‘Political hostage-taking’: Iranian woman vows legal battle against France after illegal detention"
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Titus Burckhardt (1908-1984) foi um artista suíço, historiador de arte, atraído e convertido cedo ao Islão, que procurou a iniciação em Fez e conseguindo-a na ordem sufi sunita Darqawiya, tendo vivido com dificuldades em vários trabalhos até poder em 1936, em Basileia, estabilizar e estudar mais o árabe e a história da arte e começar em 1937 a colaborar com artigos de simbolismo e traduções de filósofos espirituais árabes na revista de esoterismo Études Traditionneles, com René Guénon, então mestre do seu amigo de infância Frijtof Schuon, com quem também colaborava e o apoiou. Em 1939 casou-se, e tornou-se o director artístico da editora Urs Graf, em Basileia, especializada em reprodução de manuscritos antigos iluminados, onde trabalhou até se reformar em 1968. Os livros que escreveu de história de arte islâmica e sagrada com grande qualidade tiveram sucesso e foi considerado o melhor conhecedor ocidental da arte islâmica. Os livros sobre o sufismo bem como o seu posicionamento metafísico e a sua relação muito próxima ou coincidente com Frithjof Schuon e René Guènon, tornaram-no um dos principais representantes da escola tradicionalista, ou perenialista, teorizada principalmente por eles, além de Ananda Coomaraswamy e Seyyed Hossein Nasr.
| Titus Burckhardt e Frithjof Schuon perenizados numa varanda. |
Entre 1972 e 1976 esteve em Fez a dirigir a restauração da cidade velha e da Medina, pela UNESCO e o Governo de Marrocos, e nesse ano último publicou uma valiosa obra Art of Islam. Language and Meaning, num in-fólio de XVI-204 páginas, muito bem ilustrada com fotografias de Roland Michaud, onde traça uma boa síntese em oito capítulos da evolução artística e principais épocas, estilos, características e questões, e de cujo capítulo III A Questão das Imagens, selecionamos dois extratos do segundo sub capítulo A Miniatura Persa,
Se o 1º extracto, mais especificamente sobre a miniatura Persa, revela uma boa captação da essência dela, já o 2º, sobre o Shi'ismo, manifesta um pouco mais ser um sunita e não shi'ia, e não ter alcançado, aceitado ou valorizado plenamente a metafisica e o "espírito" shi'ia, sobretudo se o comparamos com Henry Corbin, que apesar de ser um cristão protestante, pelo seu grande amor ao Shi'ismo e ao Irão, atingiu uma grande penetração intuitiva, sensível e imaginal no mundo subtil e espiritual e na tradição dos XII Imams e dos místicos shi'ias. O livro contém como bibliografia apenas uma lista de quatro livros seus e onze não seus, sobre arte e arquitectura, sendo dois de cultura islâmica em geral.
Sobre as miniaturas persas: «(... O que dá à miniatura o seu quase único tipo de beleza não são tanto as cenas que retratam mas a nobilidade e simplicidade da atmosfera poética que as penetra.
Esta atmosfera, ou este modo - para usar um termo que carrega um significado preciso na música - confere ocasionalmente [ou melhor frequentemente] na miniatura Persa uma espécie de reverberação Edénica, e isto é profundamente significante, pois um dos seus temas básicos, com raízes iranianas distantes [alude veladamente ao que Henry Corbin desenvolveu profundamente, a partir dos textos avésticos, madzeístas e de Sohrawardi], é o da paisagem transfigurada, simbolizando ambos o paraíso terrestre e a "terra celestial" [conforme a obra editada em 1960 de Henry. Corbin, Terre Céleste et Corps de résurrection, de l'Iran Madzéen à l'Iran Shi'ite, revista e modificada em 1978, como Corps espiritual et Terre céleste, de l'Iran Madzéen à l'Iran Shi'ite], os quais, enquanto se encontram escondidos dos olhos da humanidade caída [tal das pessoas semicegas pelo mau jornalismo televisivo], permanecem existentes no mundo da luz espiritual que está manifesto aos santos de Deus [ou às pessoas com pureza, sensibilidade, aspiração, devoção, abertura.]
