quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Das Bibliotecas e Livros e seus efeitos anímicos.

As bibliotecas das pessoas e dos escritores permitem deduzir afinidades e gostos, influências e inspirações; todavia, a menos que haja anotações e referências, não saberemos bem o que foi lido e apreciado, repelido ou assimilado.
É rara a casa que não tenha a sua estante de livros, poucas as pessoas que não recorrem aos livros para aprender, comungar ou evadirem-se. E se houve escritores que tiveram poucos livros, ou que leram com dificuldade em bibliotecas públicas ou de outros, muitos há que se viram rodeados de boas companhias, podendo navegar em diferentes cursos psico-energéticos e atingir certas intuições, compreensões e visões novas, originais, que acabaram por se incorporar nas suas almas e escritos e eventualmente em quem os ler...

 Assim, cada casa, cada pessoa deveria ter uma razoável biblioteca para a evolução pessoal sua e da Humanidade, ainda que, nos tempos modernos, os computadores e a internet sejam por vários modos, nomeadamente por possuirem já descarregados ou reproduzidos milhares de livros, excelentes bibliotecas globais, ainda que virtuais e logo com certas limitações...
Em verdade, os livros, com todas as suas subtis particularidades, desde os autores aos assuntos, das datações às dedicatórias, das encadernações e ilustrações às anotações ou marginália, do tacto ao cheiro do papel, são preciosos companheiros para quem quer aprofundar os mistérios e maravilhas do universo e da humanidade e, particularmente, para os estudantes, pensadores, escritores, historiadores, investigadores, criadores, comunicadores.
Todos nós sabemos quanto podemos receber psico-somaticamente ao manusear e ler com atenção, gratidão e amor qualquer obra que a sabedoria dos séculos nos lega, ou nos permite aceder, e com ela viajar no tempo e nos mundos psico-espirituais nos quais tantas riquezas há para suprir as necessidades da Humanidade, ainda tão mergulhada na ignorância, na violência, no egoísmo, no sofrimento, ou manipulada para tal por forças anti-culturais, anti-libertadoras...

Podemos dizer então que cada livraria ou biblioteca, ou livro é uma mezinha, um medicamento para harmonizar e curar, um fermento de transformações, uma semente de novas manifestações luminosas e benéficas, uma defesa face à invasão manipulante e massificante que nos rodeia...

O livro no seu suporte de papel, pergaminho ou papiro, pela sua durabilidade e pela sua proximidade e intimidade, será sempre então um dos melhores instrumentos de harmonização e elevação humana e como tal o presente ideal que as pessoas oferecem e acolhem, lêem e anotam, criticam ou amam.

Quando entramos na casa de alguém muitas vezes a nossa primeira impulsão é ver as obras contidas nas estantes, o que essa pessoa leu ou mostra, e a partir até de uma mera vista de olhos (se for de conhecedores...) poderemos intuir algumas das características das pessoas que os juntaram, leram, possuíram, amaram...

Constituirmos a nossa própria biblioteca, e saber ordená-la, e ter mesmo em destaque ou mais fácil acesso as obras que mais nos tocam ou com as quais mais trabalhamos, ou os autores com quem mais sintonizamos, é então importante, construindo-se assim ilhas valiosas coesas no mundo subtil da Grande Biblioteca Mundial, às quais podemos até convidar a desembarcarem pessoas amigas a fim de desfrutarem da sabedoria e dos prazeres que tais fontes vivas nos transmitem.

Todos sabemos como algumas bibliotecas se transformaram em quase ilhas utópicas, até no sentido que pela sua singularidade, beleza e raridade não podem ser facilmente acedidas, reforçando-se assim a sua aura, a que hoje as imagens livres virtuais na Web ainda mais realçam, ainda que desvendando-a incompletamente, sem a verdadeira energia do local e dos livros palpitantes ao vivo... 
 A Biblioteca de Mafra, a da Universidade de Coimbra, a da Academia de Ciências de Lisboa, a Vaticana, a de Paris, a do Escorial, e outras famosas, serão algumas das mais notáveis. Mas não devemos menosprezar as  apenas nascidas da bibliofilia de alguma alma mais entusiasta, outras nascidas de legados post-mortem, destacando-se nestas as que tendo pertencido a escritores ou investigadores, e não foram dispersas em leilões ou passadas a diferentes instituições, conservam a sua autonomia, diríamos mesmo a sua individualidade, especialmente quando se mantêm no local onde sempre estiveram, rodeadas da memória subtil dos momentos em que as mãos do escritor ou dos seus amigos manusearam os livros, dialogando-o com eles e de mais vida e alegria os inundando...

Não há ainda máquinas digitais que consigam medir a intensidade vibratória que cada livro de uma biblioteca ganhou pela passagem nas mãos, pela leitura, pelas anotações, pelas trocas psico-energéticas desencadeadas a partir do tabuleiro de xadrez da impressão invertido na cabeça das pessoas e sentido e compreendido na alma em compreensões, intensificações e iluminações...
Alguns de nós, todavia, já terão certamente feito uma contemplação por momentos de uma estante a certa distância antes de se aproximarem e acolherem o  livro que lhes pareceu mais vibrar ou os chamar. 

Certamente quando temos seis ou sete prateleiras à nossa frente deveremos escolher uma e depois até ir passando os olhos pelas lombada dos livros vendo-os a vibrarem e tentando discernir qual é o mais palpitante e tremeluzente que se quer dar às nossas mãos, para depois identificarmos quem  o escreveu ou mesmo o anotou e quer diálogos, continuadores, e logo mais luz e amor no planeta.

Talvez o melhor ainda seja depois dessa passagem ou entrada dos olhos-mente num um a um, ficarmos numa percepção desfocada de todos e abrir mais o coração e tentar sentir qual é o que mais nos envia os seus raios, qual é o que mais nos impacta invisivelmente e nos quer fazê-lo arrancar do seu poisio à sombra, quem sabe se já longo, e trazê-lo a mais luz solar e amorosa que o ambiente e os nossos olhos, almas e mãos nele introduzem, deles acolhendo tantas potencialidades "suaves, deliciosas, exultantes", três palavras que eu retiro agora da obra que me atraiu de uma estante, as Anotações críticas ao Novo Testamento síriaco, por Egidio Gutbirii, de 1706, impressas em Hamburgo. Mas vendo melhor o livro, e temos um belo exemplo da riqueza dos livros, da sua capacidade de serem espelhos do passado para o futuro, dou-me conta que a obra tem outro frontispício, começando portanto tanto no fim como no princípio do volume, no lado final, se o manusearmos da esquerda para a direita, surgindo o começo do Novo Testamento em síriaco e latim.


Os livros são então boas novas, trazendo sabedoria que se acrescenta a nossa, e em certos casos, os mais frequentes, os livros sendo já escritos sobre outros livros, introduzem-nos numa cadeia de elos de sabedoria quase infinita, adentrando-nos no vasto campo bibliográfico mundial. 
E, assim, sobre a informação e ambiente  passado que alguém num presente trabalhou, recriou, descobriu e passou ao futuro, nós agora, os leitores que de novo o retomamos,  reactualizamo-lo de um modo ou outro mais luminoso neste presente e para um futuro bastante perene...
E tal circulação de saber, energia e graça realiza-se seja pelo que sentimos, anotamos mencionamos, ou mesmo aprofundaremos e escreveremos já posteriormente e independentemente, cada livro do passado sendo como uma semente lançada de uma planta matura e estática mas que se multiplica e vai renascer num outros espaço e tempo  e de novo dar cores e perfumes, ideias e impulsões.

Realcemos as palavras e estados de alma recolhidos há pouco nas três palavras, a suavidade, a elevação e a delícia.

Possam os livros intensificar tais efeitos em nós e gerar frutos de vida eterna, ou seja, que iluminem mais as pessoas, as façam reintegrar-se harmoniosamente neste planeta, sistema solar e humanidade em história e evolução, de modo a que levemos o que se leu e amou em nós no corpo espiritual ou de glória, esse com o qual avançamos mais ou menos conscientes, aqui e aquém, rumo a melhores comunhões seja com os outros seja com Divindade, na Unidade amorosa, suave, deliciosa, elevante.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Bom-Senso e Bom-Gosto, carta de Antero de Quental a A. F. Castilho, em 1865


              Costuma considerar-se como excessiva, atrevida ou violenta a resposta que o jovem açoriano de 23 anos Antero de Quental ofereceu em carta às críticas de António Feliciano Castilho menos apreciadoras da escola Coimbrã, nomeadamente a  ele, a Vieira de Castro e a Teófilo Braga, exaradas numa carta posfacial dirigida ao editor e amigo A. M. Pereira, e inserida na obra do seu discípulo Pinheiro Chagas, Poema de Mocidade, publicada nesse mesmo ano de 1865. Quanto muito, talvez nas últimas linhas, em duas frases, algo se possa sentir de mais ofensivo, ao referi-lo como velho de idade mas não de maturidade interior (e Antero reconheceu isso mais tarde, em 1887), pois de resto o texto é um ensinamento vivo, ardente, perene...
Antero em 1864
Bem sabemos que António Feliciano Castilho, na época já tinha 65 anos e que se tornara praticamente cego pelo sarampo aos 6, mas cedo manifestara um génio poético e ajudado por um irmão se formara em Direito e muito aprendera no que ouvia tornando-se um dinamizador cultural valioso, nomeadamente com o seu método de ensino de leitura que pretendeu tornar-se o oficial mas em vão, levando-o a entrar em  polémicas, em que por vezes se manifestou duramente. Por tudo isso, pelos seus poemas, traduções, livros, revistas, críticas e amizades era considerado um patriarca das letras portuguesas, nomeadamente no formalismo e romantismo, e como tal venerado. 


