
Compartilhamos reflexões importantes de Alexander Dugin, o valioso
filósofo e geoestratega - pai da filósofa mártir Daria Dugina -, sob o
título Hoje Irão, Amanhã Rússia, na qual ele aborda o Irão, denominando-o o escudo do
Katechon [o ser ou princípio organizador, controlador, catequizador], ao estar a aguentar golpe traiçoeiro contra a multipolaridadee, e considerando esta guerra, quase do bem e do mal, como capaz transformar, destruir ou remodelar o mundo, pelo que apela à unidade e a acções decisivas da Rússia, do Irão e da China contra o imperialismo e o sionismo opressivos e criminosos de guerra.
Conversa com Alexander Dugin no programa Escalation da Sputnik TV. [sublinhei as ideias mais importantes e adicionei comentários breves entre [...], e as imagens].
«Anfitrião:
Queridos amigos, hoje estamos a abordar um tema grande e sério. Todos
estão a falar sobre isso agora, e com razão, porque está a desenrolar-se um acontecimento
histórico. Permitam-me lembrar aos nossos ouvintes:
em 28 de fevereiro de 2026, uma operação conjunta foi lançada pelas
forças armadas dos Estados Unidos da América e de Israel. Realizaram-se ataques contra o Irão, do que resultou a morte do Líder Supremo do
Irão, Ayatollah Ali Khamenei. Além disso, muitas outras
figuras de alto nível foram eliminadas no ataque. O Irão começou a
responder com ataques tanto contra Israel como contra bases
americanas e, enquanto falamos, estão a ocorrer confrontos militares. Há
muitas perguntas sobre as consequências, quem sofrerá mais
com tais desenvolvimentos e se o Irão conseguirá suportar a pressão.
Mas a primeira questão que queremos compreender é: para onde está tudo isto a
levar?
Alexandre Dugin:
Este é, de facto, um acontecimento extremamente importante. É
inteiramente possível que isto se possa tornar o início da Terceira
Guerra Mundial, porque forças de enorme dimensão estão agora envolvidas.
As acções dos americanos—Trump junto a Netanyahu—dirigidas contra a
liderança política do Irão foram extraordinariamente abruptas.
Este é já o segundo caso desse tipo. Primeiro, os Estados Unidos
sequestraram Maduro, estabelecendo controle directo sobre a Venezuela e
ocupando efectivamente esse país. Agora, eles destruíram toda [ou uma
pequena parte] a liderança militar-política e religiosa do Irão. Em
importância, isto é comparável à destruição do Papa ou de um Patriarca
Ortodoxo, porque o líder espiritual dos xiitas—o Rahbar, Ayatollah
Khamenei—era reverenciado não só no Irão. Ele era efectivamente o chefe [com o ayatollah Sistani, do Iraque) de todo o mundo xiita, que inclui centenas de milhões de pessoas em todo o globo. Antes disso, Israel eliminara a liderança do Hamas—um
caso mais limitado—e depois a liderança do Hezbollah, o que já era mais
sério.
Agora
a liderança do Irão foi destruída de forma direta e aberta. Isto
significa que não há mais normas internacionais, não há regras, e as
Nações Unidas efectivamente não existem mais. Essa organização agora
pertence ao passado, como um membro fantasma de um mundo desaparecido.
Trump em si mesmo disse essencialmente isso: não há lei internacional;
tudo o que ele faz é moral. Isto muda tudo. A ordem mundial anterior
entrou em colapso. Estávamos gradualmente a mover-nos nessa direção,
mas agora o ponto de não retorno foi cruzado. Se um país pode destruir a
liderança militar-política e religiosa de um estado soberano sem
qualquer justificação [ainda que tenham inventado algumas, falsas, para
os Milhazes e Correios da Manhã propagandearem], então estamos a viver
num mundo completamente diferente—um mundo onde tudo é permitido, onde a lei está substituída pela força, onde o princípio que vigora é: "Se eu posso fazer, eu farei."
O
comportamento de Trump é particularmente impressionante. Tudo isto
aconteceu durante as negociações envolvendo Kushner e Witkoff [dois género de diplomatas fora do quadro e hipócritas sionistas, de aparências sérias], e de acordo com as informações
disponíveis, o Irão havia concordado com quase todas as exigências
americanas—literalmente com quase tudo. Apesar disso, tal ataque foi
dirigido diretamente contra a liderança do país. Em primeiro lugar,
devemos entender que nesta situação somos os próximos. Venezuela, Irão, e
antes disso Síria e Hezbollah—todos esses são regimes ou sistemas
políticos actualmente alvos dos Estados Unidos, e eles são nossos
aliados.
De
facto, se tais ações podem ser tomadas contra os nossos aliados, se tudo
isso ficar impune, se Trump tiver sucesso em tudo o que tenta, então na
próxima etapa—talvez até durante as negociações [que têm ocorrido
frequentemente, inclusive em Moscovo] entre [o representante russo]
Kirill Dmitriev e [os norte-americanos] Kushner e Witkoff—uma operação
semelhante visando a mudança de regime no nosso país poderia acontecer.
