segunda-feira, 26 de junho de 2017

Da Comunhão do Livro e do Campo Unificado da Tradição Cultural e Espiritual

Os livros, ao serem manuseados e lidos, transmitem-nos certas vibrações e informações, gerando  ideias e  emoções, risos e lágrimas, orações e acções.  Todavia, para eles entrarem e permanecerem em nós precisam mesmo de ser bem lidos e até anotados e relidos, para que haja a osmose ou absorção suficiente. Quando sabemos de cor o seu conteúdo, ou algumas frases ou imagens, podermos dizer que tendo entrado em nós não saíram, ficaram e se forem postos em acção, se ecoarem em nós de quando em quando, então frutificam mesmo.
Um amante de livros ou da sua sabedoria, pode começar o dia escrevendo algum ensinamento dos sonhos ou lendo algum trecho de uma obra mais amada, e todas as noites antes de adormecer pode abrir um livro ou lembrar-se de  algum ensinamento, e sentir, aprofundar e até adormecer com tal ligação, bússola da verdade no na confluência dos oceanos oníricos...
Não há ainda máquinas que  fotografem ou filmem no nosso interior, seja cerebral seja anímico, o percurso e os efeitos de um livro ao longo dos sucessivos momentos da sua relação connosco: desde que o vimos numa estante ou banca e o pegamos pela mão e o desejamos ou quisemos e gostamos e trouxemos, lemos e meditámos, e sobre ele escrevemos, dialogamos ou sonhámos. E depois os efeitos que foram sendo gerados em nós, a sua durabilidade  e os actos, sentimentos e pensamentos que fizeram surgir e irradiar...
Ah, esses livros que são como um Sol dentro de nós, que em quase todas as páginas irradiam luz e amor, força e harmonia e nos fazem bem multidimensionalmente e plenificam são poucos e frequentemente estamos até dispersos e quase incapazes de saborearmos e assimilarmos tal desvendação e visitação graciosa.
Em verdade a grande maioria dos livros não consegue reunir tais requisitos e mesmo as Sagradas Escrituras das várias religiões têm muitas páginas de violência, de sombra, de exageros propensas criar mais barreiras e divisões entre os seres...
Por vezes num livro de cem páginas só há luz para se captar em duas ou três delas mais valiosas para nós, donde nascerá talvez um acto,  uma meditação, uma nova compreensão, impulsão e intuição anímica, ou então algumas linhas de escrita original, que nos satisfaz e coopera na demanda do Graal do Bem comum, filiada nesse livro e autor...
Ah, as filiações anímicas e espirituais dos livros e das pessoas que vão passando ao longo dos séculos, por vezes intensificadas pelas anotações, as assinaturas, as dedicatórias, e que podem causar, quando estamos a ler e a pensar num sentido ou direcção, nem sequer suspeitarmos das forças e seres que contribuíram para tal...
Neste ler, dar as mãos e avançar somos todos gigantes em relação ao passado, pois estamos sentados ou erguidos sobre os que nos antecederam e tantas são embarcações de escrita deixadas para a nossa navegação que a eles devemos dar muitas graças, com alguns mesmo cultivando uma fidelidade mais amorosa, dentro das tais afinidades electivas das quais nem sabemos bem as suas dimensões, cores e repercussões mas que nos levam, em comunhão maior ou menor com eles, a ler, a meditar, a escrever e a criar, saindo da sombra e do mistério para mais luz e verdade...
Na realidade, por detrás ou num certo interior do livro e dos pensamentos e sentimentos potencialmente nele contidos, e que nos podem levar a fazer as associações  que nos plenificam, está  o autor e mesmo os que o inspiraram, ainda que por vezes num livro anónimo nem sequer a identidade do autor nos seja conhecida e só no campo unificado das visões e dos sonhos poderemos intuí-la.
Esta continuidade de elos de escritores e escritoras é verdadeiramente uma traditio, uma passagem de testemunho e por isso se fala na Filosofia Perene e, por exemplo, na Tradição cultural e espiritual Portuguesa, que perpassa neste  aqui e agora, na língua e no ser dos que a cultivaram com mais profundidade, brilho e eficácia anímica e que nós comungamos, saudamos e invocamos.
No fundo, os livros são um desafio libertador a que, por entre as milhares de fontes de informação que a todo momento nos rodeiam, e das quais muitas são de desinformação e de ruído político ou desportivo, por entre as centenas de pensamentos e sentimentos que possamos ver gerarem-se em nós, saibamos tanto ler ou escrever o que é o luminoso e certo como sobretudo despertar mais o nosso próprio Ser, que jaz por vezes semi-abafado ou semi-soterrado  sob as alienações, desilusões e ferimentos, perdendo assim a nossa personalidade a sua inata capacidade de se expandir e de comungar com o ser luminoso dos outros autores, leitores e ideias-forças ou psicomorfismos...
Quando a consciência do corpo subtil, místico ou universal de uma obra, autor, linha de investigação ou ideia circula sentidamente em quem está a ler, a pensar, a escrever e isso o faz aprofundar e axializar ou verticalizar o seu meditar, sentir e ser, então o milagre da Unidade é mais realizado, e as intuições, sincronias e clarificações acontecem, e podemos dar graças e irradiar mais amor...
Como os livros (e hoje em dia também os écrans dos computadores) são veículos tão especiais e meigos da transmissão do pensamento e da alma, permitindo-nos a comunhão com outros seres ou espíritos, devemos então volta e meia parar e sondar que pessoas nos vêm ao pensamento, incarnados ou desincorporados, e portanto quem possa estar também de certo modo subtil a ler connosco ou a receber um eco do que vamos gerando e iluminando, ou até inspirando-nos...
Um caso muitíssimo mais raro da relação entre um livro, ou  um escritor, e quem o lê resulta do facto dos campos de força que se estabelecerem serem tão afins ou ressoantes que  o ser que escreve está a dialogar intimamente com alguns dos seus amigos leitores ou leitoras, seja no momento original seja sempre que tal for lido.
Assim o que eu posso intuir ou mesmo referenciar invisível ou metaforicamente enquanto escrevo  só uma alma muito próxima e intuitiva é que conseguirá discernir:  quando ele escreveu estas duas linhas anteriores pensou em mim, ou quis transmitir-me isto. E tal está escrito como invocação ou co-criação nas entrelinhas subtis que ninguém quase consegue ler. Assim, em certos casos dir-se-á que  essa pessoa é também autora do livro, ou que foi musa e destinatária, respirando o mesmo sopro criativo.
Ah os milagres da unidade, os segredos da escrita criativa e unitiva, espiritual, clarificadora, amorosa, iluminadora e libertadora, gerando frequênciaa vibratórias subtis que atraem as correntes e as bênçãos dos seres celestiais e subtis, dos humanos e  animais, que ressoam com tais energias conscienciais e logo connosco...
Nas Três Graças, para mim, para ti, para nós...



