domingo, 27 de maio de 2018

Bouchra Ouizguen. Corbeaux. Corvos (2ª p.) Sufi. Festival Alkantara. Castelo de...


A performance Corvos, Corbeaux, realizada na programação do valioso festival Alkantara por um grupo de mulheres marroquinas, francesas e portuguesas no castelo de S. Jorge (também ligado tradicionalmente aos corvos, mensageiros da luz), a 25 de Maio de 2018, sob a direcção da realizadora e coreógrafa Bouchra Ouizguen, tem a sua origem de certo modo a partir da mundivivência ou tradição marroquina e,  mais especificamente, de Marrakesh e da vontade de Bouchra Ouizguem de sair dos teatros e dos espaço fechados e participar da interacção com os ambientes e as pessoas.
A 1ª mulher, qual mestra, a criar o começo do círculo ou hadra mágico ou iniciático
Assistimos a duas práticas ou performances, a primeira muito ligada ao Sufismo, à tradição espiritual do Islão, pois consistiu na repetição de um dhikr, de uma fórmula vocal sagrada que em geral se transmite nas confrarias sufis e que ajuda os praticantes a abstraírem-se de pensamentos que não sejam os associados a essa frase e som e a entrar em estados modificados ou expandidos de consciência, também denominados estados espirituais superiores, hal.
Se o dihkr mais famoso é o la ilaha ila Allah, não há outro deus senão Deus, há muitos outros bastante mais sintéticos e facilmente acopláveis aos sons de uma respiração curta e rápida, que se realizam em simultâneo com algum tipo de movimento do corpo, do torso ou da cabeça, expirando na inclinação para a frente e inspirando quando se sobe no caso dos Corvos...
O som que ouvimos, num ouvido basicamente português, foi Ai Ei, e que podem estar ligados com o Ah Ah, de Allah, e o Hu Hu, de Ele, Deus, e que se pronuncia He He. Mas só cada uma delas entrevistada é que poderá confirmar, tanto mais que observamos variantes claras entre elas...
Este tipo de práticas, que em geral são assumidas dentro de confrarias ou tariqas, em que praticamente a maior parte dos muçulmanos do norte de África se encontram ligados ou afiliados, tendo recebido frequentemente mais de uma baraka ou bênção de um mestre, pir ou sheik, realiza-se frequentemente no fim de uma sessão com discursos e comentários do mestre e diálogos e é o ponto alto de uma tentativa de se criar uma intensificação vibratória psico-somática que expulse a dispersão psíquica e instale uma abertura às energias que ligam a terra e o céu, as profundezas do inconsciente e a luminosidade do supra-consciente, tanto interiores e pessoais, como às provenientes do lugar e dos planos psico-espirituais ou divinos. 
Estes certamente dependentes de se alcançar o seu acesso pela presença de haver ou um sheik já bem evoluído ou realizado ou então haver alguma entrega de aspiração de um salik ou murib, peregrino ou discípulo, ou seja, no caso  uma praticante suficiente intensa ou luminosa para conseguir um certo despertar e receber algum tipo de graça ou experiência espiritual, em termos sufis como hal, um estado espiritual superior.
No caso deste grupo penso que não obedecem a uma necessária filiação numa tarika mas haverá certamente algumas das mulheres participantes com essa ligação, ou esse conhecimento, ou então com uma força maior que poderíamos equacionar com a Kundalini ou com a mumuksha ou a bhava prema da Yoga, ou mesmo o eros shamânico e urânico dos gregos.
Podemos observar e sentir neste sentido algumas das praticantes mais despertas ou mais permeáveis a uma espontaneidade energética e sonora mais psicomórfica ou seja que pode ter mais efeitos de ressonância energético-espirituais. Essa especificidade da diferente constituição anímica de cada uma das praticantes desta sessão colectiva de dhikr acaba por se tornar mais manifestado em alguns sons particulares, proferidos ou emanados apenas de uma ou outra delas. 
 Desde o princípio destacaram-se algumas, entre as quais a primeira a sair da matriz original grupal e que parecia a mestra e a jovem que lhe ficou em frente, claramente uma das mais shaktis, ou com mais energia psico-somática kundalinica e extática que acabou por ser a última a entrar em silêncio, depois de um solo muito inspirado e poderoso que poderemos apreciar no registo do vídeo.
A primeira, mais sábia liderante e a última mais jovem, resistente e galvanizante...
Seria bom ter-se ficado um pouco mais em silêncio, no fim, pois  talvez até elas próprias pudessem ter assimilado um pouco mais demoradamente os efeitos da prática realizada e do estado espiritual superior, hal, atingido,  antes de o partilharem na alegria e como que na transmissão de baraka, dessa energia abençoante pela dança que executaram em seguida, e que eu dividi ainda por um outro vídeo pensando que demorasse mais tempo...
Cremos ter havido nesta opção de Bouchra Ouizguen (com quem gostaríamos de ter dialogado, e da qual poderá encontrar contudo algumas entrevistas e excelentes vídeos, tais como o https://www.bouchraouizguen.com/corbeaux), uma visão modernista e libertadora da excessiva separação do sagrado e do profano, ou de uma submissão excessiva ao ascetismo sufi que por vezes reprova a dança e a música, mas que por exemplo mestres tão importantes como os persas Rumi, Shamz de Tabris e Ruzbehan tanto usaram e valorizaram, acentuando a liberdade que no séc. XXI deve ser assumida por mulheres e homens responsavelmente, amorosamente, harmoniosamente.
Foi então uma boa performance ou se quisermos mesmo ritual de partilha psico-somática sagrada realizada num dos centros energético-espirituais de Lisboa, uma das suas sete colinas, que poderá até inspirar algumas almas ou grupos portugueses a praticarem mais este tipo de hadra, introduzindo-o até em alguns dos múltiplos festivais do Verão, e que tem no sama dos dervisches, a dança ritual circular, uma das mais famosas performances deste tipo de performance de movimento, dança e canto sagrado. 
A sessão ficou gravada em três vídeos, apenas com a omissão de um minuto entre o segundo e o terceiro. No fim das fotografias, que estão pela ordem cronológica, encontrará o vídeo 2º, o mais longo, 18:00, estando o 1º e de abertura, de sete minutos no Youtube:  https://www.youtube.com/watch?v=yAJ9M9XYgTo , que se tiver tempo recomendo de ver e ouvir, tanto mais que algumas aves vieram cantar por momentos nesta comunhão sagrada da Religião Universal do Espírito e do Amor que subjaz e coroa as diferentes tradições e religiões, povos e locais...