E
o que nos protege de tal cenário? Armas nucleares? Mesmo nisso, permanece a
questão se realmente as usaríamos. Numa situação extrema, o
Ocidente tem sérias dúvidas de que estaríamos preparados para dar esse
passo—emitimos ameaças com muita frequência e não as cumprimos. Ao mesmo
tempo, estão em andamento tentativas para cercar e isolar o nosso
presidente [Vladimir Putin]. O nosso presidente, sem dúvida alguma, é a
figura sobre a qual tudo assenta. No nosso país, e talvez até no mundo,
tudo depende dele. Ele é aquele que restringe—o Katechon [a entidade ou
força restritiva ou ordenadora, de acordo com 2 Tessalonicenses 2:6-7, e
as teorias de Karl Schmidt, ou ainda o Catequizador], tal como a nossa
tradição cristã ortodoxa o descreve.
Hoje isto é simplesmente um facto de geopolítica, um facto da ordem global.Mas
se os americanos— o próprio Trump—se convencerem de que outros líderes
russos que pudessem, Deus nos livre, substituir o nosso presidente seriam
mais submissos em relação ao Ocidente—e fora esse precisamente o
cálculo no Irão, quando os líderes soberanos daquele país foram
fisicamente eliminados porque seguiam políticas que não estavam
alinhadas com os interesses americanos—então o que os impedirá de
tentar implementar o mesmo cenário aqui [na Rússia]?Trump
está a conduzir uma estratégia geopolítica neo-conservadora de ataque
completamente consistente. Os estados que foram alvo dos globalistas sob
Biden, sob Obama e sob Clinton são exatamente os mesmos estados que
estão a ser alvos agora. Nada de fundamentalmente novo apareceu. Apesar dos
escândalos e discussões com os aliados europeus da OTAN, no final esses
aliados alinham-se com os Estados Unidos e adoptam a mesma posição.
Para nós, portanto, isto é extremamente sério. É o aviso final.Anfitrião:
Deixe-me voltar à questão da Terceira Guerra Mundial. Lembro-me de que
no ano passado discutimos a situação à volta do Irão—houve a chamada
"guerra de doze dias"—e naquela época também dissemos que isso poderia
levar a uma crise global. Mas tal não aconteceu. Poderia ser que desta
vez também tudo durasse talvez doze ou treze dias e depois chegasse ao
fim? Ou estamos agora a lidar com uma escala completamente diferente de
acontecimentos?
Alexander Dugin:
Teoricamente, ninguém sabe se isto se tornará a Terceira Guerra Mundial
ou não. O problema é que quando dizemos com muita frequência—e eu
experimentei isso pessoalmente—“esta é a Terceira Guerra Mundial,” ou
“aquela é a Terceira Guerra Mundial,” e depois não se revela ser o caso,
e mais tarde dizemos novamente, “agora a Terceira Guerra Mundial
começou,” uma sensação oposta eventualmente surge: a impressão de que
uma Terceira Guerra Mundial simplesmente não pode de modo algum começar,
que ela nunca começará, que tudo está sob controle. E é exatamente aqui
que reside o perigo. Quando você diz isso muito cedo uma vez, torna a dizer muito cedo segunda vez, então, quando ela realmente começar, você pode até ter
medo de dizer abertamente o que está a desenrolar-se diante de seus
próprios olhos.
Portanto,
devemos ser cautelosos ao avaliar o que está a acontecer. O que estamos
a ver assemelha-se ao início da Terceira Guerra Mundial, mas pode não
se concretizar; talvez esta crise passe. Você formulou a pergunta
correctamente. Neste momento, quase tudo depende—e, de facto, até mesmo o
nosso próprio destino, se preferir—de quanto tempo o Irão poderá resistir. Porque a coligação americana-israelita pode conseguir suprimir
a resistência iraniana rapidamente durante a operação que os americanos
chamam de "Fúria Épica"... embora muitas pessoas agora adicionem a
frase "Fúria Épica de Epstein." Na verdade, é bastante óbvio que Trump
lançou esta operação em parte para desviar a atenção dos ficheiros de
Epstein, onde ele indubitavelmente aparece de uma forma extremamente
comprometedora. Muitos observadores acreditam que a pressão e a chantagem israelita também desempenham um papel importante nesta situação.
Os próprios israelitas estão a agir dentro de uma linha ideológica completamente diferente. Com eles estamos a lidar com um projecto escatológico: a construção de um
“Grande Israel,” a expectativa dos últimos dias e a vinda do Messias.
Esta é uma motivação muito séria dentro da guerra que Israel chama de "O
Escudo de Judá." E os iranianos—os iranianos agora entraram no que eles veem como a batalha final.
Já estava claro durante a fase anterior, durante a guerra de doze dias,
que não era uma guerra plenamente desenvolvida; parecia mais uma
preparação. O Irão não se envolveu totalmente naquela época. Talvez
mesmo agora o Irão não tivesse entrado totalmente no conflito se os
próprios americanos não tivessem tomado medidas tão radicais. Agora o
Irão não tem outra escolha senão lutar até o fim: atacar todos os alvos
possíveis, fechar o Estreito de Ormuz aos navios americanos ou
ocidentais e aos navios de países que agiram contra ele, atacar bases
militares e quaisquer outros alvos que puder alcançar, incitar
levantamentos xiitas em todo o Oriente Médio e até onde mais a sua
influência puder chegar, e travar essa luta— a batalha final— até ao
fim.