sábado, 24 de junho de 2017

Antero de Quental visto por José Gomes Branco.

José Gomes Branco, que chegou a ser em Portugal Director-Geral da Educação, quando era professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Madrid, publicou em espanhol uma separata intitulada Literatura Portuguesa, Madrid, 1946, em tradução de Jose del Rio Sainz, na qual dá uma visão histórica evolutiva desda a poesia medieval  até à Mensagem, de Fernando Pessoa, da qual destacava «as poesias O Mostrengo e Mar Português, ecos da consciente e heróica acção portuguesa nos descobrimentos marítimos» de cujo artigo resolvemos retraduzir para português as linhas  dedicadas por ele a Antero de Quental:  
«Vivo todavia Alexandre Herculano, mas retirado das actividades literárias, e estando no seu auge a glória de Castilho, surgiu outro grupo de jovens literatos cuja formação intelectual levou-os a buscar rumos distintos do romanticismo. Originou-se um choque, iniciado pelo ataque dirigido contra Castilho, como já se disse. Os participantes neste assalto estavam acaudilhados por um jovem licenciado em Direito, Antero de Quental (1842-1891). Ocorreu isto em 1865, denominando-se o episódio A questão de Coimbra, pois os inovadores pertenciam a esta Universidade. Este debate teve repercussão em 1871, por causa de uma série de conferências públicas dadas em Lisboa com o propósito de apoiar os princípios defendidos pela nova geração. 
O Grupo dos Cinco: Eça, Oliveira Martins, santo Antero ao centro, Ramalho e Junqueiro.
Antero foi um combatente, cujas energias apagaram-se a pouco a pouco, até que acabou suicidando-se na idade da sua maturidade intelectual, e foi também um grande poeta que em Raios de Extinta Luz, Odes Modernas, Primaveras Românticas e Sonetos alcançou formas de alta beleza, e escreveu para mais além  das fronteiras do seu país, questionando problemas humanos essenciais, sobre os quais meditou profundamente e para os quais buscou em vão soluções que o satisfazessem. Antero deixou também obras em prosa, nas quais adaptou à língua portuguesa concepções filosóficas.
Neste aspecto Fidelino Figueiredo escreve que «Antero, como prosista, está na sua zona mais portuguesa, porque mais enraízada no ambiente pátrio, ao qual marcou novos rumos com um ardor cívico entusiástico» e que nas Tendências gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX, «ainda que em tudo o que ali se expressa com suma claridade, em um léxico acessível, combinado tudo com uma original mestria, sem deixar de ser sua construção flexível, vivida, sangrante de paixão e com o interesso desperto da língua falada».
Questionaremos apenas nesta visão apreciadora de Antero, "o combatente", a afirmação das suas energias apagarem-se pouco a pouco, até se suicidar quando estaria na sua maturidade intelectual pois a oposição ou conflito entre a energia vital e a energia psíquica deve ser vista como um gradual definhamento vital, como Gomes Branco assinala e que o levaria ao suicídio, ou antes deveremos intercalar entre estes dois níveis a componente afectiva, essa sim poderosamente abalada e diminuída pelo seu celibato, a pouca inserção activa na sociedade e a retirada da tutela e educação das suas duas quase filhas?
É interessante a visão de Gomes Branco da insatisfação de Antero quanto à sua busca poética, embora só em parte e vista posteriormente é que estaremos de acordo, já que em cada fase do seu percurso, seja a juvenil amorosa, seja a revolucionária e socialista, seja a metafísica da liberdade e da sondagem da morte e do infinito (dos Sonetos), houve satisfação; e de que seria na prosa que conseguira introduzir na língua e filosofia portuguesa conceitos filosóficos modernos, vividos e expressos por ele bem flexivelmente e com amor-paixão. 
Diremos todavia que os seus aspectos mais profundos e espirituais das Tendências e das suas valiosas cartas de correspondência com os amigos ainda não foram bem aprofundados na língua e alma portuguesa. É um dos desafios do testamento de Antero ainda hoje em ecoando em nós....


quinta-feira, 22 de junho de 2017

O Arcanjo Rafael e Tobias, na História da Arte e no Caminho das Almas.

