Ramanuja, Aum Sri Gurabe Namah
Sri Ramanuja (1017-1137) foi um dos mestres da espiritualidade indiana mais importantes nascido nos tempos medievais pois abordou, a partir dos textos tradicionais, mas com originalidade e profundidade os mistérios da ligação ao espírito e à Divindade. E estando a trabalhar nele para o divulgar hoje, dei-me conta, ao procurar a sua data de nascimento, que era exactamente hoje 25 de Abril o seu dia de anos, jayanti, conforme o calendário lunar de 2023.
Vivendo no Sul da Índia, religioso em Kanchipuran, na linha Vaishnava, isto é, seguindo um linha devocional (bhakti) e com adoração especial a Vishnu Narayana, era também um filósofo Vedanta, mas não tanto só Advaita, pois foi o fundador duma das quatro escolas, a que vê diferenças entre Atman, espírito individual e Brahman, a Divindade.
Comentou, na sua Bhashya, as obras principais da espiritualidade da Vedanta, nomeadamente os Vedas, os Brahma Sutras, as Upanishads, a Bhagavad Gita, tal como compete a qualquer novo acharya ou professor mestre dum novo ensinamento.
Perante a linha dominante do Advaita Vedanta, ainda hoje muito seguida, só há um Espírito, uma Divindade, uma Consciência, sendo os diversos seres apenas manifestações transitórias ou temporais dessa Consciência Divina una, Brahman, que perpassa por elas, de tal modo que a iluminação ou libertação está em reconhecermos que não existimos, que a ideia de eu (ahamtva) é uma fantasia de ignorantes, um egoísmo primário, uma ilusão, tal como a ideia de que há espíritos individuais imortais, e que devemos é reconhecer esse Um Espírito Consciência omnipresente, omnipenetrante.
Sri Ramanuja vai então afirmar que embora a Divindade seja essa entidade única de consciência ela é também um ser individual e que acolhe em si os seres individuais, que são eus conscientes ou conhecedores de si mesmo, do mundo e da Divindade suprema, Parabrahman.
No Vedartha-Sangraha, no qual expõe sua cosmovisão baseando-se ou interpretando as Upanishads, escreve no s. 99: «Os eus individuais (atman) são essencialmente de natureza de puro conhecimento, sem restrições e limitações. Eles cobrem-se de ignorância ou nesciência sob a forma de karma. A consequência é que a abrangência do seu conhecimento é cortada de acordo com o karma. E assim revestem-se de formas desde as divinas até às das espécies mais baixas. O conhecimento é então limitado pelas especificidades corporais, e de acordo com elas ficam sujeitos a prazeres e dores, que na sua essência constituem o samsara, o rio da existência transmigratória. Para tais individualizações, tão perdidas no samsara, não há outro meio de emancipação, do que se entregarem à suprema Divindade (...) A natureza essencial do eu individual é tal que ele é [ou deveria ser] completamente servidor e instrumento de Deus e portanto Deus é o seu eu interior (...). Esta entrega é trabalhada ou fortificada pela devoção amorosa à Divindade...
Chamar-se-à visistadvaita ao seu sistema ou cosmovisão, pois há a unidade não dual divina, advaita, mas que inclui as diferenças em si, visista. Face às três visões de relacionamento do mundo, eu e Deus vistas pelos rishis védicos e expostas nas Upanishads, a 1ª como havendo diferença de natureza entre eles, 2ª Brahman é o eu interior de todas as entidades, da terra ao ser humano, e que constituem o seu corpo, 3ª unidade de Brahman com o mundo tanto no aspecto causal como factual, Ramanuja afirmará, no Vedartha Sangraha s 117: «Nós sustentamos a Unidade porque só Deus existe sendo todas as outras entidades seus modos. Nós sustentamos ou afirmamos ambos, a Unidade e a Pluralidade, já que o Brahman um tem todas as entidades físicas e espirituais como seus modos e portanto existe qualificado pela pluralidade. E defendemos ou afirmamos a pluralidade já que as três entidades - os eu individuais, o mundo e a Divindade suprema - são mutuamente distintas na sua natureza substantiva e atributos e não há transposição mútua das suas características.»
Este comentário às Upanishads, o Vedartha Sangraha tem muitas passagens valiosas. Uma delas, por exemplo, é aquela em que explica que o éter ou akasa interno, referido na Chandogya VIII, i, 3 como o éter contido no lótus do coração, é infinito como o do exterior e é a própria Divindade. Algumas vezes Ramanuja recorre a outros textos, tal no Mahabharata, Moksa CLXXIX,4: em que Brahma diz a Rudra: «O teu eu interior, o meu eu interior, e o eu interior de todos os seres em corpos é o senhor supremo Narayana».