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| Os doze Imãs da tradição xiita, começando com Ali, casado com Fátima. |
O
Irão, antes, estava disposto a evitar tal confronto, mas tal possibilidade foi agora retirada. Os iranianos nomearam a sua operação— e
isto é importante de se notar— "O Fim do Dilúvio." Lembre-se de que a
operação do Hamas a partir da qual tudo começou— os acontecimentos em Gaza, o
genocídio em Gaza, e antes disso o ataque do Hamas a Israel—foi chamada
de “A Inundação,” ou “Inundação de Al-Aqsa.” Al-Aqsa é o segundo local
mais sagrado no mundo muçulmano. É a mesquita localizada em Jerusalém no
Monte do Templo. Os palestinianos lançaram a sua revolta para defender este
local sagrado. Porque é que eles acreditavam que precisava ser
defendido? Porque Netanyahu e os seus associados mais próximos—Ben-Gvir e
Smotrich— discutiram abertamente planos para demolirem a Mesquita de
Al-Aqsa a fim de se libertar espaço para a construção do Terceiro Templo,
um acontecimento que marcaria o início da era messiânica. Na verdade,
todos os preparativos para o projecto de "Grande Israel" apontam, em
última análise, para esse objetivo. O movimento palestiniano Hamas,
portanto, procurou defender a Mesquita de Al-Aqsa, que Ben-Gvir
prometera pessoalmente e repetidamente explodir e nivelar ao chão. O
que se seguiu, em vez disso, foi a devastação e destruição de Gaza. [Uma explicação que pouca gente ouve, e provavelmente bem certeira.]Agora,
a operação iraniana chamada "O Fim da Inundação" [ou Dilúvio]
representa o que eles veem como a batalha final. Na filosofia xiita
iraniana—e na escatologia islâmica de forma mais ampla—o fim dos tempos
trará um confronto final entre as forças do Islão, lideradas pelo Mahdi
(o Imam Oculto que os xiitas acreditam que retornará), e o Dajjal [o ungido mentiroso, mencionado nos hadits ou ditos do profeta Muhammad, já cerca de 150 anos depois, e por influências zoroástricas e cristãs] a
figura frequentemente descrita como o Anticristo islâmico. A batalha
entre o Mahdi e o Dajjal é entendida como o drama central do fim dos
tempos. De acordo com essas tradições, ela ocorrerá na Síria e na Terra
Santa. Nas interpretações teológicas islâmicas, tanto estudiosos xiitas
quanto sunitas comummente identificam as forças associadas ao Dajjal com
os Estados Unidos—visto como o “Grande Satã”— e Israel. Por esta razão,
as valorizações ou apostas são vistas ou tidas como absolutas.No
entanto, falando em termos mais estratégicos e analíticos, a questão
central permanece: por quanto tempo o Irão será capaz de resistir. Por cada dia que o Irão continue a resistir e a defender a sua soberania, a
situação estratégica pode começar a mudar. Trump claramente esperava uma
guerra muito curta. Ele assumiu que, após a destruição da liderança
militar-religiosa e militar-política do Irão, a situação dentro do Irão
colapsaria rapidamente. Em outras palavras, ele contava com uma "quinta
coluna." [Nem creio que fossem tão estúpidos, ele e os conselheiros, mas
é possível, como Trump é um ignorante, que os mais extremistas e
sionistas lhe metessem essa carapuça na cabeça]Anfitrião:
Vamos passar à questão da possibilidade de manter a estabilidade no
Irão. Após acontecimentos como estes— a destruição do líder supremo e de
uma parte significativa da elite— foi possível restaurar rapidamente a
hierarquia e nomear novos líderes, ou há o risco de que o sistema possa
"quebrar", que em algum momento possa haver uma inversão brusca, por
exemplo, se mísseis de repente forem direcionados a Teerão?[O que tem sucedido constantemente, sem que o povo deixe de estar completamente unido à volta do regime, o mesmo não se passando nos agressores.] Alexander Dugin: Como sabe, a história é aberta. Não sabemos completamente o que está a
acontecer agora no Irão: a internet foi completamente [apenas temporalmente] desligada lá.
Segundo as minhas fontes, neste momento não há protestos contra o
regime. Até mesmo naqueles [pouquíssimos] que anteriormente se opunham ao
regime de Velayat-e Faqih—após o brutal assassinato de cerca de
duzentas meninas inocentes por um míssil israelita [norte-americano,
dois tomahawk, no intervalo de 40 minutos, para matar mais gente e
na linha apocalíptica e "sem misericórdia" pedida por Peter Hegseth, o
secretário de Estado da Guerra]—, e a opinião da oposição iraniana, tornou-se radicalmente contra os Estados Unidos e contra
Israel. Portanto, não há absolutamente nenhuma base, na minha opinião,
para se esperar que o poder seja simplesmente entregue a Trump. |
| Milhões reuniram-se em Teerão já no dia 13 de Março, sob a explosão próxima de bombas, imperturbáveis, decididos a vencer, com os mártires que tiver de ser, unidos. A presstv noticiou:https://www.presstv.ir/Detail/2026/03/13/765322/Millions-of-Iranians-rally-on-International-Quds-Day-amid-US-Israeli-strikes |
Por
outras palavras, o Irão provavelmente está mais unido agora do que em
qualquer momento, após a morte de toda [de parte] a sua liderança e após este ataque
brutal à escola. Isso mudou a consciência de muitas pessoas. O povo
iraniano tem muito orgulho [no seu país] e é muito forte, e talvez
algumas pessoas não gostassem do regime de Velayat-e Faqih [governo pelos juristas religiosos]—embora isso
também tenha sido exagerado no Ocidente pelos serviços israelitas—mas,
no entanto, agora todos unir-se-ão em torno do Irão sob a ideia
nacional. Além disso, acho que os actuais líderes entenderão a
necessidade de se mover um pouco em direção aos círculos seculares da
sociedade iraniana, entre os quais praticamente não há liberais. Há
nacionalistas iranianos que não são tão estritamente religiosos
quanto o regime político, mas ainda assim são nacionalistas, são
patriotas do Irão. Se a sua energia e a sua vontade forem [sem qualquer dúvida] direcionadas
para resistir à agressão sionista-americana, então a resistência pode
durar bastante tempo, porque até Gaza resistiu por muito tempo, e o Irão
não é Gaza—é um país enorme.