Foi contra tal figura, escola e ideias que Antero se ergueu, defendendo a nova geração e escola literária naturalista e realista, provinda de estudantes da Universidade de Coimbra, bastante mais europeia, filosófica, revolucionária, idealista e socialista. E fê-lo em termos que consideraremos harmoniosos, justificando-se as referências mais críticas talvez ao facto de, como Antero aprendera com ele aos 10 anos francês (e relembra tal grato nesta carta), terá tido uma intuição anímica  quanto ao fundo da alma crítica de Castilho ("... debaixo de cabelos brancos... travesso cérebro..." ) o qual, se publicamente manifestou-se sem grandes ofensas,  já nas cartas aos seus seguidores e defensores deixa escapar expressões e palavras acerca de Antero e dos outros (mafomas coimbrões, bácoros, vândalos) que preferimos não partilhar neste blogue...
Sem irmos ao posfácio causador, já que algumas das afirmações de Castilho são de certo modo evocadas por Antero na sua réplica, foquemo-nos antes em destacarmos três aspectos mais fortes presentes em Antero, vividos mesmo animicamente, e que parecem de grande valor, perene, advertindo que no texto da carta, que transcrevemos em seguida adaptando a ortografia para actual correcta, sublinhámos as partes mais importantes.
1ª - Para Antero, as ideias de Ideal, Justiça, Verdade, Bem,  Liberdade,  Independência e de pensar-se por si próprio e com probidade  são o que  animam a sua consciência e o levam  a escrever, tanto mais que tais valores e princípios,  que estão a ser visados pelas críticas de Castilho, são o que de mais essencial há na missão do escritor público e nos seus efeitos futurantes, para que possa emergir "uma humanidade viva, sã, crente e formosa".
 2ª Para tal missão e criatividade luminosa e benéfica as qualidades mais importantes são "a elevação moral, a virtude da altivez interior, a independência da alma e a dignidade do pensamento e do carácter." Tais virtudes tornam o peito ou o coração puro, inocente, luminoso e irradiante, benéfico à humanidade, e é consciência- energia a mais importante de ser cultivada.
3ª  Antero, na sua época mais verdejante e luminosa, sentia em si que a recompensa dos que se conservam independentes e frequentemente pobres era: «as ideias serenas brilham-lhes na escuridão do isolamento e alumiam-lhes com uma luz doce mas imensa toda a sua obscuridade. Dão-se a desbaratar o mal dos outros homens, como muitos se dão a aumentar o seu bem próprio. Vivem na região das bênçãos, escutando as palavras da boca invisível, e com os ecos dessa voz celeste compõem os hinos de esperança e de amor para a humanidade. Morrem; mas morrem nobres e puros. Tudo isto porque foram independentes». 
Há aqui já um prenúncio de toda a sua teoria da audição da Voz da Consciência (e no fundo, da tão necessária meditação silenciosa), tão partilhada em cartas aos seus amigos e como ela interioriza, alinha com o espírito e nos estimula ao Bem.
Há ainda algo de profético neste enunciado pois intuímos que Antero, fazendo como ele diz "sacrifício do eu às tristezas e misérias da humanidade," e não se ligando tanto à Divindade solar e amorosa, acabou por carregar um peso grande demais e não conseguir estabilizar suficientemente a luz e o amor espiritual em si, e logo sofrer demasiado os efeitos das desilusões, vazios e atracção da morte libertadora, para o que a sua doença psico-somática de certo modo também o predispunha, ao enfraquecê-lo. 
Segue-se um pequeno vídeo de 20 minutos sobre a carta de Bom- Senso e Bom-Gosto de Antero e as suas duas primeiras páginas, com leitura comentada (e algum ruído de fundo nos minutos finais); após o vídeo podemos encontrar transcrita a excelente carta, plena de aspiração, de filosofia, de moral, de espiritualidade, de visão, bem merecedora de ser lida, aprofundada, assimilada e vivida...
 
                            



«Acabo de ler um escrito (1) de v.ª ex.ª onde, a propósito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se fala com áspera censura da chamada escola literária de Coimbra, e entre dois nomes ilustres (2) se cita o meu, quase desconhecido e sobre tudo desambicioso. 
Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobremaneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreocupação de fama literária, os meus hábitos de espírito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão indiferente, que é como que se a nada a reduzíssemos.
Estas circunstâncias pareceriam suficiente para me imporem um silêncio, ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho para falar dois fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentíssima de homem sem pretensões literárias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa-fé. Como não pretendo lugar algum, mesmo ínfimo, na brilhante falange das reputações contemporâneas, é por isso que, estando de fora, posso como ninguém avaliar a figura, a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso também falar livremente. E não é esta uma pequena superioridade neste tempo de conveniências, de precauções, de reticências—ou, digamos a cousa pelo seu nome, de hipocrisia e falsidade. Livre das vaidades, das ambições, das misérias duma posição, que não pretendo, posso falar nas misérias, nas ambições, nas vaidades desse mundo tão estranho para mim, atravessando por meio delas e saindo puro, limpo e inocente.

A este primeiro motivo, que é um direito, uma faculdade só, acresce um outro, e mais grave e mais obrigatório, porque é um dever, uma necessidade moral. É esta força desconhecida que nos leva muitas vezes, ainda contra a vontade, ainda contra o gosto, ainda contra o interesse, a erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a erguer a mão pelo que acreditamos a justiça. É ela que me manda falar. Não que a justiça e a verdade se ofendessem com v. ex.ª ou com as suas apreciações. Verdade e justiça estão tão altas, que não têm olhos com que vejam as pequenas cousas e os pequenos homens das ínfimas questiúnculas literárias dum ignorado canto de terra, a que ainda se chama Portugal.

Não é isso o que as ofende. Mas as ideias que estão por de trás dos homens; o mal profundo que as cousas apenas miseráveis representam; uma grande doença moral acusada por uma pequenez intelectual; as desgraças, tanto para reflexões lamentosas, desta terra, reveladas pelas misérias, tão merecedoras de desprezo, dos que cuidam dominá-la; isso é que aflige excessivamente a razão e o sentimento, o que prende o olhar ainda o mais desdenhoso a estas baças intrigas; isso é que levanta esta questão do raso das personalidades para a elevar até à altura duma questão de princípios, e que dá às ridículas chufas, que entre si trocam uns tristes literatos, todo o valor duma discussão de filosofia e de historia.
Sim, ex.mo sr. Eu não sei se v. ex.ª tem olhos para ver tudo isto. Cuido que não: porque a inteligência dos hábeis, dos prudentes, dos espertíssimos é muitas vezes cega em lhe faltando uma cousa bem pequena, que se encontra nos simples e nos humildes—a boa-fé.
À luz dela, porem, eu hei de sempre ver uma péssima acção, digna de toda a importância dum castigo, nas impensadas e infelizes palavras de v. ex.ª, dignas quando muito dum sorriso de desdém e do esquecimento. E se eu nem sequer me daria ao incomodo de erguer a cabeça de cima do meu trabalho para escutar essas palavras, entendo que não perco o meu tempo, que sirvo a moral e a verdade, censurando, verberando a desonesta acção de v. ex.ª
Porque é uma acção desonesta. O que se ataca na escola de Coimbra (talvez mesmo v. ex.ª o ignore, porque há malévolos inocentes e inconscientes), o que se ataca não é uma opinião literária menos provada, uma concepção poética mais atrevida, um estilo ou uma ideia. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se à
 independência irreverente de escritores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciência. A guerra faz-se ao escândalo inaudito duma literatura desaforada, que cuidou poder correr mundo sem o selo e o visto da chancelaria dos grãos-mestres oficiais. A guerra faz-se à impiedade destes hereges das letras, que se revoltam contra a autoridade dos papas e pontífices, porque, ao que parece, ainda a luz de cima lhes não escreveu nas frontes o sinal da infalibilidade. Faz-se contra quem entende pensar por si e ser só responsável por seus actos e palavras...

