quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A revista "Estudos Anterianos", de Vila do Conde, ou Antero de Quental no Oceano da Sabedoria Perene

 A revista Estudos Anterianos nasceu em Abril de 1998, do então formado Centro de Estudos Anterianos de Vila do Conde, apoiada pela Câmara Municipal de Vila de Conde, e viveu até 2005, enquanto durou tal apoio e centro, gerando 15 números em 12 belos tomos, em tiragens de quinhentos exemplares, não sendo pois fácil encontrarmos uma colecção completa. Como recentemente estive como uma das almas fundadoras e amorosamente redactoras, Ana Maria Almeida Martins, amiga anteriana de longa data, tive a graça de receber  uma colecção completa, pelo que vou dar conta da revista, ainda que numa primeira aproximação muito rápida e sumariamente, destacando apenas alguns artigos dos quinze números.
No nº 1, Abril de 1998, de 48 páginas, destacam-se dois textos de Eduardo Lourenço, um deles, a valiosa conferência de apresentação do centro e revista como «um lugar de vigília espiritual e intelectual que brilhe na noite de desatenção colectiva - se existe- da mesma luz, paixão e fogo que Antero ateou no Portugal sonâmbulo da sua geração, intitulada A Hora de Vila de Conde, na qual discerne muito bem várias facetas anterianas ou ainda as relações de Fernando Pessoa com o seu antecessor Antero de Quental, no «seu temperamento doentiamente dual, passando sem transição do voluntarismo épico ao desânimo sem fundo», embora talvez erre quando considera que Antero «propõe aos seus amigos uma utópica "ordem dos mateiros», «com a pose melancólica e irónica que lhe é natural», ou ainda que a sua «mais incurável das feridas» era «um sentimento absoluto de incerteza acerca da sua própria existência como existência com sentido num mundo e numa História», algo que, por exemplo, a carta de Wilhelm Storck de algum modo parece desmentir, bem como a sua intervenção na Liga Patriótica do Norte; dois textos sobre cartas de Antero, por Rogério Fernandes e Ana Almeida Martins; de Guilherme Oliveira Martins, Em Vila do Conde com Antero e Joaquim Pedro, no qual narra a constituição do centro, o lançamento da revista, a conferência de Eduardo Lourenço, e como era a Vila de Conde de Antero e a actual;   por fim a lúcida, original e corajosa apreciação de Gomes Leal às Odes Modernas, na sua segunda edição de 1875, onde afirma que «a poesia de Antero Quental é calma, forte, vagamente mística (e aqui está um abismo!) e toda ela mais de espírito da justiça que do da vingança». Fora publicada no jornal lisboeta Democracia, de 8 de Junho de 1875.
 No nº 2, de Outubro de 1998, de 52 páginas, destacam-se o artigo crítico de António Brás Teixeira, mais valorizador da escola da Filosofia Portuguesa, intitulado O Primeiro Estádio de Filosofia Anteriana; e de Brunelo de Cusatis, A Itália em Antero, Antero em Itália.
No nº 3, de Abril de 1999, de 90 páginas, destacam-se artigos de Rafael Gomes Filipe, Antero de Quental e Max Weber; de Filipa Paula Soares, Maria Alice Veiga e Maria de Lurdes Pereira, intitulado Antero e Unamuno. O início de um reencontro; De Afonso Praça, uma revisitação da visão queirosiana de Antero, intitulado Antero em Tormes, e um pioneiro estudo de ordem geral sobre O Espírito Indiano de Antero Quental, de Anil Samarth, extenso, com boa selecção das referências ao Budismo por Antero ou os seus companheiros, embora com algumas insuficiências na compreensão do misticismo anteriano e talvez excessiva valorização do Budismo, que tem de ser matizado pelo Helenismo, pelo Cristianismo Místico e pelo Panpsiquismo. De realçar  uma breve comparação da aproximação semelhante à Morte por Antero e Tagore, talvez mais certa da sua «aura radiante» neste. Fátima Freitas Morna assina um bom texto sobre a pouco conhecida recensão de Alberto Teles Utra Machado ao Fiat Lux de Antero, «uma felicíssima inspiração sobre o primeiro momento da Terra», saída no nº 566 da Gazeta de Portugal, em 8-X-1864, lembrando-nos como Antero convidara Alberto Teles a ser o seu primeiro apresentador e editor, sob o pseudónimo de Sténio, dos Sonetos, na sua primeira e raríssima edição de 1861, que Antero não quisera posta à venda, abrindo-se porém já ao público nesta «poesia filosófica» e da qual a recensão de Utra Machado parece ser já uma peça da Questão Coimbrã que só se pressente ainda no horizonte. Oiçamo-lo (e, quem sabe, Antero) na advertência que ainda hoje, lamentavelmente, é tão actual:«não nos parece crível que haja ainda alguém que deixe a literatura profunda, que nos faz meditar e eleva o pensamento, pela chamada literatura amena, que mais parece brinco de criança que profissão de homens e lição dos povos. Não são as letras, de feito, para servirem de apetite aos ócios folgados de ninguém, mas sim para doutrinar com agrado, instruir com recreio, moralizar sem esforço, e tornar por fim os ódios e malquerenças das nações uma mútua simpatia e benevolência fraternal».