      O aparecimento de um espírito celestial com o nome de Rafael (Rª pa El, Deus curou) surge apenas por volta de 175 A. C., num livro escrito em aramaico e em hebraico e que acabou por ser recebido no cânone das Escrituras pelo Cristianismo, mas não pelo Judaísmo e o Protestantismo. É no denominado Livro de Tobias que surge então pela primeira vez este Arcanjo, e que desde o séc. VII-VIII d. C. sabemos que foi cultuado, nomeadamente com uma igreja em Veneza, embora haja muito poucas imagens antes do séc. XV, ao contrário por exemplo de Gabriel, o da Anunciação a Maria, do qual há frescos em Roma já dos sécs. III e IV.  
De Michele di Rudolfo, discípulo de Ghirlandaio
Face à envolvência a vários níveis de conhecimentos e de cultos a deuses, génios e anjos, tanto o Judaísmo como o Cristianismo tiveram necessidade de absorver e refazer representações que incluíssem o vasto domínio dos seres subtis do Cosmos, o que foi sendo feito e hierarquizado através de formulações imprecisas de tal modo que no Antigo Testamento não há referências ainda a Arcanjos (do grego, Arche-angeloi, anjos primordiais ou arquétipos, ou que estão por cima dos Anjos)  e que no Novo Testamento apenas duas vezes se refere "o espírito de um arcanjo", na I epístola aos Tessalonicenses, 4-16 e o arcanjo Mikael, em Judas, 1- 9. Será apenas nos sécs. V, VI que a existência e hierarquização ficará definida pelo pseudo-Dionísio Aeropagita, muito esquemático e devedor do neoplatonismo e das sucessivas emanações  da Divindade, segundo Proclo.
Sabe-se hoje que muito provavelmente a origem dos Arcanjos vem do Irão e do Avesta, com os sete Amesha Spenda (Eternamente Resplandecentes), e que nomes de Anjos e Arcanjos surgem nas escrituras hebraicas depois do desterro ou passagem deles pela Babilónia (587 a. C. a 535 a. C.), estando patentes no Livro de Daniel, embora já haja menções esparsas e escassas a Anjos (melek-mensageiros), tal na luta de Jacob, ou nos avisos a Loth, significativamente sempre com, ou em, corpos humanos de carne. 
No Livro de Tobias conta-se a história do jovem Tobias que o seu pai, Tobias também (Tobit), já velho e subitamente cego, muito temente a Deus e sempre pronto a fazer boas acções em toda a vida, as quais são descritas, envia, depois de lhe dar conselhos morais e éticos valiosas, para a zona da Média, no Irão, a fim de receber um empréstimo de dinheiro que fizera há muito anos a um seu parente e para ser no fundo iniciado nos caminhos da vida. 
A mulher interroga-se se será a melhor altura, agora que ele está cego, de enviarem o jovem filho, mas este acaba por partir, com um cão, o fiel companheiro terreno, e um homem viajado, Azarias (que significa, ajudado por Deus), que surge e diz ir também para essas regiões, assegurando aos receosos pais que acompanhará bem o filho. E assim vão, em vera peregrinação, óptimo modo para se poder representar posteriormente na história da Arte, Tobias e o tal ser, por enquanto apenas conhecido por Azarias, e o fiel amigo, o cão.
Ícone mais recente, mas bem ilustrativo  da demanda peregrinante ou Caminho.
Entre nós, e pouca gente o saberá, o pintor Columbano (1857-1929) desenhou duas sanguíneas de Rafael e Tobias, provavelmente para a muito bela e sábia paráfrase poética de António Viana, intitulada Tobias, versão do conto bíblico, já que  António Viana as reproduz na sua cuidada e numerada edição a cargo da olisiponense Livraria Ferin, dada à luz em 1901. 

