1ª semana, extraída das Efemérides de Novembro do encontro entre o Oriente e o Ocidente, da Índia e Portugal em especial, com notícia de muitas subtis almas e seus feitos. Boas inspirações e realizações!
1-XI. Termina neste dia em 1539 o famoso 1º cerco de Diu, na Índia, no qual 700 portugueses e algumas corajosas mulheres, capitaneados por António da Silveira, conseguiram resistir durante quinze meses às investidas duma poderosa armada (com navios europeus), de 20.000 turcos do sultão do Cairo comandada por Solimão, e dos exércitos de Cambaia ou Guzarate comandados por Coge Sofar. Após o último ataque, «o capitão vestiu os seus melhores fatos e ordenou aos seus fizessem o mesmo, depois do que, começaram a cantar e a bailar todos, em grande algazarra de vozes e soar de trombetas, gastando toda a noite nessa folgança», tentando fazer crer ao inimigo o excesso de forças que lhes minguava já, como relata Damião de Goes, para o ataque final. Mas de manhã chegam as naus de Goa, com os reforços portugueses e alguns milhares de nobres malabares, os naires, que responderam ao apelo do rei de Cochim e a derrota dos inimigos é grande. Tal vitória ergue alto o prestígio dos portugueses, rendendo-lhes mais tratados e alianças. Esta colaboração de uma Cavalaria espiritual indiana com os portugueses não passou desapercebida a um Fiel do Amor, Jorge Ferreira de Vasconcelos que os nomeia no seu magnífico, e um dos últimos elos da literatura de cavalaria, Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda, dado à luz em 1567, em Lisboa.
Nasce em 1935, em Jerusalém, Edward Wadie Said, filho dum palestiniano e de uma libanesa cristã. O pai, tendo sido um oficial na 1ª grande Guerra nas Forças Expedicionárias Norte-americanas, obterá a nacionalidade americana pelo que Edward Said fará os seus estudos nos Estados Unidos manifestando grandes qualidades humanas e intelectuais e tornando-se professor na Columbia University, sendo autor de livros importantíssimos e um pensador corajoso e respeitado. Será o seu livro Orientalisms, dado à luz em 1978, que grangeará muitos seguidores da sua visão crítica das narrativas ocidentais do Oriente e em particular do Médio Oriente (nomeadamente com Maria Todorova, e Lorenzo Kamel com The Impact of "Biblical Orientalism" in Late Nineteenth and Early Twentieth-Century Palestine, 2014), na qual demonstrou e destacou quão fortes tinham sido os preconceitos de superioridade, racismo e desvalorização do outro ou do tema do Oriente em muitos dos historiadores. Tomou parte activa em tentativas de coexistência de árabes e judeus, co-fundando mesmo uma orquestra mista (tanto mais que era um excelente pianista e escreveu quatro livros sobre música), defendeu a solução de dois estados independentes, Israel e Palestina, e venceu com as suas posições bem estruturadas alguns orientalistas que, ofendidos pelas suas críticas, o atacaram fortemente. Não receou assumir algum activismo, mais simbólico do que radical, nomeadamente quando lançou em 2000, no fim da ocupação israelita do norte do Líbano (1985-2000) um calhau em direcção das linhas de força do exército israelita, o que provocou reacções iradas dos grupos de direita e do sionismo norte-americano, e ainda da suspeita Sociedade de Freud, na Áustria. Em 1998 saiu uma edição revista e melhorada de outra obra seminal acerca do Islão visto pelo Ocidente, muito actual e profético em relação ao que se passará com as sucessivas guerras do império norte-americano e dos seus coligados e terroristas: Covering Islam: How the Media and the Experts Determine How we see the rest of the World, no qual desmascara muito do imperialismo norte-americano e da sua aliança com os meios financeiros, os media e os especialistas mais racistas e reaccionários. Foi membro de várias sociedades internacionais e recebeu numerosos prémios, deixando algumas prestações valiosas para televisões ou filmes. Partiu da Terra em 25 de Setembro de 2003, deixando um filho também de valor intelectual e humano forte.
2-X. Lopo Vaz de Sampaio (1480-1534), 6º governador interino na Índia de 1526 a 1529, e por meios forçados mantido na posição em detrimento de Pêro de Mascarenhas (pois só deveria governar enquanto este não chegasse de Malaca, onde se encontrava quando se abriram as cartas contendo as vias de sucessão), derrota neste dia uma parte da armada do Samorim de Calecut em 1528, ano em que se empenhou em derrotar os dois destemidos irmãos Kutti Ali, capitães do Samorim e há muito numa luta de resistência ao domínio português. O mais novo foi mesmo capturado e em seguida resgatado por alto preço, jurando sobre o Corão não mais combater os portugueses. Era da escola de Vasco da Gama, de quem fora capitão.
