segunda-feira, 12 de novembro de 2018

"Palavras dum Certo Morto", soneto de Antero de Quental. Video, contexto e cartas a Cannizzaro, Magalhães Lima e António Molarinho.


Tommaso Cannizaro, discípulo de Garibaldi, amigo de Victor Hugo, tradutor de Antero de Quental.
  O soneto Palavras dum Certo Morto, o qual li e comentei hoje (vídeo no fim), acrescentando depois esta contextualização, é um dos que requereu de Antero de Quental esclarecimentos, e dos quais nos ficou a resposta dada por ele numa carta em 1889 ao poeta e seu tradutor e amigo Tommaso Cannizaro (siciliano, 1838-1921), que contribuiria com onze sonetos em italiano publicados no apêndice à 2ª edição dos Sonetos Completos, em 1890. Em 1898 viria a publicar uma excelente edição dos Sonetos Completos em italiano.
A ideia básica do poema, embora dramática, é todavia simples: Jesus Cristo está há séculos preso e exposto  num penedo à inclemência dos elementos, o seu espírito tendo um só pensamento:  foi amortalhado pelos que o idolatraram e endeusaram e não conseguiram ver que ele fora apenas uma transitória manifestação da Vida, essa sim adorável.
                                       
Oiçamos o poema, na organização dos Sonetos Completos, de 1886, escrito no ciclo de 1864 a 1874:

Palavras dum Certo Morto

 Há mil anos, e mais, que aqui estou morto,
Posto sobre um rochedo, à chuva e ao vento:
Não há como eu espectro macilento,
Nem mais disforme que eu nenhum aborto...

Só o espírito vive: vela absorto
Num fixo, inexorável pensamento:
«Morto, enterrado em vida!» o meu tormento
É isto só... do resto não me importo...

Que vivi sei-o eu bem... mas foi um dia,
Um dia só — no outro, a Idolatria
Deu-me um altar e um culto... ai! adoraram-me.

Como se eu fosse alguém! como se a Vida
Pudesse ser alguém! — logo em seguida
Disseram que era um Deus... e amortalharam-me!»

Ora na carta de resposta ao seu amigo e tradutor Tommaso Cannizzaro, de 15 de Maio de 1889, Antero de Quental esclarece as dúvidas que este lhe transmitira: «(...) O personagem que fala no meu soneto Palavras  dum certo morto é, como por certo compreendeu, o Cristo: o Cristo, símbolo, ideia e princípio da vida espiritual, personificado e idolatrado pela ignorância dos homens que fizeram uma pessoa (alguém) dum princípio impessoal e por isso o desvirtuaram criando simplesmente uma nova idolatria. Tais são as queixas de Cristo e tal é o pensamento do soneto (...)» 
A explicação Antero é então que o Cristo é "o símbolo, a ideia e o principio impessoal da Vida Espiritual".
Ou seja, a Vida Espiritual cósmica, absoluta ou em si, foi manifestada bem  por Jesus (chamado Messiah na linguagem  hebraica por sendo considerado ungido ou abençoado por Deus, sendo tal palavra em grego traduzida por Christos), o qual mais tarde foi erguido a Filho único de Deus, ou mesmo Deus, elevação e identificação esta que Antero não vê como correcta.
Não foi  pois o sentido etimológico da palavra, nem o da Igreja, que Antero seguiu quando usa no soneto a palavra Cristo, pois criticando aos cristãos a adoração e endeusamento de (Jesus) Cristo, limitando a Vida espiritual a alguém, considera então que o Cristo é o nome dado a essa Vida Cósmica Espiritual a qual não deve então ser identificada ao ser humano Jesus...
Na continuação da carta, que lemos em parte no vídeo, Antero de Quental, depois de propor certas modificações na tradução por Tommaso Cannizzaro do soneto  (que na  impressão de 1890 sofreria uma gralha do "tanto" para "santo", algo grave, e acrescentava no ultimo terceto uma exclamação "ò mundo estulto"), explica ainda de outro modo a ideia subjacente às Palavras dum certo Morto, continuando assim a carta:
«É talvez um pouco obscuro e metafísico; com efeito, várias pessoas me têm já perguntado qual o verdadeiro pensamento deste soneto. Esse pensamento consiste no contraste entre o Cristo, ideia pura da vida, o Cristo princípio, e o Cristo personificado, idolatrado e desvirtuado; de modo que a apoteose equivaleu à morte e enterro daquilo mesmo a que se pretendia dar imortalidade. A vida (princípio ideal espiritual) não pode ser alguém (uma pessoa, um indivíduo limitado (...)» 
Vemos de novo Antero a criticar o endeusamento de uma pessoa, Jesus, que não é o princípio ideal espiritual, a ideia pura da Vida.
Qual é a obscuridade que se pode sentir? 
Talvez a principal derive do facto de Antero não querer utilizar a palavra Deus, para designar o princípio ideal espiritual,  deste modo demarcando-se do Cristianismo.
Antero finaliza assim, a carta:  «A vida (princípio ideal, espiritual) não pode ser alguém (uma pessoa, um indivíduo limitado): daí a contradição íntima do Cristianismo, o contraste e a ironia dolorosa das palavras que ponho na boca do Cristo, ao mesmo tempo como uma crítica amarga da loucura idolatra dos homens e um juízo sintético da história do Cristianismo. (...)» 
Podemos ver nesta parte mais duas explicações importantes: Cristo usando uma ironia dolorosa em crítica amarga à história do  Cristianismo...
 Podemos ainda compreender melhor porque não utilizou ele a palavra Jesus, nem a de Deus, se enquadrarmos o soneto no ciclo que vai de 1864 a 1874, o mais revolucionário e activo mas também de grandes leituras filosóficas, lermos os sonetos contidos nesse período: nos que antecedem na ordenação este que estudamos, observamos que no 1º poema Ideia, no primeiro soneto,  testemunha-se que Deus não está visível aos homens; no segundo soneto desse poema, que Jesus já não consegue dirigir os homens, que a Lei agora é o Infinito; no terceiro, com grande aspiração, o poeta quer sacudir os velhos cultos (que lhe negam o pão e o vinho) e lançar uma nova ponte,  pois luz, vida e carinho estão em toda a parte; o quarto soneto, é um apelo às almas heróicas, estóicas, altivas, que sem celestes guias, conseguirão com as suas ideias chegar à imensidade eterna e viva. No quinto soneto interroga quem é essa Ideia que ninguém consegue ver nem captar mas que para toda a alma que aspira triste e chorosamente  é a única amante. No sexto soneto persiste nessa busca infatigável de união, agora já bem próxima, com a Ideia pura. No sétimo soneto consegue chegar à união com a Ideia e vogar graças aos ideais ardentes e, no seio da eterna claridade, abraçar a Verdade. No oitavo e último soneto revela que esse céu da Ideia, sumo bem, Verbo e essência só se revela no céu interior da Consciência. Estamos pois num conjunto de oito sonetos que terminam numa apoteose interior, mística. 

