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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Dalila Pereira da Costa: para o Fiel do Amor, o Amor é uma força cósmica, encarnada numa mulher divinizado. Hermenêutica das "Raízes arcaica.s da epopeia portuguesa camoniana"

                                                                            

Avancemos, após três artigos já publicados no blogue,  na nossa transcrição e hermenêutica das Raízes Arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana, obra onde Dalila Pereira da Costa partilha a suas valiosas compreensões e intuições de alguns dos grandes mistérios da espiritualidade  e particularmente na tradição persa, na de Dante e dos Fiéis do Amor e em Camões e sua poesia lírica e épica.

A sua tese fundamental é a de que as mulheres amadas, ou as ninfas, ou as mestras iniciáticas, são "tipificações" da natureza angélica, da Inteligência Agente, da santa Sophia, do Amor. 

Dalila relembra a tradição italiana dos Fiéis do Amor, que também têm sido denominados Cavaleiros do Amor, desenvolvida exemplarmente por Dante com Beatriz e discerne-a em Camões, em alguns sonetos famosos de grande amor, considerando que em tal divinização da mulher se encontra a mesma realidade que na ninfa Tétis,  a exemplo de Beatriz, a iniciadora de Dante, 

Escreve então: «A figura do Anjo, como Inteligência agente, se apresentará nos Fedeli d'Amor tal como nos poetas e místicos persas e iranianos, tipificada igualmente numa figura feminina: que realizará para eles a sua completude perfeita, como seres humanos. Seria esta, a religião secreta de Dante e seus companheiros, assim como a de Camões.»

 "Tipificada igualmente numa figura feminina" escreveu Dalila. Eu talvez mais realisticamente diria: manifestada, avatarizada numa mulher (em vez de figura). Ou poderia mesmo dizer incarnada, ou então pelo menos personalizada numa mulher concreta.

Há contudo uma pluridimensionalidade neste processo de realização da natureza angélica, seja nossa, seja da mulher amada, a qual não se consegue discernir facilmente e que Dalila embora tocando aqui e acolá não afirma ou resolve claramente, pois na realidade são níveis bastante elevados tanto de amor como de realização espiritual e que geralmente são ignorados ou então silenciados, ocultados, ficando apenas para os iniciados ou os amorosamente beatificados e iluminados.  

«Assim  Beatriz para Dante na Vita Nova e Divina Comédia, Giovanna para Guido Cavalcante, ou aquela que para Dino Compagna é l'amorosa Madonna Intelligenza», Laura para Petrarca, Natércia para Camões - serão a tipificação feminina dessa Inteligência agente. E a união do poeta com esse anjo do conhecimento, é uma união de amor e com todos os sinais duma experiência pessoal vivida. Não pura alegoria, abstração esangue ou metáfora. Todas essas mulheres cantadas pelo Fedeli d'Amor, foram mulheres reais e concretas, vivendo sobre a terra contemporaneamente aos poetas, simultaneamente figuras terrestres e celestes: como aparições aos poetas, simultaneamente figuras terrestres e celestes; como aparições aos poetas da Sophia Intelligencia, Sabedoria, iniciando-se [ou iniciando-os] nos mistérios do conhecimento supremo, o do Amor. Tal ainda mais tarde, no Romantismo alemão, Suzete Gontard para Hölderlin. Função sacerdotal continuando a de Diotima, no Banquete de Platão.
Dando-se assim por parte desses poetas, uma sublimação, transmutações desses seres femininos, e não uma sua abstração. Eles viam, através de sua beleza, que sempre foi cantada em termos de louvor sagrado, da mulher terrestre, o ser angélico.
Esta concepção dos Fiéis do Amor, com todo o processo de revelação e sublimação individual através da pedagogia do Anjo estaria assim em oposição ao cristianismo oficial da Igreja, como a única detentora, depositária, da revelação. Comunidade de poetas e místicos que se manifestará como corrente espiritual secreta, desde o próximo Oriente no séc. XII, Shorawardi [1154-1191], século XI, Avicena [980-1037], etc., depois através da Itália no século XIII até Portugal no século XVI.»

Dalila prossegue depois na observando em Camões a distinção do amor carnal e do amor espiritual (talvez algo dualisticamente, pois a coincidentia oppositorum é fulcral) e a «imaginação criadora como a força da transmutação dos dado sensíveis», imaginação à qual deveremos acrescentar a visão espiritual (algo que Dalila, seguindo Corbin, por vezes não realiza),  a qual permite ser a «mulher elevada à esfera do divino, e assim partilhando de todo o seu mistério insondável, inviolável ao humano», elevação dela por graça, visão, sentimento e poder.

Dalila, considerando quase irrelevante saber-se a identidade histórica das mulheres amadas por Camões na sua poesis, tanto mais que no amor cortês se devia guardar em segredo a identidade da amada, afirma «o facto relevante, como para todo o Fiel de Amor, será a transmutação que o poeta realizou sobre uma mulher sua contemporânea, real, elevando-a a figura angélica, como metade transcendente de seu ser terreno, ou reflexo no tempo - pela força transmutadora da imaginação criador». [Não apenas, mas também visão sentida interiormente] «Fermosos olhos, que na idade nossa/ Mostrais do céu, certissimos sinais,/ Se quereis conhecer quanto possais/ Olhai-me a mim, que sou feitura vossa (...) E se ver-vos nesta alma, enfim, quiserdes,/ Como num claro espelho, ali vereis/ Também vosso angélico e sereno» (XXXIII).

Em seguida aborda Dalila Pereira da Costa o mistério cerne da iniciação, o Amor, e escreve: «Camões cantará nos seus sonetos, o amor tal o ensino de Platão no Banquete e no Fedro; e como já tinha sido cantado por Dante e os Fideli d'Amor: força cósmica, encarnada numa mulher divinizada. Será ela, tal Diotima do Banquete, que surge como a iniciadora dos homens nesse caminho do conhecimento supremo. Um mesmo movimento de transcensão haverá, subida do humano ao transhumano, celeste, percorrendo os sonetos de Camões, mas marcando-os por esse tom inconfundível e único da nostalgia paradisíaca portuguesa, a saudade; quer se expresse como desejo de regresso à pátria, terra primeira, (...) quer se expresse como desejo de união do amante com a amada, alma angélica que vive no céu, ou nessa pátria celeste. [Ou que vive na terra...]
E será ainda e sempre esse mesmo movimento que marcará o fim, como completude atingida, da aventura de Vasco da Gama n'Os Lusíadas, sob a conduta da Tétis, seu guia, iniciadora feminina, levando-o a uma ascensão espiritual.
Experiência iniciática, por uma mulher ou ninfa. Possível pelo conhecimento e contacto com o princípio feminino [divino] e participação a ele, no seu mais fundo abissal. Aí já se tendo ultrapassado o nível profano.»

Possamos nós sentir, intuir e  ver o Amor como  força cósmica, e que encarna na mulher amada e, erguida do seu fundo e potencial, angélica e divina. E vice-versa... O que está em cima é como o que está em baixo para se realizar o milagre da unidade da natureza perfeita ou celeste.

Continuaremos no artigo final. Lux, Amor, Amor!