Rafael, que desejara ao ancião Tobias:«Eternamente, a alegria do céu seja contigo», despede-se dele  e da mulher dizendo:«Tem coragem até que Deus te cure/para que tornes a ver o filho amado», e parte com Tobias e o cão.
Ora quando chegam a uma lagoa ou pego de água para se refrescarem, e um peixe grande salta quase para abocanhar Tobias, assustando-o, Azarias incita-o a apanhá-lo e a preparar com ele não só comida salgada para a viagem como também retirar o coração, os olhos e o fígado que se usarão para curar os olhos do pai e para salvar a alma de uma mulher acossada por forças negativas, mezinhas que Azarias Rafael levará consigo. O peixe não será representado esquartejado, seja por pudor, inteireza do símbolo ou tendências vegetarianas dos pintores, poderíamos dizer a sorrir, e vai como que vivo, com tamanhos diferentes mas em geral levado por Tobias, que segura ora um bordão ora o papelinho da dívida a receber.
«Em mansão que ao repouso convidava,/ junto do rio Tigre, aí pararam/os jovens companheiros./ Tobias desce à margem verdejante,/para banhar os pés no veio fresco/da límpida corrente./ Eis de súbito um peixe monstruoso,/voraz, faminto o assalta,/ escancarando a negra boca hedionda./ Tobias vendo perto a morte gélida/ dos céus implora a  salvação da vida!/-Segura-o sem temor, o anjo lhe brada, / e palpitante o prostra;/tira-lhe o coração, o fel e o fígado,/ pois que encerram em si santos remédios/de grandíssimos males.» E depois aconselha-o a pernoitar em casa de Raguel, «pai de Sara, universal herdeira/ de todo o haver paterno,/ flor celeste que desmaia o candor das acuçenas.» Versão de António Viana, 1901.
Estes aspectos serão pois bastante representados na iconologia do tema, principalmente o peixe, mas também o óleo para os olhos do pai e as vísceras, numa caixinha, para serem queimadas na altura certa, em fumigação salutífera.
Na jornada, Tobias acaba por reencontrar uns familiares  e a jovem filha, Sara, que já vira morrer sete maridos, nas sucessivas noites de núpcias. Azarias-Rafael aconselha então Tobias a pedir em casamento Sara e desfaz-lhe os medos e quando os pais de Sara aceitam com receio o pedido matrimonial de Tobias, de novo Rafael intervém e explica-lhe que eles devem passar as três primeiras noites em castidade e oração e que ele defumará o tálamo nupcial e lutará contra as forças negativas.
Excelente pintura de Jan Havickz Steen (1626-1679). «Santo enlace o das almas virtuosas,/quando unidas se elevam pela prece/até junto de Deus e em Deus se abrigam!...// Na abençoada alcova, de mãos postas,/orando os noivos clamam:/Deus piedoso! Atende os nossos rogo./Ó Deus de nossos pais, Omnipotente!» Versão do Livro de Tobias, por  António Viana, 1901. 
Na história da Arte respeitante a Tobias teremos poucas mas belas representações dos dois jovens em oração e castidade e ainda da defumação que faz com que o espírito obsessor ou guardião de Sara, ou do seu destino (pois há quem interprete que ela estava guardada para Tobias), saia da casa e seja desterrado, diz-se, para o Alto Egipto.
De Pieter Lastmann (1583-1633) esta excelente visão alquímica e kundalinica do conto iniciático de Tobias.
O regresso feliz, com o empréstimo sem juros recuperado pelo próprio Rafael, dos dois jovens já depois de bem casados até ao pai, com a aplicação miraculosa do óleo do peixe na vista do ancião, será então outra cena pintada algumas vezes e é valioso termos um quadro português de Domingos António Sequeira (1768-1837) que retrata tal fase do processo alquímico da viagem, e que é como restituir a vida ou a visão por uma nova dispensação, por um subtil unguento. A suavidade, subtileza e unção presentes nesta pintura vivenciam-se facilmente e certamente teria lugar na melhor edição ilustrada do Livro de Tobias, a fazer-se auspiciosamente um dia,  embora Rembrandt tenha também privilegiado com o seu génio esta fase da recuperação da visão.
Será  nesta ocasião jubilosa, quando lhe querem dar metade dos bens que possuem por tudo o que os ajudou, que Azarias se revela como sendo Rafael e dizendo  ser «um dos sete Anjos [que se erguem e servem] diante [do trono da Glória] do Senhor» (Tob. 12, 15), imagem esta que terá bastante fortuna na iconologia cristã, pois o autor do Apocalipse provavelmente acolheu-a e refere visionáriamente sete Espíritos diante do trono, por quatro vezes (Apocalipse 1:4; 3:1; 4:5 e 5:6)  originando não só muita iluminura em manuscritos e pinturas das cenas como posteriormente um certo culto dos sete Arcanjos, mais visível na Igreja Ortodoxa.
Ícone ortodoxo com os sete Arcanjos e o Cristo Jesus, relacionável com o Apocalipse 3:1: «Isto diz o que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas». 