De regresso de Portugal, onde se mostrara vestido à monge indiano e celebrara no Porto e em Évora a missa ao modo Índia, resistindo às tentativas de o reterem na corte, desembarca em Goa neste dia, em 1690, S. João de Brito. Consegue que um objecto tido como relíquia por ter sido tocado pelo corpo de S. Francisco de Xavier seja enviada para sua mãe D. Brites, de quem se despedira há pouco com o pressentimento que já não se veriam mais, e parte para missionarização indiana e o final martírio.
O notável vice-rei D. Pedro de Noronha Albuquerque (1661-1731) escreve neste dia ao rei em 1694 acerca das pensões às famílias de goeses que a Fazenda real não quisera pagar: «Não sei que razão pode haver para que não sejam premiáveis os serviços e ainda a morte destes homens, sendo cristãos e vassalos de Vossa Majestade e assim lhe peço mande Vossa Majestade declarar esta matéria». A resposta do rei determinará «que àqueles naturais da terra que morreram em acto semelhante de guerra, vivendo por este caminho gloriosamente para a memória, se deve dar a suas mulheres seu sustento a meia praça, como fizestes praticar no caso que referis». Será ainda vice-rei do Brasil de 1713 a 1618, e o 1º marquês de Angeja, numa longa vida dinâmica.
O inspirado poeta e pensador Teixeira de Pascoais nasce neste dia em 1877, em Amarante, junto à sua serra mágica, o Marão. Foi com Leonardo Coimbra o mestre do movimento da Renascença Portuguesa, no princípio do século. Visionário do Portugal telúrico, poeta duma capacidade inaudita de humanizar imaginativamente a natureza, também soube entrar no mar, como nos Poetas Lusíadas, sugerindo «que o espírito de Neptuno encarnara em Luís de Camões, quando ele, em certas estrofes dos Lusíadas, é a própria voz do mar. Todos cenários marítimos, deslumbrando ou aterrorizando os nautas descobridores, se integraram por fim no génio da Raça. Camões, tendo herdado aquela imensa lembrança tempestuosa, contemplava o grande Oceano, a bordo da nau S. Bento que o levou para a Índia, em 1553. Ele via a vastidão das águas e outras águas, mais profundas e salgadas, marulhavam na sua memória, como longínqua recordação. E assim as duas imagens do mar (a exterior e a interior) se desdobraram nas ondas dos seus versos oceânicos. Nenhum poeta deu o mar como Camões, porque ninguém, como ele, tão intimamente o possuiu».
3-XI. Uma postura do Senado de Goa datada deste dia de 1618 determina que ninguém de qualquer nacionalidade está autorizado a exercer a profissão de médico, cirurgião, ou barbeiro sangrador cirurgião, sem ter sido primeiro examinado e obtido o respectivo diploma. Visava-se obstar a consequências mais melindrosas do ditado: «De médico e de louco todos temos um pouco»..
Pronunciando os nomes "Jesus, Maria" desencarna em 1713 o padre Francisco de Santa Maria, autor do Ano Histórico, vasta obra em que muitas das efemérides dos Descobrimentos estão debuxadas catolicamente. Nunca dizia mal dos sermões que ouvia, menos quando confessou ter colhido o grande fruto de conhecer-se pelo homem mais ignorante, já que ouvira pregar na sua língua uma hora, mas nada entendera.
O notável vice-rei D. Pedro de Noronha Albuquerque (1661-1731) escreve neste dia ao rei em 1694 acerca das pensões às famílias de goeses que a Fazenda real não quisera pagar: «Não sei que razão pode haver para que não sejam premiáveis os serviços e ainda a morte destes homens, sendo cristãos e vassalos de Vossa Majestade e assim lhe peço mande Vossa Majestade declarar esta matéria». A resposta do rei determinará «que àqueles naturais da terra que morreram em acto semelhante de guerra, vivendo por este caminho gloriosamente para a memória, se deve dar a suas mulheres seu sustento a meia praça, como fizestes praticar no caso que referis». Será ainda vice-rei do Brasil de 1713 a 1618, e o 1º marquês de Angeja, numa longa vida dinâmica.
