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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Marin Le Roy Gomberville e a sua Doutrina dos Costumes. Um tratado de Sabedoria em cem figuras, seiscentista.

 La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle, publicada em 1646 por Marin Le Roy Gomberville, um espírito de precoces dons, poeta, historiador, escritor criativo (sobretudo no seu romance estilo de cavalaria, barroco, Polexandre, bastante universalista), moralista piedoso, que viveu entre 1600 e 14/6/1674 e foi mesmo um dos quarenta membros fundadores da Academia Francesa. Teve descendência, cinco filhos, vivendo os últimos anos retirado em estudo e meditação, na linha pia jansenista. Esta obra revela a clara intenção pedagógica de inspirar as pessoas ao auto-conhecimento e à virtude, sobriedade, harmonia, sabedoria, amor, felicidade aqui e no além...
A Doutrina dos Costumes, a Doutrina Moral,  foi uma obra que apresentou o caminho de se chegar à Sabedoria segundo a tradição filosófica ocidental greco-latina e cristã, e a que começara a ser veículada pelos primeiros autores de emblemata, tais Alciato e Otto Vaenius, desfrutando de grande sucesso editorial talvez por conter sugestivas imagens ou emblemas, divididos em duas partes, num  total de cem figuras, com um título, e duas páginas para cada uma.
Foi um manual de sabedoria para muita gente, dando uma base de discernimento do que era o bem e o mal, a virtude e o vício, sem grandes excessos de atemorizações ou rigores, e os títulos eram lemas ou mantras facilmente assimiláveis na alma sob a imagem, a que se seguia o breve texto explicativo, sempre com uma pequena quadra a antecedê-lo.
  Por exemplo a 1ª divisa, "A Natureza começa: o alimento (cultivar) completa (aperfeiçoa)", a quadra é: 

«Ne te promets pas tout des soins de la Nature
Il faut que ton travail accompagne le sien:
Le Champ le plus fertile a besoin de culture
Et si le Laboureur ne l'ensemence bien, il n'y recueille rien.
 
Não esperes tudo dos cuidados da Natureza
É preciso que o teu trabalho acompanhe o seu:
O campo mais fértil precisa de cultura
E se o lavrador não o semear bem, nada recolherá.»

 Vamos transcrever  os títulos das divisas da primeira parte, e num segundo artigo partilharemos a segunda parte, e mais imagens:

A Natureza começa: o alimento aperfeiçoa
O alimento supera a Natureza
O alimento pode tudo
A Virtude pressupõe a pureza da alma 
Fugir do vício é seguir a virtude
A virtude pressupõe a acção 
Quem nunca começa nunca saberá acabar
Correndo, chega-se ao objetivo 
A virtude foge dos excessos 
Fugindo de um vício, o imprudente cai noutro.
A Natureza regula nossos desejos.
Para odiar o Vício, é preciso conhecê-lo.
O estudo da Virtude é o fim do Homem.
Em qualquer condição, se pode ser virtuoso.
A cura da Alma é a mais necessária.
Ama a Virtude por amor dela própria.
Só Deus não tem Mestre.
Treme diante do Trono do Deus vivo. 
A impiedade causa todos os males.
Os maus punem-se uns aos outros.
O homem nasceu para amar.
Amando, tornamo-nos perfeitos.
É preciso amar para ser amado.
O amor dos Povos é a força dos Estados.
A verdadeira amizade é desinteressada.
O amigo não vê o defeito do amigo. 
Respeita o teu amigo e cuida de ti.
O Silêncio é a vida do Amor.
A inveja é a morte do amor.
 Quem tem o necessário, não tem nada a desejar.
A temperança é o bem supremo.
Quem ama a sua condição, é feliz.
A vida do Campo é a vida dos Heróis.
A vida escondida é a melhor.
Os excessos da boca são a morte da alma.
Quem compra as Volúptias, compra um arrependimento.
Não há crime sem castigo.
O Vício é uma servidão perpétua.
O debochado passa de um crime a outro.
Só é rico quem despreza as riquezas.
O medo da Morte é a punição dos Ambiciosos.
O medo é a companhia do poder.
Por toda a parte a preocupação acompanha-nos. 
A pobreza é antes bem que mal.
A pobreza nem sempre prejudica a Virtude.
Tudo cede ao Demónio das riquezas.  
Se Tersite é rico, tomam-no por Aquiles.
O desejo de bens é contrário às coisas honestas.  
O dinheiro corrompe tudo. 
A fortuna não faz de modo algum o mérito.
O amor aos bens é um suplício sem fim.  
A avareza é um grande mal.
O avarento teme tudo e não teme nada.
A avareza é insaciável.
O avarento é o seu carrasco.
Uma cegueira é seguida por uma outra.
O avarento morre como viveu.
A malícia do avarento vive depois da sua morte.
As riquezas são boas aos bons. 
O homem que faz bem é amado por todo o mundo.»

Encontra a obra no Internet Archive: https://dn720005.ca.archive.org/0/items/ladoctrinedesmoe00gomb/ladoctrinedesmoe00gomb.pdf

 Concluamos esta homenagem à Sabedoria e a Marin Le Roy Gomberville, com a 28ª figura, intitulada  O Silêncio é a vida do Amor, e a sua quadra:
«O silêncio é um bem supremo:
É a virtude do Sábio e a dum Amante.
Quem não fala que raramente
Não ofende jamais aquele que ama.»