William Blake (1757-1827), um ser de muita erudição e capacidade de visão. Os sete espíritos e os 24 anciões diante do trono.
O afán de caracterização e  reputação como o Arcanjo protector nos caminhos ou viagens, médico ou curador levou a algumas distorções,  propondo-se a sua identificação com «um anjo do Senhor que descia de quando em quando e  agitava as águas. O primeiro que entrasse no tanque, curava-se de qualquer doença», descrito no Evangelho segundo S. João, 5:1-4, que diz respeito às águas de Betseda, em Jerusalém e que hoje se sabe terem sido um santuário do deus romano Esculápio. A cura é feita por Jesus a alguém que não conseguia ser o primeiro a entrar na água,  e como que actuando sem necessitar do génio, ninfa ou anjo curador da termas ou fonte, tão cultuados ao longo dos tempos em toda a parte.
Quanto à função de fumigador e exorcista, derivada de ele dizer que apresentava as boas acções de Tobias a Deus, tentar-se-á identificá-lo  com o incensador ou turibilário, erguendo os incensos e perfumes, das resinas e das orações ao Senhor, mas despejando depois sobre a Terra trovões e terramotos (algo nada Rafáelico, diga-se..), descrito no visionarismo flamejante e algo fanático do Apocalipse, obra que hoje sabemos bem que não foi da autoria de S. João, como já Erasmo no seu tempo e no Novum Instrumentum provara, mas sim posterior e de cristãos apocalípticos ou crentes num fim do mundo próximo e nuns 144.000 escolhidos ou salvos... 
Serão os concílios e os decretos de inclusão do Livro de Tobias como canónico ou aceite pela Igreja que vão permitir o desabrochamento de um pequeno culto de Rafael, por exemplo atestado desde 1270 com uma confraria de S. Rafael, em Veneza, instalada na igreja de S. Rafael (construída em 1131),  e a sua grande fortuna na arte, em especial na época do Renascimento quando a viagem e o dinheiro se tornaram bem mais fortes e presentes na vida das cidades e que portanto tanto jovens viajantes e negociantes, como os sujeitos aos desafios da vida matrimonial podiam facilmente sentirem-se abrangidos ou envolvidos em tal história, como aliás qualquer pessoa diante de tal beleza e suavidade do Arcanjo, simpatizaria e  oraria com ele, ou através dele. 
Assim naturalmente  a ideia e o culto do Anjo da Guarda viria a ter uma prefiguração em S. Rafael e a associação entre as duas devoções acabou por se manifestar por vezes em simultâneo, seja em altares seja em quadros, mas mais tarde, sobretudo a partir de 1600, quando a devoção ao Anjo da Guarda é valorizada 
À esquerda o arcanjo Rafael, já apenas com o seu símbolo identificativo de curador, e à direita o Anjo da Guarda com a alma que guarda e inspira. 
Rafael tornava-se assim um símbolo de orientação, protecção, intercessão e cura angélica e divina, e Tobias simbolizava toda a alma na juventude da sua ignorância e inocência, mas desejosa e capaz de aprender, viajar, recordar, cumprir e assim levar o peixe, tão rico em simbolismo,  ao seu destino.
Peixe colhido e levado pelo jovem, e na iconologia em geral representado como peixe inteiro e são e salvo, como que contente por ir servir por dois modos na cura de dois seres. E que sendo um dos símbolos de Jesus, nos leva até a poder-se ler esta história mítica como uma prefiguração seja de Jesus Cristo seja de tempos futuros de mais ungimento e harmonia humana pela comunhão angélica. 
Do Espírito santo de Rafael e Tobias....
Mas certamente que os aspectos do peixe-serpente-dragão, animal das águas do inconsciente e da sexualidade haveriam de ser intuído por alguns seres, embora mesmo até hoje provavelmente nenhum historiador de arte, desde Gombrich a Joseph Hammond tenha chegado aos níveis de poder ler neste livro um conto iniciático de orientação da energia sexual e kundalínica e que  bem orientada cura ou fortifica os olhos e afasta as forças negativas. 
Pieter Lastman, auto-retrato, de 1630. 
 Dos pintores, Pieter Lastman e Jan Havickz Steen foram muito provavelmente quem mais intuiu isto e quem melhor soube portanto pintar e representar algo da espiritualidade mais interna do conto de Tobias e do Arcanjo Rafael, os dois heróis (com a Sara) da história, e neste aspecto não se podendo considerar, como faz Gombrich, Tobias como um mero emblema ou símbolo de Rafael.
A captura  ou domínio do peixe salvador por Tobias ajudado pelo Arcanjo Rafael, por Pieter Lastman.
Houve então no Renascimento e na Contra-Reforma, nesta por reacção ao Protestantismo que negava tanto o livre arbítrio como a intervenção e  culto dos Anjos, uma frequente e bela representação artística de Tobias guiado por Rafael, certamente apresentado sempre com asas, ao contrário do que vinha no Livro de Tobias, e do que vemos também no Antigo Testamento, no qual os Anjos surgem diante dos humanos tais como eles, isto é, em corpos carnais. 
Não estará longe deste ambiente e movimento, talvez até o prefigurando, a instituição pelo rei D. Manuel, o Venturoso,  da festa do Anjo Custódio de Portugal em 1504, só aprovada pelo papado em 1590. E será já em 27-IX-1608, com a adição ao calendário da Igreja Católica Romana da festa do Anjo da Guarda, pelo papa Paulo V, que se acelera a consciencialização que cada ser tem o "seu" Anjo da Guarda e nessa esteira veremos pinturas dos Anjos da Guarda e seus protegidos, ao lado do Arcanjo Rafael e Tobias, dando-se mesmo, por exemplo, a fundação de uma Confraria dos Anjos da Guarda, em 1657, em Veneza.
Pintura de grande qualidade amorosa do mexicano José de Páez (1727-1780)
Não será agora a ocasião para reflectirmos dos modos como se inter-relacionaram as diferentes tradições dos Anjos ou Génios e convergiram nas sucessivas religiões e aculturizações. Provavelmente podemos  ou mesmo deveremos admitir que houve visões espirituais iniciais, e nas quais o anjo ou arcanjo é visto com asas,  a qual depois, com o passar do tempo e da traditio materializadora foi descrita como visão física e no mundo tangível dos corpos. Para além  de tal,  o próprio artista ou pintor, posteriormente, pode confirmar em si mesmo tal realidade alada numa visão interior, tal como o nosso pintor humanista Francisco de Holanda recomendava e aspirava, e não se prende então à descrição limitativa original, carnal.
De Agostino Caracci.
Se muitas das centenas ou milhares pinturas que hoje conhecemos em igrejas e museus poderiam ser na sua origem invocadoras de protecção angélica para crescimentos, viagens, negócios, doenças ou mesmo casamentos, seguindo os padrões imaginais contidos no Livro de Tobias, outras já seriam menos condicionadas por essa fonte, tal a de Francesco Botticini, na galeria dos Uffizi em Florença, que representa Tobias ladeado não só por Rafael, mas também por Miguel e Gabriel, os outros dois arcanjos citados, embora muito escassamente na Bíblia, e não estando incluído Uriel, que só surgiu em literatura não acolhida pela Igreja Católica, no IV Livro de Esdras e no  Livro de Enoch. 
Em algumas imagens o Arcanjo não só protege ou guia Tobias, mas, enorme, cobre com as suas asas vários santos que o rodeiam. Ainda ainda não foi estudado o tamanho do Arcanjo em relação a Tobias ou aos santos do Cristianismo que o ladeiem, e o que isso significa de valorização maior ou menor do ser Angélico, bem como as diferentes idades de Tobias que marcaram os pintores ou os seus piedosos comendatários ou doadores, que podem até ter utilizado num ou noutro caso os seus filhos como modelos, como uma investigadora, Gertrude M. Achenbach, propôs.
 Numa linha contrária, e provavelmente ligada aos movimentos mais espirituais e fortes do franciscanismo, encontramos uma representação em que na posição central e dominante está S. António, numa mandorla de anjinhos, encontrando-se Rafael com Tobias, lateralmente. 
Fresco de Bartolomeu Caporali (1420-1505). S. António nos céus...
Qual foi a intencionalidade ideológica e espiritual de tal composição? Apontar para, ou invocar, S. Francisco de Assis e S. António como novos Christos, ou seja, ungidos do Senhor e, tal como Rafael, médicos da alma, mestres do Caminho, modelos da Imitação de Cristo, ou quem sabe já até advogados de objectos e amores perdidos, como a tradição popular consagrará?
Quanto ao Arcanjo Rafael ser um psicopompo, um condutor na passagem para a vida fora do plano físico abrangido pelos cinco sentidos, como Hermes, Mercurio e outros deuses, pouco se encontra no Ocidente, embora que se orava aos Anjos para acompanharem a alma no trânsito final, como tantas orações do nosso antiquíssimo cancioneiro religioso patenteiam,  mas sabemos que na religião do Islão, tão devedora do Judaísmo e do Cristianismo, Rafael, Israfil, é o Arcanjo que soará a trombeta da mítica ressurreição final. 
O historiador de arte Ernst Hans Gombrich (1909-2001) assinala ainda no  sóbrio e valioso mas limitado estudo Tobias e o Anjo, no seu pioneiro estudo Symbolic Images, uma bela representação por um discípulo de Baldovinetti existente na igreja de S. Maria delle Grazie, em S. Giovanni Valdarno, na qual se lê uma inscrição tipo jaculatória e mantra: «Rafael, sê meu médico perpétuamente, assim como foste de Tobias, e sê sempre  comigo no caminho», a qual reforça a praticabilidade orante da contemplação da pintura do Arcanjo, sem dúvida sempre um acto, método e meio de intensificação das energias anímicas, de modos psicomórficos conducentes ao contacto com o espírito e o mistério do Ser Divino.
Joseph Hammond, outro estudioso de Rafael e Tobias, nesta linha protectora, regista por sua vez  em Veneza, uma oração do séc. XVI inscrita numa lápide no palácio ducal que reza: «Oh Venerável Rafael, faz com que o lago esteja calmo, nós te rogamos». 
Também valoriza, embora talvez com pouca profundidade espiritual, o seu papel de instrutor e de curador numa Adoração dos Pastores na igreja dos Carmos, em Veneza, do pintor Cima da Conegliano, quando de facto Tobias, de mão dada a Rafael, consegue sobretudo chegar à adoração do nascimento divino em nós, Emmanuel, de certo modo podendo interpretar-se tal imagem como simbolizando que o contacto ou ligação com o santo Anjo da Guarda é uma alta realização anímico-espiritual, no que implica da vida harmoniosa psicofísica, conducente à contemplação Divina, ao Deus em nós. 