Também no seu comentário à Bhagavad Gita encontramos detalhadas compreensões destes mistérios primordiais. Oiçamo-lo quanto à Divindade, Brahman:
A suprema Pessoa ou Individualidade (parama Purusa) cujo jogo (lila) é a criação, preservação e dissolução de todo o Universo, e cuja natureza essencial está livre de qualquer traço de imperfeição e que é auspiciosa, e que é o imenso Oceano de todas as qualidades auspiciosas começando com o ilimitado e pre-eminente conhecimento (jnana balaisvarya), força (virya sakti), glória, energia, poder e brilho, que são naturais em si, é chamada a suprema Divindade (Parabrahma)» Gītābhāṣya 18, 73.
Ou ainda:« O atman é emitido ou manifestado por Brahman, é regido por Ele, constitui o Seu corpo, serve-O, habita Nele, é mantido por Ele, e [por fim] Ele retira-se dele.» Śrībhāṣya, 2.3. 42
Quanto ao caminho da realização, como era um Vaishnava, um devocional e não tanto um yogi da linha do Raja Yoga de Patanjali, ele vai desvalorizar as capacidades de percepção extra-sensorial do yogi, da meditação e do samadhi, para valorizar a meditação (dhyana ou upasana) apenas como um relembrar (smriti) firme de um texto ou frase sagrada, que gera pela imaginação um tipo de visão semelhante ao da percepção directa, mas que só ganha a capacidade de conhecer atman ou Brahamn quando alcançar o estado de amor ou devoção, bhakti prema.
Mas este estado de amor e do mais elevado conhecimento vem ou acontece por graça e por isso cita no Vedartha-Sangraha, a famosa frase da Katha Upanishad, 2. 23: «Este Atman não pode ser ganho pelo estudo dos Vedas, nem pelo pensamento, nem por muito ouvir; só aquele que Este Um escolhe, por ele, Ele é obtido; a ele este Atman revela a sua própria forma.»
Realçará muita a meditação devocional amorosa pelo Atman, já que pela sua indiferença ao mundo e o forte amor concentrado para com a Divindade que gera, a pessoa consegue ser escolhida ou recipiente da Graça Divina.
A meditação ou a visão yoguica não leva, para Ramanuja, à auto-realização, ou à realização de Brahman, mas apenas serve para gerar a devoção ou amor à Divindade.
E assim o caminho religioso ou espiritual para Sri Ramanuja consiste em estudar os textos sagrados para obter um conhecimento correcto, em desenvolver as virtudes da equanimidade e generosidade, em realizar as acções desinteressadamente e como adoração a Deus, o que gera desprendimento e calma e, finalmente, a meditação ou visão do atman interno individual (atman darshana) que gera gratidão e devoção à Divindade, a qual deve ser aprofundada ainda pela consideração ou meditação dos Seus atributos, levando a que Ela se manifeste ou desvende mais, nomeadamente como a regente interna (antaryamin), a voz da Consciência de Antero de Quental, o reino dos Céus que está dentro de nós.
Saudemos e invoquemos as bênçãos de Sri Ramanuja e que a nossa devoção ou amor à Divindade aumente.
Bibliografia utilizada, da tradição tão valiosa deste mestre e que foi abordada brevemente mas que esperamos aprofundar ainda:
- Sri RAMANUJACARYA. Vedartha-Sangraha. English translation by S. S Raghavachar, with foreword by Swami Adidevananda. Mysore, Sri Ramakrishna Ashrama, 1978.
LESTER, Dr. Robert C. Ramanuja on Yoga. Madras, Adyar Library and Research Center, 1976.
Livros, Arte, Amor, Religião, Espiritualidade, Ocultismo, Meditação, Anjos, Peregrinar, Oriente, Irão, Índia, Mogois, Japão, Rússia, Brasil, Renascimento, Simbolismo, Tarot, Não-violência, Saúde natural, Ecologia, Gerês, Nuvens, Árvores, Pedras. S. António, Bocage, Antero, Fernando Leal, Wen. de Morais, Pessoa, Aug. S. Rita, Sant'Anna Dionísio, Agostinho da Silva, Dalila P. da Costa, Pina Martins, Pitágoras, Ficino, Pico, Erasmo, Bruno, Tolstoi, Tagore, Roerich, Ranade, Bô Yin Râ, Henry Corbin.
terça-feira, 25 de abril de 2023
Ramanuja jayanti de 2023, a 25 de Abril. Ensinamentos breves, no seu 1006º aniversário.
segunda-feira, 24 de abril de 2023
Dia do Livro: Tucker Carlson clama face à opressiva censura da Amazon sobre os livros de Dugin.