O inspirado poeta e pensador Teixeira de Pascoais nasce neste dia em 1877, em Amarante, junto à sua serra mágica, o Marão. Foi com Leonardo Coimbra o mestre do movimento da Renascença Portuguesa, no princípio do século. Visionário do Portugal telúrico, poeta duma capacidade inaudita de humanizar imaginativamente a natureza, também soube entrar no mar, como nos Poetas Lusíadas, sugerindo «que o espírito de Neptuno encarnara em Luís de Camões, quando ele, em certas estrofes dos Lusíadas, é a própria voz do mar. Todos cenários marítimos, deslumbrando ou aterrorizando os nautas descobridores, se integraram por fim no génio da Raça. Camões, tendo herdado aquela imensa lembrança tempestuosa, contemplava o grande Oceano, a bordo da nau S. Bento que o levou para a Índia, em 1553. Ele via a vastidão das águas e outras águas, mais profundas e salgadas, marulhavam na sua memória, como longínqua recordação. E assim as duas imagens do mar (a exterior e a interior) se desdobraram nas ondas dos seus versos oceânicos. Nenhum poeta deu o mar como Camões, porque ninguém, como ele, tão intimamente o possuiu».
3-XI. Uma postura do Senado de Goa datada deste dia de 1618 determina que ninguém de qualquer nacionalidade está autorizado a exercer a profissão de médico, cirurgião, ou barbeiro sangrador cirurgião, sem ter sido primeiro examinado e obtido o respectivo diploma. Visava-se obstar a consequências mais melindrosas do ditado: «De médico e de louco todos temos um pouco»..
Pronunciando os nomes "Jesus, Maria" desencarna em 1713 o padre Francisco de Santa Maria, autor do Ano Histórico, vasta obra em que muitas das efemérides dos Descobrimentos estão debuxadas catolicamente. Nunca dizia mal dos sermões que ouvia, menos quando confessou ter colhido o grande fruto de conhecer-se pelo homem mais ignorante, já que ouvira pregar na sua língua uma hora, mas nada entendera.
Wladmir Ivanov, um dos grandes orientalistas russos nasce neste dia 3/11/ de 1886 (e morrerá em 19/6/1970). Formado em S. Petersburg, conservador no Museu Asiático, colecionador de valiosos manuscritos trazidos de expedições, era um bom conhecedor do árabe, do persa e do Islão e especializou-se nos estudos ismaelitas, nas suas origens, desmascarando as falsas acusações sobre os fundadores do Ismaelismo, nomeadamente que teria sido Abdul Lah Ibn Al Qaddah, um religioso e pregador pouco ortodoxo e que instituíra um esquema complexo de iniciação. No Internet Archive, encontra os importantes Studies in Early Persian Ismailism, e The Alleged Founder of Ismailism.
Começa a publicar-se em Pangim neste dia em 1897 o jornal Era Nova, órgão do conde de Mahém D. José de Noronha, sendo editor José Maria Pereira, e durante seis anos será um dos jornais, primeiro semanário e depois diário, animadores da vida cultural de Goa. O historiador Germano Correia dirá: «D. José de Noronha era oriundo daquela fidalguia de outrora que deixando os seus lares pátrios, acorre presurosa e intimorata, para a maior glória de Deus e da Nação, onde quer que a sua presença fosse reclamada... Foram os fidalgos dessa têmpera — quais cavaleiros do Graal — em cujo seio não se sabe o que brilhava mais, se o rútilo eco das suas armaduras brasonadas, se o fulgor do seu amor pátrio. O conde de Mahém foi um autêntico valor nesta sociedade, onde escasseiam as individualidades produtivas. A sua inconfundível figura de gentil homem brilhou tanto nos salões como nos campos de lavoura, junto à terra em prol de que tanto trabalhou, e no seio da qual criou juz a repousar em paz».
Nasce Charlotte Vaudeville, na Isére, França, em 1918, e será uma das mais sábias indologistas, na filologia e nas ciência históricas e religiosas, aprendendo e trabalhando com Louis Renou, Dhirendra Varma, Jules Bloch, e desenvolvendo estudos muitos valiosos sobre o Ramayana e o Ayhodya Khanda, de Tulsi Das, o Granthavali de Kabir, o Haripath de Jnana Deva e as Pastorais de Surdas, sendo considerada a melhor especialista moderna de Kabir. Foi professora em diversas universidades, membro de várias instituições cientificas e deixou uma vasta obra de livros e artigos. Deixou a Terra em 28 de Abril de 2006.
