terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Poema "Iniciação" de Fernando Pessoa. Uma hermenêutica psico-espiritual.

Iniciação, certamente um dos poemas mais mágicos, esotéricos e iniciáticos de Fernando Pessoa (1888-1935) e escrito nos últimos anos da sua vida, foi publicado pela primeira vez na revista coimbrã Presença, no nº 35 de Março-Maio de 1932. Contemplemos a sua reprodução:
Pela sua difícil ou exigente interioridade iniciática e espiritual ainda não conseguiu ser lido e discernido condignamente pela gens pessoana, embora Rudolf G. Lind e Fernando de Moraes Gebra, por exemplo,  fizessem afluir uma boa luz sobre ele. 
Mas como há muita desinformação e manipulação quanto ao caminho Espiritual, nomeadamente em Fernando Pessoa, convém  tentarmos clarificar, na medida do possível ou parcelarmente, tal processo, realização e vivência...
                                   
A Morte, qual esfinge, sobre a Roda da vida, e a borboleta ou psique humana voltejante, e sob o esquadro e compasso do grande Arquitecto do Universo, expressão tradicional do que se tem intuído de uma ordem divina, sincronizadora e inspiradora, e de um Ser Primordial, mais até do que um Demiurgo,  a quem nos devemos  religar, merecida, amorosa e gratamente. (Mosaico romano de Pompeia).
Meditemos e sintamos então o que se transmite nos versos, tentando, iniciaticamente, sairmos da identificação e apego ao corpo físico e à personalidade e, consciencializando-nos das vestes e capas "assombrosas" dos corpos subtis, passarmos, finalmente, à nudez simples da consciência do Ser em si mesmo, do Espírito de origem Divina, capaz então de comunicar ou ser instruído supra-terrenamente pelos Mestres ou espíritos "mais" realizados, tal como o poema indica numa linguagem ascensional própria do ocultismo ou das ordens mágicas do começo do séc. XX, que Fernando Pessoa estudara e recriava numa linha sua, com bastante incidência no corpo: 
                                                   INICIAÇÃO 

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
..........................................

O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa:
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.


Por fim, na funda caverna, 

Os Deuses despem-te mais. 
                               Teu corpo cessa, alma externa, 
                               Mas vês que são teus iguais.

                                .........................................

                             A sombra das tuas vestes 
                             Ficou entre nós na Sorte. 
                             Não estás morto, entre ciprestes. 
                              ............................................
                              Néofito, não há morte.»

                                      
                          Ressurreição, no Tarot mais antigo (circa 1450), italiano, dos Visconti.
Embora sendo um poema de ensaísmo iniciático, quer tenha sido talhado racionalmente ou escrito inspiradamente, ele tem bastante  sabedoria e força, condensando uma vida de estudos ocultistas, nos quais a demanda iniciática foi uma presença importante ou fundamental, tendo sido dado talvez até já à luz-sombra do pressentimento da aproximação da morte ou desincarnação, que ele aliás tentou prever astrologicamente.
Demanda na qual o entendimento dos símbolos e a sensibilidade a eles foi muito valorizada pois, por tais modos, os sentidos e caminhos ascensionais da vida se revelariam melhor; daí as suas múltiplas leituras ocultistas e simbolistas que a sua biblioteca espelha, hoje na Casa-Museu em Campo de Ourique,  e das quais assinalou em carta juvenil de 1915 a Mário de Sá Carneiro, como das mais importantes no impacto anímico-espiritual, a de Hargrave Jennings, The Rosicrucians, their Rites and Mysteries (de 1907), e as de Teosofia que estava traduzir para a Editora A. M. Teixeira, leituras que depois foi aprofundando em várias  direcções, em relação às teosóficas opondo-se mesmo, as quais se depreendem ou reflectem dos seus ensaios, fragmentos e poemas mágicos, ocultistas, iniciáticos. 
No ano de 1915, em pleno período de euforia dos dois números da revista Orpheu,  experimentou alvoradas dos  sentidos supra-físicos, o que de certo modo constitui uma iniciação, ou um sinal dela, tal como escreveu, ainda que cinco anos, depois à sua namorada Ofélia Queiroz, para em parte justificar, exagerando ou não, o rompimento do namoro: «O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam». 
                                          
Ora neste poema escrito já em idade madura podemos ver a morte tanto  literal como morte interior em vida,  em ambos os casos dentro um percurso iniciático, no qual os iniciadores de sucessivos planos - Anjos, Arcanjos e Deuses, ou seja, estes últimos as entidades ainda mais elevadas que os Arcanjos e às quais Fernando Pessoa se refere em alguns fragmentos acerca dos graus das Ordens Mágicas -  abrem o iniciando a limpezas ou reduções de conteúdos de consciência exteriorizante,  as quais culminam na entrada da gruta ou caverna, tanto telúrica como do íntimo Ser, onde se reconhece, verticalizado ou axializado entre os ciprestes, árvores de folha perene, como um espírito imortal e divino, e donde retorna iniciado, seja porque lhe dizem e o sente, seja porque o sente e o diz, ou nos diz: "Não há morte, Neófito!"... 
 