Tucker Carlson (n.16.05.69) é uma das pouquíssimas vozes que clamam no desertificante meio mediático e jornalístico norte-americano, com um programa televisivo visto diariamente por milhões de almas menos manipuladas e alienadas e que ainda aspiram à verdade e justiça, sob a opressão tremenda de tantas instituições e organizações que não recuam perante nada para atingir os seus fins de manipulação e domínio das psiques e da Humanidade.
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| A mártir Darya Dugina. Muita luz, amor e paz nela! |
Creio que é sabido como a sua política agressiva e de hegemonia tenta secar e acabar com a eventual concorrência que outras distribuidoras, editoras ou livrarias lhe façam. Basta vermos quando se abre o Google ou outros motores de busca na procura de qualquer livro: as primeiras sugestões pertencem à Amazon, que quer tenha o livro à venda, quer não o tenha, e sobretudo neste caso, ocupa a sua atenção e o seu tempo apresentando os títulos procurados mas nem sequer os tendo tido alguma vez disponíveis... O que é isto senão engodo e ludibrio?
Nunca comprei um livro no Amazon, e sempre os procurarei em alfarrabistas, livrarias locais ou alternativas, ou em motores de busca, tal o Abebooks, como o nosso mais modesto OLX, que me levem directamente aos livreiros ou pessoas que os possuem.

Tucker Carlson é um dos poucas vozes corajosas que critica a administração fora da lei e mentirosa de Joseph Biden e dos Democratas e oligarcas que os sustentam, expondo dezenas e dezenas de casos de corrupção e mentira, nomeadamente à volta das vacinas. Como é que ainda está vivo no país do assassinatos até é de admirar. Oiçamo-lo ao vivo, com o seu estilo e voz tão peculiar, e recomendo que espreite volta e meia, no Youtube, o canal Fox News pois não ouvirá nele as banalidades avençadas que os nossos canais televisivos oferecem no estilo dos patetas alegres Milhazes e Rogeiros, tão bem zurzidos em vídeo por Herman José.
Que as censuras absurdas do Amazon, do Facebook e de outras redes ou as políticas de alguns regimes mais extremistas, ou vendidos-escravizados, de cancelar-se a cultura russa terminem e a livre circulação de livros e a proveitosa discussão de ideias possa acontecer para que a verdade e a justiça se afirmem numa Humanidade una e fraterna.....
No dia 24.4.23, um dia posterior ao Dia do Livro e um dia antes do 25 de Abril libertador mas já tão abafado e atraiçoado ou explorado pelos nossos governos corruptos do centralão. Que as flores possam florescer de novo ou bastante mais....
Ps. Anote-se que poucos minutos depois de ter escrito este artigo vou à web e leio que Tucker Carlson foi banido do seu programa diário nocturno, Talk Show, que dirigira de 2016 a 2023... Parece que adivinhei... Disse muito da verdade a milhões de americanos, nomeadamente acerca da corrupção e criminalidade das vacinas, do conflito na Ucrânia do Ocidente globalista e infrahumanista contra a Rússia tradicional, nomeadamente através dos muitos laboratórios de guerra biológica que tinham instalado, e do valor de Robert Kennedy Jr. face ao semi-demente Joe Biden... Que Tucker Carlson prossiga!
domingo, 23 de abril de 2023
Ensinamentos espirituais de Rishi Atri e do seu Atma Bodha Satsanga. 1ª lição do seu curso.
Não me lembro ao certo como cheguei a saber da sua existência mas creio que foi ao comprar a obra sua Aperçus sur le Kriya Yoga (voie d'évolution rapide), na Procure, uma das livrarias francesas com mais livros de espiritualidade no cais de S. Michael em Paris, escrevendo-lhe então e ficando a saber da existência de dois cursos por correspondência em 12 lições mensais cada a que aderi, lendo, aprendendo, dialogando, praticando.
E tendo conservado até hoje tais preciosas "relíquias" (já que eram policopiadas) quase desconhecidas, resolvi resumir, contextualizar e partilhar para o homenagear e para frutificar um pouco o seu ensino e alma nas dez ou vinte pessoas que lerão esta publicação, ou as eventuais seguintes, no blogue.