A que ficou ao meu lado e bastante poderosa e galvanizante...
 

Os lenços brancos que foram caindo, tanto metáfora da união interior e que já dispensa o manto ou cobertura exterior, e que é símbolo até da investidura iniciática por um mestre, hirqa, e que aponta também para a futura libertação da mulher de alguns excessos de decoro exteriores, sem exageros certamente...
 



Um triângulo shaktico ou energético, ou de Noor, forte...
 

 

 


Começo da segunda performance, de dança espontânea, livre, irradiativa, de amor humano e não só ao Divino, gravada mais completamente (três minutos) na 3ª parte, disponível no Youtube..   https://www.youtube.com/watch?v=7Df3Unkfe0E
                     

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Manuela Nogueira, sobrinha neta de Fernando Pessoa, na sessão sobre ele e os irmãos Santa Rita.

Manuela Nogueira, sobrinha neta de Fernando Pessoa, e sua filha Inês, intervêm na parte final da sessão de homenagem aos irmãos Santa Rita, o pintor Guilherme de Santa Rita, recentemente homenageado nas Belas Artes, e o escritor Augusto de Santa Rita, e Fernando Pessoa, e na qual foram oradores Guilherme de Santa Rita, João Mcdonald e Pedro Teixeira da Mota, os quais também intervêm neste diálogo gravado em vídeo e bastante testemunhal sobre Fernando Pessoa. 
Realizado no palácio dos Arciprestes, numa organização da Fundação Marquês de Pombal, no dia 20 de Maio de 2018, dia tradicional do Espírito Santo.
      Optámos por não gravar as intervenções dos oradores para deixar o espírito soprar contextualizadamente sobre os que estiveram presentes, mas os testemunhos sobre Fernando Pessoa têm mais relevância e audiência pública pelo que cerca de 30    minutos ficaram perenizados. 
       Seguem-se algumas fotografias da sessão e de algumas almas  que de um modo ou outro participaram no campo unificado de energia informação e consciência mais de uma vez invocado ou sentido e que no fim, na voragem do tempo conviveram ou conversaram luminosamente.