Os xiitas constituem uma parte significativa da população do Oriente
Médio. As elites desses regimes pró-americanos e pró-árabes são
completamente corruptas; é simplesmente uma extensão da "Ilha de
Epstein": todos esses Qatar, Dubais e Bahrein. No Bahrein, por exemplo, a
população é em grande parte xiita. Acho que levantamentos e revoluções
xiitas podem agora eclodir em todo o lado [algo difícil pela repressão
fortíssima que exercem]. Em princípio, se o Irão resistir, é impossível saber quem sairá vitorioso nesta guerra.
Em especial porque vemos que o conflito afegão-paquistanês está a
intensificar-se. E ainda não está claro quem—Paquistão ou
Afeganistão—pode apoiar Teerão. Aliás, Israel não gosta de nenhum deles,
nem dos paquistaneses nem dos afegãos. Como resultado, tudo isso poderá
[e vai] acabar em catástrofe para Trump, para os Estados Unidos e para
Israel. O vasto mundo muçulmano poderia simplesmente apagá-lo da face da
terra. A "Cúpula de Ferro" já foi penetrada, Tel Aviv está em chamas, e
algumas das imagens já se assemelham a Gaza. As pessoas estão a fugir de lá, e muitos estão a dizer que é assim que vai acabar: o Irão
certamente vencerá.
Por
enquanto, ainda está incerto. Mas o Irão não se rendeu no primeiro dia;
não se rendeu após esse ataque terrível—exactamente o que Trump
esperava. Agora Trump está a falar de durar várias semanas, talvez um
mês. Legalmente falando, ele tem a possibilidade de conduzir uma guerra aproximadamente por três meses sem a aprovação do Congresso, e o
Congresso também pode apoiá-lo. Mas se esta guerra se prolongar, se o
Irão resistir desesperadamente [ou melhor, com lucidez, equilíbrio e
poder] e tiver força suficiente, energia interna, potencial e poder,
então o resultado desta batalha está longe de estar predeterminado.
Em especial porque, se olhar de perto, a aposta na operação
"Escudo de Judá" pode ser o ponto mais fraco e vulnerável para a
coligação americano-israelita. Que tipo de escudo é esse, quando atacaram
e mataram a liderança de um país que, na verdade, nem estava em guerra
com eles? Este é um ataque—é o ataque de Judas, um ataque traiçoeiro
realizado durante as negociações. Há muito Judas aqui, mas muito pouco
escudo. Se de certa forma os acontecimentos continuarem, as mudanças no mundo
poderão de facto ser extremamente radicais.
Portanto, a questão agora talvez não seja tanto quem vai vencer. Os primeiros dias foram suportados, sobreviveu-se
ao primeiro golpe —pelo menos pelos iranianos. A sua liderança política, que agora se
apresentou para substituir Rahbar Ali Khamenei e a sua família—que
também foram mortos, por sinal… Uma coisa monstruosa: uma neta, uma
garotinha, de quatorze meses—apenas um ano e dois meses. Crianças,
netos… todos.
Como
de costume, vimos isso em Gaza: a crueldade da agressão e hegemonia
americana-israelita é tão monstruosa, as suas mentiras e traições tão
imensas, que a humanidade deveria, de fato, ter recuado horrorizada com o
que estamos enfrentando. Mas não recuou, porque em vez disso as pessoas
ouvirão outras histórias; dirão que o Irão é o culpado, que as matou.
Quanto às mentiras vindas do regime americano, do Ocidente em geral, dos
sionistas—já estamos acostumados com isso; já ouvimos tudo isso antes.
Portanto, o Irão não pode contar com a indignação da opinião pública
mundial [Ursula von der Leyen, a ditadora da União Europeia, veio avisar
que a Europa não deve derramar uma lágrima pelo Irão]. O Irão só pode
contar consigo mesmo e com aquelas forças que possam apoiá-lo.
Se
o Irão se reorganizar agora e conseguir orientar esta guerra por um
tempo suficientemente demorado, a qualquer custo, então, é claro, Israel tentará transformar o Irão em Gaza. Na verdade, já começou a fazê-lo. Mas o Irão ainda é um país muito grande.
