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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Os mestres do Irão eterno: Sohrawardi, o sheikh Ishraqi, ou o sábio da Luz iluminante. Extractos do Kitab Hikmat a-Ishrâq, o Livro da Sabedoria Oriental.

                                  

 Sohravardi, ou Shihāb al-Suhrawardī (1154-1191) - um dos mestres iranianos, da zona do Khorasan, que conseguiu fazer a ligação da tradição zoroástrica e grega com o Islão - , aprofundou bastante o caminho da sabedoria, do auto-conhecimento, da Luz espiritual e Divina e no Livro da Sabedoria Oriental, traduzido e estudado por Henry Corbin, transmite muita indicação útil aos peregrinos espirituais, aos que demandam a Luz íntima, auroral ou Oriental, Ishraq.
Já partilhamos no blogue o prefácio que um místico ou filósofo espiritual, seu discípulo, Qotboddin Shirazi, escreveu depois da sua morte e hoje vamos apresentar alguns ensinamentos valiosos dos I livro dos cinco em que se divide o Kitab Hikmat a-Ishrâq, o Livro da Sabedoria Oriental.
Será uma boa oportunidade para os leitores portugueses que aspiram a tornar-se mais auto-conscientes, luminosos, harmoniosos e religados superiormente poderem comungar na Luz, manifestada pelo Sheik Ishraqi,em 1191, Alepo, na Síria,  martirizado pelo famoso Saladino e os clérigos mais reacionários que não apreciavam a sua elevada estação ou altura metafísica e mística e a sua boa relação espiritual com o que não era estritamente corânico, tal os sábios antigos da Pérsia e da Grécia, numa linha de Teologia ou filosofia perene, também chamada a Prisca Theologia

Livro I. Cap. III. p. 109. «A Luz divide-se em Luz que é uma qualidade para um outro que si: é o caso da Luz adveniente (nûr arid) - e na Luz que não é uma qualidade para um outro que si: é a Luz imaterial (nûr mujarrad), a Luz pura (mahd).

A Treva (zulma) não exprime senão a ausência de Luz.

112 - 1ª regra geral. Que a Luz imaterial não pode ser objecto duma indicação sensível
Desde que  sabes que toda a Luz que se pode mostrar é uma Luz Adveniente, logo se existe uma Luz pura, não se a pode mostrar; ela não pode residir num corpo e ela não tem dimensão espacial.

Cap.. V. 114. Tudo o que possui uma ipesidade (dhat), da qual nunca está ausente, não é uma ser da noite, ou nocturno, pois ele próprio esta revelado a si mesmo. Não é também uma qualidade tenebrosa, imanente  a qualquer coisa de outro, pois se a qualidade luminosa ela própria não é já uma Luz para si mesma, com mais forte razão a qualidade tenebrosa não será ela. Portanto o que jamais está ausente de si mesmo é uma Luz pura, imaterial, que não se pode mostrar....

Cap. VI. 115. ... Quando o sujeito julga ou pensa que todo o atributo que se acrescenta à sua ipseidade [ou identidade intima, primordial; ou mónada, ou unicidade] trata-se dum conhecimento ou de qualquer outra coisa pertence à sua ipseidade, é que ele já se conhece a si mesmo, anteriormente a todos os atributos e independente deles. Portanto não é pelos atributos, que se acrescentam à sua ipseidade, que ele terá consciência de si mesmo.

116. Tu não te ausentas de ti mesmo nem do conhecimento que tens de ti. Como não é possível que o acto de conhecer (idrak) se produza por uma forma (sura) ou porque qualquer adicionamento, resulta que não tens necessidade, para te conheceres a ti mesmo, de outra coisa que dessa própria ipseidade, revelada a si, ou seja que não esteja ocultada a ti.
É preciso pois que o conhecimento  que tens de ti mesmo seja um conhecimento que se gera por causa dele mesmo tal qual ele é.  Isto implica igualmente que tu nunca esteja estejas ausente de ti mesmo nem de uma parte de ti mesmo. Aquilo de que acontece a tua ipseidade estar ausente - por exemplo, os órgãos, tal como o coração, o fígado, o cérebro, ou bem o conjunto dos espaços intermediários (barzakhs) e as qualidades tenebrosas e luminosas -, nada disso é o que tu és, em ti mesmo, o sujeito conhecedor (mudrik); pois o que é em ti o sujeito-conhecedor não é um órgão físico, nem uma coisa corporal. Senão nunca estarias jamais ausente, desde que tenhas  tivesses uma consciência contínua, ininterrupta, da tua ipseidade.

Cap. VII. 121. A Luz divide-se em Luz que é em si e para si, e a Luz que é Luz em si, sendo ainda Luz para um outro. Sabes, com efeito, que a Luz adveniente é uma luz para um outro, pois, se bem que seja uma Luz em si, ela não é uma Luz para si mesmo, pois que ela existe para um outro que ela mesma. A substância nictifórica ou nocturna (ghasic), não se revela nem em si nem para si, segundo o que já sabes. Ora a vida é o Agente-Conhecedor. O Conhecimento já sabes o que é. Quanto ao acto que pertence igualmente a Luz, ele é manifesto, pois por essência a Luz é efusiva.
É por isso que a Luz pura é viva, e reciprocamente, todo o vivo é Luz pura.
Quanto ao obscur
o (ghasic), se ele se conhecesse a si mesmo, ele seria uma Luz para si mesmo; desde então ele não seria uma substância nocturna.

Cap. VIII. 127. Como foi posto em evidência que a realidade do teu Eu pessoal (ana'iya) é uma Luz imaterial conhecendo-se a si mesmo e que as Luzes imateriais não se diferenciam entre elas quanto à essência, é preciso que todas se conheçam, pois o que é necessário a uma coisa é igualmente a tudo o que participa com ela na mesma essência....»

E eis-nos com ensinamentos substanciais e profundos de auto-consciencialização luminosa. No 126, Sohrawardi questiona a diferenciação das essências dos espíritos, pondo em causa que além da luminiscência (nurîya) pudesse haver algo de outro que se acrescentasse de exterior à sua essência (haqiqa), e conclui que as «Luzes separadas da matéria não são diferenciadas quanto às suas essências (haqiqa)». 

Creio ser uma visão e posicionamento talvez relacionado com a unicidade de Deus, tawhid, tão absoluta e crucial no Islão, ou melhor, derivada dela para intuir e professar também a unicidade da essência dos espíritos humanos. Talvez disto tenha resultado, ou se favoreça ou propicie, a grande fraternidade islâmica, as orações em grupo grandes, ou mesmo as confrarias ou tariqas iniciáticas...

Continuaremos este trabalho em prol da iluminação, da tradição ishraqi e da vitória do bem e da verdade contra a mentira, o ódio e o assassinato, como estamos a presenciar na agressão à civilização e gente sagrada do Irão.