De Tiziano, cerca de 1595, S. Maria Madalena, S. Bráz, Rafael e Tobias e o doador: Deus em nós...
Mas alerte-se contra os erros e comercialismos tão frequentes nos livros sobre Anjos destas últimas décadas, em geral cheios de desinformações, tais como os nomes dos anjos para cada dia do ano, como se todas as pessoas nascidas no mesmo dia tivessem o mesmo Anjo, ou ainda da facilidade com que as pessoas dão ordens a tais anjos ou entidades celestiais. Um exemplo será esta ideia, expressa num livro por uma das tais especialistas de Anjos, Doreen Virtue: «em qualquer altura que chame Rafael, ele aí estará. O arcanjo da cura não é tímido ou subtil a anunciar a sua presença. Ele quer que saiba que ele está consigo, como uma maneira de confortá-lo e aliviar o stress durante o seu caminho para a recuperação da saúde».
Uma versão muito invulgar, de Andrea Vaccaro (1604-1670), na qual Rafael mostra e oferece um cavalo, psicopompo ou guia para o caminho....
Numa linha de interpretação espiritual e de elevação interior conclua-se com dois aspectos de ensinamento espiritual sobre as informações atribuídos no Livro de Tobias a Rafael: os Anjos e Arcanjos apresentam as nossas orações à Divindade, ou seja,  fazem-nas elevar-se para as suas direcções curadores, realizadoras e iluminadoras, dentro do consenso da Providência Divina, ou da Ordem do Universo, o Dharma ou a Rita da Índia.  E os sete Espíritos que se erguem diante do assento divino no Cosmos, e que terão certamente origem e correspondência com o Sol e a Lua e os cinco planetas, e também, em nós, com os sete centros de força ao longo da coluna vertebral (os chakras da tradição yogui indiana), e posteriormete com os sete dons do Espírito Santo, e que é por eles que se erguem e são apresentadas ao Espírito divino as nossos esforços e actos, aspirações e orações, ou seja, as irradiações energetico-conscienciais subtis que possamos gerar melhor e mais abnegadamente, com os consequentes recebimentos possíveis das graças da Luz e do Amor. 
Cavalgar, ou saber utilizar, o cavalo, dragão e peixe....
   Que saibamos então merecer comungar melhor com o nosso Anjo da Guarda,  o Arcanjo de Portugal,   o Arcanjo Rafael  e, sobretudo e mais intimamente, com o Espírito e a Divindade, e a Sua Luz, Amor e Força, para  melhoria nossa e da Humanidade e da Terra...
Amen, Om, Hum, Hri...