Além disso, os mísseis iranianos estão a alcançar o território
israelita e a atingir alvos estratégicos importantes. Depois de algum
tempo desse tipo de bombardeio e troca de mísseis, acho que Israel
começará sentir-se um tanto desconfortável.[Ou a haver mesmo
levantamentos da população de Telavive, a mais castigada nos
bombardeamentos.]
E, consequentemente, os americanos sentirão isso, e os europeus também sentirão. Afundar agora esses navios de guerra —sabemos disso, porque sofremos pesadas perdas no Mar Negro durante a guerra com o regime nazista de Kiev - é hoje incrivelmente fácil.
Com drones modernos—subaquáticos e de superfície—é uma tarefa
tecnológica muito simples enviar essa frota tão elogiada para o fundo do
mar. Já estamos a viver numa era tecnológica de guerra completamente
diferente. Todo aquele poder dos porta-aviões é, na realidade, algo
inflacionado; são apenas imagens bonitas.
Helicópteros—dada
a velocidade com que voaram para a Venezuela—poderiam sobreviver talvez
trinta segundos se enfrentassem pessoas normais com metralhadoras, ou drones
adequados, ou os tipos de armas que as nossas tropas normais têm ao longo
da linha de frente na Ucrânia. Sob tais condições, um helicóptero não
duraria muito—trinta segundos. Na realidade, eles ainda não sabem o que é
a guerra. Nem os americanos nem os israelitas sabem. Agora eles vão
descobrir. [Sobretudo se Trump e Hegseth conseguirem contar com chefias
militares, que obedeçam à elite epsteiniana, e enviem tropas
invasoras para dentro da terra sagrada do Irão]
Se
o Irão resistir, tudo é possível. Não estou a dizer que eles estão
destinados a vencer. Não estou a dizer que a vitória é garantida para
ninguém. Mas
se a vitória não é garantida, e se não é rápida no caso de Trump e
Israel, isso por si só já representa uma vitória colossal para todos
os apoiantes de um mundo multipolar.
Na
verdade, esta guerra também é dirigida contra nós. Devemos entender que
somos nós os próximos. O Irão agora o que é? Um escudo. O escudo do
Katechon. É isso que o Irão é. De certa forma, eles assumiram um golpe
que, no fundo, era destinado a todos nós. Se eles aguentarem, será um
enorme sucesso, inclusive para nós.
Anfitrião: Vamos falar sobre cooperação—particularmente do lado russo.
Moscovo está a emitir declarações neste momento: Dmitry Peskov [porta-voz do Kremlin] diz que
Moscovo está em contacto constante com a liderança do Irão. A Rússia
continua comprometida com uma solução política e diplomática, mesmo após o
ataque dos EUA ao Irão. Hoje, Vladimir Putin manteve conversas
telefónicas internacionais relacionadas com a situação no Irão. Hoje o
presidente reunir-se-á com o governador da região do Amur, mas isso é
outra questão. O que você acha: que acções devemos tomar agora—devemos
adotar medidas mais rigorosas, ou devemos adoptar uma posição de esperar
para ver? Mas, francamente, não está claro exatamente pelo que
estaríamos esperando.
Alexander
Dugin: Se simplesmente adoptarmos uma posição de esperar para ver, isso
significa esperar o colapso do Irão —e então os próximos ataques serão
direcionados contra a nossa própria liderança militar e política. [Dugin,
sempre fortemente um Kshatryia, ou guerreiro, na denominação védica e indo-europeia]
Apresentador: De que maneira?
Alexander
Dugin: Uma guerra está a ser travada contra nós na Ucrânia, e é
bastante intensa. Mas, depois que Trump chegou ao poder—com o que
inicialmente parecia ser uma estratégia e política bastante
racional—surgiu em nosso país, dentro de nossa liderança, a impressão
de que Trump poderia retirar-se dessa confrontação e que, portanto, era
necessário negociar com ele através de figuras como Witkoff e Kushner,
ou outros, para reduzir a escalada, pelo menos com a América. O
pensamento era que estávamos a lutar contra a Ucrânia, confrontando a
União Europeia, mas Trump poderia afastar-se disso porque ele tem uma
posição diferente. De fato, ele tinha uma posição diferente até certo
ponto. No entanto, após apenas alguns meses na Casa Branca como
presidente, de repente mudou de rumo [pressionado pelos sionistas ou pelo deep state plutocrata e dos armamentos] e tornou-se um neoconservador
ainda mais radical, perseguindo as mesmas políticas globalistas e
hegemónicas, mas agora de forma mais aberta, mais brutal e mais direta.
Este
momento da transformação de Trump—da posição MAGA [movimentação nacionalista Make American great again], que de facto tornara possível a reunião de Anchorage [entre russos e americanos na Gronelândia], para um ditado hegemónico radical,
especialmente quando parece estar produzindo resultados bastante
rapidamente em outras operações—é talvez algo que não registáramos
plenamente a tempo. [Mea culpa, de Dugin, pois ele foi iludido pelas
promessas e basófias de] Trump mudou. Ele acabou revelando-se um
canal para uma vontade que não é a dele. Ele abandonou completamente o seu
eleitorado principal. Tornou-se efectivamente um refém das mesmas
forças que lançaram a guerra contra nós na Ucrânia.
