Recebi o privilégio, após regressar de uma estadia na Índia de um ano em ashrams e com vários mestres, aprendizagens e iniciações, ao ser professor de yoga e meditação nas décadas de oitenta e noventa em algumas cidades, de conhecer várias pessoas de grande qualidade anímica que tanto aprenderam comigo como eu com elas, ao obrigarem-me a alargar a minha alma às aulas e ensinos, aos seus problemas e potenciais, transmitindo-me algo das suas especificidades de sensibilidade e questionamento, amor e sabedoria. E como algumas já se libertaram da vida corporal terrena pensei ser apropriado relembrar e comemorar esses encontros, amizades, magistérios, demandas e seres maravilhosos neste dia 2 de Novembro de 2026, dia dos Fiéis defuntos, porque realmente elas foram Fiéis do Amor, e lembram-me neste dia de comungar em Amor com elas!
Livros, Arte, Sabedoria, Amor, Religião, Espiritualidade, Esoterismo, Meditação, Anjos, Peregrinar, Oriente, Irão, Índia, Mogóis, Rússia, China-Japão, Brasil, Renascimento, Símbolos, Tarot, Saúde natural, Ecologia, Gerês, Nuvens, Árvores, Pedras. S. António, Bocage, Antero, F. Leal, W. de Morais, Pessoa, Aug. S. Rita, Sant'A. Dionísio, Agostinho da Silva, Dalila P. da Costa, Pina Martins, Pitágoras, Ficino, Pico, Erasmo, Bruno, Tolstoi, Tagore, Roerich, Ranade, Bô Yin Râ, Guénon, Corbin, Dugin.
segunda-feira, 2 de novembro de 2026
Dia dos Fiéis do Amor, defuntos na terra mas imortais nos céus. Postais da Elisa Dantas, aluna de Yoga, no Suribachi, no Porto, nos anos 80
Se imaginar as aulas que dei sobretudo em Évora, Covilhã, Lisboa e Porto, nos seus locais e com as suas pessoas, não posso deixar de me admirar e curvar-me com as almas tão luminosas que conheci e que na maioria hoje nada sei por onde e como avançam nos seus percursos luminosos.
Que momentos de grande ensinamentos, meditações, exercícios, convívios, idas à Natureza, satsangas, visitas a Dalila Pereira da Costa ou a Sant'Anna Dionísio. Que almas puras vieram ter comigo e aprenderam as artes da harmonização e da meditação, sobretudo yoguicas e da Índia, mas também cristãs, naturistas, cura natural, macrobióticas e yogicas da Rússia dos Roerich.
Os diários que conservo desses anos da década sobretudo de oitenta e algo de 90, mostram-me o desenrolar das aulas, o que elas ou eu sentimos ou realizamos, os problemas, as melhorias, os potenciais, e um dia partilharei algo disso.
Tantas almas fabulosas, tantas, na demanda de conhecimentos, de harmonia, do espírito divino que somos na sua essência subtilíssima. Muita Luz e Amor desçam de Deus, dos espíritos celestiais e dos mestres sobre elas.
Hoje vou homenagear mais especificamente uma, já que citarei partes dos seus sábios escritos em belos postais, a Elisa Dantas, professora de inglês no liceu Rodrigo de Freitas no Porto, e que foi das mais dotadas da aspiração de realização de conhecimento espiritual, e que viajou até à Índia e a outras partes nessa demanda. Sempre caminhando a pé, pequena, de longos cabelos castanho aloirados, face branca, inquiridora da vida, questionadora nas palavras e um sorriso de rendição da alma ao que se lhe tornava evidente.
Amanhã transcreverei mais dois postais e bervemente conto apresentar uma fotografia dela, com mais algumas pessoas do grupo de Yoga no Suribcachi, Porto... ***
I.
«Pedro
Recebi hoje a sua carta que agradeço; recolhi as palavras nela escritas.
Fui hoje almoçar ao Suribachi e a Maria Arminda [directora] disse-me que tenciona vir cá no dia 19 e ficar durante a semana; claro que participarei no que puder.