 Certamente que há outros aspectos subtis e simbólicos de estados conscienciais nas imagens e palavras empregadas por Fernando Pessoa, tais como a multicolorida e animada Estalagem do Assombro, ou ainda a nudez que corresponde ao silenciar de todo o pensamento e identificação externa, mas tal aprofundamento irá sendo realizado aqui progressivamente  ou mesmo noutro texto futuro...
A iniciação foi lida e estudada, concebida e intuída por Fernando Pessoa tantas vezes e por tantos modos (tendo tido mesmo  projectos de livros, dos quais há textos de duas ou mais páginas) que consideraremos agora apenas alguns aspectos, tais como o intensificar da capacidade de compreensão sentida do interior dos seres e coisas, a que chama o lado simbólico ou espiritual da Vida, ou ainda o ser a iniciação como um sopro anímico-espiritual que é transmitido por símbolos, acontecimentos ou por alguém. 
No seu caso devemos mencionar  mais especificamente como seus relativos mestres ou iniciadores alguns dos seus familiares, como a tia Anica e, alegadamente em textos de escrita automática, o pretenso espírito do platonista de Cambridge  Henry More e, depois, por presença real e forte o mago e ocultista inglês Aleister Crowley,  com quem se encontra algumas vezes no ano 1930 quando o chefe da Ordem da Golden Dawn esteve em Lisboa, e, por fim, subtil e espiritualmente,  o mestre Jesus Cristo. 
Iniciação que foi e é também, como ele escreve, um dissipar gradual de ilusões ou um despertar energético-consciencial e unificador e unitivo, que abre o ser às dimensões subtis e espirituais, suas, dos outros e do Universo.
Este processo gradual foi também classificado por Fernando Pessoa como uma alquimia espiritual e em textos assinalou mesmo que tipos transmutações nos nossos metais interiores deviam acontecer, nomeadamente o Cobre do Egoísmo que devia passar a ser desinteressado e assim estar mais na Liberdade, a Prata da Vaidade que se deveria transmutar e aproximar-se da Igualdade entre os seres e, finalmente, o Ouro do Orgulho ultrapassado, sublimado, ao se aprender e ao realizar-se mais a Fraternidade, tal como Fernando Pessoa, contra ou vencendo a sua linha ou tendência mais individualista e selectiva, consegue  afirmar em alguns raros textos.
Neste sentido corre a purificação final do poema da Iniciação, quando os Deuses, ou seres mais elevados, o despem de  subjectividades e especulações e fica nu ou exposto ao núcleo ígneo e solar do espírito, algo que Fernando Pessoa contudo não vivenciou tanto como desejaria em vida. Mas reconhecer-se-á, tanto no poema como em vida, ainda assim, como irmão desses elevados seres, a quem chamou num poema de 1934 Superiores incógnitos, por mim lido e transcrito na obra Poesia Profética, Mágica e Espiritual, em 1989.
No sentido iniciático (interior e não de iniciações externas) da alquimia áurea, do processo de transformação espiritual incessante e longo, escreveu ainda: «A Grande Obra é o elaborar em nós, no sentido estrito e pessoal, a transmutação do chumbo do nosso ser perecível no ouro do nosso ser que não perece.» 
Este poema dirige-se então, e orienta-nos, para a entrada profunda e libertadora em nós mesmos - espíritos supra-cerebrais - capazes de, chegada a hora da morte, atravessarmos o umbral ou abismo da extinção da consciência cerebral e entrarmos pelos planos energéticos, astrais e psíquicos,  estando já unificados e identificados à centelha divina em nós e, quanto a mim, no corpo espiritual que conseguirmos talhar ou gerar em vida.... 
Na demanda de realização desta consciência superior interna convergem em Fernando Pessoa certas interrogações elevadas por ele feitas, que transcrevemos traduzindo do inglês: 
«Individualmente alma e corpo são um, mas a alma é mestre do corpo no sentido inferior, assim como o Cristo é mestre no sentido interior. Está o mestre separado contudo inseparado? Quando a morte ocorre a unidade dual torna-se uma unidade dupla? É este o significado da frase Grega, “morrer é ser iniciado"?» 
Refira-se que este "morrer é ser iniciado", que vinha da milenária Antologia Grega, fora também utilizado por Antero de Quental, como epígrafe inicial de um dos seus sonetos, donde Fernando Pessoa o deverá ter retirado, e por isso neste artigo inserimos então a imagem de um poema de Antero dessa luta entre Anteros, o Anjo do Amor correspondido, e Thanatos, o Anjo da Morte, que tanto ele como Fernando Pessoa viveram, por vezes bordejando e cultivando abismos perigosos e incomensuráveis nas suas repercussões, e que o Fausto e o Livro do Desassossego, a sua "produção doentia" como lhe chamava, muito contêm ou exalam...
                                                             
Antero de Quental
foi muito admirado-amado e elogiado, por Fernando Pessoa, sobretudo em jovem, traduzindo até muitos dos seus sonetos para inglês, mas mais tarde escreveu num apontamento que Antero sucumbira às provas iniciáticas da Ordem de Cristo, por ter tido relações maçónicas, num apontamento pouco claro e algo mistagógico, ou seja, imaginário, se bem que possamos pensar que Fernando Pessoa considerara maçónica a Ordem do Raio, que Antero de Quental estudante em Coimbra fundara com os irmãos Sampaio e dinamizara, quando tal ordem só mais tarde, e já quando Antero não estava nela, se tornou uma ordem maçónica. 
Claro que Fernando Pessoa literariamente considerou-o sempre a grande ponte, com Cesário Verde, para o Modernismo do séc. XX.  Ora Antero, como todos sabemos, escreveu muitos sonetos ligados à Morte que ele tanto cultuou, e afirma o "morrer é ser iniciado", mas não desenvolve a viagem iniciática no além, e em graus ascendentes, como vemos nesta descrição de Fernando Pessoa, que certamente podemos pôr em causa na exactidão da imaginação esquemática dada por Fernando Pessoa, na qual põe em acção duas das tradicionais ordens celestiais, Anjos e Arcanjos e, depois, seus superiores, os Deuses, a participarem no processo iniciático, trabalho ou processo de unificação interior que deve acontecer ainda em vida terrena, com a ajuda do Eu espiritual, do Anjo da Guarda, do Mestre e do Corpo místico da Humanidade a que tem acesso. Esta unificação também ocorre com a morte mas diz-se que mais demoradamente. E certamente em ambos os casos (vida e morte) sem esta presença de tantas entidades ou seres espirituais tipificadas, exigidas por preconceitos esquemáticos ascensionais especulativos, provavelmente por força sugestiva do que lera e aprendera pela ordem da Golden Dawn, então dirigida pelo mago algo extremista Aleister Crowley.
Quem deu uma valiosa visão do processo ascensional da morte iniciática foi o humanista do séc. XV Giovanni Pico della Mirandola, ao considerae a primeira morte como a separação da alma do corpo e a segunda morte como o beijo e abraço da alma com Vénus isto é o Amor Divino, algo que infelizmente nem Antero de Quental nem Fernando Pessoa conseguiram muito, embora Antero, na sua juventude, estudante e poeta do Mondego, tenha voado muito alto nas asas do Amor humano, platónico e não só, e no Amor divino à Verdade, ao Bem e ao Belo. Mas quando morreu, até onde ele subiu, libertando-se precoce ou voluntariamente da tumba (sema, como lhe chamavam os iniciados gregos órficos) do corpo (soma) e na, e rumo à, Mors-Amor libertadora, e quem o poderá ter ajudado, não é fácil intuir-se. De igual modo, a passagem transicional de Fernando Pessoa é, quanto aos seus guias no momento e no além, um mistério.
Outro aspecto que resulta da demanda pessoana da Iniciação é inegavelmente a valorização da intuição pois, a iniciação, através do estudo e da sensibilidade simbólica, deveria resultar num desenvolvimento da compreensão e intuição do lado interno e divino dos seres e da coisas, dimensão que tanto nos inclui a nós  como aos outros e os  ambientes, pois para Fernando Pessoa também eles (ou mesmo paisagens) são dotados de alma, como por mais de uma vez o afirmou, numa certa intuição da unicidade da existência, a denominada anima mundi dos antigos greco-romanos.
Neste entendimento, a iniciação é primacialmente uma gnose, um auto-conhecimento espiritual e libertador cultivado, realizado e transmitido, embora com diferentes níveis,  desde os tempos mais antigos em quase todos os povos, no Ocidente mais reconhecidamente  nos Mistérios Gregos (algo que Fernando Pessoa afirmou repetidas vezes, referindo a filiação neles dos gnósticos, dos templários e das ordens secretas), até aos nossos dias, e assim, no seu testamento espiritual de 30 de Março de 1935, Fernando Pessoa afirma-se religiosamente Cristão Gnóstico e confessa-se iniciado  na tradição e ordem Templária. 
Neste sentido o seu Mestre principal (e tantos foram os textos e poemas em que referiu os Mestres e os Anjos, tal como demonstrei nas entradas respectivas no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenado por Fernando Cabral Martins) e o que terá mais invocado no fim da vida, e quem sabe à hora da morte, sempre misteriosa e sobre qual incide o seu último e humilde pensamento e texto conhecido: "I know not what tomorrow will bring", "Desconheço o que o amanhã trará", teria sido o mestre Jesus,  o Cristo, directa ou indirectamente...
                                