Nesta
situação, na minha opinião, o ataque ao Irão põe um fim definitivo à
ideia de que Trump ainda poderia ser visto como um portador da ideologia
MAGA [Make America Great Again]— a ideia de que os Estados Unidos se concentrariam nos seus
próprios problemas internos, parariam de interferir nos assuntos
internacionais e lidariam com seus próprios enormes fracassos na
política, na economia e na cultura, o que na verdade era o programa
original de Trump. Nada disso vai acontecer. Trump continuará a seguir
as políticas dos neoconservadores. Para nós, este é um momento
extremamente importante.
Ele
está a atacar os nossos aliados. Na verdade, se o Irão cair—ou melhor, se o
Irão cair e quando o Irão cair—encontrar-nos-emos enfrentando forças muito
mais fortes do que aquelas que já confrontamos hoje. Trump, como um
touro carregando em direção ao seu alvo, intoxicado pelo sangue e
convencido de que tudo está a funcionar a seu favor e que tudo vem
facilmente, pode interpretar nossa racionalidade e contenção, nossa
consistência e a nossa adesão aos princípios simplesmente como fraqueza. E
então ele não terá outros termos ou conceitos com os quais interpretar
nossa política.
Anfitrião: Como devemos agir agora?
Alexander
Dugin: Acho que devemos agir de forma muito decisiva—mas essa decisão
pertence ao presidente. Você sabe, há muitos conselheiros agora, e todos
nós [ou, talvez muitos pois ainda há muitos cautelosos] —de motoristas de táxi a
especialistas, tanto militares como civis—estamos a dizer a ele a uma só voz que é necessário um ataque. Em primeiro lugar, está claro que
o direito internacional não existe mais; podemos fazer o que quisermos,
porque a vitória justificará tudo. Sem dúvida, a liderança
militar-política da Ucrânia deve ser eliminada. Isso é absolutamente
certo. Eles fizeram isso com nosso aliado, e pelas regras do grande jogo
somos simplesmente obrigados a fazer o mesmo com o proxy [ou instrumento] deles, com
aquelas estruturas que estão a travar a guerra contra nós.
Acredito
que é extremamente importante usar tipos de armas muito sérias—armas
tão poderosas que não podem ser ignoradas ou negligenciadas. Também não
excluo que possa ser necessário colocar certos países na linha—países
que estão a apoiar a guerra na Ucrânia enquanto se sentem completamente
imunes às consequências e interpretam a nossa polidez e consistência como
fraqueza. A Rússia não pode mais dar-se ao luxo de parecer fraca. Não
somos fracos, mas é assim que parecemos. Eles veem-nos como fracos,
indecisos, hesitantes, inseguros de nós mesmos, sem potência suficiente. A agressão de qualquer poder hegemónico pode ser resistida se
houver vontade e força—e uma potência nuclear certamente é capaz disso. A
Grande Rússia é capaz disso. Mas eles acreditam que nos falta vontade.
Isso,
eu acho, é um erro: nós temos a vontade; simplesmente temos escondido
cuidadosamente, embalando-a de forma organizada dentro do processo de
negociação. Agora essa abordagem está a começar a trabalhar estritamente
contra nós, e muito rapidamente. Mas todos estão a aconselhar o
presidente nessa direção—essa é a minha impressão, embora talvez alguns
pensem de forma diferente. [Putin e as mentes mais elevadas do Kremlin
certamente agirão da melhor maneira para o máximo de pessoas, da Rússia e
da Humanidade. Paciência, recomenda-se...]
Um
consenso agora formou-se de que a Rússia deve reconsiderar
fundamentalmente a sua estratégia para conduzir a guerra contra a Ucrânia.
Precisamos tomar ações decisivas e incondicionais que não possam ser
interpretadas de outra forma. Em outras palavras—um ataque, e a rua
Bankova [em Kiev] desaparece, a liderança desaparece, Zelensky desaparece, ninguém
sobra, e fica incerto com quem as negociações devem continuar. Podemos
então propor que eles mesmos nomeiem pessoas com quem estaríamos
preparados para dialogar. Isso simplesmente se sugere. [Um pouco
forçado...]
Apresentador:
Alexander Gelyevich [Dugin], por outro lado, pode acontecer que, após a
eliminação de sua liderança, eles escolham novos líderes, talvez até
mais radicais—como essencialmente aconteceu no Irão, onde a liderança foi
substituída quase instantaneamente [mas não por radicais, mas por sábios corajosos e resistentes].
E
aqui a sua visão do cenário iraniano é interessante: e se tomarmos
medidas severas em seu apoio? Suponha que a Rússia, juntamente com a
China, envia sua frota para o Golfo Pérsico. O que acha que aconteceria?
Alexandre Dugin: Seríamos respeitados. E seríamos temidos. Isso é o que
aconteceria, se falássemos honestamente. É só isso. [Quem sabe o que
aconteceria?]
Anfitrião: Isso não levaria a um confronto direto?
Alexandre Dugin: A confrontação direta já está em andamento. Eles simplesmente
acreditam que nos controlam e dirigem, enquanto nós ainda pensamos que
estamos conduzindo negociações em parceria [com eles]. Há uma divergência
fundamental de perspectivas—uma diferença na forma como lemos o próprio
tecido do que está acontecendo. No entanto, não aconselho o nosso
presidente a fazer nada; ele entende tudo perfeitamente bem.
