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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Conhecimento dos Anjos e contributos para uma Teoria Angélica. Henri Delaage e a sua "Eternité Dévoilée ou vie future des âmes aprés la mort,

                                                               
Uma teoria do seres angélicos é muitíssimo difícil e não admira que a quase totalidade das aproximações seja casuística e hoje em dia em muitos caso de relatos semi-miraculosos das suas intervenções, infelizmente impossíveis de serem confirmadas pela subjectividade do observador, em geral um só.

Não admira também que quem queira aprofundar a sua existência seja obrigado a recorrer aos poucos escritores ou teólogos que sobre eles se pronunciaram ou mesmo teorizaram, alguns deles famosos e a base do conhecimento ocidental das hierarquias celestiais, tais o pseudo Dionísio Areopagita e S. Tomás de Aquino, que mesmo sendo valiosos não parecem provir de clarividencia, de visão real deles.

Houve outros teólogos ou religiosos que escreveram bem sobre os anjos e estou a lembrar-me do jesuíta português Padre Vasconcelos e com eles podemos receber certas informações e teorizações uteis à nossa compreensão e meditação.

Já tive algumas percepções deles, já escrevi sobre eles, nomeadamente o Anjo da Guarda, e os Arcanjos, mas certamente muito permanece misterioso, e assim lermos sobre eles pode ser útil, não ´so no nível informativo mas também porque  aumenta ou alarga a nossa identidade espiritual para fora da constante identificação exclusiva ao corpo e à personalidade e ao mundo horizontal, e abre-nos a intuições e fortificações, ao axializarmo-nos ou sintonizarmos verticalmente com um plano vibratório mais subtil e elevado que o nosso. 

Contribuindo para tal conhecimento, escrevi uma lista crítica bibliográfica de livros sobre os Anjos que está disponível neste blogue, acerca de 100 livros indicando a sua qualidade, e assim permitindo ou ajudando as pessoas a discernirem os melhores.

Hoje vou apenas aproximar-me dum autor francês do século XIX, católico espiritualista e que teve na sua época reconhecimento, sendo mesmo considerado por um ocultista famoso, o médico Gerard Encause, ou Papus, como um dos seus mestres, pois ter-lhe-ia transmitido uma mensagem iniciática antes de morrer, o que se sabe hoje ter sido uma mistificação com fins de autenticar filiações iniciáticas. O seu nome é Henri Delaage e a obra  que temos diante de nós é a 2ª edição da sua Eternité Dévoilée ou vie future des âmes aprés la mort, dada à luz em 1854.

Nela Delaage tenta mudar a nossa ideia algo negativa da morte, pois ela «é a crise suprema na qual a alma renasce à liberdade, revive à luz». E serão as almas inspiradas da Luz de Deus que recebem a intuição do mundo sobrenatural, que ao transmitirem os seus conhecimentos sobre as almas ressuscitadas para além d o tumulo, permitirão que, com os olhos do coração  os leitores possam rever os entes queridos já partidos.

Delaage era muito sensivel e sentia-se mesmo inspirado pelo sopro da respiração da alma dos que o liam, o qual despertava o seu amor para escrever e partilhar nessa comunhão fluídica com os seus leitores, os quais considerava que estão "animados pela sede sempre renascendo do amor do Infinito", e que conseguem "desviar a sua alma do mundo e voltam o olho da sua inteligência para a eternidade e se esforçam por levantar o véu que a retira da sua vista."

Esta obra é, diz-nos, o resultado da sua peregrinação nos padres da Igreja e doutores iniciais, onde "recolheu a luz que dissipa as trevas na inteligência", e que prosseguiu depois na cavalaria medieval, nos filósofos herméticos, alquimistas e magos, pelo que algumas almas entrevêm já a Divindade deslumbrante rodeada dos seus anjos, e que torna a riqueza e a glória deste mundo pouco ou nada.

Mas o que nos diz então de mais valioso, de dedução, decantação ou de intuição, sobre os Anjos?

                                    

Baseando-se no pseudo-Dionísio, descreve as tradicionais nove ordens de Anjos e o seu cunho original deriva da sua experiencia de magnetista e de estudioso dos fluidos animicos, dziendo-nos então que todos agem sobre as nossas almas comunicando-lhes a essencia fluidica que é a vida deles, o espírito que os anima e que, por consequência, tem todas as virtudes próprias ao estado donde elas emanam: eles esclarecem a nossa inteligência e aquecem os nossos corações, e estendem-nos uma mão celeste e invisivél para nos ajudarem a atravessar os obstáculos e a evitar os perigos que se erguem diante do cristão [ou peregrino da vida] que se pôs em marcha na longa e penível peregrinação rumo ao reino dos céus.

Dos Serafins, ardentes no amor a Deus , comunicam às almas e aos espíritos os fogos inextinguiveis do amor divino que os abrasa. Os querubins, sendo os muito sábios, «têm por missão atrair os humanos pela sua influencia espiritual à verdadeira e salutar gnose de Deus». Já os Tronos manifestam a tranquilidade, o repouso e a imutabilidade da sua essência  e da sua beatitude. São os seres da justiça, da paz e da santidade. Deus reside neles serenamente como no seu templo e a sua missão é despertar no ser humano a consciência e de lhe inspirar a salutar apreensão da justiça de Deus e de preparar a alma para a recepção do Espírito Santo e da graça divina.