É uma paisagem sem sombras, na qual cada objecto é feito de uma substância preciosa de inexcedível perfeição e onde cada árvore e flor é única no seu género [algo que devíamos ver mais mesmo neste mundo físico e desse modo nos elevarmos ou nos ligarmos aos outros mais subtis e perfeitos], tal como as plantas que Dante situa no Paraíso terrestre, na montanha do Purgatório, e cuja sementes nascem do vento perpétuo que sopra no topo da montanha a fim de produzir todo o tipo de vegetação sobre a terra. (...)
Esta paisagem simbólica é essencialmente distinta da sugerida pela pintura chinesa. Diferentemente desta, não é definida; não parece estar a emergir dum vazio, a origem indiferenciada de todas as coisas; é como um cosmos bem ordenado, ocasionalmente contido numa arquitectura cristalina que o encerra como numa incantação mágica e prepara as cenas sem as fazer muito materiais.
Em termos gerais, a miniatura Persa - e estamos a considerá-la nas suas melhores fases - não procura retratatr o mundo exterior como ele se apresenta a si mesmo aos sentidos, com todas as suas desarmonias e acidentalidades; o que está indirectamente a descrever é a imutável essência das coisas (al-a' yan ath-thabitah), pela qual um cavalo não é um simplesmente um membro particular da sua espécie mas o cavalo par excelence; é a qualidade genérica que a arte da miniatura procura captar. Se a imutáveis essências das coisas , os seus arquétipos, não podem ser apreendidos porque estão para lá da forma [discutível, pois têm é formas mais subtis e em movimento] elas ainda assim reflectem-se na contemplação imaginativa [ou imaginal, como diria H. Corbin]; daí a qualidade de sonho - não o de uma preguiçosa divagação - que pertence às mais belas miniaturas; é um sonho claro e translucente como se iluminado de dentro. (...)
Por causa do seu carácter normativo, a miniatura Persa pode servir para exprimir uma visão contemplativa; esta qualidade particular deve-se em parte ao meio ambiente (milieu) Shi'ita no qual a fronteira entre a lei religiosa e a livre inspiração é muito menos talhante que no Sunita. Estamos a pensar em certas miniaturas de tema religioso tais as que, apesar de toda a regra tradicional, retratam a ascensão (mi'raj) do Profeta através dos céus.
De longe a mais bela, e a mais espiritual, miniatura neste tema é a que forma parte do manuscrito Khamsah de Nizami, datado de 1529-1543, no período Safavida. Com as suas nuvens em convoluções no estilo Mongol e os seus anjos portadores de incenso reminiscentes das apsaras [indianas], esta miniatura exibe um ponto surpreendente de contacto entre o Budismo e o Islão [ou manifesta ainda a grande ligação com os anjos da antiga Pérsia, pioneira mundial nessa capacidade de visão com os Ameshaspenta e as fravartis de Zoroastro e depois continuada com Sohravardi, os seus condiscípulos da Luz oriental ou Ishraqiyyun, e vários místicos do Islão, seja sufis ou não pertencentes às tariqas ou confrarias.]
A memória do tempo em que os Imams estavam ainda presentes visivelmente, o fim trágico de alguns [ou de todos] deles, a ocultação do último deles, e o desejo de se atingir a misteriosa região onde ele reside ainda confere à piedade devocional [ou à aspiração mística e amorosa] Shi'ita o seu tom característico, que pode ser descrito como uma nostalgia pungente pelo paraíso, o estado de inocência e plenitude que se encontra igualmente no começo e fim do tempo [ou à aspiração mística e amorosa à ligação ou união com os Imams, os Profetas e mesmo Deus, na sua imanência].
O Paraíso é um tempo primaveril eterno, uma jardim perpetuamente em floração, refrescado por águas vivas; é também um estado final e incorruptível como o de minerais preciosos, cristais, ouro. A arte Persa, e em particular a ornamentação das mesquitas Safávidas [séc. XVI e XVII], tem como programa combinar estas duas qualidades: o estado cristalino é exprimido na pureza das linhas arquitectónicas, a geometria perfeita das superfícies arqueadas e a decoração em formas rectilíneas; quando ao tempo primaveril celestial, ele desabrocha nas flores estilizadas e nos azulejos de cerâmica de cores frescas, ricas, moderadas.»
