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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Dia dos Fiéis do Amor, defuntos na terra mas imortais nos céus. Postais da Elisa Dantas, aluna de Yoga, no Suribachi, no Porto, nos anos 80

                                             
Recebi o privilégio, após regressar de uma estadia na Índia de um ano em ashrams e com vários mestres, aprendizagens e iniciações,  ao ser professor de yoga e meditação nas décadas de oitenta e noventa em algumas cidades, de conhecer várias pessoas de grande qualidade anímica que tanto aprenderam comigo como eu com elas, ao obrigarem-me a alargar a minha alma às aulas e ensinos,  aos seus problemas e potenciais, transmitindo-me algo das suas especificidades de sensibilidade e questionamento, amor e sabedoria. E como algumas já se libertaram da vida corporal terrena pensei ser apropriado relembrar e comemorar esses encontros, amizades, magistérios, demandas e seres maravilhosos neste dia 2 de Novembro de 2026, dia dos Fiéis defuntos, porque realmente elas foram Fiéis do Amor, e lembram-me neste dia de comungar em Amor com elas! 

Se imaginar as aulas que dei sobretudo em Évora, Covilhã, Lisboa e Porto, nos seus locais e com as suas pessoas, não posso deixar de me admirar e curvar-me com as almas tão luminosas que conheci e que na maioria hoje nada sei por onde e como avançam nos seus percursos luminosos.
Que momentos de grande ensinamentos, meditações, exercícios, convívios, idas à Natureza, satsangas, visitas a Dalila Pereira da Costa ou a Sant'Anna Dionísio. Que almas puras vieram ter comigo e aprenderam as artes da harmonização e da meditação, sobretudo yoguicas e da Índia, mas também cristãs, naturistas, cura natural, macrobióticas e yogicas da Rússia dos Roerich.
Os diários que conservo desses anos da década sobretudo de oitenta e algo de 90, mostram-me o desenrolar das aulas, o que elas ou eu sentimos ou realizamos, os problemas, as melhorias, os potenciais, e um dia partilharei algo disso.
Tantas almas fabulosas, tantas, na demanda de conhecimentos, de harmonia, do espírito divino que somos na sua essência subtilíssima.  Muita Luz e Amor desçam de Deus, dos espíritos celestiais e dos mestres sobre elas.

Hoje vou homenagear mais especificamente uma,  já que citarei partes dos seus sábios escritos em belos postais, a Elisa Dantas, professora de inglês no liceu Rodrigo de Freitas no Porto, e que foi das mais dotadas da  aspiração de realização de conhecimento espiritual, e que viajou até à Índia e a outras partes nessa demanda. Sempre caminhando a pé, pequena, de longos cabelos castanho aloirados, face branca, inquiridora da vida, questionadora nas palavras e um sorriso de rendição da alma ao que se lhe tornava evidente.
Amanhã transcreverei mais dois postais e bervemente conto apresentar uma fotografia dela, com mais algumas pessoas do grupo de Yoga no Suribcachi, Porto...
                                                      ***


I. 
 «Pedro
Recebi hoje a sua carta que agradeço; recolhi as palavras nela escritas.
Fui hoje almoçar ao Suribachi e a Maria Arminda [directora] disse-me que tenciona vir cá no dia 19 e ficar durante a semana; claro que participarei no que puder.
E foi também hoje que soube do revés que atingiu a sua família [desencarnação do meu pai]. O Pedro sabe melhor do que eu a contingência das vidas físicas, mas é ainda com elas que sofremos.
Perante o fantástico desta vida que a sua dor se transforme em consolação para a dor dos outros.
Aum
Elisa.
                                                        ****

II.  4.9.85
Pedro
Gostava de ser eu a imagem do postal, mas acho que ainda não é tempo para mim.
Daqui a bocado vou visitar Swami Kaivalyananda, já me informaram onde é que ele vive, Vejamos *
Cada dia é recheado de novas experiências. Julgo que é impossível de descrevê-las. Nem posso acreditar em tanto, tanto...E cada vez tenho menos palavras.
Talvez algum dia possamos ambos fazer a escalada do terreno rochoso da montnha.
Om Om. Om. Hari Om.
Um beijo da Elisa
*Ninguém na zona [de Rishikesh, onde eu estivera uns anos antes] conhece o Swami. Vou mandar-lhe um postal. Estou desolada.
                                                    ***

III. 1986
Surya Namaskar
Pedro,
Como vê, escrevo logo - é o meu primeiro dia de estadia em Londres com um sol radioso e uma temperatura razoável  [...]