O soneto e poema segundo deste ciclo de 1864-1874, intitulado A Um Crucifixo, consagra Cristo de sangue generoso como um plebeu e avô dos lutadores e homens novos de hoje. No terceiro, Diálogo assinala a luta entre a Cruz, a Luz, o Espírito, e tudo que se agita no mundo e no homem mas que é a Natureza. No quarto, intitulado Mais Luz, um dos sonetos mais solares afirma a sua adesão e vivência sobretudo do dia com a sua luz solar e da força optimista que daí resulta. E no quinto, Tese e Antítese, composto dos sonetos I e II, expõe, confessa e revela no primeiro  o dilema que o revolve e intensifica, entre a crença ou fé no pensamento luminoso e não passional que é luz e não fogo e que vive num cristalino céu imutável, enquanto no segundo, na Antítese, admitindo esse nível superior e cristalino de um Deus que observa o mundo realça porém que na terra o que temos é que lutar, batalhar com paixão, vencer, para que a Ideia viva. 
O soneto que antecede as Palavras dum Certo Morto intitulado Justitia Mater, assinala como ainda que haja algo de divino e superior no cosmos e na natureza, na cidade a missão é a luta pelos ideais de justiça.
Já no soneto seguinte às Palavras dum Certo Morto, intitulado A um Poeta, e tendo como subtítulo e epígrafe a ordem curadora do mestre Jesus «Surge et ambula», «ergue-te e caminha», reafirma a missão de luta actual e parece dirigir-se em especial a ele poeta, para deixar a contemplação serena longe do fragor e erguer-se como soldado do futuro aramado dos seus sonhos. 
O soneto final deste ciclo 1864-1874, Hino à Razão, é uma valorização da luta revolucionária dos idealistas de então que seguem a razão, a ideia, e pelos quais as mães  sofrem mas não se abatem. Estaria Antero a dirigir-se a sua mãe que casara com um lutador da Liberdade nas guerras liberais  e via agora o seu filho bem idealista e revolucionário?
Neste contexto de todos os sonetos do período 64-74, o soneto Palavras dum Certo Morto parece até dos menos fortes, dos com menos entusiasmo de luta e de confiança no futuro, mas é no seu interior, discretamente, um forte ataque ao endeusamento de um ser humano e à pessoalização do que deveria ser o culto da vida espiritual, impessoal, acima dos egoísmos e logo justa e fraterna.
Sabemos como esta busca de um estado não egoísta e impessoal será primacial na demanda de Antero, e  embora não a explicite assim tanto neste soneto, doze dias depois numa carta magistral a Jaime de Magalhães Lima, cumprimentando-o por se ir casar e criticando a palavra  "resignação" por ele empregada, que vem mesmo em nosso auxílio para compreendermos que nível era esse de vida e princípio impessoal:
                                         
 Oiçamo-lo, escrevendo do Cartaxo a 28 de Maio de 1889:
« (...) dir-lhe-ei que só é verdadeiramente livre aquele que sabe limitar voluntariamente a própria liberdade. A liberdade é um ideal, que, como todos os ideais, precisa de ser corrigido pela realidade e o sentimento moral, que só na realidade tem a pedra-de-toque. Os ideais da nossa mocidade, absolutos e no fundo muito egoístas, são fantásticos, e é por isso que nos atormentam tanto. E quando cerceamos, em proveito dos outros, uma parte dessas desmedidas ambições, reconhecemos então com pasmo que essa amputação, em vez de nos diminuir, nos engrandeceu. Parece-me dever concluir daqui que a nossa verdadeira grandeza é toda interior e subjectiva: o que somos e fazemos importa relativamente pouco: a relação da nossa vontade consigo mesma é que é essencial. Chegados a um certo estado de espírito, não de cepticismo ou de abatimento, mas de verdadeira compreensão da nossa natureza e do nosso fim (regnum meum non est hoc mundo) aquelas imensas ambições da mocidade fazem-nos sorrir. Não compreendo pois porque emprega duas vezes a palavra resignação; quisera que a riscasse do vocabulário dos seus sentimentos. A transição do egoísmo idealista e da falsa liberdade, para a realidade moral e a verdadeira liberdade é um progresso e até em meu conceito, o máximo progresso: não pode ser pois matéria de resignação; antes, de exultação. Mas talvez lhe esteja aqui fazendo uma chicana de palavras, por causa de uma que provavelmente empregou num sentido diverso daquele em que eu a tomei. Por isso não insisto. Entrou, meu caro amigo, num caminho que todos os dias irá sentindo o chão mais firme debaixo dos pés, mais lúcido o pensamento, mais serena a consciência. Vivendo cada vez mais para os outros, sentindo morrer em cada dia dentro de si mais uma parcela do eu egoísta que tanto nos ilude, tanto nos faz sofrer e errar, irá entrando gradualmente naquela região da impersonalidade que é a verdadeira beatitude (...)».
Em algumas cartas posteriores, editadas e muito bem anotadas por Ana Maria Almeida Martins, in Cartas, 2009, agora já em três volumes, poderemos ainda encontrar mais esclarecimentos a esta metafísica algo obscura na qual Antero tentava se adentrar luminosamente, nomeadamente numa a António Molarinho.
                    
