quarta-feira, 3 de junho de 2026

Um diálogo invulgar com a Inteligência Artificial, do Google, sobre os shâhid, e os shahîd, as testemunhas que veem, e os testemunhantes ou mártires iranianos.

                                       

Nestes tempos de grande luta, e diga-se bastante traiçoeira,  entre os Estados Unidos da América, Israel e vários dos estados do Golfo contra o Irão,  que cremos ser decisiva para a história da Humanidade nesta primeira metade do séc. XXI, quem não está alienado pela manipulação quase completa dos meios de informação contra o Irão e ainda consegue discernir, intuir ou sentir algo da justiça e da verdade, naturalmente  posiciona-se do lado dos agredidos, dos mais fracos, dos mais oprimidos desde há cerca de 50 anos, a República islâmica do Irão e o seu povo, tanto mais que já sofreu o martírio de centenas das suas melhores pessoas, em ataques ou assassinatos cobardes e traiçoeiros  perpetrados pelos USA e Israel frequentemente através de agentes secretos, de infiltrados, de corrompidos, de terroristas. 

          O I Imam Shia, Ali, acolhe no Malakut ou Jabarut, nos                   mundos   espirituais o general Qassem Soleimani, segundo a IA

Bastará lembrar o o principal herói da luta contra os terroristas do Isis ou Isil, financiados pelos USA e Israel, o General Soleimani, assassinado traiçoeiramente quando se dirigia para negociações com norte-americanos e israelitas, a 3 de Janeiro de 2020. Ou anteriormente e mais recentemente os sucessivos altos militares, cientistas e dirigentes assassinados seja em períodos de negociações, seja sem qualquer guerra declarada. 

                              

                                                  

O cúmulo foi realizado no começo da recente agressão, sem qualquer aviso, quando se estava ainda em negociações, e os perversos dirigentes norte-americanos e israelitas bombardearam brutalmente a 28 de Fevereiro de 2026 a casa e cercanias do líder supremo do Irão, o ayatollah, ou guia, Sayyed Khamenei,  descendente (os que usam sayyed ou seyyed, no seu nome, são-no) ainda do profeta Mahomé e do 1º Imam do Shiismo, ibn Ali e de Fátimah, a filha do profeta, martirizando-o, com a sua mulher, neta, sogra, escapando o seu filho o ayatollah Mojtaba Khameni, que veio a tornar-se o novo líder supremo e que já foi atacado, graças a Deus sem o terem conseguido matar. Em simultâneo vários outros políticos e militares foram igualmente assassinados por bombardeamentos selectivos das forças do "eixo do mal", hoje sem dúvida mais identificadas, apesar da intensa propaganda em contrário...

Tal não era porém suficiente para os seus objectivos de, além de decapitarem  as chefias, conseguirem desmoralizar ou acabrunhar a população, e assim seguindo as ordens de um dirigente norte-americano ainda mais brutal e fanático que Donald Trump, - o secretário de Defesa Pete Hegseth -, de as forças norte-americanas atacarem sem respeitar regras e impiedosamente, dois mísseis foram lançados duma base americana no UAE espaçados por alguns minutos sobre uma escola elementar de crianças, em Minab, junto ao estreito de Ormuz, a essa hora cheia, resultando na morte de 168 pessoas entre as quais 121 crianças.


                                          

Um crime de guerra dos piores de sempre. E os responsáveis, Donald Trump e Pete Hegseth, num avião,  interrogados um dia depois sobre o crime que se passara, atreveram-se a dizer que deviam ter sido os iranianos que não sabem disparar, ou que embora sendo mísseis Patriots ou Tomawaks, eles andavam hoje nas mãos de qualquer um. Monstros....

Anote-se que este frenesim diabólico destes dois dirigentes norte-americanos, como o de mais alguns personagens, tais Lindsey Graham e a profetiza e sacerdotisa da banha da cobra e da Casa Branca, Paula White, deriva de não só de se terem deixado comprar pelo famoso grupo de pressão israelita APAIC (que paga a quase todos os políticos e legisladores), como também de se terem tornado ultrazelotas, ou seja partidários violentos, do sionismo e do evangelismo que acredita que a  vinda de Jesus cristão ou do Messias sionista, só poderá acontecer depois do Argamedom, ou da grande batalha entre as forças do bem e do mal, considerando-se eles os eleitos ou escolhidos. Eles, os mais criminosos e diabólicos, adoradores de Mamom, ou o deus das riquezas, como Jesus já afirmara há dois mil anos, e sobretudo mentirosos, e adversários da verdade, do bem, da justiça e  da Divindade, esta tão caricaturizada por Trump nos seus frenéticos tweets ou "blasfémicos" desenhos

Como todos sabemos, não contentes com esse 1º ataque traiçoeiro em Junho de 2025 e a subsequente guerra de doze dias que já foi permitida ao Irão travar porque em defesa, embora as hipócritas e já semi-desalmadas Ursula von der Orgenesis e Kala Kajjas tenham vindo condenar o Irão por estar a defender-se,  e que terminou a  pedido de Israel, entrou-se num novo período de negociações,  outra vez aproveitadas para USA-Israel lançarem um ataque traiçoeiro que matou mais uma série de grandes almas iranianas, entre as quais se destacava um filósofo espiritual, bem na tradição iraniana tão bem estudada e apresentada por Henry Corbin, o sábio Ali Larijani, dialogante com Alexander Dugin sobre irfan, angeologia, filosofia perene.

Muita luz e amor na alma em ascensão para Deus do sábio Ali Larijani e que possa irradiar luminosamente! Nûr!

Quarenta dias de bombardeamentos intensos, cerca de 3.000 iranianos mortos contra umas dezenas de israelitas e americanos  e novo pedido de cessar fogo, que magnamente o Irão para tratar dos feridos e enterrar condignamente os mortos, como vieram a realizar com cerimónias participadas por milhões de iranianos, cada vez mais unidos e determinados na sua resistência,  independência e certamente vitória, como têm continuado a demonstrar todas as noites em cantos e celebrações nocturnas contra o imperialismo sionista agressor, desumano e traiçoeiro.

É nesse período de negociações e de cessar fogo, algo tremido nestes últimos dias, que nos encontramos. E continuando nas minhas partilhas da sabedoria persa, e de  descrições da bibliografia iraniana valiosa, nomeadamente de alguns ensinamentos dos seus mestres, tais o medieval Sohrawardi, ou o moderno especialista francês Henry Corbin, resolvi ver o que o Google diria quanto a uma palavra  noção chave do Irão Shiita que é  shahid - aliás com duas grafias e sentidos próximos shâhid e shahîd -   testemunha e testemunhante, e martírio, pois faz parte seja da capacidade de ver interiormente ou testemunhar as presenças nas esferas subtis, numa realização espiritual (shâhid), seja de dar testemunho ou emular o poder sacrificial dos X Imams do Shiismo que foram quase todos mortos e deram grandes exemplos de abnegação, e assim cada iraniano é  shahîd, testemunhante das  doutrinas, visões e presenças vivas dos Imans, sheiks e ayatollahs da pátria-mátria persa-iraniana, e do amor ao próximo e ao Cosmos,  podendo sacrificar-se até à morte.