No nº 4, de Outubro de 1999, com 79 páginas, destacam-se a Musa de Antero ou Antero e Eros, de Eduardo Lourenço, texto muito rico de intertexualidades e comparativismos, e de tentativas infrutíferas de discernir os níveis, tipos e intensidades de Amor ou Eros que Antero vivenciou ou ficcionou, e  onde talvez exageradamente se considere que Antero  desde que «Deus, o referente da adoração suprema, Pai, Mistério, e chave do mistério. Quando o perdeu ou ele mesmo se disse a si mesmo que esse Deus lhe morrera (...) encontrou-se literalmente no Deserto donde nunca mais sairia»; A Música e a Arte Moderna. Relendo "O Futuro da Música" de Antero de Quental, de Marta Ferré Freitas Morna; Salomão Saragga e a Geração de 70, de Lúcia Liba Mucznik; Ramalho e a Dialéctica das Gerações, de A. M. Machado Pires e o Comentário a um Cotejo de Gaspar Simões sobre Antero de Quental e José Régio, por João Reis Pereira, onde, ao contrário de Gaspar Simões que as omite, se valorizam as realizações ou vivências políticas de Antero e de Régio.
Carta inédita de Antero a uma misteriosa Maria, de 30-VI-1891. A grafologia final, apressada e bem ondulada indicará...
 

No nº 5, de Abril de 2000, com 59 páginas, realçaremos Carta Inédita de Antero, por J. Furtado Coelho, dois meses e tal antes de partir da Terra física, açoriana, estando reproduzida em cima, mas que não nos parece dirigida a Maria Amália Vaz de Carvalho; Antero de Quental e Teófilo Braga. Um exercício comparativo, por Amadeu Carvalho Homem. Sobre o espólio de Joaquim de Araújo que ficou em Itália, um texto de Ana Maria Almeida Martins. E textos de Edgar Prestage e sobre ele. Na secção final  Arquivo destaca-se a colaboração de Eduíno Jesus, Breves Reflexões sobre Antero de Quental e Charles Baudelaire, e o  pouco conhecido  poema acerca de Antero estudante por Fernando Leal, Boémia Espirituosa, publicado na revista Ocidente, de Julho de 1889.
No nº 6, de Setembro de 2000  consagrado ao colóquio Eça de Queiroz e a geração de 70, de 64 páginas, destaca-se a transcrição em 35 páginas do valioso ensaio-crítica de Oliveira Martins sobre Os Poetas da Escola Nova, publicado na Revista Ocidental, 1º tomo de Fevereiro de 1875, no qual se analisam três obras, de Antero, Guilherme d'Azevedo e Guerra Junqueiro. 
 O nº 7 de Abril de 2001, de 83 páginas, contém a excelente reprodução e contextualização de um álbum juvenil de Antero, pela Ana Maria Almeida Martins, Antero Inédito do Álbum de Judite Quental; um poema de José Jorge Letria, biográfico de Antero, Como quem escreve Antero; de Ricardo de la Fuente Ballesteros, Unamuno y las letras portuguesas: dos suicidas (Antero Quental y Manuel laranjeira) y una carta.
O nº 8 de Outubro de 2001, de 79 páginas, contém um bom e extenso artigo de Alberto Machado Pires, Antero. O combate contra a tirania da mediocridade, focado sobretudo na sua acção na Questão Coimbrã e nas Conferências do Casino; de Georg Monteiro, Final poemas, final things in Antero de Quental and some others, onde transcreve muitos dos comentários a este poema e o que ele significaria no percurso e cosmovisão de Antero, sem ser conclusivo, o que certamente não é fácil. Destacam-se ainda artigos de Marina Tavares Dias  sobre João Lobo de Moura e de Eduíno de Jesus sobre Antero e os Açores.