Muito provavelmente será a quem alude na carta autobiográfica a Adolfo Casais Monteiro, de 13-I-1935, talvez lembrando-se de Antero de Quental quando este se descreveu em 14-V-1887 a Wilhelm Storck. Nessa carta, explicando o seu ocultismo, refere o Grande Arquitecto do Universo, mas que não acredita na comunicação directa com ele, mas sim com seres intermediários. Será noutros fragmentos e textos que Pessoa afirmará ser Jesus um laço ou o laço entre a Humanidade e a Divindade...
Ora no seu testamento auto-biográfico de 30-III-1935, oito meses antes de desencarnar, reafirmará isso: «Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.» 
Porque preferiu Ordem Templária de Portugal à designação de Ordem de Cristo de Portugal, com que por vezes se identificou ou epigrafou textos, é significativo embora ainda pouco esclarecido...
Quanto à capa ao ombro do poema não será a de um cavaleiro templário em iniciação, pois não diz ele que foi iniciado nos três graus menores da Ordem?
Certamente que este poema e, no fundo, a Iniciação em Fernando Pessoa, em nós e na História é uma demanda da jóia ou cálice precioso do Graal, da comunhão do Espírito...
  Possa a leitura recitada ou de cor, ou meditada silenciosamente, do poema da Iniciação produza harmonizar e despertar interno anímico-espiritual e florescimentos bemfajezos, é o que todos desejamos ou aspiramos, ou seja,  que brilhe mais tanto a auto-consciência espiritual como o Dharma, missão e dever de cada um, no grande Campo unificado de consciência, energia e informação, tanto mais que planeta física e eticamente está tão necessitado de acolher e desenvolver mais a Luz, a Fraternidade e o Amor divinos... 
Pax, Lux, Amor! Vale!
                                                     
                                           Unio Mystica, pintura do mestre alemão Bô Yin Râ.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Da Arte de contemplar e ser nas Nuvens e Céu

30-I-2016 e o seu nascer nas nuvens e no céu..
Princípios ou indicações para uma Arte de Ver as Nuvens e o Céu ou mesmo contemplar, orar, expandir-se, ser com elas e Nele....
Orientar-se, ex Oriens Lux... Saber acolher as cores e vibrações naturais e dos seres espirituais... 
Filtros enublados, ou os olhares múltiplos sobre a realidade e a humanidade adormecida ou a que quer despertar...
Ergue-te, Loco Tempore, É a Hora, aqui e agora... 
O Tejo e as Tágides, o arvoredo a despir-se das cores nocturnas, os planos sucessivos das nuvens abrindo-nos às dimensões superiores... 
Por entre as formas geométricas e as cores rosadas que banham ou inundam a nossa alma o voo rápido da gaivota, um momento único na vida, ichi-go ichi-e, tal como dizem no Japão e no Shinto... 
Quais pirâmides egípcias vindas das tuas raízes primevas assim sejam os teus horizontes próximos sobre os quais ascendes às nuvens e ao céu... 
Vem, parte, voa, desfere o teu canto mesmo que lancinante ou ardente na madrugada, roxa ou violeta, pacífica ou difícil que seja.. 
Tantos planos, seres e afazeres que se cruzam na tua consciência e horizonte anímico...
Sabe ergueres-te e fluir para o teu destino mais luminoso... 
Como estrela de cinco pontas sabe vibrares correcta ou adequadamente nos cinco planos: físico, etérico, astral, mental e essencial ou arquétipo ou como te consigas chamar ou ouvir nas tuas dimensões mais perenes... 
Que a tua alma plástica unida ao espírito divino saiba neste dia transmutar e clarificar todas as situações e ondulações...
E estares mais unido pelo coração a quem amas mais, seja humano, angélico ou divino, confiante, criativa e alegremente... 

domingo, 24 de janeiro de 2016

Antero de Quental. "O Palácio da Ventura", soneto de um cavaleiro andante.