Entrando directamente na 1ª lição do curso, de introdução à espiritualidade indiana e à iniciação no Kriya Yoga, Rishi Atri, depois de citar na epígrafe inicial Swami Vivekananda numa das suas valiosas passagens, e logo duas páginas depois o seu mestre Sri Ramakrishna Paramahamsa, esclarece que os ensinamentos transmitidos não são dogmáticos mas apenas princípios e indicações a serem confirmados pela experiência de cada um e que visam conduzir-nos à experiência da Realidade última, ou reino de Deus, que está em nós.
É por uma vida justa, amorosa, criativa, e pela persistência ou longa paciência no caminho do auto-conhecimento e da concentração que se vai criando o estado de calma que permite tornar-nos conscientes do que não muda e entrarmos em contacto com o permanente, com o que está para além da dualidade, o Divino.
Realça a importância de uma prática ou treino de acalmia mental nas três vias de yoga principais, pois se não há a paz, devido à agitação das vagas de pensamento e preocupações, não se consegue criar um contacto direto permanente com o mestre ou a divindade cultuada devocionalmente (Bhakti Yoga), ou com a unidade do Todo (Jnana Yoga), ou com o plano supramental que permite o vencer-se o pequeno eu através da acção desinteressada (Karma Yoga).
A explicação que é dada das três etapas finais do Raja Yoga, do Patanjali, é:
1º Dharana: é uma forma de concentração intermitente na qual os pensamentos parasitas fazem ainda erupção ou entrada.
2º Dhyana: é uma concentração contínua sem que irrompam pensamentos parasitas.
3º Samadhi: é a concentração a mais perfeita, onde a noção de actor e de acção desaparece na Unidade.
Referindo os suportes internos de meditação mais conhecidos, os cinco elementos e o som e a luz, dirá algo importante e que tendemos a esquecer: ver-se a luz ou ouvir-se o som não é o objectivo da concentração, mas sim atingir-se a calma interior, e logo a ligação ao Espírito em si.
| Aum: A, U, M...e a nasalação interior em abelhinha... |
Dirá ainda judiciosamente que «o Aum deve ser repetido um certo número de vezes, segundo o tempo disponível» sugerindo algo que muita gente se esquece que «um mínimo de um quarto de hora é contudo necessário para se obter um certo grau de calma, e este tempo pode ser sem perigo prolongado à vontade.» E ainda que «este japa ou repetição deve ser executado com convicção, respirando-se calmamente, se queremos tirar efeitos benéficos», recomendando ainda que se recite antes de se começar tal prática alguma oração ou em especial o cântico tradicional a Brahman, à Divindade.
Concluirá a 1ª lição com directivas gerais conhecidas, tais como sentirmos que os ambientes nos influenciam, e que até reagem contra nós por pessoas que estão contrárias aos nossos desígnios, e que não devemos insistir ou forçar novos aderentes ou crentes, realçando ainda que a fé não é uma crença mole, mas a potência criadora do espírito, que nos ajuda a evoluir, a renascer, a realizar o Ser espiritual e divino.
E dará ainda a explicação dos símbolos da Atma Bodha Satsanga ou associação por ele fundada e que estão na capa, em que vemos ao alto o Aum num círculo (o Purusha, a Consciência cósmica para além da dualidade ou criação) dentro dum triângulo (das três gunas ou características da matéria, satva, rajas e tamas) dentro de uma cruz (a multiplicidade e em que pelo eixo ou trave central nos elevamos ao Eu espiritual).
E em baixo a bela imagem (e da qual D. João de Castro falou), esculpida numa gruta de Elefanta, junto a Bombaim, da Trimurti ou trindade indiana Brahma, Vishnu e Shiva e que simboliza os três aspectos manifestados de Iswara, a consciência cósmica envolvida por Maya, ou seja a ilusão cósmica [material e subtil]. Brahma, à esquerda o criador, Vishnu ao centro o preservador e à direita Shiva, o destruidor [ou transmutador].
Saibamos orar, meditar e realizar a oração da imagem inicial, extraída do Yajur Veda, I,111, 28:
tamasomā jyotir gamaya
mrityormā amritam gamaya
Oṁ śhānti śhānti śhāntiḥ
Oṁ Do irreal conduz-nos ao Real,
Da obscuridade à Luz
Da morte à imortalidade.