Como Henry Corbin (Paris, 14/4/1903 a Paris, 7/10/1978), formado em filosofia, e por mestres como Etienne Gilson, Louis Massignon e Martin Heidegger, foi e é certamente o melhor estudioso (ou um dos melhores), tradutor e expositor da sabedoria e angeologia iraniana, dos seus filósofos e místicos, pré-islâmicos e islâmicos, compete-nos a nós, nesta hora trágica do bullying norte-americano e israelita a tão valiosa e luminosa civilização, aprendermos algo dos ensinamentos que tão grandes filósofos e teólogos, poetas e místicos nos deixaram e que Henry Corbin, com grande engenho e sabedoria, perseverantemente durante mais de quarenta anos, estudou, traduziu, discutiu, comentou, editou e ensinou, seja na Sorbonne parisiense, seja em Istambul (1940 a 1945, como investigador), e sobretudo na Universidade Imperial de Teerão (de 1945 a 1977), e no Centre Iranien pour l’étude des civilisations, dirigido por seu discípulo e quase sucessor Daryush Shayegan (com quem eu dialoguei bem, registando um pouco em vídeo, hoje no Youtube), e em pequenos círculos de amigos, nomeadamente nos encontros de Eranos, em Ascona na Suíça, desde 1949, de que nos ficaram as suas comunicações. Mas para sabermos algo desses diálogos fabulosos no círculo de Eranos com Carl Gustav Jung, Evan-Wentz, Emil Cioran, Mircea Eliade, Gilles-Quispel, Gerschom Scholem, Gilbert Durand (com quem ainda dialoguei em Tomar e Guimarães) e outros teríamos de pesquisar em memórias biográficas, embora algumas já estejam hoje editadas.
Esta lista, para já muito breve, irá sendo desenvolvida nos comentários a cada um dos livros descritos, e fazia parte da lista inclusa em https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/02/bons-livros-10-sobre-o-irao-e-sua.html
Boas inspirações. Paz, Justiça e Luz no golfo Pérsico, e independência soberana, "imamática" e magistral do Irão.
1- CORBIN, Henry. Avicenna and the visionary recital. Dallas, Spring, 1980. In-4º VIII-420 pág. B. Excelente estudo sobre as visões e doutrinas de Avicena, e ainda sobre os subtis e maravilhosos anjos e arcanjos tão vistos e estudados na tradição espiritual iraniana.
2 - CORBIN, Henry. Le paradoxe du monotheísme. Paris, Heren, 1981. In-4º gº 257 p. B. Anotado. Abordando a questão da transcendência e unicidade de Deus, no monoteísmo islâmico mostra os tipos de mediação existentes, sobretudo desenvolvidos no shiismo. Inclui ainda a Necessidade da Angeologia, e Da Teologia Apofática como antídoto do Niilismo.
3 - CORBIN, ABECASSIS, DAVY, GORCEIX. L'Ange et l'Homme. Cahiers de l'Hermetisme. Paris, Albin Michel, 1978. In-4º 238 p. B. Notável e complexo artigo de sessenta páginas, La Necessité de l'Angéologie, no qual, baseando-se em textos judaicos e cristãos, desenvolve teses bastante originais, tais como a identificação de Cristo a Mikael, e do Espírito Santo a Gabriel. Os contributos de outros autores são sobre os Anjos em Israel, no Ocidente Medieval, em Jacob Böehme, Johannes Scheffler, Swedenborg, Jean Paul e L. C. Saint-Martin.
4 - CORBIN, Henry. Temps cyclique et gnose ismaélienne. Paris, Berg, 1982. In-4º 208 p. B. Com dois capítulos Le Temps cyclique dans le Madzeisme et dans l'Ismaelisme, com várias ligações aos Anjos, e Epiphanie Divine et naissance spirituelle dans la gnose ismaélienne.
5 - CORBIN, Henry. Face de Dieu, Face de l'Homme. Hermeneutique et Soufisme. Paris, Flammarion, 1983. Br. In-4º 379 p. B. Anotado. Valiosos ensaios sobre mundo imaginal ou 8º clima; Swedenborg, Gnose ismaelita; da epopeia heroica à epopeia mística, a narrativa do Graal em Sohravardi; o Imam como face de Deus e do Homem, e polo (qutb) da alma; a ideia do Paracleto na filosofia iraniana: os traditicionistas shiitas, Sohravardi (m. 1191) e os Ishraquiyun, Haydar Amoli (m.1385), Ibn Abi Jomhur Ahsa'i (1495), Qotbodin Ashkevari (m.1665) e Jafar Kashfi (m.1851).