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Antero de Quental e José Bação Leal, poetas irmãos da Alma e do Destino.

José Bação Leal foi um jovem poeta e escritor que caiu precocemente com 23 anos nos campos do serviço militar no norte de Moçambique, em 1-IX-65. Conheci-o nesse último ano da sua vida, na messe dos oficiais em Nampula, ele oficial miliciano ferido e doente, eu jovenzinho filho de um oficial também a cumprir a sua missão militar. Sintonizámos, havia uma afinidade anímica, ele tinha frequentado o Colégio Militar, aonde eu andava, mas do que falámos já nem me lembro. Mas ficou-me sempre o seu olhar lúcido e profundo, doce e melancólico, talvez pressentindo já que a sua morte estava predestinada a vir precocemente.
Em 1966, em Lisboa, Francisco Eduardo Silva Alves e José Mário Fidalgo Santos, dois amigos do Zé Bação, com a ajuda da mãe, que recolhera alguns dos manuscritos de uma antologia de poemas que ele queimara pouco antes de partir para África, com consciência sacrificial e de renascimento, publicaram numa edição bela de 250 exemplares uma antologia dos seus poemas e cartas, onde podemos tanto sentir a sua grande sensibilidade e lucidez como ver também a qualidade dos autores que ele com 20 anos lia ou queria ler e amava, tais como Philipe Solérs, Lawrence Durrell,  T. S. Eliot, Antero de Quental, Fernando Pessoa, António Ramos Rosa, Manuel de Castro e Maria Teresa Horta.
Vamos publicar extractos desta antologia numa homenagem a Bação Leal e ao Antero, certamente em vários aspectos irmãos de alma e de destino, e também porque nenhuma alma amante de Antero deveria saber da belíssima aproximação ao suicídio de Antero escrita pelo Zé Bação Leal.
Mas antes de partilharmos alguns poemas e a reflexão anteriana, contemplemos uma fotografia de uma alma tão bela, nos seus 20 anos.

«Vem! deusa de olhos verde
dos meigos cabelos louros

Vem sem medo

Vem descobrir os tesouros
que se escondem para lá do mar

Vem descobrir o segredo
que fez um homem naufragar.

***
Docemente
hei-de agarrar a tua mão
e juntos
seremos os donos da floresta

Levaremos o Outono
às folhas que tombam na Primavera.

Seremos em cada pôr do sol
uma dádiva de amor
uma carícia à morte.

Juntos
enfrentaremos o tempo
com um olhar firme.»

*****
Das suas cartas escritas no Alentejo, no Monte da Tapadinha, Mourão:
«Releio agora a tua carta. Dir-te-ei que ainda não é tempo de eu cantar a glória de Deus. Como queres tu que eu volte os olhos em prece para uma luz superior que a minha natureza de homem, difícil e sequiosa, não alcança? Ainda não é tempo. As frias leis humanas não são justas. Estou certo de que leis diferentes, quais cânticos  de justiça, ponderam a minha conta. Por isso tem esperança, Luís, que um dia Deus me chamará a si, nem que isso aconteça só no dia final. (...)»