                         
Este soneto de Antero de Quental, aqui fotografado na 1ª edição e com uma pequena vinheta florida no canto, escolhida pelo próprio Antero com o seu impressor Costa Carregal,  é muito citado, ainda que por vezes lhe chamem Palácio da Aventura... 
Antero é nele um cavaleiro andante do Amor, vagabundo e deserdado que, após longa e trabalhosa vida ou viagem estelar, consegue chegar ao portal do futuro demandado ou do santuário desejado mas onde, quando as portas finalmente se abrem, só vê a escuridão e o silêncio...
Talvez possamos dizer, face a este dramático soneto-sonho-imaginação, do qual não se conhece nem manuscrito nem data mas que foi inserido no ciclo dos sonetos escritos entre 1862 e 1866, que está tingido por uma certa desilusão e tristeza sentimental e também pelo pessimismo filosófico-literário da época e a que Antero aderiu bastante cedo, pois andava na casa dos 20 e poucos, mostrando assim algumas sementes negativizantes que Antero em plena época de grande vitalidade e dinamismo acolheu e encerrava em si e que com o tempo se acentuarão obrigando-o aos trabalhos de Hércules da sua vida de revolucionário e poeta, filósofo e espiritualista.
                                         
Teria sido bom que o cavaleiro do Amor (ou do indomato amore, como lhe chama o seu notável estudioso Joaquim de Carvalho) Antero de Quental, chegado a tão alto e formoso lugar, se sentasse e meditasse pois muito provavelmente aprofundaria o som do silêncio, tão harmonizador, e talvez sentisse ou ouvisse mesmo a Voz interior, a Voz da Consciência e de certo modo da Divindade escondida em nós, que ele em tantas cartas viria a recomendar aos amigos escutarem. Talvez então o "Eu sou" que sentiria em si, e que afirmaria, já não fosse só o vagabundo e deserdado, mas o Eu sou que ecoa ou afirma o espírito individual próprio, luminoso.  
Como especulou no seu livro Atlântidas, um dos bons estudiosos anterianos, Sant'Anna Dionísio, o discípulo principal de Leonardo Coimbra, outro autor que admirou Antero consagrando-lhe um valioso livrinho O Pensamento Filosófico de Antero de Quental, teria faltado algo a Antero: «O valor inapreciável dos grandes educadores (...) consiste precisamente em revelar depressa, e a tempo, a missão mais alta e adequada a um aprendiz. Antero, infelizmente, não teve a sorte de encontrar um revelador dessa natureza. Por essa razão, andou tanto tempo perdido, entregue a uma espécie de cavalaria andante de Espírito». Entenda-se aqui Antero como cavaleiro "andante" ou seja errante, não decidido e determinado na sua rota ou demanda, algo que nos nossos dias de tanta informação e solicitação pode enfraquecer ou dispersar muito qualquer pessoa, esteja ela numa demanda mais profunda ou não.
Se tivesse entrado mais certeiramente no caminho filosófico e espiritual, provavelmente poderia na vida, e logo neste soneto, imaginar, ou mesmo ver e contemplar a Luz a que tanto almejava e que já no caminho  tanto inspira e anima os que a buscam e meditam. 
Eis algo que  deveremos ter mais presente em relação ao desenvolvimento das nossas potencialidades, seja em geral, seja no dia a dia, e com a necessária aspiração e resiliência forte nos momentos mais difíceis, para não sermos cavaleiros andantes perdidos mas verdadeiramente Cavaleiros de Amor, uma tradição aliás que na Idade Média e no Renascimento brilhou na consciência de vários seres e escritores, tais como entre nós Damião de Goes, D. João de Castro, Luís de Camões, Jorge Ferreira de Vasconcelos, D. Luís de Ataíde, etc.
                                
                                  O PALÁCIO DA VENTURA

"Sonho que sou um cavaleiro andante,
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!"

Terá Antero procurado, e trabalhado, em toda a sua vida o Palácio da Ventura, etimologicamente o que há-de vir, como idealista peregrino, tendo-o por fim encontrado vazio, vazio este que continua hoje aceite ou em moda pelas perspectivas budistas e niilistas,  porque  não conseguira chegar aos elevados níveis de conhecimento filosófico, gnóstico e de realização interior, não meramente intelectual mas espiritual, nomeadamente os do conhecimento do Espírito, da Verdade, do Amor e da Divindade, que sonhara ou idealizara sob a imagem simbólica do Palácio da Ventura? 
Ou este soneto e na sua idade tão jovem representa mais a cosmovisão pessimista e  niilista tão em voga na segunda metade do século XIX e que ele lia e trabalhava imaginativamente na altura, certamente com afinidades interiores, mas que para idade tão juvenil eram bastante perigosas e enfraquecedoras, tanto mais que duraram por muitos anos e sonetos? 
Na realidade, o que virá no futuro (ventura), a revelação da busca da Verdade, a visão de Deus ou do Absoluto, ou o estado Nirvânico, que serão analogias do Palácio da Ventura, desse estado final de busca de um cavaleiro andante, e que deveria ser de felicidade e comunhão ao que de melhor aspirara e intuíra,  e onde pensara entrar como lutador, amante e sábio, revelava-se bem mais inacessível, e as portas que por fora eram douradas por dentro, ou franqueadas, só revelam silêncio e trevas, deixando-o mergulhado em dor.
Este poema embora literário, imaginado, corresponde também de certo modo a uma realidade vivenciada por ele, seja nesse momento seja ao longo da vida: a de que a busca da luz, seja a interior espiritual visível no 3º olho, seja a da verdade, na harmonia da ciência e da filosofia, seja a da justiça, no socialismo nascente, seja a do Amor, à amada, ao todo ou à Divindade, era bem difícil e pouco resultara ainda no seu interior de jovem... 
Com o decorrer dos anos o seu desalento, niilismo, vazio, condicionados ou agravados pela doença psico-somática sentida a partir de 1874, perpassam ainda mais em tantos dos seus sonetos, embora ele contraponha bem o seu sentido ou vivenciado panpsiquismo, essa comunhão com a natureza ou o Todo (pan) onde sente ou intui a  aspiração de luz em todas as coisas, animais e seres, e  o seu estoicismo, que desde novo manifestou como força e valentia, ascese e recolhimento e que nos últimos anos de novo sente.
Talvez seja a este estoicismo que se refere Oliveira Martins, no prefácio dos Sonetos, a propósito deste soneto, mas que António Sérgio, um dos bons comentadores  dos Sonetos (mas menos afim espiritualmente de Antero que, por exemplo, Joaquim de Carvalho), na "sua edição" (já que alterou até a ordem de apresentação dos sonetos)   não compreende, escrevendo nessa edição de 1956, ao concluir o seu breve comentário ao Palácio da Ventura: «Não sabemos que seja a semente de abstracção que, segundo Oliveira Martins, se descobre neste soneto».
Ora Oliveira Martins, no seu prefácio extenso e valioso embora discutível em vários aspectos e que o próprio Antero considerava fraco, diz que Antero não soçobrou na ironia, sarcasmo, orgia, abatimento e atonia, como sucedera «a Heine e Espronceda, Nerval e Baudelaire», por não  «conseguirem estrangular os monstros que defendem os áditos do templo da Sabedoria», pois «não havia em nenhum desses homens a semente de abstracção que se descobre no Palácio da Ventura:  
 
Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão, - e nada mais!
 