6 - CORBIN, Henry. Temple and Contemplation. London, RPI. 1986. In-4º 413 p. B. Anotado. Cinco artigos, de 1952, o mais correcto e valioso talvez seja o que estuda o simbolismo das cores na cosmologia Shiita, ja que alguns dos mestres iranianos deram boas descrições e explicações das luzes e cores vistas nas suas meditações e visões.
7 - CORBIN, Henry. L' Iran et la Philosophie. Paris, Fayard, 1990. In-4º 268 p. B. Anotado. Estudos valiosos sobre História das religiões (Iranologia e ciência das religiões, onde cronologicamente caracteriza os cultores, ou instituições, pioneiros. Iranologia e filosofia), e Filosofia e Mística: Teoria do conhecimento visionário. O motivo da viagem e do mensageiro, com realce para Avicena, Attar, Sohrawardi e Moola Shadra. Uma liturgia shiita do Graal (O ritual do cálice, a pessoa de Abul-Khattab. Doutrinas. "O vinho de Malakut"). Filosofia profética e metafísica do ser. Sufismo e Sofiologia. Sentido musical da mística persa. São conferências e textos publicados em revistas ou inéditos. Na teoria do conhecimento visionário, publicada em 1977, num colóquio religioso, transmite alguns dos leif-motivs dos filósofos místicos iranianos e da sua interpretação: «uma filosofia que não desemboca numa realização espiritual pessoal (ta'alloh) é uma perda vã de tempo», e há uma gnoseologia visionária a desenvolver-se quanto ao órgão subtil e quanto ao local ou espaço dimensional, seja o elevado Jabarut, o mundo das inteligência puras querubínicas, ou os Anjos intelectuais da tradição aviceniana latina, seja o Malakut, intermediário, também denominado alam al-mithal, da alma, do imaginal, dos Anjos ou almas celestes, o mais acessível à visão no olho espiritual.
8 - CORBIN, Henry. Histoire de la Philosophie Islamique. Paris, Galimard, 1986. 3ª ed. In-8º 546 p. B. Anotado. Excelente. Destaque para os capítulos sobre Sohravardi e a Filosofia da Luz, a Metafísica do sufismo, e o pensamento shiita.
9 - CORBIN, Henry. Terre Celeste et Corps ressurréction. De l'Iran Mazdéen à l'Iran Shi'ite. Paris, Buchet-Chastel, 1960. In-4º de 419 p. B. Com ded. Anotado. Obra de referência quanto à continuidade da Persia pré-islamica na islâmica, sobretudo através de Sohravardi e os seus continuadores, os Ishraqiyin, com uma boa antologia de extractos muito valiosos de vários mestres iranianos sobre os corpos e os mundos subtis e espirituais, por Corbin traduzidos por mundo Imaginal (alam mithali, ou Malakut), e que intermediariza o mundo sensível-material (alam hissi), e o mundo inteligível ou das puras inteligências querubinicas, Jabarut. Corbin falha talvez um pouco ao acentuar a imaginação activa como o órgão de percepção em Malakut sem destacar tanto a visão pelo olho-subtil espiritual, que não é produto da imaginação, mas maturação e graça no corpo subtil-espiritual, e na awliya ou corpo místico dos Amigos de Deus
10 - CORBIN, Henry. L'homme de Lumière dans le Soufisme Iranien. Paris, Presence, 1971. In-4º g. 231 p. B. Anotado. Excelente aproximação à orientação espiritual e iluminação, sobretudo em Sohravardi, Kobra, Nasjomddin, Ruzbehan, Najm Razi, Semnani.
11 - CORBIN, Henri, Anthologie des Philosophes Iraniens. Depuis le XVII siècle jusqu'a a nos jours. Tome I et II. Teheran, 1972 e 1975. In-4º gr. 215 e 166 p. Br. Introdução analítica, bem desenvolvida, aos filósofos Mir Damad, Mir Fendereski, Molla Sadra Shirazi, Rajba Ali Tabrizi...