Os nº 9/10, correspondendo a Abril-Novembro 2002, inclui as Actas do Colóquio Eça, Antero e a Geração de 70, num volume já de 192 páginas com várias colaborações, das quais destacaremos, das anterianas, a de Joaquim Fernando de Amorim Costa, O complexo de Ícaro da Geração de 70; de Onésimo Teotónio Almeida, De Eça ao projecto de modernidade de Antero; de Guilherme de Oliveira Martins, Fragmentos em torno de duas amizades, seleccionando acontecimentos e encontros significativos de 1888 a 1892, e o de Ana Maria Almeida Martins, o Milhafre e o Monge, Eça de Queiroz e Antero de Quental ou Antero de Quental e Eça Queiroz.
O nº 11/12 dos Estudos Anterianos, numa capa de vibrante vermelho, cobre o tempo de Abril a Outubro de 2003, contendo 110 páginas, destacando-se  contributos de e acerca de Thomas de Mello Breyner, o de Ana Maria Almeida Martins, Antero de Quental: do Federalismo ibérico à «Revista Ocidental»; de Onésimo Teotónio Almeida, José Rodrigues Migueis, Antero e a crise chamada Portugal, onde é analisada a parte substancial de uma conferência inédita de Rodrigues Miguéis, de 1943; de Jerónimo Pizarro Jaramillo, Antero de Quental: Entre contradições e esquecimentos, onde analisa bem quanto a Antero a exagerada nosografia por Sousa Martins e as dualidades solar e lunar  por António Sérgio, observando ainda o rasto delas noutros comentadores. De interesse lateral a Antero, mas fazendo jus a um autor quase esquecido, de Magda Eugénio da Costa Carvalho, Verdade e Justiça no Reformismo positivista de Manuel de Arriaga. E o de Henrique Garcia Pereira, que não refere Antero, sobre o seu  adversário duelista na polémica Coimbrã, A Cidade e as Praias. Ramalho Ortigão, um escritor saudável e actual.
Gomes Leal, grande amigo de Antero e de Fernando Leal, um espiritualista e ousado panfletário.
 No nº 13/14 de Abril a Outubro de 2004, em 139 páginas, encontramos  A Ontologia Anteriana, por António Braz Teixeira; de Markus Lasch, Os sonetos de Antero, 19 traduções inéditas, transcritas, de Wilhelm Storck; de Margarida Vale de Castro, surge uma bom texto A Renovação Literária de 70 e a Poesia de Antero, sob a lente de Gomes Leal; e na secção final da revista, intitulada Arquivo, onde se foram publicando textos já dados à luz mas por vezes muito pouco conhecidos, oferecem-se-nos três textos desse  grande amigo de Antero, que lhe dedicou as vibrantes Odes Modernas, Germano Meireles, o infausto pai das duas pupilas de Antero, bem apresentados por Ana Maria Almeida Martins.
 O nº 15/16, infelizmente o último da revista, que teve sempre como director Eduardo Lourenço, e nos membros da redacção Ana Maria Almeida Martins, sem dúvida as duas almas principais do projecto levado até este porto vilacondense de Abril-Outubro 2015, contém alguns textos ou reflexões valiosas dos quais destacaremos apenas os de Bruno Casatis, Ética e Filosofia Budista em Antero de Quental, um contributo para a ainda não resolvida questão da hierarquização das influências religiosas, filosóficas e espirituais valorizadas nos seus textos e cartas; de Steffen Dix, Miguel de Unamuno e Antero de Quental: A indecisão trágica entre a religião e racionalidade e e as extensas transcrições das obras de Eduardo Maia - um esquecido da Geração de 70, sobre a Comuna e a Internacional Socialista, pela Manuela Rego, em 74 páginas das 152 da revista, que assim se finava nas belas praias e nortadas de Vila Conde, deixando-nos contudo um conjunto razoável de textos originais ou de arquivo, tal como ainda neste último número o bem íntimo e vibrante de Aristides da Mota, intitulado a "Vida Mortal" e a "Vida Imortal" de "Santo Antero", de 1921. 
Enviamos votos ou desejos para que nas suas vidas imortais Antero de Quental e os seus amigos possam estar "santificando-se" e santificando-nos ou impulsionando-nos cada vez mais ou melhor...
E, quem sabe, se a revista dos Estudos Anterianos poderá ressurgir  das cinzas, qual Fénix renascida...

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