Avancemos, após três artigos já publicados no blogue, na nossa transcrição e hermenêutica das Raízes Arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, obra onde Dalila Pereira da Costa partilha a suas valiosas compreensões e intuições de alguns dos grandes mistérios da espiritualidade e particularmente na tradição persa, na de Dante e dos Fiéis do Amor e em Camões e sua poesia lírica e épica.
A sua tese fundamental é a de que as mulheres amadas, ou as ninfas, ou as mestras iniciáticas, são "tipificações" da natureza angélica, da Inteligência Agente, da santa Sophia, do Amor.
Dalila relembra a tradição italiana dos Fiéis do Amor, que também têm sido denominados Cavaleiros do Amor, desenvolvida exemplarmente por Dante com Beatriz e discerne-a em Camões, em alguns sonetos famosos de grande amor, considerando que em tal divinização da mulher se encontra a mesma realidade que na ninfa Tétis, a exemplo de Beatriz, a iniciadora de Dante,
Escreve então: «A figura do Anjo, como Inteligência agente, se apresentará nos Fedeli d'Amor tal como nos poetas e místicos persas e iranianos, tipificada igualmente numa figura feminina: que realizará para eles a sua completude perfeita, como seres humanos. Seria esta, a religião secreta de Dante e seus companheiros, assim como a de Camões.»
"Tipificada igualmente numa figura feminina" escreveu Dalila. Eu talvez mais realisticamente diria: manifestada, avatarizada numa mulher (em vez de figura). Ou poderia mesmo dizer incarnada, ou então pelo menos personalizada numa mulher concreta.
Há contudo uma pluridimensionalidade neste processo de realização da natureza angélica, seja nossa, seja da mulher amada, a qual não se consegue discernir facilmente e que Dalila embora tocando aqui e acolá não afirma ou resolve claramente, pois na realidade são níveis bastante elevados tanto de amor como de realização espiritual e que geralmente são ignorados ou então silenciados, ocultados, ficando apenas para os iniciados ou os amorosamente beatificados e iluminados.
Dalila prossegue depois na observando em Camões a distinção do amor carnal e do amor espiritual (talvez algo dualisticamente, pois a coincidentia oppositorum é fulcral) e a «imaginação criadora como a força da transmutação dos dado sensíveis», imaginação à qual deveremos acrescentar a visão espiritual (algo que Dalila, seguindo Corbin, por vezes não realiza), a qual permite ser a «mulher elevada à esfera do divino, e assim partilhando de todo o seu mistério insondável, inviolável ao humano», elevação dela por graça, visão, sentimento e poder.
Dalila, considerando quase irrelevante saber-se a identidade histórica das mulheres amadas por Camões na sua poesis, tanto mais que no amor cortês se devia guardar em segredo a identidade da amada, afirma «o facto relevante, como para todo o Fiel de Amor, será a transmutação que o poeta realizou sobre uma mulher sua contemporânea, real, elevando-a a figura angélica, como metade transcendente de seu ser terreno, ou reflexo no tempo - pela força transmutadora da imaginação criador». [Não apenas, mas também visão sentida interiormente] «Fermosos olhos, que na idade nossa/ Mostrais do céu, certissimos sinais,/ Se quereis conhecer quanto possais/ Olhai-me a mim, que sou feitura vossa (...) E se ver-vos nesta alma, enfim, quiserdes,/ Como num claro espelho, ali vereis/ Também vosso angélico e sereno» (XXXIII).
Continuaremos no artigo final. Lux, Amor, Amor!