12 - CORBIN, Henry. Philosophie Iranienne et Philosophie Comparée. Téhéran, 1977. In-4º g. 154 p. Tela com sobrecapas. Conferências excelentes sobre: Os desafios do comparativismo, tais o sair do historicismo e aprofundar a fenomenologia, como metodologia de abertura ao mundo imaginal, e acesso à hiero-história. Temas comparativos; as ideias platónicas. A doutrina das intensificações do ser. A periodização da historia sagrada, em 12.000 anos (criação, mistura e separação). As linhagens de mestres iranianos como Mir Damad, Mulla Sadra Shirazi, Rajab Ali Tabrizi; Três filósofos do Azerbeijão iraniano: Sohravardi, Vadud Tabrizi e Rajab Ali Tabrizi; A tradição avicenista iraniana, espiritual, comparada à do averroísmo, escolástica e sem ligação ao mundo intermediário da imaginação activa e dos Anjos e Arcanjos, o que Sohrawardi, os ishraqiyun e o Mulla Sadra tanto aprofundaram.
13 - CORBIN, Henry. Corps spirituel et Terre Celeste. De l'Iran Mazdéen à l'Iran Shi'ite. 2ª ed. Paris, Buchet-Chastel, 1979. In-4º gr 303 p. B. O corpo espiritual na tradição mazdeísta, e na shiita. E cento e cinquenta páginas antológicas de onze místicos. Livro de referência. Interessaria conferir as modificações da 1ª para a 2ª edição, inteiramente revista, de algum modo explicadas nas doze páginas do prelúdio à 2ª ed.
14 - CORBIN, Henry. L'Imâm caché. Paris, L'Herne, 2003. In-4º 301 p. B. Anotado. Ditos, tradições e crenças acerca do misteriosamente oculto XII Imam, o Madhi, que muitos creem voltar um dia à manifestação terrena para iniciar uma época luminosa da Humanidade, mas que é desde sempre o Imam interior, em unidade com os outros onze, dos que aspiram a ele, dos shi'ias que se tornam mais gnósticos ou místicos e são templos de Deus.
15- BORSI, Rajab, Les Orients des Lumières. Traduit de l'arabe par Henry Corbin. Édition établie et introduite par Pierre Lory, Institut Français de Recherche en Iran, Ed. Verdier, 1995. In-4º 120 p. B. Com vinte e duas páginas de introdução contextualizante, de um letrado shiia iraquiano que morreu no Irão, com notas de Henry Corbin e de Pierre Lory, a parte inicial dum escrito místico, baseado nas correspondências de letras, números, formas, sons, e o Alcorão e os ditos dos Imams. No prólogo Borsi lamenta a inveja e a oposição que recebeu de alguns: «Eu não cometi qualquer falta senão de ter partilhado a quinta-essência das Tradições imâmicas (os akhbar) e ter feito jorrar a centelha da elite espiritual cujo incenso se espalha, traçando o seu caminho, difundindo a sua fragrância, tornando-se uma unção aromática útil ao doente, refrescando o sedento.» Um capitulo dedicado ao nome de Allah, outra aos sete atributos: o Vivo (Hayy), o que sabe ('Alim), o que quer (Murid), o que pode (qâdir), o que fala (Mutakallim), o generoso (Jawad), o Justo (muqsit).
CORBIN, Henry. 16 a 19 - En Islam iranien. Aspects spirituels et philosophiques. I Le shi'isme duodécimain. II Sohravardi et les Platoniciens de Perse. III Les Fidèles d' amour. Shi'ism et soufisme. L'École d'Ispahan, l'École de Shaykhie, Le Douzième Imâm. Paris, Gallimard, 1971, 1972. Br. In-4º XXIX-332, 384, 355 e 567 p. B. Anotados. Quatro excelentes livros sobre: I - a origem e hierohistória do Shiismo e dos XII Imam. II - Sohravardi, e a Teosofia Oriental; a Luz da Glória madzeísta (Xvarnah) e a Angeologia; a Luz da Glória e o Santo Graal; os contos da gesta mística e da gesta gnóstica. III - Os místicos dos séc. XIV e XV : Ruzbehan Baqli e o sufismo dos Fiéis do Amor. Sufismo e shiismo: Haydar Amôli, teólogo shiita do sufismo. E ensinamentos de Ali Torkeh Ispahâni, sobre os sentidos espirituais, e os de Alâoddawleh Semnâni, sobre os sete órgãos subtis do ser humano. E IV - As escolas mais modernas, de Isfahan (Moola Sadra, Qazi Sa'id Qommi) e a Shaykhie ( Ahmad Ahsa'i). E o 12º Imâm. Henry Corbin e Louis Massignon foram dos melhores conhecedores ocidentais da filosofia e espiritualidade islâmica, iraniana e shiia, esta sendo talvez a obra chave de Henry Corbin.
