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Na segunda metade da década de oitenta trabalhei bastante os escritos ou fragmentos inéditos de Fernando Pessoa, do seu espólio na Biblioteca Nacional, sobretudo nas facetas filosóficas, éticas, ocultistas, religiosas, quinto-imperiais e espirituais, e convivi não só com pessoas que o decifravam ou estudavam como algumas que o tinham conhecido, registando em sucessivos diários conversas, informações, vivências, compreensões, visões.
Trabalhando agora em busca de referências ao Afonso Cautela nos diários, para o seu In-Memoriam, eis um pequeno apontamento, escrito à noite e à pressa, de Outubro de 1987, quando eu ainda não publicara qualquer livro de inéditos de Fernando Pessoa, mas conhecia já há anos Agostinho da Silva e recentemente Luís Pedro Moitinho de Almeida, tendo este convivido pessoalmente relativamente bem Fernando Pessoa, pois era o filho de um dos seus patrões, ao contrário de Agostinho de Silva que o vira uma só vez, embora estudasse depois bem a sua obra então editada e escrevesse o livro Um Fernando Pessoa. Onde foi esta conferência não ficou assinalado no curto resumo do que se passara:

«Dr. Moutinho de Almeida acaba por vir trazer-me a casa após a conferência de Agostinho da Silva sobre Álvaro de Campos... Falou muito bem. Discurso óptimo, fluido, se bem que em dois momentos o desenvolvimento que fez tornou o conteúdo inverso do que estava a desenvolver. Pelo que foi obrigado a começar a criticar o que antes valorizava, embora o tenha feito com um certo forçar.
[Agostinho da Silva] Fala para transmitir a mensagem de amarmos a vida, de fazermos as coisas, de nos realizarmos ou cumprirmos. Valorizou a descentralização dos primeiros tempos de Portugal, com o Rei a ir aqui e acolá e o comunitarismo económico [como a base social]. E o que os portugueses analfabetos levaram [na sua expansão mundial] foi a língua portuguesa e [por exemplo, deixaram] quatrocentas palavras no [léxico do] Japão.
Ricardo Reis foi até ao Brasil porque estava farto de Grécia e de Roma. Acha que é a Costa do Pacífico que será o futuro.
Que a crise hepática [que teria causado a morte de Fernando Pessoa] é só de quem passa fome. [Mas já] Moutinho de Almeida não sabe bem se será [assim] ou não. Mas acha que Fernando Pessoa passou fome, porque andava sempre teso e porque bebia um pouco. E também que era natural não se casar por não a [sua namorada duas vezes, Ofélia Queiroz] poder sustentar.»
Eis a transcrição dum curto extracto do diário, homenageando estas três almas nossas amigas que, passadas pela porta estreita e onde quer que estejam agora, são certamente espíritos luminosos e lúcidos, pois todas indagaram e escreveram sobre os mistérios da existência e do espírito, da Verdade e da Divindade e amaram Portugal e a Humanidade multipolar, criativa e fraterna.

Muita luz e amor neles, já passados pela estreita porta, e que inspirem os, tão sujeitos a manipulações, cidadãos portugueses, sempre a votar (hoje dia 18) mas com tanta falta de conhecimento e discernimento do Bem comum, em geral também presente nos que serão eleitos e pouco cumprem as suas promessas. Lux Dei!
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