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sábado, 29 de agosto de 2026

A missão harmonizadora de Portugal e iniciática das suas almas Fiéis do Amor, em Avicena, Dante, Camões e Dalila Pereira da Costa. Conclusão das Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana

          Dalila Pereira da Costa concluirá a sua valiosa incursão nas Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, e em especial iniciáticas dos Descobrimentos, com o capítulo final intitulado Consciência da História, o qual no último parágrafo do capítulo anterior, foi apresentado assim:

«Propusemos encarar Os Lusíadas como aventura histórica contendo em si, criticamente, uma aventura espiritual  de carácter gnóstico e hermético: que, terminando-a, lhe concederá assim um duplo sentido. Será tempo agora de nos curvarmos por uns momentos sobre o sentido histórico que Camões imprimiu na sua epopeia, estabelecendo assim a estreita ligação, identificação, entre esta epopeia e a epopeia portuguesa.»
                                                              

E iniciará o capítulo, em que a sua fé na Providência Divina elegendo Portugal, as suas crenças em mitos e profecias e o seu grande amor pela Mátria e a Pátria se vão derramar numa visão e pedagogia tanto realista como idealista, tal como veremos:
Esta consciência, tê-la-á um povo que sabe viver existencialmente não só o presente, mas simultânea e unidamente, presente, passado e futuro. E vendo nesse devir contínuo e uno, um processo visando a uma finalidade, ou meta, fazendo-se através de vários acontecimentos aparentemente dispares e descontínuos: que assim, indissoluvelmente ligados, encontrarão seu sentido nessa finalidade.
[essa finalidade na prática será frequentemente sobreviver-se o melhor possível, e na idealidade cumprirem-se os desígnios éticos e divinos] 
Ousaremos dizer que o povo português se apresentará paradoxalmente, como aquele que no conjunto cultural dos demais povos do Ocidente, surge dominado por uma vontade de destruição do passado, espasmódica; e ao qual essa vivencia conjunto de passado e presente, será difícil ou negada por si; mas ao mesmo tempo como aquele que possui a mais funda consciência histórica , tal como foi assumida pelo cristianismo [será? o mais cristão? e com quem rivalizaria?]: como realização do eterno no tempo, através do homem, cumprindo a vontade de Deus, como Senhora da História. [Original formulação feminina]. Realização que desde a Fundação da sua nação em si conterá esse sentido e finalidade, através do pedido feito a seu primeiro Rei. [Visão de Jesus, atribuída a D. Afonso Henriques da batalha de Ourique.]
E ainda como aquele povo que, pela sua eleita vocação profética nesse conjunto cultural dos demais povos do Ocidente, (e vocação testemunhada pelos historiadores clássicos desde os alvores de sua proto-história) surge capacitado para uma vivência fazendo-se simultaneamente no passado, presente e futuro. E capacitado igualmente pela saudade, para essa mesma vivência.»
E explicará essa capacidade (exageradamente destacada para Portugal, pois outros países a tiveram tanto ou mais fortemente, como a França e a Espanha), de unir passado e futuro no presente pela memória: «relato dos acontecimentos passados, com exaltação dos seus heróis» e a profecia, «relato dos acontecimentos futuros, unidamente por uma voz, a da ninfa mor, Tetis» e que terá como «modelo primacial, entre esses todos demais o da Divina Comédia de Dante e essas aventuras de espiritualidade sufi: como iluminação final do herói da aventura na purgação, ascensão e visão, numa iniciação concedida por uma figura feminina angélica; caminho marcado no seu fim, através de diferentes esferas estelíferas, pela transcendência pura, como empíreo.
                                          
Mas a iniciação que em si não conterá, tal como nas anteriores epopeias da Antiguidade clássica, um fim puramente individual, do herói; porque aqui o herói, Vasco da Gama, tal Dante, tem de regressar ao mundo da imanência, depois de conhecer esse outro da transcendência, ao mundo dos homens seus semelhantes e com eles partilhar dessa iluminação e toda a verdade nela recebida, como missão a si incumbida: no tempo incluir a eternidade, sua lei e harmonia, que irá influir beneficamente a história e acção do seu povo.» 