Oṁ paz, paz, paz.
sábado, 22 de abril de 2023
Um poema espiritual. Da viagem. Da peregrinação criativa em Sat Chit Ananda, Ser, Consciência, Felicidade
A saúde está em crescimento.
O Ser todo ele ergue-se numa força interior.
A criatividade do Absoluto.
Livre de todos e de tudo.
Sozinho, o ser segue o seu rumo, feliz em si, Sat Cit Ananda.
Um plano para se cumprir,
Criatividade total.
A estrada é como se nevasse e avançamos
nos caminhos das pistas geladas dos Himalaias
aquecidos pelo fogo da gratidão, do amor, do Espírito.
sexta-feira, 21 de abril de 2023
História da Religião na Arte: Hermenêutica do Cristianismo e da Transfiguração, numa gravura quinhentista de João Wierix.
A história, sempre misteriosa e controversa, da vida de Jesus, ao ser narrada pela arte, gerou muitas obras primas, capazes de tocarem e instruírem os que as contemplavam, e por esse modo entrarem em contacto com Jesus, ou com os ensinamentos e forças que ele teria partilhado, ou simplesmente com a devoção e amor sentidos.
Se grande parte da vida do mestre da Palestina está descrita com provavel historicidade nos Evangelhos, uma parte significativa mais misteriosa e discutível foi representada com bastante naturalidade e espiritualidade, incluindo-se nela as miraculosas anunciação, nascimento, transfiguração, ressurreição e ascensão, para não falarmos dos milagres.
Vamos então contemplar da vida de Jesus a ascensão da série de cento e cinquenta e quatro imagens gravadas no séc. XVI pelos irmãos Wierix e, com pequenas legendas do padre Jerónimo Nadal, publicada pela 1ª vez em 1593 no livro intitulado Evangelicae historiae imagines, pois para além do simbolismo religioso e da sua beleza (já que eram bons artistas, tendo trabalhado até com o famoso impressor Cristóvão Plantin e tornando-se depois suas obras modelos de muitas pinturas), é boa ou propícia à compreensão e contemplação do corpo espiritual ou de glória, no caso de Jesus mas que todos nós temos em potencial, podendo até admitir-se que um objectivo fulcral da vida humana é o de desenvolverem-se estados de consciência unitivos que façam crescer tal corpo subtil de luz, com o qual, deixado o corpo físico à hora da morte, avançaremos nos mundos subtis e espirituais acercando-nos da Fonte.
Se esta ideia de um coro espiritual faz sentido em nós, então no dia a dia estaremos mais atentos aos nossos estados de consciência e actos, ao que eles causam no nosso corpo de luz, e logo corrigi-lo, melhorá-lo, sintonizá-lo.
O corpo espiritual ou de glória é sobretudo representado na aura ou oval luminosa e irradiante que emana do corpo de Jesus em quatro esferas sucessivas, e na cabeça em seis, podendo observar-se luz, raios de luz e anjos.
Seria interessante sabermos se os três irmãos religiosos João, António e sobretudo Jerónimo Wierix, que desenharam o conjunto das 154 gravuras (e Jerónimo, 65 delas), porque escolheram diferentes formas de representar Jesus no seu corpo de glória, esta estando assinada pelo João, por exemplo, diferente da forma na Transfiguração, da autoria de Jerónimo. Contudo parece ser comum um entendimento que na consciência espiritual de Jesus, expandida em corpo espiritual, feito de partículas, ondas e raios de luz, cabem ou coexistem espíritos angélicos, vistos como anjinhos, na visão espiritual...
Ou ainda se gostariam de lhes dar certas cores, tal como alguns exemplares das gravuras vieram posteriormente a apresentar e assim emergindo no mercado da arte devocional ou bibliófila? Dourada, flamejante? E as nossas cores auricas espirituais, estão elas claras e ardentes, nem que seja de vez em quando?
O segundo aspecto importante é vermos e logo contemplarmos, se os observarmos mais demoradamente, vários anjos (e os dois da frente, quais os imaginados dois querubins à porta do Paraíso), vários seres e coros celestiais, além dos espíritos humanos (o que constitui o corpo místico da Igreja) que já libertos do seu corpo gozam da possibilidade de contemplarem o mestre Jesus, os espíritos celestiais, a Divindade e de servirem até de intermediários e ajudantes Dela....
E isto é certamente uma boa ajuda para as nossas mentes ou almas, tão esquecidas do nosso ser espiritual e destas congregações que nos podem inspirar e auxiliar, ou nas quais podemos participar pela oração, a irradiação, o testemunho, as virtudes...