Anjo de Deus. Por Ivo Alexandre, em exposição no palácio dos Arciprestes.

                         

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Pôs-te Deus sobre a fronte a mão poderosa, dos Sonetos de Antero de Quental, de Sténio.

Foi em Dezembro de 1861 que os primeiros sonetos de Antero de Quental foram dados à luz em livro,  sendo ele estudante em Coimbra. Como editor estava no frontispício o nome Sténio, pseudónimo de Alberto Teles Utra Machado (1840-1923), um amigo açoriano de Antero, que  já era então líder dos estudantes  mais desassossegados e a despertar e nesses sonetos expressava as aspirações e idealismos maiores de uma geração de almas.  
Exemplar que passou pela Eclética Livraria Alfarrabista em 2015.
Após um poema de Alberto Teles de apresentação, Pela mão vos trago o vate, surgem oito páginas dedicadas a João de Deus, doze anos mais velho do que ele, nas quais Antero transmite a sua teoria poética, enaltecendo a simplicidade e beleza do soneto, a importância do sentimento - o instinto da alma - e a penetração da inteligência-consciência no íntimo da alma até formar as ideias, que serão depois revestidas das formas buriladas e perfeitas do soneto, no qual ritmicamente se converge para o fecho, a chave de ouro. Por fim, mostra os principais elos da tradição espiritual do soneto em Portugal apresentando Camões, Bocage e João de Deus.
São vinte e um os sonetos apresentados, número que poderia ser simbólico na sua relação com o Tarot e o arcano XXI, a Coroa ou Mundo, mas que Antero desconhecia provavelmente, dedicados aos amigos, Ad Amicos, em geral, mas depois alguns nomeados especialmente, destacando-se pela quantidade sete ao Ignoto Deus e quatro a M. C. (muito provavelmente Mariana da Mota Porto-Carrero, hoje Portocarrero, ainda sua prima e muito nova então) e, entre estes, um iniciado por Pôs-te Deus sobre a fronte a mão poderosa, que transcrevemos e interpretaremos no fim, certamente dos mais belos e amorosos, pois Antero, então nas dezanove primaveras, brilhava com grande energia e sensibilidade, consciência e aspiração, intensificado ainda pelo amor sentido e manifestando-se fortemente na demanda filosófica e mística da Divindade Ignota, em sete poemas dedilhada...
                                   
Dois anos de estudante passados, em 1863, com 21 anos, Antero publica um livrinho na Imprensa da Universidade de Coimbra intitulado Beatrice, com quatorze poemas e um soneto, este de novo o tal dedicado a M. C., que cremos ser a Mariana Portocarrero, "Pôs-te Deus sobre a fronte", com mínimas correcções formais.
                                 
Escrito sob a égide de Dante, tem uma valiosa citação inicial de Lamennais, na linha dos Fiéis do Amor de Eugène Aroux, acerca de Beatriz, musa e símbolo da demanda da Verdade do Amor humano e divino, infinito e perene.
                               
E segue-se uma dedicatória, A..., sem se desvendar o nome da Beatriz portuguesa, no caso provavelmente ou principalmente Mariana Portocarrero, e por quem Antero de Quental sente, e testemunha, a intensidade, imensidade e inefabilidade do coração em  Amor.
                              
Passado nove anos, Antero cristaliza a sua antologia de poesia juvenil, quando está para perfazer os trinta anos, em Fevereiro de 1872, publicando na Imprensa Portuguesa, do Porto, aparentemente a contra-corrente da fase mais revolucionária que atravessava, um conjunto substancial da sua tão sensível poesia lírica e amorosa As Primaveras Românticas, Versos dos vinte anos (1861-1864), explicando nas Duas palavras prefaciais «não me envergonho de ter sido moço. Ter sido moço é ter sido ignorante, mas inocente./ A luz intensa e salutarmente cruel da realidade dissipa mais tarde as névoas doiradas da fantasiadora ignorância juvenil. Mas a inocência, a inteireza daquele indomato amore com que abraçamos as quimeras falazes dum coração enlouquecido pelo muito desejar, essa inocência é a justificação sagrada daquelas ilusões, o que as torna respeitáveis (...) ». 
                            