Agora quem move estes ridículos combates de frases é a vaidade ferida dos mestres e dos pontífices; é o espírito de rotina violentamente incomodado por mãos rudes e inconvenientes; é a banalidade que quer dormir sossegada no seu leito de ninharias; é a vulgaridade que cuida que a forçam—nós só lhe queremos puxar as orelhas!
Isto, resumido em poucas palavras, quer dizer: combatem-se os hereges da escola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de sua rectidão moral, do atentado de sua probidade literária, da impudência e miséria de serem independentes e pensarem por suas cabeças. E combatem-se por faltarem às virtudes de respeito humilde às vaidades omnipotentes, de submissão estúpida, de baixeza e pequenez moral e intelectual.
V. ex.ª, com a imparcialidade que todos lhe conhecemos, deve confessar que uma guerra assim feita é não só mal feita, mas também pequena e miseravelmente feita. Mas é que a escola de Coimbra cometeu efectivamente alguma cousa pior de que um crime—cometeu uma grande falta: quis inovar. Ora, para as literaturas oficiais, para as reputações estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a baba dos sofismas, do que envenenar com o erro as fontes do espírito publico, do que pensar mal, do que escrever pessimamente, pior do que isto é essa falta de querer caminhar por si, de dizer e não repetir, de inventar e não de copiar. Por que? Porque todos os outros crimes eram contra as ideias: haveria sempre um perdão para eles. Mas esta falta era contra as pessoas: e essas tais são imperdoáveis. Inovar é dizer aos profetas, aos reveladores encartados: «ha alguma cousa que vós ignorais; alguma cousa que nunca pensastes nem dissestes; ha mundo além do círculo que se vê com os vossos óculos de teatro; há mundo maior do que os vossos sistemas, mais profundo do que os vossos folhetins; há universo um pouco mais extenso e mais agradável sobre tudo do que os vossos livros e os vossos discursos.» Isto, sim, que é intolerável! Isto, sim, que é infame e revoltante e ímpio e subversivo! Contra isto, sim, às armas, ergamo-nos na nossa força, mostremos o que somos e o que podemos... escrevamos três folhetins e um prólogo!...

V. ex.ª fez-se chefe desta cruzada tão desgraçada e tão mesquinha. Não posso senão dar-lhe os pêsames por tão triste papel. Mas se eu, como homem, desprezo e esqueço, como escritor é que não posso calar-me; porque atacar a independência do pensamento, a liberdade dos espíritos, é não só ofender o que há de mais santo nos indivíduos, mas é ainda levantar mão roubadora contra o património sagrado da humanidade—o futuro.—É secar as nascentes da fonte aonde as gerações futuras têm de beber. É cortar a raiz da árvore a que os vindoiros tinham de pedir sombra e sossego. E atrofiar as ideias e os sentimentos das cabeças e dos corações que têm de vir.
O contrário disto tudo é que é a bela, a imensa missão do escritor. É um sacerdócio, um oficio público e religioso de guarda incorruptível das ideias, dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras. Para isso toda a altura, toda a nobreza interior são pouco ainda. Para isso toda a independência de espírito, toda a despreocupação de vaidades, toda a liberdade de jugos impostos, de mestres, de autoridades, nunca será de mais. O mineiro quer os braços soltos para cavar buscando o ouro entre as areias grossas. O piloto quer os olhos desvendados para ler nos astros o caminho da não por entre as ondas incertas. O sacerdote quer o coração limpo de paixões, de interesses, para aconselhar, guiar, julgar, imparcial e justo. O escritor quer o espírito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inúteis, o coração livre de vaidades, incorruptível e intemerato. Só assim serão grandes e fecundas as suas obras: só assim merecerá o lugar de censor entre os homens, porque o terá alcançado, não pelo favor das turbas inconstantes e injustas, ou pelo patronato degradante dos grandes e ilustres, mas elevando-se naturalmente sobre todos pela ciência, pelo paciente estudo de si e dos outros, pela limpeza interior duma alma que só vê e busca o bem, o belo, o verdadeiro.
Este é o escritor, o poeta, o apóstolo. Se o obrigassem a respeitos convencionais, a terrores supersticiosos diante de certos homens, a espantos cegos diante de certas cousas; se o fizessem baixar a cabeça e as costas para entrar a porta do panteão literário; ele, o pobre, ficaria sempre curvo e submisso, humilde e sem força própria, servo de alheias ideias e apostolo apenas de palavras decoradas e vazias de alma. Como se havia ele pois erguer, entre seus irmãos, tão alto que seus olhos fossem uns como faróis para todos os outros olhos, a sua fronte uma como montanha de luz; tão alto que as palavras de sua boca caíssem sobre as cabeças como uma chuva benéfica e fecundante? Seria, depois das provas e das torturas, das genuflexões e das baixezas da iniciação no grémio dos senhores, seria um aleijão e não gigante, um aborto em vez de herói e, em vez de sobre exceder a todos com a fronte, andaria sumido entre eles, visitado escassamente pelo sol e pela luz. Ele, que não soubera procurar para si o seu caminho, como poderia ele alumiar o dos outros? Ele, humilde, como ensinaria a altivez e a dignidade? Respeitador de conveniências estéreis, como daria o exemplo das revoltas fecundas? Sem alma, como a insuflaria no peito dos tristes e humilhados? Sem vontade, como resistiria às tiranias da opinião omnipotente, ao capricho dos grandes, às ambições, às tentações?
As grandes, as belas, as boas coisas só se fazem quando se é bom, belo e grande. Mas a condição da grandeza, da beleza, da bondade, a primeira e indispensável condição, não é o talento, nem a ciência, nem a experiência: é a elevação moral, a virtude da altivez interior, a independência da alma e a dignidade do pensamento e do carácter. Nem aos mestres, aos que a maioria boçal aponta como ilustres, nem à opinião, à crítica sem ciência nem consciência das turbas, do maior número, deve pedir conselhos e aprovação, mas só ao seu entendimento, à sua meditação, às suas crenças. Nesta escola do trabalho, da dignidade, das altas convicções, se formam os homens em cujos peitos a humanidade encontra sempre um vasto lago onde farte a sede de verdade, de consolações, de ensinos para a inteligência e confortos para o coração.
No peito dos outros, dos que andam de capela em capela na lida afanosa de incensar cada dia todos os ídolos, dos que fazem da glória uma Bastilha para aventureiros levarem de assalto, e não púlpito aonde se suba com respeito e amor, no peito desses não habita mais do que ambição, vaidade, endurecimento e miséria. Esses lisonjeiam os grandes; e os grandes dão-lhes a mão para que subam, e desprezam-nos depois. Lisonjeiam as maiorias; e as maiorias inconstantes lançam-lhes no regaço um pouco de ouro e algum aplauso de momento, e depois passam e esquecem. Afagam todas as vaidades; e têm em cada vício humano um capital, cujo juro dissipam em quanto vivos, porque essa moeda corrompida para mais ninguém serve. Enfim, nos quinze ou vinte anos em que dão que falar às gazetas, aos botequins, aos grémios, a todos os vadios, a todos os fúteis, folgam, vivem alegres e esquecidos de tudo quanto não seja a satisfação do que há no homem de mais pequeno—a vaidade e o interesse.
Para os outros a obscuridade, e a miséria muita vez—mas a estima dos melhores entre os homens pelo espírito, e, o que excede tudo, a posse duma consciência superior a quanto não seja a verdade, a justiça e a formosura. As ideias serenas brilham-lhes na escuridão do isolamento e alumiam-lhes com uma luz doce mas imensa toda a sua obscuridade. Dão-se a desbaratar o mal dos outros homens, como muitos se dão a aumentar o seu bem próprio. Vivem na região das bênçãos, escutando as palavras da boca invisível, e com os ecos dessa voz celeste compõem os hinos de esperança e de amor para a humanidade. Morrem; mas morrem nobres e puros. Tudo isto porque foram independentes. Não pertenceram a corrilhos; não elogiaram ninguém para que os elogiassem a eles; não incensaram os fetiches dos ridículos pagodes literários. Foram honrados. Foram simples.
A estes tais chamo eu poetas. Porque nos ensinam o bem. Porque são originais e dizem sempre alguma cousa nova à nossa curiosidade de saber. Porque dão com a elevação das vidas confirmação à sublimidade dos escritos. Porque são tão poéticos como os seus poemas. Porque vão adiante abrindo à luz e ao amor novos horizontes. Porque não conhecem ambições nem orgulhos. Porque têm a cabeça do génio e o coração da inocência. É por isso tudo que lhes chamo poetas.
Os outros adoram a palavra, que ilude o vulgo, e desprezam a ideia, que custa muito e nada luz. São apóstolos do dicionário, e têm por evangelho um tratado de metrificação. Fazem da poesia o instrumento de suas vaidades. Pregam o bem por uso e convenção literária, porque se presta à declamação poética, mas praticam o egoísmo por índole e por vontade. Fazem-nos descrer da grandeza humana, porque são uns sofismas que nos mostram a pequenez e a má fé aonde as aparências são todas de nobreza. Preferem imitar a inventar; e a imitar preferem ainda traduzir. Repetem o que está dito há mil anos, e fazem-nos duvidar se o espírito humano será uma estéril e constante banalidade. São os enfeitadores das ninharias luzidias. Põem os nadas em pé para parecerem alguma cousa. São os ídolos literários da multidão que mal sabe ler. São os filósofos queridos da turba que nunca pensou. São, enfim, génios no Brasil como v. ex.ª
Estes tais escusam da nobreza e da dignidade: têm a habilidade e a finura. Para a obra que fazem, isso lhes basta. Mas a obra, ex.mo sr., é que é uma obra vulgar: bem feita para agradar ao ouvido, mas estéril para o espírito. Soa bem, mas não ensina nem eleva. Ora a humanidade precisa que a levantem e que a doutrinem. São, pois, necessárias outras e melhores obras.

Mas, se já alguma hora da história impôs aos que falam alto entre os povos obrigações de seriedade, de profunda abnegação, de sacrifício do eu às tristezas e misérias da humanidade, de trabalho e silencioso pensamento; se alguma hora lhes mandou serem graves, puros, crentes, é certamente esta do dia de hoje, da idade de transformação dolorosa, de cepticismo, de abaixamento moral, de descrença, que é o nosso século. Refundem-se as crenças antigas. Geram-se com esforço novas ideias. Desmoronam-se as velhas religiões. As instituições do passado abalam-se. O futuro não aparece ainda. E, entre estas duvidas, estes abalos, estas incertezas, as almas sentem-se menores, mais tristes, menos ambiciosas de bem, menos dispostas ao sacrifício e às abnegações da consciência. Há toda uma humanidade em dissolução, de que é preciso extrair uma humanidade viva, sã, crente e formosa.