De outra, datada de 15-XI-62, para a Lena:
«(...) Passo muito tempo a olhar o fogo com muita metafísica, de livro na mão e à luz do petróleo. Devo ter, por certo, vocação para a cinza...
E a propósito sou suficientemente honesto para te dizer que ontem sonhei com a tua amiga loira de olhos cor de cinza... É curioso, hem! Os sonhos são imponderáveis.
Calculo que tens ido a essa longínqua Copacabana e que tens estado com o Victor. As pessoas por lá ainda têm o mesmo ar comprado? Assim o creio. É que, não imaginas, ando a ler Buda e Maomé e começo a admirar bastante o primeiro. Foi um homem honesto, bondoso, coerente e isso é muito importante. Ando mesmo com ideias esquisitas. O silencio faz-nos estranhas confidências.
Seria curioso eu descrever-te a lua como ela está hoje. Está na linha do horizonte e tem uma forma oval. Tem uma luz estranhamente sanguínea que se reflecte nas nuvens e lhes dá um tom renunciante. É misteriosamente bela essa luz exangue e estou certa que nunca a viste»
A reflexão sobre Antero é escrita também de Morão, a 22-XI-62, a propósito de um acidente gravíssimo de automóvel em que por pouco não morreu, vivido com plena consciência em tudo, até chegar ao momento de se irem espatifar contra um tractor a uns metros: «Agora o pior ou o melhor, durante décimos de segundo pensei a morte inevitável, sentia uma mão interior a puxar-me para trás. Era o medo. Eis portanto a questão: tive um medo horrível, um medo desesperado de morrer. Começas a compreender porque seria batota ler o Mito de Sísifo. Sim. Seria uma batota repugnante, masturbar-me intelectualmente com frases pre-concebidas sobre uma coisa in-concebível. Claro que perguntei a mim mesmo, porque não houve o choque? Perguntei, mas a resposta nem sequer ecoou. Sobre Alberto Camus que era por certo um eleito dos deuses até porque morreu novo (concepção antiga) admito que ele era um lúcido, um intelectual avisado, tudo o que quiserem menos um ressuscitado.. As suas considerações sobre o suicídio só eram válidas para ele próprio. Digo mesmo que ele não tinha direito de as tornar públicas. A morte é uma experiência de uso pessoal. É mesmo, pelo menos assim o creio, irredutível a termos de vivos (...)
E sobre o suicídio um pouco mais. Descobri o mistério de Antero de Quental. Antero não se suicidou. Foi apenas Deus que o chamou. Vê se me acompanhas, Antero em vida foi um constante combatente do destino, principalmente do destino dos outros. Ora Deus, que o conhecia bem, quis dar-lhe essa última alegria, a de morrer sozinho e por escolha. Antero sofria horrivelmente. Nem o sabor da glória o apaziguava. Exigia uma vida ideal, na qual, quem sabe? os homens morreriam só quando o achassem justo. Deus compreendeu-o. Naquele entardecer em que, num banco de jardim Antero se despediu, foi Deus que o acompanhou. Não consideres isto uma blasfémia. A vida de Antero é digna de a dum santo. Li algures, que Antero podia ter sido um companheiro de S. Francisco de Assis. E é verdade. Quando um homem luta pelo destino dos outros, como Antero lutou, tem por certo na alma uma chama etérea.
O meu caso pessoal, infinitamente mais humilde que o de Antero, é no entanto difícil. mais do que nunca, sinto que passeio agarrado a uma nuvem numa extensão de ar infinita. Não aceito a vida, nem a morte. Nunca sei bem se estou agarrado à nuvem ou se estou cair. Passeio apenas . Com consciência e sem consciência, passeio. Percorro os dias sem que uma distância se elabore. E não ter distâncias, não ter perto nem longe, dói, dói bastante. (já nem pena das palavras... tenho.)» 
Acerca destas linhas sobre Antero, muito originais, e que não sabemos  sobre que bases de conhecimento da vida e obra de Antero foram sentidas e escritas,  destacaremos apenas três ideias-forças: a do ideal de as pessoas morrerem só quando sentissem que era a hora ou era justo. A de morrer acompanhado por Deus. E, finalmente, «quando um homem luta pelo destino dos outros, como Antero lutou, tem por certo na alma uma chama etérea». 
Que esta chama etérea que brilhou mais em Antero e em Bação Leal se intensifique também em nós, em comunhão com eles, na Tradição Cultural e Espiritual Portuguesa, e com a Divindade...
Já terminado o texto no Google vi que a sua obra, além de uma reedição que já conhecia de 1971, teve uma em 2014, pelo jornal O Público e que «um documentário de 53 minutos dedicado a José Bação Leal, intitulado "Poeticamente Exausto, Verticalmente Só", foi realizado entre 2003 e 2007 por Luísa Marinho. Está disponível online em versão integral, em http://vimeo.com/25109453, com o trailer no YouTube.»

sexta-feira, 16 de junho de 2017

On Spirituality, Religions, Pan, Plutarch, Chesterton, Mankind and Consciousness evolution.

    About the famous legend shared by Plutarch (46-119) in his book On the cessation of Oracles,  in which, during a trip on boat, it is heard a voice on the heavens saying to the pilot Tamus to anounce near the seashore that «Pan ho megas tethneke»the great  Pan has died», what being done caused a great cry of sorrow coming from land and Nature, happening that in the time of emperor Tiberius (42 A. C. - 37 D. C.), and that was interpreted by posterior Christians as the vanishing of Paganism under Christianity, the english writer  G.K.Chesterton has said, or better published in 1925 in his  The Everlasting Man It is said truly in a sense that Pan died because Christ was born. It is almost as true in another sense that men knew that Christ was born because Pan was already dead. A void was made by the vanishing world of the whole mythology of mankind, which would have asphyxiated like a vacuum if it had not been filled with theology.”  (In the chapter End of the World). 
      We can say also today that theology is dead, and in religions there is a vacuum inside their souls and people, where instead spirituality, inner experience, relation to the Spirit and to the Divine should be happening beyond the limitations and antagonisms of the old religions and their dogmas and creeds, specially Judaism, Christianism, and Islam.

Da vida mítica de Pan (gravura de Frank Short, segundo Turner) destaca-se a sua paixão pela ninfa Syrinx, belo símbolo da polarização da manifestação cósmica e da atracção sexual, kundalinica e amorosa, a qual pode dar mesmo origem sublimada aos cantos da flauta de sete canas ou nós de Pan, o Kosmokrator que faz ecoar os 7 planetas...
So it is not so much Pan that it is dead, as that word means etimologicaly the Whole, the Universal, Love and Fertility, the Divine omnipresence, at least as life, energy, information, consciousness, as the Unified Field of modern times hints, but are the Sacred Books that are dying as accepted or considered to be direct and perfect revelations of "God" to Mankind, as they are seen more and more in their human origins and with so many limitations, altought surely having good inspirations and teachings on ethics and spirituality, specially for the ones who can see, love and pratice them...

domingo, 11 de junho de 2017

As nuvens são seres vivos, animados e animantes, sobretudo para os seus amantes.


Uma mesma nuvem, bem animada por um ser subtil ou deva...
Escadas e guindastes que nos liguem aos altos céus e seres precisam-se


Espírito ou Anjo que desce do céu e complementa as subidas das árvores. das máquinas e dos humanos para se fazer o milagre da união do que está em cima com o que estava em baixo...
Qual sarabanda de fadas e dríades... 
Da afinidade natural das árvores e nuvens,  devas e anjos...

Dança comigo...

Passados uns minutos a mesma Nuvem começa a despedir-se---

Como um gnomo corredor e saltador, eu sou...
Da Divindade na sua imensidade somos pequenas mas luminosas manifestações...


                                                           Adeus, com Deus-Deusa...à Fonte....