A carta a António Molarinho, 26-VIII-1889, que já trabalhei num artigo neste blogue, poderá dar-nos o canto do cisne para este texto e demanda, já que Antero de Quental considerando que a poesia estava a definhar na sua função e necessidade e que se acreditava ou previa que seria a ciência e a democracia que terminariam com os sofrimentos da humanidade (e bem vemos nos nossos dias de 2018 como tal optimismo tem ruído face a tanta opressão e manipulação, violência e sofrimento), dá os seguintes conselhos (sublinhados nossos) ao jovem poeta (29 anos), que se estava a iniciar em tal via de ideais e aspirações, mas já então ameaçada:
«Desapareçamos pois de bom grado. Não se aflija. No fundo do verdadeiro poeta há sempre um crente. Apele para as energias superiores da sua alma, pense que a arte, por bela e sedutora que seja, não é ainda assim mais do que um reflexo, um símbolo do ideal supremo da vida moral, e que esse ideal, subsistente por si, não precisa de formas, caducas afinal ainda as mais esplêndidas, para se afirmar, pois o que é tira-o de si, da sua substância inesgotável, espiritual, infinita.»
E depois desta afirmação da existência de um mundo espiritual, moral, substancial, que existe por si e de nada depende, no fundo apelando a que entremos mais nesta comunhão com o mundo espiritual, e que embora ele não afirme, tem nos mestres, anjos e na Divindade, seres e entidades que nos podem inspirar, fortificar, Antero prossegue assim:
«Depois a vida, a nossa vida individual e humana, é tão pouca coisa! Se não pode passar cantando, passa-se de outro modo. E às vezes vale mais isso. Creia que a virtude pode mais e é mais que a arte. E dura mais também: dura eternamente. As obras do bem, ligadas indissoluvelmente à substância do Universo, absorvidas, desde o momento da sua produção, para nunca mais saírem dele, vinculadas, pela cadeia duma casualidade superior, a todas as suas evoluções através dos tempos, dos espaços, dos mundos, vão aumentar o tesouro da energia espiritual das coisas, fecundá-las nos seus mais íntimos recessos e, sempre presentes, sempre activas, eternizam, nessa sua perene influência, a alma donde uma vez saíram. O Universo só dura pelo bem que nele se produz. Esse bem é às vezes poesia e arte. Outras vezes é outra coisa. Mas no fundo é sempre o bem e tanto basta.»
                                           Pintura de Bô Yin Râ
Uma carta já do fim da sua vida terrena e na qual Antero Quental já vai bem mais longe na compreensão e consciencialização da Vida e dos seus níveis elevados, ora pensada e vista como Princípio impessoal e espiritual ora já caracterizando-a e sentindo-a num nível de panpsiquismo, muito próximo do actual conceito de Campo Unificado de energia Consciência e sentindo-o como Bem, embora se note a ausência da consciência ou reconhecimento ou que seja fé na existência de um espírito individual eterno, imortal em cada ser, ficando-se só no impessoal, algo influenciado por Hegel, Edward von Hartman e o Budismo a que tivera acesso...
Prossigamos então nós no século XXI na esteira de Antero de Quental no Talento de Bem Ser e de Bem Fazer, fraterna e ascensionalmente e na afirmação e desvendação do Espírito individual e do Sol Divino Primordial..
E eis o vídeo do improviso, que terminou por falta de espaço quando ia ler uma apreciação de António Sérgio ao soneto Palavras dum certo Morto e que ficará para outra vez...
Saibamos nós comunicar com os aparentemente mortos, os vivos e os vindouros na Palavra da demanda e comunhão do Bem, da Justiça, da Verdade, do Amor, do Espírito e da Divindade.
                 

domingo, 11 de novembro de 2018

Da iconografia e da iconologia de Santo António. Contributo espiritual e até ecológico.

                                      
                        Maestro di S. Francesco. séc. XIII. Pinacoteca de Vannucci, Perugia
A icononografia (representação por imagens) tradicional de S. António,  iniciada pouco depois da sua morte, já que em 1232, apenas um ano depois de morrer com 39 anos de idade, já estava canonizado pelo papa Gregório IX (que o conhecera bem), manifesta claramente quanto ele se tornara conhecido e amado em Itália, França e Portugal, e baseia-se nas memórias e nos primeiros escritos ora biográficos ora hagiográficos.
 O primeiro retrato que surge ou que temos é ainda no séc XIII, o do dito "Maestro di S. Francesco" ou de Margaritone d'Arezzo. Seguindo-se, no séc. XIV, o da escola de Giotto e que se encontra na basílica de Pádua, a seguir fotografado sobre um pano verde oriental. Mas não se pode dizer que eram a "verdadeira efígie" dele, mas antes aproximações...







Também no séc. XIV,  em frescos de Giotto e da sua escola, e de outros, vemo-lo  como  um franciscano santo, um companheiro e amigo de S. Francisco de Assis, em geral no gesto de ensinar ou abençoar, no caso do fresco de Giotto vendo clarividentemente o seu mestre S. Francisco de Assis súbita e miraculosamente surgir  abençoadoramente numa das suas aulas do curso de Teologia no convento franciscano de Bolonha, para as quais fora nomeado por ele e pelo Papa graças aos seus dotes e à sua boa formação de base nos Cónegos Regrantes de S. Agostinho, em Coimbra, onde estudara  de 1212 a 1221, só depois passando a Franciscano.
 O século XV, com o aparecimento da tipografia e das xilogravuras, e com o aperfeiçoamento da pintura e do retrato vai ser altamente potencializador de imagens de S. António começando a  surgir tipicamente com o livro e com a mão a abençoar, e só mais tarde com o menino divino numa mão e na outra um livro, lírio ou açucena ou cruz.
Simultaneamente é representado em cenas e milagres da sua vida (65 cenas ou prodígios, em geral, desde 1371, com a redacção por
Arnaldo de Serrano do Liber Miraculorum, entre nós traduzido e publicado como as Florinhas de Santo António de Lisboa.
                                                
Algumas das cenas serão muito trabalhadas, tais como o sermão aos peixes, o abençoar afastando o mal, a doação do pão (dos pobres), não sendo porém frequentes representações da clarividência algo profética e do desdobramento ou ubiquidade que teria vivenciado algumas vezes, tal como vemos nesta imagem:
                           