O plural empregado da palavra quimera aponta para mais do que um amor ou enamoramento de Antero, e sabemos por uma carta não datada mas provavelmente do começo de 1866 a João Machado de Faria e Maia que havia duas mulheres para quem seu amor mais se comunicava, uma de Coimbra, outra de Tomar, esta sendo Mariana. 
Mas já no Verão de 1866, em carta, algo dilacerada de hesitações, ao seu íntimo amigo António de Azevedo Castelo Branco, parece que resta já só uma: «eu tenho preso ao coração um amor que não sei (talvez porque não quero, nem ele o merece) como tirar daqui. Ele me simboliza toda uma vida segundo a natureza; vulgar... e bela, como qualquer árvore de primeira colina que o sol e os ventos visitam: quero dizer, aquilo que todo o homem tem o direito de exigir, porque nenhum homem tem direito de exigir mais...»
Nunca se conseguiu até hoje clarificar bem a vida sentimental de Antero, conhecendo-se os nomes de Maria do Carmo, da família dos seus amigos Faria e Maia, e Peppa, além da Mariana Portocarrero e da tal senhora casada de Coimbra.

                                  
São 202 páginas, com 28 poemas, o primeiro Beatrice, espraiando-se em 22 páginas, nas quais se inclui o "Pôs-te Deus sobre a fronte a mão poderosa", já sem dedicatória a M. C., embora terminando essa série com uma confissão muito bela e perene: "Se te posso esquecer?!... Quando teu filho/ A teus olhos de mãe o olhar volver,/ Pergunta a esse olhar se o amor se esquece,/ Se quem te um dia amou pode esquecer!..." Para um ou outro amigo de Antero, tal como Fernando Leal, ou anteriano posterior, tal como José Bruno Carreiro (com Ana Maria Almeida Martins, os dois incontornáveis biógrafos de Antero) esta referência ao filho não seria futurante, mas representaria um amor por uma mulher já casada, uma mulher de Coimbra.
É porém nesta 3ª edição do soneto que surge uma primeira modificação substancial, na descrição do olhar da amada, apontando provavelmente para uma diminuição do amor sentido de, e enviado a, Mariana, já que entretanto esta se casara em Novembro de 1868 com o seu colega de curso, Filomeno da Câmara de Melo Cabral, sabendo nós porém que serão sempre amigos, sendo este mesmo o seu médico nos Açores na crise de 1874 e dando um
testemunho muito sábio e exacto sobre Antero no In-Memoriam, considerado «como a inteligência mais poderosa, o espírito mais original e prometedor do seu tempo». 
 E em 1886, quando se dá a edição completa ou definitiva dos Sonetos, encontramos de novo o mesmo belo e significativo soneto, logo o terceiro na ordenação, de novo sob dedicatória M.C., com duas novas modificações, uma importante pois a mão poderosa de Deus ameniza-se ou dulcifica-se na piedosa.
                                    
Podemos então considerá-lo um dos sonetos mais presentes ao longo das metamorfoses da sua vida, amorosa mesmo, e reflectindo-as.
Ei-lo então, na transcrição da sua versão original de 1861, e dedicado à sua principal Beatriz,  M. C., muito provavelmente Mariana Porto Carrero:

A M. C.
Pôs-te Deus sobre a fronte a mão poderosa:
O que fada o poeta e o soldado
Pousou em ti o olhar d'amor velado
E disse-te: «mulher, vai! sê formosa!»

E tu, descendo na onda harmoniosa,
Pousaste neste solo angustiado -
- Estrela envolta num clarão sagrado,
Do teu olhar d'amor na luz radiosa -

Ah!... quem sou eu, para poder merecer-te?
Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,
Anjo! deu-te o Senhor um mundo à parte.


E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
Sem poder mais... a mim o que me há dado?
Voz para cantar... uma alma para amar-te!