E foi também hoje que soube do revés que atingiu a sua família [desencarnação do meu pai]. O Pedro sabe melhor do que eu a contingência das vidas físicas, mas é ainda com elas que sofremos.
Perante o fantástico desta vida que a sua dor se transforme em consolação para a dor dos outros.
Aum
Elisa.
****
II. 4.9.85
Pedro
Gostava de ser eu a imagem do postal, mas acho que ainda não é tempo para mim.
Daqui a bocado vou visitar Swami Kaivalyananda, já me informaram onde é que ele vive, Vejamos *
Cada dia é recheado de novas experiências. Julgo que é impossível de descrevê-las. Nem posso acreditar em tanto, tanto...E cada vez tenho menos palavras.
Talvez algum dia possamos ambos fazer a escalada do terreno rochoso da montnha.
Om Om. Om. Hari Om.
Um beijo da Elisa
*Ninguém na zona [de Rishikesh, onde eu estivera uns anos antes] conhece o Swami. Vou mandar-lhe um postal. Estou desolada.
***
III. 1986
Surya Namaskar
Pedro,
Como vê, escrevo logo - é o meu primeiro dia de estadia em Londres com um sol radioso e uma temperatura razoável [...]
*****
IV. 1988-89
Ao Pedro
Votos de grande realização no Ano Novo.
Com Amizade
Elisa
Aum...
***
V - Om, blessed Atma! Pedro,
Faz hoje uma semana que partiu. Espero que tudo esteja a correr bem e que sinta vontade e regressar o mais depressa possível e partilhar essas experiências todas.
Eu recebi uma carta da escola do Rudolfo Steiner de Edimburgo em que me mandam o programa de actividades até Agosto e o programa do curso de Verão do Emerson College (imagino que é onde o Pedro vai ou já foi - East Susex). Não fazem referência ao meu pedido de indicação de escolas em Londres.
Devo dizer que isto começa a fazer algum sentido para mim. Estou interessada no curso de Verão, só acho que é muito curo, por isso não sei quanto se poderá aproveitar com ele.
Não vou de forma alguma precipitar-me em decisões. Enquanto o Pedro não vier vou falar com a gente da Antroposófica [No Porto, tal o Rocha, o Zé Pedro, o Jacinto Rodrigues e a Rosa] e fico a aguardar indicações do Pedro.
Até esta noite nunca dei grande importância aos sonhos, mas parece que também nisso me vou modificar. Acordei de repente com uma interpretação/revelação sobre um sonho que imediatamente lembrei que volta e meia tenho: vou a subir num elevador, ou, confusamente, a mudar de um para outro, e começo a sentir uma grande ansiedade porque o elevador não deixa de subir, perco a noção do tecto da caixa e sinto uma atmosfera diferente, uma impressão estranhissima de pairar/ flutuar no desconhecido. Agora que lhe estou a a escrever, estou a associar com uma sensação muito semelhante que eu tinha em sonho em miúda, em que saltava de um rochedo e nunca mais chegava ao chão Que será isto?!
Fico a aguardar. Um beijo
Elisa.
[- Pois, querida Elisa, onde quer que esteja, creio que eram sonhos da sua alma libertando-se das limitações e constrangimentos do corpo físico e tanto não parando de subir como de descer, sentindo-se na consciência a sonhar ou mesmo fora do corpo bem mais ilimitada do que as leis da gravidade no tempo e espaço terrestre sensorial e corporal permitem normalmente no estado de vigília. Creio que certamente estará agora num plano luminoso espiritual, bem capaz de voar ou deslocar-se instantaneamente para onde quiser. Possam as melhores realizações espirituais estarem consigo e envie umas inspirações e bênçãos de quando em quando para nós ainda na terra.]
***
VI. 9. 86
I've just arrived from Quinta da Calma in Almancil. Yes!! Tudo, tudissimo estrangeiro!!! A Sylta está interessada em o Pedro ir lá experimentar um fim de semana em Novembro, mas eu gostava de conversar com o Pedro sobre isso. Não encontrei a Paquinta [outra professora de Yoga, belga (na linha de Sat chit Ananda, de Madras e Nova Iorque), que ensinava na sua quintinha e onde vim a estar algumas vezes], mas também tenho as minhas ideias sobre isso. . Senão de tarde [...]