Para este grande trabalho é que se querem os grandes homens. Sairão esses heróis das academias literárias? das arcádias? das sinecuras opulentas? Dos corrilhos do elogio-mútuo? Sairão as águias das capoeiras? Saltarão as ideias salvadoras do choque das maledicências e dos doestos? Nascerão as dedicações do casamento das vaidades? Darão a grande novidade os ledores de Horácio? Inventarão as novas formulas os que decoram as frases rabugentas dos livros bolorentos que chamam clássicos? E os Sócrates e os Epictetos descerão para as suas missões das cadeiras almofadadas, das rendosas conezias literárias, das prebendas, das explorações?
Fora dessa atmosfera corrupta, e, quando não corrupta, pelo menos esterilizadora, é mais provável encontrarem-se as condições que precisam para viver e crescer os homens úteis e necessários às transformações do espírito humano.
Não é traduzindo os velhos poetas sensualistas da Grécia e de Roma; requentando fábulas insonsas diluídas em milhares de versos sem-sabores; não é com idílios grotescos sem expressão nem originalidade, com alusões mitológicas que já faziam bocejar nossos avós; com frases e sentimentos postiços de académico e retórico; com visualidades infantis e puerilidades vãs; com prosas imitadas das algaravias místicas de frades estonteados;com banalidades, com ninharias; não é, sobre tudo, lisonjeando o mau gosto e as péssimas ideias das maiorias, indo atrás delas, tomando por guia a ignorância e a vulgaridade, que se hão de produzir as ideias, as ciências, as crenças, os sentimentos de que a humanidade contemporânea precisa para se reformar como uma fogueira a que a lenha vai faltando.
Mas fora de tudo isto, destas necessidades tradicionais, é o nevoeiro, é o metafisico, é o inatingível—diz v. ex.ª
Todavia, quem pensa e sabe hoje na Europa não é Portugal, não é Lisboa, cuido eu: é Paris, é Londres, é Berlim. Não é a nossa divertida Academia das Ciências, que revolve, decompõe, classifica e explica o mundo dos factos e das ideias. É o Instituto de França, é a Academia cientifica de Berlim, são as escolas de filosofia, de historia, de matemática, de física, de biologia, de todas as ciências e de todas as artes, em França, em Inglaterra, em Alemanha. Pois bem: a Alemanha, a Inglaterra, a França, comprazem-se no nevoeiro, são incompreensíveis e ridículas, são metafisicas também. As três grandes nações pensantes são risíveis diante da critica fradesca do sr. Castilho. Os grandes génios modernos são grotescos e desprezíveis aos olhos baços do banal metrificador português.
O grande espírito filosófico do nosso tempo, a grande criação original, imensa da nossa idade, não passa de confusão e embróglio desprezível para o professor de ninharias, que cuida que se fustiga Hegel, Stuart Mil, Augusto Comte, Herder, Wolf, Vico, Michelet, Proudhon, Litré, Feuerbach, Creuzer, Strauss, Taine, Renan, Buchner, Quinet, a filosofia alemã, a crítica francesa, o positivismo, o naturalismo, a história, a metafísica, as imensas criações da alma moderna, o espírito mesmo da nossa civilização.... que se fustiga tudo isto e se ridiculariza e se derruba com a mesma sem-cerimónia com que ele dá palmatoadas nos seus meninos de 30, 40 e 50 anos, de Lisboa, do Grémio, da Revista Contemporânea!
Quem seguir tudo isto vai com o pensamento moderno; com as tendências da ciência; com os resultados de trinta anos de critica; com a nova escola histórica; com a renovação filosófica; com os pensadores; com os sábios; com os génios; vai com a França; vai com a Alemanha—mas que importa? não vai com o sr. Castilho! não vai com o novo método repentista! não vai com o moderno folhetim português!
O metrificador das Cartas d'Echo diz ao pensador da Filosofia da natureza—tira-te do meu sol!—O mitólogo do dicionário da fábula diz ao profundo descobridor da Simbólica—és um ignorante!—A retórica portuguesa diz à ciência, ao espírito moderno—cala-te daí, papelão!
É que tudo isto não passa de ideias. Ora há uma cousa que o sr. Castilho tomou à sua conta, que não deixa em paz, que nos prometeu destruir... é a metafísica... é o ideal...
O ideal! palavra mística; de gótica configuração; quase impalpável; espiritualista; impopular; que o artigo de fundo repele; que desacreditaria o deputado do centro que a empregasse; que Victor Hugo adora e de que se riem os localistas; que não chega para um folhetim e que enche o maior poema; imensa aos olhos dos que a vêem com os olhos fechados e que nunca viram os que os trazem sempre arregalados; palavra péssima para uma rima de madrigal; palavra que faz desmaiar as beatas; grotesca num botequim; disforme numa sala; medonha numa assembleia de literatos horacianos... decididamente v. ex.ª devia odiar esta desgraçada palavra!
O ideal quer dizer isto: desprezo das vaidades; amor desinteressado da verdade; preocupação exclusiva do grande e do bom; desdém do fútil, do convencional; boa fé; desinteresse; grandeza de alma; simplicidade; nobreza; soberano bom gosto e soberaníssimo bom senso... tudo isto quer dizer esta palavra de cinco letras—ideal.
Por todos estes motivos ela é sobremaneira odiável; ela é desprezível por todas estas causas; e v. ex.ª tem toda a razão, chacoteando, bigodeando, pulverizando esse miserável ideal.

Ele, com efeito, nada do que ele é ou do que vem dele, serve ou pode servir jamais para alguma cousa do que se procura na vida, do que nela procuram os homens graves, os homens sérios, os homens de senso e gosto como v. ex.ª, que nada querem com ideais ou com ideias, mas só com realidades e com tactos; para captar a admiração das turbas; o aplauso das multidões; para formar um grande nome composto de pequeninas letras; para merecer os encómios dos gramaticões e o assombro dos burgueses; para ser das academias; das arcádias; comendador; citado pelos brasileiros retirados do comercio; decorado pelos directores de colégio; o Tirteu dos merceeiro e um Homero constitucional.
Para isto é que não serve o ideal. E é por isso, pela sua absurda inutilidade, que v. ex.ª o apeia com tanta sem cerimonia do pedestal aonde, para o adorarem, o têm posto os loucos que nunca foram nada neste mundo, nem das academias nem do conselho de instrução pública, um Cristo, um Sócrates, um Homero...
Por isso é que v. ex.ª faz muito bem em o destruir, a esse pobre diabo do ideal; de o pôr fora de casa a bofetões; de o banir das suas obras, que não haver por lá nem a mais leve sombra dele. Agradam a todos assim. Os versos de v. ex.ª não têm ideal—mas começam por letra pequena. As suas criticas não têm ideias—mas têm palavras quantas bastem para um dicionário de sinónimos. Os seus poemas líricos não são metafísicos, não precisam duma excessiva atenção, de esforços de pensamento para se compreenderem—e têm a vantagem de não deixarem ver nem um só ideal. Nas suas obras todas há uma falta tão completa dessas incompreensibilidades, que deve pôr muito à sua vontade os leitores que v. ex.ª têm no Brasil. V. ex.ª diz tudo quanto se pode dizer sem ideias—boa, excelente receita para não cair nas nebulosidades do ideal. Os seus escritos são óptimos escritos—menos as ideias: e é v. ex.ª um grande homem—menos o ideal.
Dante, que era um bárbaro, e Shakespeare, que era um selvagem, é que rechearam as suas obras de ideal. Victor Hugo também cai muito nesse defeito. V. ex.ª é que o tem sempre evitado cautelosamente, e por isso não é um bárbaro como Dante, nem selvagem como Shakespeare, nem um mau poeta como Victor Hugo. Não é Dante, nem Shakespeare, nem Hugo—mas é amigo do sr. Viale, que fala latim como Mevio e Bavio.
Mas, ex.mo sr., será possível viver sem ideias? Esta é que é a grande questão. Em Lisboa, no Curso de Letras, na Academia, no Conselho Superior, no Grémio, nos saraus de v. ex.ª, dizem-me que sim, e que é mesmo uma condição para viver bem. Fora de Lisboa, isto é, no resto do mundo, em Paris, Berlim, Londres, Turim, Goetingue, New-York, Boston, países mais desfavorecidos da sorte, na velha Grécia também e mesmo na Roma antiga, é que nunca puderam passar sem essas magnificas inutilidades. Elas o muito que têm feito é servirem de entretenimento aos visionários como Christo (um metafisico bem nebuloso), como Sócrates, como Çakia-Mouni, como Mahomet, como Confúcio e outros sujeitos de nenhuma consideração social, que se entretinham fazendo sistemas com elas, e com os sistemas religiões, e com as religiões povos, e com os povos civilizações, e com as civilizações códigos, leis, sentimentos, amores, paixões, crenças, a alma enfim da humanidade, cousa que se não vê nem rende, e é também inútil e incompreensível. Eis aí o mais a que as ideias têm chegado. Creio que pouco mais ou nada mais têm feito do que isto.
Em Lisboa é que nem isto. Não sei se tem havido quem tente introduzi-las nessa capital. V. ex.ª é que eu tenho a certeza de que não era capaz dessa má acção. Por isso Lisboa não cai como caíram Atenas e Roma, por causa das suas ideias, e Jerusalém e outras cidades infelizes, cujos poetas tiveram um amor demasiado ao ideal... Uma só cousa ficou delas: uma memoria grande, honrosa, nobilíssima. Caíram, mas deram ao mundo um espectáculo raro—o espírito e a consciência humana triunfando da matéria e brilhando no meio das ruínas como a chama que se alimenta da destruição da lenha donde sai e que a gerou. Eu não sei se v. ex.ª acha isto sensato e de bom gosto. Cuido que não. O que eu sei somente é que isto é sublime......................