Um poema simples, religioso e amoroso, no qual realçaremos apenas a visão de síntese platónica e cristã que assume e que lhe permite ver a descida da amada do mundo espiritual e divino num corpo-alma, com a fronte abençoada por Deus, enviada em onda harmoniosa para a Terra, onde chega como estrela em radiosa luz.
No soneto, Deus, com a mão poderosa ou, na versão final, piedosa, que abençoa tanto o poeta inspirando-o, ou o soldado fortificando-o, derrama o seu olhar de amor e infunde em Mariana o ser belo: "Sê formosa."
É uma original visão anteriana da criação de um espírito humano, neste caso a mulher que ele ama. Neste , ressoam o grego Ei (que deu mesmo origem a um dos tratados morais do sábio Plutarco), o corânico Kun, o Fiat Lux cristão, título aliás dado por Antero a outro livrinho da mesma data do Beatrice, 1863 e escrito no Buçaco, e do qual restaram poucos exemplares, por Antero mais tarde não gostar tanto dele, tal como se passou com a própria edição de Sténio. 
A passagem da mão "poderosa" a "piedosa" pode reflectir até uma projecção de Antero, ou como ele vê Deus na génese da alma de Mariana: já não a criando (ou fadando-a para Antero) com a mão poderosa do amor mas com a piedosa da compaixão...
E que quererá dizer Antero com estrela, sinónimo de Mariana? Que imagem teve ele diante do seu olhar interior?
É uma alegoria, uma imagem simbólica do seu brilho e amor?
                              
Ou será mesmo que teve a intuição ou visão interior que cada ser é uma estrela, uma centelha espiritual, depois revestida de energias anímicas e finalmente do corpo físico, tornando-se a pessoa que conhecemos ou mesmo amamos, e que no caso traz o dom inato de ter sido abençoada pelo olhar amante de Deus, para ser uma mulher de amor, suscitadora de entusiasmo, de desejo de agradar, de ser amada, musa inspirando e harmonizando à sua volta, tal como alguns dos outros poemas desta fase juvenil de Antero espelham?
E quando escreve: «Estrela envolta num clarão sagrado// Do teu olhar d'amor na luz radiosa», quer Antero dizer: Estrela flamejante sagradamente, e que do amor nos olhos irradia a luz?  Ou será apenas: Na luz radiosa em que vives, o teu olhar de amor brilha?
Creio que, independentemente da intuição-visão da estrela do espírito, inicialmente Antero valorizou mais a irradiação do amor luminoso do olhar de M. C., ou Mariana, tanto mais que a segunda das três modificações substanciais sofridas pela soneto surge neste verso, pois o que fora ainda na edição de 1872 "Do teu olhar d'amor na luz radiosa", passa a ser em 1886  "Do teu límpido olhar na luz radiosa", e poderemos interpretar tal como a sublimação da corporização do seu ideal de amor na ex-namorada, agora já casada, deixando o seu olhar de ser de amor para apenas de limpidez, pureza.
                                   
Estamos a ver o soneto vivo, obra em aberto, transmutante, e na versão final tanto Mariana como Antero já não sentem nos olhos o amor paixão mas o olhar límpido.
Tal transmutação poderemos considerar de novo um bom ensinamento de um Fiel do Amor pois embora a relação tenha falhado na sua continuidade, em parte porque Antero foi descobrindo não teria, ou não conseguira desenvolver, a vocação ou o dom do casamento, e Antero até confessado o seu sofrimento a amigos mais íntimos, para os dois o que permanece, além dos sentimentos comungados e poemas gerados,é um amor puro ou límpido, e não despeito, recriminação, como sucede tanto nos nossos dias.
Há ainda uma zona misteriosa no soneto que requer alguma interrogação hermenêutica:
O que é que deu Deus de vedado à mulher?
Será a sua nudez bela, ou mesmo o seu sexo, que durante a virgindade se encontra vedado?
Teremos de novo uma visão platónica da união do corpo e da alma, da descida do espírito angélico para ser alma no corpo humano- animal terreno?
E finalizando o soneto, que teve também leve modificação na sua evolução, que recebe Antero, o Homem?
Olhos para a admirarem e se encantarem, voz de poeta para a cantar e elogiar, acariciar e modelar. E alma, ser anímico, psique, para a compreender e amar, abraçar e ser um com ela nas criatividades e fecundidades comuns, em invocação ou sintonia com a Divindade e a Sua vontade e amor.
Certamente um soneto belo e bem sentido por Antero, algo de que em relação a muitos dos sonetos não temos tantas provas ou sinais da vivência psico-somática que os consubstancia, podendo contudo discernirem-se neles construções muito belas mas mais do domínio da forma e da estética, noutros mais do nível das ideias e filosofias, enquanto outros são bem mais sentidos e líricos e, por fim, alguns sendo frutos de intuições e realizações espirituais, aqueles que ele 

desejava serem a sua mensagem inovadora e final em termos de demanda espiritual, mística, filosófica, estética, social e ética. Neste soneto predomina então um sentimento de ligação e aproximação à graça do Amor Divino, criadora ou emanadora de seres de amor ou limpidez, capazes de poetizar e lutar, cantar e amar.
Que a nossa fronte, ou olho espiritual, seja mais abençoada pela Luz Divina e o nosso coração, olhos e ser a irradiem e comunguem com outros seres, elos como Antero de Quental e na linha de Dante e Beatriz, tanto ascensional como real...

terça-feira, 15 de maio de 2018

À Alma, órfica, e à palavra irradiante de poder de Luama Sócio.