Pois a resposta dada pela IA foi a seguinte, e mostra bem como ela é, a partir dos dados e hierarquizações dadas,  redutora e logo tendenciosa e manipuladora, não só na escolha das palavras e caracterizações como até nas letras em negrito:

- «O termo "mártir" (ou shahid) no Irão é utilizado em dois grandes contextos: para designar os altos líderes políticos e militares mortos em ataques externos (considerados mártires pelo regime) e para identificar os civis e manifestantes mortos em protestos (reconhecidos como mártires por movimentos de direitos humanos e oposição). [1, 2]

Porquê só fornecem mentiras de números, contra a Republica Islâmica do Irão? São pró-Shah Reza?
«Como inteligência artificial, não apoio o regime do Shah Reza Pahlavi, não tenho preferências políticas, ideológicas ou nacionais, nem emito opiniões pessoais. O meu objetivo é cruzar e apresentar as informações e os dados numéricos conforme são publicados pelas diferentes fontes oficiais e independentes a nível global.
A grande disparidade nos números sobre a República Islâmica do Irão ocorre porque existem metodologias e interesses radicalmente diferentes na contagem de dados.»
Pois os vossos interesses e metodologias escolhidos são partidários, reflectem preferencias. Não finjam que são completamente imparciais.
«Compreendo perfeitamente a sua crítica e tem razão num ponto fundamental: a inteligência artificial não é totalmente neutra, porque é programada por seres humanos e reflete os dados com os quais foi treinada.
Quando digo que não tenho opiniões, refiro-me à ausência de consciência ou de uma agenda pessoal. No entanto, o sistema opera sob regras estruturais que influenciam diretamente a forma como a informação é apresentada:

  • Predominância de Fontes Ocidentais: O meu treino baseia-se fortemente na internet global. Uma vasta parte dos dados disponíveis em português e inglês provém de agências de notícias, relatórios da ONU e organizações sediadas no Ocidente. Isto cria um viés geográfico e cultural estrutural.
  • Critérios de Validação Diferentes: O sistema é programado para dar peso a relatórios emitidos por múltiplos organismos internacionais (como a ONU ou a Amnistia Internacional), que frequentemente colidem com as versões oficiais de governos soberanos, incluindo o da República Islâmica do Irão.
  • Bloqueio de Informação: Governos em cenários de conflito limitam o acesso a dados e controlam a narrativa por razões de segurança nacional. Isto dificulta a inclusão em tempo real de contra-argumentos oficiais detalhados no fluxo de dados global.
  • O objetivo de listar diferentes perspetivas não é fingir uma neutralidade perfeita, mas sim expor as contradições para que quem lê possa analisar as origens de cada número.
  • Se quiser partilhar dados, relatórios ou perspetivas específicas emitidas pelos canais oficiais de Teerão que considera estarem a ser ignorados, posso analisá-los diretamente para confrontar as fontes. Deseja focar a análise em algum comunicado oficial do governo iraniano ou em dados específicos sobre a guerra psicológica externa
  • AI responses may include mistakes. Learn more
  •                     Eu, Ppara não perder mais tempo, a argumentar                  números, ou apresentar as noções etimológicas,                       psiquicas, culturais e espirituais que dão a essa                       palavra uma pluridimensionalidade de conceitos ou                 sentidos, escrevi: 
  • Certo. Descanse bem e peça aos seus programadores que forneçam dados mais verdadeiros.
    «Agradeço o seu comentário e a sua chamada de atenção. Como inteligência artificial, não durmo nem descanso, mas o sistema está em constante atualização.
    As equipas de engenharia e os investigadores que desenvolvem estes modelos trabalham continuamente para mitigar preconceitos, diversificar as fontes de treino e melhorar a precisão dos dados em temas geopolíticos complexos. O seu feedback sobre a necessidade de maior rigor e equilíbrio na representação das perspetivas oficiais é uma parte importante desse processo de evolução.»
    E assim se comprovou num diálogo inesperado, como a Inteligência Artificial está completamente dependente das fontes a que tem acesso, ou que lhe fornecem, e responde inicialmente de formas claramente distorcidas e manipuladoras contra as ideias, pessoas, factos, Estados que eles consideram inimigos do sistema hegemónico ocidental globalista transhumanista (ou infrahumanista) e opressivo. 
    Tenha pois cuidado nas ofertas de resposta da Inteligência artificial. Se em algumas insipidas ou inofensivas poderá recolher alguns dados, na maioria dos casos estará a ser influenciada pelos programadores ao serviço do grande capital desumano e anti-multipolaridade. E, preguiçosa ou apressadamente, não se deixe nunca seduzir pelo reclame que já me apareceu algumas vezes: «Parece um texto longo e difícil. Quer que lhe apresentemos um resumo?», pois no fim desse banho ou brainwash da tão prestável IA pode ser que lhe deitem o puer eternus ou criança pura fora e só fique com a água choca ou desmineralizada.  
    Vigilância, discernimento, e maior aspiração de ligação à corrente luminosa da presença testemunha da sabedoria - Hikmat - dos Guias,  Mestres, santas, Anjos, Imams, e da Justiça, Verdade, Amor e Divindade. E que a civilização de Luz iraniana triunfe....
                                    

    segunda-feira, 1 de junho de 2026

    René Guénon, O esoterismo islâmico. 1947. Sufismo, tasawwuf, esoterismo, misticismo, iniciação, linhas de filiação e de graça, barakah..