Boas contemplações então para si, a partir de uma cena mitológica assombrosa e que ainda hoje é acreditada por milhões de cristãos, já que Jesus morreu corporalmente, naturalmente na Gólgota e logo ressuscitou e ascendeu em corpo espiritual. Simples. Os passos evangélicos citados, e que estão dentro do ciclo ressurreição, aparecimento aos discípulos e ascensão final com despedida deles, são já uma adaptação da vida de Jesus homem à de um Deus, a fim de impressionar ou assombrar melhor as massas. E com que sucesso, nomeadamente artístico...
Saibamos nós também não esperar por uma ressurreição no final dos tempos, em corpo de carne ou outro, mas agindo e contemplando bem, possamos estar despertos e activos no corpo subtil espiritual para quando na morte formos projectados para fora do corpo físico, podermos avançar luminosamente, de preferência com os anjos e no corpo místico da Igreja, ou seja, em sintonia com os familiares, amigos e santos-santas que por qualquer motivo de afinidade nos possam guiar no começo da vida no além, da qual esta gravurinha é uma bela imagem introdutória.
Ad astra per aspera... Aos céus, purificados no corpo de glória, atravessando as dificuldades e mistérios....
terça-feira, 18 de abril de 2023
Sant'Anna Dionísio: "A Sinceridade Política de Antero", de 1949. No dia dos 181 anos de Antero, mestre para os nossos tempos.
Como exemplo flagrante invoca-se a carta dirigida pelo Pensador-poeta a Faria e Maia depois da sua epístola aos eleitores do partido socialista no círculo de Alcântara.
Como se um homem, mesmo quando da grandeza de Antero, não possa ter também as suas horas de fadiga, de desesperança e até de ironia!
Em cinco capítulos Sant'Anna Dionísio defende o que para os outros era uma causa perdida: no primeiro, Onde está a insinceridade, mostra a sinceridade de Antero, seja na Rolinada, contra a decisão do ministro Rolim de Moura de não conceder certas dispensas aos estudantes, e que fora a causa de uma greve e emigração épica de 800 estudantes da Academia de Coimbra para o Porto, liderada por ele e Vieira de Castro, seja na sua estadia curta e dura mas por duas vezes como tipógrafo em Paris, seja ainda na sua adesão sacrificial ao pedido dos estudantes do Porto para a liderar a Liga Patriótica no Norte, contra o imperialismo inglês do Ultimatum, a uns meses de morrer e que, ao não ser apoiada pelos partidos políticos, foi um factores da sua desincarnação precoce.
No terceiro capítulo A candidatura de Antero nas eleições de 1879 e 1880, mostra-nos que Antero fora convidado a candidato a deputado por um partido de operários em 1871, o que recusou, e que trabalhou em 1873 em «constituir grupos autónomos com uma programa comum, independente de todos os partidos políticos». E que em 1875, quando o Partido Socialista foi fundado, colaborou na elaboração do programa, mas só se filiando em 1877, e veio recusar em 1878 a candidatura proposta por um partido republicano, no qual concorreu porém seu amigo, mais ambicioso, Oliveira Martins embora só tenha sido presenteado com 37 votos.
Ora é em 2 de Agosto de 1879 que Antero escreve do Porto a Faria e Maia a tal carta cujo teor e fim tanto escandalizou os dois socialistas da revista Seara Nova Piteira Santos e Manuel Mendes, e outros, a qual é antecedida por esta contextualização, em geral postergada ou olvidada pelos críticos de Antero: «Isto por aqui parece-me cada vez mais podre. Entre os progressistas alguns há de boas intenções: mas tenho observado na história que quase sempre são precisamente os homens de boas intenções que fazem as maiores asneiras. Tal é a natureza humana e a das humanas sociedades. Entretanto, não quero ser pessimista, e por isso exclamo, ainda que com tíbia convicção: Deus proteja os progressistas.
Se, por acaso, vires nos jornais, que sou candidato Socialista por Lisboa, não tomes isso a sério. São coisas que podem acontecer a qualquer, independentemente da própria vontade e determinação, exactamente como apanhar chuva ou ouvir um discurso maçador».