Paro aqui, ex.mo sr. Muito tinha eu ainda que dizer: mas temo, no ardor do discurso, faltar ao respeito a v. ex.ª, aos seus cabelos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra frase não tão reverente e tão lisonjeira como eu desejara. Mas é que realmente não sei como hei de dizer, sem parecer ensinar, certas cousas elementares a um homem de sessenta anos; dizê-las eu com os meus vinte e cinco! V. ex.ª aturou-me em tempo no seu colégio do Pórtico, tinha eu ainda dez anos, e confesso que devo à sua muita paciência o pouco francês que ainda hoje sei. Lembra-se, pois, da minha docilidade e adivinha quanto eu desejaria agora pode-lo seguir humildemente nos seus preceitos e nos seus exemplos, em poesia e filosofia como outrora em gramática francesa, na compreensão das verdades eternas como em outro tempo no entendimento das fábulas de La Fontaine. Vejo, porém, com desgosto que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco anos do culto das autoridades dos dez; e que saber explicar bem Telémaco a crianças não é precisamente quanto basta para dar o direito de ensinar a homens o que sejam razão e gosto. Concluo daqui que a idade não a fazem os cabelos brancos, mas a madureza das ideias, o tino e a seriedade: e, neste ponto, os meus vinte e cinco anos têm-me as verduras de v. ex.ª convencido valerem pelo menos os seus sessenta. Posso pois falar sem desacato. Levanto-me quando os cabelos brancos de v. ex.ª passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas cousas, que saem dele, confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão.
É por estes motivos todos que lamento do fundo da alma não me poder confessar, como desejava, de v. ex.ª

Nem admirador nem respeitador

Antero do Quental.  
                                                Coimbra 2 de Novembro de 1865.


Notas:
(1) Carta ao editor António Maria Pereira, inserida no Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, Lisboa,1865. 
(2) Teófilo Braga e Vieira de Castro.


Que tanto Antero como Castilho estejam com os espíritos bem laureados nas suas vidas subtis....
E entre nós todos circulem os Anjos e as inspirações ou bênçãos psicomórficas e divinas...

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

"A Casa do Coração", de Antero de Quental e Friedrich Rücker, na "Crítica Amena". E C. Cirilo Machado, 1886.



 A Crítica Amena era dada à luz em Lisboa, em Julho de 1886. "Revista Literária Contemporânea", o seu proprietário, director e apresentador era Augusto Forjaz, e mostrava  uma extensa lista de notáveis colaboradores registada no centro da capa, onde se destacavam Camilo, Bulhão Pato, Jaime de Magalhães de Lima, Júlio César Machado, Alfredo Pimentel, Luís Palmeirim, Guerra Junqueiro, José Silvestre Ribeiro, Macedo Papança, D. António da Costa e Alfredo Gallis, este fazendo uma crítica virulenta a um estudante de Coimbra, amigo de Antero, o Carlos Cirilo Machado (1865-1919) e que chegará a altos postos diplomáticos e militares, e  ao qual já em Dezembro de 1881 Antero escrevia:«pela minha parte, de entre os rapazes da última geração, está o Carlos no número limitado daqueles que eu estimo e de quem espero alguma coisa sã. Concebo que [eu] lhe tenha feito alguma falta: as nossas conversas não eram vãs, e o Carlos não é daqueles, que, por terem talento, se cuidam dispensados de ouvir e atender»...
  As sincronias do Verão de 1886: ao mesmo tempo que Carlos Cirilo Machado recebia de Alfredo Gallis, na Crítica Amena, uma descasca fortíssima à crítica literária que ele ousara escrever à famigerada Velhice do Padre Eterno de Guerra Junqueiro e até a Victor Hugo, e que levara logo em Setembro de 1885 Antero a escrever-lhe a propósito de tal "crítica acre e hostil" e portanto não "persuasiva": «Meu caro. Apesar de V. bater tão desalmadamente num que eu sempre amei muito, não lhe posso encobrir que na maioria dos casos bate certo», antevendo ainda que poderia ser mal interpretado, e lembrando-lhe que o crítico deve ser um juiz e não um adversário, recebia também a última dessas três cartas de Antero preservadas, a qual, além de o  apoiar pelo diálogo e afirmação da unidade, é de uma importância grande.
 Na realidade, nela, Antero, respondendo às perguntas de Carlos Cirilo Machado sobre o magnetismo, refere ter conhecido  o Padre Chaves e o deputado Sérrea Prado, algarvios (e dos quais sabemos pouco), dados «às ciências ocultas» e afirma, numa continuidade de Edward Hartman, que a «unidade de consciência», «expressão da unidade fundamental das coisas, existe latente ordinariamente, e só se manifesta obscuramente nos factos do instinto. O magnetismo será, segundo esta ordem de ideias, o momento em que essa unidade de consciência de latente se torna patente».
Assim nesse criativo ano de 1886 Antero de Quental estava instalado na sua tebaida de Vila de Conde e  escrevia cartas importantes que tanto clarificavam e apoiavam filosófica e espiritualmente como assinalavam a sua crise e as suas maleitas, compreendendo-se que o seu nome não estivesse sequer assinalado nos colaboradores por  não ser amigo do director da revista lisboeta, e portanto não o tievsse disponibilizado como colaborador, e de facto na sua  ampla correspondência, bem compilada e anotada por Ana Maria Almeida Martins,  não o encontramos.

Numa carta de Vila do Conde, num  Domingo de Maio desse ano,  a um dos seus maiores amigos, António de Azevedo Castelo Branco, na imagem acima, alguém a quem Antero podia entregar-se e confessar aspectos que o preocupassem, falava-lhe da sua pouca inserção e interacção na sociedade: «Eu por aqui estou, para o meu humor e gosto, bem, no meio do suave austero desta região, que ainda não é do século 19. Entretanto, pesa-me o não servir em nada à comunidade, pois nem espectador sou da triste comédia do mundo contemporâneo. Por dever, medito em sair deste encantamento e misturar-me aos homens para fazer alguma coisa que lhes preste. Mas o quê? É o que ainda não descobri. Veremos.»
Estava porém na forja a edição dos seus Sonetos completos, a qual sairia em Agosto de 1886 e que como diria em Setembro, com ela já nascida,  em carta ao seu tradutor italiano e amigo Tommazo Canizaro, valerá como um documento psicológico, «como "as memórias de uma consciência" neste nosso período tão tormentoso e confuso» constituindo sem dúvida uma notável contribuição para a poesia, a cultura e a cosmovisão portuguesa.
Nessa carta referia ainda «o estado deplorável dos meus nervos, ou como agora dizem, a nevrose, que durante larguíssimos períodos, deixando-me intacta a inteligência, me entibia a vontade e me impede de fazer as coisas mais simples justamente quando desejo fazê-las,» nomeadamente  responder-lhe e enviar-lhe os Sonetos mais cedo...
Voltando ao início deste nosso texto, a revista literária lisboeta que nesse mesmo ano de 1886 surgia com o pacato título de Crítica Amena e que não menciona na capa Antero nos colaboradores, se a abrirmos e lermos o frontispício, encontramos todavia a menção seguinte:  Casa do Coração, poesia de Antero de Quental. 
E na verdade nas páginas 33 e 34 encontramos uma breve mas significativa apresentação à transcrição de tal poesia que embora sendo atribuída a Antero, e tenha ganho alguma fama, embora com discrepâncias nas transcrições, era apenas uma tradução sua do alemão de Friedrich Rücker (1788-1866), um vigoroso poeta e sonetista (muito musicado ao longo dos anos) e, significativamente, um notável orientalista que publicou várias traduções árabes e indianas e mesmo uma obra em seis volumes  intitulada Die Weisheit des Brahmanen, A Sabedoria dos Brâmanes. Não há, porém, obras dele, a não ser numa antologia lírica com este poema, na livraria de Antero, hoje na Biblioteca pública de Antero de Quental.

                   A CASA DO CORAÇÃO 

«O coração tem dois quartos:
Moram ali, sem se ver,
Num a dor, noutro o Prazer. 