                                                    *****

IV.                                                             1988-89
Ao Pedro
Votos de grande realização no Ano Novo.
Com Amizade
Elisa
Aum...
                                                    ***
V - Om, blessed Atma! Pedro,
Faz hoje uma semana que partiu. Espero que tudo esteja a correr bem e que sinta vontade e regressar o mais depressa possível e partilhar essas experiências todas.
Eu recebi uma carta da escola do Rudolfo Steiner de Edimburgo em que me mandam o programa de actividades até Agosto e o programa do curso de Verão do Emerson College (imagino que é onde o Pedro vai ou já foi - East Susex). Não fazem referência ao meu pedido de indicação de escolas em Londres.
Devo dizer que isto começa a fazer algum sentido para mim. Estou interessada no curso de Verão, só acho que é muito curo, por isso não sei quanto se poderá aproveitar com ele.
Não vou de forma alguma precipitar-me em decisões. Enquanto o Pedro não vier vou falar com a gente da Antroposófica [No Porto, tal o Rocha, o Zé Pedro, o Jacinto Rodrigues e a Rosa] e fico a aguardar indicações do Pedro.
Até esta noite nunca dei grande importância aos sonhos, mas parece que também nisso me vou modificar. Acordei de repente com uma interpretação/revelação sobre um sonho que imediatamente lembrei que volta e meia tenho: vou a subir num elevador, ou, confusamente, a mudar de um para outro, e começo a sentir uma grande ansiedade porque o elevador não deixa de subir, perco a noção do tecto da caixa e sinto uma atmosfera diferente, uma impressão estranhissima de pairar/ flutuar no desconhecido. Agora que lhe estou a a escrever, estou a associar com uma sensação muito semelhante que eu tinha em sonho em miúda, em que saltava de um rochedo e nunca mais chegava ao chão Que será isto?!
Fico a aguardar. Um beijo
Elisa.
[- Pois, querida Elisa, onde quer que esteja, creio que eram sonhos da sua alma libertando-se das limitações e constrangimentos do corpo físico e tanto não parando de subir como de descer, sentindo-se na consciência a sonhar ou mesmo fora do corpo bem mais ilimitada do que as leis da gravidade no tempo e espaço terrestre sensorial e corporal permitem normalmente no estado de vigília. Creio que certamente estará agora num plano luminoso espiritual, bem capaz de voar ou deslocar-se instantaneamente para onde quiser. Possam as melhores realizações espirituais estarem consigo e envie umas inspirações e bênçãos de quando em quando para nós ainda na terra.]
                                                     ***

VI. 9. 86
I've just arrived from Quinta da Calma in Almancil. Yes!! Tudo, tudissimo estrangeiro!!! A Sylta está interessada em o Pedro ir lá experimentar um fim de semana em Novembro, mas eu gostava de conversar com o Pedro sobre isso. Não encontrei a Paquinta [outra professora de Yoga, belga (na linha de Sat chit Ananda, de Madras e Nova Iorque), que ensinava na sua quintinha e onde vim a estar algumas vezes], mas também tenho as minhas ideias sobre isso. . Senão de tarde [...]
Tenciono ir no Sábado a Lisboa, pois há um curso de culinária na Unimave e queria frequentar. Telefono quando chegar, o que deve acontecer pela hora do almoço. Talvez fosse bom deixar recado para mim. Senão, de tarde pode encontrar-me na Unimave. Um beijo da Elisa. Aum.
                                                     ***
                                                      


 VII. Pedro, Hoje, ao fazer a saudação ao sol, enviei o sol até aí para o curar mais depressa [ao podar uma oliveira em Tomar caíra e partira o braço direito], só que não sei se sei fazer estas coisas. Outro dia, com a Manuela e a Maria Augusta pensámos enviar-lhe vibrações positivas, mas não sabíamos como fazer - como vê, há muito que ficou por aprender. [Esta carta com uma fotografia é dos começos do ensino com a Elisa]
Acabei de ler o livro da Fraternidade. Acho que vale a pena esperar que eles cá venham; talvez possa trabalhar com eles, não?
O Pedro falou em "caminhos diferentes" ao telefone. Eu não vou seguir nenhum caminho diferente, Pedro!
O agni yoga diz que não se deve ter medo e eu não tenho medo do hatha yoga nem do raja yoga. Tenho um longo caminho a percorrer, disso tenho a certeza, e foi-me dado nesta vida uma mente cheia de imaginação, um sistema nervoso concentrado e, agora, um plano emocional exacerbado. O que provoca isto tudo? Que no plano físico tenha dores musculares, que o plano emocional actue como tirano e que a imaginação se sobreponha ao espírito. Isto é uma outra maniera de tentar fazer o Pedro compreender que o hatha yoga e o raja yoga me ajudarão a fortalecer (no espaço de três meses, espero) a sentir-me perfeitamente equilibrada.
Não acho que fosse melhor eu tomar comprimidos e ir fazer dança-jazz ou isso, pois não? Aliás, acho que o Yoga é só um, as pessoas é que são diferentes. Acho que é bem claro que me sinto bem com o Agni Yoga, mas não vou por isso dizer mal dos outros. Ainda me dizia há tempos o Pedro que no Verão se deve comer poco arroz... e não tem nada contra o arroz, pois não? O tempo é que varia. Aliás, isto é tudo porque o Pedro não está cá quando devia estar. Com as leituras da Arcane School acho que consegui amadurecer algumas ideias sobre a meditação, mas talvez possamos falar sobre isso mais tarde.
Pedro, trate o melhor possível de si. Está em causa "o templo do Espírito Santo"; confio que a natureza e a sua sabedoria transformarão o problema numa obra de arte. Tenho imaginado que o braço que tem doente é o direito, não sei porquê. 
Tenho um diariozinho sem dias que iniciei há para aí uns três anos. Escrevo nele muito pouco. Em vez de andar sempre a telefonar-lhe, talvez me baste transcrever uma anotação das primeiras folhas e, o resto, depois que conheci o Agni Yoga; talvez se consiga perceber que não estou num "caminho diferente".
Hoje trepei pelos fios de chuva... até às nuvens. E escondi-me lá detrás... em algodão em rama, a beber os raios de sol filtrados.
Não quero descer já. Não quero o barulho da confusão, a mistura das palavras ocas. Quero continuar aqui até ter saudades!"
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"Hoje percorri o infinito.
Atravessei o meu corpo, devorei a minha mente, calei a minha alma.
E fui uma sem palavras nem gestos nem pensamentos: vivi a eternidade."
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(Em Monchique, última anotação)
Abri-me, na árvore, em ramo
E suspendi-me.
Lancei-me ao vento
Espraiei-me no ar
Invadiu-me a plenitude.
Recolhi-me então dentro de mim.
Senti a alegria
Expandi o amor
Acariciou-me a ternura
Bebi a beleza."
Aum.
Elisa.»

Muita luz e amor na Elisa, na Manuela, na Maria Augusta e demais alunas e alunos.

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