quinta-feira, 17 de maio de 2018

"Pôs-te Deus sobre a fronte a mão poderosa". Soneto amoroso de Antero de Quental, na edição de Sténio..

Foi em Dezembro de 1861 quando Antero de Quental era estudante de 19 anos em Coimbra que os seus primeiros sonetos brotaram à luz em livro. O editor, rezava o frontispício, era Sténio, pseudónimo de Alberto Teles Utra Machado (1840-1923),  amigo açoriano de Antero, então líder dos estudantes  mais desassossegados ou despertos e que nesses sonetos expressava tanto o seu grande amor como  as aspirações, dúvidas e idealismos da sua geração.  
Um dos raros exemplares e que passou pela Eclética Livraria Alfarrabista em 2015.
Após um poema de Alberto Teles de apresentação, Pela mão vos trago o vate, surgem oito páginas dedicadas a João de Deus, doze anos mais velho do que ele, nas quais Antero transmite a sua teoria poética, enaltecendo a simplicidade e beleza do soneto, a importância do sentimento - o instinto da alma - e a penetração da inteligência-consciência no íntimo da alma até formar as ideias, que serão depois revestidas das formas buriladas e perfeitas do soneto, no qual ritmicamente se converge para o fecho, a chave de ouro. Por fim, mostra os principais elos da tradição espiritual do soneto em Portugal, apresentando Camões, Bocage e João de Deus.
São vinte e um os sonetos apresentados, número que poderia ser simbólico na sua relação com o Tarot e o arcano XXI, a Coroa ou Mundo, mas que Antero desconhecia provavelmente, dedicados aos amigos, Ad Amicos, em geral, mas sendo depois alguns nomeados especificamente, destacando-se pela quantidade, sete, ao Ignoto Deus e quatro a M. C., para alguns iniciais de Mariana da Mota Porto-Carrero, ainda sua prima, contudo muito nova então, com 13 anos, para outros Maria do Carmo, mulher casada de Coimbra.
E entre estes sonetos destaca-se um iniciado por "Pôs-te Deus sobre a fronte a mão poderosa", que transcrevemos e interpretaremos no fim, certamente dos mais belos e amorosos, pois Antero de Quental, então nas dezanove primaveras, brilhava com grande energia e sensibilidade, consciência e aspiração, intensificado pelo amor sentido para com a mulher, mas também dedilhado fortemente na demanda filosófica e mística da Divindade Ignota, em sete poemas...
                            
Passados dois anos estudantis, em 1863, com 21 anos, Antero publica um livrinho na Imprensa da Universidade de Coimbra intitulado Beatrice, com quatorze poemas e um soneto, este de novo o já dedicado a M. C., "Pôs-te Deus sobre a fronte", com mínimas correcções formais.
                                 
Escrito sob a égide de Dante (1265-1321), tem uma valiosa citação inicial de Lamennais (1782-1854), na linha dos Fiéis do Amor, que Eugène Aroux (1793-1859) tanto desenvolveu, acerca de Beatriz, musa e símbolo da demanda da Verdade do Amor humano e divino, infinito e perene.
                         
E segue-se uma dedicatória, A..., sem se desvendar o nome da Beatriz portuguesa, e por quem Antero de Quental sente e testemunha a intensidade, imensidade e inefabilidade do coração em  Amor.
                              
Passado nove anos, Antero cristaliza a sua antologia de poesia juvenil, quando está para perfazer os trinta anos, em Fevereiro de 1872, publicando na Imprensa Portuguesa, do Porto, aparentemente a contra-corrente da fase mais política e revolucionária que atravessava, um conjunto substancial da sua tão sensível poesia lírica e amorosa As Primaveras Românticas, Versos dos vinte anos (1861-1864), explicando nas Duas palavras prefaciais «não me envergonho de ter sido moço. Ter sido moço é ter sido ignorante, mas inocente./ A luz intensa e salutarmente cruel da realidade dissipa mais tarde as névoas doiradas da fantasiadora ignorância juvenil. Mas a inocência, a inteireza daquele indomato amore com que abraçamos as quimeras falazes dum coração enlouquecido pelo muito desejar, essa inocência é a justificação sagrada daquelas ilusões, o que as torna respeitáveis (...) ». 
                        