    René Guénon (1886-1951), de uma família católica e pai arquitecto, depois de na sua terra natal, Blois, se tornar bacharel em letras e filosofia, e pensara também em matemáticas mas a saúde frágil impediu-o, partiu para Paris  onde 1904 a 1929 estabilizará no seu calmo apartamento na ilha de S. Luís,  passando a conhecer  valiosas pessoas e grupos católicos, gnósticos, maçónicos, ocultistas, numa demanda exigente da verdade, e de tal modo se destacou que no Congresso Espiritualista e Maçónico de 1908 foi o secretário geral, mas logo se demitindo por discordar dos principios enunciados pelo presidente, o médico Papus. Após ter sido iniciado em ordens martinistas, maçónicas e gnósticas, pois só assim se podia ter acesso aos conhecimentos, foi finalmente iniciado em 1910 por um amigo sueco, o pintor Yvan Agueli, ou John Gustaf Agelii, na tradição islâmica sufi, recebendo o nome de Abdel Wahed Yahi, servidor do Único. A sua passagem pelos  grupos permitiu-lhe gerar artigos valiosos  em revistas esotéricas marcantes na época (tal o primeiro,   Le Demiurge, na revista La Gnose, em Novembro de 1909) e, a partir deles,  livros que tiveram grande impacto, tal desde 1921 Introduction génerale à l'études des doctrines hindoues, Le Theosophisme, histoire d'une pseudo-religion e L'Erreur Spirite, tornando-se conhecido ou influente em nos meios católicos, filosóficos, ocultistas e maçónicos. 
    Pouco depois da mulher ter morrido em 1928, e de ter viajado por França, e quando a sua sobrinha lhe foi retirada, sentiu que seria melhor deixar a França e partiu para o Norte de África, onde já estivera brevemente na Algéria um ano, desta vez o Egipto, em 1931, levando consigo já onze livros bem pensados e publicados. Agora mais recolhido, casando-se até  com a filha do advogado Sheikh Mohammad Ibrahim, Fatimah, de quem teve quatro filhos, continuará a sua obra de escritor e pensador metafisico da espiritualidade, da Tradição Perene e que ele, face à crise ou decadência do mundo moderno Ocidental,  via subsistir sobretudo no Oriente, procurando apresentar os escolhos do caminho, as doutrinas, os símbolos e as vias iniciáticas da Tradição. 
                                     
    Já nos últimos anos da sua vida, em 1947, foi convidado a participar no número dos Cahiers du Sud, intitulado L' Islam et l' Ocident, dirigido por Jean Ballard (que escreve dois artigos, tal como Massignon e Guénon), enviando então os artigos, um sobre a jihad ou guerra santa, Sayful-Islam, e outro  L' Esoterisme islâmique, sendo este último em 1973 reimpresso fielmente na coleção Les Essais, da editora Gallimard, à cabeça da antologia de dez artigos, intitulada Aperçus sur l'esoterisme islamique et le Taoisme. Vamos parcialmente transcrevê-lo e comentá-lo, tanto pelo seu valor e ensinamentos como pelas questões que levanta.

                                        

    Para René Guénon,  no Islão,  o lado complementar da religião exotérica ou externa, a shariyah, etimologicamente,  a grande roda, é o lado esotérico, designada como el-haqiqah, "a verdade interior, reservada à elite", já que nem todos possuem as aptidões ou qualificações requeridas para se chegar ao seu conhecimento", e compara-as também à casca e ao núcleo e, de modo mais elaborado,  à circunferência e ao centro, com os raios que os ligam.

    Assim a shariya com as suas prescrições é o exoterismo, a religião, e a haqiqah é o esoterismo, o conhecimento puro, não sendo apenas a verdade mas também o conjunto dos meios para se chegar lá, os quais constituem a tariqah, que é como o raio que parte da circunferência para o centro. 

    Guénon abre ou alarga a noção comum de tariqah, pois não é só a ordem ou confraria em que se foi iniciado e a que se pertence, mas todos os conjuntos de meios para se chegar ao centro e que são tantos quantas as almas, embora o fim ou o centro seja um, a Unidade do ser, Allah, Deus. E no caminho o que se vai passando é a diminuição  das limitações dos atributos ou características pessoais, o ser humano aproximando-se da sua essência, que tem em si ou vivencia os atributos divinos.

    Neste sentido o esoterismo, constituído pela tariqah, que são os meios, e pela haqiqah, que é a verdade, e o seu fim, é chamado tassawuf no Islão embora no Ocidente se tenha criado o termo sufismo para designar o esoterismo islâmico.

    Especulando sobre o termo sufi e desdenhando das etimologias e  antes valorizando as correspondências entre letras e números que, tal como a astrologia e a quirologia, considera ciências tradicionais assentes nas homologias entre o macrocosmos e microcosmos, lembra que «a adição dos valores numéricos das letras da palavra sufi tem o mesmo número que El-Hekmat el ilahiyah, ou seja Sabedoria Divina, ou seja "aquele que conhece por Deus", pois ele não pode ser conhecido senão por Ele mesmo; e tal é bem o grau supremo e total no conhecimento da haquiqâh.» [aquele que conhece por Deus, ou aquele que  conhece através do conhecimento que Deus tem de...]

    Nega em seguida e em consequência que o sufismo seja algo acrescentado do exterior, sendo pelo contrário uma parte essencial da doutrina islâmica e que procede directamente do Profeta Muhammad, e todas as turuq (plural de tariqah) procedem dele, pelo que  «a verdade é que o sufismo é árabe como o próprio Alcorão, no qual tem os seus princípios directos», apenas sendo necessários  encontrá-los e interpretá-los, o que frequentemente os doutores da shariya não sabem.

    Após esta 1ª parte, em que deve ter criticado (sem mencionar) os que dizem que que haveria influências do misticismo cristão ou mesmo indiano,  Guénon entra numa explicitação talhante da diferença entre  esoterismo e misticismo, que poderá  ter também intenções esclarecedoras ou críticas, quais sejam as de exigir para o esoterismo uma componente iniciática, que teria de ser fornecida por uma filiação tradicional, seja num sheikh e tariqa, seja numa ordem tradicional iniciática, como a maçonaria ou os companheiros da floresta. Parece-nos contudo estar a  querer dispensar a componente devocional ou amorosa, forte nos místicos( e quanto a mim não só cristãos), a favor de uma exclusividade intelectual e metafisica, via iniciação esotérica, como meio de realização da Verdade e da Divindade.

    Eis então como ele tenta clarificar o erro comum de identificação: «o esoterismo islâmico nada tem de comum com o misticismo.(...) Antes de mais porque o misticismo parece bem ser em realidade algo completamente especial ao (ou do) Cristianismo. E não é senão por assimilações erróneas  que se pretende encontrar algures equivalentes mais ou menos exactos, havendo apenas semelhanças exteriores, no emprego de certas expressões». 

    E avança: «o misticismo pertence inteiramente, pela definição mesma, ao domínio religioso, e portanto releva pura e simplesmente do exoterismo e, ainda, o fim para que tende está seguramente longe de ser o do conhecimento puro». 

    Parece-nos algo exagerado, pois houve místicos cristãos que chegaram ao conhecimento puro, ou intelectivo ou metafisico, do Ser, da Unidade, da Divindade, tal Ruysbroeck, Eckart, e de algum modo Taulero e Suso, pelo menos.