Cada ser é único e merecedor de muito respeito e amor, tendo o seu caminho próprio de peregrino ou peregrina na Terra por uns tantos anos, com esta ou aquela missão. E depois parte e leva consigo como alma espiritual não só o que pensou e viu, sentiu e agiu, ligou e realizou, mas também os sons e músicas que proferiu e ouviu e assim avançará pelos mundos subtis e espirituais rumo à sua plenitude comunicativa e união com a Divindade.
Somos seres de palavra, de conversa, de diálogo aprofundante e por isso em várias religiões se diz que o mundo nasceu da Palavra divina, do som, da vibração primordial, que ainda ecoa na música das esferas quase silenciosa no nosso ouvido interno mas que por vezes se solta mirificamente no interior ou que mais facilmente brilha no en-cantamento imenso, ondulado e rítmico das cigarras nocturnas no Verão quente de mil estrelas no céu.

A Palavra foi então considerada mágica desde a mais alta Antiguidade, pois ela reflectia o poder criador Divino e o que era dito podia tornar-se realidade, podia manifestar o que se evocava, se fossem cumpridos certos requisitos ou se houvesse tal dom ou graça. 
Os Egípcios desenvolveram muito o que eles chamavam o poder irradiante das palavras, dos nomes divinos, e a palavra pronunciada justamente, que constituíam a base das suas orações, liturgias e até ritos com que se procuravam dotar a almas vivas e as já desencarnadas com as forças ascensionais e libertadoras que as palavras em papiros ou em cantos continham e derramavam iluminadoramente  nos seus caminhos no além...
No conhecimento e mestria dos sons sagrados, dos hinos  védicos e depois mantras yoguicos, devocionais e das iniciações, a Índia excedeu-se a todos os povos e ainda hoje os seus mantras em sânscrito são diariamente recitados por milhões de seres, nomeadamente o Aum e a Gayatri, certamente em litanias madrugantes e encantantes do mundo espiritual na terra e nas almas...

Orfeu, na Grécia primordial, é talvez, a ser mais do que um nome colectivo, o primeiro mestre ocidental individualizado reconhecidamente dessa tradição, em pouco antecedendo Pitágoras, sendo um shaman, um comungante de braços abertos às energias e seres da terra e do céu, um ser espiritual consciente das energias que do seu corpo, alma e  mundo espiritual emanavam com as palavras, e como com tal se poderia acalmar e curar, inspirar e despertar e, em especial, tocando simultaneamente música, a harpa ou lira. 
 
 A tradição Órfica atravessará os séculos, conhecendo-se historicamente dela as lamelas em ouro que alguns iniciados levavam no peito com as palavras mágicas que os guiariam no além, e ainda os belos hinos órficos, e serão os poetas, as musas e os trovadores os que mais se filiarão  nela, mas também escritores e pintores, filósofos e teólogos, tal como o florentino Marsilio Ficino, que no final do séc. XV valorizou muito Orfeu como um dos elos da transmissão do que ele chamava a Prisca Religião, a Filosofia Perene que antecedera as Religiões do Livro, e que em vários dos seus livros ou nas cartas abordou, tanto mais que  também dedilhava a lira, seguindo os conselhos pitagóricos que estudara.
Dos elos notáveis na tradição Espiritual Portuguesa nomearemos somente as Cantigas de Amigo, tão cheias de amor, Camões e Jorge Ferreira de Vasconcelos, Bocage, Antero de Quental e Fernando Pessoa, todos eles assumidamente Cavaleiros ou Fiéis do Amor e da palavra mágica, mas muitos outras almas podiam ser chamadas, evocads da comunidade de língua portuguesa que une tantos povos e seres por em cima dos oceanos, e em especial do Brasil.