Há variantes ou pormenores valiosos na iconografia de S. António de Lisboa, de Pádua e da Terra que será instrutivo destacar e
contemplar, e já dentro ou no âmbito de uma iconologia, ou seja, numa tentativa de entrada no logos, ou alma e inteligência espiritual, da imagem-gravura-símbolo desafiante, inspiradora, impulsionadora....
Neste sentido diremos que as mais puras e valiosas representações serão aquelas na qual há apenas a chama do Amor no coração ou peito do místico e santo António (de nascimento, Fernando Martins de Bulhões), ou então já o Menino, assim se simbolizando  o Amor que nele ardia para o mestre Jesus para o Pai Divino, ou seja, o Amor à "criança divina" (o puer eternus) que está em todo o ser.
No fundo, mostra-se a existência nele, no seu coração ou íntimo da alma, da criança pura e divina que está em todo o ser e que é tanto um estado ou modulação consciencial de amor como uma forma de representar a presença Divina latente, o Deus vivo, no ser humano.
Na realidade,  S. António, depois da sua tentativa malograda de ser missionário em Marrocos, realizou, na Itália onde desembarcara em 1221 com outros monges franciscanos, uma forte via purgativa, ascética, purificadora, em especial nos nove meses (1221-122) em que esteve recolhido numa gruta eremitério no Monte Paulo, em Forli, e nessa fase mais ascética o vemos em algumas pinturas e gravuras, lembrando-nos que para se chegar aos tradicionais estados conscienciais iluminativos e unitivos é necessário passar pelos purgativos, purificadores... 
Gravura de livro italiano, reproduzido numa obra de Luís d'Oliveira Guimarães, 1931.
Revelando-se inesperada e forçadamente um notável orador, foi nomeador Pregador da Ordem e depois até director e Mestre de Teologia em Bolonha,  exercendo em simultâneo o studium, o diálogo, o ensino universitário (numa linha menos escolástica e mais espiritual),  a pregação (com sucessos extraordinários, e de 1224 a 1227 na Provença francesa, dos cátaros e albigenses), a oração e a aspiração, bem como o amor a Deus e à salvação da alma dos outros, intensificando assim a chama  ou Presença  Divina nele fortemente, a qual foi reconhecida e manifestada no seu coração e permitiu que não fosse representado tradicionalmente  apenas com a auréola da santidade mas também com o coração ardente ou cheio de Deus, como já antes acentuámos...
Iluminura em pergaminho do Livro de Horas de D. Manuel I. (MNAA). 
 Se considerarmos a divisão tradicional tripla das potências da alma - a vontade, o afecto e o intelecto -, é natural encontrarmos imagens em que tais níveis e capacidades anímicas estão claramente simbolizados,  para ressoarem internamente e estimularem nas almas devotas  o desenvolvimento de tais qualidades.  E assim encontramos o gesto de abençoar (da vontade), o ensinar ou pregar, a  leitura e o livro (do intelecto) e os diálogos e carícias (da afectividade). 
Também o S. António militar, ou protector do povo e exército português, em Portugal (sobretudo  na guerra Peninsular, de 1812-14, contra os invasores franceses, mas recebendo já um soldo desde o rei Filipe II) e no Brasil (contra os Holandeses), o pregador com o livro e a cruz e, finalmente, o Santo António casamenteiro são aplicações da mesma regra, ou outros exemplos dessa tripartição, em vontade, intelecto e coração.
De um modo geral podemos dizer que nas representações mais antigas predominou o S. António simples, isto é asceta, pobre, pregador da pobreza e amor a Deus, ou o crítico das injustiças e dos pecados dos religiosos e leigos e que tenta converter, transformar, comunicar a mensagem do mestre Jesus e sendo por isso representado com um livro.  Só depois surge o S. António místico e prodigioso,  já com o divino Mestre ou menino, ou o espírito santificado, dentro de si brilhando.
Depois, materializando-se ou tornando-se mais visível ou expresso tal nível, vivência e realização espiritual e divina, sucederam-se as  representações de receber o Menino Jesus que descia das nuvens, em geral acompanhado de Anjos, o que se pode interpretar não só literalmente mas também  simbolicamente como  a subtileza, a espiritualidade, a graça de tal dom ou capacidade de ligação aos mundos espirituais.  
Ou ainda, se quisermos interpretar ainda mais anagogicamente, ou seja, mais ascensional ou espiritualmente,  diremos que temos de esforçar-nos por conseguir e merecer um bom grau de oração e ardência mística interior, unificadora das nossas ondas mentais e propiciadora da contemplação e visão interior, para podermos ver ou sentir a Divindade, seja por que forma Ela se queira manifestar tal graça.
Foi representado também com frequência com o Menino sobre o livro religioso, que o santo segura, de acordo com a narração do milagre ou prodígio, seja a meio seja já no fim da sua vida, em Campo Sam Piero, em que teria sido visto em oração e comunhão dialogante com o Menino, tornando-se esta a representação mais comum.
 Mas por fim foi suplantada (a contagem comparativa entre as duas imagens, sobre o livro ou nos seus braços, será naturalmente impossível de se comprovar tantas são as imagens constantemente a serem geradas...)  por aquelas em que o Santo tem mesmo o Menino-Amor (que tem algo de Cupido ou Eros, da tradição grega) nos seus braços, imagem bem mais natural e assimilável.
Estas últimas representações, e que se desenvolverão mais no período  Barroco, permitem um enternecimento bastante grande, pois tanto a criança apela ou brinca com o santo, tanto S. António se debruça, se suaviza e fragiliza no contacto terno com ele. 

Foi certamente ao longo dos séculos um arquétipo (tipo primordial) para muitos pais quando seguravam os filhos nos braços e alma e se deixavam envolver pela aura da pureza e inocência infantil que tanto as crianças como tais imagens do Menino e  S. António sugerem, irradiam, partilham...
Que esta ideia de imagem arquetípica e mesmo susceptível de visão interior ou espiritual estava presente em alguns artistas  podemos nós intuir ou deduzir ainda pelo facto de frequentemente Santo António, além da sua aura ou manifestação do corpo espiritual, ter como fundo um céu de nuvens aberto, donde ele se destaca, recriando-se assim a visão do santo, ou de algo luminoso, no olho espiritual  do devoto e emergindo de entre as nuvens, ou seja, por entre ou sob a forma de ondulações de energias subtis...
Este aspecto não deve ser descurado pois em geral um santo taumaturgo é invocado pela oração sendo a resposta interior, seja pela paz e acalmia que se recebe, seja até pela visão do que se procura, ou mesmo do próprio santo,  seus atributos  ou até das suas partes corporais preservadas, estas com o tempo se erguendo a um certo culto ou veneração que se transmitia ao que nelas era tocado e depois, por exemplo, em santinhos, inserido.
Atributo companheiro de muitas das representações está a açucena ou lírio branco, símbolo do desprendimento, simplicidade e pureza e que todo o ser que procura uma melhor relação com Deus deve cultivar em si.
Aliás o próprio António dos Bulhões num dos seus sermões (Dom. Post Trinit. N) interpretou-os assim: «Os lírios figuram pelo seu alvor, a pureza da alma e do corpo... Representam a pureza e santidade de todo o ser justo...»
De realçar que em algumas representações Nossa Senhora aparece
ao alto das gravuras, donde parte ou vem o menino, como se ela permitisse a S. António usufruir do privilégio que foi o seu de se deliciar com a criança que fora Jesus, ou até com a imanência do espírito divino. Há certamente analogias com a Anunciação do Anjo a Maria, com uma descida divina à Terra.
Uma das mais conhecidas é a de Francisco Vieira Lusitano (1699-1783), e da qual reproduzimos o belo espécimen aguarelado da Biblioteca Nacional, mostrando, num céu aberto por entre nuvens e Anjos e cupidos, Nossa Senhora a entregar o menino Jesus a S. António, o qual tem nas mãos um pano para o acolher. Este pano acolhedor e transitivo da alma  é  um dos ícones  subtis das graças antonianas místicas que podemos também sentir-ver...
                            