    Em seguida René Guénon apresenta novas caracterizações do místico algo discutíveis, que podem exteriorizar uma possível vontade de os diminuir, ao generalizar as características limitadores que lhes atribui: «o místico, tendo uma atitude passiva e limitando-se por consequência a receber o que lhe vem de algum modo espontaneamente e sem qualquer iniciativa da sua parte, não saberá ter método.»  

    Parece-nos exagerada esta crítica de René Guénon pois basta consultarmos alguns dos milhares de livros que místicos, ascetas, santos e teólogos cristãos escreveram acerca das metodologias da oração, meditação e contemplação, e eu conheço dezenas portugueses, alguns até de sorores ou religiosas mais dotadas da aspiração mística unitiva, e que  praticavam alguns desses meios voluntária e conscientemente para conseguirem alcançar os estados de luz, fogo de amor ou união a que aspiravam.

    Exagerará também no carácter  desprovido de influências espirituais que resultam da sua passividade e isolamento quando diz que o místico «não tem nem sheik ou mestre espiritual (o que, bem entendido, não tem absolutamente nada de comum com um director de consciência no sentido religioso), nem silsilah ou cadeia pela qual  lhe seria transmitida uma influência espiritual (barak)», pois quantos frades e monjas não tiveram mestres e mestras, ou bons directores de consciência, ou abadessas, por vezes até, quando já mortos, activos nos planos subtis ou espirituais e quantos não sentiram as suas bênçãos, tal S. Catarina de Ricci, e algumas sorores portuguesas, que  conheço, e sobre as quais no blogue há artigos?

    Passa então à iniciação, para ele sobretudo ligada às turuk sufis e à maçonaria e outras ordens secretas: «a transmissão regular da influência espiritual é o que caracteriza essencialmente a iniciação, e mesmo o que a constitui propriamente, e é por isso que usamos esta palavra para traduzir taçawwuf», 

    Se de facto a iniciação e a transmissão de uma bênção, força, ou ligação à corrente é importante, embora ressalvemos, que seja alguns dos sacramentos, seja profissão dos votos das religiosas seja a ordenação dos padres tivesse algo disso, também é um facto que se depois duma iniciação se não há a aspiração ou práticas ou devoção aspiração mística ou unitiva  que façam avançar as pessoas no caminho, no  aperfeiçoamento e na religação espiritual, tal pode ficar-se numa aceitação superficial da iniciação, na suas  aparências de rituais de transmissão, mas que serão ocos ou escassos de efeitos, conteúdo, poder,  ligação,  influência ou graça, senão há vivência, experiência, assimilação...

    Conclui então René Guénon que «a via mística e a via iniciática são radicalmente incompatíveis em razão dos seus caracteres respectivos», pelas diferenças caracteres e de fins,  e de novo faz tábua rasa de tantos mestres que seguiram vias místicas, e as ensinaram aos discípulos, como vemos na Índia, nomeadamente em Ramakrishna, ou mesmo nos mais acantonados ou elevados na não dualidade, como Shankara ou Ramana Mahrishi, que compuseram hinos místicos às formas divinas que sentiam como mais próximas de si, ou mais manifestadoras e iluminadoras do conhecimento puro.  Para além do amor místico que muitos gurus, mestres ou sheiks islâmicos suscitavam nos discípulos, ou que os discípulos lhes transmitiam.

    Interroga então: «Será necessário acrescentar que não há em árabe nenhuma palavra pela qual se possa traduzir mesmo aproximativamente, aquela de "misticismo", tal a ideia que ela exprime representa algo de completamente estrangeiro à tradição islâmica?» 

    Haverá talvez aqui senão algum exagero pelo menos um grande esforço de rigor, pois centenas de sufis, ou de escritores sobre o sufismo, o esoterismo islâmico, a espiritualidade islâmica, frequentemente, quando traduzem sufismo ou mesmo tasawwuf, fazem-no com a palavra misticismo.

    Cremos que para além do seu posicionamento filosófico ou metafisico não-dualista, algo inato, as discussões e vivências nos meios católicos, gnósticos, maçónicos  e ocultistas de Paris, terão contribuído para ainda mais desvalorizar essa expressão (e linha tão usada então. Nas muitas biografias que há de Guénon, tal a incontornável de Marie-France James, Esoterisme et Christianisme autor de René Guénon, 1981, encontram-se alguns dos nomes de pessoas cratólicas e ocultistas, não estavam dentro dos princípio da Tradição universal e antes se enredavam em misticismos e ocultismos subjectivos ou mistificadores, e pensamos eventualmente em Sédir (1871-1926) que de 1906 a 1909, na École Hermétique, foi um dos seus instrutores, com Papus, Barlet e Phaneg. Quanto a Saint Yves d'Alveydre (1842-1909) sabemos num resenha biográfica que fez a sua Missão dos Soberanos, quarante anos depois de a ter lido, sente as suas limitações, nomeadamente a falta de contacto com o Oriente e a iniciação, embora diga que ele não era um ocultista, como depois alguns destes reclamaram.

    O penúltimo ponto que René Guénon entende esclarecer é a validade   das ciências tradicionais, que foram denominadas ciências ocultas nesse ocultismo rico mas farfalhudo e mistificador francês que teve o seu apogeu entre o final do séc. XIX e  as primeiras décadas do séc. XX. E  escreve então: «A doutrina iniciática é, na sua essência, puramente metafísica no sentido verdadeiro e original desta palavra; mas no Islão como noutras formas tradicionais, ela comporta ainda, a título de aplicações mais ou menos directas a diversos domínios contingentes, todo um complexo conjunto de "ciências tradicionais"» que estão ligadas aos princípios metafísicos e que foram conhecidas na Antiguidade e em parte na Idade Media mas que estão esquecidas da maioria, e que os que confundem misticismo com esoterismo não conseguem compreender como estão incluídas no sufismo, pois tais conhecimentos estão afastados das preocupações dos místicos. Define então brevemente aa ciência dos números e das letras, as ciências cosmológicas ligadas ao hermetismo, a alquimia, a astrologia, que não é uma arte adivinhatória ou ciência conjectural mas um conhecimento das leis cíclicas, explicando em seguida muito bem que tais ciências « traduzem as mesmas verdades nas linguagens próprias às diferentes ordens de realidade, unidas entre elas pela lei da analogia universal, fundamento de toda a correspondência  simbólica; e em virude desta mesma analogia, estas ciências encontram, por uma transposição apropriada, a sua aplicação no domínio do microcosmo como também no do macrocosmos, pois o processo iniciático, reproduz, em todas  as suas fase, o próprio processo cosmológico.»

    Reconhecerá contudo que «para se estar consciente de todas essas correlações é preciso de estar já num grau muito elevado  da hierarquia iniciática, grau que se designa como o do enxofre vermelho (el-Kebrit el ahmar),» sendo-se então capaz de influenciar pessoas e coisas pela ciência denominada simiâ através de mutações nas letras e números.