Os românticos, mais ou menos satanistas ou satanizados,  ficavam-se por aqui. Achando apenas silêncio e escuridão onde tinham sonhado venturas, ou davam em bêbados como Espronceda, ou suicidavam-se como Nerval, ou faziam-se cínicos, à maneira de Baudelaire, cultivando com amor as Flores do Mal».
  Embora tal moda europeia e sobretudo de França tocasse ao de leve os jovens irónicos e irreverentes Eça de Queirós e Antero de Quental, tal não se prolongara ou entranhara realmente com Antero, que gera mesmo por fim, na década dourada de Vila do Conde (1880-1890), por uma capacidade de abstracção e estoicismo, alguns sonetos mais infundidos  pela luz, a comunhão invisível e a paz que conseguira fazer desabrochar, tanto pela sua natural bondade e amadurecimento interior, seja pelos seus esforços filosóficos, estes bem patentes nesse seu testamento de 1890 que é o ensaio sobre As Tendências gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX, no qual a união da Ciência Natural e do Espiritualismo, e até de certo modo do Ocidente e do Oriente,  brilhava e que já algo arrojadamente previa, com alguma ingenuidade optimista, em Novembro de 1887 na carta autobiográfica a Wilhelm Storck: «O Ocidente produzirá, pois, por seu turno, o seu Budismo, a sua doutrina mística definitiva, mas com mais sólidos alicerces e, por todos os lados, em melhores condições que o Oriente».
Este desejo e aspiração de Antero de Quental a um Templo de Sabedoria ou Palácio da Ventura, ou seja, a um futuro mais justo e verdadeiro da Humanidade, é um ideal certamente valioso e desafiante perene, embora  no séc. XXI ainda muito distante do comum das pessoas  pois os vários níveis de realização idealista dos seres estão ainda pouco conseguidos e bastante oprimidos pelas condições de vida económicas e sociais. E mesmo dentro da espiritualidade abundam superficializações globalizantes, frequentemente demasiado mercantis, realçando-se, por exemplo, excessivamente as sessões de magnetismo ou reiki, as práticas de Yoga  malabarista e sem realização interior, as igrejas emocionais e de auto-sugestão, o ritualismo externo, a crença absurda que alguém fala com Deus ou Jesus, ou canaliza altas entidades, em vez de se aprofundar a harmonia de vida, a auto-consciência crescente e a ligação ao espírito, ao amor, ao bem, ao divino.
Todavia, em alguns seres, a conjunção da justiça social ou vida harmoniosa, da ciência e da religiosidade-espiritualidade está a acontecer, com respeito  dos níveis e metodologias próprias  de tais aproximações à realidade e verdade multidimensional, externa e interna, hoje bem vista por alguns cientistas e filósofos sob a designação do Campo unificado gravitacional de energia, informação, consciência que une e engloba todos os seres e que se manifesta nas comunhões da consciência, vistas como afloramentos do panpsiquismo, nomeadamente nas sincronias e espécies de telepatia, algo que já na época Antero de Quental conheceu e demandou, na altura denominando-se magnetismo, como ele tão bem referiu na carta ao seu admirador, e mais tarde general, Carlos Cirilo Machado, desenvolvida em dois outros artigos deste blogue. https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2016/04/antero-de-quental-o-magnetismo-e.html.  https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2018/01/a-casa-do-coracao-de-antero-de-quental.html
 
                                            
O seu magistério (do latim magister, mestre), tendo ocorrido pela poesia juvenil e pela liderança estudantil conimbricense, e depois literária e socialista e, finalmente pelos Sonetos (nos quais destacou os cerca de vinte derradeiros como os mais fiéis às suas últimas concepções, embora vários deles estejam ainda tingidos de treva e frustração frustração face ao solucionar luminosamente a sua busca da Verdade e do Divino), concluindo com as Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX, bem apresentadas  na sua compreensão dinâmica da inter-relação da matéria e do espírito, a que devemos acrescentar a valiosa Correspondência com os amigos, não tudo isso foi suficiente para se sentir mais realizado na demanda do Graal venturoso. 
Assim, tal fraqueza associada à pouca realização do amor afectivo, ao isolamento social e às dificuldades digestivas e nervosas (desde que em «1874 adoeci gravissimamente, com uma doença nervosa de que nunca mais pude restabelecer-me completamente»), a sua desilusão e desprendimento da vida foram crescendo até que, por inesperadas condições adversas à sua afectividade (o afinal não poder nos Açores estar junto das duas filhas de Germano Meireles que educara), num momento  reflectido ou premeditado nesses últimos dias (quantas vezes o pensou?) mas tão condicionado pelo exterior, pôs termo à vida física corporal, que não a psico-espiritual, na qual certamente continuará a ser nos mundos subtis um peregrino da Verdade e, sobretudo, da Divindade a que infelizmente conseguiu abrir-se pouco enquanto na Terra...
Que a morte é o começo ou início de uma outra vida já afirmara ele, no começo de um dos seus sonetos, ao repetir o mote grego, «Morrer é ser iniciado», no qual se indica também que já em plena vida temos que saber aprender a morrer (o adormecer de noite já sendo algo disso) para o nosso ego e seus desejos e vaidades, o que por vezes é doloroso ou difícil, para se renascer depois, mais iniciados na identificação e realização como seres espirituais, criativos e lutadores. Quanto ao que se passará também forçosamente e para sempre no momento da morte, seja de fim de crescimentos seja de abertura de novas capacidades, só após a vivência dessa grande iniciadora e por Antero de Quental talvez demasiado cultivada ou evocada na sua poesia e alma, se poderá saber com certeza.
Anote-se por fim um outro tão importante soneto, o Mors-Amor, no qual Antero se afirma como cavaleiro do Amor e vencedor da morte e que de certo modo complementa, responde e esclarece este Palácio da Ventura. Nesta mesma linha está o Solemnia Verba, do qual transcrevemos os dois tercetos finais: 
  
 «Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do penar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi de mais o desengano e a dor.» 
 