O plural empregado da palavra quimera aponta para mais do que um amor ou enamoramento de Antero, e sabemos por uma carta não datada mas provavelmente do começo de 1866 a João Machado de Faria e Maia que havia essas duas mulheres para quem seu amor mais se tinha comunicado, a de Coimbra, Maria do Carmo, e a de Tomar, Mariana, mas que às duas cidades não iria.
Mas já em Maio de 1866, quando estava a trabalhar há oito dias como tipógrafo na Imprensa Nacional, em carta, algo dilacerada de hesitações, ao seu íntimo amigo António de Azevedo Castelo Branco, parece que resta já só uma: «eu tenho preso ao coração um amor que não sei (talvez porque não quero, nem ele o merece) como tirar daqui. Ele me simboliza toda uma vida segundo a natureza; vulgar... e bela, como qualquer árvore de primeira colina que o sol e os ventos visitam: quero dizer, aquilo que todo o homem tem o direito de exigir, porque nenhum homem tem direito de exigir mais...»
Diga-se de passagem que nunca se conseguiu até hoje clarificar bem a vida sentimental de Antero de Quental, dada a sua grande reserva íntima sobre tais aspectos, apenas confessando algo a um ou outro amigo mais confidente, conhecendo-se os nomes, e em certos casos alguns aspectos, de uma Maria do Carmo, da família dos seus amigos Faria e Maia, de Mariana Porto-Carrero e da tal Maria do Carmo, de Coimbra e, por fim, da  baronesa Seillière, por quem se apaixonou nas simpáticas termas de Bellevue, em 1877 e por algum tempo, que se estava a divorciar mas sem resultados para Antero.

                                  
As Primaveras Românticas desenvolvem-se em 202 páginas, com vinte e oito poemas, o primeiro Beatrice, espraiando-se em vinte e duas páginas, nas quais se inclui o "Pôs-te Deus sobre a fronte a mão poderosa", já sem dedicatória a M. C., embora terminando essa série com uma confissão muito bela e perene: "Se te posso esquecer?!... Quando teu filho/ A teus olhos de mãe o olhar volver,/ Pergunta a esse olhar se o amor se esquece,/ Se quem te um dia amou pode esquecer!..." 
Para um ou outro amigo de Antero de Quental, tal como Fernando Leal, ou um ou outro anteriano posterior, tal como José Bruno Carreiro (com Ana Maria Almeida Martins, os dois incontornáveis biógrafos de Antero) esta referência ao filho não seria futurante, mas representaria um amor por uma mulher já casada, a coimbrã Maria do Carmo.
É porém nesta 3ª edição do soneto que surge uma primeira modificação substancial, na descrição do olhar da amada, apontando provavelmente para uma diminuição do amor sentido, seja para Maria do Carmo, por desistência face à dificuldade ou ilicitude do avanço extra-matrimonial, seja  para Mariana, porque entretanto esta se casara em Novembro de 1868 com o seu colega de curso, Filomeno da Câmara de Melo Cabral, sabendo nós porém que serão sempre amigos, sendo este mesmo o seu médico nos Açores na crise de 1874 e dando um
testemunho muito sábio e exacto sobre Antero no In Memoriam, publicado só em 1896, considerado «como a inteligência mais poderosa, o espírito mais original e prometedor do seu tempo». 
 E em 1886, quando se dá a edição completa ou definitiva dos Sonetos, encontramos de novo o mesmo belo e significativo soneto, logo o terceiro na ordenação, de novo sob dedicatória M.C., com duas novas modificações, uma importante pois a mão poderosa de Deus ameniza-se ou dulcifica-se na piedosa.
                               
Podemos então considerá-lo um dos sonetos mais presentes ao longo das metamorfoses da sua vida, amorosa mesmo, e reflectindo-as.
Ei-lo então, na transcrição da sua versão original de 1861, e dedicado à sua principal Beatriz,  M. C., e fiquemos no mistério da sua real identidade...

                                                                    A M. C.
Pôs-te Deus sobre a fronte a mão poderosa:
O que fada o poeta e o soldado
Pousou em ti o olhar d'amor velado
E disse-te: «mulher, vai! sê formosa!»

E tu, descendo na onda harmoniosa,
Pousaste neste solo angustiado -
- Estrela envolta num clarão sagrado,
Do teu olhar d'amor na luz radiosa -

Ah!... quem sou eu, para poder merecer-te?
Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,
Anjo! deu-te o Senhor um mundo à parte.

E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
Sem poder mais... a mim o que me há dado?
Voz para cantar... uma alma para amar-te!

Um poema simples, religioso e amoroso, no qual realçaremos apenas a visão de síntese platónica e cristã que assume e que lhe permite ver a descida da amada do mundo espiritual e divino num corpo-alma, com a fronte abençoada por Deus, enviada em ondulações harmoniosas para a Terra, onde chega como estrela em radiosa luz.
No soneto, Deus, com a mão poderosa ou, na versão final, piedosa, que abençoa tanto o poeta inspirando-o, ou o soldado fortificando-o, derrama o seu olhar de amor e infunde em Beatriz a Beleza: "Sê formosa."
É uma original visão anteriana da criação de um espírito humano, neste caso a mulher que ele ama. Neste , ressoam o grego Ei (que deu mesmo origem a um dos tratados morais do sábio Plutarco, 46-125), o corânico Kun, o Fiat Lux cristão, título aliás dado por Antero a outro livrinho da mesma data do Beatrice, 1863 e escrito no Buçaco, e do qual restaram poucos exemplares, por Antero pouco depois não gostar tanto dele, tal como se passou com a própria edição dos primeiros sonetos, denominada de Sténio. 
A passagem da mão "poderosa" a "piedosa" pode reflectir até uma projecção de Antero, ou como ele vê Deus na génese da alma da amada: já não a criando (ou fadando-a para Antero) com a mão poderosa do amor mas com a piedosa da compaixão...
E que quererá dizer Antero com estrela, sinónimo da amada? Que imagem teve ele diante do seu olhar interior? É uma alegoria, uma imagem simbólica do seu brilho e amor?
                                     