4-XI. O papa Paulo III envia em 1543 um breve a D. João III, denominado o Piedoso, acerca do pedido de de expulsar-se de Roma, pela sua maldade, o bispo de Viseu e já então cardeal D. Miguel da Silva e Menezes (1448-1456), no qual afirma que «é digno de Vossa Majestade, pela sua piedade e religião, não se intrometer nas coisas eclesiásticas, nem de modo algum impedi-las». Da alta qualidade humanista e anímica de D. Miguel da Silva, sobrinho de Santa Beatriz da Silva e do Beato Asmodeu da Silva, durante muitos anos embaixador de Portugal, e depois, pela animosidade algo fanática de D. João III, que o chegou a desnaturalizar, refugiado em Roma, falam o papa Leão X, considerando-o "embaixador óptimo, cheio de bondade, de prudência e inteligência", e a dedicatória que lhe consagrou Baltasar Castiglione da sua famosa obra acerca das pessoas dos paços e cortes, do amor e costumes gentis, O Cortesão. Além da inveja pessoal do rei D. João III, o pouco apoio à instalação da Inquisição em Portugal e o seu erasmismo, devem ter sido outros dos factores do ódio do famigerado rei tido como piedoso. Em contraposição, as vibrações anímicas de D. Miguel de Silva e dos seus amigos humanistas serão perenemente luminosas, ou não fossem todos eles amigos de Erasmo, tais como Pietro Bembo, Paolo Giovio, Beroaldo, Sadoleto e Castiglione.
Carta do P. Francisco de Pina em 1561 acerca da viagem feita na armada do vice-rei D. Francisco Coutinho: junto a Moçambique quando se receava o naufrágio há «um milagre evidentíssimo, que em saindo o sol, que já estávamos todos desconfiados, Nosso Senhor parece que movido das vossas orações lá, veio logo de improviso um vento fresco da terra e começou-nos a tirar do baixo, e durou-nos até nos pôr na altura do mar. Todo o caminho a gente falava neste milagre». Conta também como «ao dia do Espírito Santo fizeram um Imperador; preguei-lhe aquele dia», prova importante da vitalidade ainda em curso desta corrente espiritual bem valiosa em Portugal, mesmo em plena navegação.
São publicados em 1609 dois alvarás contra as doações, dádivas e acrescentamentos dos bens eclesiásticos, criticando-se ainda a devassidão do trato e mercância por religiosos, registando-se que «a conversão dos gentios esfriara pelo escândalo». Já Erasmo criticara a mania dos missionários de converterem os outros antes de se terem convertido à philosophia christi, como ele chamava frequentemente ao Catolicismo, que se esquecia desse "amor à Sophia ou Sabedoria" que Jesus vivera e partilhara

Nasce o 5º conde da Ericeira D. Luís Carlos Inácio Xavier de Meneses neste dia em 1689. Estudioso, falando várias línguas, participando nas Academias e conferências da época, foi duas vezes vice-rei na Índia (1717-1721 e 1740-1742), vitorioso em várias batalhas, bom governador, e diplomata cordial com os Mogóis e os Persas, mas atribulado nas viagens e nas intrigas invejosas, nomeadamente do próprio rei que, quando ele regressou o manteve afastado do Paço durante doze anos, embora continuasse a ser consultado pelo Conselho Ultramarino, provação de que sairá contudo vitorioso e reabilitado. Em 1719 valorizou com a sua visão universalista a acção dos jesuítas na China, ao pedir ao arcebispo de Goa que os apoie na questão da adopção dos ritos chineses. Tornar-se-á o 1º marquês do Louriçal e deixará descendência notável.
O alvará do privilégio para a impressão dos Colóquios dos simples e drogas he coisas da Índia, de Garcia de Orta é dado neste dia pelo vice-rei D. Francisco Coutinho em 1562. Da dedicatória a Martim Afonso de Sousa: «É aprovada de todos a sentença de Salústio em que encomenda aos homens que trabalhem exceder e ter preeminência sobre os outros animais, que não passem a vida em silêncio, como fazem os brutos que não têm mais cuidado que de comer e beber... determinei fazer este tratado». Segue-se um soneto ao mesmo, umas odes de Camões ao vice-rei, recomendando Garcia de Orta: «Olhai que em vossos anos / Produz uma Orta insigne várias ervas, / Nos campos Lusitanos, / As quais, aquelas doutas e protervas / Medeia e Circe nunca conheceram, / Posto que as leis da Mágica excederam... O qual está pedindo / Vosso favor e ajuda ao grão volume, / Que agora em luz saindo / Dará da medicina um novo lume; / E descobrindo irá segredos certos, a todos os antigos encobertos». Vem depois um prólogo do médico valenciano Dimas Bosque: «Comum doutrina foi de todos os filósofos, prudente leitor, os homens, por causa e razão dos próprios homens serem nascidos, e de seu próprio nascimento, terem obrigação de aproveitar os outros: isto sentia o divino Platão quando dizia, não ser nascido homem só para si, mas também para pátria e amigos, e ainda que os homens, cumprindo com sua humana inclinação, aproveitando os outros, façam aquilo para que naturalmente gerados foram, contudo se lhes deve muito, pois não receando trabalhos, puseram suas forças em descobrir a verdade, tirando a névoa e véu que impedem os humanos entendimentos no perfeito conhecimento dela, e, o que mais é para arrecear, sujeitar-se a opinião de tantos e tão diversos pareceres». Por fim, há uma epístola do mesmo licenciado ao Dr. Tomé Rodrigues, lente de Medicina na Universidade de Coimbra, e um epigrama em latim de Tomé Dias Caiado considerando Garcia de Orta excelente médico quão filósofo.