  Pintura de Bô Yin Râ, dos mundos espirituais...
 
Estará Antero de Quental a ter acesso a Santuários ou Palácios de Ventura, sejam eles de substância astral ou já espiritual, entrando consciente e voluntário em tais palácios, santuários ou planos mais elevados, quer exteriormente em corpo espiritual quer apenas em visão interior da sua alma?  
Continuará a ser um peregrino do conhecimento, um dialogante com discípulos e mestres, um cavaleiro andante,  uma alma inspiradora dos que o lêem ou são seus amigos e fiéis do Amor?
                                    
                              Pintura de Bô Yin Râ, dos mundos espirituais
Já  terá  encontrado a sua Beatrice, amada e musa das suas poesias juvenis,   quem sabe a sua mítica (desde o Fedro, de Platão) ou misteriosa alma-gémea?
Estará assim já a sua consciência mais plena na multi-dimensionalidade de Espírito e participando até na evolução da Humanidade e de Portugal?
Saudações venturosas luminosas e amorosas a Antero de Quental!
Saibamos nós aperfeiçoar-nos e religar-nos mais, de modo a sermos cavaleiros e cavaleiras do Amor e podermos ajudar a Humanidade a criar  momentos e estados de harmonia, de paz e de luz venturosa, deste presente tão conturbado em que vivemos, para um futuro que estamos a gerar, e que está sempre a transformar-se, dependendo muito do nosso empenho e intenção, sabedoria e amor!
*** 
Realizei mais uma hermenêutica sobre a demanda, a 6.II.23:  https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2023/02/o-palacio-da-ventura-de-antero-de.html

domingo, 17 de janeiro de 2016

Erasmo de Roterdão. Transcrição da apresentação do seu "Modo de Orar a Deus", impresso em 2008 nas Publicações Maitreya.