Ora precisamente cinquenta dias depois, a 28 de Setembro, Antero escreve uma carta pública à Comissão Eleitoral do Partido Socialista «Aceitando a candidatura, que novamente me oferece a Comissão do Partido Socialista no círculo 98, folgo poder dar uma vez mais aos socialistas portugueses um testemunho da minha inalterável adesão à causa socialista», Não de deve ver pois contradição entre a carta pública na qual Antero diz em 1880 a sua adesão a uma via socializante, com o que dissera na carta de desprendida naturalidade com que serviria a ideia ou causa socialista sendo candidato a deputado, tal como chove ou faz sol e na qual parece mesmo um digambara, ou asceta do Jainismo indiano, a falar, podendo realçar-se ainda a sua disponibilidade, a sua abertura generosa e desprendida ao que lhe pediram para engrossar e valorizar a lista de candidatos.
E concluiremos este breve contributo para os poucos anterianos que lerão este texto, e os mais que raros que sinalizarão qualquer apreciação ou discordância, com um extracto do excelente posfácio de Sant'Anna Dionísio, com quem convivi bastante na década de 80 e que ressuscito um pouco dado o valor do seu conhecimento e a sinceridade, ética exigente na demanda filosófica e de liberdade, além do estilo castiço e sibilina doçura no diálogo interrogativo e maiêutico.
Oiçamos então alguns dos ensinamentos sempre actuais de Antero de Quental e de Sant'Anna Dionísio, face ao pragmatismo unilateral, ao carreirismo partidário e à falta de cultura e de humanismo de tantos políticos e consequentemente dos cidadãos, tão influenciados pela demagogia e a manipulação mediática, hoje em dia mil vezes maior que outrora:
De Sant'Anna Dionísio, no posfácio da obra:«Na verdade, Antero queria a Justiça - mas acima, se não pudesse ser ao lado da Justiça, punha ele a Liberdade - aquela liberdade ontológica e sincera que todos os democratas verídicos solicitam e desejam para ficar e não para suprimir sob qualquer pretexto falacioso ou circunstancial. A inspiração profundamente ética e proudhoneana do seu pensamento afastava-o radicalmente das soluções puramente economistas. Quer dizer; Antero, se hoje fosse vivo, abominaria o totalitarismo sob qualquer forma que ele se lhe apresentasse, no ar que respirasse ou ainda em indecisa nuvem na linha do horizonte. Tanto assim, que nos legou certas afirmações que não esquecem mais - embora o Sr. M [anuel] M[endes], na sua embófia de político empírico, sabidíssimo, citadinamente ria.»
Ou num artigo escrito para o Grémio Alentejano, na Primavera de 1862, quando ele tinha apenas 20 anos, estudante em Coimbra, já então irradiava plenamente a sua genialidade, e valorização da seriedade política e da liberdade muito: «A liberdade é a primeira condição para que alcancem as sociedades o fim para que as destina a Providência. É a condição essencial, porque o fim é a realização do bem, e só pode ser bem para um indivíduo o que ele tiver como tal, e livremente escolher e aceitar.
segunda-feira, 10 de abril de 2023
Um dito e parábola de Jesus: Realizar interiormente e semear e frutificar generosa e despreendidamente.

Do notável pré-rafaelita John Millais: semeia, frutifica..
Disse Jesus: «Eis que o semeador saiu, encheu a sua palma [de sementes] e lançou. Caíram algumas no caminho e as aves vieram e picotaram-nas. Outros caíram entre as pedras e não criaram raiz na terra e não produziram espiga para o alto, para o céu. E outras caíram entre os espinhos, que abafaram a semente, e os vermes comeram-as. E outras caíram sobre terra excelente, e ela deu fruto para o alto, para o céu, excelente, e veio sessenta por medida e cento e vinte por medida.»
Comentemos: O mestre invoca a paisagem agrícola do seu país, em grande parte pedregosa e desértica, com algumas terras apenas mais receptivas e fecundas. E explica como a vida humana é também uma semeadura, uma lavoura: nascemos com um terreno de alma onde podem desabrochar qualidades que darão mais ou menos frutos excelentes, para nós e para o todo envolvente, e que conforme o que aprendemos, semeamos e nutrimos, e os ambientes e circunstâncias, assim se colhe e colheremos.
Podemos interpretar no sentido de quem ouve a educação ou o ensinamento moral, ética e espiritual e não liga, continuando no seu egoísmo, distraindo-se, dispersando-se, descuidando-se, esse acabará infértil. Outras pessoas dessensibilizaram e endureceram os seus corações e tornam-se más, apesar de saberem da importância do amor e da solidariedade. Outras ouvem os ensinamentos espirituais e morais, mas as lutas e canseiras da vida (os espinhos) dão-lhes pouco tempo para desenvolverem as sementes da abnegação, do amor e da religação ao espírito, ao mundo espiritual e à Divindade.