Graças à iniciativa do Físico-mór Mateus Cesário Rodrigues Moacho, formado em Lisboa e Lovaina, é criada a Escola Médico-Cirúrgica de Nova Goa por portaria provincial datada de 5 de Novembro de 1842 emitida pelo governador da Índia Francisco Xavier da Silva Pereira, Conde das Antas, que teve apenas uns meses no cargo. Nesta escola formaram-se mais de 1300 médicos e cerca de 470 farmacêuticos, de grande qualidade, até ser extinta dois anos depois da reintegração de Goa no Estado indiano, em 1963.
4-XI. O papa Paulo III envia em 1543 um breve a D. João III, denominado o Piedoso, acerca do pedido de de expulsar-se de Roma, pela sua maldade, o bispo de Viseu e já então cardeal D. Miguel da Silva e Menezes (1448-1456), no qual afirma que «é digno de Vossa Majestade, pela sua piedade e religião, não se intrometer nas coisas eclesiásticas, nem de modo algum impedi-las». Da alta qualidade humanista e anímica de D. Miguel da Silva, sobrinho de Santa Beatriz da Silva e do Beato Asmodeu da Silva, durante muitos anos embaixador de Portugal, e depois, pela animosidade algo fanática de D. João III, que o chegou a desnaturalizar, refugiado em Roma, falam o papa Leão X, considerando-o "embaixador óptimo, cheio de bondade, de prudência e inteligência", e a dedicatória que lhe consagrou Baltasar Castiglione da sua famosa obra acerca das pessoas dos paços e cortes, do amor e costumes gentis, O Cortesão. Além da inveja pessoal do rei D. João III, o pouco apoio à instalação da Inquisição em Portugal e o seu erasmismo, devem ter sido outros dos factores do ódio do famigerado rei tido como piedoso. Em contraposição, as vibrações anímicas de D. Miguel de Silva e dos seus amigos humanistas serão perenemente luminosas, ou não fossem todos eles amigos de Erasmo, tais como Pietro Bembo, Paolo Giovio, Beroaldo, Sadoleto e Castiglione.
Carta do P. Francisco de Pina em 1561 acerca da viagem feita na armada do vice-rei D. Francisco Coutinho: junto a Moçambique quando se receava o naufrágio há «um milagre evidentíssimo, que em saindo o sol, que já estávamos todos desconfiados, Nosso Senhor parece que movido das vossas orações lá, veio logo de improviso um vento fresco da terra e começou-nos a tirar do baixo, e durou-nos até nos pôr na altura do mar. Todo o caminho a gente falava neste milagre». Conta também como «ao dia do Espírito Santo fizeram um Imperador; preguei-lhe aquele dia», prova importante da vitalidade ainda em curso desta corrente espiritual bem valiosa em Portugal, mesmo em plena navegação.
São publicados em 1609 dois alvarás contra as doações, dádivas e acrescentamentos dos bens eclesiásticos, criticando-se ainda a devassidão do trato e mercância por religiosos, registando-se que «a conversão dos gentios esfriara pelo escândalo». Já Erasmo criticara a mania dos missionários de converterem os outros antes de se terem convertido à philosophia christi, como ele chamava frequentemente ao Catolicismo, que se esquecia desse "amor à Sophia ou Sabedoria" que Jesus vivera e partilhara

Nasce o 5º conde da Ericeira D. Luís Carlos Inácio Xavier de Meneses neste dia em 1689. Estudioso, falando várias línguas, participando nas Academias e conferências da época, foi duas vezes vice-rei na Índia (1717-1721 e 1740-1742), vitorioso em várias batalhas, bom governador, e diplomata cordial com os Mogóis e os Persas, mas atribulado nas viagens e nas intrigas invejosas, nomeadamente do próprio rei que, quando ele regressou o manteve afastado do Paço durante doze anos, embora continuasse a ser consultado pelo Conselho Ultramarino, provação de que sairá contudo vitorioso e reabilitado. Em 1719 valorizou com a sua visão universalista a acção dos jesuítas na China, ao pedir ao arcebispo de Goa que os apoie na questão da adopção dos ritos chineses. Tornar-se-á o 1º marquês do Louriçal e deixará descendência notável.