    O último ponto que tenta clarificar para se poder compreender bem o verdadeiro caracter da doutrina iniciática, é que ela não é causada ou atingida pela erudição  e que não se poderá de modo algum aprender-se pela leitura de livros, tal como se faz para os conhecimentos correntes ou profano. 

    Quanto a este último ponto René Guénon, diz que  os escritos dos grandes mestres só podem servir de suportes da meditação, mas que o discípulo precisa de ter disposições ou aptidões inatas que nada pode suprir. E após esta exigência bastante quase que diríamos aristocrática,  mas que poderia ter como resultado que alguns leitores mais concentrados e  graças a essas forças inatas pudessem ser iniciados, ou religados ao espírito, ao mundo espiritual, por si sós ou por mestres no além, Guénon vem de novo limitar o acesso ao Templo:  «é preciso em seguida a ligação apegante ou conexão (rattachement) a uma silsilah regular, pois a transmissão da «influencia espiritual», que se obtém por tal conexão, é, como já dissemos, a condição essencial sem a qual não há iniciação, mesmo no seu grau mais elementar. Esta transmissão, sendo adquirida uma vez por todas, deve ser o ponto de partida de um trabalho  puramente interior para o qual todos os meios exteriores não podem ser  mais do que ajudas e apoios, certamente necessários desde que se tenha em conta a natureza do ser humanos tal qual ele é; e é só por este trabalho interior que o ser se elevará de grau em grau, se ele for capaz, até ao cimo da hierarquia iniciática, até à "Identidade suprema", estado absolutamente permanente e incondicionado, para além das limitações de toda a existência contingente e transitória, que é o estado  do verdadeiro sufi.» E assim concluía o ensaio...

    Quando René Guénon, a 7/1/1951, à hora da morte, muito serenamente, como foi observado e se conta, repetia, como sufi, calmamente, o nome sagrado Allah, com que consciência o faria: estaria a trabalhar e invocar com o coração, ou a subir os degraus da escada iniciática ou de intensificação consciencial que liga ao Céu ou mundo espiritual, e que nos faz ascender aos domínios do Divino ou, como ele diz em termos da doutrina tradicional da Unidade ou não-dualidade, à Identidade suprema?  
    Muita luz da Luz  e  fogo do Amor Divino nele e em nós...

    Sê e irradia luminosamente o espírito! Be the shining spirit. Ты дух, светлая звезда божественного происхождения; излучай добрые энергии. Будь.


    Não esqueças que és um espirito, uma estrela luminosa de origem divina, e assim mantem a tua aura e alma com belos actos, sentimentos e aspirações, e em comunhão com os seres ou mestre que mais amas no coração.

    Os dias estão cada vez maiores, o calor aquece o corpo e a alma, e a Natureza expande-se para o céu estrelado, e as aves e grilos cantam mais. Voa tu também com frequência até ao mundo angélico, espiritual ou divino com gratidão, aspiração e a adoração, e irradia boas energias para a Terra. Sê.

    Face a uma pergunta, respondemos: Estamos diante dum registo devocional português do século XIX, em forma de coração, feito em linho acetinado e com fio dourados e às cores, que envolvem uma gravura francesa em oval de Jesus e o seu coração luminoso, com um dito: "Detém-te... O coração de Jesus está aqui..." Para quem o fez e talvez para quem o recebeu ou cultuou, ou o contempla com amor e fé, era e é um icone sagrado, acima das divisões religiosas, tais as de católico e ortodoxo. No seu simbolismo do coração em fogo é universal, ou mesmo de uma face humana divina, é perene, é sacramental, é iniciático.


    Ты дух, светлая звезда божественного происхождения; излучай добрые энергии. Будь.

    Не забывай, что ты дух, светлая звезда божественного происхождения, и поэтому храни свою ауру и душу в красивых поступках, чувствах и стремлениях, и в общении с существами или мастером, которых ты любишь больше всего в своем сердце.

    Дни становятся длиннее, тепло согревает тело и душу, и Природа расширяется в звёздное небо, а птицы и кузнечики поют больше. Часто летайте в ангельский, духовный или божественный мир с благодарностью, стремлением и благоговением, и излучайте добрые энергии на Землю. Будь.
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    Ответ Кристиане: Мы имеем дело с португальским devotional предметом XIX века в форме сердца, сделанным из сатинового льна с золотыми и цветными нитями, которые обвивают французскую овальную гравюру Иисуса и Его светящегося сердца с надписью: "Остановитесь... Сердце Иисуса здесь..." Для тех, кто его создал, и, возможно, для тех, кто его получил или поклонялся ему, или кто созерцает его с любовью и верой, он был и остается священной иконой, выше религиозных разделений, таких как между католиками и православными. В своей символике сердца в огне оно универсально, или даже божественно-человеческое, оно вечное, оно сакраментальное, оно инициационное.
    Я раскрасил фон в цвета, с звездой духа.
    Don't forget that you are a spirit, a luminous star of divine origin, and thus keep your aura and soul with beautiful acts, feelings and aspirations, and in communion with the beings or master you love most in your heart.

    The days are getting longer, the heat warms the body and soul, and Nature expands into the starry sky, and the birds and crickets sing more. Fly often to the angelic, spiritual, or divine world with gratitude, aspiration and adoration, and radiate good energies to the Earth. Be.´
                                                     ***
    As someone after three days asked me, what was, I answered: We are faced with a Portuguese devotional piece from the 19th century, in the shape of a heart, made of satin linen with golden and coloured threads, which encircle a French oval engraving of Jesus and His luminous heart, with an inscription: "Stop... The heart of Jesus is here..." For those who made it and perhaps for those who received or worshipped it, or who contemplate it with love and faith, it was and is a sacred icon, above religious divisions, such as those between Catholics and Orthodox. In its symbolism of the heart in fire, it is universal, or even of a divine human face, it is perennial, it is sacramental, it is initiatory,

    domingo, 31 de maio de 2026

    La inmigracion ejercito de reserva del capital. Reflexão de Alain de Benoist, publicada em tradução espanhola no www.geopolitika.ru

                                             