Ou será mesmo que teve a intuição ou visão interior que cada ser é uma estrela, uma centelha espiritual, depois revestida de partículas e ondas anímicas e finalmente do corpo físico, tornando-se a pessoa que conhecemos ou mesmo amamos, e que no caso traz o dom inato de ter sido abençoada pelo olhar amante de Deus, para ser uma mulher de amor, suscitadora de entusiasmo, de desejo de agradar, de ser amada, musa inspirando e harmonizando à sua volta, tal como alguns dos outros poemas desta fase juvenil de Antero espelham?
 
E quando escreve: «Estrela envolta num clarão sagrado// Do teu olhar d'amor na luz radiosa», quer Antero dizer: Estrela flamejante sagradamente, e que do amor nos olhos irradia ainda mais luz?  Ou será antes: Na luz radiosa em que vives, o teu olhar de amor brilha?
Mariana Porto Carrero...
Creio que, independentemente da intuição-visão da estrela do espírito, inicialmente Antero de Quental valorizou mais a irradiação do amor luminoso do olhar de M. C., e que ele sentia e amplificaria, tanto mais que a segunda das três modificações substanciais sofridas pela soneto surge neste verso, pois o que fora ainda na edição de 1872 "Do teu olhar d'amor na luz radiosa", passa a ser na versão final em 1886  "Do teu límpido olhar na luz radiosa". Poderemos interpretar tal como a sublimação da antiga corporização do seu ideal de amor na ex-namorada, ora indissoluvelmente ora já casada, deixando o seu olhar de ser visto como de amor para apenas de limpidez, pureza.
Estamos a ver um soneto vivo, obra em aberto, em constante metamorfose, até que na versão final tanto a amada como Antero já não sentem nos olhos o amor paixão mas o olhar límpido. Não será também desapropriado neste sentido relembrar Na Mão de Deus, o último poema dos Sonetos, onde Antero exclama: «Depuz do Ideal e da Paixão a forma transitória e imperfeita».
Tal transmutação poderemos considerar de novo um bom ensinamento de um Fiel do Amor pois embora a relação tenha falhado na sua continuidade, em parte porque Antero foi descobrindo que não teria, ou não conseguira desenvolver, a vocação ou o dom do casamento, tendo Antero até confessado o seu sofrimento a amigos mais íntimos, para os dois o que permanece, além dos sentimentos comungados e poemas gerados, é um amor puro ou límpido, e não despeito, recriminação, como sucede tanto nos nossos dias.

Há ainda uma zona misteriosa no soneto que requer alguma interrogação hermenêutica:
O que é que deu Deus de vedado à mulher?
Será a sua nudez bela, ou mesmo o seu sexo, que durante a virgindade se encontra vedado?
Teremos de novo uma visão platónica da união do corpo e da alma, da descida do espírito angélico para ser alma no corpo humano- animal terreno?
E finalizando o soneto, que teve também leve modificação na sua evolução, que recebe Antero, o Homem?
Olhos para a admirarem e se encantarem, voz de poeta para a cantar e elogiar, acariciar e modelar. E alma, ser anímico, psique, para a compreender e amar, abraçar e ser um com ela nas criatividades e fecundidades comuns, em invocação ou sintonia com a Divindade e a Sua vontade e amor.
Certamente um soneto belo e  amorosamente vivido por Antero, pois na sua juventude sentiu e poetizou bem o amor tanto humano como místico. Depois em odes e sonetos tal vivência somática e psico-espiritual exerce-se mais ao
nível das ideias, ideais e filosofias, com construções  belas no domínio da forma e da estética, ora revolucionárias ora pessimistas, sendo poucos os que podemos considerar frutos de intuições e realizações espirituais elevadas e perenes, e que ele desejava serem a sua mensagem inovadora e final em termos de demanda espiritual, mística, filosófica, estética, social e ética. 
Este soneto transmite e inicia-nos num sentimento de ligação e aproximação à graça do Amor Divino, criadora ou emanadora de seres de amor e pureza ou limpidez, capazes de poetizar e lutar, cantar e amar.
Que a nossa fronte, ou olho espiritual, seja mais abençoada pela Luz Divina e o nosso coração, olhos e ser a assimilem bem e irradiem corajosa e criativamente, em comunhão amorosa com o corpo místico da Humanidade e. se possível, com a alma mais amada, ou mesmo a gémea, se nos couber tal graça...

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