Saltando, e sem falarmos da 2ª, das Dominações, Virtudes e das Potências (que seriam segundo S. Gregório e S. Bernardo, os que têm a missão de resistir aos esforços do demónio, que se esforça por desviar o ser humano do caminho da salvação), para a 3ª ordem, dos Principados, Arcanjos e Anjos, retenhamos o que ele diz de mais substancial e original, e que é sobre os Anjos, de facto aqueles que mais facilmente podemos ter acesso, nem que seja especulando:

«Eles executam os comandos divinos com tanta devoção, que nós exprimimos o desejo que todas as criaturas os imitem, quando recitamos o Pater: Que a tua vontade seja feita assim na terra como no céu.» É uma boa lembrança a acrescentarmos quando oramos o Pai Nosso, lembrar-nos que esta referencia ao Céu é sobretudo uma menção e logo invocação deles e do seu influxo. È um bom contributo de Delaage.

Prosseguindo, escreve: Cada homem ou mulher tem um bom Anjo que o instrui no conhecimento de Deus, o guia e o defende contra o demónio.

Nós recebemos as nossas ideias sobre os Anjos de São Dionísio , que afirma tê-las ouvido da boca de S. Paulo pouco depois do seu rapto celestial (hoje sabe-se que ele foi um monge sirio e que não recebeu de S. Paulo, nem esteve em França). S. Atanasio conta que conheceu vários extáticos" para quem a visão dos espíritos era familiar e que experimentavam um tal sentimento de beatitude  na presença dos Anjos", que depois queriam estar sempre com eles.

Reafirmando que vai seguir os santos e bem aventurados reconhecidos pela Igreja, porque neles existia, num grau superior a intuição das verdades sobrenaturais e uma lucidez mais constante que nos extáticos e nos sonâmbulos que nós [Henri Delaage] encontramos no mundo profano.»

Entra depois Delaage na descrição das experiências que teve (e que descreveu no seu livro Monde prophetique, que está no Internet Archive) de união magnética dos fluidos de duas pessoas, que atingiram tal osmose, considerando que tal prova a Comunhão dos Santos, pela qual os habitantes do reino dos céus entram em comunhão directa pela união do espírito que os anima com os seres que povoam a terra, comunicando-lhes a vida sobrenatural e divina que lhes é própria».  Eis-nos com outro contributo valioso de Delaage, que  considera ser mesmo «uma descida em espírito nos homens e mulheres aos quais fazem sentir as delicias da sua presença, fortificando-os divinamente da sua força, esclarecendo-os pela sua luz, numa palavra, vivendo neles, pelo espírito que eles recebem ou extraem (puissent) do seio mesmo de Deus»

                            

Outros aspecto original na teoria angélica de Delaage é, aceitando a luta no ser humano entre anjos e demónios, que o podem possuir, considerar que a alta sabedoria do Cristianismo concebeu tal verdade com um tal lucidez maravilhosa, que consagrou altares aos santos e aos anjos, a fim de atrair e de concentrar o espírito divino que os anima, e que as pessoas aí vão unir-se em espírito com eles, tornando-se consequentemente participantes das virtudes sublimes que são sinal glorioso da sua individualidade.» 

Criticando os protestantes por na sua ignorância por terem atacado o culto dos santos e anjos, confessa que sendo os Anjos de natureza invisivel só podem s er apercebidos pelas almas dos extáticos, mas que, como s. Ambrósio destacou, eles podem aparecer revestindo-se dum corpo que pela sua forma é uma revelação visivel da missão que têm a cumprir... e assim os anjos podem vestirem-se dum corpo duma beleza celeste e duma graça feminina, a fim de seduzir os nossos corações e de encantarem os nossos olhos»

Reconhecerá por fim que «os Anjos só aparecem muito raramente e escolhem de preferencia os santos, os profetas e os membros desta família bendita do Senhor que renunciou aos bens e riquezas perecíveis deste mundo, paras e dedicarem em retiro á obra importante da sua salvação, e para se devotarem de coração e corpo à nobre causa da humanidade sofredora, e só aparecem para transmitirem as ordens [ou melhor, as bênçãos] de Deus, o mestre deles»

Partindo de uma concepção possivel ou mesmo certamente errada de que os humanos irão substituir os anjos caídos nas "fileiras" do céu, fará contudo uma interessante e provavelmente original ordenação das pessoas nas hierarquias angélicas conforme o que desenvolveram na Terra, e vamos transcrevê-la para finalizar esta homenagem aos Anjos e espíritos celestiais e ao jornalista, escritor e espiritualista Henri Delaage (1825-1882):


As pessoas que escutaram a voz da sua consciência e caminham num passo firme no caminho da rectidão, reinarão no céu entre os Tronos; os que dominaram as suas paixões terão direito a ser classificados entre as Dominações; os mártires e todos os que sacrificaram, pela sua fé, os eu bem, a sua vida, a sua liberdade, serão admitidos entre as Virtudes; os que fizeram triunfar a causa da religião terão direito à soberana beatitude das Potências; os que empregarem a sua autoridade para fazerem conhecer, amar e servir a Deus, serão julgados dignos de serem elevados ao nível dos Principados; os que tiverem evangelizado os seus irmão serão postos por Deus ao nível dos Arcanjos [certo exagero...]; enfim os que terão amado Deus e o seu próximo, e realizaram aqui em baixo a obra da sua salvação, terão lugar no céu entre os Anjos; pois a alma depois da morte é recebida como irmã pelos Anjos, de que na Terra foi a imagem viva e que continuará a fazer brilhar as virtudes no céu.»

Terminará esse capítulo VIII, O Mundo dos Espíritos Angélicos, que vinha após um mais breve, o VII, sobre a Natureza, essência e ministério dos Anjos, e que talvez venhamos um dia a resumir, apelando às pessoas para perseverarem no reconhecimento e culto dos Anjos e Arcanjos e do Espírito Divino, que por eles chega até nós. Lux, Amor, Pax!

                                                                                              

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