Quando o Prazer no seu quarto,
Acorda cheio de ardor,
No seu adormece a Dor…

Cuidado, Prazer! Cautela...
Canta e ri mais devagar,
Não vás a Dor acordar…»

É uma poesia simples de temperança, de equilíbrio vibratório, de conhecimento da lei do Karma: não exageres no prazer que pois poderás despertar a reacção da dor. Talvez o mais original seja localizar no coração esses dois níveis, apresentados mesmo como quartos onde a alma se pode instalar ou viver mais, e poderemos lembrar-nos seja do riso e do choro de Demócrito e de Heráclito, glosado pelo P. António Vieira e outros, ou mesmo as sete mansões ou níveis da alma ou consciência de santa Teresa de Ávila, até se chegar ao centro íntimo de si mesmo e por fim à Divindade. 
Anote-se que a linha de transmissão pública desta poesia A Casa do Coração a partir de ter sido escrita num álbum da filha de João de Deus (hoje na Biblioteca de Ponta Delgada), começa no Brasil, onde é impressa pela Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, e desagua de novo em Lisboa, na Crítica Amena, e finalmente é incluída por Teófilo Braga nos Raios de Extincta Luz, obra publicada rapidamente por este um ano após a partida de Antero, em 1892, e que certamente Antero não apreciou por várias razões, aí sendo apresentada como imitada do alemão, mencionando-se a proveniência do álbum, e com uma variante principal à versão transcrita na Crítica Amena: o verso final  surge como: «Não vá a Dor acordar»,  a mais acertada, como a podemos ver escrita   numa carta para Joaquim Araújo, de 1881, então numa versão com a pequena variação ainda assim significativa, de estar "Mais baixo, em vez do "Cuidado" que se tornará o público e aparentemente final...
Mas qual é então a introdução ou nota contextualizante valiosa ou pelo menos interessante de Augusto Forjaz, que no fim da revista de 80 páginas defende e elogia ainda Guerra Junqueiro e Alfredo Gallis? 
Ei-la:


 «Pertence à Gazeta de Noticias, do Rio de Janeiro, a glória de ter publicado, inéditos, os seguintes versos escritos num álbum pelo anacoreta de Coimbra, uma das inteligências mais notáveis da literatura portuguesa. 
Antero de Quental  é o admirador burilador das Odes Modernas e a vítima de uma doença que o aniquila, apertando-lhe a existência num círculo de ferro que lentamente se estreita. 
Mas, através aquele martírio lento, é soberba, é admirável, é extraordinária, a luz que fulgura de um cérebro cultivadíssimo, como que um clarão eterno acompanhando um sol moribundo.
Os versos que seguem, quase completamente desconhecidos em Portugal, são nove brilhantes límpidos, fulgurando na treva da doença do notável poeta açoriano»... 
O que poderemos acrescentar a este aparentemente belo tributo à paixão-doença e génio de Antero, senão apenas realçar primeiro a  expressão anacoreta, que embora com laivos pesados aponta o eremita, o génio, longe da dispersão e superficialidade mundana, em busca do íntimo, do sagrado, da verdade, solitário ou com um ou outro companheiro, como ele se reconheceu ou desejou, nomeadamente falando de uma ordem dos Mateiros, recolhidos nas matas, apesar do seu forte amor e ardor revolucionário juvenil. que mesmo um ano antes de desencarnar veio ao de cima no episódio da repulsa ao imperialismo inglês do Ultimatum e a aceitação da presidência da Liga Patriótica do Norte. 
Em segundo, a descrição da doença nervosa como um círculo de ferro que lentamente se estreita num martírio lento sobre tal inteligência notável, e em que há quase como que uma antevisão do suicídio cinco anos depois, e que por exemplo, entre outros dessa época, Manuel Laranjeira também cometerá mas que antes em alguns artigos criticara pelo que tal significava de ausência de ambientes que acalentassem almas mais sensíveis.
Todavia, mesmo na treva da doença (talvez exagerada por Forjaz) e da fraca inserção social, ressalta ou é pressentida por Augusto Forjaz e outros a extraordinária a luz que fulgura de uma alma (e não um cérebro apenas...) plena de cultura e idealismo, sensibilidade e bondade, luz ou clarão divino que continuará para além do poente do horizonte terreno...
Possam a luz e o amor Divinos brilharem sempre no ser espiritual de Antero do Quental e em nós...

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Shusaku Endo e o "Silêncio". Com um vídeo no final.


Este japonês (1923-1996) de Tóquio, mas que viveu dos dois aos dez anos na Manchúria, então sob administração japonesa, pois era filho de um empregado bancário para ali enviado, foi baptizado com o nome de Paulo aos 11 anos de idade, por influência da sua mãe, violinista, convertida por uma tia ao Cristianismo após o divórcio, tornando-se um dos pouquíssimos e naturalmente algo marginalizados católicos japoneses. Após alguns anos de busca de estudos e carreira, concluiu um tipo de licenciatura em Literatura Francesa na Universidade de Sophia, aos 25 anos, recebendo pouco depois, em 1950, uma bolsa do governo para ir estudar  na Universidade francesa de Lyon, onde esteve três anos, algo isolado, estrangeirado, regressando com problemas pulmonares (que o fizeram sofrer bastante ao longo dos anos), mas desde então dedicando-se apenas ao ensaísmo e à literatura. Ao ganhar o prémio Akutagawa,  importante, em 1954, tornou-se um autor consagrado e um leitor universitário, já sem problemas de dinheiro, casando-se e tendo um filho, as suas obras sendo muito bem acolhidas...
                                
Vivendo entre duas cosmovisões, a cristã e ocidental e a nipónica, escreverá textos e romances originais e valiosos através dos quais questiona e aprofunda aspectos psicológicos, filosóficos e religiosos do ser humano e da história, tanto nipónica como portuguesa, como ainda da Humanidade e sobretudo do Cristianismo, em si e particularmente no Japão.
Quando lemos a sua obra Silêncio, e será ela o escopo deste artigo (escrito em função de um encontro do Clube de Leitura Oriental e do qual registamos algumas partes no vídeo anexo no final), entramos no mundo dos últimos missionários do Cristianismo no Japão nos anos trinta, quarenta do século XVII, quando já estava proibida tal actividade e uma entrada clandestina no Japão era quase uma aventura kamikase


Fora em 1614 que Tokugawa Hidetada promulgara o édito da expulsão dos missionários e portugueses: «o bando cristão (kirishitan) ... veio ávido de derramar uma lei má e de rejeitar a verdadeira doutrina, com a intenção de mudar o governo do país e de tomar posse das terras. Uma tal semente de calamidades deve ser esmagada.»
A aventura do Cristianismo no Japão, começada com a chegada de Francisco Zeimoto, António da Mota e António Peixoto, e depois em 1549 com Francisco Xavier, e os jesuítas, e a partir de 1579 desenvolvida pelo geral dos jesuítas Alexandre Valignano, e que teria rendido tanto uns 300.000 crentes, numa população talvez de 18 milhões como também grandes amizades e diálogos, apoios e intercâmbios com pessoas e sobretudo governantes (nomeadamente Oda Nobunaga e Hideyoshi, este apenas durante certo tempo), estava verdadeiramente a findar, tanto mais que ingleses e holandeses já tinham chegado e pelo seu pragmatismo e sem religião missionária souberam captar as boas graças dos governantes.
Expulsos, proibidos de entrar sob pena de martírio cruel e morte, o horizonte geral era bem sombrio e pantanoso mas ainda assim houve missionários que sem se deixarem atemorizar por tal insistiram perseverantemente com os superiores para que os deixassem partir a fim de apoiarem os cristãos clandestinos japoneses, sem pastores e em constante perigo.
 É verdade que há ainda outro objectivo, talvez ainda mais premente, pessoal e dramático que impulsiona os dois jesuítas portugueses protagonistas desta aventura pelo silêncio a dentro e que é o certificarem-se se o antigo mestre deles no colégio lisboeta, o Padre Cristóvão Ferreira, após tortura e ameaça de morte nas covas de Nagasaki, em verdade abjurara do Cristianismo, recusou o santificante martírio e colabora com os governantes e religiões japonesas, pondo até em terreno aberto pretensos erros ou falsidades do cristianismo, para além de estar a traduzir obras científicas ocidentais para japonês.
São rumores que constam na vizinha Macau, pois os contactos com os cristãos japoneses estão cortados desde as últimas perseguições sangrentas e sobretudo desde a revolta de Shimabara onde 300.000 japoneses, camponeses e também cristãos, com seus estandartes religiosos, foram mortos.
Quando recebem finalmente a autorização em 1637, e partem de Lisboa na armada da Índia a 25 de Março de 1638, estamos entrados no átrio do do livro, pois só depois da difícil viagem e da persistente petição em Macau perante o geral da Ordem Alexandre Valignano é que conseguem ver anuída a aspiração ardente que os queimava de partirem num junco para o Japão.
Shusaku Endo, com o seu conhecimento das condições naturais do Japão, consegue reanimar para nós os ambientes aldeões e as mentalidades, ora simples ora complexas, do século XVII e põe-nos verdadeiramente na pele dos dois missionários clandestinos e em especial na alma de Sebastião Rodrigues, aquele que vai fazendo em discurso directo o relato das aventuras, perigos, sucessos e perseguições envolventes, no seu encontro com os cristãos clandestinos e o seu difícil pastoreio e, por fim, já depois de separados para fugirem à iminente captura, com o medo a aumentar nos dois, por fim vir a encontrar tanto Garrpe como o seu antigo mestre Cristóvão Ferreira, aquele que apostatizara...
Parece simples o enredo, mas trata-se de uma recriação histórica valiosa, movimentada, dramática e que recentemente foi mesmo levada ao cinema por Scorsese, certamente explorando o emocionalismo e dramatismo inerentes a tal aventura missionária e que é quase o epílogo de cerca de um século de grande florescimento do cristianismo, sobretudo justificado, como nos diz Shusaku Endo através de Sebastião Rodrigues, porque: «em verdade estes camponeses sofreram demasiado tempo, como bestas de carga. A nossa religião penetrou nesta região como uma água generosa numa terra árida, devido ao calor humano, até então desconhecido, que trazia às pessoas. Encontraram, pela primeira vez, homens que os trataram como iguais e assim a bondade e o coração dos Padres ganharam os seus corações». 
E, neste sentido, era ainda a figura doce e maternal de Maria a mais cultuada e venerada, como podemos ver ainda hoje numa pintura num estandarte quinhentista dela, como Nossa Senhora das Neves, nossa Senhora do país das neves montanhosas e invocadora da pureza e da água misericordiosa que delas se desprende ao descer das alturas pela acção do calor do sol e do amor.
Imagem quinhentista dos cristãos japoneses da zona martirizada de Nagasaki, da principal face feminina Divina cristã, venerada como Nossa Senhora das Neves e ainda hoje existente no museu dos 26 Mártires, em Nagasaki....
Que aspectos ficam mais na alma após a leitura emocionante e que prende, da última aventura cristã e portuguesa no Japão, se não quisermos mencionar, já depois da abertura do Japão ao Ocidente no séc. XIX, a adopção do Japão por Wenceslau de Moraes e os seus maravilhosos livros, ainda hoje pouco compreendidos e nos quais tende a superar várias dualidades, tais como as das religiões?
Quatro, talvez: o 1º, sobretudo, a inquietação do crente convertido japonês, ou do padre Sebastião Rodrigues, ou do próprio Endo, tanto pela vida miserável e perseguida de tanta gente pobre como pela ausência de resposta de Deus ao sofrimento imenso dos cristãos japoneses oprimidos e martirizados. Shusaku Endo exprime assim a angústia dos dois missionários quando dois cristãos que vão ser interrogados e provavelmente executados lhes perguntam:«Porque é que Deus, Sama, nos impõe este sofrimento? Padre, que mal fizemos nós?»
Esta questão recebera uma resposta inicial justificadora: o Japão é um pântano, que não tem condições para deixar crescer a semente. Mas compreenda-se que a primeira é uma pergunta que não está bem feita pois não é Deus que impõe sofrimentos, mas são os homens nos seus egoísmos intolerantes ou ferozes que os causam ou impõem. Algo que Shusaku Endo explicará também, consciente das limitações de tal visão pseudo-cristã de uma maldade de Deus. 
Transplantar para o chamado pântano, ou seja para o ambiente e o modelo e estrutura social nipónica da época, o Cristianismo era uma tarefa realmente bem difícil pois sendo em certos aspectos  uma subversão democrática ou igualitária, pondo em causa a hierarquizadíssima estrutura social e autoridade política, iria obrigar as autoridades que se constituiam na altura numa unificação  política a  reagirem violentamente
Contudo, a questão maior que aflora apenas uma ou duas vezes, fazendo par com que é considerado como o maior pecado contra o Espírito, o desespero, é se Deus existe ou não, pois se não existisse, pensa Sebastião Rodrigues, toda aquela aventura, ou mesmo a existência humana, seria absurda...
                                                       