5-XI. Valiosa carta de S. Francisco Xavier escrita neste dia em 1549, em Kagoshima, no Japão, relatando ter «conversado frequentemente com bonzos mais instruídos, sobretudo um deles, muito respeitado dos seus irmãos pela sua doutrina, a sua vida, a sua dignidade e também a sua idade; tem 80 anos, chama-se Ninjit, ou seja, em japonês, coração da verdade. É como o abade deles... Ele mostra-se tão meu amigo que é maravilhoso... Temos os dois conversado frequentemente; encontrei-o hesitante quanto ao ponto de saber se a alma é imortal ou se ela morre com o corpo; tanto diz sim, como diz não; assim devem ser todos os seus letrados». Assim referia Francisco Xavier um dos pontos principais das doutrinas do budismo zen, a inexistência do eu e portanto a mortalidade da alma, com a qual ele não podia concordar. O arguto observador P. Luís Fróis, na sua História do Japão, explica que «era aquele mosteiro da seita dos Jenxus (ramo Sôtô), que tem para si não haver mais que nascer e morrer, e que não há outra vida, nem castigo dos males, nem remuneração dos bens, nem autor que governe o universo. Entre outras muitas coisas, que o P. Mestre Francisco passou com este Ninjit, foram duas: a 1ª é que têm por costume aqueles bonzos, dentro dum ano, meditarem — cem dias uma ou duas horas determinadas, a que chamam zazen — sobre este não haver nada, para melhor extinguirem o remorso da consciência; e na compostura do corpo estavam com tanta modéstia, recolhimento e tranquilidade, como se estivessem arrebatados em uma contemplação divina. Passando uma vez o P. Mestre Francisco com este bonzo velho, superior do mosteiro, por este lugar comum, aonde todos os bonzos estavam fazendo sua meditação, perguntou o padre a Ninjit: «Que é que fazem aqui estes religiosos?» Ele sorrindo-se, lhe respondeu: «Uns estão fazendo de conta de quanto têm ganhado com seus fregueses os meses atrás passados; outros, donde poderão adquirir melhores vestidos e tratamentos para suas pessoas; outros em suas recreações e passatempos; e finalmente nenhum, em coisa que seja de algum momento». Eram as primeiras descrições ocidentais do zazen e das suas dificuldades no controle das vagas do pensamento. Em 1560, o P. Luís de Almeida e os discípulos de Ninjit relembrarão com gratidão os diálogos de seus mestres, sem dúvida momentos pioneiros do diálogo interreligioso ainda hoje tão necessário para a paz, a sabedoria e o além das pessoas, religiões e sociedades.
Graças à iniciativa do Físico-mór Mateus Cesário Rodrigues Moacho, formado em Lisboa e Lovaina, é criada a Escola Médico-Cirúrgica de Nova Goa por portaria provincial datada de 5 de Novembro de 1842 emitida pelo governador da Índia Francisco Xavier da Silva Pereira, Conde das Antas, que teve apenas uns meses no cargo. Nesta escola formaram-se mais de 1300 médicos e cerca de 470 farmacêuticos, de grande qualidade, até ser extinta dois anos depois da reintegração de Goa no Estado indiano, em 1963.
6-XI. O padre Henrique Henriques (1520-1600), em carta escrita neste dia em 1550 ao seu patriarca S. Inácio de Loiola, refere a abundância de palavras do vocabulário ou dicionário da língua do Malabar, o Tamil, que ele aprendera e compusera, que espantará os naturais e será muito útil aos outros missionários. Natural de Vila Viçosa, primeiro frade franciscano e depois jesuíta, cheio de energia e de fé, não parou enquanto andou pelas costas ocidentais da Índia a pregar, sendo um dos mais ousados dialogantes com a religião oriental e convivendo bastante com um mestre yogi, que conseguiu por fim converter. Restam da sua faina algumas cartas notáveis: «Fizemos uma regra entre nós senão falar malabar e há uma pena para quem falar em português, a não ser falando nós das coisas de Deus, encorajando-nos a servi-Lo» Erasmo, quando entre 1507 e 1508, estivera em Veneza a aprofundar a língua grega com Marco Musuro, na famosa tipografia de Aldo Manucio, esteve sob a mesma regra na Academia Aldina, de não poderem falar senão em grego, sob pena de pagarem um contributo para um agape convivial. O Padre Henrique Henrique imprimiu em caracteres tamil uma Vidas de Santos e uma Doutrina Cristã, permitindo assim que o tamil fosse a primeira língua não-europeia a ser impressa em caracteres móveis.