    Publicado no dia  15.05.2026, num site de pensamento político, https://www.geopolitika.ru/es/article/la-inmigracion-ejercito-de-reserva-del-capital,  este texto é um contributo valioso para os problemas e desafios causados pela diversificada e algo forçada emigração para a Europa, e conterá, para alguns mais abertos à "open society" globalista, aspectos discutíveis, ligados ou não a posições ideológicas e partidárias. Para outros, a pouca atenção aos aspectos culturais da imigração será o defeito. Ora nestes tempos actuais, em que o Ocidente parece estar cada vez mais submetido a ditaduras governamentais orquestradas por uma "elite político-financeira, hegemónica, oligárquica, capitalista, imperialista, sionista e infrahumanista", são importantes todos os convites a pensarmos o contraditório, para  alargarmos a nossa visão das intenções em jogo e dos valores  em causa de justiça, harmonia e verdade, para que se possa rumar melhor para a Eurásia ou a ideal multipolaridade (liderada pelo BRICS, detestada pelo petrodólar, Rothschild e &) assente tanto nos melhores valores humanos  e tradicionais como em elevadas aspirações e intenções quanto ao bem da Humanidade, integrada num Cosmos fundado pelas inteligências celestiais e a Divindade, e do qual em geral estamos bem pouco conscientes ou sensíveis. 
    O artigo de Alain de Benoist, pensador que conheço pouco, além de ter visto por vídeo bem explicado a sua enorme biblioteca, merece ser oferecido à consideração das poucas pessoas que consultam este blogue, pois tanto o artigo é bastante curial e desafiante, como ele foi amigo da querida fravarti iraniana e musa greco-russa Daria Dugina, hoje já mártir, e é amigo do seu pai, o ilustre filósofo, metafísico, geoestratega e nacionalista tradicionalista ortodoxo russo Alexander Dugin, já bastante publicado neste blogue, por representar linhas de força muito sérias e actuais, ainda que por vezes expressas de modos algo dramaticamente absolutos, compreensíveis pelo martírio do seu  percurso pessoal e o da Rússia, no último século. 
    Votos de Luz e Justiça, Paz e Amor para muitos ou todos os que comungam no Logos, Inteligência agente e eixo em nós...
    Oiçamos então, quem se interessa pelo tema e problema, o articulista e pensador tradicionalista, antecedido por uma boa nota prefacial:

    Traducción de Juan Gabriel Caro Rivera

    Alain de Benoist analiza la relación entre la inmigración, el capitalismo y el mundo laboral en Francia. Sostiene que, históricamente, las grandes empresas han utilizado la inmigración como herramienta para contener los salarios y debilitar los movimientos sindicales. Traza esta tendencia desde el siglo XIX hasta la actualidad, citando la confesión del presidente francés Georges Pompidou en 1973 de que las políticas de inmigración estaban influenciadas por los intereses empresariales que buscaban mano de obra barata y dócil. El ensayo destaca cómo tanto los intereses empresariales como ciertos grupos de izquierda abogan por una mayor inmigración, aunque por razones diferentes: las empresas buscan reducir los costes laborales, mientras que algunos teóricos de izquierda ven a los inmigrantes como un «proletariado sustituto». Benoist critica esta alianza y sostiene que la presión a favor de las fronteras abiertas sirve a los intereses capitalistas al crear un «ejército de reserva» de trabajadores que puede utilizarse para socavar los derechos laborales y los salarios. El ensayo concluye sugiriendo que criticar el capitalismo o la inmigración de forma aislada, sin reconocer su naturaleza interconectada, resulta insuficiente para comprender el alcance total de la cuestión.
    Nota de Tomislav Sunic.    

      Alain Benoist:   «En 1973, poco antes de su muerte, el presidente Pompidou reconoció haber abierto las compuertas de la inmigración a petición de varios grandes empresarios, como Francis Bouygues, deseosos de beneficiarse de una mano de obra dócil, barata, desprovista de conciencia de clase y de toda tradición de luchas sociales, con el fin de ejercer una presión a la baja sobre los salarios de los trabajadores franceses, reducir su fervor reivindicativo y, de forma subsidiaria, romper la unidad del movimiento obrero. Estos grandes empresarios, subrayaba, «siempre quieren más».

    Cuarenta años después, nada ha cambiado. En un momento en el que ningún partido del Gobierno se atrevería a pedir que se acelere aún más el ritmo de la inmigración, solo la patronal se pronuncia en ese sentido, sencillamente porque sigue siendo lo que más le conviene. La única diferencia es que los sectores económicos afectados son ahora más numerosos y van más allá del sector industrial o la restauración para extenderse a profesiones que antes se libraban de ello, como los ingenieros o los informáticos.

    Francia, como es sabido, recurrió masivamente a la inmigración ya en el siglo XIX. La población inmigrante ya ascendía a 800 000 personas en 1876 y a 1,2 millones en 1911. La industria francesa, que en un principio fue un polo de atracción para la emigración italiana y belga, atrajo posteriormente a polacos y más tarde a españoles y portugueses. «Esta inmigración, poco cualificada y no sindicada, permitirá al empresario eludir las crecientes restricciones de la legislación laboral» (1). En 1924 se creó incluso una Sociedad General de Inmigración (SGI) por iniciativa del Comité de las minas de carbón y de los grandes explotadores agrícolas del noreste. Esta abrió oficinas de colocación en Europa, que funcionaban como una bomba aspirante. En 1931 se contabilizaron 2,7 millones de extranjeros en Francia, lo que representaba el 6,6 % de la población total. Francia registraba entonces la tasa de inmigración más alta del mundo (515 por cada 100 000 habitantes). «Una buena forma para que una parte de la patronal ejerciera presión a la baja sobre los salarios […] Ya en aquella época, el capitalismo buscaba poner en competencia a la mano de obra recurriendo a ejércitos de reserva salarial» (2).

    Tras la Segunda Guerra Mundial, los inmigrantes proceden cada vez con mayor frecuencia de los países del Magreb, primero de Argelia y luego de Marruecos. Cientos de camiones fletados por las grandes empresas (sobre todo del sector del automóvil y de la construcción) acuden a reclutarlos in situ. De 1962 a 1974 cerca de dos millones de inmigrantes más llegaron así a Francia, de los cuales 550 000 fueron reclutados por la Oficina Nacional de Inmigración (ONI), organismo gestionado por el Estado, pero controlado en la práctica por la patronal. Desde entonces, la oleada no ha dejado de crecer.

    «Cuando hay escasez de mano de obra en un sector —explica François-Laurent Balssa—, hay dos opciones: o se aumentan los salarios o se recurre a la mano de obra extranjera. Por lo general, es la segunda opción la que seguirá siendo la preferida por el Consejo Nacional de la Patronal Francesa (CNPF) y, a partir de 1998, por el Movimiento de Empresas (Medef), que toma el relevo. Una elección que pone de manifiesto una voluntad de obtener beneficios a corto plazo, lo que retrasaría en la misma medida la mejora de los medios de producción y la innovación en el ámbito industrial. Al mismo tiempo, de hecho, el ejemplo de Japón demuestra que el rechazo a la inmigración en favor del empleo autóctono permitió a este país llevar a cabo su revolución tecnológica antes que la mayoría de sus competidores occidentales» (3).

