| Recinto sagrado delimitado pelos bambus e o fio Kamimitchi, na subida ao monte sagrado de Omiwa. 2012. |
Shinto, o caminho do Espírito.
A
concepção mais generalizada de Deus no Japão é bastante diferente
da Ocidental pois ao contrário da ideia do Deus único, que as
religiões do dito Livro revelado, o Judaísmo, Cristianismo e Islão,
propagaram com maior ou menor proselitismo ou mesmo violência, o
Shintoísmo aceita e pode chamar às suas cerimónias e cultos muitos ou
todos os espíritos ou Kami do Universo e se por vezes realçam ou se consagram
a um só ou a poucos, na religião popular, em grande parte consagrada ou efectivada em festividades sazonais ou cíclicas da Natureza, procura-se o maior
número de seres divinos ou semideuses para que mais bênçãos
ou energias acorram ou aconteçam no local e possam tanto beneficiar
o alto como o baixo, os convidados como os que os celebram, além da
região, campos e pessoas onde tal se efectua.
É
certo que no Cristianismo e no Islão se desenvolveu um culto grande
pelos santos ou mestres e que estes no fundo agem como semi-deuses
para os seus discípulos ou para os que crêem neles, nisto se
assemelhando ao Shintoismo que por sua vez torna ou consagra ao fim de algum tempo os que
morreram já espíritos divinos embora certamente que a
diferença entre os Kami-pessoas e os grandes Kami divinos cosmológicos,
mitológicos e naturais seja notória havendo uma hierarquia que se reflecte também na classificação dos próprios santuários em que em geral se veneram ou cultuam um ou mais Kamis. Mas há vários casos de pessoas importantes na história que passaram a ser Kamis, cultuados em santuários.
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| Amaterasu omi-kami, a divindade principal ou a mais bela face divina, deusa do Sol... |
Uma das caracterizações ou definições mais citadas sobre os Kamis é a que os caracteriza como tudo o que pelas suas qualidades de excelência ou de extraordinário nos impressiona, e que portanto são míriades, infinitos...
Para
vermos e compreendermos melhor a concretização de tal caracterização dos Kami ou Deuses Japoneses como miríades oiçamos
então uma oração pronunciada nas festas cíclicas, neste caso na província de Mikawa, conforme N. Matsudaira as registou:
«A
guardiã do Sol, o guardião da lua, no céu, o deus
Bontentaishakou, em baixo os quatro grandes reis e a princesa Goro,
os 84 deuses das tempestades, os 84 guardiões muito respeitáveis;
que eles venham todos sem excepção.
Quando
eles desçam e se banham, apareçam como neblina que ascende para a
fonte das águas quentes.
Nós
convidamos o grande deus do Oriente, Tarô. Convidamos o grande deus do Sul, Jiro. Convidamos o grande deus do Ocidente,
Sabouro. Convidamos o grande deus do Norte, Shiro. Convidamos a grande deusa princesa do Centro, Gorô.
Nós
convidamos os deuses da chuva, os deuses do vento, o deus Dainitchi,
grande sol da gruta do céu.
Nós
convidamos o deus do Caldeirão, Sabouro, a jovem deusa da paz,
Miroumé; os deuses dos anos.
Nós
convidamos das montanhas altas os viajantes dos cimos, os deuses
viajantes das folhas e o grande deus do Dragão.
Nós
convidamos pelas árvores, o deus do espírito das árvores, pelas
pedras, o deus Hakoujakoushin, o deus das trepadeiras, o deus das
ervas, os deuses que de uma só vez deitam abaixo muitas folhas. O
macaco que é chamado o deus Kongodoji. Os trinta deuses dos países
do Ocidente para onde se dirigem os peregrinos, e convidamos os 10
mil deuses das montanhas. Para os rios, os oito deuses da água, para
os caminho, o deus viajante, que venham todos sem excepção.
No
céu, a luz do Sol e a luz da Lua, na Terra os deuses violentos da
terra, o grande deus da Terra de altura de 240 metros, o deus médio
da Terra de altura de 107 metros, Ebisou, Daikokou, os sete deuses da
felicidade, que eles venham sem excepção.
Nós
convidamos os 155.500 Kami dos templos das redondezas(...) Convidamos
os espíritos que se aproximam daqui, os espíritos dos sacerdotes
negui (os chefes), dos haori, das miodo (dançarinas), hakase,
chishiki, ajari, os primeiros e os segundos sacerdotes, hastes que
sobem do melão e regatos da vida.
Convidamos
os kami que estão ligados pelo sangue bem como os que não estão
mas que habitam o mundo do Espírito, que eles venham todos sem
excepção"
Os
Kami ou deuses chegam nesta cerimónia ao quadrado evocador, no
exterior ou numa sala, delimitado por cinco bambus unidos pelo fio
de palha por onde a energia circula proveniente das cinco direcções, e
que tem um bambu e o caldeirão com água a ferver ao centro e por cima o quadrado de bambu e papel biyakke,
simbolizando o céu e onde termina atado o fio de palha, denominado kamimitchi, caminho dos Kami, assinalando
a fonte celestial das energias.
As
danças, as orações, as aspersões de água com os ramos da sakaki,
a clyera, a árvore considerada mais sagrada ou mais condutora dos
Kami, a participação preparada ascetica e intensamente, as
oferendas, a aspiração e entusiasmo da comunidade fortemente unida,
tudo conflui para uma intensificação e acumulação de energia
divina nos seres que participam e é sobretudo pelo seu ritmo
harmonioso que os Kami ou deuses estão mais presentes,
irresistivelmente quase e derramam o seu imenso reiken, a graça
divina, ou seja a energia que é a correcta e adequada à
circunstância...
Saibamos
nós nas nossas orações e evocações merecer as melhores graças
do alto e das suas míriades de seres luminosos....

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