Nos nossos dias do séc. XXI, infelizmente a mentira tornou-se rainha e sobretudo na classe política e financeira já não há quase promessa ou afirmação verdadeira e que se cumpra, fazendo decair o próprio valor da palavra usada por todos os seres, tal como vemos nas notícias falsas, na manipulação, ou no paradigmático controle exercido pela aliança anglo-americana-israelita-saudita e que origina tanta morte, sofrimento e desilusão no mundo. 
 A magia da unidade pelo Bem comum torna-se um ideal que paira bem acima das organizações internacionais tão manietadas, ainda que algumas certamente brilhem com alguma eficácia compassiva. Quanto a agrupamentos de pedagogos, cientistas, activistas, escritores,  esoteristas, poetas, filósofos e ecologistas que consigam formar-se e irradiarem luminosa e eficazmente são precisos bem mais...
Necessita-se então de mais palavra irradiante de poder, órfica, brotando dos livros e das músicas, dos festivais, das conferências e satsangas, com pessoas aptas a serem tocadas e impulsionadas luminosamente e para que a Terra seja mais harmonizada e feliz... 

Assim, não mentirmos, sermos verdadeiros, não recearmos dizer a verdade, desmascarar as mentiras e cobardias, unir-nos pelo bem comum é fundamental, para que depois pela nossa vida justa e por uma prática psico-espiritual que nos ligue à nossa identidade mais profunda e à solidariedade humana, numa unidade espiritual supra-religiosa, o ser-palavra possa também, porque repudiou o mal da manipulação e da alienação, da mentira e da violência, receber o bem e a paz, o Divino e o amor,  e logo manifestá-los e transmiti-los, tocando no interior das pessoas, nessa unidade energetico-psico-espiritual caracteristicamente mais vivenciada pelos elos da Tradição Órfica ou Espiritual e que hoje vários cientistas mais sensíveis designam num certo nível como o Campo Unificado de energia, informação e consciência, com as suas sincronias, ressonâncias e telepatias...


Porque por vezes algum ser nos surpreende na imensa planície por vezes alcantilada dos seres humanos e nos encanta pela sua voz e face, mensagem e alma, brotou  este poema à palavra, à poesia, à música, ao diálogo, ao esforço em grupo  pela Verdade, o Amor e o Bem e, mais, concretamente à Luama Sócio, e seu grupo musical, e em especial à sua música e poema À Alma, uma obra-prima, recentemente publicado no seu CD O Bárbaro ( www.luama.com/o-barbaro) e que de certo modo inspira este poema...
.
"Ouvia a tua voz e ora trabalhava com ela,
Ora partia com sua harmonia num voo divino,
No céu azul e na sonoridade cristalina
Que nos purifica, harmoniza e reintegra,
Na plenitude desejada e agora realizada:
Descobrir que a música e a voz da alma
Ajudam a recuperar a nossa identidade,
Nossa ligação ardente com a Divindade.


Não mais cairia nem recearia,

Não mais mentiria nem desanimaria,
Apenas comungaria na Verdade,
No Amor e no aprofundamento 

Do mistério Divino em todos nós.

Cantaria contigo, com a tua voz

Abrindo primaveras no horizonte das almas
Viva e mortas, próximas ou longínquas,
Ou não fossem a música e o canto
Eixos luminosos ligando os mundos 

E tornando-nos seres de braços abertos 
Às melhores invocações divinas
E que pelos nossos olhares e palavras
Se derramam magicamente pelo Cosmos.


Rituais de celebração de cada dia
Como um novo começo primaveril, 

Tantas possibilidades e esperanças
Na participação no Plano Divino
.


Sopraria também docemente sobre ti
Os melhores mantras orientais,
Ou as preces do coração português,
Descendente dos antigos navegadores,
Que demandaram os mares e distâncias
Para encontrar portos, terras e diálogos,
Tal como nós, separados pelo Oceano,
Neste momento órfico realizamos,
Pelos raios dos nossos corações,
Gerando asas em arco-íris de sons,
Cascatas de palavras belas e inspiradoras,
Vibrações subtis e iluminações fulgurantes,
Na comunhão sacra dos Anjos e Espíritos,
Na imensa mas também íntima Divindade." 


sábado, 12 de maio de 2018

Das Frésias contempladas, cheiradas, sentidas, amadas e poetizadas.

O nascimento de uma frésia e a sua presença dentro de uma casa é certamente uma graça divina, ou da grande Deusa Natura, e pode tornar-se inspirador para fotografias, um vídeo e por fim um hino ou poema.
 