Assim como a visão de Dante devia ser transmitida aos florentinos, assim n'Os Lusíadas haveria «uma missão a cumprir nessa pátria pelo iniciado, como ordem trazida nessa iniciação, doada ao fim de uma longa aventura» 
Dalila explica em seguida como a eternidade e o tempo se interligam na história, pela realização do céu na terra pelo homem, incumbida no [relato bíblico] da criação, e mais especificamente a Portugal pela suposta teofania pelo «Senhor da História no começo de tudo, ao rei de Fundador, - como cruzada» E vê portanto, muito idealisticamente, a aventura da epopeia lusa e camoniana como um «caminhar para um fim estabelecido por uma vontade  transcendente como Providência, para a realização perfeita dum ser, pessoal e nacional; necessitando uma purgação, primeiro passo duma evolução [iniciática] visando à plenitude.»
à travessia da selva escura, por Dante, corresponderá a travessia dum "arduo e dificil mato, duro a humano trato", para Vasco da Gama, «tipificação de sua nação, nessa evolução e final plenitude, antes da sua ascensão e atingimento da verdade»
Essa mesma linha de força purificadora e iniciática discernirá Dalila nalguns elos da nossa Tradição: «Os "romances ao divino", a Demanda do santo Graal, a Peregrinação, Os Lusíadas, serão aventuras implicando uma prévia purificação interior, como ascensus animae, onde sucessivas e dificeis provas a vencer serão propostas ao herói como vitórias sobre si mesmo. Será ainda esta purificação em vista a uma perfeita missão no mundo, o que a "ninfa mor" pede a Portugal através do Capitão»
Registando em Camões, na sua lírica, mormente nas Redondilhas Sobolos rios que vão a  «concepção platónica de distanciação e desvalorização do terrestre e do histórico, e nostalgia de subida ao celeste e eterno, da pura Ideia, subida fazendo-se pela força dinâmica da saudade [ou talvez mais, da aspiração], - n'Os Lusíadas, pelo contrário, esta ascensão ao eterno, ao transcendente, implicará um posterior e necessário regresso ao terrestre e histórico - o que será a marca que o cristianismo, com seu dogma da Encarnação, imprimiu nesta Epopeia».  Talvez  como soldado e viajante, Camões tenha independentemente, da afirmação de Jesus como Deus, ou dogma da Encarnação, tenha visto tal missão social da iluminação, como uma ética natural sem vanglória ou cruzada excessiva, que sabemos como nos Descobrimentos por vezes foi bem negativa para os dois lados do encontro e não necessariamente em confronto, tal como se pode  comprovar em muitas das entradas das efemérides do encontro entre o Oriente e o Ocidente que tenho publicado no blogue. Dalila concluirá assim o seu pioneiro e notável livro, logo após «(...)Epopeia: como revelação do eterno no tempo. :

«Assim Vasco da Gama recebe na transcendência do empíreo, onde reside Deus, num momento de êxtase, a verdade, e regressa à terra, para a transmitir à sua pátria: para que esta, por sua vez a transmita ao mundo na sua missão ecuménica, como harmonia, unidade e amor do eterno, entre os homens, - realizando-se no tempo.»
É de forma concentrada que Dalila resume a alta missão de Portugal dada ou intuída por Vasco da Gama:  revelação da Verdade pela Divindade e depois  sua manifestação no tempo e na sociedade como harmonia, unidade e amor do eterno ou Divino.
Esta missão é no fundo a de todos os seres: tentarmos descobrir a verdade que podemos alcançar e viver em harmonia com os outros e em unidade, mantendo a chama do amor ao eterno ou divino.
Revelar o Eterno no Tempo, como? Nas adorações, nas missas, nas orações, em diálogos, no amor, por exemplos elevados ou abnegados? Ou também pela religação maior ao Anjo, e por vezes até com o Arcanjo de Portugal? E ainda a invocação do Espírito Santo, Inteligência agente ou inspiradora Universal?
Creio que tais níveis e por vezes através dos seus símbolos são mais actualizados, ou seja descidos do Eterno ou do potencial para o tempo presente, e consciencializados por seres de amor,  corações flamejantes, Fedeli d'Amore, Cavaleiros do Amor e sobretudo os que passando pelas purgações e dores, esforços e transmutações, alcançam  ligação ao eixo do mundo, ao corpo de glória, à estrela do espírito, ao Anjo, dà Divindade, o qual irradiará então subtilmente algo para os outros.
Dalila Pereira da Costa entrou para os planos sempre misteriosos do além (tal como a também querida amiga e classicista Sandra Pinheiro, na fotografia, no Porto, em 2009) já há alguns anos (Porto, 4 de Março de 1918 – Porto, 2 de Março de 2012), e embora tenha  do eterno e maravilhoso nela dado testemunho na temporalidade actual através de artigos no blogue e comunicações, deveremos certamente fazer mais eco da sua alma espiritual e  do seu logos sibilino e continuar as linhas de força da Tradição espiritual perene e portuguesa que ela investigou e interpretou com grande qualidade, deixando-nos o desafio de procurarmos a sua e nossa completude em Amor-Sabedoria, no Talent de bien faire, no fazer o bem o melhor possível...
Muita Luz e Amor na Dalila e na Sandra, em Camões e Vasco da Gama, Sohrawardi e Avicena,  Dante e Fiéis do Amor, e em todos nós...