Tenciono ir no Sábado a Lisboa, pois há um curso de culinária na Unimave e queria frequentar. Telefono quando chegar, o que deve acontecer pela hora do almoço. Talvez fosse bom deixar recado para mim. Senão, de tarde pode encontrar-me na Unimave. Um beijo da Elisa. Aum.
***
VII. Pedro, Hoje, ao fazer a saudação ao sol, enviei o sol até aí para o curar mais depressa [ao podar uma oliveira em Tomar caíra e partira o braço direito], só que não sei se sei fazer estas coisas. Outro dia, com a Manuela e a Maria Augusta pensámos enviar-lhe vibrações positivas, mas não sabíamos como fazer - como vê, há muito que ficou por aprender. [Esta carta com uma fotografia é dos começos do ensino com a Elisa]
Acabei de ler o livro da Fraternidade. Acho que vale a pena esperar que eles cá venham; talvez possa trabalhar com eles, não?
O Pedro falou em "caminhos diferentes" ao telefone. Eu não vou seguir nenhum caminho diferente, Pedro!
O agni yoga diz que não se deve ter medo e eu não tenho medo do hatha yoga nem do raja yoga. Tenho um longo caminho a percorrer, disso tenho a certeza, e foi-me dado nesta vida uma mente cheia de imaginação, um sistema nervoso concentrado e, agora, um plano emocional exacerbado. O que provoca isto tudo? Que no plano físico tenha dores musculares, que o plano emocional actue como tirano e que a imaginação se sobreponha ao espírito. Isto é uma outra maniera de tentar fazer o Pedro compreender que o hatha yoga e o raja yoga me ajudarão a fortalecer (no espaço de três meses, espero) a sentir-me perfeitamente equilibrada.
Não acho que fosse melhor eu tomar comprimidos e ir fazer dança-jazz ou isso, pois não? Aliás, acho que o Yoga é só um, as pessoas é que são diferentes. Acho que é bem claro que me sinto bem com o Agni Yoga, mas não vou por isso dizer mal dos outros. Ainda me dizia há tempos o Pedro que no Verão se deve comer poco arroz... e não tem nada contra o arroz, pois não? O tempo é que varia. Aliás, isto é tudo porque o Pedro não está cá quando devia estar. Com as leituras da Arcane School acho que consegui amadurecer algumas ideias sobre a meditação, mas talvez possamos falar sobre isso mais tarde.
Pedro, trate o melhor possível de si. Está em causa "o templo do Espírito Santo"; confio que a natureza e a sua sabedoria transformarão o problema numa obra de arte. Tenho imaginado que o braço que tem doente é o direito, não sei porquê.
Tenho um diariozinho sem dias que iniciei há para aí uns três anos. Escrevo nele muito pouco. Em vez de andar sempre a telefonar-lhe, talvez me baste transcrever uma anotação das primeiras folhas e, o resto, depois que conheci o Agni Yoga; talvez se consiga perceber que não estou num "caminho diferente".
Hoje trepei pelos fios de chuva... até às nuvens. E escondi-me lá detrás... em algodão em rama, a beber os raios de sol filtrados.
Não quero descer já. Não quero o barulho da confusão, a mistura das palavras ocas. Quero continuar aqui até ter saudades!"
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"Hoje percorri o infinito.
Atravessei o meu corpo, devorei a minha mente, calei a minha alma.
E fui uma sem palavras nem gestos nem pensamentos: vivi a eternidade."
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(Em Monchique, última anotação)
Abri-me, na árvore, em ramo
E suspendi-me.
Lancei-me ao vento
Espraiei-me no ar
Invadiu-me a plenitude.
Recolhi-me então dentro de mim.
Senti a alegria
Expandi o amor
Acariciou-me a ternura
Bebi a beleza."
Aum.
Elisa.»
Muita luz e amor na Elisa, na Manuela, na Maria Augusta e demais alunas e alunos.
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