2º, a busca da face da alma de Jesus, a qual sendo o modelo deles missionários vai passar por metamorfoses, de início uma amada e perfeita, pois desde novo Sebastião Rodrigues sentia ou via mesmo nas noites de insónia a face do mestre, como quando ele pronunciara as bem-aventuranças junto ao lago da Galileia, sentindo-a muito como uma fonte de força e amor. E com o tempo e a experiência nas dificuldades de estar preso e bastante pressionado ainda assim será em tal imagem que recuperará paz, embora alargue a dimensão do Cristo idealizado e perfeito para o que se vê reflectido nos pobres e desprezados, doentes e miseráveis, ou mesmo nele próprio perseguido, magro e extenuado, sentindo que o maior amor é esse pelos mais desfavorecidos, ou o que brota sob as maiores dificuldades.
 

3º, a inicialmente surpreendente abjuração do missionário  Cristóvão Ferreira vai com o desenrolar e o final da narrativa compreender-se quase naturalmente. Em verdade, para quê criarem-se ou manterem-se tantas oposições, facções e fracturas religiosas quando as pessoas humanamente podem fazer o bem e serem boas e conviverem acima das divisões religiosas?
O século XXI neste aspecto  dá-nos uma leitura retrospectiva excelente pois cada vez mais, à parte o sensacionalismo evangélico ou o terrorismo islâmico, ambos tão fanáticos e manipuladores, as religiões vão perdendo a sua aura de verdade divinas reveladas e indiscutíveis e os crentes, sobretudo onde a cultura e a liberdade estão presentes, vão abrindo os órgãos da alma discernindo as patranhas escriturais e intuíndo  a religião do Espírito e do Amor que está subjacente ao melhor de todas as religiões históricas, tão condicionadas por múltiplos factores e com frequentes germens de exclusivismo e violência...

4º, uma das figuras que se infiltra ou arrasta ao longo do livro é um cristão japonês que apostatizou, Kichijiro,e que anda sempre na corda bamba entre o ajudar os missionários e o vender-se para salvar e portanto trair, no que cairá de novo causando a detenção deles. Aliás pouco antes de tal acontecer, numa reflexão angustiada acerca dessa companhia algo viscosa ou  escorregadia, o padre Sebastião Rodrigues é levado a questionar se Jesus, na última Ceia, quando mandou Judas realizar o seu trabalho, isto é, entregá-lo às autoridades religiosas judaicas, fê-lo de um modo colérico, ressentido, o que equivaleria a condenar alguém à perdição eterna, algo oposto ao perdão divino, ou se pelo contrário o fez por amor. E lembra-se que, quando estudava e se interrogava sobre tal, alguém lhe tentara explicar como fazendo-o com tristeza, pela atitude, mas ainda assim amando-o, na, ou pela, essência.
No terreno hostil do Japão de então o missionário Sebastião sente subitamente que Judas seria apenas um fantoche levado a participar no drama da vida de Jesus, admitindo assim uma predestinação, numa linha quase protestante ou luterana, aquela que Erasmo esclarecera magistralmente na época do começo da Reforma...

