igrejas, duas mesquitas e uma sinagoga; 500 portugueses vivem no baluarte com os seus protectores: «em entrando pela fortaleza, a primeira coisa que vemos, é a imagem e figura de Afonso Albuquerque, que Deus tenha em glória, com uma barba que lhe dá pela cinta, como ele a trazia. Eu vi muitos homens tirarem o chapéu a esta imagem, como se fôra a de um santo, e com muita razão por certo». Em 1622, apesar da resistência valerosa de Rui Freire de Andrade, a praça cai nas mãos dos ingleses e dos persas.
                                               
William Jones nasce em Londres em 1746. Atraído pela Índia, chega lá a juiz do Supremo Tribunal de Justiça. Traduz a vida do clássico Nadri Shah e desenvolve o estudo do sânscrito, acerca do qual afirma: «A língua sânscrita, qualquer que possa ser a sua origem, é de uma estrutura maravilhosa. É mais perfeita que a Grega, mais copiosa que a Latina e é infinitamente mais requintadamente formada do que ambas. E pelas suas semelhanças decorre duma fonte comum». Funda a Real Sociedade Asiática, em Calcutá em 1784, um poderoso instituto na recolha e investigação dos monumentos e documentos indianos ainda hoje vivo e que tem publicado inúmeras obras de grande valor. Já a Sociedade Real de Artes e Ciências da Batávia, dos holandeses em Java e que fôra mesmo fundada antes da de Calcutá, não sobreviverá ao regime indonésio. A prestigiosa Societé Asiatique, de Paris nascerá em 1822 e continua em pleno vigor nos nossos dias. E em Portugal?

                                     
29-IX. Nasce D. Fernando em 1402, filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, que se tornará com o cativeiro em Fez o Infante Santo, vítima sacrificial das lutas entre o catolicismo e o islamismo. Com efeito nas cortes de Leiria, contra o desejo do povo e dos infantes D. Pedro e D. João, decidiu--se que só o papa podia escolher entre a entrega ou não de Ceuta em troca da libertação do príncipe; a resposta dele foi a de que era melhor para a cristandade sacrificar-se um só do que muitos. Outra das razões dadas, foi a de não se poderem entregar as igrejas já consagradas. A sua tenção de vida Le bien me plait, nasceu-lhe mesmo dos ramos espinhosos da roseira, que lhe foram atribuídos, talvez
profeticamente, no corpo da divisa. Há quem pense que será ele a figura central dos famosos painéis de Nuno Gonçalves.
Lanza del Vasto, o sábio peregrino às fontes orientais da não-violência e das comunidades harmoniosas, nasce na Sicília, em 1901. Cristão, mas discípulo de Gandhi e do seu
sucessor Vinoba, artista, músico, ecologista não violento de resistência activa à energia nuclear, fundador da comunidade laboriosa L'Arche, escreverá livros importantes para o aperfeiçoamento humano e virá por mais de uma vez a Portugal partilhar a sua maneira de ser e viver, tendo com ele estado algumas vezes, sob a égide da Manuela Lourenço, a fundadora em Portugal do Grupos dos Amigos da Arca. Recentemente entre nós o amigo e pioneiro da ecologia (com Afonso Cautela) José Carlos Marques editou a sua obra chave Peregrinação às Fontes, com tradução da amiga Helena Longroiva, na qual relata a sua bela e sábia peregrinação à Índia e a sua vivência e aprendizagem com Gandhi.
                                                            

A decisão de se fazer a partilha de Bengala em 1905 (que será anulado em 1912 e realizada em 1947 como o Paquistão oriental, actual Bangla Desh) aguça o fervor revolucionário e a repressão inglesa. Tilak e Aurobindo, líderes do movimento de Independência são presos, dedicando-se ambos então a profundos estudos e experiências espirituais. Esta simultaneidade da qualidade de revolucionários políticos e de discípulos espirituais era conforme ao génio indiano e culminou no Mahatma Gandhi. Com a sua morte prematura a corrente do idealismo não-violento e alternativo será liderada por Vinoba, responsável pelo movimento de dádiva de terras a cultivadores pobres, enquanto as concepções mais pragmáticas e socialistas, afirmam-se com Nehru e outros.
O romancista japonês católico Shusaku Endo, autor de belas obras baseadas na história da
presença portuguesa e ocidental no Japão, entre as quais se destaca o Silêncio, a propósito do provincial jesuíta Cristovão Ferreira (que abjurou porque não quis sofrer ainda a morte e para transmitir a cultura e a medicina ocidental durante 18 anos como bonzo), morre em Tóquio aos 73 anos, em 1996. Algumas das suas obras estão traduzidas em português.

                                              
30-IX. Lopo Soares de Albergaria, o substituto algo incompetente de Afonso de Albuquerque, com uma armada de 17 navios, faz tributário o rei de Colombo, no Ceilão, em 1518 e constrói-se uma fortaleza.
Chega a Goa vindo numa das naus da Carreira da Índia, em 1583, o holandês John Huighen Linschoten, autor dum livro de viagens e observações de 5 anos em Goa, com belos desenhos que irradiarão no imaginário colectivo europeu e roteiros que facilitarão as  navegações e incursões holandesas.
Nasce neste dia em 1828 na Bengala Ocidental Lahiri Mahashaya. Iniciado por Babaji nos Himalaias, atingiu a iluminação através das práticas de concentração interior do Kriya Yoga e passou-as em seguida, entre outros, a Sri Yukteswar Giri, o mestre de Parahamsa Yogananda, que tornará esta tradição famosa ao escrever a divulgadíssima mas sempre inspiradora Autobiografia dum Yogi. verdadeiramente retratando autentica India do Yoga tão distante das caricaturas modernas de vários gurus ditos universais, que são mais produtos de marketing  Ao contrário dos seus discípulos, Lahiri Mahashaya era um funcionário público casado e por isso tentou mostrar que em qualquer situação as pessoas podem atingir a libertação, se dispuserem-se a viver com certo conhecimento. Dirá: «Procurando dominar-se quanto fôr possível e praticando regularmente a sua metodologia espiritual, uma pessoa deve chegar ao objectivo: a realização».