Podemos dizer que, às iluminuras historiadas de manuscritos e de Livros de Horas, e às pinturas  em frescos, telas, painéis ou retábulos e azulejos, na posse de reis, nobres, conventos ou igrejas, com o começo da tipografia, sucedeu uma ampla divulgação e acessibilidade da memória, invocação e culto do santo através das milhares de xilogravuras e gravuras que foram sendo geradas em tipografias e lojas e que para livros, ou vendidas em lojinhas e sacristias, circulavam depois por toda a parte  graças a devotos, almocreves e ceguinhos, algumas sendo exportadas até aos confins do mundo.
Xilogravura portuguesa, anterior a 1541, existente na Torre do Tombo. O Menino com uma cruz em forma de Tau, o Santo com uma tripla floração pura na mão.
Destacavam-se então algumas esculturas,  pinturas, ou simplesmente gravuras, veneradas em certas igrejas e capelas, onde as pessoas peregrinavam, rezavam e podiam adquirir uma imagem impressa portátil do santo, protectora ou abençoadora...
Lisboa, tal como outras cidades, tinha vários locais de culto e de gestação e impressão de estampas, desde a casa onde nascera junto à Sé (sobre a qual se edificara uma igreja, reedificada depois do terramoto de 1755 pelo arquitecto Mateus Vicente, a qual vendia o seu "verdadeiro retrato", em baixo reproduzido, sendo ainda hoje o grande local do culto, a par da basílica de Pádua, e donde parte a grande procissão a 13 de Junho), às imagens que se veneravam no Convento de Jesus, no Convento de Belém, na Igreja de Nossa Senhora dos Mártires, etc. 

Fora da capital, destacavam-se a Sé de Coimbra e a Sé Catedral do Porto, onde o S. António como menino de Coro (que teria sido na Sé de Lisboa) era venerado.  No Brasil foi e é vasto o culto popular de S. António, e bem necessita, nestes tempos depois das eleições de 2018, da sua inspiração...
As capelas, igrejas e conventos, e os hospícios e hospitais dos Franciscanos e da Ordem Terceira eram também centros difusores do culto de Santo António, que tinha em Lisboa no mês de Junho os seus momentos mais intensos e entusiasmantes, em especial na noite de véspera (infelizmente nos nossos dias demasiado reduzida à sardinhada convivial e a um ou outro bailarico e às marchas), com as trezenas que a antecediam,  as missas e prédicas, as procissões e arraiais, os tronos e bailaricos, as fogueiras de alecrim e rosmaninho, as sortes casamenteiras e os descantes poéticos. 
 Nasceram e se forneceram assim a milhares e milhares de pessoas gravuras que tanto podiam inspirar desenhadores e pintores como podiam ser envolvidos mais ou menos artisticamente nos famosos "registos" emoldurados, e assim intensificar a devoção não só ao santo, mas à Divindade, ao Pai, ao Espírito Santo, a Jesus, a Maria, aos Anjos e ainda ao Amor, à Ordem e Providência que tanto faziam encontrar as coisas perdidas como achar ou atrair a mulher ou marido, pois como já o ditado popular rezava: "O casamento e a mortalha no céu se talha".
 Também em mapas cartográficos, cartas de marear os profundos, volúveis e difíceis oceanos e suas costas, exteriores e interiores, encontramos a invocação confiante e abençoante em S. António. 
Carta náutica de João Teixeira Albernaz I. [1620-1640].  Torre do Tombo.
Nos ex-votos de reconhecimento por graças de S. António (o 1º  em Tomar, o 2º no Museu da Cidade em Lisboa) encontramos outra das fontes da iconologia do santo, plenos de sentimentos,  quase quantificáveis por vezes na piedade e gratidão que emanam da composição e legenda, outrora em geral oferecidos e conservados nas sacristias, hoje em geral mais em museus e colecções.
E, finalmente, entre as fontes iconográficas, há ainda a mencionar tanto as esculturas em barro, tão populares, como  os desenhos em pratos de cerâmica, como ainda as medalhas e escapulários a levar ao peito e os santinhos e pagelas que se podiam levar no bolso, carteira ou missais e que tiveram e ainda têm milhares de representações e gestações, com grande procura, em especial nos locais ligados a S. António.
S. António, numa colecção de olaria de devotos tomarenses.
 No domínio da Palavra ou Verbo, bem valiosas são as quadras, poemas jaculatórias, orações, litanias, hinos, sinfonias e responsos criados ao longo dos séculos  para fortalecer a ligação com S. António e através dele com as qualidades divinas de Confiança, Fé, Esperança, Paz, Amor, Luz, ou ainda com Jesus e com Deus.  Ou, algo mais pragmaticamente, para ele arranjar um casamento ou inspirar o descobrimentos de objectos perdidos. Um dia desenvolveremos e aprofundaremos mais o contributo dos poetas, dos mais populares e anónimos ao Fernando [António Nogueira] Pessoa, nascido no seu dia e de algum modo seu devoto, pois conservava um santinho na sua carteira...
Um desses responsos centenários que nos chegou, e do qual há outra versões, recolhido por Arnaldo de Mariz Roseira de uma velhinha minhota, explica a razão da sua efectiva presença intercessora entre nós, é maravilhoso de crenças, ritmos e sugestões quase milenárias e  até universais, por exemplo, na analogia com o Bodhisattva da tradição Budista: «Santo António se alevantou, // Suas santas mãos lavou,// Na sua varinha pegou.// E o Senhor lhe perguntou:// - E tu, António onde vais?// Ó Senhor, eu ao Céu vou.// - Tu comigo não virás;// Tu na Terra ficarás;// Quantas coisas se perderem,// Quantas tu encontrarás."// .
No fim acrescenta-se a fórmula de petição, que varia apenas na parte final da explicitação da graça desejada: «Milagroso Santo António, fazei com que eu encontre (...) , [por exemplo] a minha alma gémea», no caso de aspirarmos a tal nível elevado de união...
E se muitos dos responsos são  longos, já algumas jaculatórias bem pequenas e incisivas, parecidas até com as endereçadas ao Anjo da Guarda, merecem ser relembradas e pronunciadas:
"António Santo, de Jesus Amado,
Valha-me sempre vosso amparo."
Ou: 
"António Santo, de Jesus amante,
No vosso amor me fazei constante."
E:
"Santo António, meu inspirador,
Fortalece-me no Divino Amor!»