Quanto
à preocupação de que a eliminação da liderança em Kiev traria forças
ainda mais radicais ao poder: já não há mais radicais lá. Podem trazer
figuras semelhantes. Mas se eles também não nos servirem, devemos fazer o
mesmo com eles, e com os próximos, e com os próximos—removendo-os
camada por camada. Especialmente porque a Ucrânia não é o Irão. Se
realmente entrarmos nesta confrontação agora, não só teremos uma possibilidade de vitória, mas também a oportunidade de travar a escalada e prevenir a
Terceira Guerra Mundial. Trump está a demonstrar que a política da força
começou, e a força não reconhece palavras. Só se detém quando encontra um poder que se contrapõem. Esse poder deve ser demonstrado. Nós falamos
constantemente sobre o nosso potencial nuclear e sobre o [super-míssil] "Oreshnik", mas
chegou a hora de não apenas falar, mas mostrar essa força. É isso que se
espera de nós. Só então Trump entenderá que os russos estão realmente
furiosos e que ele foi longe demais.
O
que é necessário agora é um ataque maciço que não possa ser ignorado ou
descartado como fanfarronice ou como ataques a alvos secundários. Onde e
como isso ocorrerá não nos cabe decidir, mas o curso da história e o
ânimo de nossos soldados na linha de frente—que têm sido algo desmoralizados com as negociações de paz—reclamam capacidade de decisão. Quando todos os
dias é transmitida a mensagem de que "tudo vai acabar em breve", isso torna psicologicamente impossível a luta;
surge uma falsa sensação de que basta esperar um pouco mais. Devemos
reconhecer honestamente que a guerra não terminará até que alcancemos
todos os objetivos da operação militar especial. Devemos fortalecer a nossa vontade e fazer o que há muito tempo é necessário. Antes era
possível adiá-lo, mas agora já não há mais como esperar.
É
importante entender que as palavras têm um significado enorme. Olhe
para o nome da operação "Fúria Épica"—até mesmo os americanos que se
opuseram ao ataque ao Irão se sentem inspirados por esse slogan. "Meu
país está furioso, e eu vou defendê-lo"—isso funciona. Enquanto isso,
temos o termo burocrático "SMO" [Operação Militar Especial], que não pode inspirar ninguém; não
carrega nenhum significado mais profundo. "Fúria Épica," "Escudo de
Judá" para os israelitas, "Fim do Dilúvio" para o mundo xiita—esses são poderosos códigos de significado. Acredito que devemos renomear a
operação militar especial como "A Espada do Katechon": somos os
restrigindores [ordenadores, controladores, catequizadores]; esta é a nossa missão, o nosso papel russo, a nossa
identidade ortodoxa. Os muçulmanos também nos apoiarão nisso, porque
entendem perfeitamente a unidade da luta. Devemos mobilizar a sociedade,
dar um novo impulso à guerra, renomeá-la. No início, havia os símbolos
"Z", "V", "O"—isso era uma abordagem de relações públicas sem
profundidade. Agora devemos enfatizar pelo que estamos a lutar, sem
ocultar a magnitude da vitória. Devemos ser honestos com aqueles que dão as suas vidas pela Pátria, pelo estado, pela autoridade e pelo povo.
Estamos a lutar por algo compartilhado, e as pessoas devem sentir esse
significado.
Hoje, forças enormes estão em movimento—militares, políticas, religiosas. Não
somos observadores ou árbitros aqui; somos participantes de uma Grande
Guerra. Talvez a última. Não há necessidade de apressar-nos a especular acerca da vinda do fim—os cristãos ortodoxos sabem que ninguém sabe;
até Cristo disse que só o Pai sabe. Mas sabemos que haverá um fim,
porque Deus criou este mundo e Deus o julgará. [Grandes questões: criou, fundou, originou, emanou e numa pluridimensionalidade de planos e entidades?] Isso faz parte da nossa
fé e das nossas tradições—uma parte essencial. Portanto, não há razão
para pânico.
Vivemos
nos últimos tempos—olhe para o Ocidente, a lista de Epstein. Que detalhes
estamos a aprender sobre as elites que governam o Ocidente: esta é
verdadeiramente uma civilização de Baal. É um culto a Satanás—um culto. O
que as elites fazem? Eles corrompem menores, comem pessoas, caçam
afro-americanos. Os arquivos de Epstein contêm indicações diretas: eles
estupram crianças, organizam orgias. E isso está do outro lado. Essa é a
civilização contra a qual estamos lutando. Não é coincidência que no
Irão uma estátua de Baal foi queimada na véspera dessa invasão, e em
resposta mísseis começaram a voar. Na consciência do mundo islâmico,
essas coisas estão interligadas: a lista de Epstein, Baal—e os que
queimam os seus ídolos. A guerra está a adquirir um profundo carácter
religioso. Os dispensacionistas americanos, interpretando a Bíblia de
Scofield [versão protestante impressa em 1909], estão convencidos de que, no momento do confronto entre o Irão e
Israel, a Rússia inevitavelmente entrará na guerra ao lado do Irão. Para
eles, "hoje o Irão, amanhã a Rússia" já é um facto consumado. Em suas
mentes, já estamos lá.