Vamos terminar a aproximação aos ensinamentos de Sohrawardi transmitidos no 1º Livro no seu Kitab Hikmat a-Ishrâq, o Livro da Sabedoria Oriental, traduzindo da versão dada por Henry Corbin, e retomando o parágrafo 127, no artigo anterior referido abreviadamente:
«127. Outro esclarecimento: Como foi posto em evidência que a realidade do teu Eu pessoal (ana'îya) é uma Luz imaterial conhecendo-se a si mesma e que as Luzes imateriais não se diferenciam entre elas quanto à essência, é preciso então que todas se conheçam, pois o que é necessário a uma coisa é igualmente a tudo o que participa com ela na mesma essência. Isto é uma outra via [provavelmente a intuição-visão da interdependência unitária de todas as luzes imateriais ou espirituais]. Mas porque aprendeste há pouco o que a procedia, podes dispensar esta via ou método.
IX. Sobre a Luz das Luzes.
129 - Admitindo que a Luz imaterial comporta algum tipo de indigência na sua quidade [ou essência, ou coisa em si], o que postularia esta indigência não poderia ser a substância nictifora [ou obscura] privada de vida. Esta, com efeito não tem qualquer aptidão para conferir a existência a algo que seja mais nobre e mais perfeita que ela própria e que não tenha dimensão subtil. Como é que quem leva em si mesmo a noite poderia conferir a Luz? Se a Luz imaterial [ou espiritual] tem necessidade de algo para se tornar realizada será duma Luz subsistente por si mesma.
131 - Como a primeira explicação geral, nós diremos isto: se a qualidade tenebrosa fosse imanente à Luz das Luzes, teria de se concluir que, na sua própria essência, há uma dimensão tenebrosa que ela mesmo implicaria. Desde então [ou se assim fosse], ela seria composta, e ela não seria Luz pura (...)
134 (...) Assim, encontra-se estabelecido que a Luz das Luzes está separada de tudo o que é outro que ela própria. Nada lhe pode ser anexada. E não se pode representar que exista algo mais belo do que ela. Enfim, como o conhecimento que uma coisa tem de si volta, no fim de contas, ao facto que ela seja ela mesma revelada a si, e como a Luz das Luzes é a luminescência pura da qual a epifania não é devida a nada mais do que ela mesma, desde então, nem a vida, nem o conhecimento que a Luz das Luzes tem de si, não são algo que se acrescenta à sua essência. Assim também te foi dada precedentemente a prova [de não serem necessários acrescentos] a propósito de toda a Luz imaterial [ou seja espiritual, menor na intensidade luminosa que a Luz das Luzes, mas a ela se abrindo como sua Fonte]
Embora ao seleccionar apenas alguns parágrafos do Livro da Sabedoria Oriental, esteja a fragmentar o pensamento e ensinamento de Sohrawardi, e por isso recomenda-se a sua leitura, cremos ainda assim ser visível e compreensível a sua linha de valorização da Divindade enquanto a Luz das Luzes, Nûr-e-Nur, sem qualquer indigência ou necessidade em Si, bem como a impossibilidade de que qualquer e todo tipo de Luz ou de ser, nas suas séries, não provenha da Luz das Luzes, a sua Fonte. Há ainda uma crítica como absurda à ide da manifestação cósmica provir das trevas, caos, noite, ou dum infinito sem Fonte Primordial.