Certamente que as mais eficazes terão sido e serão as espontâneas provindas do coração, ardente em aspiração, aflição ou contrição, em esperança ou em amor, e essas não as poderemos aqui registar, cada um de nós devendo-as emanar da sua alma e escrever nas entrelinhas dela e de eventuais diários...
Podemos, contudo, assinalar outras bem simples e eficazes no objectivo principal que é o de se controlar a agitação da mente e estabelecer uma afinidade e ligação vibratória com Espírito, com o Santo   e com o Divino, e que se podem repetir durante minutos, tais como os mantras orientais são empregados:
«Santo António,/ eu te saúdo, eu te invoco.»
«Santo/ António,/ Santo/ António,/  Santo/ António,»
Dos objectos que se tornaram icónicos, realcemos as relíquias suas e os objectos ou tecidos que tocaram essas relíquias  e que de algum modo se embeberam, diante da fé do devoto, de uma capacidade de bênção espiritual.
 Através da ajuda destes diversos meios, ou mais asceticamente sem nada de suporte, quem ora e medita em, ou com, S. António de olhos fechados com o seu espírito de contrição (de frade franciscano e bastante asceta) ou de aspiração amorosa, mística ou de amor à Divindade, certamente será abençoado com alguma graça interior...
Artisticamente, sendo o santo português, deveremos mencionar alguns dos seus compatriotas que se esmeraram na tentativa de imortalizarem visivelmente alguns aspectos dele ou da sua vida e entre os notáveis pintores e desenhadores lembraremos apenas (e pedimos desculpas aos outros, embora num próximo texto os possamos trabalhar) e exemplificaremos agora com um: Gregório Lopes, nomeadamente com o seu S. António a pregar não só aos peixes mas também aos animais (havendo ainda episódios com um burro e rãs), neste aspecto na linha não violenta e de amor fraterno aos animais, bem demonstrada pelo seu mestre S. Francisco, tão actual nos dias de hoje, com um partido político português em parte consagrado até a eles e à não sub-animalização do ser humano, o PAN...
Para além das milhares de obras valiosas de escultores, pintores e desenhadores expostas em museus, igrejas  e capelas existem muitas outras conhecidas apenas de algumas pessoas, que as veneram ou amam ou não. Saibamos nós ter algumas, nem que seja de uma gravura, santinho ou reprodução, ou então simplesmente de cor, ou seja no coração. 
Pintura bem original e actual de Maria de Fátima Silva.
Podemos assim, com o auxilio das imagens, tanto dialogarmos e invocarmos S. António, como cultivarmos a imanência divina mais desenvolvida pelos amigos e amigas de Deus, os santos e santas e mestres, seres  já mais identificados ao espírito e ligados à Divindade e por isso fontes de forças e inspirações, para nós vivermos mais ecológica, sábia e amorosamente e ajudarmos a Humanidade e o Planeta a sobreviverem ao neo-liberalismo capitalista e imperialista, inepto e irresponsável, que têm aos poucos destruídos tantos países, povos, eco-sistemas e condições climatéricas...
Como protector individual, de Lisboa ou nacional, lembremos a
quadrinha alentejana, recolhida pelo sábio Tomás Pires e transcrita pelo musical Alfredo Pinto (Sacavém), para momentos mais difíceis: 
                     «Santo António de Lisboa
                        Espelho de Portugal,
                        Ajudai-me a vencer
                          Esta batalha real»
 Demos então graças  S. António e à sua protecção e inspiração nos  Caminhos rumo à, ou na companhia da, Divindade imanente, do Amor e do Bem...
Nesta gravura de Francisco Vieira Lusitano, vemos S. António, eventual inspirador e protector dos ecologistas, dos viajantes, dos animais e das árvores, sobretudo nativas, no caso protegendo um pinheiro manso de ser abatido por forças destrutivas ou diabólicas, como tantas hoje há ligadas a grupos de pressão e de ideologias egoístas e negativas violentos... 
Mas para quem achar que este atribuição de protector das árvores é invenção nossa, dada a ferocidade com que Câmaras e juntas de freguesia tratam ou abatem as árvores, relembro como ele acabou os seus últimos dias numa cela-eremitério construída para ele numa árvore no Monte Paulo e foi  representado sentado dentro da copa dessa nogueira, bem frondosa e doadora de frutos tão bons para a harmonia cerebral e anímica, qual eixo entre o céu e a terra, como todos devemos ser, ensinando, irradiando: 

                                                                PAX - LUX - AMOR

domingo, 4 de novembro de 2018

Livros estúpidos e maus, ditos sucessos de vendas. "Heidegger e um Hipopótamo chegam às portas do Paraíso"

Há livros que são tão pretensiosos, no título, na introdução, na propaganda, que se tornam demasiado estúpidos e maus ao fim de algumas páginas de leitura obrigando-nos a um esforço para os continuar a ler.
Lida a introdução, por vezes de uma superficialidade assustadora, ainda que referindo alguns nomes e movimentos mas só testemunhando uma banalização do que deveria ser tratado com seriedade e importância, entramos com vontade de conseguirmos rapidamente dar por terminada a leitura, abreviando-a, até com receio que a obra afinal melhore e tenhamos que ler muitos capítulos para não sermos injustos, se queremos fazer um crítica ou juízo de valor com qualidade.
Vejamos então alguns desses livro maus, péssimos mesmo, e em primeiro lugar o que provocou este texto:


Thomas Cathcart e Daniel Klein são os autores do horrendo livro, mas com uma capa muito surrealista e atraente, com anjinhos e nuvens, intitulado "Heidegger e um Hipopótamo chegam às portas do Paraíso" e que pretende ser uma aproximação e investigação ao mistério da morte, e também ao da vida ou não depois da morte... 
Leva a chancela de uma editora aparentemente ainda com algum prestígio, D. Quixote-Leya,  mas a obra  revela-se fumo sem fogo, pois  é um aglomerado de piadas de mau gosto, literalmente más, torcidas, negativas, e informações dos mais diversos níveis de seres (de filósofos a espertos), em geral contraditórias, o que facilita o fazer-se piada com um assunto que mereceria ser mais bem tratado para poder despertar a sensibilidade anímica para se vivenciar ou intuir algo dos níveis espirituais, algo que estes autores desconhecem ou estão mesmo contra.. 
A capa e títulos originais, algo diferentes na tradução portuguesa
  Na realidade a informação fornecida acerca do subtítulo "Através da Filosofia (e de piadas) explica-se a vida, a morte, a vida depois da morte e todos os entretantos"  consta apenas de pequenos resumos de alguns autores, seres e obras escolhidas algo tendenciosamente talvez para se destruir a possibilidade de se fazer uma aproximação profunda e verdadeira ao mistério da morte e imortalidade e da vida depois da morte. 
São daqueles livros feitos para lançar a confusão na cabeça das pessoas fazendo-as perder a noção de verdade e dos caminhos  para ela.
O pretensiosismo da publicidade de sucesso de vendas para tolos, e não de sucesso na investigação,  apresenta-se bem na contracapa, com sublinhados meus: «Dos autores do sucesso de vendas Platão e Um Ornitorrinco entram num bar" chega-nos uma nova aventura filosófica, desta vez uma viagem às Portas do Paraíso, apenas para se saber o que os grandes filósofos, teólogos, psicoterapeutas e tipos espertos têm a dizer sobre a vida, a morte e a vida para além da morte.
Um filme com Freud! Groucho Marx, Socrates! Woody Allen! Kierkegaard! Lily Tomlin! Buda! Cartonistas do New Yorker! Zombies! E, claro, Heidegger!»
Perguntemos, os tipos espertos são os autores, e os zombies  serão as pessoas que lerem esta obra e que se tornarão tal pela confusão  em que ficarão face a tanta piada estúpida e apenas mostrando as piores características das pessoas, e a tanta manipulação da vida e obra de grandes autores, reduzidas a umas linhas tendenciosas, caricaturais frequentemente?
Quais foram os objectivos principais que levaram os autores a escrever este livro, além de quererem ser apregoados como um sucesso de vendas?
Creio que lançar a confusão nas pessoas sobre a existência distinta  do corpo, alma e espírito no ser humano bem como da imortalidade do espírito e da existência de uma vida depois da morte, misturando as mais diferentes visões, contradizendo-as constantemente e enchendo a cabeça dos leitores de lixo anedótico de mau gosto e citações truncadas e  constantemente manipuladas e contraditas, nem que seja pelo autor ou citação seguinte, certamente por vezes desmistificando algumas crenças e auto-sugestões reinantes seja nas religiões seja nos autores e movimentos actuais de nova era, nomeadamente utilizando um diálogo ao estilo das famigeradas pseudo-Conversas com Deus de Neale Donald Walsch.
Em suma, não perca o seu tempo nem o seu dinheiro com este livro e não se esqueça que o saber ocupa lugar, mesmo e sobretudo quando é um saber errado, distorcedor e que o afasta da sabedoria. Neste sentido corre a citação do mestre principal dos autores e que é Woody Allen: «não estou nada interessado em obter a imortalidade através do meu trabalho. Prefiro simplesmente não morrer».  
Ora no caso do tema da obra, a busca de uma consciência maior de quem somos e do que pode ser a nossa vida depois da morte, nos mundos subtis e espirituais, certamente que tal exige uma aprendizagem, uma prática, a arte de bem viver e bem morrer, a qual implica ou se consubstancia num despertar consciencial do espírito e da visão espiritual, já em vida terrena...
Este artigo ainda será acrescentado um pouco, pelo que recomendo que o leia passados uns dias. 22:00 do dia 4-XI-2018

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O jardim e busto Antero de Quental em Ponta Delgada, e os sonetos "Solemnia Verba" e "Contemplação".

 O jardim de Antero de Quental, aprazível recanto da Natureza dentro de uma cidade, Ponta Delgada, Açores, tem na realidade árvores de grande porte, relvado, arbustos e sebes, água reflectindo o céu num lago, veredas e bancos, sombra e luz, criando assim um ambiente propício à paz, ao estudo e diálogo e à inspiração.  
Este discreto e simples jardim, antes denominado de Gaspar Frutuoso (o primeiro historiador açoriano, com as Saudades da Terra, nela de 1522-1591) mas desde 18 de Abril de 1942, com a inauguração do busto, consagrado a Antero de Quental (1842-1891), relembra-o, acolhe-o e, quem o avista de longe e por ele se interna não deixa de admirar-se com a simplicidade e a paz reinantes, quem sabe sob algum sortilégio anteriano.  E assim foi como ele nos surgiu ao longe numa súbita aparição e que fez deter a nossa marcha rápida no findar de uma jornada agro-florestal de seis dias aos Açores, com o Alfredo Cunhal Sendim e o Joaquim Malik.
 A superfície plácida das águas, a leve brisa que gera um murmúrio de ondulação, uma jovem estudante sentada na escadaria,  duas mulheres ou ninfas-musas ladeando o imortal pensador e poeta, eis um bom ambiente  oferecido a Antero de Quental   que nesta cidade nasceu em 1842 e nela dramaticamente fechou o seu anel de graça terrena em 1891, desiludido com o enfraquecimento do seu corpo e mente, e com o ambiente que subitamente se condensara malignamente sobre o seu desidério de se instalar definitivamente nos Açores, com as suas protegidas e os seus pensamentos e voos.

 As duas figuras femininas alegóricas, idealizadas e esboçadas por Canto da Maia, mas só na década de 90 realizadas e acrescentadas, simbolizam a da direita o Conhecimento, a Filosofia, a Razão, e está apoiada em livros e tem sobre a mão direita a interrogadora Esfinge, uma figura que Antero bem dialogou. A da esquerda simboliza o Sentimento, a Afectividade, o Amor e parece ter um coração ardente na mão junto ao peito. 
Estão de certo modo próximas dos sonetos correspondentes pois no Solemnia Verba Antero alcança e reconhece que o Amor é o fim último da Vida e que para se chegar a ele todas as dificuldades e esforços valeram, e na Contemplação paira por entre ideias e espíritos e contempla a face das essências e sente (ou pressente) no sofrimento e luta da vida natural a aspiração à Luz e a um Fim supraterreno...
 
A tez de Antero surge irradiante de luz, o seu olhar é para o espaço infinito, ou talvez para nós, para o futuro, transmitindo-nos impulsos de coragem na luta pela Verdade e a Liberdade. A escultura do notável escultor  açoriano Ernesto Canto da Maia (1890-1981), bem sofrido na vida pela morte precoce do seu filho, mostra essa determinação de ir para além das dores e aparências, enquanto as mulheres alegóricas funcionam também como Deusas da Natureza e Musas, de certo modo oferecendo a Antero algo do Amor suave e da confiança psíquica dialogante, vivenciados com as jovens tão apaixonada e idealmente cantadas nas suas Primaveras Românticas e, mais tarde com a mulher divorciada que conhecera e pela qual se apaixonara  nas termas francesas de Bellevue. Como que numa compensação simbólica já que com a idade elas deram lugar mais à Fantasia, à Poesia, à Irmã Morte, ao Não Ser e Noite Primordial, ainda que as crianças adoptivas e algumas amizades lhe fossem afectos amorosos...