Neste dia, 6-XI-1556, o Patriarca da Etiópia [e Oriente], Dom João Nunes Barreto, em Goa, escreve para Lisboa dando conta ao provincial dos jesuítas Luís Gonçalves da Câmara não só do bom funcionamento do curso de Filosofia no Colégio de S. Paulo, como do começo da Tipografia na Índia, que chegara dois meses antes ao continente indiano, ao sair à luz hindustânica as Conclusiones Philosophicas que Francisco Cabral defendeu perante Padre António Quadros, seu professor no Colégio de S. Paulo: «António Quadros prega a filosofia. Houve conclusões públicas, que parecia que eram sustentadas em Coimbra, onde houve grande concurso de gente e padres (...) João [Bustamante] imprimiu já estas conclusões e outras coisas, o que se faz já bem e muito melhor se fará cada vez mais ao diante. O índio é muito bem inclinado e amigo de se confessar muitas vezes; no mar nos serviu muito bem na cozinha e aqui mostrou saber bem da impressão; e de que o P. Francisco Rodrigues está contente e deseja outro. Neste colégio agora querem imprimir a Doutrina Cristã que fez mestre Francisco; espero que em Etiópia se faça muito fruito com essa impressão».
O rei D. João IV morre em 1656, com 52 anos de idade e o corpo é sepultado debaixo do sacrário da capela-mor de S. Vicente de Fora, com bela música, a que tanto se dedicara, a acompanhá-lo. Filho de D. Teodósio II, sétimo duque de Bragança e duma duquesa castelhana, manteve-se discreto durante a ocupação e espanhola e, hesitando em aderir à revolução dos nobre conjurados em 1640, foi sua mulher Dona Luísa de Gusmão, por sinal espanhola de nascimento mas portuguesa de afeição quem o espicaçou, ensinando-lhe: «Mais vale ser rainha uma hora, que duquesa toda a vida». No seu reinado, de apertada luta pela sobrevivência perante Espanha, mas vitoriosa, a opção do Brasil em vez da Índia começou a desenhar-se cada vez mais. Está sepultado no mosteiro de S. Vicente de Fora, no antigo refeitório transformado em refrigerante panteão real da Casa de Bragança e não só.
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7-XI. Morre neste dia em 1629 em Goa, Frei Sebastião de S. Pedro. Natural de Condeixa-a-Nova, partira para a Índia em 1582, como frade agostinho. Em 1614 escreveu a Recopilação das causas, porque o Imperador de Japão desterrou de seus Reinos todos os Padres, criticando a actuação dos missionários jesuítas, sendo refutado pelo provincial jesuíta Valentim Carvalho, na sua Apologia do Japão. Como bispo de Cochim entre 1615 e 1625, escreveu para a Mesa de Consciência e Ordens, em Lisboa, o organismo do Estado que fundado em 1532 superintendia o espiritual no Ultramar, queixando-se dos franciscanos no Ceilão. Esteve depois na Pérsia, onde os missionários eram tanto agentes comerciais e diplomatas como sacerdotes. Regressado a Lisboa, parte como bispo de S. Tomé de Meliapor, que governará de 1623 a 1625, defendendo-a contra os holandeses três meses; pelo seu conhecido destemor foi mandado pelo vice-rei na expedição contra o cerco dos holandeses em Paleacate, que será também levantado. Chegará depois a arcebispo de Goa e Primaz das Índias em 1625 e será construtor de templos, até em 1629, rasgar o véu que o separava do Templo da Eternidade e para aí se encaminhar. A luta pela sobrevivência dos portugueses era tão forte que não será fácil avaliar ou julgar estes monges militares que, não oferecendo a outra face, preferiam expulsar os, para eles, vendilhões do templo, neste caso os holandeses.
