sábado, 28 de novembro de 2020

Sa'adi, e a sabedoria perene do Irão. "Gulistão". 1ª história. Tradução original de Pedro Teixeira da Mota.

                                                                

 Abū-Muḥammad Muṣliḥ al-Dīn bin Abdallāh Shīrāzī, mais conhecido simplesmente por Sa'adi, nasceu no Irão, em Shiraz, em 1208 e teve uma vida bastante aventurosa, sábia e criativa, até 1291, deixando-nos muitas obras valiosas que ainda hoje são das mais lidas no mundo persa: o Gulistan, o Pomar, Boostan, o Roseiral, e um Diwan de ghazals, isto é, uma antologia de poemas amorosos e espirituais.
Quando
estive em 2013 durante trinta dias fortes e encantadores no Irão, fazendo conferência e encontros, traduzi várias histórias e ghazals dele e de Hafiz, com várias amigas iranianas, a quem muito agradeço, e espero num futuro não distante dá-las à luz e à leitura de almas vivificáveis, pois Sa'adi era claramente um despertador dos seres. Todavia, nestes dias mais trágicos da vida do povo iraniano, constantemente vítima dos criminosos do sionismo israelita e do imperialismo norte-americano, vou partilhar em dias sucessivos algumas das suas histórias, do "Gulistão", .em homenagem a tão maravilhoso povo e aos seus grandes seres, tantas vezes martirizados desde o Imam Husayn até a Qassem Soleimani e mais recentemente Fakhrizadeh...

Não estamos sós, e há uma vida depois da morte, justa...

 «Um dos servidores do sultão Umrulais escapara mas alguns homens enviados no seu alcance trouxeram-no de volta. O vizir, que tinha uma certa animosidade para com ele, desejava que o matassem para que os outros servidores não imitassem o seu exemplo. Ele baixou-se com a cabeça no chão diante do sultão Umrulais, e disse-lhe:

O que quer que caia sobre a minha cabeça é legítimo com a tua aprovação.
         Que
pedido pode adiantar um escravo?  A sentença é o  mestre.
       Mas tendo sido nutrido pela generosidade desta dinastia [a Saffari, 881-1103] eu estou aborrecido porque no dia da Ressurreição serás punido por teres derramado o meu sangue; mas se desejas matar-me, fá-lo de acordo com as cláusulas da lei”.
 O sultão perguntou-lhe: “Como devo eu então interpretá-la?”
O servo replicou-lhe: “Deixa-me matar o vizir e depois toma a minha vida em retaliação, de modo a que eu possa ser morto justamente”.
O rei sorriu e perguntou ao vizir o que pensava ele da questão. Este replicou: “Meu Senhor, dá liberdade a este bastardo, como uma oblação diante do túmulo do teu pai, por receio que ele me cause desse modo mal. É minha a culpa de não ter tomado em conta a máxima pronunciada pelos filóso
fos:

Quando lutas com um atirador de pedras,
Partes ignorantemente a tua própria cabeça.
Quando desferes uma flecha na face de um inimigo,
Fica de guarda pois estás a ficar como um alvo para ele.»

Comentário nosso:
Saibam os seres e os governantes não serem tão arrogantes e violentos nas suas ambições, pois cedo ou tarde pagarão, seja nesta vida seja na outra, pois a justiça mundial no mundo da alma e na Anima Mundi trabalha de noite e de dia e os criminosos acabarão por sentir na consciência o que fizeram, em vida ou depois da morte. Quanto aos diabólicos, esses poderão de ter de ser mesmo cortados um dia, qual joio no dia da colheita....
Saibam
os ter a nossa consciência pura, a  mente capaz de silenciar-se e de, perante o tribunal do seu íntimo, saber quanto bem e mal tem gerado em si e nos outros, para corrigir-se, melhorar-se, religar-se ao espírito divino, viver fraternalmente, criativamente e em sabedoria e amor...

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