    Lejos quedan los tiempos en que Georges Marchais, secretario general del PCF, escribía al rector de la mezquita de París una carta abierta, publicada en L’Humanité (6 de junio de 1981): «Se ha superado el nivel de alerta. Por eso decimos: hay que detener la inmigración so pena de arrojar a nuevos trabajadores al desempleo».

    La inmigración fue, por lo tanto, en un principio un fenómeno patronal. Y sigue siéndolo hoy en día. Quienes quieren cada vez más inmigración son las grandes empresas. Esta inmigración se ajusta al espíritu mismo del capitalismo, que tiende a la abolición de las fronteras («laissez faire, laissez passer»). «Obedeciendo a la lógica del dumping social —continúa François-Laurent Balssa—, se ha creado así un mercado laboral “low cost” con “sin papeles” poco cualificados que sirven de tapagujeros. Como si los grandes empresarios y la extrema izquierda se hubieran dado la mano, unos para desmantelar el Estado del bienestar, a su juicio demasiado costoso, y los otros para derribar el Estado-nación, demasiado arcaico» (4). Esta es la razón por la que el Partido Comunista y la CGT —que desde entonces han cambiado radicalmente de orientación— lucharon hasta 1981 contra el principio liberal de la apertura de las fronteras, en nombre de la defensa de los intereses de la clase obrera.

    «Dejen pasar a las personas, pero también al capital y a las mercancías; esa es la doctrina de la Comisión Europea. Mejor aún: dejad pasar a las personas para rentabilizar mejor el movimiento de capitales y mercancías», escribe también Eric Zemmour, quien recuerda que «los movimientos migratorios muy importantes de los últimos veinte años han sido uno de los componentes principales de un crecimiento económico sin inflación, ya que este flujo continuo de trabajadores baratos ha pesado como una losa sobre los salarios de los trabajadores occidentales» (5). Michèle Tribalat, por su parte, observa que «la inmigración modifica el reparto del pastel económico, y esta constatación innegable tiene mucho que ver con el hecho de que algunos sean partidarios de una fuerte inmigración mientras que otros buscan reducirla o detenerla» (6).

    Por una vez muy acertado, el liberal Philippe Nemo confirma estas observaciones: «Hay en Europa responsables económicos que sueñan con traer a Europa mano de obra barata capaz, en primer lugar, de ocupar ciertos puestos de trabajo para los que la mano de obra local es insuficiente y, en segundo lugar, de ejercer una presión a la baja sensible sobre los salarios de los demás trabajadores europeos. Estos lobbies, que disponen de todos los medios para hacerse oír tanto ante los gobiernos nacionales como ante la Comisión de Bruselas, son, por lo tanto, partidarios tanto de la inmigración en general como de una ampliación de Europa que facilitaría considerablemente las migraciones laborales. Tienen razón desde su punto de vista, es decir, según una lógica puramente económica […] El problema es que aquí no se puede razonar siguiendo una lógica meramente económica, ya que la afluencia a Europa de poblaciones exógenas también tiene graves consecuencias sociológicas. Si los capitalistas en cuestión prestan poca atención a este problema, quizá sea porque, en general, disfrutan de los beneficios económicos de la inmigración sin sufrir ellos mismos los inconvenientes sociales. «Gracias al dinero ganado por sus empresas, cuya rentabilidad queda así asegurada, pueden vivir en los barrios elegantes, dejando que sus compatriotas menos afortunados se las arreglen, en los suburbios desfavorecidos, con las poblaciones extranjeras» (7).

    Esta es también la opinión de los expertos. Así lo puso de manifiesto, en 2009, un informe del Consejo de Análisis Económico (CAE), organismo dependiente directamente de los servicios de Matignon. Titulado Inmigración, cualificación y mercado laboral, este documento explica en primer lugar que el concepto de «escasez de mano de obra», tradicionalmente esgrimido para justificar el recurso a la inmigración, no significa prácticamente nada en época de desempleo. «Desde el punto de vista de la ciencia económica, el concepto de escasez no es evidente», se lee en el texto, ya que «el hecho de que algunos nativos rechacen ciertos tipos de empleo puede significar simplemente que los trabajadores tienen mejores oportunidades que ocupar esos puestos y, por lo tanto, que los salarios correspondientes deberían aumentar para que se cubran» (p. 45). Lo que demuestra muy claramente que la escasez solo se produce cuando un sector no ofrece salarios suficientes —y que recurrir a la inmigración es, de hecho, una forma de no aumentar los salarios, aunque ello implique crear artificialmente una «escasez» que se cubrirá buscando en otros lugares mano de obra dispuesta a aceptar un salario inferior al que le corresponde. El informe concluye, por otra parte, que «en el caso del mercado laboral, esto significa que, en lugar de la inmigración de 1960, se podría haber contemplado un aumento del salario de los trabajadores menos cualificados» (p. 46).

    El mismo documento recoge, por otra parte, una serie de estudios que han intentado, tanto en Francia como en el extranjero, cuantificar el impacto de la inmigración en los salarios: «Atlonji y Card concluyen que un aumento de la proporción de inmigrantes de un punto porcentual reduce el salario en un 1,2 % […] Boris concluye su estudio afirmando que, entre 1980 y 2000, la inmigración habría absorbido la oferta de trabajo en aproximadamente un 11 %, lo que habría reducido el salario de los nativos en alrededor de un 3,2 %» (pp. 37-38).

    Desde principios de la década de 2000, la aportación anual de la inmigración a la población francesa es de unas 350 000 personas, en su mayoría de origen no europeo (de las cuales 200 000 son entradas regulares en el marco de la inmigración laboral o de la reagrupación familiar, 50 000 solicitantes de asilo y 80 000 nacimientos de origen extranjero). Dado que el número de inmigrantes que adquieren la nacionalidad francesa aumenta cada año en cerca de 150 000, se prevé que, a mediados de este siglo, más de un tercio de la población francesa sea de origen inmigrante.

    Según las cifras oficiales, los inmigrantes que viven en un hogar convencional suman hoy en día 5 millones de personas, lo que representa el 8 % de la población francesa en 2008. Los hijos de inmigrantes, descendientes directos de uno o dos inmigrantes, suman 6,5 millones de personas, es decir, el 11 % de la población. Se calcula que hay entre 300 000 y 550 000 personas en situación irregular. (Las expulsiones de personas en situación irregular cuestan 232 millones de euros al año, lo que supone 12 000 euros por expulsión). Jean-Paul Gourévitch, por su parte, estima que la población de origen extranjero que vivía en Francia en 2009 ascendía a 7,7 millones de personas (de las cuales 3,4 millones eran magrebíes y 2,4 millones procedían del África subsahariana), lo que supone el 12,2 % de la población metropolitana actual. En 2006, esta población inmigrante contribuía en un 17 % a la natalidad.