Importante ainda a afirmação de que o Eu íntimo ou ipsidade nossa é Luz imaterial ou espiritual que deve autoconhecer-se a si mesma como Luz própria e não recebida do exterior, ainda que deva verticalmente conectar-se ou ligar-se com a Nûr e- Nûr Luz das Luzes. O que em geral implicará a mediação da face divina, ou do Anjo da guarda, ou do Imam, ou da Inteligência arcangélica, como mais à frente no livro será realçado
Possamos afirmar-nos ou reconhecermo-nos como Luz e ser abençoados pela sagradíssima Luz das Luzes, e participarmos sábia ou luminosamente na harmoniosa interdependência da unidade do género humano, pela fraternidade espiritual e a multipolaridade política e civilizacional, tal como o sagrado Irão tanto aspira e luta resilientemente contra as forças da inveja e do ódio.
Que a Luz do Logos e Amor divino brilhe vitoriosamente em nós e nos iranianos, nos russos, nos chineses, nos que lutam pelo bem da Humanidade. Ou, tal como ecoam milenariamente as palavras de Shihab al-din Sohrawardi: - Que a Luz Sacro-santa (al-muqaddas), a Sublime e suprema Luz (al-a'zam al-'a'la), a Luz toda Vitoriosa (al-qahhar), brilhem invencíveis no Irão, nos Ishraqis e nos que lutam pela multipolaridade sã do mundo e demandam a Luz mais íntima do Oriente Divino e a sua manifestação no polo, eixo ou qutb do Bem e da Verdade.
Livro I. Cap. III. p. 109. «A Luz divide-se em Luz que é uma qualidade para um outro que si: é o caso da Luz adveniente (nûr arid) - e na Luz que não é uma qualidade para um outro que si: é a Luz imaterial (nûr mujarrad), a Luz pura (mahd).
A Treva (zulma) não exprime senão a ausência de Luz.
Cap.. V. 114. Tudo o que possui uma ipesidade (dhat), da qual nunca está ausente, não é uma ser da noite, ou nocturno, pois ele próprio esta revelado a si mesmo. Não é também uma qualidade tenebrosa, imanente a qualquer coisa de outro, pois se a qualidade luminosa ela própria não é já uma Luz para si mesma, com mais forte razão a qualidade tenebrosa não será ela. Portanto o que jamais está ausente de si mesmo é uma Luz pura, imaterial, que não se pode mostrar....
Cap. VI. 115. ... Quando o sujeito julga ou pensa que todo o atributo que se acrescenta à sua ipseidade [ou identidade intima, primordial; ou mónada, ou unicidade] trata-se dum conhecimento ou de qualquer outra coisa pertence à sua ipseidade, é que ele já se conhece a si mesmo, anteriormente a todos os atributos e independente deles. Portanto não é pelos atributos, que se acrescentam à sua ipseidade, que ele terá consciência de si mesmo.
Cap. VIII. 127. Como foi posto em evidência que a realidade do teu Eu pessoal (ana'iya) é uma Luz imaterial conhecendo-se a si mesmo e que as Luzes imateriais não se diferenciam entre elas quanto à essência, é preciso que todas se conheçam, pois o que é necessário a uma coisa é igualmente a tudo o que participa com ela na mesma essência....»
E eis-nos com ensinamentos substanciais e profundos de auto-consciencialização luminosa. No 126, Sohrawardi questiona a diferenciação das essências dos espíritos, pondo em causa que além da luminiscência (nurîya) pudesse haver algo de outro que se acrescentasse de exterior à sua essência (haqiqa), e conclui que as «Luzes separadas da matéria não são diferenciadas quanto às suas essências (haqiqa)».
Creio ser uma visão e posicionamento talvez relacionado com a unicidade de Deus, tawhid, tão absoluta e crucial no Islão, ou melhor, derivada dela para intuir e professar também a unicidade da essência dos espíritos humanos. Talvez disto tenha resultado, ou se favoreça ou propicie, a grande fraternidade islâmica, as orações em grupo grandes, ou mesmo as confrarias ou tariqas iniciáticas...
Continuaremos este trabalho em prol da iluminação, da tradição ishraqi e da vitória do bem e da verdade contra a mentira, o ódio e o assassinato, como estamos a presenciar na agressão à civilização e gente sagrada do Irão.