     Apresentação do livro Modo de Orar a Deus, de Erasmo, traduzido do latim por Álvaro Mendes e Pedro Teixeira da Mota, e contextualizado e comentado por mim. Foi editado no Porto, pelas Publicações Maitreya, em 2008 e entra agora na Internet para melhor divulgação de algumas partes, aqui a inicial, após as dedicatórias...
«Eis-nos com Desiderius Erasmus Roterodamus, Desidério Erasmo de Roterdão, o principal líder intelectual da Europa no século XVI, o crítico das instituições e costumes, o renovador da educação e do ensino, o pioneiro do estudo científico dos textos sagrados e da complementaridade das letras humanas e das divinas, o unificador dos campos opostos religiosos, o apologista da tolerância, do pacifismo e da concórdia, o ressuscitador da filosofia de Cristo viva e da piedade íntima, sábia e livre. «Homem por si» há quinhentos anos e ainda hoje a inflamar corações acima da ignorância e das facções, e a apurar almas na realização da verdade, do espírito e da Divindade.
Uma vida de viagens, estudos, traduções, comentários e escritos, sobretudo textos educativos, filosóficos e religiosos, mas também muitas lutas, incompreensões, polémicas e uma imensa correspondência, de grande impacto na vida intelectual e religiosa do século XVI, mas correndo íntima e subterraneamente pelos séculos a dentro como fermento de renovação anti-supersticiosa, anti-facciosa, anti-totalitária, libertadora.
Traduzir, apresentar, anotar e ler Erasmo no séc. XXI, num dos seus tratados espirituais, é uma honra e um privilégio, pois vamos aprofundar e amadurecer com ele alguns dos mistérios da vida, compartilhar a sua lúcida compreensão dos modos de orar, pela quais nos ligamos mais a Deus e fazemos descer as suas bênçãos.
Quis Erasmo chamar os seres humanos às fontes antigas da Sabedoria, tanto a tradição sapiencial greco-romana como sobretudo a derivada de Jesus e do seu ensinamento, a philosophia christi, a filosofia de Cristo, ou seja, o amor da sabedoria em Jesus Cristo, presente nos Evangelhos, e dentro dos seus intérpretes, em especial S. Paulo, Orígenes (190-253), Ambrósio (339-397),  Jerónimo (347-419) e Agostinho (354-430), assim citados no seu primeiro e famoso Manual do cavaleiro cristão, o Enchiridion, como aqueles cuja «interpretação é mais acomodada aos sagrados mistérios», e que em 1520, na Ratio verae theologiae, o Método da verdadeira teologia, serão reordenados, por ordem descendente de valor: Orígenes, Basílio, Nazianzo, Atanásio, Cirilo, Crisóstomo, Jerónimo, Ambrósio, Hilário e Agostinho, cujas obras publicou e comentou, numa tarefa ciclópica de génio e de studium, hoje em dia quase impossível, então caracterizadora de alguns dos mestres do Renascimento como Pico della Mirandola, Leon Battista Alberti, Marsilio Ficino, Leonardo da Vinci, Luca Pacioli ou Michelangelo Buonarroti.
Mas a esse estudo das letras humanas e divinas, desde Orfeu e Homero, Platão e Horácio aos pais ou fundadores ortodoxos, como chamava aos místicos e gnósticos padres da Igreja antiga, as fontes mais próximas de Jesus e do Evangelho, acrescentava Erasmo tanto a importância de uma vida racional, ética e dialogante, como também (já livre do cerimonialismo desnecessário, da hipocrisia, corrupção ou superstição) a piedade douta, ou seja, a boa (fundamentada, esclarecida) e profunda relação interior com Deus e exterior com os humanos.
O que propõe então é o amar ou adorar a Deus em espírito e em verdade, reflectindo-se num ânimo justo, bom e piedoso e na vida como oração luminosa contínua, concretizada no serviço e clarificação (a glória) do bem comum, do próximo, da verdade e de Deus. Certamente, com esforço ou plena atenção: o studium...
Para Erasmo a verdadeira teologia ensinada por Cristo é assim viver pura, simples e virtuosamente, pela força interior divina que nos chama a aperfeiçoar-nos na fé, na esperança e na caridade, pois o Espírito habita no coração das pessoas piedosas.
É pela disposição anímica de seguir correctamente o Cristo («que é caridade, simplicidade, paciência, pureza, ou seja, tudo o que ele ensinou»), que o crente em Deus e nos seus mestres e santos avança na vida e no aperfeiçoamento, para se tornar também um Cristo, que significa um ungido: «todos os que renasceram em Cristo, são Cristos» (Da Amável concórdia na Igreja).
Esta realização salvífica não está garantida pelos doutoramentos teológicos, cerimónias, peregrinações, votos religiosos ou vida monástica, de que aliás em muitos aspectos Erasmo é crítico, como em alguns dos seus famosos Colóquios que o tornaram tanto admirado por muitos, como detestado pelos «bárbaros ignorantes», que recusavam o estudo das línguas, culturas e tradições antigas, ou seja, a universalidade do conhecimento, presente na retórica, na poesia, nas ciências, na exegese livre da religião, e cujo cultivo e divulgação só faria bem à humanidade.
Uma das razões do grande sucesso na época da filosofia de Cristo, designação antiga mas desenvolvida por Erasmo a partir da sua meditação e do seu trabalho para uma versão mais fidedigna do Novo Testamento, e depois desenvolvida nos comentários livres aos Evangelhos, as Paráfrases, está na intuição e vivência em si de Cristo (palavra grega que traduz o Messias hebraico, o Ungido ou ligado a Deus, e que é também, sobretudo com S. João, Logos, ou seja Palavra, Verbo, Sabedoria, Razão, ou discurso certo), em parte nascida da realização da presença divina (logóica, diríamos) nos textos sagrados, onde ela respira e vive mais plenamente.
Tal permite a Erasmo tanto recomendar incessantemente a leitura sagrada, ou a oração a partir de palavras dos Evangelhos, como sobretudo tornar vivos os ensinamentos e parábolas de Jesus Cristo, primeiro ao saber estabelecê-los filologicamente mais correctos na versão que fez, magistralmente anotada, do Novo Testamento e, depois, nas Paráfrases, ao passar constantemente do sentido literal para o espiritual, do passado para o presente e o eterno, trazendo ao de cima a riqueza de sentidos transformadores de muitas passagens que pareceriam destituídas de relação eficaz e luminosa com a nossa mente e vida de hoje.
Um tão arguto observador, que tanto viajara e conhecera de pessoas e sociedades, com as suas limitações animais mas também aspirações e exigências de dignidade e espiritualidade, estava preparado tanto para a ironia esperançosa como para a compaixão piedosa e por isso as suas obras ora castigam rindo, ora inspiram desejos de fraternidade e caridade, impulsionando consciencializações ou mesmo voos espirituais.
Para Erasmo a vida é uma luta pela ligação divina, sob o perigo constante do enfraquecimento ou mesmo da morte da alma, quando a dignidade, a racionalidade ou domínio das atracções e repulsões, ou mesmo o desejo de solidariedade moral e de vida espiritual, falham. Com efeito, dirá no Enchiridion, o Manual do cavaleiro cristão: «quando os olhos do coração estão obscurecidos para que não vejas a luz evidentíssima que é a verdade, quando não captas com teus ouvidos interiores a Voz divina, quando careces completamente do sentido do absoluto, pensas que a tua alma estará viva? (...) Se o teu próximo é mal tratado, porque é que a tua alma não sente nada?»
Duas são as armas ou as asas principais a utilizar, o conhecimento e a oração. Conhecimento das letras humanas que naturalmente apoiam as divinas, ou ainda, conhecimento da sabedoria perene, da tradição cultural e espiritual de todos os povos e tempos; gnose de si próprio de quem não é só corpo animal e genético, nem subjectiva e complexa personalidade ou alma, mas na essência espírito, dotado de autoconsciência e lucidez, livre-arbítrio e amor, capaz portanto de conhecer e amar a verdade, a unidade, a Divindade.
Quanto à asa da oração, a procura do florescimento unificador do amor, o diálogo e a coincidência da mente e da vontade com Deus Pai e com o todo, deixemos Erasmo iniciar-nos com este pequeno tratado, o Modus Orandi Deum, publicado pela primeira vez pelo sábio impressor Johann Froben, em Outubro de 1524, em Basileia, com sucesso pois surgem doze edições até ao fim do ano da graça de 1525 graças a laboriosos impressores de Estraburgo, Colónia, Nuremberga, Basileia, Cracóvia, Veneza, Antuérpia, se bem que a sexta edição, que é uma versão bastante acrescentada e corrigida por Erasmo, impressa de novo por Froben, em Março de 1525, nunca será tomada em conta pelos editores posteriores, algo misteriosamente...