É
importante entender a psicologia do inimigo: ela não coincide com os
factos ou com as nossas percepções racionais. Combinada com a energia
furiosa de Trump e a exaltação escatológica da liderança israelita—que
acredita que é agora ou nunca, que o Messias deve vir agora e que o
"Grande Israel" deve ser criado agora—essa realidade não nos deixa a possibilidade de nos preocuparmos com assuntos ordinários. A história, a
geografia, a religião e a política nos privam-nos da possibilidade de sermos
observadores externos. Estamos bem no centro dos acontecimentos, e
temos o nosso próprio papel.
 |
| Os
dispensacionistas, ou pseudo-evangélicos sionizados, energizando o
Presidente já em ampla decomposição. Em vermelho, a frenética Paula
White, a conselheira em assuntos religiosos de Trump. Pode vê-la em performance de magia política religiosa no Youtube. |
Apresentador:
Como mudaria o alinhamento geopolítico se a Europa realmente decidisse
participar directamente nos bombardeamentos? Por exemplo, relatórios de uma
estação de rádio israelita indicam que a Alemanha está a discutir com
os Estados Unidos a possibilidade de sua participação directa na
operação. Em outras palavras, eles podem começar a realizar os seus
próprios ataques em vez de se limitarem a fornecer armas. Como a
situação mudaria nesse caso?
Alexander Dugin:
É exatamente para lá que as coisas se encaminham. Os problemas entre Trump
e a União Europeia agora foram ou resolvidos ou deixados de lado,
porque, em essência, Trump mudou para uma política totalmente alinhada
com os interesses dos globalistas e neoconservadores. Anteriormente, o
conflito de Trump com a Europa era impulsionado pelo movimento MAGA, por
sua rejeição ao globalismo e ao "estado profundo". Mas se Trump está agora a aproximar-se dessas estruturas, e então os desentendimentos com a
Europa naturalmente ficam em segundo plano. O Ocidente deve ser visto
como um todo único—o Ocidente colectivo. Na prática, voltamos à situação
que existia antes de Trump. Esse momento histórico em que outras ideias e
outros planos para os Estados Unidos foram proclamados, infelizmente,
passou. Agora lidamos menos com o próprio Trump e mais com o mesmo
"deep state" [estado profundo e oculto que controla a política]" que estava por trás de Nuland, Blinken ou Kamala
Harris—essencialmente as mesmas forças.
Assim,
todas [ou algumas] contradições entre os Estados Unidos e a União
Europeia foram niveladas diante do confronto radical com forças que são
opositoras ideológicas e geopolíticas do Ocidente colectivo—acima de
tudo, os apoiantes de um mundo multipolar, entre os quais estamos nós
mesmos e a China.
Quanto
à sua pergunta sobre nossa participação dirceta: deixe o presidente
decidir. Pessoalmente, acredito que a participação é necessária. Quanto
mais ativamente, audaciosamente e decisivamente nos comportarmos em
todos os aspectos, melhor. Caso contrário, qualquer outra ação será
interpretada por eles como fraqueza, e fraqueza é uma provocação
direta—um convite para fazer connosco o que fizeram com a liderança
iraniana. Afinal, o nosso presidente encontrou-se com Rahbar [o guia]
Khamenei, e antes disso com o presidente Raisi e outros líderes
políticos, assim como se encontrou com Maduro.
Anfitrião:
Desenvolvendo mais este tema: devemos agir sozinhos, ou dentro de uma
coligação com a China? Qual deve ser a nossa estratégia?Alexander
Dugin: Claro que seria melhor agir em coligação com a China. Mas a
China vai esperar. Veja: se, Deus me livre, o Irão cair, um confronto
direto connosco inevitavelmente se seguirá, e depois disso—com a China,
porque esse é o alvo final deles. Quem pensa que pode esperar ao lado até isso
passar—seja nós, a China ou o próprio Irão, que não entrou na guerra após
a operação terrestre das IDF [as forças armadas israelitas] contra Gaza começar (Hezbollah ficou
esperando e esperando até serem todos destruídos)—está a cometer um
erro. Quanto mais esperarmos, mais tarde entraremos numa confrontação
total com o Ocidente coletivo, maior será a hipótese de sermos derrotados
um por um. Fomos
enganados novamente—Lavrov falou sobre isso: Israel passou a informação
de que pretendia atacar o Irão. Mais uma vez eles levaram-nos pelo nariz [como bovídeos]:
"Fiquem de fora por ora, não entrem no conflito sob qualquer circunstância" e
no fim não haverá ninguém que nos possa apoiar. Portanto, estou
convencido de que devemos responder da forma mais dura possível, em
todos os frentes. Não é necessário entrar imediatamente neste conflito específico, mas devemos lidar com nossos inimigos diretos—o regime
nazista em Kiev—com a máxima decisão. Não há dúvidas sobre tal. E
devemos fazer isto de tal maneira que ninguém tenha ilusões: se os
russos quiserem—eles podem. E se não conseguirmos, então estaremos em
uma situação muito má.A nossa
resposta deve ser simétrica e o mais dura possível. Idealmente numa
coligação. Mas se não for em coligação, então sozinhos. Se agirmos agora,
não estaremos sozinhos. Se aguardarmos, permaneceremos sozinhos. Ou a
China, se aguardar, ficará sozinha. Devemos parar o mal, parar a
civilização de Baal. Essa é a nossa missão sagrada.»