O rei D. João IV morre em 1656, com 52 anos de idade e o corpo é sepultado debaixo do sacrário da capela-mor de S. Vicente de Fora, com bela música, a que tanto se dedicara, a acompanhá-lo. Filho de D. Teodósio II, sétimo duque de Bragança e duma duquesa castelhana, manteve-se discreto durante a ocupação e espanhola e, hesitando em aderir à revolução dos nobre conjurados em 1640, foi sua mulher Dona Luísa de Gusmão, por sinal espanhola de nascimento mas portuguesa de afeição quem o espicaçou, ensinando-lhe: «Mais vale ser rainha uma hora, que duquesa toda a vida». No seu reinado, de apertada luta pela sobrevivência perante Espanha, mas vitoriosa, a opção do Brasil em vez da Índia começou a desenhar-se cada vez mais. Está sepultado no mosteiro de S. Vicente de Fora, no antigo refeitório transformado em refrigerante panteão real da Casa de Bragança e não só.
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7-XI. Morre neste dia em 1629 em Goa, Frei Sebastião de S. Pedro. Natural de Condeixa-a-Nova, partira para a Índia em 1582, como frade agostinho. Em 1614 escreveu a Recopilação das causas, porque o Imperador de Japão desterrou de seus Reinos todos os Padres, criticando a actuação dos missionários jesuítas, sendo refutado pelo provincial jesuíta Valentim Carvalho, na sua Apologia do Japão. Como bispo de Cochim entre 1615 e 1625, escreveu para a Mesa de Consciência e Ordens, em Lisboa, o organismo do Estado que fundado em 1532 superintendia o espiritual no Ultramar, queixando-se dos franciscanos no Ceilão. Esteve depois na Pérsia, onde os missionários eram tanto agentes comerciais e diplomatas como sacerdotes. Regressado a Lisboa, parte como bispo de S. Tomé de Meliapor, que governará de 1623 a 1625, defendendo-a contra os holandeses três meses; pelo seu conhecido destemor foi mandado pelo vice-rei na expedição contra o cerco dos holandeses em Paleacate, que será também levantado. Chegará depois a arcebispo de Goa e Primaz das Índias em 1625 e será construtor de templos, até em 1629, rasgar o véu que o separava do Templo da Eternidade e para aí se encaminhar. A luta pela sobrevivência dos portugueses era tão forte que não será fácil avaliar ou julgar estes monges militares que, não oferecendo a outra face, preferiam expulsar os, para eles, vendilhões do templo, neste caso os holandeses.
O sábio historiador Luciano Cordeiro, vice-presidente da Comissão dos Monumentos Nacionais, lê o seu parecer As Obras dos Jeronymos, na sessão de 7 de Novembro de 1895, historiando as vicissitudes das reparações e reconstruções com que uma série de arquitectos e responsáveis destruíram e alteraram partes substanciais da Igreja e do mosteiro. Apresenta a visão do que se poderá fazer de mais harmonizador, e defenderá o espírito do local: «No Monumento fundiu-se uma ideia; reside e perpetua-se nele uma intenção, um culto, uma consagração histórica que se quer respeitar desde que se quer conservar e restaurar o Monumento./ Se não se compreende, se não se sente, se não se respeita isto, parece hipocrisia o empenho e o cuidado da conservação material./ O monumento comemorativo de um feito que sintetiza e glorifica o nome, o esforço, a missão histórica de um povo através das idades e nações, não pode ser vazadouro ou asilo eventual de serviços e instituições avulsas sem carácter nem significado que com a dele condigna numa espontânea e nobre consonância moral./ Santa Maria de Belém é o Te-Deum que agradece e celebra a vitória da ideia, da fé e do esforço que alargaram o nome e a terra da Pátria portuguesa./ Como Santa Maria canta e celebra o triunfo do direito, da vontade, da razão das gerações que fizeram essa Pátria independente e soberana./ Completam-se e continuam como padrões do desenvolvimento de um povo no tempo e no espaço, na sua solidariedade histórica e na sua individualidade política. Pertencem à história desse país. São monumentos religiosos, menos já porque o sejam de uma crença mística do que porque o são da honra e do nome comum. Guardar, conservar, reparar, amoravelmente, devotamente, tais monumentos, - estes como tantos; - restituir aos Jerónimos, - que é o caso especial, oportuno, que nos preocupa, a continuidade, a integridade, a conclusão panorâmica, estética, monumental, nada mais honesto, mais digno, mais digno, mais afirmativo da nossa dignidade cívica e da nossa cultura moral. Mas não é tudo...» Admitirá então mais do que se tornar um Panteão, acolher a Torre do Tombo ou um Museu de Arqueologia. Luciano Cordeiro, um ser de visão alargada (e clarividente quanto ao museu), com vasta obra sobre os Descobrimentos.











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