Finalmente há os que, recebendo ensinamentos pedagógicos, éticos, religiosos e espirituais, os põem em prática e dão frutos, nuns mais e noutros menos, mas o coração deles está vivo, sofre, aspira, ama e a alma floresce e frutifica. É portanto um dito de apelo ao trabalho psíquico de consciencialização e conversão, para tornarmos a terra da nossa alma mais viva e fértil.
Este ensinamento da parábola está bem presente em todas tradições pedagógicas e religiosas mundiais e os três evangelistas Marcos, Mateus e Lucas transcrevem-na: por exemplo, em Marcos 4, 3-8, onde se acrescenta a secura que o sol forte também provoca no diminuir do enraizamento e colheita, e em Lucas, 8, 5-8, onde se refere as semeadas no caminho serem pisadas pelas pessoas e comidas pelas aves. Já Mateus, indiciando talvez ser uma narrativa posterior, não narra e apenas pressupõe a parábola e é dada a chave da sua interpretação: a semente é a palavra, e os insucessos da frutificação nas semeadas no caminho derivam da má compreensão, da acção do diabo; as nos terrenos pedregosos, dos que não conseguem deixar crescer as raízes por sofrimentos e perseguições; e as nos espinhos são as infertilidades ou infidelidades derivadas dos envolvimentos nas preocupações e prazeres do mundo.
A versão copta de Tomé destaca-se pela simplicidade de não apresentar expressamente uma hermenêutica e pela originalidade da imagem do encher a mão, dando um sinal de sensibilidade e vivência pessoal: - a semeadura é com a mão toda, ou com toda a alma, e essa palma aberta e franca gera a palma da glória, a qual significa luz, donde o corpo glorioso, que deveremos ir formando pelos nossos labores: ad astra, per aspera, às estrelas pelas asperezas.
De facto a parábola e metáfora é simples mas pode ser aprofundada certamente na interpretação dos símbolos componentes e assim quanto aos espinhos, um hermeneuta medieval de tomo, o franciscano Frei Álvaro Pais (1280-1350, bispo de Silves, no seu Espelho de Reis, obra que influenciou a educação na corte portuguesa, interpreta-os como os cuidados prejudiciais às coisas divinas, e sem dúvida, embora talvez se possa descoisificar e diminuir o plural das "coisas divinas" (tal ritos, preceitos, etc.) e antes acentuar mais a unidade da religação espiritual e divina, o peixe grande ou pérola que devemos valorizar mais que tudo.
A partir desta demanda de unificação e vivência do amor, do espírito e da Unidade, age pois bem, harmoniosamente, sem pensares sequer em resultados, pois eles virão por si próprios, naturalmente mais ou menos visivelmente, pois tudo esta entrelaçado no grande Campo de informação, consciência e energia, a Anima mundi antiga.
As sementes que frutificam muito significam então tanto o desabrochar mais constante da consciência espiritual, como também a frutificação em serviço, o que geramos de causalidade não-egoísta no mundo, ou em afinidades e sincronicidades. Para o que veio Jesus à Terra, senão para ajudar ao desprendimento, ao amor e à realização espiritual divina das pessoas, pares, famílias, grupos, povos?
A terra é fundacionalmente local e sinal de trabalho, esforço, humildade. E assim pelos nossos actos, sentimentos e pensamentos vamos gerando o amadurecimento e frutificação do nosso coração interior e puro, aquele estado consciencial e até psico-somático onde se opera ou nutre o desabrochamento do Amor e do Espírito.
O que pedia Jesus aos discípulos mais próximos? Vinde viver comigo, ou ouvi-me com regularidade, e aprendei a despertar a vossa energia-consciência espiritual e testemunhai a graça divina no amar, trabalhar, ensinar, orar.
E perguntaríamos: - O que conseguimos fazer pelos outros, face às suas necessidades ou apelos? Quando saímos do egoísmo e descanso?
Auto-conhecer-se espiritualmente, ligar-se divinamente e logo empatizar, amar, compartilhar, apoiar, é a mensagem simples e evidente deste dito, parábola e metáfora de Jesus que nos chegou nas diversas formulações ou narrativas oficializadas por S. Jerónimo e ainda na de S. Tomé, na língua copta do Egipto, forte terra mãe da humanidade mediterrânica e dos seus deuses e religiões...
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| Jesus, com Morya, desenhando na terra seca ou deserto: pelos pés e mãos o ser abre caminho para o Templo divino... Pintura de Nicholas Roerich. |