Ao escrever isto aqui, apesar de estar a metro meio dela, o seu perfume vem-me tocar ou banhar, envolver ou penetrar, como se ela tivesse uma respiração e que pode soprar ou orientar para onde quiser e assim suprir a nossa incapacidade de gravar e enviar, além das imagens ou vozes, o perfume que dela se depreende e que nós bem gostaríamos que chegasse a algumas pessoas mais amigas, quem sabe a si.

Talvez o milagre da sincronia, telepatia ou comunhão dos seres no campo unificado de consciência energia permita a algumas das leitoras ou leitores captar este perfume tão sagrado e divino, subtil e intenso e assim se assumir mais no seu corpo e ser espiritual bem mais amplo que o cerebral e físico..

Que o perfume e a frésia, e tudo o que delas se manifesta e emana, possa ser sentido e recebido por nós no cálice da eternidade, denominado Jaam-e Jam na antiga Pérsia, e que é  nosso coração mais profundo, aí onde a Frésia primordial e Divina deve despontar e irradiar paz e amor para todo a humanidade, que tanto necessita. 
Deixe-me dizer-lhe ainda, antes de entrar nas fotografias e quem sabe em algum dom de perfumes subtis, que no fim de tudo encontrará o vídeo gravado há pouco e antes o poema que dediquei a esta frésia encantadora e às frésias e almas mais amigas ou amadas.

Um cálice luso-persa do santo Graal, luso da frésia e localização, persa da madeira e origem.
Um dia antes, a frésia embrionária, serpentina mas toda ela já fremente de se derramar perfumada no ar universal e em algumas almas que a acolham e, quem sabe, dêem mais vida à sua subtil fada...
 

Como de um ser humano, em sangue ou em amor, e aspirando à luz divina em que seu espírito se origina

Um Harai-gushi do Shintoísmo desenhado para evocar a descida zizagueante da luz divina harmonizadora
Om mani padme hum. Mantra ou oração budista e universal de invocação espiritual e divina: a consciência espiritual está na tua flor mais íntima.
Liga-te à floração divina e sê destemido, perfumado no amor, como a frésia.

Estátua animada do Japão, com bênçãos de Amaterasu omikami
 

Mandala sufi da Turquia, das comemorações de Rumi.
Dragão-espada dos Himalaias
Os Anjos gostam que abramos os braços e os corações para eles como flores perfumadas sopradas pelas melhores aspirações...
Os Anjos, tais como os devas ou espíritos da natureza, estão muito próximos das flores
Chakras pintados por Teresa Mester, professora de Yoga
 

                                          Hino às Frésias...
        

         Tão delicadas, tão sensíveis, tão formosas e fragrantes,
     Lembram-me as mulheres de quem mais gosto presentemente
    Mas também as consigo oferecer às almas queridas já partidas.

      Meditar numa frésia é entrar num mundo de tal delicadeza
      Que todo o nosso ser fica encantado a tremelicar e tremeluzir.


           Embora imóvel, a frésia toda ela está fremente e movente,
           No seu desabrochar ardente para o mundo ignoto,
           Atraída para a luz do sol quente que a janela coa,
           E sem saber que olhares e corações a vão acolher.

               Parece uma ave em fogo a querer levantar voo,
               As asas bem realçadas são também vasos do cálice
               Em que ela se torna e se nos oferece e entusiasma.

               Que privilégio o dos seres que têm frésias consigo
               E sentem toda a casa, jardim ou a aura perfumada
               Por uma só frésia colorida desabrochada e amada.

               Mil beijos, mil carícias, mil poemas e cantos
               Merece cada frésia, cada amada, neste universo
                De tanta riqueza e pobreza, mistura caótica
                Da qual a frésia nos eleva, ilumina e abraça.
 

Fechar os olhos e deixar que o teu corpo ou ser de fada
Ao meu olhar e sentir interior desponte primaveril
E me alegre, rejubile e abra mais o coração subtil.

Que as fontes e matrizes da Divindade, da Shakti,
Desabrochem as nossas melhores potencialidades!
        Perfume e amor das Frésias para as almas mais amigas!
 


Imagem de Anjo no interior da Frésia. Ou quem sabe, uma imagem miniatura, espelhada pelo olho túnel telescópio espiritual, do Anjo da Frésia... Pax-Amor-Theos...