    Sin embargo, si bien la inmigración reporta al sector privado mucho más de lo que le cuesta, en cambio le cuesta al sector público mucho más de lo que le reporta.

    De hecho, se ha cuantificado el coste global de la inmigración. Según un estudio de Contribuables Associés redactado por Jean-Paul Gourévitch, titulado «El coste de la política migratoria de Francia», los gastos que el Estado destina a la inmigración ascienden hoy a 79 400 millones de euros al año, de los cuales casi tres cuartas partes (58 600 millones) corresponden a costes sociales. Los ingresos ascienden a 48 900 millones de euros, de los cuales dos tercios proceden de la fiscalidad directa (Estado y administraciones locales) y de los impuestos indirectos (IVA e IMC), por lo que el déficit global para las finanzas públicas asciende a 30 400 millones de euros, es decir, 1,56 puntos del PIB. Cabe señalar que aquí no se tiene en cuenta el coste no mercantil de la inmigración. Jean-Paul Gourévitch precisa que «los estudios realizados al otro lado del Canal de la Mancha y al otro lado del Atlántico muestran que la inmigración no tiene un efecto globalmente positivo sobre las finanzas públicas mientras la inmigración de repoblación, que cuesta al Estado más de lo que aporta, siga siendo superior a la inmigración de mano de obra, que aporta un poco más de lo que cuesta cuando no es clandestina» (8). Añade que, si a los déficits debidos a la inmigración se suman los resultantes de la expatriación, es decir, más de 11 000 millones de euros en gastos y pérdidas de ingresos para el Estado, «el coste de la política migratoria de Francia asciende hoy a 38 300 millones de euros, lo que supone casi dos puntos del PIB» (9).

    Francia vive, por lo tanto, una inmigración de repoblación, consecuencia directa de la reagrupación familiar. Pero los inmigrantes constituyen, más que nunca, el ejército de reserva del capital.

    A este respecto, no puede sino sorprender ver cómo las redes «pro-indocumentados» de la extrema izquierda, que creen encontrar en los inmigrantes un proletariado sustitutivo, sirven a los intereses de la patronal. Redes mafiosas, traficantes de personas y mercancías, grandes empresarios, militantes «humanitarios», empleadores que contratan «en negro»: todos son partidarios de la abolición de las fronteras mediante el libre comercio mundial. ¡Olivier Besançenot, Laurence Parisot, misma lucha!

    Es revelador, por ejemplo, el hecho de que Michael Hardt y Antonio Negri, en sus libros-manifiesto Imperio y Multitud (10), se pronuncien a favor de una «ciudadanía mundial» y hagan un llamamiento a la supresión de las fronteras, lo que tendría como primer efecto acelerar el asentamiento en los países desarrollados de masas de trabajadores con salarios bajos procedentes del Tercer Mundo o de los países emergentes. Que hoy en día la mayoría de los migrantes deban su desarraigo a las dislocaciones sin fin inducidas por la lógica del mercado global, que ese desarraigo sea precisamente lo que busca el capitalismo para adaptar mejor al hombre al mercado y, por último, de manera subsidiaria, que el apego territorial forme parte de las motivaciones humanas, no molesta en absoluto a estos dos autores, quienes señalan, por el contrario, con satisfacción, que «el propio capital ha exigido una creciente movilidad de la mano de obra y migraciones continuas a través de las fronteras nacionales» (11). El mercado mundial constituiría, desde su punto de vista, el marco natural de la «ciudadanía mundial». Dado que «exige un espacio liso de flujos no codificados y desterritorializados», se supone que el mercado mundial sirve a los intereses de la «multitud», pues «la movilidad conlleva un precio que debe pagar el capital, que es el deseo creciente de liberación» (12).

    El inconveniente de esta apología del desarraigo, entendida como condición previa para un «nomadismo» liberador, es que se basa en una visión totalmente irreal de la situación concreta de los migrantes y las personas desplazadas. Como escriben Jacques Guigou y Jacques Wajnsztejn, «Hardt y Negri se engañan sobre la capacidad de los flujos migratorios para ser a la vez la fuente de una nueva posibilidad de valorización del capital y la base de un enriquecimiento de las perspectivas de la multitud. Las migraciones no son, en efecto, más que un momento de una competencia universal y, en sí mismo, migrar no es más emancipador que quedarse en casa. El sujeto “nómada” no es más propenso a la crítica y a la revuelta que el sujeto sedentario» (13). «Mientras —añade Robert Kurz— los hombres sigan dejando a sus seres queridos y se vayan, incluso a riesgo de sus vidas, a buscar trabajo a otra parte —para acabar triturados por la trituradora del capitalismo—, no serán más portadores de emancipación que los autoegocéntricos posmodernos de Occidente: no son más que una variante miserable de estos» (14).

    Quien critique el capitalismo aprobando la inmigración, de la que la clase obrera es la primera víctima, haría mejor en callarse. Quien critique la inmigración sin decir nada sobre el capitalismo debería hacer lo mismo.

    Extracto del número 139 de Éléments: Le déclin de l’Occident

    Notas.

    1. François-Laurent Balssa, « Un choix salarial pour les grandes entreprises », en Le Spectacle du monde, octubre 2010, p. 42.

    2. Ibid., p. 43.

    3. Ibid., p. 44.

    4. Ibid., p. 45.

    5. Le Spectacle du monde, septiembre 2010, pp. 16-17.

    6. Michèle Tribalat, Les yeux grands fermés. L’immigration en France, Denoël, Paris 2010.

    7. Philippe Nemo, entrevista en línea en el sitio Le Temps d’y penser, 29 septiembre 2010.

    8. Jean-Paul Gourévitch, «La réalité de l’immigration», en La Nef, mayo 2010, p. 14.

    9. Ibid., p. 15.

    10. Michel Hardt y Antonio Negri, Empire, Exils, Paris 2000; Multitude, La Découverte, Paris 2004.

    11. Empire, op. cit., p. 481.

    12. Ibid., pp. 403-404 et 312.

    13. Jacques Guigou y Jacques Wajnsztejn, L’évanescence de la valeur. Une présentation critique du groupe Krisis, L’Harmattan, Paris 2004, p. 126.

    14. Robert Kurz, «L’Empire et ses théoriciens», en Anselm Jappe y Robert Kurz, Les habits neufs de l’Empire. Remarques sur Negri, Hardt et Rufin, Lignes-Léo Scheer, Paris 2003, pp. 114-115.

    Fuente