Na península ibérica surgirá, embora só em 1546, uma impressão espanhola na tipografia sevilhana de Andrés de Burgos, intitulada Tratado de la oracion y forma que todo christiano deve seguir, pois de facto a península estava muito desperta para a experiência da oração tanto vocal como interior e mística, nomeadamente pelas influências mais remotas do sufismo (pela confraria shadhili) e mais próximas dos franciscanos (tal como Francisco de Ossuna e o seu Abecedario), dos recolhidos e dos alumbrados (ou dejados, abandonados ao amor de Deus) e do movimento de retorno às fontes bíblicas, impulsionado pela acção do cardeal Francisco Jiménes de Cisneros (1436-1517), confessor da rainha Isabel a Católica, arcebispo de Toledo, impulsionador de uma religiosidade mais esclarecida e espiritual (embora pouco aberta à islâmica, da qual fez queimar muitos livros), reformador das ordens religiosas, patrocinador de vários livros de contemplação, fundador (1ª pedra 1498, 1ª aula 1508) da Universidade de Alcalá de Henares (Complutum), e director da pioneira tradução da Bíblia, a Poliglota Complutense, em oito grandes volumes, ali realizada entre 1514 e 1517, embora só impressa em 1520, já depois do Novum Instrumentum, de Erasmo, vir à luz na tipografia “rival” de Froben...
Para além disso, preparando-se o príncipe Carlos para se tornar o imperador do Sacro Império Romano (de origem alemã e unindo cerca de 300 estados da França à Polónia, governados sobretudo por sete príncipes eleitores), rei de Castela (pela morte da rainha Isabel I, e da sua filha Joana, a Louca, casada com seu pai o Filipe, o Belo, de Borgonha) e de Aragão (pela morte de Fernando II de Aragão, o marido de Isabel, que não teve filhos do seu segundo casamento), e sendo Erasmus um dos seus conselheiros, havia mais receptividade aos seus livros, pelo que logo em 1516, ainda ao tempo do cardeal Cisneros (saía em Sevilha a primeira tradução, por Diego de Alcocer, de uma obra de Erasmo, o Tratado ó sermon del Niño Jesús y en loor del estado de la Niñez. E, em 1517, o cardeal Cisneros, que exerceu então o cargo de regente de Espanha, até à chegada do príncipe Carlos em Setembro, convidaria por mais de uma vez a vir até Espanha Erasmo que, embora não vindo, viu serem editadas ou traduzidas muitas das suas obras (vinte e três edições entre 1516 e 1527).
A fortuna pública deste Modo de Orar a Deus, ainda que grande pelo número das sucessivas reimpressões, encontrou contudo uma má madrasta pelo caminho, a oposição da Universidade parisiense, a Sorbonne, naquela época dominada pelos teólogos, numa «caverna de bandidos», reduto de alguns fanáticos da escolástica, «formados no ódio às boas letras e à tranquilidade pública», inimigos constantes da livre investigação e divulgação do ensinamento de Cristo e, portanto, de Erasmo, sendo os principais nos «furores», Noël Béda, o chefe da censura durante quinze anos, e Pierre Cousturier (ou Sutor), retratados ironicamente por Erasmo nos colóquios Sínodo dos gramáticos e A Refeição de peixe.
Como já tinham encontrado mais de cem proposições condenáveis no seu Novo Testamento anotado e nas Paráfrases aos Evangelhos (nomeadamente, o querer traduzir as santas escrituras em todas as línguas...), também teria de ser atalhada ou dificultada a nova incursão de Erasmo na messe do Senhor, baseada num ardente sentido de justiça e de piedade e num rigor da exegese filológica e conceptual dos textos sagrados, ensinando a todos os cristãos orarem de modo sábio, consciente e livre, e apelando, justificadamente, a tornarem-se mesmo profetas e sacerdotes pelo ungimento do Espírito, e portanto os verdadeiros adoradores de Deus em espírito e em verdade.
Em 1526 e 1527 surgem as primeiras censuras parisienses, às quais Erasmo responde quer justificando-se quer demonstrando a ignorância e o ridículo de Béda e Sutor. Em Valladolid, em 1527, reúne-se mesmo uma assembleia de teólogos convocados pelo benigno Inquisidor Geral Alonso Manriques para debaterem essas proposições ou doutrinas duvidosas, encontradas, segundo alguns frades e teólogos, tanto no Novo Testamento como no Modo de Orar a Deus, encontro que descreveremos mais à frente. Regressado a Paris, um desses opositores de Erasmo, o teólogo “sorbónico” Diogo de Gouveia (1471-1557, escreverá algo arrogantemente ao rei D. João III em Setembro de 1527, dizendo que se «deram a visitar os outros livros a saber anotações, enchiridion, de modo orandi» e que se preparam para o condenar e que não sairá vencedor: «será melhor que não escrevera em outra coisa senão em histórias e crónicas de príncipes». Pobre Diogo Gouveia, um ultra-ortodoxo hoje engolido pela história, a querer subalternizar Erasmo...
Em França, liberto já da terra Erasmo, nos primeiros catálogos de livros proibidos pela Sorbonne, de 1543, 1544 e 1551, estava incluído o piedoso Modus orandi Deum. Mas em 1547, no primeiro rol português dos livros defesos ou proibidos, reproduzindo o que a Universidade de Lovaina acabara de fazer (no ano em que, ao contrário, na Inglaterra as Paráfrases aos Evangelhos se tornavam obrigatórias, com a Bíblia, para todos os sacerdotes e paróquias), só eram indicados o Elogio da Loucura, o Modo de confessar e os Colóquios, tendo estes até sido publicados, em 1546, com as aprovações de vários professores e teólogos da universidade conimbricense, numa edição escolar (de que se conhecem hoje só dois exemplares) da autoria do erasmiano Juan Fernandez, professor de retórica na mesma Universidade, que a realizara com suma mestria ao conciliar cortes de censura, explicações amenizadoras e a tradução integral de vários colóquios, com as ideias e críticas de Erasmo, então proibido como autor perigoso e danado.
Todavia, em 1557, no segundo rol, entre as treze obras de Erasmo visadas (de novo baseado no de Lovaina mas com acrescentos portugueses), já aparecia o Modus orandi Deum, tanto em latim, como em vulgar, neste caso a impressão espanhola, que em 1546, na tipografia sevilhana de Andrés de Burgos, saíra à luz intitulada Tratado de la oracion y forma que todo christiano deve seguir, e que, dentro da ampla permeabilidade do bilinguismo da época, terá circulado certamente nos meios piedosos e cultos da sociedade portuguesa, justificando-se assim a sua drástica quão absurda proibição portuguesa.
Passados quinhentos anos, certamente não há razões para proibições, antes pelo contrário, o valor religioso e cristão, para além de pedagógico, científico e espiritual de Erasmo, está mais do que reconhecido e, esta obra, na sua piedade (no sentido até greco-latino, onde significava o estar em boa relação com o Divino) e simplicidade (mas também profundidade para quem a começar a sondar e viver), em verdade entusiasma a alma e estimula à oração contínua, ao melhor conhecimento das letras divinas, bem como à fraternidade, ao amor, ao aprofundamento da oração dialogante com a Divindade, através mesmo dos santos, dos mestres e dos Anjos e Arcanjos, capaz de induzir ou intensificar a consciencialização do espírito, a quietude contemplativa, a unificação amorosa e íntima com a Divindade.
Que esta obra seja acolhido por corações jubilosos por poderem beber da fonte Divina, a que estas páginas tanto sabem, conduzem ou religam.
E se sentirmos alguma vez a expressão intercessora «Magister Erasme, ora pro nobis» ou «Magister Erasme, ora in nobis», «Mestre Erasmo, ora por nós», Mestre Erasmo, ora connosco», tal será a expressão do reconhecimento de um dos seres humanos que mais conheceu, se aproximou e transmitiu o ensinamento e o espírito de Jesus, o Cristo, ou ainda da ética e da Sabedoria perene, Divina.
Fim da 1ª parte. Segue-se a biografia de Erasmo publicada também neste blogue em três partes, em Junho de 2017.
«Mestre Erasmo, ora ou medita connosco»

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016