Há algo da Grécia sagrada neste recanto açoriano, pois Antero emerge como um Hermes, uma coluna entre o Céu (bem enriquecido pelas nuvens), e a Terra (fértil), no meio das ideias-forças de dois dos seus imortais sonetos, apoiado ou alimentado vibratoriamente por duas mulheres alegóricas, de algum modo lembrando não só as que mais amou em jovem, ou as duas filhas de Germano Meireles que adoptara e educara, mas também o amor que as almas aqui peregrinantes, ou aos seus livros vida e obra, lhe transmitem, mais ou menos inconscientemente. Ou mesmo, que cada poesia sua (e no monumento dois sonetos) foi-lhe e é uma psyche, uma anima, uma mulher...
 Apreciemos a magnífica expressão que o poderoso escultor Canto da Maia conseguiu infundir à terracota e pó da vida tornada depois bronze, insuflando-lhe esta força de determinação que irradia de Antero e se comunica a nós dos "olhos abertos", os físicos, e do olho espiritual, bem marcado pelos riscos verticais na raiz do nariz.
Canto da Maia terá composto a sua evocação mágica de Antero  sabedoo de antemão os sonetos que o rodeariam, mas fê-lo por si mesmo e com ele mesmo, lendo e respirando-o e assim a magia do génio perpassa e transmite-se-nos...



Eis os dois sonetos escolhidos, sem dúvida uma escolha grave tendo em conta a riqueza da totalidade deles. Certamente cada um de nós faria a sua escolha própria, embora estes, e sobretudo o Solemnia Verba seja certamente um dos mais profundos e desvendadores. E Antero, se tivesse ele voz audível entre nós, quais diria que queria afixados mais perenemente ao seu lado? Ou será que preferiria alguns extractos das suas cartas?
O Solemnia Verba (acerca do qual gravei um vídeo durante a escrita deste texto, publicado também hoje no blogue)  parece-me bem que sim...
São poemas poderosos, o da Contemplação algo trágico, pois nele Antero espelha a sua tristeza por sentir vácuo, sombra e dor nos mundos, e apenas  pressentir outro fim e outra luz nas coisas, talvez  graças a uma dupla circulação anímica: a da sua empatia e compaixão com o sofrimentos dos outros, e por outro a sua elevação e ligação às essências, ideias e espíritos que subtilmente; embora neste caso talvez algo apenas no pensamento e fantasia mas não na vera visão espiritual, intuindo....
Já o soneto Solemnia Verba, Palavras Solenes, é dos mais conseguidos, é dos que mais sintetiza a vida de Antero: pela dor, a luta, o estudo, a aspiração, a coragem conseguir avançar e chegar a um cimo da montanha da vida e ver a luz nascente.
Poderemos dizer que está optimamente para acompanhar a escultura tão bem conseguida de Canto da Maia.
O clarão que vemos na testa de Antero é o Amor que ele pressente ou vê intuitivamente,  é o Sol do Amor Primordial e Divino.

 Um súbito olhar para as Nuvens e Céus de Portugal, sobre o jardim de  Ponta Delgada, mostra-nos uma formação sugestiva, luminosa, que nos expande para os mundo subtis e espirituais onde Antero se encontra, quem sabe tendo algo a ver com a forma semi-transparente das nuvens que ecoa ou ressoa psico-morficamente com este nosso culto a ele e à Divindade...
 O determinado Antero, o discípulo de Herculano, que neste soneto o glosa de certo modo, inicia-nos neste falar com o coração, para que ele se olhe auto-conhecendo e ganhe forças para concluir quem é, ao  que aspira, como está o Amor nele, auto-conhecimento este que ele tão bem ensinou a vários dos seus amigos e particularmente a Fernando Leal, como algumas das cartas conservadas perpetuam: provoque essa voz da consciência, oiça-a no fundo seu coração, sinta a vontade do Bem que nos anima, siga-a... 
A Antero de Quental a nossa gratidão pela sua sofrida peregrinação.
A Antero, e ao caminho de Justiça e  Liberdade,  Verdade e  Amor a que ele aspirou e se dedicou, a nossa adesão e identificação...
A Antero de Quental, desta altura temporal e vibratória da evolução histórica da Humanidade, pesem todos os constrangimentos e violências a que assistimos,  neste dia 1-XI-2018, o nosso empenhamento de continuarmos a luta pela Luz e o Amor que como ele, pan-psíquico, vemos e sentimos nos cimos interiores da alma e do Universo e na essência íntima de cada ser, esforçando-nos por realizar e partilhar mais o Amor e Fonte Divina que subjaz, abençoa e une todas as coisas e seres...

Antero de Quental e o soneto "Solemnia Verba". Gravação comentada.



                       
                         

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Dos ensinamentos do Gerês perene....

 Chegámos a estas paragens vindos das mais diversas terras e situações mas víamos diante de nós  caminhos para os mistérios da plenificação do ser, sobre trilhos de pedras e areias na borda da orla líquida que reflecte os céus e as estrelas e as profundezas dos sonhos e das imagens interiores...
 Por entre as nuvens, ao longe, qual mundo distante, a visão das montanhas sagradas estimula os peregrinos ou peregrinas do Caminho, que é tanto exterior como interior, com seres visíveis e subtis e no qual ligamos a Terra e os Céus, a Humanidade e a Divindade...

  A natureza é um livro aberto, cheio de sinais, e  pedras e cristais, arbustos e árvores, flores e frutos, animais e aves, em si mesmos ou pelo que neles emerge e nos impressiona, desafiam-nos a despertarmos mais a atenção, o equilíbrio e a intuição e logo a intenção do bem, da verdade e da liberdade, e a comunhão, em gratidão...
 Desci a encosta areosa, que parecia ter séculos de sedimentações para chegar miraculosamente até ti e te abraçar, e nas águas purificadoras mergulhar, nadar, amar...
 
 Das montanhas vêm energias e raios de Luz e Amor divinos que nos abençoam e inspiram, e estabilizam a nossa mente e alma no ser espiritual, no presente e na aspiração flamejante ao Ser Divino...
 O vasto mas estreito vale agora coberto de água, outrora de campos trabalhados, e as montanhas e picos ao longe, falam-nos tanto do esforço e da luta como da criatividade e escrita perene que as almas devem gerar e ecoar luminosamente, amorosamente, perenemente...

 O silfo, deva ou espírito do ar e das nuvens que está presente sobre o vale, hoje tornado lago e remanso de ondulações, recebe as nossas orações e saudações e manifesta-se, inspirando-nos: - Por maiores que sejam as dificuldades e neblinas mantém o teu coração ardente e em comunhão com os seres afins e espirituais, e a Divindade, e avança firme e determinado no caminho do Bem, na vontade do Amor....