É quando estamos apenas a metade do livro que o padre Sebastião é finalmente preso e levado para um campo de prisioneiros cristãos com os quais vai ainda poder pastorear antes de os ver morrer. E embora comecem a crescer as dúvidas quanto à verdade da fé simples que os japoneses tinham num imaginado ou intuído reino dos céus maravilhoso mal saíssem martirizados desta terra, começa também a desenhar-se a resposta lógica à pergunta que os inquisidores japoneses (quase que num efeito boomerang da Inquisição católica), ou um antigo cristão, que discutirá mesmo teologia com ele, lhe lançam: terá Sebastião Rodrigies direito a fazê-los sofrer na fossa e por fim morrerem, ao não apostatizar, já que a inexistência de um padre missionário seria considerado suficiente para um natural definhar do Cristianismo, sem necessidade de mais perseguições e mártires?
Tudo se vai então encaminhar para um desfecho inesperado, pois após vários diálogos com o temível mas afável interrogador Inoue, e sujeito a pressões grandes mas nas quais vai conseguindo identificar-se com Jesus aprisionado e vilipendiado, acontece a viagem até Nagasaki e o encontro com o seu antigo companheiro Garrpe, aprisionado e que recusando-se a apostatizar faz com que três japoneses morram.
Neste momento, numa primeira mudança radical, Sebastião Rodrigues, telepaticamente, tenta dizer a Garrpe para apostatizar e salvar os outros, abrindo assim brechas no seu proselitismo de candidato a mártir mas permitindo que haja menos mortes de japoneses cristãos. Todavia, Garrpe naturalmente não o ouve e prefere lançar-se ao mar, antes dos dois cristão serem também atirados borda fora presos em cruzes.
É um dos momentos culminantes do livro, a anteceder dois outros decisivos, e sozinho, preso, cogitando,  a questão da existência de Deus surge de novo, e a famosa frase atribuída a Jesus pouco antes de morrer: Eli, Eli, lama sabachani, "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste", é pela primeira vez interpretada por Sebastião não como uma oração ao Altíssimo mas como um possível desespero de Jesus perante o silêncio divino...
E quase logo a seguir surge Cristóvão Ferreira, calmamente acompanhado por um bonzo e um intérprete, colaborando com as autoridades japonesas e demarcando-se dos sonhos de proselitismo cristão, aliás num diálogo dramático, no qual, após um silêncio angustiante, Cristóvão Ferreira explica como está a ser útil àquele povo e país traduzindo obras médicas, de cirurgia, ajudando na astronomia, de facto necessidades se calhar tão valiosas como as de tratar das almas...
Nesse diálogo tremendo e no qual Sebastião Rodrigues está sempre a ver fisicamente em traços fisionómicos os aspectos negativos psíquicos de um traidor, de um sensual, de um apóstata, subitamente a missão de Cristóvão para com Sebastião surge calma, lúcida, racional: levá-lo a apostatizar, pois como diz o intérprete: «o caminho da misericórdia não é senão o da renúncia a si mesmo. Ninguém deveria fazer proselitismo pela sua própria crença religiosa. Ajudar os outros, segundo o ensinamento de Budha ou de Cristo é um ensinamento idêntico nas duas religiões. O que importa é de seguir, ou de deixar, a via da verdade. É o que Sawano Chuan (Cristóvão Ferreira) diz no seu livro Gengiroku», o tratado que explica os erros do Cristianismo.
São das linhas de maior sabedoria e perenidade de todo o livro, que sabiamente Endo põe na boca do intérprete japonês, mas compreende-se ainda assim que quando este livro foi impresso tanto protestantes como católicos, a começar pelo bispo de Nagasaki, algo ridiculamente, não tenham gostado dele, seja por apresentar os cristãos japoneses não da melhor forma seja os protestantes, cientes de si mesmos, atribuindo antes as apostasias à falta de fé dos missionários portugueses.
Porém, inegavelmente, a relatividade das crenças religiosas, e a importância da religião mais simples do amor e de se viver em paz, cada um na sua, ganha nos dias de hoje realmente uma dimensão de claridade urgente para se sair dos confrontos violentos que ensombraram e ainda calcinam tantas zonas, povos e gentes...
O diálogo de Ferreira e Rodrigues é bem valioso porque nele vemos levantados alguns aspectos das limitações de qualquer proselitismo de pregadores, ou missionários já que mesmo com doutrinas e dogmas a concepção que cada crente alcançará do seu Deus é sempre subjectiva e diferente do outro crente e que a Divindade pode falar ou chegar a cada um conforme a sua tradição e aspiração...
Vemos então Cristóvão Ferreira, um português, um ocidental, já compenetrado da mentalidade nipónica, assinalar como a concepção do Deus cristão foi incompreendida e modificada pelos japoneses, que o identificavam mais como Sol, Dainischi, pois: «os japoneses não conseguem conceber um Deus completamente distinto do ser humano, nem imaginar uma existência transcendente», e portanto o cristianismo adoptado é como uma borboleta presa e morta numa teia de aranha...
Esta última afirmação e imagem ficará a percorrer em círculo a mente emaranhada de Sebastião, preso e solitário, meditando no que se passou e na sinceridade de Ferreira, quando as proferiu.
Acorrem-lhe porém também as palavras de Jesus que estará com os que sofrem até ao fim do mundo, e as cenas da paixão de Cristo, mas é abalado pelo som dos cristãos que gemem torturados ali perto e a lembrança da confissão de Cristóvão Ferreira da razão de se apostatizar: não fazer sofrer mais outros seres por uma fé estrangeira ao país e por um Deus silencioso perante o sofrimento e as orações.
O ponto dramático ocorre então quando diante de Sebastião Rodrigues o antigo missionário Cristóvão Ferreira lhe põe a tremenda questão: - Se Jesus estivesse ali, o que faria? Deixaria morrer os outros? Teria esse egoísmo?
E, perante o grito ou queixume horrorizado de "não" de Rodrigues, qual "Senhor, afasta de mim este cálice", a resposta que Cristóvão Ferreira, ou Sawano, dá é simples e clara: Jesus apostataria, por amor dos seres humanos, para os salvar.
O livro atingiu o seu clímax, e Cristóvão Ferreira, ou Sawano Chan (tal fora o nome que recebera pela morte do antigo possuidor dele), em vez de obedecer ao pedido de Sebastião Rodrigues para se ir embora, põe-lhe a mão sobre o ombro, empurra-o docemente e sussurra-lhe: «ides agora realizar o mais doloroso acto de amor que foi realizado», encaminhando-o pelo corredor para a sala onde lhe será apresentada o fumi-e, que ele vê pela primeira vez, uma medalha em metal  com a imagem de Jesus,  na Última Paixão, e algo desfigurado pelos sinais de ter sido muito pisada. Sebastião segura-a nas mãos, perde-se na lembrança ou anamnese de como tal face divina o acompanhou e inspirou em toda a vida e missão, e questiona-se dilacerado (talvez como alguns cavaleiros Templários na sua iniciação secreta) como é que poderá agora pisá-la? 

 Cristóvão Ferreira e o intérprete encorajam-no: - é apenas uma formalidade e muitas vidas serão salvas. Uma lágrima brota-lhe, o pé pesa-lhe, só faltaria mesmo assentá-lo sobre a efígie, uma dor e tristeza imensa por ter de trair os seus ideais afloram, mas eis que de repente na própria imagem de bronze ele ouve o mestre Jesus a dizer-lhe: «"pisa, pisa [(e Endo não diz "pisa-me, pisa-me", como eu escrevera inicialmente)], é para ser pisado ou menosprezado pelos homens que vim ao mundo. É para partilhar o sofrimentos dos seres humanos que carreguei a minha cruz".
O sacerdote pisa o e-fumi. A aurora explode. Ao longe, o galo canta».

Poderíamos imaginar que explodira também a alma de Sebastião Rodrigues, como se fosse um seppuko ou harakiri, em que o espírito vital se liberta do corpo, a apostasia libertando-o de uma prisão dogmática de fidelidade já desadequada e mortífera para os crentes japoneses. Algo disso fica na sua mente sentindo que não pode ser desconsiderado pelos religiosos da Companhia de Jesus na rectaguarda, mas mesmo assim de noite acorda com visões tétricas da Inquisição ou do Apocalipse, sem dúvida um texto no seu messianismo extremista bem escolhido para par do Santo Ofício por Shusaku Endu, pois nada tem de S. João e do Logos Inteligência e Amor Divinos que o Cristianismo helénico conseguiu introduzir no Quarto  Evangelho.
Para mim a cena da apostasia foi mais comovente de toda a história, mas fica-se na dúvida se a escolha da tristeza ou amargura sentida posteriormente foi a melhor, pois deveria haver alívio, alegria, felicidade, choro, seja em Sebastião Rodrigues, seja em Shusaku Endo, seja na maior parte dos leitores devotos que poderão até sentir lágrimas do Amor purificador e libertador...
E assim acabava o sonho e ambição do proselitismo missionário cristão, vindo das praias do extremo Ocidente e finalizando nas costas do extremo Oriente...
Talvez o fim do romance (ainda que haja algumas notas históricas posteriores) pudesse estar melhor, pois diz-se ainda que Sebastião Rodrigues ficara a desprezar Cristóvão Ferreira  por o ter encaminhado para a apostasia, quando ambos deveriam  antes reconhecerem-se e conviverem na plenitude de espíritos filhos de Deus, livres e fraternos, acima das divisões, formalidades e barreiras religiosas e dogmáticas, podendo-se dizer que tinham cumprido as suas missões ou deveres (swadharma) da Vida em aspiração ao Amor e à Divindade, a qual não se deixa fechar nem sentir em concepções limitadas de religiões ou seitas...
Shusaku Endo imagina-os reciprocamente  se desprezando, embora sintam piedade pela comum desgraça que os une. Mas a unidade interna da procura da Verdade, o amor da religião do Espírito e do Amor, a abertura à Divindade deveria antes desabrochá-los e uni-los interiormente, embora se intua bem todas as tensões e limitações estreitas da época e dos ambientes e cosmovisões gerais.

Na verdade, não houve desgraça mas simples reconhecimento que o Cristianismo não podia vincar no Japão, pese o sonho missionário ou evangélico audacioso e que tivera um florescimento inicial tão grande e prometedor, e proporcionandoa ainda assim alguns momentos de grandes diálogos interreligiosos como os protagonizados por S. Francisco Xavier com religiosos japoneses.
  Os séculos posteriores darão razão aos que apostatizaram e evitaram mais mortandade de japoneses, e de igual modo hoje o sonho de uma religião qualquer triunfante no mundo é um sonho imperial de um iludido ou mesmo extremista, o Cristianismo convivendo com o Budismo, o Shintoísmo e sobretudo com as centenas de grupos espirituais que testemunham a perene aspiração numinosa do povo nipónico...
Deus ou a Divindade não pode ser para as pessoas apenas uma concepção exterior, uma crença, mas deve ser sim uma vivência interior e espiritual, um presença mística e amada, e logo de consequências libertadoras em relação à letra que mata o espírito.
Assim as religiões devem ser  dialogantes e universais e comungarem fraternamente nos princípios éticos e nas realizações espirituais comuns, estas  sobretudo pelas almas mais místicas alcançadas e partilhadas, embora não tenham sido tão divulgadas e assimiladas como o mundo precisa...

Sebastião Rodrigues dar-se à conta posteriormente que de facto a sua luta maior não foi contra os opositores exteriores, seja perseguidores e inquisidores, ou mesmo o pântano infértil para o cristianismo, mas contra a sua própria fé limitada e certamente incompreendida agora pelos religiosos que estivessem em Macau, Goa ou Lisboa, pois se os traíra não traíra a Voz Divina ou da Consciência, entre nós tão realçada por Antero de Quental ou como, escreve Shusaku Endo, «ele não traíra o seu Senhor», e continuava amando-o...
E assim no seu interior o Amor Divino ardia, a sua vida, mesmo com um nome japonês e casado, continuava a ser a do último sacerdote ou sacralizador ocidental no Japão (e nesse sentido ainda teria que absolver no fim o escorregadio Kichijiro) e ela falava por si só do mestre Jesus, duma face Divina, mesmo perante toda a incompreensão ou silêncio...